Ler Roses And Champagne (Novel) – Capítulo 18 Online

Capítulo 18
Os sonhos de Won naquela noite foram agitados. Visões de Caesar preencheram sua mente inconsciente – dedos longos apertando sua garganta, olhar venenoso queimando-o vivo. Ele acordava assustado de um pesadelo para outro. Sempre os olhos.
Quando o despertador tocou, sua pele parecia pequena demais, tudo ao mesmo tempo ressecado e pegajoso. Seus pés tocaram o chão antes que a inércia o fizesse sentar na cama, olhando para o vazio, cotovelos apoiados nos joelhos.
“Talvez pudesse fingir. Fingir que sua falta de sono vinha de estar ficando mimado – tão acostumado a camas luxuosas que não suportava mais esta. Mas sabia que era mentira. Devia levantar. Mas…”
Seus pensamentos giravam em círculos, estrangulando seu cérebro. “Por que não tentara mais?”
Ele se levantou cambaleando, tropeçou até o banheiro. “Caesar não teria acreditado em mim, era por isso. Mas talvez…” Água escorria por seus cílios, maçãs do rosto, até o queixo. No espelho, seu rosto estava limpo; mas o resíduo feio do arrependimento se recusava a ser lavado, grudento e sujo, sob a pele.
Uma batida suave na porta; a Sra. Ivana espiou.
— Você tem visita — disse suavemente.
Won pulou em pé. Seu coração saltou no peito. Só quando Ivana se moveu revelando Mikhail que Won percebeu – por um instante – esperara que fosse outro. Seu sorriso desapareceu.
“Quando me sinto sobrecarregado pelo mundo, venho aqui.” Foi o que Mikhail dissera ao entrarem na galeria de arte. Não conversaram depois, mas Won sentira uma calma gentil penetrando seus ossos enquanto vagavam de pintura em pintura. Havia algo reconfortante no silêncio, como se tudo lá fora estivesse distante e abafado. Trivial.
Mikhail parou diante de uma pintura isolada. Era de Rembrandt, Won soube pela etiqueta. “Retorno do Filho Pródigo, 1663-1665.”
— Muitos consideram sua obra-prima — comentou Mikhail. — Para alguns, a maior obra de arte já criada.
O olhar de Won subiu para a pintura enorme, figuras maiores que a vida. Um homem em trapos ajoelhado aos pés do pai.
— É linda, não? — Mikhail acrescentou. — O irmão mais velho à direita, envolto em trevas; pai e filho iluminados no perdão. Luz e sombra; pecado e absolvição. Não pode haver um sem o outro.
Won continuou a observar: as mãos suaves do pai nos ombros do filho, o desdém silencioso do irmão na penumbra, o arrependimento do filho.
Contemplaram em silêncio até Mikhail falar:
— Você está com raiva.
— Não vejo razão para não estar.
Mikhail aceitou com um aceno triste. Won se incomodou vendo-o tão abatido, mas não se desculpou. Mikhail não merecia.
Caminharam para a saída.
— Pensei que ia perdê-lo — Mikhail disse. Won hesitou, mas ele pareceu não notar. — Suponho que pareceu ser encurralado, mas nunca foi minha intenção impor assim. No pânico, fiz o único jeito que pensei para fazê-lo ficar. Lamento.
Soava sincero, mas uma vozinha na mente de Won o alertava. “E se fosse parte da atuação?” Caíra no arrependimento de Mikhail antes.
— A tentação foi grande demais — Mikhail deu uma risada, mas Won franziu a testa. O quê?
— Ouvi muito sobre você — Mikhail explicou. — Que é um excelente advogado, que ajuda pessoas. Mas ao conhecê-lo, você brilhou mais que qualquer palavra. Sua expressão ficou pesarosa. — Seria maravilhoso como meu herdeiro—
— Não. — A rejeição foi recebida com um sorriso torto de Mikhail.
— É mesmo como sua mãe. Nunca fez o que não queria. Seu olhar ficou afetuoso. — Susya nunca contou como nos conhecemos. Digamos que não recebeu bem meus avanços. Riu. — Cantei uma música inteira para conquistá-la.
Suspirou com saudade.
— Queria ter estado lá, com Susya, para vê-lo crescer.
Mas algo na frase soou falso. Nenhum remorso em sua expressão. Peninha, talvez. E Won entendeu: Mikhail sempre os abandonaria. Dada a chance, faria de novo.
Não sabia o que o levou a perguntar, mas de repente precisava saber.
— Por que… — Sua voz falhou, a pergunta pesada demais. Mikhail ergueu a sobrancelha, mas Won balançou a cabeça. — Esquece.
Após um escrutínio, Mikhail bateu em seu ombro ao saírem no sol.
— Virá um dia em que precisará de mim. Estarei lá.
Won cerrou os lábios. — Não quero seu tipo de ajuda.
— Não se consegue tudo com bondade, filho.
Naquele momento, Won viu: Mikhail e Caesar eram mais parecidos do que imaginara. A mesma crueldade impiedosa corria em ambos. Sangue nas mãos. Nenhum chegara onde estava sem destruir os abaixo.
— Eu nunca cairia tão baixo — Won retrucou.
Mikhail estreitou os olhos.
— O mundo não é preto e branco. Algumas coisas não são justas, mas acontecem. Posso ajudá-lo então.
Won mordeu o lábio. Por cima do ombro de Mikhail, avistou um homem de boina. Baixo. Nada peculiar. Um homem comum andando em sua direção. Mas algo nele era quase casual demais – como quem quer parecer inócuo.
Won se sacudiu. “Estou paranoico.” Voltou a atenção a Mikhail quando viu o homem de boina enfiar a mão no casaco no coldre, tirando uma arma.
O metal frio da arma reluziu ao sol, único foco de Won. O mundo pareceu desacelerar. O homem estava perto demais.
— Boa noite, Lomonosov — sussurrou.
Ouviu o homem, viu a arma apontada, então Mikhail gritou e o empurrou quando o tiro soou.
Um momento de silêncio. Cores esmaecidas. Céu e chão oscilando. Ar pesado demais para respirar. Won forçou uma respiração. O mundo voltou ao normal – mas algo errado. O atacante fugira. Ele não estava ferido. Então viu: Mikhail no chão.
Um grito horrível saiu de sua garganta. Ajoelhou-se ao lado de Mikhail, mãos tremendo sobre seu corpo pálido. “O que fazer? Como consertar?”
— Está bem? — Mikhail engasgou, agarrando sua mão.
— Sim, estou bem — Won assentiu rápido. — Preciso chamar uma ambulância, ok? Não fale agora.
Mikhail sorriu lentamente, olhos fechando.
— Desde que você esteja seguro…
Foi quando Won viu a mancha de sangue na camisa de Mikhail, o rastro vermelho escorrendo sob ele. O pânico chegou.
— Alguém-chamem uma ambulância! Por favor!
Pessoas o encararam. Ele abraçou Mikhail.
— Pai! Pai!
Para quem olhasse, o homem de óculos escuros na cafeteria era apenas um homem. Um homem comum aproveitando a tarde ensolarada em uma mesa aconchegante. Cantarolava com a música, dava goles delicados no expresso, lia o jornal.
Estava prestes a provar mais do café quando um tiro distante o alcançou.
Dmitri sorriu satisfeito — Te peguei.
Won observava o soro gotejar, cada vez mais vazio. Alternava entre o frasco e Mikhail; não sabia por quanto tempo. Olhar o relógio significaria saber há quanto tempo Mikhail estava inconsciente. Não tinha condições para isso agora.
Mal lembrava do dia além do pânico avassalador. Mesmo agora, só conseguia sentar à cabeceira. O resto era um borrão.
Batidas frenéticas na porta antes que ela se abrisse.
— Sr. Lomonosov!
Leo atravessou a sala, alheio a Won. Só quando confirmou que seu chefe não corria perigo iminente é que olhou para o terceiro na sala.
— Que merda aconteceu?! — Won franziu os lábios.
— Foi do lado de fora do museu. Um homem com arma…
— Quem ousou?!
A voz de Leo tinha um tom histérico. Ainda atordoado, Won achou melhor não mencionar que ele era o alvo original. Leo era capaz de terminar o que o atirador começara.
Um silêncio desconfortável caiu. Leo não pressionou, Won não tentou conversar. Em vez disso, Won olhou para seu pai.
“Seu pai.”
Sentia-se mais perdido do que nunca.
A resposta da Bratva foi rápida. Homens tomaram posições guardando o quarto, corredor, posto de enfermagem – qualquer lugar com gente. Não arriscariam outro ataque.
Após meia-noite, Mikhail acordou.
— Como está se sentindo? — Won perguntou rápido demais.
Mikhail piscou, lento e confuso.
— Você está no hospital — Won se apressou. — Levaram um tiro.
Percebendo como soava horrível, parou. Era culpa dele Mikhail estar ali… Pior: “E se Mikhail usasse isso para manipulá-lo a ficar?”
Parte da turbulência deve ter transparecido, porque Mikhail sorriu triste. Won tentou retribuir.
— Foi uma confusão — Mikhail tentou aliviar.
Won não sabia que ele ouvira algo antes de acordar.
— Seus homens estão aqui — respondeu. — Ficou barulhento desde que chegaram.
Mikhail revirou os olhos.
— Exagerados. As pessoas estão nervosas demais.
Won o estudou. Mikhail queria cumplicidade, mas ele não daria.
— É para sua proteção — disse sério. — Estão revistando todos, até médicos e enfermeiras…
Parou de novo. Não soava horrível, só ridículo. Por que explicar isso?
Após alguns segundos, Mikhail falou:
— Talvez eu tenha sido egoísta.
Won tensionou, sem saber aonde isso ia.
— Não há volta – uma vez feito homem. E o coloquei no meio. — Olhou Won nos olhos. — Queria protegê-lo. Pensava que estava. Queria você comigo, mas não dá para os dois. Arrastei você para isso – pensei que poderia poupá-lo do pior. Vejo agora: sonho de tolo.
Sua voz era quase um sussurro. — Que arrogante fui.
Won respirou, mas não respondeu. O que dizer? Um silêncio pesado caiu sobre eles.
Batidas fortes na porta interromperam sua melancolia. Won se levantou para ver quem era.
— Tenho notícias — disse Leo assim que Won abriu uma fresta na porta. — Ele acordou?
— Sim, ele…
Won só conseguiu dizer algumas palavras antes que Leo o empurrasse para passar. Won evitou por pouco um nariz sangrando com seus reflexos rápidos. Ofendido, Won olhou furiosamente para a porta. Ele já podia ouvir Leo bajulando Mikhail.
— Deus seja misericordioso, que bom vê-lo acordado, Sr. Lomonosov. Verdadeiramente, temi o pior. — Leo ajoelhou-se junto à cama de Mikhail, mas Mikhail não parecia divertido.
— Já chega, Leo — disse Mikhail, com um tom áspero. — Levei um tiro, não fui desmembrado.
A resposta foi tão fria que quase tirou o fôlego de Won. Por breves momentos, ele pôde entender por que Mikhail era chamado de lyev, porque era tão temido. Então, tão rápido quanto surgiu, a máscara gentil voltou a cair.
Aquele era um lado de Mikhail que Won nunca tinha visto antes, frio e cruel e ele se perguntou se ela o tinha visto. Sua mãe.
O som da voz de Mikhail o trouxe de volta ao presente. — Quem assumiu o comando? Vladimir?
— Sim… — Leo lançou um olhar furtivo para Won. — Não há… mais ninguém, infelizmente.
— Sim, estou bem ciente — cortou Mikhail. — E o atirador? Vocês descobriram quem o enviou?
— Erm… nós descobrimos… — A expressão de Leo tornou-se sombria. — Parece que foram os Sergeyevs.
✦ ✦ ✦
— Ele levou um tiro?
Urikh fez uma careta.
— Foi o que ouvimos, sim. Perto de uma das principais avenidas hoje mais cedo.
Urikh hesitou antes de acrescentar a última parte.
— Não foi fatal, aparentemente…
Caesar girou o charuto entre os dedos, a testa franzida em concentração. A razão por trás do ataque era simples o suficiente para discernir. A tensão sempre fervilhava entre a Bratva e o Sindicato, mas a situação agora era particularmente precária. Não haveria dúvida na mente de Mikhail de que esta era uma tentativa de assassinato do Sindicato. E uma vez provocado, não haveria como detê-lo.
A verdadeira questão era quem queria provocá-lo.
Uma lista interminável de nomes e rostos passou pela mente dele. A pior parte era que Caesar não podia ter certeza de que não era um membro do Sindicato. Alguém insatisfeito com o estado das coisas poderia facilmente ter agido por conta própria. Na verdade, ele não se surpreenderia se fosse uma facção inteira tentando derrubá-lo.
Seus olhos se estreitaram, pequenas peças do quebra-cabeça se encaixando.
— E o filho? — perguntou ele abruptamente a Urikh.
— Não sai do lado do leito do pai.
Caesar soltou um pequeno murmúrio de reconhecimento e tragou seu charuto. Urikh estava ficando visivelmente desconfortável quanto mais tempo ele não falava, mas Caesar não lhe deu atenção.
— Vou apostar que ele te apunhala pelas costas e depois te deixa completamente sozinho.
Ele soltou uma longa nuvem de fumaça, a testa franzindo ainda mais. Aquelas sinistras sementes de dúvida que Dmitri plantou em sua mente só pareciam crescer mas algo nele se recusava a acreditar que poderia terminar assim, se recusava a acreditar que tudo tinha sido uma mentira.
Não. Não pode ter sido. Ninguém era um ator tão habilidoso. Havia algo ali, quando eles se tocavam, quando se beijavam, quando ele olhava nos olhos de Caesar.
— Fora.
Urikh sobressaltou-se, mas curvou-se e saiu rapidamente, deixando Caesar sozinho em seu escritório.
Ele se curvou sobre sua mesa, empurrando o cabelo para trás com dedos ásperos e apoiando a testa na palma da mão. Volutas de fumaça de seu charuto serpenteavam acima de sua cabeça. As profundas rugas ainda marcavam sua testa, mesmo com os olhos fechados. O canto de seu lábio estava quase sangrando de tanto que ele o mordia.
— Eu não desisti de você. Volte para mim.
✦ ✦ ✦
Leo, o conselheiro devotado que era, ficou ao lado de Mikhail até tarde da noite, anotando ordens e comandos a serem executados em nome de Mikhail. A escuridão já havia caído de verdade, e Leo finalmente tinha ido para casa, deixando Won sozinho com Mikhail. Mas enquanto Mikhail cochilava, Won se viu bem acordado, sentado na pequena cadeira ao lado da cama de Mikhail, pensamentos numerosos demais para descansar.
— Não consegue dormir?
A pergunta suave tirou Won de seu devaneio. Ele olhou para cima. — Apenas algumas coisas na minha cabeça.
Uma expressão afetuosa cruzou o rosto de Mikhail — um contraste gritante com a maneira como ele olhara para Leo mais cedo.
— Vá para casa e descanse um pouco; um hospital não é lugar para os saudáveis.
Era chocante, de certa forma o quão inocente ele parecia, o quão gentil. As coisas indizíveis que Mikhail havia feito em sua vida sem piscar; e, no entanto, vendo-o agora, ninguém jamais suspeitaria. Sua mãe nunca tinha visto aquele lado dele, Won decidiu então. Ela não poderia ter visto.
Algo deve ter se mostrado em seu rosto porque Mikhail inclinou a cabeça, ainda com um pequeno sorriso. — Por que você está me olhando assim?
Won o estudou, este homem na cama do hospital. Seu pai. Finalmente: — Eu não posso fazer isso.
Sua mãe teria sabido — “Não consigo… fazer o quê?” — ela teria sido a que partiria. — Eu não posso ser o que você quer que eu seja.
Qualquer vestígio de sorriso no rosto de Mikhail desapareceu.
— Eu tentei — acrescentou Won sinceramente. — Eu realmente tentei; mas, no final, eu não sirvo para uma vida como esta. Eu sou apenas… um cara normal.
— …
Mikhail engoliu, sua boca abrindo e fechando enquanto ele tentava encontrar as palavras.
— Eu estou aqui — disse ele finalmente a Won, a voz trêmula. — Eu estou aqui e sempre estarei. O que você precisar. Eu não posso te perder. Por favor.
A mão de Won estava de repente na dele; os nós dos dedos eram pontos nodosos sob a pele murcha. Won olhou para Mikhail e não sentiu nada. Mikhail poderia ter sido qualquer um. Mas não era. Não importa o quanto Won desejasse que fosse.
— Sinto muito.
Ficar com Mikhail significava escolher um lado. Ele não podia fazer isso com Caesar, não podia traí-lo assim. A voz de Won era um sussurro baixo.
— Eu fiz o que vim fazer aqui, então vou embora da Rússia. — Esta era sua única saída: deixar tudo para trás. — Won sorriu. Genuinamente. — Fico feliz que nos conhecemos.
A pele ao redor dos olhos de Mikhail se contraiu, as rugas se aprofundando com dor e arrependimento. De repente, Won foi puxado para um abraço apertado.
— Tudo bem. Okay. — Murmurou Mikhail, a voz cheia de tristeza. — Mas saiba disso, filho — disse ele, a expressão endurecendo, muito mais perto do leão que Won sabia que estava sempre escondido por baixo. — Se eu te encontrar de novo, não vou te deixar ir.
Won assentiu. Ele podia ver as lágrimas brotando nos olhos de Mikhail. Gentilmente, ele ergueu a mão e afastou a mão de Mikhail de seu ombro. Ele apertou ambas as mãos uma última vez, depois se levantou e curvou-se. Filho para pai.
No instante seguinte, ele se virou e foi embora.
Ele não olhou para trás.
✦ ✦ ✦
Nuvens cinzas pairavam sombrias e pesadas sobre os grandes painéis de vidro. Caesar fitava o céu enquanto o sol desaparecia por trás do horizonte, seus olhos igualmente tempestuosos e cinzentos desfocados. Era tarde o suficiente para ele ir para casa mas ele permaneceu em seu escritório, incapaz de reunir a força mental para se levantar da cadeira. Havia inimigos dentro e fora, hostilidade o cercando por todos os lados; no entanto, tudo empalidecia diante de uma simples pergunta: Por que ele não ligou? Caesar lançou um olhar penetrante para o telefone silenciosamente pousado em sua mesa. O mesmo pensamento girava e girava, mas nenhuma resposta surgia; nenhum contato vinha para acalmar sua mente perturbada.
No instante seguinte, a porta se abriu bruscamente, e Dmitri entrou na sala com passos firmes.
— Oh, como caíram os poderosos. — Dmitri soava insuportavelmente presunçoso.
Caesar o olhou de soslaio, mas Dmitri permaneceu indolente enquanto tirava o casaco e se aproximava da mesa.
— Quer dizer, eu sabia que ia ganhar mas a vingança simplesmente não é tão doce quanto um milhão de rublos. Não satisfaz completamente, se é que me entende. Mas, em retrospectiva, e tudo mais.
— O que você quer? — retrucou Caesar. Ele já tinha o suficiente em sua mente sem que seu primo inútil e intrometido perdesse seu tempo. Fechando os olhos, ele massageou as profundas rugas que pareciam ter se instalado permanentemente em sua testa.
Dmitri deixou Caesar esfregar a testa por um momento antes de responder.
— Um passarinho me contou que certa pessoa está saindo da Rússia.
Os dedos de Caesar pararam; seus olhos cortaram para Dmitri. Dmitri o encarou significativamente de volta.
— Parece que ele não vai voltar para você… o advogado, quero dizer. — Todo o corpo de Caesar enrijeceu.
— Ouvi dizer que ele está pegando um trem. — Dmitri examinou suas unhas com uma indiferença afetada. — Bastante plebeu para um Lomonosov, se me perguntar.
Então Dmitri se apoiou na mesa com os braços cruzados.
— Eu te disse, não disse? Que ele te trairia. — Um sorriso despreocupado apareceu em seus lábios enquanto ele apoiava a coxa na mesa e se inclinava até que houvesse quase um fio de cabelo entre seu rosto e o de Caesar. — Encare, Caesar. Você foi abandonado.
A risada de Dmitri foi interrompida quando Caesar o derrubou de seu poleiro, pegou seu casaco e saiu furiosamente do escritório.
Por um tempo, Dmitri não se moveu. Seus olhos percorreram um canto da sala ao outro no silêncio. Finalmente, considerando a costa livre, seu foco mudou para a cadeira de couro atrás da mesa. Mais um olhar para a porta, e Dmitri se endireitou e caminhou até o lado da mesa de Caesar.
Afundando no couro macio, Dmitri pegou o receptor do telefone e discou. O clique de atendimento veio depois de alguns toques e uma voz familiar o saudou.
— O Czar está se movendo. Ah, sim. Claro. — Seu tom era formal. — Mal precisei mencionar o advogado e ele se foi. Confirmando nossas suspeitas sobre o Czar e Lomonosov. — Dmitri sorriu consigo mesmo. Sua voz baixou. — Não adianta esperar mais. Demos a ele amplas chances de se provar. Sua mente está muito infectada por seu rossiyanin de estimação para ser salva.
(Rossiyanin = Palavra Russa para Cidadão, no sentido de nacionalidade, não necessariamente étnico)
A luz nos olhos de Dmitri brilhou perigosamente.
— Qualquer russkiy que se rebaixe tanto não nos serve para nada.
(Russkiy = Palavra Russa para descrever pessoas que são etnicamente russas, independentemente de onde vivam, seja na Rússia, Ucrânia, EUA ou Brasil).
✦ ✦ ✦
Pessoas entravam e saíam lentamente da plataforma enquanto seus trens chegavam e partiam. Havia cada vez menos, até que finalmente, até mesmo a manutenção da estação havia levado os últimos sacos de lixo, e Won estava sozinho. Ele olhou para a distância, uma única bolsa pequena carregando seus pertences pendurada em seu ombro.
Ele não conseguiu se despedir. De seus amigos, seus vizinhos. De ninguém.
Enquanto tentava dizer a si mesmo que não estava fugindo, era certamente o que parecia.
O trem apareceu, um ponto na distância. Não havia arrependimento por sua decisão, nenhum sentimento persistente para prendê-lo. Won não era desse tipo. Sua decisão estava tomada, e era isso. No entanto, algo permanecia, incomodando um pequeno canto de seu coração. Ele nunca mais o veria. Era covardia ou bravura? Partir sem uma palavra. Won pensou que talvez fosse um pouco de ambos.
Ele nunca havia corrido assim antes, e ele não gostava particularmente de como se sentia. Ele deveria ter dito algo. Assim que chegasse ao seu destino e estivesse longe, ele pelo menos ofereceria algumas palavras de despedida com um telefonema ou uma carta. Até então, ele teria que esperar.
— Droga. — Won passou a mão pelos cabelos com um suspiro.
De repente, passos. Ele olhou para cima. A plataforma estava quase deserta. Havia apenas Won então uma figura se materializou na escuridão. Caesar parecia o mesmo que naquela noite sob o poste de luz, seu rosto desprovido de emoção. Won piscou. Ele não entendia o que estava vendo. Como Caesar estava ali?
O pensamento mal havia se formado quando, enquanto Caesar se aproximava cada vez mais, ele enfiou a mão no casaco, sacou sua arma e disparou. O estrondo ensurdecedor foi a primeira coisa a penetrar o choque de Won. Só depois disso, ele notou o beliscão em seu ombro e olhou para baixo. Como um buraco tão pequeno gerava tanto sangue? Uma partícula carmesim floresceu e inchou diante de seus olhos. Ele não percebeu o quanto doía até cair no chão, uma segunda bala atravessando sua coxa.
Seus membros eram inúteis para amortecer sua queda. Eles se debateram, sentindo-se desconectados de seu corpo. Sua perna da calça encharcada de sangue apareceu em seu campo de visão, e seus olhos se ergueram para encontrar os de Caesar. Caesar se aproximou com total equanimidade, nunca perdendo o passo. A batida constante de seus passos silenciou quando ele se aproximou do corpo de Won. Ele preparou sua Beretta mais uma vez.
Won olhou para a arma, incompreensivo.
— Eu ia te contar — ele conseguiu sussurrar.
— Quando? — Won não sabia.
Quando ele respondeu com silêncio, Caesar zombou com uma zombaria vingativa.
— Veja o que você me fez fazer? — Olhos cinzentos excruciantemente frios fizeram Won ofegar. Houve um som como um trovão.
E Won não soube mais de nada.
✦ ✦ ✦
— Czar, acredito que já conversamos sobre isso — disse uma voz repreensiva. — Relacionar-se com você é demais para uma única pessoa. Você precisa ter múltiplos parceiros disponíveis.
A voz vinha de perto, mas não era imediatamente familiar. Won manteve os olhos fechados, revirando as profundezas da memória até identificá-la como a do médico que visitara a casa de Caesar há muito tempo.
— Seu paciente está esperando — Caesar cortou, de algum lugar acima da cabeça de Won.
Alguns ruídos de movimento, e então uma dor aguda atravessou o ombro de Won. Ele fez uma careta antes que pudesse se controlar.
— Shh… Tudo bem. — Braços se apertaram em torno de seu torso, e lábios pressionaram sua têmpora. — Está tudo bem; não chore.
Won não estava chorando.
A audácia de sugerir isso fez Won desejar socar Caesar na cara. Ele não o fez, porém. Permaneceu mole em seus braços, fingindo dormir.
— Sinceramente, Czar, imploro que mostre moderação. — Havia derrota no tom do médico. — Forçar alguém a passar por isso poderia matá-lo facilmente.
— Ele está bem. — O tom era seco, impassível. Won sentiu o médico hesitar antes de voltar a trocar seus curativos.
— Sim, sim, claro. Ele é… bastante resistente. Constituição excelente, este aqui. Talvez seja um recorde, sobreviver a tudo isso. Mas, Czar, lembre-se da fragilidade humana. Eles não aguentam tanto…
Caesar não julgou digno de resposta. Em vez disso, afastou os cabelos da testa de Won. O médico trabalhou em silêncio. Quando chegou à coxa de Won, uma dor latejante percorreu sua perna. A careta mal se formou em seu rosto quando Caesar a beijou, dissipando-a.
— Pronto, terminamos — o médico murmurou. Então, mais alto: — Deixei os remédios na mesa. Antibióticos. Ele deve completar o tratamento. Não se esqueça. — Houve uma pausa talvez para confirmar se Caesar ouvira, Won imaginou antes que ele se retirasse.
Com os passos sumindo, Won entreabriu os olhos. A cena que o aguardava era esperada, mas não menos humilhante: seu corpo inteiro estava coberto de sêmen. Manchas secas colavam-se à pele, enquanto fluidos mais recentes escorriam viscosos. Pior, apenas Caesar e seu próprio esperma o cobriam e pelo contato nu de suas costas com o peito de Caesar, ele também não se preocupara com modéstia.
E ainda havia um peso incômodo em seu estômago. Sêmen retido? Não queria saber.
Entre os lençóis manchados, a nudez e seu estado, Won surpreendeu-se que o médico sequer entrara no quarto. “O homem tem um autocontrole impressionante”, pensou com sarcasmo. “Mas é obrigatório, trabalhando para Caesar.”
Atrás dele, Caesar ajustou-os para sentarem, e Won sentiu um movimento em seu ventre. “Ah, é claro…” O pênis de Caesar ainda estava dentro dele. Devia ter imaginado.
Won franziu o nariz (outra coisa que o médico testemunhara), mas não protestou. Caesar faria o que quisesse, e ele preferia manter a farsa de estar dormindo. Já estava prestes a ser usado de novo; qual era o sentido?
Então, outra sensação horrivelmente familiar: o novo ângulo fez mais sêmen escorrer de seu orifício, em torno do pênis de Caesar. Won mordeu o interior do lábio e manteve-se imóvel. Cada movimento parecia liberar mais e em quantidades que ele julgava impossíveis.
Se não estivesse vivendo aquilo, nunca acreditaria na resistência de Caesar. Dias, talvez uma semana, e ele mal lembrava de momentos conscientes em que Caesar não o estivesse penetrando. Mesmo assim, lá estava ele, duro novamente, tão grande e pesado. A pressão avassaladora deixava claro que Caesar estava completamente ereto. Won cerrou os olhos, preparando-se para a dor.
Mas ela não veio.
Caesar permaneceu imóvel. Em vez disso, abraçou-o mais forte, beijando sua têmpora, garganta, ombro, repetidamente, qualquer pedaço de pele exposta.
Isso não era como antes… Esses beijos não eram possessivos, luxuriosos ou pós-orgásmicos. Eram algo diferente: lentos, deliberados. Algo que Won se recusava a nomear.
Nada mudava, disse a si mesmo. Não importava; ele não perdoaria Caesar.
O desejo de enterrar os dedos em seus cabelos enquanto os lábios de Caesar deslizavam em sua pele foi trancado a sete chaves em sua mente e ele se recusava a examiná-lo.
Um último beijo em sua omoplata transformou-se num suspiro, e então os lábios de Caesar envolveram seu lóbulo auricular. Foi difícil conter o gemido que surgiu em sua garganta.
Ao soltá-lo, Caesar sussurrou em seu ouvido, tão baixo e melancólico como uma prece:
— Sua expiação realmente será sua vida. Depois disso.
Won reprimiu um calafrio, forçou a respiração a manter-se regular. A cabeça de Caesar apoiou-se em seu ombro; ele sentiu seu maxilar tensionar contra seu pescoço. Um sopro quente, uma vibração contida.
— Você nunca mais pode me deixar.
Caesar puxou-o para mais perto, cada parte deles colada. Won deixou-se cair contra seu peito, mantendo a farsa do sono, mordendo o lábio por dentro. Esperou pelo inevitável.
Mas Caesar apenas manteve o abraço apertado, até que Won realmente adormecesse, ele não o soltou.
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Fiel ao seu exterior, o interior da mansão era igualmente grandioso. Corredores labirínticos alinhados com seleções refinadas de arte fina pareciam infinitos, enquanto as pinturas posavam nas paredes, implorando para ser apreciadas. E como alguém poderia dizer não a tanta beleza? A coleção devia valer milhões; ainda assim, como a casa, o hobby era apropriado para seu dono. Só o melhor para um Lomonosov.
Um mordomo conduziu o caminho até uma pequena sala de visitas, indulgente com o passeio leisurely do convidado daquele dia e suas paradas regulares diante de qualquer obra que chamasse sua atenção.
Finalmente, chegaram à sala de visitas, e o convidado acenou em agradecimento enquanto o mordomo segurava a porta aberta para ele. Ao entrar, se viu cara a cara com Mikhail Lomonosov.
O Lyev, como o chamavam. Estava envelhecido agora, seu corpo enfraquecido pela saúde frágil, mas um leão continuava sendo um leão, não importa quão velho. De fato, seu olhar era penetrante enquanto avaliava seu convidado.
— Leonid, presumo, disse ele calmamente, terminada sua inspeção.
Leonid assentiu, removendo o chapéu para manter a polidez.
— Ouvi dizer que você faz qualquer coisa, — Mikhail acrescentou. — Pelo preço certo.
— Verdade para a maioria de nós, eu diria, — respondeu Leonid.
O sorriso descontraído no rosto do homem contradizia sua verdadeira natureza. Ele poderia enganar qualquer um com aquele olhar, tão cheio de candura; ninguém adivinharia o que ele realmente era. Mikhail optou por ir direto ao ponto.
— Tenho alguém que quero que você encontre.
A declaração fez com que o mordomo se aproximasse e colocasse uma fotografia sobre a mesa para Leonid examinar. Seu ar amigável subitamente se transformou em perplexidade.
— Meu filho, — Mikhail continuou, ignorando a mudança na expressão de Leonid. — Desapareceu há cerca de uma semana. Disse que estava deixando o país, mas seu nome não apareceu em nenhum manifesto de passageiro, por ar ou mar. A única pista que temos é uma testemunha que o viu sendo levado por um carro, perto de uma das estações ferroviárias.
Um brilho sinistro surgiu nos olhos de Mikhail. — Um plano do herdeiro Sergeyev, não tenho dúvidas, cuspiu. — Encontre meu filho. Pagarei qualquer preço que você pedir. — Ele olhou para cima e viu Leonid estudando a fotografia. — E cuide do Czar, já que está nisso.
O último pedido foi puro ódio; e isso, pelo menos, era um sentimento que Leonid entendia completamente. Ainda com as sobrancelhas arqueadas, Leonid ergueu o olhar da foto e fez uma única pergunta.
— Este homem… é seu filho?
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Os olhos de Won encaravam vazios o teto – imóveis desta vez. De alguma forma, havia acabado.
Won não duvidava que o assédio teria continuado – tinha continuado, na verdade -, exceto que Won precisara de uma transfusão de sangue emergencial no oitavo dia, o que estragou os planos. Ele não queria imaginar por quanto tempo mais teria durado, caso contrário.
Era quase estranho – estar sozinho. Quase silêncio demais. O resíduo de som, um zumbido leve, persistia nos ouvidos de Won, preenchendo os vazios de seu corpo com um lembrete interminável do que acontecera antes.
Era o décimo dia agora, mas o primeiro sem Caesar. Ele permanecera sufocantemente próximo nos oitavo e nono dias, mas estivera ausente quando Won acordara naquela manhã. Distante, a pequena parte rebelde do cérebro de Won sussurrava que ele poderia se levantar; poderia escapar – mas sabia que isso era um castelo no ar, nada mais. Mesmo que Caesar quisesse que ele saísse, Won mal conseguia se mover, muito menos sair da cama sozinho.
Fechando os olhos, Won respirou fundo. Seu abdômen latejava quando o diafragma se expandiu, mas ele ignorou, pensamentos pesados eram mais dolorosos que qualquer incômodo físico. Ele passara de tentar se livrar completamente da situação para estar tão profundamente envolvido que não havia como se desvencilhar. Era um Nó Górdio, mas ele não era Alexandre.
Mikhail descobriria o que acontecera e certamente culparia Caesar por isso. Ele atacaria, uma guerra poderia eclodir, Caesar retaliaria. Provavelmente ficaria mais que feliz em retaliar, sinceramente. E não era como se Won pudesse dizer-lhes para não o fazerem; sua rixa era mais profunda que a conexão com Won, e eles não tinham obrigação de ouvi-lo. Não que ele tivesse qualquer influência sobre como viviam suas vidas, de qualquer forma.
Won soltou o ar que prendia, lenta e longamente – uma tentativa de aliviar a ansiedade que ameaçava estrangulá-lo. Olhos vidrados se voltaram para a janela. Estava nevando.
A dor subiu, para a esquerda, atravessou seu coração. Ele olhou – por um longo tempo; até que, finalmente, se levantou.
— Hmm, certo. Estou quase saindo. — Caesar equilibrou o telefone no ombro, mantendo-o pressionado contra o ouvido, enquanto ajustava as manchetas. — A tempestade chegou, então talvez… uma hora…
Sua voz sumiu, movimentos desacelerando, olhos fixos em algo lá fora, na janela.
— Melhor dizer duas.
Não esperou por uma resposta antes de desligar e se apressar para a porta.
Won vestia uma camisa social branca, e nada mais. Doía, o frio cortante em seus pés descalços enquanto avançavam pela geada – mas, de certa forma, ele gostava disso. Esticou a língua enquanto cambaleava, um floco de neve fofo pousando nela, derretendo em água.
Ele se sentia… limpo.
Lá fora, no silêncio, no ar gelado e no sussurro dos flocos, a geada agulhando o espaço entre seus dedos, adagas de gelo mordendo seus pulmões, o derretimento da neve refrescando sua garganta.
Ele estava vivo.
Fechou os olhos, deixou mais flocos pousarem em sua língua enquanto tropeçava. Não lembrava a última vez que respirara tão profundamente. Quanto tempo havia passado desde seu último cigarro? Não conseguia recordar, mas devia ter sido um bom tempo, pois a passagem fácil do ar por seus pulmões era estranha.
Passos interromperam esse fluxo de pensamento.
Won olhou por cima do ombro, sem surpresa ao encontrar Caesar parado um pouco atrás dele. Surpreendeu-se, no entanto, quando seus olhos pularam para baixo e viram que Caesar estava de mãos vazias. Ele não achou que Won estava fugindo?
Caesar percebeu o movimento e pareceu saber exatamente o que Won procurava. — Ninguém iria longe nesse estado. Nem mesmo você. — Seu sorriso era pequeno, arrependido.
— E a qual estado você estaria se referindo? — Won cortou; e, não sem dificuldade, cruzou os braços. — Quer dizer o fato de que levei três tiros? Ou que você tentou me foder até a morte por oito dias?
Caesar encolheu os ombros. — Não vou atirar em você de novo. Se vamos por esse caminho, melhor escolher a opção mais prazerosa das duas.
Won zombou, voz ácida. — Tenho certeza que só um de nós aproveitou isso.
— Melhor um do que nenhum, não? — Caesar disse, perfeitamente casual, como se comentasse sobre o tempo.
Won fumegou. Aquele insuportável, insolente desgraçado. Queria pegar o objeto sólido mais próximo e esmagar o rosto de Caesar com ele.
Seus dedos se flexionaram, ardendo por algo para arremessar, mas ele sabia (tragicamente) que não tinha força para isso. Até uma bola de neve estava além de suas capacidades no momento.
Mal estava a duas dezenas de metros da casa, e já sentia como se fosse desabar a qualquer segundo.
Falando nisso, foi quando o frio decidiu atingi-lo. Ele se esforçara demais e tinha apenas alguns pedaços finos de algodão para protegê-lo dos elementos. Uma onda de calor entorpecente lavou seus membros antes de se estabelecer em um desconforto gélido. Seus pulmões, que pareciam funcionar tão bem há um ou dois minutos, agora lutavam para obter oxigênio suficiente.
De repente, um peso em seus ombros – e calor o envolveu. O casaco de Caesar. Ele não agradeceu, mas era um alívio bem-vindo, de qualquer forma.
Caesar estava muito perto agora. Sem palavras, estudou a reação de Won, apreciando como seu casaco engolia a estrutura menor de Won. E então, não pôde evitar – passou os dedos pela bochecha de Won, rosada pelo frio. Era um sopro de calor na pele de Won, desaparecendo tão rápido quanto veio.
Observou, impassível, enquanto Caesar inclinava a cabeça e esperava, como se estivesse dando a Won uma saída – tempo para recuar ou empurrá-lo. Won não fez nenhum dos dois.
Mesmo quando Caesar baixou a cabeça, Won não se afastou ou saiu de alcance. Aceitou o beijo – outro ponto brilhante de calor em seu corpo congelado; exceto que, desta vez, permaneceu. Uma leve pressão contra a linha de seus lábios, e Won se abriu prontamente para a língua de Caesar.
Não fez mais nada.
Nenhum braço puxando Caesar para mais perto, nenhuma mão alcançando para percorrer bochechas de veludo e cabelos de cetim. Não havia motivo.
Won não podia impedir Caesar de fazer o que quisesse com seu corpo. Mas nada o obrigava a corresponder, no entanto.
Assim, como em sua experiência nos últimos dez dias, Won não lutou contra os caprichos de Caesar, mas ninguém disse que ele tinha que gostar.
Quando Caesar se afastou, olhou para Won com aquela equanimidade irritante – até que não mais. A fachada vazia se transformou em choque.
— Você não mordeu minha língua. — Parecia quase chocado, como se tivesse descoberto alguma verdade arcaica do universo, tão grande era a revelação.
Won deu-lhe um olhar cortante. — Você estava sob a impressão de que eu faço o que você quer?
Os lábios de Caesar se separaram levemente, uma inspiração quase imperceptível, então ele jogou a cabeça para trás – e riu.
Riu tanto que se dobrou, ofegante. Era diferente de tudo que Won já testemunhara de Caesar antes. Se fosse qualquer outra pessoa, Won poderia ter rotulado a ação como gargalhadas, ou risadinhas, ou qualquer número de descritores pouco lisonjeiros. No caso, Won estava mais perplexo que qualquer coisa e demasiado perturbado para se importar com como chamar a exibição. Talvez devesse tê-la mordido. A língua de Caesar, quero dizer. Ele teria dificuldade em rir de Won então, não teria?
Won permaneceu completamente impressionado quando Caesar finalmente se acalmou o suficiente para ficar em pé, observando o homem com uma sobrancelha arqueada e dúbia.
Ainda assim, Won não estava preparado para Caesar agarrá-lo pela cintura e prontamente cair no chão.
A adrenalina disparou na corrente sanguínea de Won no segundo em que estavam em queda livre, mas quando entendeu o que estava acontecendo, Caesar já estava deitado na neve – de terno, Won percebeu tardiamente – e Won estava equilibrado sobre o peito de Caesar.
Caesar olhou fundo em seus olhos e acariciou sua bochecha.
— Tenho uma reunião hoje, — disse a Won, quieto, baixo. Isso explicava o terno, mas não porque Caesar encharcaria as costas dele com neve derretida. — Não deve demorar.
A outra mão de Caesar rastejou para a parte de trás da cabeça de Won, puxando-o para mais perto. Quando seus lábios se encontraram novamente, Caesar soltou um gemido de desejo na língua de Won e o puxou para mais perto. A mão na bochecha de Won escorregou, deixando um rastro de calor em seu rastro, marcante contra o ar frio. Dedos pairaram entre o casaco e a camisa de Won, deslizando por suas costas até a barra da camisa, virando-a para cima, dando a Caesar acesso fácil às nádegas de Won.
Caesar espalhou a mão sobre uma das nádegas de Won e apertou.
— Volto logo.
Como com o sexo, o beijo e tudo mais, Won não deu reação; apenas olhou de volta em silêncio.
Em vez de ficar chateado, aquele pequeno sorriso arrependido reapareceu nos lábios de Caesar, conhecedor em sua forma. Até os olhos cinzentos de Caesar pareciam brilhar com emoção.
E ainda, Won não lhe deu nada.
✦ ✦ ✦
O discreto clube nos arredores da cidade não ficava tão longe da dacha de Caesar onde ele levara Won em vez da mansão. Apesar da imposição da pesada neve, ele fez bom tempo.
Deslizando pelo segurança na entrada, Caesar encontrou uma gerente esperando para acompanhá-lo, mas ela era a única pessoa nas proximidades; o clube estava fechado para o inventário mensal. Com a música estrondosa e a aglomeração de corpos ausentes, Caesar foi conduzido através de um salão principal ensurdecedoramente silencioso, descendo até as entranhas do clube. Quando chegaram à sala mais interna, a gerente segurou a porta aberta para ele, depois se tornou escassa.
A aparição de Caesar no limiar provocou um silêncio desconfortável na sala de reuniões, os murmúrios alegres abruptamente silenciados.
Quase todos já estavam lá, bebendo em volta da longa mesa que ocupava a maior parte do espaço. Seus olhos seguiram Caesar enquanto ele começava a se dirigir à cadeira na cabeceira da mesa. Ele não reagiu, mas podia senti-los.
— Olha, olha! Vejam quem finalmente decidiu aparecer.
A voz de Dmitri atrás dele foi acompanhada por uma palmada fraternal no ombro. Caesar se virou justamente a tempo de capturar o sorriso satisfeito de si mesmo no rosto de Dmitri antes que seu primo se curvasse em uma falsa reverência.
— Altíssimo, poderosíssimo e potentíssimo Caesar – seu trono o aguarda, — disse Dmitri com floreios, afetando um sotaque elegante.
Além de uma pequena ruga na testa, Caesar não fez nada – longe demais acostumado com os dramas de Dmitri para se entregar às antigas de seu primo.
Assim, ele se virou novamente e começou a se dirigir mais uma vez à cabeceira da mesa. Cada toque de suas solas no chão polido era ensurdecedor no silêncio absoluto.
— Certo, acredito que estamos todos, — disse Dmitri alegremente enquanto ocupava o assento ao lado de Caesar. — Vamos começar?
— Certamente, disse Tyutchev do outro lado de Caesar, trocando um olhar significativo com Dmitri.
Ao redor da mesa, os copos foram reabastecidos e todos brindaram a uma reunião frutífera, esvaziando suas bebidas de uma só vez, Caesar incluído.
Os olhos de Dmitri pousaram no copo vazio à frente de seu primo.
— Você está com melhor aparência, primo, — ele arrastou as palavras, enchendo o copo de Caesar até a borda. — Resolveu aqueles problemas que estava tendo?
— Não. — Caesar esvaziou seu segundo shot.
Dmitri já estava com a garrafa pronta antes mesmo que o copo tocasse a mesa.
— Que pena, — Dmitri comiserou com um estalo de língua. — Mas todos ficaram tão felizes em ver aquele advogado finalmente desistir de sua insistência. E pensar que ele era secretamente filho de Lomonosov? Sem vergonha.
Dmitri balançou a cabeça exageradamente. Um coro silencioso de concordância surgiu ao redor da mesa.
— Nada a fazer, quando se é da linhagem Lomonosov, — fungou um homem.
— Vergonhoso para um russkiy se rebaixar com todos aqueles repugnantes estrangeiros. Malditos vyrus, — resmungou outro em seu shot.
(Russkiy = Palavra em Russo para pessoa de etnia russa / Russo Puro) / (Vyrus = apelido ofensivo que compara russos a um “vírus”)
— Uma vergonha para todos nós, aceitar narusi em suas fileiras—
(Narusi = expressão antiga que quer dizer “na Rússia”)
— Chega.
Bocas se fecharam abruptamente e os homens trocaram olhares desconfortáveis.
— Vamos, Caesar, eles só estão se divertindo um pouco, disse Dmitri. — Quero dizer, não que nada disso seja mentira. — Dmitri sorriu, o gesto carregado de uma impertinência proposital. — O garoto advogado era um mestiço uzkoglazyy, e isso é simplesmente a verdade.
(Uzkoglazyy = xingamento racista usado contra asiáticos – referindo-se aos olhos puxados)
Zombarias de concordância sobre olhos feios foram rapidamente silenciadas por um olhar ameaçador de Caesar. Ele então voltou toda sua fúria contra seu primo, deixando todos se contorcerem enquanto deixava claro seu desagrado.
— Repita isso, — ele rosnou, quase baixo demais para ouvir, — e eu mesmo arrancarei sua língua.
Dmitri arqueou uma sobrancelha. — Por que motivo?, — perguntou, blasé. — É só uma brincadeira inofensiva. Certo? — Ele lançou um olhar ao redor da mesa, buscando apoio.
Como se combinado, Tyutchev veio em auxílio de Dmitri.
— Eles são vira-latas; estão abaixo de nós. Me pergunto por que tais sentimentos o afetariam tanto.
— Eu disse chega, Caesar cortou. O silêncio sufocante retornou e ninguém ousou se mover. Alguns segundos se passaram antes que Dmitri finalmente dissesse algo.
— Sabe, — ele começou, tom muito mais sério agora. — Você nunca se importou antes. Todos dizíamos o que queríamos sobre a escória narus e você nunca pestanejou. — Ele se recostou e cruzou os braços. — O que mudou, Caesar?
Caesar o considerou por um longo momento carregado. — Você frequentou as mesmas aulas de postura que eu, Dmitri. Aparentemente, você esqueceu a regra de ouro.
Dmitri murmurou, assentiu. — Sim, suponho que sim. — A fachada indolente caiu. — Mas pelo menos eu sempre lembrarei que mestiços e nerusi são o mais baixo dos baixos.
Alguns murmúrios de concordância surgiram ao redor da mesa.
— Quem se importa com alguns nerusi nojentos?, — cuspiu um homem. — Piores que insetos. Não merecem nosso respeito.
(Nerusi = pessoas que não são russas)
— É, você pode pisar neles o quanto quiser, mas sempre vão aparecer mais deles rastejando das fendas. — O segundo homem fez uma careta. — Eles são o que nos impede, mantendo a Rússia longe da grandeza.
— O que eles fazem não é da nossa conta, — Caesar interrompeu, voz afiada. — Eles podem fazer o que quiserem, assim como nós.
— Não é da nossa conta?, —Tyutchev repetiu em descrença. — E o que, exatamente, é da nossa conta? Aparentemente, você quer que todos nós nos curvemos e aceitemos qualquer merda que jogarem em nós, agradecendo depois. O que vem a seguir – paramos para engraxar seus sapatos quando passamos na rua?
A testa de Caesar se franziu. Aquelas eram perguntas carregadas, feitas para provocar.
— Não seja ridículo, —chamou um terceiro homem. — O Czar nos disse para esperarmos o momento certo, não foi?
— Esperar o momento certo?!, — Tyutchev cuspiu de volta. — É só o que temos feito, e veja onde isso nos levou! Ficando esperando, fazendo nosso melhor para sermos o saco de pancadas de Lomonosov foi o que nos colocou nessa confusão em primeiro lugar! Como vocês suportam a humilhação?! Qualquer um de vocês! Seremos conhecidos como covardes pela cidade inteira. — Ele bateu o punho na mesa. — Você condenou nossa reputação, Czar! E eu quero saber o que você vai fazer a respeito!
Sussurros acalorados encheram a sala. Caesar tomou seu tempo, considerando cada homem um por um antes de responder.
— Muito bem, ele começou friamente. — Se eu entendi corretamente, vocês gostariam que subjugássemos e exterminássemos qualquer rossyane que encontrarmos – essa seria sua solução?
(Rossyane = pessoas que vivem na Rússia, de qualquer etnia)
— E por que não?!, — Tyutchev gritou. — Eles não são melhores que animais imundos! Nós somos puros! Nós somos o futuro da Rússia!
Ele estava agitado agora, bochechas vermelhas e saliva voando para a mesa a cada palavra. — Você é quem deveria tomar cuidado, Czar! Continue nesse caminho e não terei escolha a não ser contar a Sasha como seu filho está envergonhando o nome Sergeyev!
O peito de Tyutchev subia e descia enquanto encarava Caesar. Todos os outros se mexeram desconfortavelmente.
Com total calma, Caesar virou a cabeça levemente para encarar melhor Tyutchev.
— Não me lembro de genocídio fazer parte do modus operandi do Sindicato. De qualquer forma, fui eu o atacado; serei eu a julgar se nos ofendemos, e digo que não. Deixem pra lá.
Os espectadores estavam com os olhos arregalados, temendo respirar para não chamar atenção. Caesar não podia se importar menos e terminou seu próximo shot.
O tilintar do copo contra a madeira foi ensurdecedor no silêncio.
— Acho que é isso então, Czar. — A voz de Dmitri era baixa, calculada; sua mão letal e rápida. — Adeus, — ele sussurrou no ouvido de Caesar.
A dor explodiu no estômago de Caesar. Não houve tempo para reagir, nenhuma maneira de mitigar o dano. Nada a fazer a uma distância tão próxima e pego de surpresa, movimento dificultado pela cadeira e mesa mesmo se pudesse reagir. Caesar examinou os rostos ao seu redor – medo e triunfo em suas expressões.
“Você nunca sabe qual momento será seu último – e aquele momento finalmente chegara para Caesar. Ele sempre soubera que chegaria. Um dia.”
Sua cabeça rolou na cadeira para estudar Dmitri – seu primo, seu confidente, seu assassino.
Sangue jorrou em ondas carmesim pela sua frente, um caminho marcante de escarlate sobre o algodão branco. Espalhou-se em seu colo, escorreu até seus joelhos, derramou-se em uma poça sanguínea a seus pés. Caesar estendeu a mão, quase cegamente, para puxar Dmitri para perto, uma mancha grotesca marcando o branco imaculado do terno de Dmitri na forma da mão de Caesar.
Dmitri apenas sorriu. — Eu te avisei, — ele sussurrou. — Qualquer coisa, pelo preço certo.
De fato, ele avisara. Caesar deveria ter sabido melhor. Confiar em Dmitri foi um erro grave, e ele pagara por isso com sua vida.
A visão escurecendo, Caesar só pôde rir da ironia de tudo aquilo. Assassinado, assim como seu homônimo. A história realmente se repetia. Com suas últimas forças, ele inclinou a cabeça e pressionou os lábios de Dmitri contra os seus. Dmitri piscou, surpreso, enquanto um sorriso macabro aparecia no rosto de Caesar, que sussurrou:
— Et tu, Dmitri?*
Uma última risada quieta, e seus olhos se fecharam.
Continua…
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✦ Tradução, revisão e Raws: Belladonna
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*Essa frase é uma variação da famosa expressão latina “Et tu, Brute?”
Ler Roses And Champagne (Novel) Yaoi Mangá Online
Sinopse:
O advogado de direitos civis Lee Won atua na Rússia, defendendo clientes de baixa renda que não teriam acesso a um jurista. Um dia, ele visita o vereador Zhdanov para interceder por seu cliente Nikolai. Won desconhece que o político tem ligações com a máfia russa — até se deparar com César durante a reunião. E aquele homem de olhos prateados e cinzentos… era o mesmo com quem Won quase colidira na rua dias antes! Algo fora do comum está prestes a acontecer quando ele conhece César Aleksandrovich Sergeyev, o homem que em breve liderará um dos grupos mafiosos mais temidos do país.