Ler Jardim de Maio – Capítulo 08 Online


Modo Claro

A primeira sensação foi assustadoramente suave. Apesar de ter presumido que seria algo desagradável, Vanessa parecia um marshmallow aconchegante e doce.

Cada vez que ele sugava sua pequena língua trêmula, ela parecia derramar um néctar adocicado. Seus olhos cinzentos, que se arregalaram de surpresa diante daquela invasão ousada, começaram a se turvar de calor. Lentamente, ele devorou a respiração ofegante da garota.

O aroma que florescia toda vez que seus lábios eram gentilmente pressionados era surpreendentemente semelhante ao das rosas de verão.

— Hmm…

No instante em que suas línguas se entrelaçaram um pouco mais profundamente, um leve tremor percorreu a espinha de Vanessa e um pequeno gemido escapou dela. Cada vez que era minuciosamente explorada e saboreada, suas mãozinhas se agitavam desajeitadamente no ar, incapazes de encontrar algo em que se apoiar. Sua reação, lutando contra um desejo desconhecido, era totalmente inocente.

Theodore segurou firmemente seus pulsos delicados e os puxou para sua cintura. A maneira como o corpo dela cedia suavemente ao seu abraço era profundamente satisfatória.

Para ele, as mulheres eram fáceis, porém audaciosas, materialistas e entediantes. Coravam diante de sua aparência, ofereciam simpatia ousada por sua infeliz história familiar, agiam como se estivessem prontas para tirar até mesmo a lingerie se ele simplesmente estendesse a mão.

E então, de repente, elas tremiam com as bochechas coradas. Derramavam lágrimas diligentemente, sem conseguir esconder completamente o cálculo de que não podiam ser tratadas como mulheres baratas.

— Haa…

A mulher ofegante em seus braços certamente não era diferente. Sua reação, agir como inocente e inexperiente, era refrescante, mas só havia um final possível. Se ele esmagasse seu orgulho dizendo que não sentira nada, o próximo movimento dela seria dar um tapa em seu rosto. Se tivesse azar, ela poderia até começar a chorar.

Theodore conteve um suspiro e a soltou com uma polidez calculada.

— Ah…

Os lábios úmidos de Vanessa tremiam devido à sensação persistente. Seus olhos cinzentos brilhantes e suas bochechas coradas pareciam irradiar o perfume da luz do sol. Seu rosto inocente, cheio de expectativa, o observava silenciosamente.

— Como foi?

A confiança ilimitada de que devia ter sido bom era ao mesmo tempo ridícula e adorável. Isso o deixou momentaneamente sem palavras.

— Foi bom?

‘Sim.’ Theodore admitiu prontamente para si mesmo. Vanessa Siren Somerset era tão encantadora quanto uma criatura mágica e tão docemente madura quanto uma fruta de pleno verão.

Ele pressionou o polegar contra os lábios macios de Vanessa e refletiu calmamente.

‘Eu desejo essa mulher?’

Talvez.

Esse desejo é tão insubstituível a ponto de valer a pena arcar com consequências problemáticas?

‘Não.’

A conclusão veio facilmente. Era hora de despertar do feitiço lançado pelo jardim de verão.

— Não tenho certeza.

Theodore torceu os lábios num sorriso leve e cínico. Seus olhos azuis, desprovidos de emoção, percorreram lentamente Vanessa da cabeça aos pés. Ele demorou o tempo necessário, o suficiente para que seus ombros tremessem de humilhação.

— Parece que simplesmente é impossível.

O rosto da garota, que ainda se agarrava a um fio de esperança, congelou instantaneamente. Seus olhos afiados se arregalaram como se ela não pudesse acreditar no que acabara de ouvir.

— Isso é impossível.

Sua voz soou vazia, como se ainda não tivesse retornado à realidade. Ele esperou pacientemente que Vanessa recuperasse os sentidos e lhe desse um tapa.

Afinal, Vanessa era, ao menos oficialmente, sobrinha de seu empregador. E Theodore, atualmente conhecido como “River Ross”, não tinha intenção de encerrar aquela farsa por enquanto. Nesse caso, o mais limpo era fazê-la desistir por conta própria.

Então…

— Tenta de novo.

— …O quê?

— Tenho certeza de que consigo fazer melhor desta vez.

Vanessa anulou em poucos passos toda a distância que ele havia criado com tanto esforço. Seus olhos cinzentos ardiam como se jamais tivesse ficado chocada, alimentados por uma teimosia e competitividade quase infantis.

Os braços macios da garota envolveram seu pescoço. Diferente do perfume de rosa que emanava de seu corpo delicado, sua aura era tão valente que lembrava a de um general marchando para a guerra. Aquilo era uma sedução ou um desafio lançado a um comandante inimigo? Por outro lado, para aquela mulher, provavelmente não havia diferença. Theodore agarrou ambos os pulsos e os afastou dele.

 — Recobre o juízo.

— Agradeço a preocupação, mas estou perfeitamente lúcida.

— Algo mudará se fizermos isso de novo?

— Eu não estava preparada porque era minha primeira vez. Desta vez será diferente.

— Você não me ouviu? Eu disse que não senti nada.

Ao ouvir aquilo, Vanessa inclinou a cabeça e mergulhou em profunda análise. Como se aquela simples declaração fosse difícil de compreender. Então lançou sobre ele um olhar suspeito, examinando-o de cima a baixo.

Pela primeira vez, Theodore percebeu que apenas o olhar de uma mulher bonita poderia fazê-lo sentir algo tão estranho. De repente, ela soltou:

— River Ross. Por acaso você tem algum… problema na sua vida sexual?

— Sex… o quê?

— Sua vida sexual.

Não havia o menor traço de vergonha no rosto límpido da garota enquanto pronunciava aquelas palavras com tanta precisão. Theodore piscou seus olhos azuis antes de soltar uma risada sem graça.

— Senhorita Vanessa. Nunca lhe ocorreu que talvez você simplesmente não tenha nenhum charme em particular?

— Está falando sério?

— Se eu quisesse uma mulher que fosse apenas bonita, teria comprado uma boneca bonita para abraçar há muito tempo.

O rosto da garota, que até então falava sobre vida sexual, ficou vermelho como uma maçã. Parecia que jamais ouvira uma observação tão vulgar em toda a vida. Então, de repente, pareceu compreender exatamente o significado de suas palavras.

— Isso é impossível.

Sua expressão subitamente abatida era divertida. A forma como repetia as mesmas palavras, como alguém que tivesse sofrido uma grande perda ou caído em completo desespero. Antes, sua tagarelice constante o irritava, mas agora, vendo-a daquele jeito, ela parecia um pouco…

‘Um sentimento sem sentido agora.’

Ele apagou tranquilamente o cigarro terminado em sua cigarreira e passou por ela. O aroma que permanecia em seus lábios o incomodou brevemente, mas foi só isso.

— Ela está observando dali de novo.

Ao comentário de “River Ross”, Theodore tirou os olhos da muda que estava plantando. Seguindo a direção apontada pelo sargento, encontrou um pequeno rosto os observando. Quando percebeu que havia sido descoberta e se escondeu como um gatinho assustado, uma risada seca escapou dele sem querer.

Já fazia uma semana desde aquele dia, e ela continuava rondando-o à distância. Sempre que tirava os olhos do trabalho, ela estava lá, exatamente na direção de onde sentia um olhar sobre si. Aquela garota, Vanessa, um dia estava escondida atrás de uma árvore, em outro em uma janela do segundo andar, e hoje parada na entrada do jardim…

A essa altura, Theodore precisava admitir que havia subestimado um pouco a persistência de Vanessa.

— Vai simplesmente deixá-la continuar assim?

Theodore deu de ombros diante das palavras do verdadeiro River Ross, que veio se colocar ao seu lado.

— O que mais deveria fazer? Ela é a sobrinha do meu empregador.

— E quanto a revelar sua identidade? Se contar à senhorita for demais, talvez deixar escapar alguma pista para o Conde Somerset…

— Esse seria o dia em que a Duquesa Viúva descobriria onde estou. Eu seria arrastado diretamente para o altar.

— Você odeia tanto assim o casamento?

— Odeio, o desprezo e a falsidade que viriam depois.

Era uma visão excessivamente cínica para um homem em idade de casar. Mesmo após ouvir aquela resposta clara, River Ross hesitou por um longo tempo. Parecia ter mais a dizer, mas não conseguia encontrar coragem. Percebendo isso, Theodore voltou-se para ele.

— Se tem algo a dizer, diga.

— Bem… mesmo que continue escondendo sua posição, ao menos não poderia mudar seus aposentos?

— Meus aposentos? Por quê?

— Me sinto incomodado que esteja ficando no depósito. Não importa o quanto tenhamos limpado, o Jardim das Rosas é um lugar que quase não recebeu cuidados. Por que não usa a cabana do meu tio? Meu tio e eu podemos ficar no depósito.

— O Sr. Ross fez uma cirurgia nas costas na semana passada. Você quer que eu ocupe a cama de um paciente e durma confortavelmente sozinho?

— Tudo deve ser tão inconveniente para o senhor.

— É habitável. É mais espaçoso do que uma cabine de navio e ainda tem a vantagem de estar fixo ao chão.

— E se ficasse numa vila próxima…?

Diante do olhar desinteressado de seu superior, River Ross engoliu suas palavras tolas. Se Theodore pisasse em qualquer vila ou propriedade pertencente à família Battenberg, o paradeiro do Duque estaria estampado nos jornais do dia seguinte.

Nesse sentido, Gloucester, no sul, que não tinha conexão nenhuma, era a melhor escolha para Theodore. Um condado que outrora pertencera à alta nobreza, mas que agora havia decaído a ponto de não conseguir sequer colocar os pés na capital. Um conde que fora deserdado por sua família há mais de uma década, excluído dos círculos sociais e que nunca mais retornara à capital.

Um interior atrasado onde um jornal trazido por um carteiro de uma cidade próxima uma vez por semana era a única notícia, e tudo era antiquado. Havia alguns pequenos inconvenientes, mas… nos tempos atuais, era um lugar incomparável.

Às vezes, existia prazer em uma vida simples. Mover o corpo, lavar-se, comer, dormir e acordar ao nascer do sol… 

Talvez até mesmo a Duquesa Viúva aprovasse de braços abertos aquele saudável desvio de seu neto. Ela possuía um temperamento nobre que detestava especialmente os jovens aristocratas que frequentavam clubes sociais.

Theodore deu um tapinha encorajador no ombro de seu leal subordinado e caminhou até um pessegueiro que começava a dar frutos. Durante algum tempo, trabalharam em silêncio, removendo os frutos pequenos, atacados por insetos ou que cresciam de forma desigual.

Cultivar árvores frutíferas em um jardim era considerado algo pouco refinado, mas aquela família já estava muito distante da formalidade em diversos aspectos.

As pinturas famosas penduradas nos corredores eram todas réplicas, os tapetes e cortinas eram grosseiros e de baixa qualidade. E parecia que toda a prataria havia sido vendida há muito tempo. Nesse ponto, cultivar as próprias frutas dificilmente poderia ser considerado um defeito.

Naquele castelo, havia apenas uma coisa que poderia ser chamada de genuína. A Senhorita Vanessa, a jovem cuja beleza vinha sendo comentada por toda Ingram desde que tinha seis ou sete anos de idade.

— Oh?

Quando Theodore olhou instintivamente diante da exclamação surpresa de River Ross, viu aquela única coisa genuína mancando em direção a eles.

Continua…

Tradução e Revisão: Elisa Erzet 

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