Ler Jardim de Maio – Capítulo 10 Online


Modo Claro

Quando o homem, que parecia prestes a se desvencilhar dela e ir embora a qualquer momento, permaneceu silenciosamente ao seu alcance, Vanessa despejou apelos ainda mais desesperados e elaborados.

— Os rumores só começarão depois que você partir. Não vou arruinar suas férias nem causar problemas para você. Vou garantir sua segurança e a segurança do Sr. Ross, custe o que custar.

— …

— Não haverá obstáculos ou… qualquer coisa que possa prejudicar seu futuro. Todos os olhares estarão voltados para mim, então seu nome nem sequer será mencionado diretamente. Mesmo que alguém suspeite de algo, enquanto eu mantiver a boca fechada, ninguém poderá ter certeza….

A maior parte das palavras de Vanessa nascia de uma ignorância ingênua sobre a realidade ou eram promessas vazias. Ainda assim, ela parecia acreditar sinceramente que poderia fazer tudo acontecer daquela forma.

Quando todas aquelas promessas baratas eram reduzidas à essência, sua mensagem se resumia a uma única coisa. Ela não queria que toda a sua vida fosse acorrentada ao casamento.

Queria provocar um escândalo público, diminuindo escandalosamente seu próprio valor matrimonial até ser esquecida como uma boneca feia que ninguém desejava.

Por mais que pensasse nisso, sentia que aquela era a única forma de proteger a si mesma.

Theodore, que a ouvira em silêncio, perguntou como se a ideia tivesse acabado de lhe ocorrer:

— E o filho que você disse precisar? É por causa da pensão?

— Não posso dizer que esse não seja um motivo, mas também é a forma mais segura de arruinar minha reputação. Simplesmente dormir com alguém não basta para provar que perdi minha virgindade.

— Seria melhor escolher um homem adequado e se casar. Ou começar agora mesmo a procurar alguém disposto a fugir com você. Não parece que isso seria difícil para a senhorita.

— Eu não quero me casar.

— Precisa de um filho, mas não quer casamento?

— O casamento não passa de estar subordinada a uma pessoa e realizar aquele ato periodicamente. A menos que eu encontre alguém que realmente ame, esse tipo de relação é sequer necessário?

Theodore soltou uma risada seca. Ela era uma mulher teimosamente peculiar, audaciosa e realista ao mesmo tempo. Talvez fosse justamente por isso que Vanessa não o incomodara desde o início. Ela não era do tipo que ficava tagarelando sobre casamento como se fosse o único sonho da vida e destino final.

Vanessa ainda segurava sua mão desesperadamente. No instante em que sentiu aquele leve tremor, a lembrança do beijo satisfatório que haviam compartilhado alguns dias antes atravessou a expressão serena da mulher.

A pequena língua que se agarrara à sua de forma tão suave. Os lábios corados que engoliam repetidamente gemidos involuntários. A lembrança parecia o próprio verão se infiltrando nele.

De repente, um impulso ardente surgiu em sua garganta. Theodore exibiu um sorriso feroz e passou a língua pelos lábios. Sinceramente. Ele não era um adolescente inexperiente.

— Vanessa…

Com os dedos longos, ele segurou seu queixo e o levantou. Os olhos cinzentos e claros que o encaravam tremeram como uma borboleta presa.

— E se, não importa o quanto tentemos, você não engravidar?

— Então… então precisarei encontrar outro jeito….

Nem era preciso dizer que Vanessa possuía uma beleza excepcional. Sua silhueta esbelta e elegante correspondia exatamente ao seu gosto. Mesmo que sua mente ligeiramente distorcida fosse um pequeno inconveniente, ela era uma mulher acima de qualquer reprovação.

Ele possuía o poder de tirá-la daquele pântano imundo a qualquer momento. Com uma quantia razoável de dinheiro, poderia removê-la permanentemente daquela vida.

Também conseguiria manter o conde em silêncio por enquanto.

Portanto, era seguro dizer que esse relacionamento dependia inteiramente de sua escolha. Era um capricho, como uma peça de teatro, derivado de sua decisão de passar este verão como um plebeu em vez de um ‘Duque’. E Vanessa, pobre criatura, era uma vítima apanhada em sua encenação.

‘O que devo fazer?’

Havia três opções. Aceitá-la como um plebeu. Salvá-la como um duque. Ou ignorar sua proposta e encerrar ali mesmo essas férias de verão perfeitas aqui mesmo.

A resposta era simples. Ele ainda queria aproveitar um pouco mais sua escapada ao sul, e a senhorita Vanessa era atraente o suficiente para ser sua primeira. Não havia motivo para recusar uma mulher disposta a se entregar a ele mesmo sem saber que era um duque. Com tranquilidade, o homem devolveu a ela a empunhadura da espada.

— Eu não preciso de um filho. E não estou em condições físicas de ter um.

— É… é verdade? Biologicamente? Ou….

— Você poderá satisfazer sua curiosidade aos poucos. Se estiver de acordo com isso, podemos aproveitar a companhia um do outro por algum tempo. Isso talvez arruíne um pouco sua reputação.

Vanessa refletiu por um instante antes de assentir. Um leve rubor retornou ao seu rosto antes pálido.

— Tudo bem. Eu concordo.

Era fácil perceber que ela estava simplesmente feliz por poder se livrar da sua virgindade, independentemente das circunstâncias.

Agora, até mesmo esse motivo oculto tão transparente parecia um pouco fofo….

— River Ross. Tenho uma condição. Pelo menos enquanto estivermos aproveitando a companhia um do outro, devemos ser fiéis.

Ela continuou, apertando firmemente a saia. Seus olhos cinzentos brilhavam sob a luz do sol.

— Quero que leve isso a sério. Não como uma brincadeira ou um relacionamento que possa ser descartado facilmente após alguns encontros, mas como se realmente tivéssemos nos tornado um casal de verdade. Esta é uma troca justa.

Theodore curvou os lábios num sorriso torto diante daquela cautelosa exigência.

— Já está ficando complicado.

(Elisa: Ahaha, como se o senhor odeio todas as mulheres, fosse querer outras)

— Quero que permaneçamos assim pelo menos durante este verão. Depois disso, seguiremos caminhos separados.

Theodore soltou uma risada baixa.

— E se o verão acabar e a senhorita não se cansar do meu corpo? — disse o homem em tom brincalhão.

— Isso é impossível. — Vanessa franziu ligeiramente a testa, como se a simples sugestão fosse absurda. — Jamais vai acontecer. E, mesmo que, por um milagre, aconteça, não vou causar problemas. Na verdade, nessa altura, não importa o quanto você implore e se agarre a mim—

— Então que tal fazermos uma aposta? — Theodore interrompeu suavemente o discurso dela: — Para ver quem será o primeiro a implorar e se agarrar quando o verão acabar.

— Estou confiante. — Vanessa respondeu com os olhos brilhantes e as bochechas novamente rosadas.

Observando-a, Theodore voltou a rir baixinho.

Por um breve instante, sentiu um pequeno arrependimento, imaginando se não estava se envolvendo em algo absurdo, mas, por alguma razão, tinha certeza de que tudo ficaria bem com aquela mulher.

Talvez fosse o resultado de respeitar as excelentes opiniões da senhorita Vanessa sobre o casamento.

— Juro por Deus que nunca serei a primeira pessoa a dizer eu te amo, nem que eu morra.

— Estou ansioso por isso, embora eu não acredite em Deus.

Quando ele respondeu com um sorriso torto, os olhos de Vanessa se arregalaram novamente. Como se não pudesse acreditar que ele pudesse proferir tamanha blasfêmia.

Era engraçado ver uma mulher que nem percebia quando era insultada tentar defender a honra de um Deus inexistente. Determinado a silenciar seu protesto fadonho, Theodore envolveu a cintura esbelta de Vanessa com um braço e a puxou para junto de si. Os lábios que se preparavam para iniciar um sermão se fecharam imediatamente.

Satisfeito com o retorno do silêncio, Theodore exibiu um sorriso tranquilo. O corpo da mulher era macio e flexível. Sua pele cedia suavemente sob seus dedos, e tinha um aroma doce, como um pêssego de verão. 

Ele aproximou lentamente os lábios em sua pálpebra.

— E-Espere um momento.

Se debatendo para sair de seus braços, Vanessa o empurrou com urgência. 

Theodore arqueou uma sobrancelha.

— Não estou tentando me fazer de difícil, mas… a-aqui, agora mesmo… é um pouco….

Seus olhos suplicantes se desviavam repetidamente em direção ao galpão. 

Era óbvio o que ela queria dizer. Se fossem fazer algo, pelo menos deveriam entrar. Parecia ter entendido que ele pretendia transar ali mesmo. Afinal, quem ela pensava que ele era? Algum animal no cio, incapaz de se controlar?

Sua irritação desapareceu quase instantaneamente ao notar o rosto pálido da garota. A mão que agarrava suas roupas tremia violentamente. Vanessa estava claramente dominada por um nervosismo extremo.

— Claro que não estou recusando e, agora mesmo seria… seria possível, mas….

Suas desculpas saíam em uma enxurrada.

Para alguém que dizia estar tudo bem, ela parecia prestes a ser devorada viva.

Com um sorriso discreto, Theodore pensou ironicamente enquanto acariciava lentamente a curva de sua orelha.

O jeito como ela se encolhia toda vez que seus dedos a tocavam era tão fofo quanto um animalzinho. Com o polegar, percorreu devagar seus lábios, a bochecha macia e o lóbulo da orelha. Continuou até que o rosto de Vanessa estivesse suficientemente corado.

— Ri-River. Eu…

Antes que pudesse terminar, ele silenciou sua gagueira, seu hábito irritante de pronunciar o nome de outro homem, cobrindo os lábios com os seus. A boca de Vanessa se abriu em surpresa. Ele empurrou a língua entre os lábios surpresos e entreabertos.

Tudo naquela mulher parecia pequeno.

Sua boca. Sua língua delicada. Os dentes claros como pérolas.

Ele roubou o fôlego de Vanessa como um predador, pressionando-a implacável e obsessivamente. Sua língua tremia enquanto tentava acompanhar aquele beijo. A grande mão envolveu o pescoço esbelto, impedindo-a de se afastar. Como se ela tivesse cometido a ofensa de tentar fugir só por torcer ligeiramente o corpo. Seus seios estavam suavemente pressionados contra a estrutura sólida do homem.

Esse foi o ponto em que a reação de Vanessa, que vinha aceitando o beijo de forma desajeitada, mas sincera, mudou. A mão que amassava distraidamente sua gola apertou o tecido com força.

— Ah….

Quando seus lábios finalmente se separaram, um fino fio de saliva se esticou e rompeu. Ele lambeu os lábios ofegantes e doces de Vanessa e os mordiscou levemente. 

Toda a irritação que sentira antes havia desaparecido durante o beijo. Agora restavam apenas o magnífico jardim de verão e a mulher diante dele. E ele gostava daquela clareza.

— Você disse que deveríamos agir como amantes. Mas pular diretamente para o sexo… não é um pouco bárbaro?

— O quê?

Vanessa havia dito que o verão era curto.

Mas, para Theodore, o verão do sul parecia interminável. Longo o bastante para fazer rosas ainda imaturas florescerem repetidamente.

Ele depositou um beijo leve no pescoço branco.

— Não importa quanta pressa tenha, não deveria desistir de ser uma dama, senhorita Vanessa.

— Quando foi que eu—

Ao perceber o quanto suas próprias palavras soaram desesperadas, seu olhar indignado vacilou. Seu rosto assumiu uma expressão abatida, como uma gata observando leite derramado sobre a terra. Por fim, recuperando a compostura, Vanessa afastou sua mão como se fosse lixo.

Theodore soltou uma gargalhada divertida ao vê-la recuar rapidamente e fugir. Com movimentos tranquilos, retirou um charuto e o levou aos lábios.

‘De fato, Vanessa. Você não deveria ter feito aquela aposta sobre quem imploraria primeiro.’

‘Meu Deus.’

Depois de voltar para o quarto e trancar a porta, Vanessa lentamente deslizou até o chão, segurando as bochechas com as duas mãos. Seu coração batia absurdamente alto. Parecia que haviam instalado uma máquina a vapor dentro de seu peito.

Como River Ross tinha se transformado naquele tipo de homem? Mais do que a alegria por tê-lo convencido, ela sentia uma perplexidade ridícula diante do fato de que ele realmente a desejava. Mesmo sendo exatamente o que ela esperava.

Para começar, River Ross era grande demais para ela. Sua estatura alta que parecia engolir até sua sombra, suas mãos enormes marcadas com veias proeminentes, seus ombros largos e sólidos, e até mesmo…

Continua…

Tradução e Revisão: Elisa Erzet 

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