Ler Late Bloomers (Novel) – Capítulo 103 Online


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CAPÍTULO 103

 

Seowoon esperava que a casa tivesse uma mesa baixa e estreita como a da antiga casa de semi subsolo de Cahaya, mas em vez disso havia uma mesa de jantar de madeira maciça.

Não havia televisão nem notebook, mas a geladeira tinha quatro portas. Lá dentro, um biombo de madeira dividia o ambiente num quarto com cama de um lado e uma sala com sofá e mesa do outro. A única semelhança com a casa de semi subsolo era a organização impecável.

Cahaya sentou o menino numa cadeira da mesa de jantar e tirou a máscara. Tirou um pouco de carne da geladeira e ligou o fogareiro da mesa.

Seowoon não estava só com fome; estava morrendo de fome. O menino também parecia faminto, olhando para a carne com expectativa. Enquanto Seowoon tirava o boné e a máscara, Cahaya colocou a carne numa frigideira pré-aquecida.

Seowoon procurou os pratos, mas Cahaya foi mais rápido. Vasculhou os armários para encontrar pratos e garfos. Sem ficar parado, Seowoon começou a cortar a carne em pedaços pequenos enquanto ela cozinhava, colocando os primeiros no prato do menino.

— Obrigado pela comida.

— Isso, come bastante.

O menino espetou a carne com o garfo, soprou para esfriar e então enfiou na boca.

Depois de apenas algumas garfadas, as bochechas dele incharam e ele sorriu, dizendo que estava uma delícia.

Apesar da montanha de coisas que tinha para resolver, Seowoon não conseguiu evitar um sorriso; era difícil não sentir afeto por um ser tão pequeno e adorável.

— Cahaya, seu tio não vem comer com a gente?

— Vai demorar um pouco.

— Por quê?

— Como ele trouxe um cadáver que não é da família, precisa dar explicações aos pais dele.

Ele disse que a tribo do tio tratava os mortos como se estivessem vivos.

Seowoon assentiu em sinal de compreensão, sem perguntar mais nada. Cahaya lhe entregou um pouco de carne já pronta e adicionou mais alguns pedaços crus à grelha.

— Isso aqui também é carne de búfalo-d’água?

Como Cahaya tinha lhe dito que o tio havia caçado muitos búfalos-d’água, Seowoon se perguntou se aquilo também fazia parte disso.

— Por quê? Não gostou?

— Não é isso. Está uma delícia. O gosto é igual ao de carne bovina.

Cahaya soltou uma risadinha para si mesmo.

— Por que você está rindo?

— É carne bovina.

Seowoon ficou um pouco sem graça, ainda que não tivesse a intenção de elogiar a carne de búfalo em detrimento da bovina.

— A carne Hanwoo [1] é melhor, né?

— Do que você está falando? Toda carne bovina é igual.

— Mas os ovos não são todos iguais?

— Ei, não zoe o gosto dos outros.

Depois de dar a bronca, Seowoon colocou a carne fatiada no prato do menino. O menino tinha um apetite voraz, de adulto, e os três tiveram que devorar toda a carne do tio.

Quase seis porções de carne desapareceram num piscar de olhos e, como se não bastasse, Cahaya trouxe mamões de sobremesa. A fruta, cortada ao meio, parecia uma abóbora. Cahaya, com grande destreza, tirou as sementes como se estivesse cortando um melão e ainda fez um corte na casca para facilitar na hora de comer. Devia fazer aquilo havia muito tempo para ser tão habilidoso.

Depois de dividirem dois mamões doces entre eles, a realidade dos problemas que enfrentavam voltou a bater com força.

Enquanto isso, o menino dava tapinhas na barriga, dizendo que estava cheio.

— O muro negro… é perto daqui?

— É perto.

Cahaya estava se alongando e se preparando para sair, dizendo que primeiro precisava inspecionar a área.

— Eu vou com você.

— Não.

Seowoon entendia as preocupações de Cahaya, já que ele mesmo tinha experimentado o desaparecimento por vários dias ao usar o Portão sem minério wu.

— Então vá, cheque e volte logo. Eu vou te esperar bem na frente.

Seowoon seguiu Cahaya, que estava se aprontando para ir. Enquanto colocava a máscara, Cahaya se virou para olhá-lo.

— É uma sensação muito estranha.

— Estranha? Como assim?

— Só de ter você aqui, me lembra os velhos tempos no semi subsolo.

Cahaya tocou a máscara de novo e a puxou para baixo.

— Cha Seowoon, a gente se divertia muito naquela época, né?

O ambiente ao redor era desconhecido, era uma casa de madeira, mas era quase como se pintassem o antigo semi subsolo atrás de Cahaya.

Ainda que naquela época tenha havido momentos difíceis, não existiam problemas tão graves como o fim do mundo ou o surgimento de mutantes. Talvez o passado parecesse mais valioso agora porque sabiam que não podiam voltar àqueles dias comuns.

— Ah, isso me lembra o arroz frito com kimchi especial do Cahaya.

— Fica tranquilo, eu faço de novo para você.

Cahaya se inclinou de repente e deu um beijo rápido na testa de Seowoon. Os olhos de Seowoon se arregalaram de surpresa e, por instinto, ele cobriu a testa com a mão.

— Ei, você acabou de…?!

— Sim. A sua testa é fofinha demais, igual à de um bebê, eu não consegui resistir.

Cahaya sorriu e ajeitou a máscara.

Seowoon se perguntou se a testa tinha um coração próprio batendo ali. Suas têmporas latejavam, como se as veias bombeassem com vigor. Era um absurdo, um absurdo que fosse Seowoon, e não Cahaya, quem se sentisse assim.

Seowoon não conseguiu se forçar a dizer para Cahaya “Pare de mentir e admita que gosta de mim”, por mais que quisesse. Ouvir os sentimentos de Cahaya indiretamente, através de uma confissão, em vez de uma declaração direta, o levava a agir com cautela, passo a passo. Eram amigos havia muito tempo, e os sentimentos de Cahaya pareciam recentes; Seowoon queria lhe dar tempo suficiente para colocar as ideias em ordem.

Havia também a ansiedade persistente de que Cahaya pudesse se sentir sufocado pelos sentimentos de Seowoon, caso não os sentisse com a mesma intensidade. Essa ansiedade vinha da baixa autoestima de Seowoon depois de anos de amor não correspondido, mas ele estava decidido a seguir em frente com Cahaya sem nenhum desconforto.

Afinal, amizades podem durar a vida inteira, mas relacionamentos amorosos nem sempre acabam bem.

— Cahaya, pare de sair por aí beijando os outros, nem que seja de brincadeira.

Seowoon seguiu Cahaya, fingindo indiferença. Talvez esperasse uma confirmação de que não tinha sido uma brincadeira. Mais uma vez, Seowoon se sentiu bem patético por causa das próprias inseguranças.

— Eu também! Cha Byeonjong também gosta de beijos!

O menino levantou a mão de repente, empolgado.

— Você também, Cha Byeonjong? Eu gosto muito, sabia?

Cahaya riu baixinho, e o menino começou a cantar uma musiquinha sobre beijos. A testa de Seowoon já estava quente, e agora as bochechas também ardiam. Ele tentou agir com indiferença, descendo o menino pela escada e pegando na mão dele quando chegaram lá embaixo.

— Vocês me acompanham só até aqui — disse Cahaya, traçando um limite firme.

— Por quê?

— Não é um lugar bom para o nosso filho ver.

— Sério? Você está de brincadeira de novo?

— Não, estou falando sério.

Cahaya indicou com um leve aceno da cabeça uma caverna perto do penhasco. A entrada era escura e redonda, visível a partir da trilha estreita que levava até ela.

— Que lugar é aquele?

— O túmulo dos ancestrais.

Cahaya encarou fixamente o buraco escuro antes de voltar a atenção para Seowoon.

— A gente não pode deixar o menino ver os cadáveres.

— Então vamos deixá-lo com o tio por um tempo e…

— Não!

O menino, que tinha ficado calado o tempo todo, gritou de repente com força. Apertou a mão de Seowoon com todas as forças.

— Cha Byeonjong não tem medo de cadáver. Cadáver não dá medo. Dá tristeza.

Seowoon se solidarizou com as palavras do menino.

Mesmo ao ver o corpo de Abdul Aziz depois de ele ter virado mutante, não sentiu medo nem pavor; apenas ficou profundamente triste.

— Bom, esse garoto também não é comum. A gente vai junto até o final.

Seowoon ergueu o menino de novo.

— Deixa que eu carrego.

Cahaya sabia que Seowoon não era do tipo que voltava atrás com facilidade quando decidia alguma coisa. Em vez de discutir, Cahaya ergueu o menino e o carregou. O menino não resistiu e se acomodou confortavelmente nos braços de Cahaya, passando um braço em volta do pescoço dele.

— Isso aqui é perfeito, né?

Cahaya jogou o menino para o alto, como se fossem grandes amigos. Pegou-o de volta, rindo, e saiu correndo. O menino pareceu empolgado com a velocidade e estendeu a mão para Seowoon, chamando-o para acompanhá-los.

Seowoon correu atrás de Cahaya, subindo a trilha estreita da montanha. O caminho, bem batido e desgastado pela passagem dos muitos moradores, facilitou a subida. Não demoraram a chegar à caverna.

Enquanto Seowoon se aproximava da entrada da caverna, sentiu um arrepio ao ver os ossos de pessoas desconhecidas e bonecos em forma humana. Já lá dentro, um calafrio percorreu seus braços, não por medo ou nojo, mas pela queda repentina da temperatura.

A caverna não estava escura demais, graças às lanternas espalhadas pelo lugar.

— Garoto, você não está com medo?

Seowoon perguntou ao menino, que o olhou dos braços de Cahaya.

— Não.

O “não” do menino ecoou por toda a caverna.

Cahaya reuniu o cosmos diante de uma grande pedra que bloqueava um dos dois caminhos da caverna.

Ainda que as lanternas não alcançassem aquela parte da caverna, a aura branca de Cahaya iluminou os arredores. Com o menino num braço, ele concentrou a energia e reduziu a pedra a quase nada, sem nem sequer parti-la ao meio.

— Ei… tudo bem simplesmente quebrar as coisas assim?

— Fui eu quem bloqueou isso aí. Além do mais, os moradores não vêm até tão longe mesmo.

As vozes dos dois ecoavam dentro da caverna. Depois de caminharem mais um pouco, Seowoon finalmente avistou o muro negro à frente. A textura da superfície negra destoava das paredes de pedra irregulares da caverna.

Na verdade, não havia necessidade de bloquear aquela entrada com uma pedra. Pessoas comuns, que não fossem Mansaengjong, não conseguiam usar o muro negro nem o Portão. Quem não tinha como pagar o preço da passagem não podia acessar o caminho para outra dimensão.

Cahaya colocou o menino no chão. Seowoon agarrou rapidamente a mão do menino e, quase ao mesmo tempo, também segurou o braço de Cahaya.

— O que foi?

Cahaya olhou para trás, mas só se via o brilho quase universal em seus olhos. A expressão dele permaneceu escondida na escuridão.

— Tem certeza de que está tudo bem?

— Está tudo bem. Eu já estive em Naraka antes.

— Não é Gazan?

Cahaya parou. Seowoon sentiu a agitação através do aperto no braço dele.

— Como assim?

A resposta de Cahaya pareceu evasiva.

— No carro, você disse que era Gazan. Disse que ia direto para Gazan pelo muro negro.

— ……Ah, é?

Na voz de Cahaya, com um toque de diversão, Seowoon percebeu uma brecha fugaz.

— Cahaya.

— Cha Seowoon, a gente conversa sobre isso quando eu voltar, tá?

Cahaya minimizou o assunto, como se não fosse relevante.

— Está bem, mas você tem que voltar logo. Eu vou estar te esperando aqui esse tempo todo.

— Fique em casa. Vai levar pelo menos uma hora para checar a Interseção.

— Eu vou te esperar.

Dessa vez, Seowoon não ia ceder.

Incapaz de resistir à profunda preocupação nos olhos violeta de Seowoon, Cahaya o puxou para um abraço apertado. Seowoon retribuiu o abraço com a mesma força.

— Eu já vou.

Cahaya tentou se agarrar a ele como se quisesse que aquele momento durasse para sempre, apertando com força os ombros de Seowoon.

Ajustou cuidadosamente a própria força para não machucá-lo e, por fim, a contragosto, o soltou.

Sem olhar para trás, se virou e foi direto em direção ao muro negro.

Cahaya desapareceu no muro negro num instante, sem dar a ninguém a chance de detê-lo.

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— Seowoon, você vai mesmo para Seul?

O tio olhou para Seowoon, cujo corpo estava coberto de cansaço e sujeira, com preocupação.

— Eu preciso voltar para Naraka pelo Colégio Seongsang.

— Se você esperasse mais um pouco…

— Tio, dá para você parar de dizer isso?

Seowoon explodiu, e quase imediatamente se arrependeu.

— Desculpa — sussurrou baixinho, e o tio deu um tapinha no ombro dele, tranquilizando-o e dizendo que estava tudo bem.

O menino olhou para Seowoon com os olhos cheios de lágrimas. Seowoon forçou um sorriso, dizendo que estava tudo bem, e afagou a cabeça do menino.

Já fazia mais de uma semana desde que Cahaya desaparecera dentro do muro negro.

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Nota:

[1] Carne Hanwoo: uma das carnes mais raras e caras do mundo, proveniente de uma raça de gado pequeno originária da Coreia. [voltar]

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Tradução, revisão e Raws: Belladonna & Othello

 

 

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SINOPSE:
Pessoas com a habilidade de caçar mutantes, os Mansaengjong.
Um dia, eles de repente se viram isolados em Naraka.
Seowoon já foi chamado de um dos de mais alto escalão, conhecido por sua excelente capacidade de combate, mas de repente perdeu todas essas habilidades depois de ser isolado em Naraka. Em troca, ganhou a capacidade de detectar o surgimento de mutantes através do “Mensageiro”.
Para escapar de Naraka, era necessário o minério wu, um subproduto dos mutantes. No entanto, Seowoon morreria só de encostar num mutante, quanto mais caçá-los.
Ao saber disso, Cahaya fez uma proposta a ele:
— Cha Seowoon, a partir de agora, seja meu buscador de mutantes?
Com a ajuda de Cahaya, Seowoon conseguia ir e vir de Seul, mas achava isso cada vez mais difícil.
“Por que eu te afastei…?”
Ele só queria negar os sentimentos de atração que sentia por Cahaya.
Nome alternativo: Perennial Species Late Bloomers Late Blooming Species Mansaengjong

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