Ler Jardim de Maio – Capítulo 09 Online

— River Ross.
— Sim?
Vanessa, que se aproximara mancando da perna esquerda, arregalou os olhos quando o homem respondeu instintivamente ao nome “River Ross”. Percebendo tarde demais o erro que cometera, o verdadeiro River Ross agitou as mãos, atrapalhado.
— Ah, não. Não é isso.
Vanessa inclinou a cabeça, confusa, antes de fazer um pedido educado.
— Desculpe, mas poderia nos dar um momento? Tenho algumas perguntas para o Sr. River Ross… sobre uma nova variedade de rosas.
Theodore não conseguiu conter uma gargalhada diante dessas palavras. Imediatamente, o olhar afiado da garota se voltou para ele, mas, uma vez iniciado, seu riso baixo demorou a cessar.
‘O que fazer, Vanessa? Infelizmente, não acho que haja alguém aqui que vá acreditar nessa desculpa.’
— Ah… bem, eu…
O verdadeiro River Ross, parecendo inquieto, continuava lançando olhares para Theodore. Era como se estivesse pedindo permissão, embora não precisasse. Por fim, quando Theodore fez um pequeno aceno com a cabeça, River curvou-se profundamente e se apressou para o outro lado do jardim. Os lábios de Theodore se curvaram num sorriso divertido diante da retirada desajeitada do homem.
Foi o jardineiro, Sr. Ross, quem havia aconselhado o Duque a se passar por seu sobrinho, River Ross. Embora as fotos e retratos de Theodore disponíveis ao público fossem todos de quando ele tinha cerca de oito anos, alguém com olhos mais atentos ainda poderia desconfiar. Nesse caso, ter um velho jardineiro, leal à família há décadas, confirmando sua identidade reduziria consideravelmente o risco de ser descoberto.
Por coincidência, não restava ninguém no castelo que tivesse conhecido o verdadeiro River Ross quando criança. Embora tivesse roubado involuntariamente o nome de seu subordinado, Theodore nunca considerou isso um grande problema. Afinal, quando aquele verão terminasse, o hóspede indesejado desapareceria sem deixar um único vestígio de sua estadia.
— River Ross, está me ouvindo?
Quem diria que as coisas chegariam a esse ponto. Theodore reuniu seus pensamentos dispersos ao ouvir sua voz. O rosto claro de Vanessa enquanto ela o encarava agora estava nublado por uma ansiedade que não conseguia mais esconder.
Ela já parecia desesperadamente exausta; ele conseguia enxergar um futuro terrivelmente cansativo caso se envolvessem ainda mais.
Theodore respondeu com um rosto perfeitamente educado:
— Estou ouvindo.
— Precisamos conversar.
— Não tenho certeza do que uma dama e eu teríamos para discutir.
— River, por que está agindo assim?
Theodore passou por Vanessa atônita e seguiu para o interior do Jardim das Rosas. Ao apanhar o cantil que havia deixado sob uma árvore, Vanessa o seguiu apressadamente. A cada passo manco que dava, a fita branca amarrada ao seu tornozelo esquerdo esvoaçava.
Finalmente conseguindo ultrapassá-lo, ela abriu os braços e bloqueou seu caminho.
— Escute, a data do casamento foi marcada.
— Meus parabéns.
— É Lorde Roden.
Theodore interrompeu o movimento de levar o cantil à boca e olhou para ela. Lorde Roden era um homem na casa dos cinquenta anos. Embora tivesse acumulado riqueza através da mineração, era um libertino notório, conhecido pelos rumores de ter assediado praticamente todas as criadas bonitas de sua casa.
Depois que se espalharam pelos círculos sociais da capital, Linden, os rumores de que ele havia engravidado uma viúva que trabalhava em sua casa e depois fingido ignorância sobre a existência da criança ilegítima, Theodore pensou que qualquer família disposta a dar sua filha para aquele pedaço de lixo humano certamente já havia sido extinta.
Theodore estalou a língua baixinho. Parecia que o Conde de Somerset realmente escolhera o pior dos piores. Sentiu até um leve arrependimento pelos parabéns ditos tão casualmente. Claro, independentemente de sua compaixão humana, aquela garota continuava sendo um problema.
Recostando-se levemente, ele a observou de lado.
— Se está tão desesperada, por que não compra outro homem em vez de me incomodar?
Vanessa balançou a cabeça com uma expressão profundamente abatida.
— Minhas saídas são rigidamente limitadas. Este lugar é uma das poucas áreas onde a vigilância é um pouco menor.
— Você pode simplesmente chamar alguém para cá.
— Todos os homens autorizados a entrar aqui trabalham para meu tio.
— Então suborne um médico. Por algumas moedas, tenho certeza de que ele testemunhará exatamente o que você quiser.
— Isso não seria suficiente para causar um escândalo. Eles apenas dariam um jeito de silenciá-lo. E eu realmente preciso de um filho.
Theodore arqueou uma sobrancelha. Estava começando a achar toda aquela situação extremamente cansativa.
— Então, Vanessa, você deveria simplesmente fugir, para bem longe.
— Mesmo que eu vá embora, algum dia precisarei voltar a este país. É por isso que é vital que meu tio desista de mim.
— Tem algum amante secreto morando por perto?
— Meus pais estão enterrados não muito longe daqui. Sou a única pessoa que cuida deles.
— Então pretende ficar aqui e suportar toda essa humilhação? Pelos seus pais mortos? Enquanto é exibida como a prostituta dos Somerset e consumida como fofoca da sociedade?
O rosto pálido da mulher voltou a se contorcer de ansiedade. Seus lábios, que tremiam como se pudesse chorar a qualquer momento, se firmaram novamente numa determinação antinatural.
Talvez ela já não tivesse mais o luxo de considerar outras opções.
— River… por acaso você não se lembra de mim?
Theodore ergueu os olhos para o céu incrivelmente azul daquele mês de maio antes de voltar a olhar para Vanessa, que apertava as mãos trêmulas uma contra a outra. Então havia algum motivo para aquela proposta insana.
Parecia que havia uma razão, de certa forma, para essa proposta insana. Talvez uma promessa do passado. Deveria dizer agora que não era a pessoa que ela pensava?
Para quê?
Se contasse, ela simplesmente correria até o verdadeiro River Ross e repetiria a mesma proposta. E o ingênuo River Ross seria arrastado pela situação sem sequer conseguir recusar adequadamente.
Era óbvio o que um escândalo envolvendo uma nobre decadente faria com a carreira promissora de um oficial da marinha, especialmente um plebeu sem família poderosa para apoiá-lo.
Theodore chegou rapidamente à sua conclusão habitual e encarou Vanessa. Pelo bem de seu subordinado, o melhor era resolver aquilo dentro de limites razoáveis.
Um sorriso torto surgiu em seus lábios.
— Sou um homem caro demais para ser comprado com suas poucas moedinhas. E tampouco estou desesperado a ponto de me transar com uma mulher por quem não sinto nada.
Vanessa agora estava com a cabeça baixa. Ele não fazia ideia de que tipo de cálculos passavam por aquela cabecinha. E, sinceramente, já queria mais saber.
Certamente seria mais alguma loucura. Quando estava prestes a passar por ela, uma mãozinha segurou sua manga.
— Então… eu até amarei você.
Amor. Aquela palavra clichê e exaustiva lhe provocou uma onda de repulsa. Soltando um suspiro seco, e ao olhar para baixo, viu o rosto mortalmente pálido de Vanessa. Naquele momento, Theodore soltou uma risada amarga, sem querer.
Em todo o mundo, Vanessa Siren Somerset provavelmente era a única mulher capaz de falar sobre amor com aquela expressão.
Com um rosto que parecia preparado para a morte. Com os olhos de uma guerreira entrando num duelo, ela disse:
— É que… se eu realmente tiver de me casar, espero ao menos que meu marido não atribua valor algum a isso. E, por esse motivo, quero me livrar disso.
Disso. Como se sua virgindade fosse um fardo inconveniente do qual precisava se desfazer. Os lábios de Theodore se torceram.
— Então você entregaria sua virgindade de bom grado a um homem de quem nem sequer gosta.
— Os homens gostam dessas coisas mesmo sem sentimentos. O senhor provavelmente também gosta. Então pensei que não havia motivo para eu não gostar também.
Ela era uma mulher que pronunciava palavras tão radicais e rebeldes com um rosto completamente dócil.
Sua visão dos homens como pouco mais do que cães no cio era irritante, mas também bastante realista.
Porque eles existiam. Aqueles loucos. Homens que desperdiçavam suas vidas preciosas com mulheres, bebida e jogos.
Memórias desagradáveis do passado pairaram como poeira sobre a tranquila paisagem rural. Inconscientemente, Theodore afrouxou a gola da camisa, que parecia sufocá-lo. Sua respiração havia se tornado estranhamente desconfortável. Talvez porque o olhar de Vanessa sobre ele parecesse inocente demais.
Uma mulher tentando comprar um homem com dinheiro não podia ser tão inocente assim. Podia?
Theodore soltou uma risada irritada, como se quisesse afastar aquele pensamento incômodo.
— Você estava disposta a se entregar a mim porque acreditava que eu era esse tipo de homem?
— Você é bonito… e é marinheiro.
— E daí?
— Coagir fisicamente um soldado a serviço do Estado por motivos pessoais é um crime grave. Além disso, a marinha pode ser enviada para o exterior por anos a qualquer momento.
Era uma conclusão estranhamente perspicaz. Ela havia calculado até mesmo que sua posição era algo que o tio dela não poderia atacar facilmente, caso tudo desse errado.
— Vou fazer o possível para manter sua identidade escondida, mas ninguém sabe como as coisas podem acabar.
— …
— E os outros empregados do castelo têm sua vida enraizada no sul. Você é um completo estranho, então pode ir embora quando quiser, e como não é nobre, não tem honra a perder.
— E se eu fosse um cavalheiro que valorizasse sua honra? Você não teria feito essa proposta?
— Se a pessoa que arruinasse minha honra fosse um nobre com bens que pudessem ser confiscados, meu tio faria qualquer coisa para me empurrar para ele.
— …
— Então vamos apenas ter um relacionamento temporário durante sua licença. Como quando brincávamos de casinha na infância… só que desta vez nos conhecendo um pouco melhor.
— Amantes.
— É verão, afinal. Uma estação que logo desaparecerá.
As bochechas de Vanessa agora estavam coradas com a cor de um pêssego de verão. Tão frescas, como se um suco doce escorresse se ele as mordesse.
Continua…
Tradução e Revisão: Elisa Erzet
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Em breve será disponibilizado uma sinopse!