Ler Jardim de Maio – Capítulo 07 Online

— Uma proposta?
— Quero te comprar.
— Me comprar?
— Literalmente. Quero passar a noite com você. Pagarei… uma certa quantia em dinheiro.
Theodore soltou uma risada curta e irritada, e o rosto da senhorita Vanessa empalideceu instantaneamente. Era uma hipocrisia ridícula. Fazer uma proposta tão direta a alguém que acabara de conhecer, , ao mesmo tempo, representar o papel de uma donzela inocente que nada sabia sobre homens.
O olhar de Theodore caiu enquanto percorria lentamente seu corpo da cabeça aos pés. Coberta de lama e tremendo até a ponta dos dedos, o rosto da mulher estava branco como papel, como se pudesse desmaiar a qualquer momento. Era um rosto que não demonstrava amor, desejo ou devoção cega.
— Senhorita Vanessa.
Quando pronunciou seu nome com um suspiro cansado, Vanessa estremeceu e seus ombros tremeram.
— Já que chegamos a esse ponto da conversa, acho que podemos dispensar as formalidades incômodas. Me diga o motivo.
A mulher, que empalidecia a cada segundo de vergonha, engoliu em seco. Talvez visse esperança no fato deste homem não a ter rejeitado imediatamente, ou talvez fosse outra coisa.
— Preciso de um filho.
— Um filho?
— Suponho que qualquer homem serviria, mas quero que você seja o pai. É claro, vou compensá-lo generosamente. Criarei a criança com todo o amor que tenho. Tanto que a ausência de um pai biológico não fará diferença alguma. E nunca mais entrarei em contato com você.
As coisas que ela despejou eram uma mais absurda que a outra. Theodore soltou uma risada vazia.
— Então você está me pedindo para aceitar dinheiro em troca de vender minha semente? Entendi direito?
Diante da formulação mais explícita com que ele colocou a questão, o rosto da garota corou intensamente
— Bem, isso é… tecnicamente correto, mas… dito dessa forma, parece…
— Se eu usar palavras elegantes, o significado muda?
— Isso… não, não muda… mas…
— Senhorita Vanessa.
A voz ao pronunciar seu nome era extremamente suave e refinada. Por um momento, foi suficiente para criar uma ilusão.
— O calor te enlouqueceu?
Theodore acendeu um charuto com tranquilidade enquanto aguardava a resposta de Vanessa. Normalmente, nem olharia duas vezes para uma mulher dizendo tamanha loucura. A única razão para não ter ido embora era que andava um pouco entediado nos últimos dias, o Jardim das Rosas estava agradável sob o sol de maio, e a senhorita Vanessa, suplicando desesperadamente enquanto estava encharcada de orvalho, parecia bastante bonita.
Ela era como uma rosa de verão encharcada pela chuva. Como se a água se acumulasse na palma da mão no instante em que alguém a tocasse.
— Sou uma dama. O senhor deveria… demonstrar o respeito adequado…
— Se queria respeito, deveria ter feito uma proposta melhor. Em vez de tentar se vender por tão pouco enquanto oferece dinheiro.
Vanessa agora tremia impotente, como se tivesse encontrado um criminoso comum. Parecia que conseguia agir de maneira vulgar, mas não suportava quando palavras vulgares eram devolvidas na sua cara. Theodore a observou, a cabeça inclinada com um sorriso cínico.
Os cabelos dourados caindo sobre seu pescoço esguio eram como luz do sol, e suas bochechas coradas eram vibrantes. Seus olhos eram levemente puxados para cima, como os de um gatinho sensível; o nariz era delicadamente moldado; os lábios eram vermelhos; e sua mandíbula possuía uma elegância clássica. Até pele era excepcionalmente branca, como se pudesse se desfazer em creme ao simples toque.
Mesmo para alguém que passara a vida inteira cercado pelas mais belas mulheres da capital, Vanessa era de uma beleza incomparável. Se a conversa inicial nascera da curiosidade por alguém que parecia desesperada, seu rosto agora havia comprado o resto de sua paciência.
— Sua vida é tão entediante assim? — perguntou, desviando preguiçosamente o olhar de suas orelhas coradas. — O bastante para querer desperdiçá-la transado com um homem como eu?
—…Sim.
Theodore observou a mulher representando o papel de vilã com um sentimento que não era totalmente desagradável. Na verdade, ele conseguia adivinhar por que Vanessa queria um filho com tanta desesperação. Os rumores de que o Conde de Somerset estava colocando sua sobrinha à venda se espalharam por toda a alta sociedade de Ingram.
O costume da castidade antes do casamento já havia sido quebrado em segredo há muito tempo, e apenas um filho criaria um escândalo irreversível o suficiente para arruinar sua posição na sociedade. Ela devia estar desesperada e aterrorizada à sua maneira. Se fosse vendida dessa forma, passaria a vida cuidando de algum velho.
Compaixão humana. Se não fosse por isso, ele a teria dispensado como uma louca e jamais lhe daria atenção.
— Também não será um mau negócio para o senhor. Tenho uma pensão anual de trinta mil libras em meu nome, e posso solicitar o pagamento assim que tiver um filho. Pagarei vinte mil libras por ano durante cinco anos em troca.
— Ah, por uma miséria dessas.
— Se acha que não é suficiente, estou disposta a pagar mais depois. Podemos até assinar um contrato garantindo ao senhor uma porcentagem dos meus rendimentos futuros.
As condições que ela apresentava, uma após a outra, eram apenas lamentáveis. Theodore manteve um sorriso lânguido.
— Que pena, não sou um homem particularmente desesperado por dinheiro.
A malícia voltou a surgir no rosto da mulher, que já estava afundando no desespero.
— Sei que seu tio, o Sr. Ross, está desviando verbas de manutenção. Até consegui provas.
Ah, então agora ela recorria à chantagem. Ele soltou uma curta gargalhada. Quanto mais a conversa avançava, mais aquela situação parecia uma peça absurda e divertida.
— Desvio de verbas?
— O dinheiro que ele recebe sob o pretexto de manter o jardim.
— E como descobriu isso?
— …Eu vi os livros contábeis.
— Você investigou até um velho jardineiro só para me chantagear?
Era ele quem estava sendo chantageado, mas, quanto mais conversavam, mais pálida ela ficava. Vanessa mordeu o lábio com força.
— Achei que você pudesse recusar. Então investiguei… por precaução, para estar preparada.
— Então, se eu recusar no final, o pobre jardineiro vai para a prisão.
— N-não foi por isso que investiguei!
Seu rosto corou até a ponta das orelhas enquanto gaguejava tentava se justificar.
— Não tem problema se o senhor me ouvir e recusar. Mas seria um problema se saísse espalhando rumores, então investiguei. Minha intenção era garantir que permanecesse em silêncio e não comentasse nada…
Era inesperado que seu objetivo com a chantagem fosse meramente guardar um segredo, mas sua inocência em confessar todo o plano só porque ele soou um pouco lamentável era espantosa.
— Mas realmente não é possível? Não pretendo incomodá-lo. Não tomarei muito do seu tempo. Se apenas nos encontrarmos algumas vezes primeiro…
— Senhorita Vanessa. Posso te dar um conselho?
— Sim?
— Antes de chantagear alguém, você deveria avaliá-lo melhor. Precisa saber quais cartas tem na mão e o que elas significam para a outra pessoa.
Os olhos inocentes da garota agora pareciam completamente confusos. Theodore se perguntou se ela sequer compreendia. Com um sorriso torto, continuou:
— Suponha-se que eu ficaria triste se aquele velho fosse levado embora por causa da sua acusação. Mas desde quando isso é uma fraqueza tão grande?
Em primeiro lugar, o valor desviado não podia ser tão alto. Num castelo pobre escondido no interior, ele pode ter embolsado alguns milhares de libras no máximo. Algo assim poderia simplesmente ser pago de volta várias vezes.
Aparentemente, a dama à sua frente não sabia que problemas resolvidos com dinheiro eram os mais fáceis do mundo.
— Mas o Sr. Ross é seu tio.
— Nunca lhe ocorreu que a família talvez não seja uma fraqueza significativa?
A mulher pareceu estranhamente chocada. Apesar de ser ela quem fazia propostas escandalosas e chocantes, reagiu como se aquelas palavras simples fossem algo profundo.
— É realmente impossível?
— Você acha que seria?
— Os homens… geralmente querem fazer isso comigo, mesmo que tenham que pagar….
As palavras que ela pronunciou com expressão vazia eram, ironicamente, sinceras. Só então ele entendia a origem da confiança inicial dela. Até mesmo o cálculo de que era bonita demais para ser rejeitada.
Em primeiro lugar, a proposta de Vanessa era apenas uma variação de uma história cansativa que ele já ouvira inúmeras vezes.
Desde o momento em que entrou na alta sociedade até agora, as mulheres que o cercavam sempre diziam a mesma coisa. Posso te dar mais riqueza, mais honra, mais filhos…
Presumindo que ele sacrificaria alegremente seu corpo em troca de riqueza, honra ou pela continuação de sua linhagem.
É claro que, comparada às mulheres que de repente começavam a chorar dizendo que sempre o adoraram ou falando sobre feridas da infância, Vanessa oferecera uma opção bastante interessante. Chantagem, de todas as coisas.
— Se queria tanto se envolver comigo, deveria simplesmente ter confessado seu amor. — Era por isso, que ele queria conhecer essa mulher. — Se tivesse feito isso, talvez eu tivesse acreditado.
E foi por isso que lhe deu uma resposta que definitivamente não era a correta. Os olhos de Vanessa se arregalaram como se aquela possibilidade jamais tivesse passado por sua mente.
— Mas, Tenente… isso seria uma mentira. Dizer que ama alguém quando não é verdade.
Ao contrário da proposta desgastada que ela havia feito, o reflexo dele estava claramente visível em seus olhos puros e brilhantes. Theodore a observou com os olhos semicerrados, como se encarasse o sol, antes de soltar uma risada vazia. Então seduzi-lo dizendo que o amava, sem amá-lo de verdade, era uma mentira imperdoável; mas comprar seu corpo com dinheiro era uma negociação justa? Ela era uma mulher cuja forma de pensar era estranhamente rígida e, ao mesmo tempo, radical.
— Então as negociações fracassaram.
— E-espere. Tudo o que preciso fazer é te amar?
Vanessa agarrou com urgência a manga dele quando Theodore se virou para partir. Suor frio surgia na testa da garota que se aproximara mancando. Parecia que a dor no tornozelo torcido estava piorando.
— Quem sabe.
Os lábios trêmulos e corados, e seus olhos lastimáveis, despertaram nele um impulso baixo e cruel. Theodore observou silenciosamente o belo rosto de Vanessa, agora pálido por suportar a dor, e então sorriu, seus lábios se curvando de lado.
— Não importa que compensação me ofereça, até mesmo o quanto me chantageie, ou o quão teimosa seja. Se eu não me sentir atraído por você, não seria o fim da história?
— O que quer dizer?
— Acho que o mais importante aqui é se consigo sentir desejo por você ou não.
Vanessa piscou seus olhos arregalados. Parecia não ter entendido nem metade do que ele dizia. Theodore deu uma longa tragada no charuto preso entre os dedos, e depois usou essa mesma mão para segurar a bochecha branca da garota.
A fumaça forte se espalhou, deixando sua mente entorpecida. Só então uma expressão de perplexidade coloriu o rosto de Vanessa enquanto ela o encarava. Seria louco por achar aquilo satisfatório?
— Sério, o que você est—
Inclinando a cabeça, ele pressionou seus lábios contra os dela, que se abriram para protestar.
Continua…
Tradução e Revisão: Elisa Erzet
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