Ler Projection (Novel) – Capítulo Parte 05 Online

Projection Vol. 1.5
Ting, o alicate caiu dentro da grande pia, fazendo um barulho estridente. Cheon Seju abriu a torneira, ensaboou as mãos até fazer espuma e lavou o sangue seco até que ficassem limpas. Quando finalmente suas mãos brancas e calejadas apareceram e ele fechou a água, Sunhyeok, que estava ao lado, estendeu-lhe uma toalha.
— O senhor vai sair imediatamente?
— Tenho que ir.
O segundo entregador levado pela equipe de limpeza declarou rendição após quase cinco dias. Alguém que não dissera nada mesmo tendo as unhas das mãos e dos pés arrancadas e a pele queimada em vários lugares, não aguentou nem meio dia após mencionarem sua família e confessou. O entregador disse que a droga desviada estava escondida dentro do próprio clube onde a mercadoria fora perdida, e a partir de agora Cheon Seju teria que ir buscá-la.
Lançando um olhar de soslaio para a silhueta estirada e coberta de sangue, Cheon Seju estalou a língua e saiu do escritório. Ao escapar do espaço sufocante e sem ventilação, finalmente pôde respirar. Parado no corredor, ele fumou vagarosamente o cigarro que Moon Sunhyeok acendera para ele.
Alguns fios de cabelo suados grudavam em sua testa. O olhar de Sunhyeok passou de relance pelos lobos das orelhas e bochechas de Seju, avermelhados pelo calor. Cheon Seju fingiu não notar e passou a mão pelo cabelo. Ele não sabia quando tinha crescido tanto, mas os fios que restavam em sua mão estavam longos.
— O que faremos com o entregador.
— Dê um jeito nele.
— O senhor fará pessoalmente?
Diante da pergunta de Sunhyeok, Cheon Seju alongou os lábios e soltou um som gutural. O estado do entregador não era nada bom. Não estava prestes a morrer imediatamente, mas se fosse deixado daquele jeito, havia uma alta probabilidade de desenvolver sepse em um ou dois dias. Por isso, seria melhor dar um fim logo, mas ele não sabia quanto tempo levaria para resolver as coisas no clube. Afinal, assim que encontrasse a droga, haveria mais trabalho a fazer.
Após pensar por um momento, Cheon Seju balançou a cabeça. Entre em contato com o Dharma. Diante dessa ordem, Sunhyeok respondeu brevemente e pegou o celular.
O método para lidar com os sujeitos levados ao escritório já estava definido. Morrer ali era quase uma sorte. Pois poderiam desaparecer do mundo sem dor. No entanto, aqueles que permaneciam vivos de forma precária como aquele homem não tinham um bom final. A maioria tinha o abdômen aberto ainda vivo para o tráfico de órgãos e, às vezes, eram entregues ao corretor que fornecia drogas para os clubes, apelidado de Dharma.
Ninguém sabia o que acontecia com os que eram levados pelo Dharma. Circulavam rumores de que ele realizava atos próximos a experimentos humanos, mas a veracidade era incerta. De qualquer forma, como isso diminuía suas preocupações, Cheon Seju costumava chamar o Dharma com frequência. Além disso, aquele entregador quase causara um grande prejuízo ao Dharma ao desviar a droga, então parecia ainda mais adequado que ele fosse para aquele lado.
Enquanto ouvia o sinal de chamada baixo, Sunhyeok disse:
— De fato, o Dharma ligou mais cedo. Ele pediu expressamente que entregássemos este sujeito a ele.
— É? Eles também devem estar furiosos. Que bom. Diga para buscá-lo depois que encontrarmos a mercadoria.
Enquanto Sunhyeok falava ao telefone com o Dharma, Cheon Seju subiu as escadas e dirigiu-se ao escritório no segundo andar. Ao entrar, os membros da equipe de limpeza, que realizavam suas respectivas tarefas, cumprimentaram Seju com o olhar. Ele se aproximou de quem estava sentado perto da porta de entrada.
— Onde está Jinyeong.
Seo Jinyeong, o quarto membro da equipe de limpeza, estava em trabalho de campo. Ele fora o responsável por tirar a foto do sobrinho que fizera o entregador abrir a boca. Diante da pergunta, Haeung, que digitava no teclado, piscou e disse:
— Ainda está monitorando o alvo. Quer que eu o chame?
Sim, respondeu Cheon Seju brevemente, enquanto pegava uma cerveja na geladeira do escritório. Ele abriu a lata e bebeu sem respirar, fazendo Haeung, que ligava para Seo Jinyeong, balançar a cabeça como se estivesse horrorizado.
— Diretor, o senhor não enjoa de álcool? O senhor bebe mesmo como se fosse água.
— Aquela é a água da vida do Diretor.
Diante do que Yoon Cheolju disse enquanto digitava ao longe, Haeung caiu na gargalhada. Cheon Seju franziu o cenho e atirou a lata vazia no sujeito que mencionou a água da vida. Quando Yoon Cheolju soltou um grito de dor ao ser atingido na cabeça pela lata, a risada de Haeung ficou ainda mais forte. Cheon Seju massageou as têmporas latejantes e disparou insultos contra eles.
— Porra, se sabem que é a água da vida, comprem um pouco. Não fiquem só pegando escondido.
Mesmo enchendo a geladeira com caixas de cerveja, bastava ele se ausentar por um momento para que quatro ou cinco latas sumissem. Sabendo que aquilo era obra de sujeitos como Haeung, ele fingia não ver, mas eles estavam ficando abusados. Diante da observação de Cheon Seju, os dois fecharam a boca como se tivessem combinado. Ao vê-los fingindo estar concentrados no trabalho novamente, ele apenas soltou uma risada incrédula.
Foi nesse momento que Kim Donggil, da Shinsa Capital, ligou. Como Kim Donggil sempre trazia problemas irritantes toda vez que entrava em contato, Cheon Seju encarou o celular com um rosto descontente antes de atender.
— O quê.
— Irmão, dormiu bem esta noite?
Ele não sabia o que o sujeito, com a boca cheia de bajulação, pretendia dizer desta vez. Cheon Seju, parado de forma torta, aumentou o volume do celular. Pegou uma maçã que Haeung comprara na geladeira, deu uma mordida e respondeu:
— Por que ligou.
Mesmo com seu tom de voz frio, Kim Donggil não se intimidou.
— Liguei porque queria ouvir a voz intensamente bonita do meu irmão. Não, na verdade, não é por nada demais. É que apareceu um mendigo aqui embaixo no primeiro andar, e eu queria pedir para o senhor tirá-lo daqui…
Este idiota enlouqueceu. Agora ele quer que eu tire até mendigos. Ao ouvir as palavras de Kim Donggil, Cheon Seju achou aquilo um absurdo e desligou o telefone sem nem responder. O celular tocou novamente em seguida, mas ele recusou a chamada e chegou a bloqueá-lo.
Shin Kyoyeon ordenara que ele impusesse disciplina na Shinsa Capital, não que ficasse limpando a bagunça deles. Exceto pelo dia em que foi à Shinsa Capital castigar os dois líderes de uma briga de gangues, as tarefas que Cheon Seju realizava ali eram quase todas serviços banais. Por ter sido tão condescendente, agora queriam que ele fizesse coisas sem o menor sentido. Cheon Seju levantou-se pensando que deveria falar com Shin Kyoyeon em breve para se afastar daquele lugar.
Entrou na sala anexa ao escritório e trocou de roupa. Ao sair da sala vestido com um terno reserva, Sunhyeok, com o celular na mão, o chamava do lado de fora. Parecia que o contato havia terminado.
— Vou buscar a mercadoria no clube, quem vem comigo?
Ele pegou novamente a maçã que deixara sobre a mesa. Quando perguntou com a pronúncia abafada enquanto dava uma grande mordida e mastigava, Haeung, que de alguma forma entendeu, ergueu a mão vigorosamente.
— Eu!
— Vamos sair.
— O quê, para onde vocês vão?
Yoon Cheolju, que percebeu tardiamente que Cheon Seju estava procurando alguém para acompanhá-lo, levantou-se com os olhos brilhando como uma hiena, mas já era tarde. Cheon Seju empurrou as costas de Haeung, acenou com a mão de qualquer jeito e saiu do escritório.
Diferente da Shinsa Capital, que estava cheia de cabeças ocas, os membros da equipe de limpeza de Cheon Seju eram todos astutos e inteligentes. Yoon Cheolju formara-se em uma universidade de prestígio e trabalhava como hacker, e o mais jovem, Haeung, era um talento vindo da academia de polícia.
Havia apenas uma razão para Gu Haeung, o filho único da terceira geração da família Gu, não ter se tornado um policial respeitável formado pela academia e estar aqui fazendo isso. Era devido ao seu transtorno explosivo intermitente e a um senso moral ligeiramente desviado das normas sociais.
— O Diretor atrás, atrás, no banco de trás!
Embora vivesse brigando com Seo Jinyeong, o outro membro da equipe, e ocasionalmente o enfrentasse, para Cheon Seju, Haeung era apenas o caçula adorável. Haeung sorria ingenuamente enquanto empurrava Cheon Seju para o banco de trás. É claro que não era por respeito ao “irmão mais velho”, mas sim porque ele sabia que Seju dirigia de uma forma péssima. Os membros da equipe de limpeza evitavam ao máximo deixar o volante nas mãos dele.
Sunhyeok dirigia. Usando um sedã preto para fins de trabalho, os três dirigiram-se para Cheongdam-dong, onde o clube se localizava. Enquanto Cheon Seju, que passara a noite em claro, deitava no banco de trás para cochilar um pouco, Moon Sunhyeok despejava sermões em Haeung. Eram principalmente palavras para acalmar Haeung e seu transtorno explosivo.
Haeung, que respondia mansamente com “sim, sim”, parecia não estar pensando em nada. Ao perguntar se poderia ganhar algo para comer, parecia que ele viera junto para o clube apenas porque estava com fome. Já que o robusto Haeung estava sempre com fome. Cheon Seju oscilava na fronteira do sono ouvindo as vozes dos dois que soavam vagamente.
— Irmão Sunhyeok.
Nesse meio tempo, Moon Sunhyeok recebeu uma ligação. Como Cheon Seju não atendia o telefone, Kim Donggil mudou o alvo para Sunhyeok. Quando ele conectou a chamada via Bluetooth, a voz detestável ecoou dentro do carro. Graças a isso, as pálpebras de Cheon Seju, que despertara do sono, moveram-se levemente.
— O que foi.
— Por acaso o senhor está com o Diretor Cheon?
— Por quê.
Sunhyeok, que observou a reação do Cheon Seju deitado pelo retrovisor, respondeu brevemente. Então Kim Donggil soltou um suspiro profundo e começou a explicar com um tom de voz que apelava para a compaixão, diferentemente de antes.
— Sabe aquele garoto? Aquele pirralho que estava choramingando semana passada querendo ver a mãe. Ele apareceu de novo e está acampando no corredor, e eu não sei o que fazer. Mandei ele sumir, mas ele disse que se eu encostar a mão nele ele chama a polícia, o desgraçado… eu não posso nem bater nele…
Ha. Cheon Seju, que estava deitado com o braço sobre a testa, soltou uma risada anasalada e abriu os olhos. Não, ele saiu tão confiante e, no fim, por não ter solução, está morando na rua? Ele perdeu o sono por achar aquilo um absurdo. Quando ele se ajeitou no banco, Sunhyeok perguntou olhando de relance para trás:
— Então, é para tirá-lo de lá?
— Simm. O senhor não disse que me mataria se eu causasse problema de novo? Se os tiras vierem, acho que só o nosso pessoal vai levar bronca, por isso estou avisando.
Havia um motivo para ele ter ligado sem conseguir expulsar o mendigo pessoalmente. De fato, parecia que Kwon Sejin tinha um temperamento capaz de fazer um escândalo e reunir toda a vizinhança se alguém encostasse um dedo nele.
— Então por que não liga primeiro para a polícia e diz que tem um menor de idade vagando sem os pais?
— Ah…
Como se respondesse a uma pergunta tola com uma solução óbvia, a resposta monótona de Sunhyeok fez Kim Donggil soltar uma exclamação, como se tivesse tido uma epifania. Mas logo ele perguntou de volta:
— Mas se o cara for pego pela polícia e disser que nós sequestramos a mãe dele, não vai ser um problemão?
— Se vierem, diga para apresentarem provas. Eles não podem vasculhar o escritório sem um mandado, o que poderiam fazer?
— Mas mesmo assim.
— Se te incomoda, apenas deixe-o lá.
— Mas ele também…
Parecia que Kwon Sejin incomodava Kim Donggil consideravelmente. Diante daquela enrolação contínua, Cheon Seju, não aguentando mais ouvi-lo, abriu a boca.
— Ei, apenas deixe-o em paz.
— Irmão? Como assim deixar em paz? O senhor não sabe como ele me encara toda vez que passo pelo corredor…
— Se eu disse para deixar, deixe, seu idiota.
A irritação subiu. Ele achou patético que um sujeito assustadoramente grande como aquele estivesse naquele dilema de chamar ou não a polícia por causa de algo tão pequeno que o incomodava. Diante da voz arrepiante de Cheon Seju, Kim Donggil resmungou um “entendido” e desligou o telefone. Logo um silêncio frio instalou-se no carro.
Tanto Sunhyeok quanto Haeung perceberam que o humor de Cheon Seju havia piorado e não tentaram puxar conversa. Ele não sabia por que estava tão irritado, mas também não queria fingir que estava tudo bem à força, então permaneceu calado.
Nesse estado, o carro parou em frente a um prédio em Cheongdam-dong. O local onde o entregador escondera a droga era um clube social administrado por Shin Jihan. Shin Jihan era um dos cinco filhos do presidente Shin Gyeongju, o líder da DG, e era irmão de Shin Kyoyeon, o superior de Cheon Seju, além de ocupar o cargo de representante da DG Entertainment.
O clube que ele administrava não era um lugar onde qualquer um pudesse entrar. Como funcionava sob um sistema de membros, era um local fechado onde pessoas comuns não podiam sequer entrar no estacionamento sem uma carteirinha de membro ou estarem acompanhadas por um. Por isso, o sedã deles também teve a entrada barrada no estacionamento.
— Quem são os senhores?
Diziam ser segurança, mas era um homem que não passava de um gângster, exibindo músculos peitorais que pareciam prestes a explodir e lançando um olhar ameaçador. Moon Sunhyeok abaixou o vidro traseiro sem dizer nada. Cheon Seju, sentado atrás do motorista, vasculhou o peito e tirou um cartão de visitas. Ao entregá-lo ao segurança, o homem examinou o cartão virando-o de um lado para o outro como se distinguisse uma falsificação. Então, parecendo convencido de que era autêntico, curvou o corpo a 90 graus e cumprimentou:
— Olá, Diretor Cheon Seju. Vou guiá-los para dentro.
A cancela subiu e o sedã entrou no estacionamento subterrâneo. Cheon Seju recebeu o cartão de volta, onde se lia “Diretor da Sala de Planejamento Estratégico da DG O&M”, e guardou-o novamente no peito. A empresa de investimentos chamada DG O&M era administrada pelo sucessor da DG, Shin Kyoyeon, e pertencer à sala de planejamento estratégico daquela empresa significava que Cheon Seju era um subordinado direto de Shin Kyoyeon. Aquele cartão de visitas era, na prática, um passe livre para entrar em qualquer prédio pertencente à DG.
Eles estacionaram perto do elevador e os três, liderados por Cheon Seju, subiram imediatamente ao quinto andar. Ao saírem do elevador, o corredor que se estendia diante deles estava silencioso como um cemitério. Não era horário de movimento e, como o isolamento acústico era excelente, mesmo que alguém gritasse desesperadamente lá dentro, não seria ouvido do lado de fora. Cheon Seju caminhou sem hesitar. Ele já sabia onde a mercadoria estava escondida.
Finalmente, ao encontrar a sala 13, localizada no centro do corredor, ele girou a maçaneta. Mas a porta estava trancada. Franzindo o cenho, Cheon Seju olhou ao redor, avistou uma câmera que o observava em um canto do teto e fez um sinal para ela. Alguns minutos depois de ter feito o sinal com os dedos, um homem vestindo um terno sob medida apareceu diante deles. Era o gerente que administrava o clube.
— Abra a porta.
Diante daquelas palavras ditas com um movimento de queixo abrupto, o homem mostrou uma expressão embaraçada. Os dois já se conheciam. Cheon Seju estreitou os olhos silenciosamente. Ao ver que ele hesitava em abrir a porta mesmo sabendo quem ele era, parecia que quem estava lá dentro era algum tipo de figurão importante.
— Quem é. Um parlamentar?
Diante da pergunta de Cheon Seju, o gerente balançou a cabeça. Se não era um parlamentar, seria algum herdeiro rebelde de um conglomerado? Mas o gerente balançou a cabeça novamente para aquela pergunta. Se não fossem esses dois, não havia motivo para hesitar. Irritado, Cheon Seju soltou um suspiro e perguntou novamente:
— É um executivo?
— Sim…
Qual sujeito audacioso estaria usando drogas aqui em plena luz do dia? Havia dois nomes que lhe vinham à mente, mas, de qualquer forma, eles não eram pessoas pelas quais Cheon Seju devesse esperar. Mesmo que o presidente Shin Gyeongju estivesse lá dentro, se ele dissesse que veio sob as ordens de Shin Kyoyeon, a situação seria aceita; quem eles pensavam que eram? Como a recuperação da mercadoria era a prioridade, Cheon Seju notificou o gerente:
— Se não abrir, eu vou arrombar. Abra.
— Ha, Diretor… Então, por favor, me dê uma cobertura…
O gerente, inquieto, disse aquilo e tirou uma chave do bolso, inserindo-a na fechadura. Ouviu-se o som do destravamento e a porta se abriu. Cheon Seju franziu o cenho intensamente diante do cheiro azedo que vazava pela pequena fresta.
— Porra… quem diabos… abriu a porta…
A voz que soou lentamente era familiar. Ao reconhecer que era a voz de Han Jonghyun, Cheon Seju barrou Sunhyeok e Haeung que tentavam entrar. Han Jonghyun, que já tinha um temperamento terrível, era conhecido por ser especialmente escroto com os subordinados. Além disso, pelo ambiente, parecia que ele tivera uma noite de farra pesada; não seria uma cena agradável para Haeung, que tinha apenas vinte e cinco anos, presenciar. Ele entrou sozinho e chamou por Han Jonghyun.
— Diretor Executivo Han.
A porta se fechou. Com o desaparecimento da luz que vinha de fora, restou apenas a luz fraca da iluminação indireta no interior sombrio. Cheon Seju observou o quarto com um rosto que se tornara inexpressivo.
— O quê…
O interior estava um caos. Taças e petiscos de frutas murchas estavam espalhados por toda a mesa, e vários preservativos usados e descartados estavam caídos no chão. O cheiro de maconha estava impregnado no ar e, em um canto da mesa, até seringas rolavam. Era uma cena repugnante.
Contudo, ao contrário dos vestígios deixados por vários, a única pessoa que restava era Han Jonghyun. O homem alto e esguio estava estirado no sofá. Talvez sentindo um calafrio no tronco nu devido ao vento que soprou quando a porta se abriu, ele acariciou os próprios braços com as mãos e levantou a cabeça na direção de onde veio o som.
O foco estava turvo em seus olhos injetados de sangue. Han Jonghyun, de face pálida, fungou e balançou a cabeça algumas vezes antes de levantar o tronco e sentar-se encostado no sofá. Soltando um suspiro lânguido, enquanto ele recobrava a consciência, Cheon Seju tirou um canivete do peito. E começou a procurar a mercadoria sem hesitar.
Havia assentos em formato de semicírculo no quarto. O entregador dissera que escondera a droga dentro do estofamento daquele sofá. Com o som arrepiante do couro do sofá sendo rasgado, Han Jonghyun arregalou os olhos. Seu olhar estreito observou a figura de Cheon Seju.
— Quem é este. Não é o nosso Diretor… Ai! Porra… O que você está fazendo, afinal…
Talvez estivesse grogue, pois parou de falar e bateu a cabeça na mesa; Han Jonghyun soltou um palavrão baixinho e levantou a cabeça. Ele esfregou a testa avermelhada e inclinou a cabeça enquanto falava com Cheon Seju.
Mas ele não estava com humor para conversar com um viciado. Cheon Seju ignorou sua pergunta e voltou os olhos para o próximo assento. Novamente, o canivete cravou-se de forma arrepiante e rasgou o couro.
— Ei, me dê um pouco de água…
Talvez estivesse com a garganta seca, pois Han Jonghyun disse isso enquanto acariciava o pescoço exposto. Cheon Seju olhou-o de relance, pegou uma das garrafas de água mineral que rolavam sobre a mesa e a atirou. A garrafa atingiu a cabeça de Han Jonghyun e caiu rolando pelo chão. Um grito carregado de irritação ecoou.
— Ai! Porra! Você fez de propósito!
Parece que foi uma dor que o despertou de vez. Diante da voz que se tornou nítida, Cheon Seju deu de ombros fingindo ignorância. E mudou-se para o próximo sofá. Ele queria encontrar a droga e voltar logo, mas a mercadoria não se revelava facilmente. Enquanto isso, ele se aproximava de Han Jonghyun, que estava sentado no centro do sofá, o que lhe causava repulsa. Sentindo o cheiro de maconha cada vez mais forte, ele continuou o que fazia com o semblante endurecido.
— Sujeito mal-educado…
Nesse ínterim, Han Jonghyun resmungava enquanto olhava para Cheon Seju, abriu a tampa da garrafa de água que pegou do chão e despejou-a sem piedade sobre o próprio rosto. Ele colocava a língua para fora para beber a água que caía em cascata, passava a mão pelo rosto como se estivesse se lavando e, quando a água acabou, atirou a garrafa pet vazia em qualquer lugar. Era uma imagem verdadeiramente patética.
— Haa, que calor…
Cravou, rasgou; novamente o couro foi dilacerado. Mas a mercadoria não apareceu desta vez também. Ele certamente não havia mentido. Cheon Seju desviou o olhar com o cenho franzido. O próximo era o lugar onde Han Jonghyun estava sentado.
— Saia da frente.
Diante do que ele disse com desdém, Han Jonghyun, que estava estalando os lábios por causa da água que caía, arregalou os olhos. Então, como se tivesse ouvido algo inadmissível, levantou a mão, apontou para si mesmo e perguntou: “Eu?”. Quando Cheon Seju assentiu, ele soltou uma risadinha anasalada, como se achasse aquilo um absurdo.
— Haha, quem você pensa que é para dizer ao Diretor Executivo para sair ou não… Aaai! Porra!
Cheon Seju não esperou por Han Jonghyun. Cravou o canivete entre as pernas dele, que estavam bem abertas.
Os olhos arregalados baixaram. Por um instante, Han Jonghyun gritou achando que ele ia cortar seu pau, mas ao perceber que a lâmina rasgara o sofá, arquejou pesadamente. Logo, parecendo ferido em seu orgulho por ter sentido medo, ele rangeu os dentes com o rosto vermelho. Esse filho da puta; ignorando o som dele mastigando insultos, Cheon Seju concentrou-se na sensação que a ponta da lâmina captava. Havia algo lá dentro.
— Você realmente…
— Fique quieto um pouco.
Cheon Seju manteve o contato visual com Han Jonghyun, que estava prestes a explodir de raiva, e estendeu a mão entre as pernas dele. O homem endureceu o corpo ao interpretar mal aquele gesto.
— O que é isso…
A face repugnante empalideceu. “O quê?”, respondeu Cheon Seju em silêncio enquanto enfiava a mão por dentro do assento do sofá. Então, houve algo que seus dedos tocaram. Segurando um pote de plástico rígido, Seju retirou-o sem hesitar. O olhar confuso de Han Jonghyun acompanhou o pote branco subir. Ao reconhecer o que era, ele soltou um suspiro de alívio e murmurou:
— Porra, que susto.
Dentro do frasco branco de remédio, havia cristais transparentes de metanfetamina. Era o que o entregador havia desviado. Um, dois… Cheon Seju retirou um total de cinco frascos e colocou-os sobre a mesa.
— Se veio buscar droga, devia ter dito, por que enfia a mão entre as minhas pernas sem falar nada? Porra… achei que ia pegar no meu pau…
Nesse meio tempo, como se quisesse garantir que todos soubessem que ele era hétero, Han Jonghyun resmungava. Seju, que verificava se não restara nada dentro do buraco, ergueu a cabeça franzindo o cenho diante daquelas palavras. “Por que eu tocaria num pau sujo?”
Como o sofá era baixo, a posição era peculiar. Do lado de fora, Cheon Seju, que estava abaixado em uma posição que parecia estar fazendo sexo oral em Han Jonghyun, viu que ele o olhava de cima com desgosto, sentiu a irritação subir e abriu a boca.
— O quê, quer que eu chupe seu pau?
— Vo-vo-você enlouqueceu, seu viado maldito?
Havia vários motivos para não gostar daquele homem, mas o principal para Cheon Seju era este. Han Jonghyun, sem saber onde ouvira aquilo, toda vez que via Cheon Seju, agia como se tivesse medo de que ele fosse comer sua bunda, protegendo-a como se sua vida dependesse disso, enquanto o chamava de viado.
No começo, Han Jonghyun agindo assim era até engraçado, mas com o passar dos dias, Cheon Seju já se irritava apenas por ouvir a palavra “viado”, sendo que nem gay ele era. Altura semelhante, porte semelhante, e uma aparência que, em vez de bonita, era refrescante. Han Jonghyun estava tão longe do gosto de Cheon Seju que ele não o comeria nem se o trouxessem em um caminhão. Além disso, seu corpo era tão sujo que, mesmo que Seju fechasse os olhos para tentar comê-lo uma vez, ele brocharia só de pensar que precisaria fazer exames de DST primeiro. Mas com que confiança ele ficava fazendo aquele escândalo?
Ele já estava irritado o suficiente e não tinha paciência para tolerar aquele lixo. Cheon Seju retirou a mão do buraco do sofá e apertou a genitália dele de forma provocante. Parece que ele não andava saindo por aí à toa; a parte de baixo era bem pesada.
— Por isso eu pergunto, por que menciona o pau na frente de um gay, Diretor Executivo? Quase fiquei excitado.
Diante do que Cheon Seju disse rindo, bem perto dele, Han Jonghyun arregalou os olhos e calou-se. Logo, com o toque sutil que apertava e balançava sua genitália, ele gritou como um rapaz virgem sendo assediado.
— Solte, solte! Is-isso, solte agora!
Gritou com o rosto tingido de vermelho. Ver aquela face, sempre presunçosa, manchada de pavor era uma cena que valia a pena. Cheon Seju soltou um riso de escárnio, apertou os testículos dele com força como se fosse explodi-los e soltou. Ele levantou-se demonstrando um sorriso frio para Han Jonghyun, que se afastava gritando. A frieza retornou ao seu rosto magnífico. Olhando para Cheon Seju, Han Jonghyun bufava com o orgulho completamente ferido.
— Você realmente quer apanhar.
— Se quer bater, vá em frente.
Ele realmente desejava isso. Se Han Jonghyun lhe desse apenas um soco, Cheon Seju não quereria mais nada. Se ele batesse primeiro, Shin Kyoyeon não diria nada mesmo que Cheon Seju rasgasse aquela boca barulhenta em legítima defesa.
Contudo, como alguém que leu as intenções de Cheon Seju, Han Jonghyun apenas bufava sem tomar nenhuma atitude. Apenas encolheu-se no sofá abraçando os joelhos como uma criança. Diante daquela imagem patética, Cheon Seju soltou um riso de desdém e balançou a cabeça. Era um desperdício de tempo ficar com um sujeito daqueles.
Ele decidiu apenas terminar o trabalho e pegou os cinco frascos de droga que estavam sobre a mesa. Quando estava prestes a sair do quarto em silêncio, Han Jonghyun perguntou tardiamente. Parece que o grito o fizera recuperar totalmente a consciência, pois sua pronúncia já estava clara.
— O que é isso. Por que você está levando?
— Não é da sua conta.
E parece que, junto com a consciência, sua personalidade habitual também retornou.
— Cheon Seju, seu filho da puta mal-educado. Quando o Diretor Executivo fala, você deve responder olhando nos olhos.
— …….
Cheon Seju parou no lugar, soltou um suspiro e passou a língua pelos dentes. Han Jonghyun possuía o título de Diretor Executivo, embora não fizesse nada de específico na organização. Ele chegara a perguntar discretamente a Chae Beomjun o que Han Jonghyun fazia, mas como Chae Beomjun apenas dera de ombros, Han Jonghyun era realmente uma pessoa inútil. Dava para perceber pelo fato de ele estar ali jogado como um cachorro no calor, mesmo sabendo que Shin Kyoyeon odiava que os executivos usassem drogas.
Mas, mesmo sendo apenas um título nominal, era fato que Han Jonghyun estava em uma posição superior à dele. E a organização prezava pela hierarquia. Cheon Seju mastigou um palavrão baixo e virou o rosto.
Devido à água mineral que despejara sobre a cabeça, a face pálida de Han Jonghyun estava molhada. Cheon Seju fixou o olhar vagamente na altura dos olhos dele e disse:
— Vim sob as ordens do Representante; se está tão curioso, vou ligar para ele e perguntar se este é um assunto que pode ser revelado ao Diretor Executivo Han. Quer que eu faça isso?
— …Deixa para lá, saia logo.
Normalmente, uma conversa detestável se estenderia por muito tempo, mas diante da pergunta formal de Cheon Seju, Han Jonghyun fez um sinal com o queixo em direção à porta, indicando que aquilo era o suficiente. Também era porque ele não tinha energia para mais confrontos devido ao cansaço acumulado pelas drogas e pelo álcool.
De qualquer forma, com a permissão concedida, Cheon Seju saiu do quarto sem olhar para trás. Ele queria fugir daquele lugar com cheiro de urina o mais rápido possível.
Assim que ele fechou a porta e saiu, Sunhyeok aproximou-se imediatamente.
— Encontrou?
Ele entregou os frascos de droga para Moon Sunhyeok, que perguntava. Sunhyeok, segurando os cinco frascos de plástico branco, entregou-os para Haeung. Haeung enfiou todos dentro do bolso canguru do seu moletom. Seus olhos brilhavam. Como se quisesse ganhar algo para comer, Haeung olhava alternadamente para o gerente e para Cheon Seju.
— Isso aí, ah, por acaso é aquilo?
O gerente, que sabia do incidente ocorrido no processo de entrega, perguntou com uma face horrorizada. Como não havia necessidade de explicar para ele, Cheon Seju deixou o local sem responder. Ele ouviu a voz decepcionada de Haeung vindo de trás, mas estava com pressa. Queria acabar logo com o trabalho.
Ao descer para o primeiro andar, ele cobriu o cheiro de maconha que restava em seu corpo com a fumaça do cigarro. Quando tragou o segundo cigarro e colocou o terceiro na boca, sua cabeça latejou. Cheon Seju ignorou a dor e queimou o último cigarro por completo. Depois disso, subiu no carro que Sunhyeok trouxera e disse:
— Vamos para o escritório.
Ele sabia qual era a origem daquela ansiedade. Cheon Seju passou a mão pelo cabelo com irritação, soltou um suspiro e pegou o celular para ligar para Shin Kyoyeon.
— Fale.
— Representante, encontrei a mercadoria. A quantidade é a mesma, mas preciso pesar para confirmar; estava no clube.
— No clube? Ah…
A pessoa do outro lado ficou em silêncio por um momento, talvez organizando os pensamentos. Então, logo ordenou com voz indiferente:
— Vou enviar o Diretor Executivo Han, entregue através dele.
— O quê? Não, entendido.
— E descubra quem foi o desgraçado que fez essa palhaçada.
— Sim, entrarei em contato.
Han Jonghyun? Era a primeira vez que Shin Kyoyeon o fazia trabalhar dessa maneira. Cheon Seju franziu a testa, desligou a chamada com Shin Kyoyeon e tocou no ombro de Sunhyeok.
De qualquer forma, levaria um bom tempo para Han Jonghyun aparecer no escritório. Cheon Seju não tinha intenção de esperar até lá. Estivesse ele sob o efeito de drogas ou álcool, Han Jonghyun seria capaz de cuidar de si mesmo, então, com a intenção de entregar a mercadoria imediatamente, ele ordenou que Sunhyeok fizesse o retorno com o carro.
O veículo que seguia para o escritório cruzou a linha central e fez o retorno. Eles entraram novamente no estacionamento subterrâneo do clube. Deixando Sunhyeok e Haeung esperando no carro, já que eles queriam acompanhá-lo, Cheon Seju seguiu sozinho para o quinto andar.
A porta do elevador se abriu e ele viu o corredor. O gerente estava parado em frente à sala 13, falando ao telefone com alguém. Provavelmente era Shin Jihan. Ele, que prestava contas ao telefone, viu Cheon Seju e perguntou com expressão intrigada:
— Tem mais algum assunto?
— O Diretor Executivo Han ainda está lá dentro.
— Sim… Não, espere um momento! Ele disse para não entrar…!
Assim que ouviu as palavras do gerente, Cheon Seju abriu a porta abruptamente. E franziu o cenho ao máximo. Han Jonghyun ainda estava no mesmo lugar. O problema, se é que havia um, era que ele estava deitado de lado no sofá se masturbando.
O olhar que estava lânguido voltado para o teto virou-se para Cheon Seju. A expressão de Han Jonghyun distorceu-se em horror.
— …Porra! Ei!!
Ele gritou, escondendo a ereção como se estivesse sendo assediado. Na verdade, quem queria gritar era Cheon Seju.
Aquele lixo não conseguia ficar um dia sem mexer no pau? Ele, que nunca imaginou que veria uma cena daquelas, não conseguiu conter a náusea que subiu e soltou um palavrão baixo. Como se não quisesse ficar ali nem mais um segundo, caminhou a passos largos até Han Jonghyun e deixou os frascos de droga que segurava na cabeceira dele. Tac, tac, Han Jonghyun prendeu a respiração até que os cinco frascos fossem colocados.
— Recebeu a ligação do Representante, certo. Está entregue.
— …….
Han Jonghyun parecia consumido pela vergonha e não conseguiu dizer nada. Apenas assentiu enquanto olhava para Cheon Seju com o rosto rubro.
Cheon Seju deu as costas e o deixou lá. Desta vez, bateu a porta com força ao sair, como se realmente não fosse voltar. Sendo acompanhado pelo gerente inquieto, desceu novamente para o estacionamento subterrâneo. Ao verem seu rosto, que parecia ainda mais mal-humorado do que quando saíram, Sunhyeok e Haeung não conseguiram dizer nada.
— Vamos para a Shinsa Capital.
— Sim.
Diante da instrução curta de Cheon Seju, Sunhyeok pisou suavemente no acelerador.
Durante todo o trajeto do escritório para o clube, Kwon Sejin ocupava a mente de Cheon Seju. Ele precisava verificar o que ele estava fazendo para que ouvisse boatos de que era um mendigo. Se não tivesse conhecido Kim Hyungyeong, não precisaria ter essa preocupação. Ao pensar em Sejin, a voz que lhe implorara fervorosamente surgia como um passo natural.
Talvez por ser algo que ele nunca teve, o apelo de Kim Hyungyeong como “mãe” deixou uma impressão muito forte em Cheon Seju. Se eu tivesse uma mãe, e a visse curvando a cintura daquele jeito por mim, como eu me sentiria? Por causa desse pensamento, Cheon Seju não conseguia simplesmente desviar o interesse de Sejin.
Cerca de trinta minutos depois, chegaram em frente ao prédio da Shinsa Capital. Cheon Seju vasculhou o bolso, tirou um cheque da carteira, entregou-o a Haeung como uma mesada e disse a Sunhyeok:
— Vá e diga ao Cheolju para vasculhar a conta do entregador e, se não houver nada, verifique até os recibos fiscais para ver se ele recebeu dinheiro recentemente. Se algo aparecer, me ligue.
— Entendido. O senhor volta para o escritório mais tarde?
— Não. Coloquei meu cartão na gaveta da sua mesa, use-o para comprar o jantar.
— Sim, entendido. Bom trabalho, Diretor.
— Diretor, obrigado! Bom descanso!
Haeung, que viera junto pensando que ganharia algo para comer no clube, ficou radiante ao receber a mesada. Recebendo a despedida alegre dele, Cheon Seju desceu do carro.
Os brutamontes que guardavam a frente do prédio estavam, como sempre, cochichando e rindo entre si. Ainda assim, talvez porque fizesse apenas uma semana que Cheon Seju passara por ali, o chão estava limpo, sem um único lixo. Quando ele se aproximou da entrada, eles o viram e o cumprimentaram.
— Olá, irmão!
Cheon Seju detestava ser chamado de “irmão”. Mesmo tendo o título formal de Diretor, ouvir aquele chamado como se exibissem que eram gângsteres dava-lhe a sensação de que suas ações também se tornariam mais violentas. Com o cenho franzido, Seju apenas acenou com a cabeça e entrou no prédio.
Com passos um pouco apressados, passou pela escada com corrimão de ferro velho e dobrou a esquina. Estava curioso para ver em que estado Kwon Sejin se encontrava. Mas, frustrando suas expectativas, o corredor que levava ao elevador estava vazio.
Parado no lugar, Cheon Seju inclinou a cabeça lentamente e olhou ao redor. Sejin não estava em lugar nenhum. Nem dentro do elevador parado, nem dentro do banheiro público que exalava cheiro de urina. Ele se perguntou para onde ele teria ido, já que diziam que ele morava na rua. Seu humor afundou de forma sombria.
Ao confirmar a ausência de Kwon Sejin, Cheon Seju ligou imediatamente para Kim Donggil para perguntar seu paradeiro. Se Sejin tivesse sido entregue à polícia, ele pretendia ajudar. Felizmente, ao ouvir o que ele tinha a dizer, não era o caso.
“Não sei o que ele faz durante o dia. Ele só aparece quando escurece.”
Parecia que Kwon Sejin, mesmo sendo um mendigo, possuía sua própria rotina. Embora não parecesse nada produtiva. De qualquer forma, Cheon Seju voltou para casa de táxi e, na madrugada do dia seguinte, saiu com seu carro novamente. Ele não se esqueceu de trocar para um SUV preto para que Kwon Sejin não o reconhecesse.
Indo para a frente da Shinsa Capital, ele esperou por Sejin por cerca de uma ou duas horas. Assim, por volta das oito da manhã, a luz do sensor do corredor pareceu acender e ele viu uma silhueta saindo a passos pesados.
A aparência de Sejin não mudara desde a despedida. Calça de uniforme escolar, camisa e, por cima, o moletom com capuz preto. Embora parecesse um pouco mais sujo do que na semana passada, seu rosto ainda brilhava.
Saindo do prédio, Sejin caminhou com passos sem energia em direção a algum lugar. Cheon Seju deu partida no carro e o seguiu em velocidade baixa.
Como se procurasse um emprego de meio período, Sejin andava pelo bairro carregando um jornal gratuito com anúncios de emprego. No entanto, não seria fácil para um menor de idade sem um guardião conseguir um emprego assim. A cada vez que era recusado e saía curvando a cabeça, o rosto de Sejin endurecia friamente.
Após circular pelo bairro por quase três horas, por volta das doze e meia, Sejin enfiou o jornal no bolso e seguiu para outro lugar. Com passos pesados, como se estivesse rastejando, ele foi para uma escola.
Escola de Ensino Médio Masculina Dongseoul. Ao avistar a placa no portão principal, Cheon Seju estreitou os olhos. Ele nem ia à escola quando estava em casa… Bem, a casa de Cheon Seju era em Seongsu-dong e a escola de Kwon Sejin era na extremidade do distrito de Gangdong. Será que ele pediu para ser deixado na Shinsa Capital para poder ir à escola? Diante desse fato inesperado, Cheon Seju inclinou a cabeça enquanto observava as costas dele desaparecendo pelo portão da escola.
Ele voltou a ver Sejin logo após as treze horas. Kwon Sejin não ficou na escola nem por uma hora completa. Deixando para trás as crianças que jogavam futebol entusiasticamente no campo durante a hora do almoço, Sejin saiu da escola com o capuz puxado sobre a cabeça, exatamente como fora visto antes. Será que ele veio apenas para comer…? Cheon Seju alimentou uma suspeita plausível enquanto observava as costas de Sejin se afastando. Como hoje em dia as refeições escolares eram gratuitas, podia ser que ele realmente tivesse ido apenas para comer.
Cheon Seju seguiu Sejin novamente, dirigindo o carro devagar como fizera pela manhã. Ele parecia continuar procurando por empregos de meio período nas lojas após aquilo. Mas, mesmo que tivesse a sorte de conseguir um emprego, ele teria que viver na rua por um tempo até conseguir um quarto de subsolo; o que ele estaria pensando…?
Cheon Seju seguia apenas Sejin em um estado de mistura entre irritação, desamparo e frustração. Seu rosto pálido parecia mais magro do que da última vez que o vira. Como ele provavelmente comera apenas uma refeição escolar por dia durante vários dias, não havia como não ter aquele rosto. Podia até ter passado fome no fim de semana.
Subitamente, Cheon Seju lembrou-se do dia em que pedira frango frito para ele em casa. Pela expressão, ele parecia não querer comer, mas comia tão bem. Cheon Seju vira Sejin devorar um frango inteiro e lamber os lábios, pensara que as garotas do ensino médio comiam muito ultimamente e empurrara o seu para ele. Pensando agora, não era porque era uma garota do ensino médio, mas porque era um garoto na fase de crescimento.
Enquanto Sejin recebia mais algumas recusas ao procurar emprego, o tempo passava inexoravelmente. Ele percorreu todo o distrito de Gangdong. O homem se perguntava como ele conseguia encontrar tão bem os caminhos sem um celular. Ele era praticamente um navegador humano.
O grupo de estudantes uniformizados apareceu diante de Sejin quando já passava das dezessete horas e estava quase chegando às dezoito.
Parecendo tomar a escola como ponto central, Kwon Sejin desbravava caminhos passando sempre em frente à sua escola quando ia para longe. Desta vez também, Sejin, que saiu em frente ao portão principal após circular por becos, estava prestes a virar na direção da Shinsa Capital quando garotos que surgiram de algum lugar bloquearam seu caminho.
Diante da situação inesperada, Cheon Seju estacionou o carro por perto e observou a cena. Os garotos que cercavam Sejin eram muito maiores que ele. Talvez por Sejin ser pequeno comparado aos de sua idade, o cerco parecia até ameaçador. Ao ver aquilo, o cenho bem delineado de Cheon Seju se contraiu.
Os garotos o cutucavam repetidamente com sorrisos cínicos no rosto. Contudo, por mais que sorrissem, empurrar os ombros a ponto de balançar o corpo não parecia nada além de bullying. Cheon Seju sentiu seu sangue gelar. Ao mesmo tempo, sentiu um sentimento impossível de explicar em palavras.
Parecia que uma força desconhecida o guiava até Sejin. Uma situação tão semelhante à de sua irmã, Cheon Hyein, que morrera cinco anos atrás, fez com que ele não conseguisse mais ver Kwon Sejin apenas como Kwon Sejin. Cheon Seju sentiu confusão e mordeu os lábios. Uma raiva infinita subia por dentro.
Mesmo quando viu o último suspiro de Cheon Hyein, ou quando enfrentou aqueles que a atormentaram, ele nunca sentira tanta raiva. Mas quando a imagem de Cheon Hyein começou a se sobrepor à de Kwon Sejin, a raiva começou a crescer descontroladamente.
Será que a Hyein também foi assim.
Enquanto eu estava trancado no hospital, será que minha irmã também passou por algo assim em um lugar estranho. Sentia como se suas entranhas estivessem sendo esmagadas.
Enquanto ele sofria, os garotos deram tapinhas nos ombros de Sejin e foram embora. Sejin ficou parado ali, com a cabeça baixa. Então, subitamente, ele curvou a cintura e pegou algo do chão.
Sejin enfiou o que pegara no bolso e seguiu para um grande supermercado em frente à escola. Quando Sejin desapareceu dentro do mercado, Cheon Seju baixou o vidro do carro, colocou um cigarro na boca e o acendeu. Como sentia que se saísse agora suas mãos trêmulas seriam percebidas, pretendia recuperar a calma e falar com Sejin quando ele saísse.
No entanto, enquanto fumava vagarosamente, viu que aqueles pivetes que ele pensara terem ido embora estavam rondando a frente do supermercado novamente. Através da fresta do vidro aberto para deixar a fumaça sair, as vozes carregadas de malícia daqueles moleques chegaram até ele.
— Ei, ei, decidam rápido. Você primeiro.
— Eu quero broto de feijão.
— Eu quero aquilo, ah, porra, o que era mesmo daquela vez? Salsicha rosa? Mas dá para comprar por mil won?
— Acho que não.
— Ah, merda! Não sei, então uma coca?
O garoto que vestia uma camiseta justa preta e uma calça legging também justa parecia pesar o dobro de Sejin. Diante das palavras do “calça justa”, o outro moleque riu dobrando a cintura.
— Acha que o ‘Meio-Pobre’ compraria coca? Provavelmente ele nunca nem bebeu para não gastar dinheiro.
— Verdade. Então eu quero tofu. Ei, mas o Sejin agora não tem casa. Então ele não é mais um ‘Pobre do Subsolo’, né?
— Então o que ele é? ‘Men-Po’? Mendigo Pobre?
— Kwon Men-Po? Ou será que ele foi para um abrigo? ‘Abri-Po’ do Kwon?
Embora não parecessem nem um pouco próximos, eles chamavam Kwon Sejin de forma íntima. Cheon Seju apertou os punhos, mantendo a paciência para esperar Sejin sair do mercado e colocá-lo no carro. Ele sentia que se descesse do carro agora, acabaria batendo em crianças.
Felizmente, não demorou muito para Sejin sair do supermercado. Com uma sacola preta pendurada no pulso e as mãos enfiadas nos bolsos, Sejin parou ao avistar os irmãos “calça justa” que o esperavam na frente do mercado. Vendo o rosto bonito endurecer friamente, Cheon Seju tragou o cigarro pela última vez.
— Ei, Sejin. O que você comprou com os mil won que achou?
Os irmãos “calça justa” aproximaram-se de Sejin assim que seus olhos se cruzaram. E tentaram tirar a sacola preta que Sejin segurava. Ao ver aquilo, Cheon Seju subiu o vidro. Não queria mais ver Kwon Sejin sendo humilhado.
Talvez estivesse destinado a ser assim desde o momento em que descobriu a semelhança entre Kwon Sejin e Cheon Hyein.
Cinco anos atrás, o coração de Cheon Seju, que perdera Cheon Hyein, ficara cheio de remorsos. O fato de não ter conseguido visitá-la por uma semana, de não ter respondido às suas mensagens, de não ter atendido seu último telefonema; tudo ficou como feridas de arrependimento em Cheon Seju.
O momento de maior desespero para ele fora quando foi capturado pela polícia sem ter terminado sua vingança por ela. Por isso, quando mais tarde recebeu a oportunidade de se vingar em troca de entregar sua vida a Shin Kyoyeon, e finalmente tirou o fôlego do inimigo com as próprias mãos, Cheon Seju pôde sentir uma satisfação extasiante após o fim de seus arrependimentos.
Desde aquele dia, Cheon Seju prometera. Jamais deixaria arrependimentos nos dias que viriam a viver. Ele jurara isso.
Mas, após trazer Kwon Sejin para casa, Cheon Seju passou a ter pequenos arrependimentos constantes. O que Sejin precisava não era de uma ajuda temporária. Ele precisava de um protetor que ficasse ao seu lado e assumisse a responsabilidade por ele.
No entanto, como Cheon Seju não era alguém que pudesse se responsabilizar por outra pessoa, ele se arrependeu de tê-lo trazido em um julgamento precipitado e tentou esquecê-lo ao deixá-lo partir tardiamente diante de seus olhos.
Mas ele não fora esquecido. O apelo fervoroso deixado por Kim Hyungyeong abalara Cheon Seju e, agora, Cheon Seju via a imagem de Hyein no Kwon Sejin que sofria bullying.
Se ele deixasse Sejin partir aqui, era óbvio que o que restaria a Cheon Seju seria o arrependimento novamente. Pensando no que teria acontecido com Sejin, imaginando se ele não teria desistido de si mesmo como Hyein após sofrer bullying, ele certamente se arrependeria, pensando que deveria tê-lo acolhido.
Portanto, para desfazer todos os arrependimentos desde que o conheceu e para não deixar problemas futuros, Cheon Seju não tinha outra escolha a não ser acolher Sejin. Essa foi a conclusão que ele tomou no curto instante em que testemunhou Sejin sofrendo bullying.
Vrummm, o motor do SUV deu partida com um som barulhento. Cheon Seju confirmou que a estrada estava vazia, cruzou a linha central e virou o carro. Em seguida, pisou no acelerador em direção à calçada na frente do supermercado, onde o degrau fora removido para a entrada de veículos de carga. Com um solavanco, sentiu o carro subir na calçada. Os faróis do SUV preto iluminaram as costas dos irmãos “calça justa”.
Ele viu Sejin, que conversava com eles, tirar as mãos dos bolsos e segurar firme a sacola plástica preta. No momento em que Sejin baixou a cabeça e começou a encarar o chão, Cheon Seju avançou em direção a eles como um louco.
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Continua…
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✦ Tradução, revisão e Raws: Faby&Belladonna
Ler Projection – Novel Yaoi Mangá Online
Cheon Sejoo, que não teve escolha a não ser se juntar à organização para vingar sua irmã falecida, em meio a uma vida sem esperança, conhece um jovem que o lembra de sua irmã, o que o leva a praticar um pequeno ato de gentileza.
Se ele soubesse que essa intenção leviana se tornaria tão pesada, ele não o teria trazido para sua vida.
* * *
“Eu te disse. Sempre foi você primeiro…”
Seus olhos, normalmente penetrantes, pareciam gentis hoje. O olhar de Cheon Sejoo era suave, doce e persistente.
“Então assuma a responsabilidade.”
Era sempre Cheon Sejoo quem dava o primeiro passo. Era ele quem estendia a mão para ele primeiro, quem o olhava primeiro. Sejin simplesmente pegava sua mão porque ele a oferecia, e olhava para ele porque ele lhe dava o olhar. E, ao fazer isso, ele se apaixonou por aquele homem gentil.
Sejin não queria mais ver Cheon Sejoo se afastando dele.
Se você não pode vir até mim, então eu irei até você.
“Você é tudo o que me resta agora…”
Nome alternativo: Projection