Ler Roses And Champagne (Novel) – Capítulo 19 Online


Modo Claro

 Capítulo 19

O corpo inteiro de Won doía quando acordou… Quando havia adormecido? Ele não sabia, e a resposta não vinha por mais que piscasse para o teto. Com um gemido e muito esforço, conseguiu se levantar quase até ficar sentado, mas não reuniu energia para fazer mais que isso.

De olhos embaçados e pálpebras pesadas, ele encarou a janela, tudo distante e levando uma eternidade para registrar.

A tempestade realmente havia chegado agora, ele finalmente percebeu, e os flocos caíam em aglomerados grossos do céu. Fora isso, sua mente estava vazia, divagando. Mas, inevitavelmente, terminou onde sempre terminava: Caesar.

Ele não se sentia muito melhor sobre a situação do que de manhã. Tudo ainda era uma bagunça e ele ainda estava preso no meio dela. Valeria a pena lutar? Talvez… talvez fosse mais fácil apenas… aceitar. Aceitar os avanços de Caesar, parar de empurrá-lo para longe. Não era como se Won pudesse ir embora.

Caesar…Caesar o mataria.

Literalmente o mataria.

Foi um pensamento tão passageiro, flutuando em sua consciência; e a única reação externa de Won foi outro piscar lento e embaçado; mas, internamente, ele sentiu o pânico arranhando sua garganta, raspando contra seu coração. Aquele coração, batendo em seu peito agora, seria uma massa de sangue depois que Caesar o pegasse, uma cratera ensanguentada em seu peito, jorrando inutilmente no ar aberto-

O ronco de um motor lá fora interrompeu sua espiral.

Caesar havia voltado.

Won olhou para si mesmo e soltou um longo suspiro. Ele não queria que Caesar o encontrasse assim, como se estivesse esperando por ele em sua cama. No entanto, também não fugiria. Porque ele poderia fugir. E estaria tudo bem. Ele estava escolhendo ficar. Escolhendo ir encontrar Caesar na porta.

Porque Won não estava com medo, e queria que Caesar soubesse disso.

Pelo menos, era o que Won dizia a si mesmo.

Ele se arrastou até o armário, lutando mais do que gostaria de admitir para pegar roupas e vesti-las. A camisa ainda era enorme e as calças, largas demais, mas ele apertou um cinto na cintura que pelo menos impedia que caíssem. Procurou, mas acabou com apenas um par de chinelos sem meias para os pés.

Arrastar-se pelo corredor até as escadas foi outra provação, superada apenas apoiando-se na parede durante todo o caminho. No meio de seu arrastar, porém, ouviu vozes.

No plural. Mais de uma.

E elas não pareciam amigáveis.

Os olhos de Won voaram para a entrada. “Que diabos estava acontecendo?”

De repente, um rangido sinistro, depois um estrondo, e a porta da frente foi arrancada das dobradiças, espalhada em pedaços pelo chão. Won recuou dos estilhaços voando e da rajada de ar gelado.

— Oho, então é aqui que você estava se escondendo, coelhinho.

A cabeça de Won ergueu-se rápido, encontrando Dmitri em pé no que restava da porta da frente; e tudo que ele pôde fazer foi encarar enquanto Dmitri se aproximava com passos largos, um sorriso perturbador no rosto.

— Aww, por que essa carinha assustada, zayka? — Dmitri olhou-o de cima a baixo, arqueando uma sobrancelha para as roupas mal ajustadas de Won. — Esperando alguém?

Antes que pudesse se controlar, Won fez uma careta. O sorriso de Dmitri cresceu.

— Depois, então? — Dmitri arrastou as palavras, e o modo como olhou para Won enviou um calafrio de pavor por sua espinha.

Dmitri levantou a mão e fez um gesto com os dedos. Os homens lá fora invadiram pela porta da frente e começaram a destruir tudo ao alcance.

Won boquiabriu diante da cena à sua frente. Como se Dmitri e seu espetáculo macabro não fossem suficientes, um bando de bandidos estava saqueando a casa de Caesar, e Won era impotente para impedi-lo.

Mas antes que os últimos vestígios de um plano pudessem se formar na mente confusa de Won, Dmitri estava bem à sua frente, tapando sua boca com uma mão e esmagando Won contra a parede.

“Que porra?” Mas os protestos de Won foram reduzidos a grunhidos abafados pela palma de Dmitri.

Dmitri sorriu, vendo a indignação queimando nos olhos de Won. — Como está? — sussurrou, aproximando-se de seu ouvido. — O cheiro do sangue do seu amante?

Os olhos de Won baixaram, e ele não sabia como não havia percebido antes, a mão de Dmitri estava encharcada de sangue. O fedor metálico o dominou.

“Cheiro do sangue do meu amante-…”

Dmitri observou o horror brotar no rosto de Won. Ele sorriu, vendo Won juntar as peças das implicações.

— O Czar não vai conseguir vir, sinto muito. Não hoje.

Dmitri inclinou-se sobre ele, murmurou direto em seu ouvido: — Ou nunca mais.

Won inspirou bruscamente, lutando para conseguir ar além da mão tapando sua boca, além do cheiro horrível de sangue em suas narinas, além do muro que ergueu dentro de si para não ouvir, não reconhecer o que Dmitri estava dizendo. Sua respiração só ficou mais ofegante quanto mais Dmitri o encarava, aquele sorriso maligno esculpido em seu rosto. Os dentes de Dmitri eram tão brancos contra o vermelho manchando sua mão; as cores dominaram a visão de Won até ser tudo que ele podia ver.

— Olhe para você… tão lindo… — Dmitri cantarolou. Sua mão deslizou para liberar os lábios de Won. — Que pena tirar isso do mundo. Talvez eu leve sua cabeça, assim mesmo, e a monte, preserve-a para sempre na minha sala de visitas.

Won estremeceu. Ele sabia que Dmitri não gostava dele, mas isso estava muito além de simples antipatia. Era desprezo. Ódio puro. Mesmo quando Dmitri inclinou a cabeça e se curvou para beijá-lo, rindo do modo como Won não se afastou, Won podia ver o ódio escorrendo nos traços de Dmitri, tão marcante quanto os respingos de sangue.

Nenhum dos dois fechou os olhos. Won garantiu que seu olhar brilhasse com tanta hostilidade quanto o de Dmitri. Abriu a boca, forçou a língua além dos lábios de Dmitri, passou-a pelo palato dele. Então, justo quando Dmitri enfiou sua língua na boca de Won, Won chutou a canela de Dmitri com toda a força que tinha.

Não era a melhor das estratégias, afinal chinelos contra botas de couro não era uma luta muito justa; mas foi o suficiente. Pego de surpresa, Dmitri recuou. Foi apenas um lampejo de liberdade, mas era tudo que Won precisava.

Ele correu para o quarto.

Dmitri assobiou, mas não o seguiu. — Isso mesmo, coelhinho! Corra enquanto pode. Logo não vai conseguir mais.

Won ainda podia ouvi-lo rindo, mesmo com a porta do quarto firmemente fechada atrás dele. Por pura força de vontade, empurrou todos os móveis que pôde para bloquear a entrada. Era uma barreira precária, na melhor das hipóteses, mas ele precisava ganhar tempo para escapar.

Com seu corpo no estado em que estava e um bando de capangas armados atrás dele, ele precisaria. Até enfiar uma cadeira sob a maçaneta e arrastar a cama para frente foi feito com pura adrenalina, ele duvidava que conseguiria trinta minutos antes e adrenalina não dura para sempre.

Agarrando o casaco de Caesar do armário, ele disparou para a janela e a abriu. Normalmente não pularia de uma janela do segundo andar, mas não tinha muita escolha. Pelo menos havia uma pilha decente de neve para amortecer a queda.

O chacoalhar da maçaneta chegou até ele do segundo andar, e ele não perdeu tempo, movendo-se o mais rápido que seu corpo quebrado permitia.

A neve já estava na altura dos joelhos, e seus chinelos emprestados eram proteção mínima contra o frio. Enquanto a ardência havia sido boa de manhã, agora era tortura. Ele não sabia por quanto tempo aguentaria, mas não se permitiria voltar. Não depois de sobreviver a tanto. Ele se recusava a morrer assim.

Esse pensamento o impulsionou para frente, apesar dos protestos de seu corpo. Seu peito arfava com o esforço, cada exalação um fluxo de vapor branco puro, a neve tão pesada que seu fôlego se fundia à parede de flocos antes da próxima inspiração.

Então seu corpo parou. Tudo que ele pôde fazer foi arfar por ar.

Quase imediatamente, um estouro, e algo quente demais passou zunindo por sua bochecha. Ele girou. Dmitri era uma névoa à distância, mas sua arma brilhava, nítida na visão de Won, apontada direto para ele. Todos os capangas atrás de Dmitri começaram a mirar.

Won disparou.

Outro tiro. Este arranhou seu braço. Won agachou o máximo que pôde enquanto ainda se movia e continuou a fugir. Atrás dele, Dmitri começou a cantar.

— “Bye, baby bunting, Mitya’s gone a-hunting, gone to get a rabbit skin—”

O riso de Dmitri ecoou pela floresta. O quebrar da neve sob os pés ficou mais alto, mais perto. O sangue de Won rugia em seus ouvidos, sua perna latejava, seu corpo inteiro estava em agonia.

Era isso.

O Fim.

E ele odiou aquilo. Era patético; apenas uma distração pitoresca para a tarde de Dmitri, uma presa indefesa em um jogo perturbado. Nada melhor que um verme esmagado sob a bota de Dmitri. Pelo canto do olho, ele viu: uma pequena cavidade quase totalmente escondida pela neve.

Os passos estavam quase em cima dele. Sem pensar duas vezes, Won deslizou para dentro, qualquer evidência de onde ele havia ido desaparecendo rapidamente sob a forte nevasca.

Pouco era visível de seu ponto de vista na cavidade, mas alguns dos capangas estavam muito próximos, julgando pelo som de suas vozes. Eles discutiam sobre o próximo passo, sotaques ásperos bombásticos contra o sussurro da neve.

Fechando os olhos, Won conseguiu distinguir algumas botas passando. Ele cobriu a boca com o punho para tentar sufocar a respiração – estaria acabado se o ouvissem.

Outro par de botas aproximou-se ainda mais, parando quase em cima dele.

Um assobio. — Oh pequeno zayka, em sua pequena toca — Dmitri cantarolou, logo acima dele. O coração de Won saltou no peito. Ele não ousou respirar.

Mas tudo o que aconteceu foram alguns capangas vindo dizer a Dmitri que não haviam encontrado nada e resmungando sobre ser inútil continuar a caçada.

Dmitri ainda cantarolava sua perturbadora cantiga de ninar. Soava como se estivesse diretamente no ouvido de Won. Finalmente: — Certo, vamos embora, meninos. Voltaremos.

Algumas botas viraram e desapareceram, mas o par mais próximo de Won permaneceu exatamente onde estava. Won tinha certeza de que seu coração iria despedaçar suas costelas de tanto bater. Ele prendeu a respiração, esperando – rezando que Dmitri fosse embora.

Se o silêncio não fosse tão opressivo, Won não teria ouvido Dmitri sussurrar: — Mitya vai conseguir sua pele de coelho. Espere só.

Uma risada, e Dmitri se afastou. Suas botas desapareceram. Então, finalmente, o barulho de seus passos na neve se dissipou, e dissipou – e Won estava sozinho.

Ele esperou.

Esperou tanto tempo que, quando finalmente se sentiu corajoso o suficiente para sair de seu pequeno santuário, o sol já se inclinava no horizonte, prestes a mergulhar; e qualquer sinal de Dmitri e seus homens havia desaparecido há muito, enterrado sob o fluxo interminável de flocos brancos.

Preocupado em ser enterrado junto com eles, Won começou a cavar. Não queria ficar preso na cavidade por uma parede branca que não teria forças para atravessar.

Meio rastejando, meio avançando, ele conseguiu sair a céu aberto e ficar em pé. Arfou de esforço – mas estava sozinho.

Mal podia acreditar. Estava vivo.

Mas sem a desesperada vontade de sobreviver correndo em suas veias, a dor retornou. Não havia mais adrenalina para suprimir o frio, a dor – e ele cambaleou, sua perna machucada cedendo sob seu peso.

Seus braços se estenderam para amortecer a queda, e foi tão reminiscente daquela manhã com Caesar – quando Caesar o puxara para cima de si e eles deitaram juntos na neve.

— Não hoje. Ou nunca mais.

“Isso não pode estar certo”, pensou Won, um tipo diferente de desespero o enchendo agora.

Simplesmente não podia ser. Caesar dissera que voltaria logo. Ele contara a Won, apenas algumas horas atrás.

Won se lembrava do olhar nos olhos de Caesar então, a mão quente afastando o cabelo de Won, os lábios macios moldando-se à sua boca.

“Ele dissera que voltaria.”

Não. Won se recusava a acreditar em Dmitri. Era Dmitri, pelo amor de Deus – isso já era motivo suficiente para descartar completamente suas palavras. Dmitri o odiava; provavelmente dissera tudo aquilo só para ver o que Won faria. Sim, Won assentiu para si mesmo, apenas Dmitri sendo seu habitual eu idiota. Era definitivamente isso.

E Won tentou se levantar – apenas para colapsar novamente.

A neve estava tão fria.

Won fechou os olhos, suspirou profundamente sobre o monte de neve onde caíra. Estava tão cansado. Mas Dmitri poderia reaparecer a qualquer momento, arma engatilhada e pronta. Realmente parecia que ele soubera exatamente onde Won se escondera – mas não podia ter sabido. A mente de Won parecia espessa e confusa, mas até ele reconhecia que Dmitri queria vê-lo morto. Se Dmitri soubesse, não pararia em provocações sussurradas – teria simplesmente atirado em Won e acabado com isso.

Won precisava se levantar.

O rosto de Caesar voltou à sua mente: mais cedo, quando lhe dera seu casaco para vestir sem pensar duas vezes. Won piscou, tentando forçar-se de volta ao presente enquanto tentava ficar em pé.

Alguém se aproximava.

Por um momento, Won pensou que pudesse ser Dmitri, mas a figura estava sozinha.

“Oh. Caesar voltou.” Won sorriu. “Sabia que Dmitri mentiu.”

— Won?

A consciência de Won desaparecia rapidamente, mas ele conseguiu ouvir a voz suave chamando seu nome, sentir a mão afastando seu cabelo.

E algo quente rolou por sua face.

Estava muito quente; não havia ar suficiente. O peito de Won estremeceu com a luta por oxigênio até começar a tossir.

Uma mão envelhecida envolveu a sua. — Tem certeza de que ele ficará bem?

Won reconheceu a voz de Mikhail, carregada de preocupação.

— Sim, bastante certo, Sr. Lomonosov. Ele tem sorte – a infecção não se espalhou para os pulmões, então é improvável que desenvolva pneumonia.

Essa voz era desconhecida, mas Won assumiu ser um médico. — É um simples resfriado, e com repouso adequado, estou confiante que ele se recuperará completamente.

A consciência de Won vinha e ia. Ele jazia de olhos fechados, apenas meio ouvindo a conversa ao redor. A mão de Mikhail permanecia quente em volta da sua, apertando mais forte sempre que Won tossia ou respirava com dificuldade. Won podia sentir a tensão nela mesmo depois que o médico partiu.

Um terceiro homem falou assim que o médico saiu. — Sr. Lomonosov. — Leo. Sua voz tremia. — Isso é claramente obra do Sindicato. O súbito aparecimento do Mestre Won os assustou, e este é o resultado. Não podemos deixá-los escapar impunes, senhor. Devemos mostrar o que acontece quando ousam desrespeitar os Lomonosov.

— Eu sei, Leo. Nada me daria mais prazer. Realmente. Mikhail suspirou. — Mas a perda de seu herdeiro complica as coisas.

Perda de…? O que…? Do que ele estava falando?

Won agarrou-se à consciência; precisava ouvir mais. Sua testa franziu, mas Mikhail não notou seu desconforto.

— Tyutchev assumiu o controle e nega qualquer envolvimento do Sindicato. — Mikhail bufou. — Segundo ele, o Czar agiu sozinho, e não é como se pudéssemos perguntar ao Czar o que aconteceu, não é? Bastante difícil defender sua inocência quando você está morto. —Mikhail suspirou novamente. — Não saberemos nada com certeza até Won acordar.

…quando você está morto.

O Czar estava… morto? Mas isso significaria que Caesar estava morto, não?

Mikhail continuou falando, mas a única coisa que Won conseguiu reter foram as palavras ecoando em seu cérebro: Caesar estava morto.

“— Volto logo.”

Won podia vê-lo, a afeição brilhando nos olhos cinza de Caesar enquanto olhava para ele – até que a luz se apagou, e tudo que Won podia ver era escuridão.

A próxima vez que Won acordou, estava sozinho. De certa forma, ficou contente por isso – sentia-se como se tivesse sido atropelado por um caminhão. Era difícil manter os olhos abertos, quanto mais interagir com outra pessoa. Ainda assim, a dor que sentia por todo o corpo era familiar.

Demorou um minuto ou dois para os neurônios começarem a disparar e conectarem essa dor com como se sentira na casa de Caesar, quando o médico lhe dera aqueles… antibióticos…

Caesar estava morto.

Won engasgou, tentou se levantar, sair da cama, apenas para ser atingido por uma vertigem tão intensa que sua visão ficou branca e ele precisou se sentar com a cabeça entre os joelhos e apenas respirar.

Quando sua visão voltou ao normal, ele sentiu uma mão pousar em seu ombro. — Nada disso agora. Nada de movimentos bruscos ou atividades extenuantes, ordens do médico.

As palavras se contorceram e torceram para passar pela dor em seu crânio, penetrando em seu cérebro, onde finalmente foram compreendidas – e ele percebeu que conhecia aquela voz também. Mas não podia ser. Talvez ele ainda estivesse dormindo, afinal.

Respirando com dificuldade e ainda um pouco tonto, ele levantou a cabeça. — Leonid..?

Leonid lhe dirigiu um sorriso caloroso, exatamente como Won se lembrava da pousada na ilha. — Nossa, fico lisonjeado que você se lembre de mim.

Won olhou para a esquerda, depois para a direita, e de volta para Leonid. Ele devia estar sonhando. Em que universo alguém esqueceria o lunático que tentou assassiná-lo, várias vezes, ainda por cima.

Suas mãos se contorceram nos lençóis, frustrado por não estar em condições de lidar com Leonid adequadamente e espancar aquele maldito psicopata até deixá-lo em uma poça de sangue. Dadas as circunstâncias, Won optou por adicionar o timing infeliz à sua lista de queixas e bater em Leonid com ainda mais força quando a hora chegasse. Isso pouco o aliviava, mas não era o suficiente.

Engolindo a raiva, Won perguntou: — O que você está fazendo aqui? Você não é—

Sua voz falhou e ele caiu em um acesso de tosse. Parecia que havia engolido uma caixa de pregos. Quando parou de tossir, Leonid estava segurando um copo d’água para ele. Won olhou para ele com desconfiança, depois o esvaziou de uma só vez.

— Seu pai, Mikhail Lomonosov, digo, solicitou meus serviços — Leonid disse depois que Won terminou de beber. Ele lançou a Won um sorriso malicioso. — Fiquei surpreso quando descobri que você é o herdeiro Lomonosov.

— O que a Bratva faz não tem nada a ver comigo — Won tentou soar firme, mas o rangido e o arranhar da garganta soaram principalmente patéticos. Isso o irritou novamente, estar tão impotente na presença de Leonid.

Leonid murmurou. — Ainda assim, família é família. E ei, isso nos reuniu de novo, né? Eu estava justamente pensando em você quando seu pai me chamou.

Foi um esforço para Won disfarçar o semblante carrancudo, então ele voltou para debaixo das cobertas e se apoiou na cabeceira para ganhar tempo. Quando recuperou o controle, perguntou a Leonid como ele o havia encontrado no meio de uma nevasca.

— Bem — Leonid começou animadamente. — Eu vim encontrar seu pai e ele me disse que você havia sido sequestrado e levado para algum lugar de carro – de acordo com a única testemunha que ele encontrou, aparentemente – e ele tinha certeza de que eram os Sergeyev. Fiz uma pequena investigação sobre as propriedades dos Sergeyev na região, tive um palpite de que você estaria na mais distante da cidade, sabe. — Leonid bateu no lado do nariz. — E adivinha só? Eu vou até lá e bada-bing bada-boom, lá estava você. Sorte eu ter te encontrado quando o fiz, também. Um pouco mais tarde e você seria um picolé agora.

Leonid estava orgulhoso de seu sucesso e olhou para Won com expectativa. Won piscou para ele, depois fez outra pergunta. — Então, antes, na ilha, foi…?

Won não conseguiu terminar, mas Leonid entendeu. — Nah. Aquele não era seu pai. — Ele balançou a cabeça. — Era alguém do Sindicato, queria assumir o controle sozinho. Falando nisso, o Sindicato está em polvorosa agora. Uma grande confusão, pra ser honesto.

Won mordeu o interior do lábio, seu coração acelerando. Isso era outro sonho que ele tivera. Leonid devia estar falando de outra coisa, porque sonhos não eram reais—

— Matar o herdeiro para tomar seu lugar? A máfia é louca, né? — Leonid clicou a língua. — Homens de respeito, eles nunca mudam, não importa quanto o mundo ao redor mude. Ah— Leonid pareceu lembrar com quem estava falando. — Sem ofensa, certo?

Ele deu a Won um sorriso contido, mas Won já havia parado de ouvir. — O herdeiro… está morto..? — Sua voz tremia; ele mal conseguia falar.

Se Leonid notou, não demonstrou. — Tem sido uma loucura enquanto você estava fora, vou te contar — ele disse, despreocupado. — A Bratva achou que o herdeiro era quem te sequestrou, certo? Eles estavam se preparando para uma guerra total com o Sindicato, eu acho; mas com o herdeiro morto, fazer qualquer movimento é um pouquinho desaconselhável, se é que me entende. Eles estão em um impasse, digamos assim. — Leonid suspirou. — Uma pena, realmente, eu estava ansioso por alguma emoção.

Então ele sorriu, com um brilho travesso nos olhos. — Mas com você acordado agora, as coisas finalmente podem começar. Todos estavam esperando você para decidir o que fazer.

Won ficou em silêncio, os olhos desfocados, a mente em outro lugar. Leonid inclinou a cabeça. — No fim das contas, tudo acabou bem para a Bratva, eu diria.

Ainda assim, Won não deu resposta, nenhum sinal de que havia ouvido. Leonid olhou para Won, esperando que ele se mexesse, reagisse, qualquer coisa, mas ele não o fez. Won não conseguia.

Leonid coçou a nuca, sentindo-se constrangido. — Bem então, uh, vou avisar ao Sr. Lomonosov que você acordou..-

Antes que ele pudesse sair, a mão de Won agarrou seu braço. Com força.

Leonid ficou surpreso que Won pudesse se mover tão rápido, muito menos ter uma pegada de ferro estando tão doente. Claramente, o homem era mais forte do que parecia. De qualquer forma, Leonid ainda não sabia o que havia de errado com Won, então perguntou o mais gentilmente possível:

— Precisa que eu pegue algo para você? Água? Comida?

Won estava olhando para ele agora, seus olhos arregalados. Ele piscou, umedeceu os lábios e engoliu em seco.

— É-é verdade? — Sua voz estava fraca, débil. — Caesar… o Czar, ele-ele está morto?

Leonid estudou Won por um momento. — Sim, é verdade. — Ele acenou com a cabeça. — Houve artigos sobre isso alguns dias atrás. O Sindicato divulgou um comunicado confirmando que tinham o corpo também. O funeral foi ontem.

Won ficou branco como um lençol, seus olhos de alguma forma ainda mais arregalados. Preocupado, Leonid tentou pensar em algo reconfortante para acrescentar. — Eu não me preocuparia muito — ele decidiu. — O que está feito está feito, e os Sergeyev estarão muito ocupados estabelecendo sua nova hierarquia para fazer mais nada. Lutas pelo poder são sempre coisas bagunçadas. É assim que é.

Ele encolheu os ombros e deu a Won um pequeno sorriso. Não foi correspondido. Desta vez, quando ele se virou para sair, Won não o impediu.

Mal percebeu quando a porta se fechou e Won ficou sozinho novamente.

Caesar estava morto.

“Como é? O cheiro do sangue do seu amante?”

As gargalhadas de Dmitri ecoaram em sua mente. Won estremeceu, tentou afastá-las, mas o que as substituiu foi quase pior.

“Tenho uma reunião hoje. Não deve demorar.”

Ele ofegou. A voz de Caesar parecia tão próxima, tão real, o murmúrio reverberando em sua pele.

“Volto logo.”

Caesar havia se despedido, ali no chão, com Won em seus braços, mas ele não sabia, não podia saber. Won se lembrava de tudo com clareza cegante: o brilho da luz do sol nos cabelos de Caesar, o calor de sua mão no rosto de Won, a pequena curva em seus lábios. A suavidade em seus olhos.

Ele não queria se lembrar.

Ele não queria pensar que aquilo era a última coisa que Caesar lhe diria, não porque Won fugira ou porque nunca mais se falariam, mas porque Caesar se fora, e Caesar nunca mais diria nada.

Won balançou a cabeça, tentando dissipar a imagem de Caesar sob ele na neve, mas ela se recusava a deixá-lo. Seu peito estava apertado demais. Tudo doía.

Fechando os olhos com força, desesperado para pensar em qualquer outra coisa—

Ele parou, levou a mão ao rosto.

Estava molhado.

Won encarou as lágrimas que manchavam seus dedos até sua visão ficar embaçada por mais delas, sentiu-as pingarem em sua mão e se infiltrarem nos lençóis. Seu lábio tremia.

Foi então que ele permitiu que o arrependimento o invadisse.

Ele havia sido tão frio naquele dia, não dera nada em troca a Caesar; mas deveria tê-lo segurado com força.

E nunca deveria tê-lo deixado ir.

Nos dias seguintes, Won sofreu com uma febre horrível e no geral se sentiu péssimo; mas, como o médico dissera, ele não acabou com pneumonia, então, após se recuperar do resfriado, recebeu alta e foi autorizado a vagar pela mansão. O médico pareceu aliviado, e Mikhail derramou algumas lágrimas discretas, mas Won apenas disse obrigado, e foi isso.

Havia outras coisas em sua mente.

De então em diante, sempre que não estava descansando, ele estava lendo, pesquisando, na internet ou folheando jornais; e conforme sua saúde melhorava, Won passava cada vez mais tempo nesse “trabalho”, para o desgosto de Mikhail, que começara a ficar em cima de Won sempre que ele saía da cama, perguntando se seu filho precisava de algo, ou estava com fome, ou se talvez não devesse deitar um pouco.

Won sempre dizia que estava bem.

Chegou ao ponto em que Won passava o dia inteiro trancado no escritório.

O que ele estava fazendo, porém, era um mistério para todos, exceto para ele mesmo.

Mikhail e outros membros da casa inventavam motivos cada vez mais esfarrapados para espiar o escritório a cada poucas horas, mas nunca saíam de lá mais informados do que antes.

Neste dia em particular, Won tomou o café da manhã e partiu para o escritório assim que terminou, como de costume. O que foi incomum foi que, hoje, Leonid observou a figura de Won se afastando e então se virou para Mikhail.

— Que diabos ele está tramando?

— Não faço ideia — Mikhail respondeu, balançando a cabeça. Então encarou Leonid nos olhos. — Acredito que a pergunta mais pertinente seja: o que exatamente você está tramando? Você tem o hábito de perturbar seu empregador depois que seu contrato termina? Não tem nada melhor para fazer além de se aproveitar da minha hospitalidade?

— Ah, eu só queria ter certeza de que o juninho se recuperou bem — Leonid respondeu, descontraído como sempre. — Afinal, eu salvei a vida dele; achei que seria legal vê-lo de pé novamente.

— Ele já está de pé — Mikhail retrucou, seco.

— Ele está andando, sim, mas o médico pareceu pensar o contrário, se bem me lembro — Leonid sorriu. Os olhos de Mikhail se estreitaram. — Não tema, chefe — ele acrescentou, rindo. — Nenhuma palavra sobre subornos ou promessas de manter Won confinado na mansão pelo próximo mês chegará aos ouvidos do juninho. Palavra de escoteiro. — Ele piscou, então se inclinou, sussurrando conspiratoriamente: — O doutor é um baita ator, hein? Quando ele disse que teria que monitorar Won por mais um mês inteiro, eu nunca teria adivinhado que não era verdade.

Os lábios de Mikhail se franziram em linhas minúsculas e descontentes.

Indiferente, Leonid se levantou.

— Tenha um dia maravilhoso, chefe. As panquecas estavam deliciosas, como sempre. — E, com um rápido agradecimento à empregada que veio limpar seu prato, Leonid saiu pela porta.

Parecendo ter cheirado algo horrível, Mikhail olhou para as costas de Leonid, depois para suas panquecas e empurrou o prato para longe.

✦ ✦ ✦

Leonid era persistente, no mínimo. Assim que saiu da sala de jantar, percorreu os corredores da mansão até chegar ao escritório, onde bateu duas vezes na porta e, depois de esperar um tempo razoável para o ocupante se preparar para uma visita, girou a maçaneta e entrou.

Leonid clicou a língua. Poderia muito bem nem ter esperado; Won claramente não apreciou o aviso nem um pouco. O juninho estava sentado de pernas cruzadas no meio do chão, bem em frente à grande janela do escritório que, por motivos desconhecidos, Won havia escancarado.

— Achou que iria curtir uma brisa agradável, foi? — Leonid resmungou enquanto se apressava até a janela, sacudido por rajadas de ar gelado no caminho. — Ou você é masoquista, ou é idiota, sabia disso? — Ele fechou a janela com força e trancou a trava. — Você saiu da cama há, o quê? Alguns dias? Eu me matei para salvar sua vida; ficaria um pouquinho chateado se você morresse agora, fique sabendo.

— O quarto precisava arejar — Won respondeu, sem tirar os olhos do papel que estava lendo. Ele passou um marcador sobre uma linha.

— E o que é, exatamente, que te deixou tão ocupado? Alguém vai morrer de curiosidade se você não soltar o verbo logo.

— Só uma leitura leve — Won encolheu os ombros, marcando outra seção.

Leonid se inclinou para ver melhor, mas Won virou a página antes que ele conseguisse ler direito.

— Que belas férias você está tendo — Won finalmente olhou para Leonid. — Negócios de assassinato na baixa temporada? — Sua expressão era completamente inocente, mas havia uma afiada ironia em suas palavras.

Leonid levou na esportiva.

— Sim, na verdade. Estou curtindo um tempo livre. O Sr. Lomonosov ficou tão grato por eu ter salvo a vida de seu único filho e tal, que estendeu o tapete vermelho e disse para eu ficar o quanto quisesse, e quem sou eu para recusar?

Won murmurou, mas Leonid percebeu que o homem estava irritado. Rindo baixinho, Leonid continuou.

— Mas chega de mim, eu perguntei sobre você. No que você está trabalhando tão arduamente, hein? Quem sabe? Talvez eu possa dar uma ajudinha profissional.

— Ah! — Won deu um suspiro exagerado e estalou os dedos. — Quer saber? Tem uma coisa sim. Chega aqui.

Leonid arqueou uma sobrancelha, mas se inclinou e levou um soco bem no meio do rosto.

— Agora estamos quites — Won declarou alegremente enquanto Leonid caía de bunda no chão. Segurando o nariz, Leonid olhou para Won com ar perplexo.

— Tenho quase certeza de que salvar sua pele já nos deixou quites, juninho.

— Você foi pago para me encontrar então, não, eu ainda estava te devendo uma — Won retrucou, voltando a ler.

Leonid quis contestar, porque, sério, que tipo de lógica era aquela? mas, vendo Won imerso em seu trabalho novamente, suspirou e se levantou.

— Tá bom, estamos quites, ok? — ele disse enquanto voltava para perto de Won. — Então, me conta no que você está trabalhando.

Won olhou para ele de soslaio.

— Você não sabe quando parar, sabe?

— Meio que vem com o emprego — Leonid respondeu, como se fosse um elogio.

Won piscou para ele. Então esboçou um sorriso malicioso. Percebendo o perigo, Leonid ficou imediatamente desconfiado, mas Won apenas pulou de pé e foi abrir a porta. — Se não se importar — Won disse, gesticulando para Leonid sair.

Suspirando novamente, Leonid cedeu. Ele perdera essa batalha, mas não perdera a guerra. O ronco de um motor fez Leonid parar abruptamente. Sem olhar para presente de grego, ele voltou correndo e espiou pela janela.

— Ooh, olha só, parece que temos uma visita. Será quem é?

Won não estava impressionado com as palhaçadas de Leonid, mas a curiosidade também falou mais alto, e ele se aproximou da janela também.

Mal olhou para baixo quando Won deu um salto e ficou completamente focado no que quer que estivesse lá fora. Leonid ficou perplexo, o que poderia provocar essa reação em Won? Ele nunca ligou para visitantes, pelo que Leonid tinha visto.

Ele estava prestes a perguntar quando Won virou nos calcanhares e saiu do escritório antes que Leonid pudesse dizer uma palavra. Franzindo a testa, Leonid olhou para baixo exatamente quando um carro preto e elegante estacionava na entrada. A porta se abriu, e dela saiu um Dmitri Sergeyev muito bem-vestido e de ar extremamente arrogante.

A repentina aparição de um convidado, especialmente este convidado em questão, causou uma confusão sem precedentes na mansão Lomonosov. E quando Dmitri Sergeyev explicou que viera sozinho e desejava uma reunião com Mikhail Lomonosov? Bem… digamos que isso não ajudou em nada sua credibilidade.

Para seu crédito, ele não protestou quando foi conduzido a um dos salões cercado por pelo menos oito homens e não hesitou ao ver as várias dezenas de guardas esperando com Mikhail dentro.

— É bom vê-lo bem, Sr. Lomonosov — Dmitri cumprimentou.

— Tão eloquente como sempre, vejo, Dmitri.

Dmitri riu, mas não negou. Então assumiu um ar profissional.

— Vou direto ao ponto, Sr. Lomonosov: como você deve saber, o Sindicato está em um período de instabilidade. Vim aqui para pedir a ajuda da Bratva. Com seus homens, poderemos resolver isso e devolver o poder a quem é de direito.

— Pfft.

Sons de desdém e descrença ecoaram pela sala. Dmitri Sergeyev tinha enlouquecido? Quase todos presentes pareciam convencidos disso.

Dmitri não deu nenhum sinal de ter ouvido. Seus olhos permaneceram fixos em Mikhail, aguardando sua resposta.

Mikhail observou Dmitri por um momento antes de responder.

— Eu imaginaria — Mikhail falou — que, ao pedir um favor, alguém explicaria o que a outra parte ganharia com isso.

— Certamente, Sr. Lomonosov. Eu tenho — A voz de Dmitri sumiu quando ele avistou um homem alto se aproximando por trás de Mikhail.

Os dois travaram os olhares; o olhar de Won queimava de ódio. Mas o confronto acabou antes mesmo de começar. Dmitri sorriu para Won e continuou como se não tivesse parado.

— Posso garantir que isso será benéfico para ambos, e você tem minha palavra de que nenhum homem Lomonosov será prejudicado. Se você quiser um tempo para considerar-…

— Won. — Mikhail olhou para o filho. — Qual seria sua decisão, se a escolha fosse sua?

— Isso é negócio da máfia; minha opinião não deveria ter peso — Won respondeu abruptamente observando Dmitri.

— Mesmo assim, gostaria de ouvi-la — Mikhail contra-argumentou. — Como advogado, o que você me aconselharia a fazer?

Won franziu o nariz e encolheu um ombro.

— Eu diria que não há garantia de que isso será mutuamente benéfico e que seria insensato concordar com qualquer coisa baseada apenas na palavra de uma pessoa.

Mikhail riu alto, cheio de orgulho. Ele não deveria rir em uma reunião tão séria, mas não pôde evitar, seu filho era um jovem extraordinário e sabia se impor entre os melhores.

A reação de Mikhail fez alguns de seus homens rirem também. Logo, todos estavam rindo. Todos, exceto Dmitri e Won.

— A palavra do segundo em comando do Sindicato vale tão pouco? — Dmitri perguntou, depois que as risadas diminuíram. Ele manteve os olhos em Mikhail, mas a pergunta era direcionada a Won.

Won arqueou uma sobrancelha.

— Que negócio tem o segundo em comandando pedindo favores ao Don? Acordos como este deveriam ser feitos entre iguais, eu diria.

Os olhos de Dmitri pousaram em Won. Ele sorriu, mas não havia alegria nele.

— Vejo que não há como mudar sua mente, minha palavra sempre será questionada. — Ele fez uma pausa, como se esperasse algo, antes de acrescentar: — Sendo assim, talvez falar com nosso chefe possa convencê-lo.

O som de passos veio do corredor. Baixos no início, mas crescendo gradualmente. Um por um, todos olharam para a porta.

A visão que os aguardou fez todos ficarem boquiabertos, Won incluído. Seus olhos se arregalaram, depois ainda mais. Um zumbido encheu seus ouvidos, e todo o ar parecia ter sido sugado do ambiente.

No limiar do salão, emoldurado por um raio dourado de luz solar, estava Caesar. Seus cabelos loiro-brancos brilhando ao sol e seu terno preto impecavelmente ajustado ao corpo, Caesar escaneou a sala, parecendo tão angelical quanto Won se lembrava. E, por um momento, Won poderia acreditar que a figura na porta era uma aparição, um fruto de sua imaginação, até o momento em que os olhos de Caesar encontraram os seus, e ele parecia tão desorientado quanto Won, perdido no mar de silêncio.

Isso era real.

— Eu gostaria de falar com o Czar — Won se ouviu dizer, um pouco alto demais. Como um só, todos se viraram para olhar para ele, que limpou a garganta e acrescentou: — Como seu advogado, sou obrigado a oferecer aconselhamento antes de qualquer negociação prosseguir.

— Won-.. o quê? E quanto a mim? — Mikhail exclamou, magoado e mais do que um pouco confuso.

Won não disse nada. Ele atravessou a sala, agarrou o braço de Caesar com força e, sem cerimônia, o arrastou para o corredor.

Won puxou Caesar pelo corredor, espiando atrás de porta após porta, até encontrar uma sala vazia e suficientemente distante do salão. Então empurrou Caesar para dentro, fechou a porta com força e a trancou.

Quando se virou, Caesar já estava voltando em sua direção.

— O que está acontecendo? — ele perguntou. — O que você está fazendo aqui?

— Um segundo… Acho melhor você cerrar os dentes se não quiser perder eles — Won disse e então acertou um soco no queixo de Caesar.

Segurando o vermelho que crescia onde Won o atingira, Caesar recuou alguns passos, parecendo incrédulo e indignado.

— O que—

Ele não pôde terminar a pergunta antes que Won pegasse seu rosto entre as mãos e o beijasse, realmente o beijasse. Chupando o lábio de Caesar, então espalhando beijos por cada parte do rosto que conseguia alcançar.

Surpreso, Caesar levou um instante para compreender o que estava acontecendo, mas Won estava ocupado demais sentindo Caesar em seus braços, sentindo o calor emanando de seu corpo, a maciez da pele sob seus dedos, deleitando-se no fato de que Caesar estava ali, respirando. Ele nunca havia rezado para nenhum deus antes, ou acreditado em algum poder superior, mas Won agradeceu a quem quer que estivesse ouvindo. Não havia outra explicação para o milagre diante dele. Caesar estava vivo.

Ofegante, Won fez uma pausa antes de mergulhar novamente para capturar os lábios de Caesar, e isso tirou Caesar de seu torpor. Ele envolveu Won em seus braços e o segurou o mais próximo possível, como se seu pequeno advogado pudesse desaparecer a qualquer momento; e Won fez o mesmo, abraçando Caesar como se nunca quisesse soltá-lo.

— Seu filho da puta — Won murmurou contra a boca de Caesar. — Você é um mentiroso desgraçado, sabia disso?

Caesar arqueou uma sobrancelha, divertido.

— E você tem uma boca suja—

— Epa, epa, epa! Eu não terminei, seu vigarista enganador — Won declarou, erguendo um dedo para os lábios de Caesar. — Você é terrível e eu te odeio.

Aparentemente, beijar fazia parte do discurso de Won, porque ele voltou a chupar a língua de Caesar antes que ele pudesse dizer uma palavra em sua defesa e Caesar não ia tentar pará-lo.

Ele mordiscou o lábio de Won, encheu sua boca com sua língua, sentiu Won fazer o mesmo com ele. Era pecaminoso, glorioso, cru. Quando voltaram a respirar, o olhar de Caesar fez Won perder o fôlego. Caesar alcançou a bochecha de Won, passou dedos trêmulos sobre a pele macia com um gemido, e não pôde evitar o beijo que se seguiu quando Won fechou os olhos e esfregou o rosto na palma de Caesar.

Passando os dedos para a nuca de Won, ele os enredou nos cabelos, deslizou o outro braço ao redor de sua cintura e o puxou para perto, deixando a mão descer até suas nádegas e apertando.

Won sabia o que ia acontecer, onde isso levaria. A ereção crescente de Caesar pressionada contra seu estômago, implorando para ser libertada e ele também queria, mais do que qualquer coisa. Seu braço espelhava o de Caesar, alcançando para agarrar e apalpar suas nádegas, segurando-o firme, sentindo o peso do pau de Caesar, tão insistente e duro, contra seu corpo.

Um gemido gutural escapou dos lábios de Caesar, e seus quadris se moveram involuntariamente. Quando Won olhou para ele, as pupilas de Caesar estavam dilatadas, os círculos cinzentos da íris pequenos em meio a poças negras de desejo.

Won ficou na ponta dos pés para sussurrar no ouvido de Caesar:

— É melhor que seja bom desta vez ou eu quebro seu pescoço.

Caesar deu uma risada baixa, deslizando o jeans e a cueca de Won pelas pernas e puxando-o para o chão em um movimento hábil. Nenhum dos dois deu atenção ao baque alto que fizeram ao cair no carpete, ocupados demais explorando as bocas um do outro, tirando mais roupas para se importar. Montado nos quadris de Caesar, Won tateou cegamente para desabotoar suas calças, sem querer desgrudar os lábios para olhar até que o zíper estivesse aberto e ele sentisse o pau de Caesar pulsando em sua mão.

Caesar mordeu o lábio quando Won puxou seu membro para fora da cueca; Won riu para si mesmo enquanto Caesar gemeu e ergueu os quadris, incentivando Won a tirar as calças completamente. Won obedeceu e mal havia se acomodado novamente em cima de Caesar quando batidas frenéticas surgiram na porta.

— Mestre Won!? Mestre Won, você está bem? Ouvimos barulhos! Mestre Won!

Won se sobressaltou, virou o pescoço para olhar a porta; e Caesar aproveitou para rolar, colocando-se por cima e passando os lábios pelo pescoço de Won.

— E-eu estou bem! — Won gritou. — Não— Ele interrompeu-se com um gemido quando Caesar mordeu seu pescoço e começou a chupar.

— Mestre Won! Não se preocupe, eu vou tirá-lo daí!

— Não! Não, espere! — Ele teve que conter outro gemido. Nunca estivera tão assustado e excitado ao mesmo tempo na vida, e desesperadamente precisava que quem estivesse na porta fosse embora. — Não entre! Está tudo bem, estamos bem. Sigilo advogado-cliente!

Finalmente, a maçaneta parou de mexer. Won a observou por mais alguns segundos, só para ter certeza. Ele suspirou, meio aliviado, porque Caesar havia levantado sua camisa até o peito e estava lambendo os sulcos de seus abdominais.

— Que merda você estava pensando?! E se eles tivessem nos visto?! — Won sussurrou-gritou.

Caesar olhou para cima, depois de traçar o contorno da cicatriz redonda nas costelas de Won.

— Pouco me importa o que eles vejam.

— Caesar! — Won rosnou de volta. — Esta é a casa do seu arqui-inimigo!

Desta vez, Caesar deslizou de volta pelo corpo de Won até ficar cara a cara com ele.

— Não consigo pensar em morte mais doce do que com você em meus braços.

Won estava prestes a dizer que isso era ridículo e que ele não deveria querer morrer de forma alguma; mas o jeito que Caesar o olhou tão extasiado, enfeitiçado, como se Won tivesse colocado as estrelas no céu, fez todas as palavras travarem em sua garganta.

Sorriu, perdido em completa felicidade, e só conseguiu expressar sua adoração.

— Tigr moy.

As palavras roçaram contra os lábios de Won, ecoaram em seu peito, mas ele não fazia ideia do que Caesar estava falando. Sua testa franziu levemente até seus olhos se fixarem nas grossas ataduras enroladas ao redor do torso de Caesar. Escondido atrás dos botões da camisa, Won podia esquecer que Caesar havia se machucado; mas vendo agora, ele percebeu o quão sério havia sido o ataque.

Hesitante, Won levantou uma mão, deslizou os dedos pelo linho, cobriu o ferimento com a palma.

Caesar inspirou fundo, suas mãos agarrando as nádegas de Won, massageando-as e separando-as, deslizando um dedo sobre o orifício contraído ali escondido, tenso e trêmulo.

Won soltou um suspiro trêmulo, mas colocou uma mão no ombro de Caesar para detê-lo.

— Eu quero meu pedido de desculpas primeiro — ele sussurrou, olhando para Caesar por baixo de seus cílios.

Caesar parou seus movimentos. Won sentiu o pau de Caesar pulsar de necessidade sob suas nádegas.

Ele sorriu. — Vamos; não é difícil. “Sinto muito”.

Caesar pareceu perdido, congelado sobre ele, então Won enterrou os dedos nos cabelos da nuca de Caesar e puxou-se para cima, seus lábios quase se tocando.

— Sem arrependimentos, sem sexo — ele advertiu.

A expressão de Caesar se transformou em uma careta. Won se forçou a não rir e começou a contar mentalmente para ver quanto tempo Caesar aguentaria.

Ele chegou a cinco antes de:

— Eu… me desculpo…

Não estava perfeito, mas Won aceitaria — mesmo que Caesar parecesse confuso sobre o que deveria estar se desculpando.

Won sorriu e acenou com a cabeça. — Ok.

Quase instantaneamente, Won estava de costas novamente, o pau de Caesar exigindo entrada em seu buraco ansioso. Vazando pré-gozo, a cabeça escorregou e passou do destino. Caesar praguejou. Agarrando as pernas de Won, ele as jogou sobre seus ombros e tentou novamente.

Doeu um pouco, por não estar devidamente preparado; mas Won queria isso, queria ele. A necessidade de sentir Caesar dentro era quase avassaladora. Segurando o ombro de Caesar, ele se curvou para cima, tentando forçá-lo a entrar mais rápido.

A pressão era inacreditável. Quando a cabeça finalmente rompeu o orifício relutante de Won, ele gemeu, longo e baixo, suor escorrendo de sua têmpora pelo esforço. Ele tinha certeza de que haveria marcas no ombro de Caesar, de tão forte que o agarrava. O peito de Won arfava, e ele teve que se lembrar que a parte difícil havia passado enquanto a espessura de Caesar o preenchia em um deslizar interminável.

Uma vez completamente dentro, Caesar soltou um longo suspiro, então sorriu. Won deveria ter sabido o que viria a seguir, mas de alguma forma ainda estava despreparado quando Caesar puxou até quase sair, então enfiou de volta. De novo. E de novo.

Won abaixou as pernas para abri-las mais, enganchando-as nos cotovelos de Caesar, mas manteve o aperto em seu ombro, permanecendo sentado, meio equilibrado no colo de Caesar, enquanto ele o manuseava como um brinquedo, movendo Won para cima e para baixo em seu pau enquanto empurrava. Won estava hipnotizado pela visão: o pau de Caesar o deformando com seu tamanho, esticando-o de forma impressionantemente larga. Não deveria caber, mas cabia; e Won se viu ficando duro também, sua própria ereção quente e pesada em seu estômago enquanto a de Caesar se movia dentro dele, apenas alguns centímetros de carne entre seu pau e o de Caesar.

Uma onda de vergonha o invadiu, mas não havia como esconder o quanto ele estava excitado. Havia algo mais também um sentimento que ele não sabia nomear, mas ele não conseguia desviar os olhos de Caesar o fodendo por tempo suficiente para dissecá-lo.

Na próxima enfiada para fora, Caesar parou, percebendo que Won estava olhando.

— O quê? — ele arfou.

— Eu queria ver — Won explicou, encolhendo os ombros.

Caesar corou, mas Won estava distraído demais com o pau de Caesar para notar. De alguma forma, ele havia ficado mais grosso, mais longo, e os lábios de Won se separaram em espanto.

Talvez… pudesse ficar ainda maior? Quão fundo poderia enchê-lo? Won desesperadamente queria saber, desejava poder ver um relevo sob sua pele a cada enfiada para poder marcá-lo e saber até onde Caesar havia estado dentro dele, o fodido, possuído.

Ele se moveu contra o pau de Caesar, implorando silenciosamente que continuasse. Caesar rosnou, quase feroz, e enfiou de volta com força. O estiramento e o peso eram tão esquisitamente dolorosos que Won se afogou em prazer antes de encontrar a resposta para qualquer uma de suas perguntas. Agora, ele estava empurrando e puxando junto com Caesar, em vez de deixá-lo movê-lo como quisesse. Parecia que ele havia sido feito para isso, sugando Caesar e apertando da maneira certa, antes de relaxar enquanto ele se retirava, só para fazer tudo de novo.

A cada puxada além de sua borda, a cada enfiada dentro, Won gemia, Caesar acertando um ponto dentro dele que lhe dava uma explosão de pressão deliciosa a cada passada, e ele não estava sozinho. Caesar gemia de algum lugar profundo em sua garganta sempre que suas bolas batiam nas nádegas de Won ou a cabeça de seu pau puxava além da borda esticada.

Com um grito rouco, Caesar empurrou o mais fundo em Won que pôde, puxando-o para baixo com força, como se não suportasse nenhuma parte de seu pau ficar fora. Ele encarou os olhos de Won, seu olhar escuro de luxúria e necessidade, então seus lábios colidiram com os de Won e ele começou a enfiar em um ritmo acelerado. Won se agarrou a ele, quicando no pau de Caesar com tanto desejo desesperado até que seus movimentos se tornaram erráticos e ele gozou mais intensamente do que nunca em sua vida.

Continua…

⌀ ⌀ ⌀

✦ Tradução, revisão e Raws: Belladonna

Ler Roses And Champagne (Novel) Yaoi Mangá Online

Sinopse:
O advogado de direitos civis Lee Won atua na Rússia, defendendo clientes de baixa renda que não teriam acesso a um jurista. Um dia, ele visita o vereador Zhdanov para interceder por seu cliente Nikolai. Won desconhece que o político tem ligações com a máfia russa — até se deparar com César durante a reunião. E aquele homem de olhos prateados e cinzentos… era o mesmo com quem Won quase colidira na rua dias antes! Algo fora do comum está prestes a acontecer quando ele conhece César Aleksandrovich Sergeyev, o homem que em breve liderará um dos grupos mafiosos mais temidos do país.

Gostou de ler Roses And Champagne (Novel) – Capítulo 19?
Então compartilhe o anime hentai com seus amigos para que todos conheçam o nosso trabalho!