Ler Jardim de Maio – Capítulo 06 Online

Surpreendentemente, o que surgiu no rosto pálido de Mary foi uma leve expressão de simpatia.
— Ah. Está falando do sobrinho do Sr. Ross?
— …Aquele homem é sobrinho do Sr. Ross?
— Sim. Acredito que o nome dele seja River Ross.
Vanessa arregalou os olhos.
Por mais generosa que alguém fosse, o Sr. Ross estava muito longe de ser um homem bonito, e seus cabelos eram mais castanho-escuros do que pretos. Além disso, a lembrança que guardava da aparência de River Ross era…
Vanessa interrompeu os próprios pensamentos antes que fossem longe demais. Por outro lado, quem poderia saber? Já não restava ninguém naquele castelo que se lembrasse daqueles dias.
— Ele serve como sargento da marinha. Aparentemente, lutou recentemente na Batalha de Potsdam e recebeu uma longa licença por seus serviços distintos.
A criada, normalmente tão reservada, parecia estranhamente animada enquanto falava dele.
Naturalmente, a mudança durou apenas um instante. Como se tivesse se lembrado subitamente de sua posição, o rosto de Mary voltou a ficar sombrio, e ela continuou com um suspiro.
— Bem, ele não é o tipo de homem que se espera encontrar no interior. E certamente não é o tipo que se envolveria com criadas como nós.
A princípio, Vanessa achou que Mary estivesse enganada. Contudo, depois disso, outras duas criadas deram exatamente a mesma resposta.
River Ross. Sobrinho do jardineiro Hugh Ross. Um nobre e honrado sargento da Marinha de Ingram. Diziam que não estava comprometido com ninguém. Tinha vinte e três anos. Era alto, imponente e possuía um físico forte à altura de sua estatura.
Seu caráter era tão diligente e bondoso que, durante sua licença de verão, se oferecera para ir a Gloucester ajudar o tio adoentado.
E, acima de tudo… Havia aquele rosto. Vanessa mordeu a ponta da caneta enquanto franzia a testa. Ver tudo aquilo escrito no papel tornava aquelas qualificações ainda menos plausíveis.
— Vanessa. Em que está pensando tão profundamente?
Rosalyn, que estava recostada com uma bolsa de gelo na bochecha, aproximou-se com passos vacilantes.
Quanto ela havia bebido na noite anterior?
Seu rosto, abatido pela ressaca, parecia mais pálido do que nunca.
Apoiando o queixo sobre a cabeça de Vanessa, Rosalyn pegou a folha que estava sobre a mesa.
— Este é o protagonista de um novo romance? Um marinheiro?
— Algo assim.
— Algo assim…?
Vanessa respondeu com um piscar tranquilo de seus olhos cinzentos.
— Se existe algo que você não quer vender, basta fazer com que ninguém queira comprar.
— O quê?
— E se surgisse um defeito tão grande que ninguém ousasse adquiri-lo?
Ela falou de forma indireta, consciente de possíveis ouvintes.
Mas o significado era claro. Rosalyn encarou Vanessa com uma expressão incrédula antes de balançar a cabeça e afundar novamente no sofá.
— Seria preciso um defeito enorme para fazer seu tio desistir. Seu tio só se sente seguro enquanto você está dentro de Gloucester. No instante em que atravessa os portões do castelo, você passa a ser seguida por todos os tipos de vigilância. Como exatamente você pretende…
— Exatamente. É por isso que é ainda mais perfeito.
Diante daquela resposta estranhamente sinistra, Rosalyn voltou a se sentar.
O rosto de porcelana de Vanessa normalmente parecia bastante dócil.
Mas seus olhos, levemente puxados para cima como os de um gatinho, frequentemente transmitiam uma impressão surpreendente.
Corajosa apesar da aparência tímida. Gentil na maior parte do tempo, mas incapaz de recuar depois que tomava uma decisão. Exatamente como sua verdadeira natureza.
— Que tipo de plano perverso você inventou?
Vanessa ofereceu um sorriso radiante à amiga confusa.
Sentia-se um pouco culpada por esconder aquilo até mesmo de Rosalyn, mas não tinha intenção de envolvê-la.
O escândalo precisava pertencer apenas a Vanessa Siren Somerset.
E, nesse sentido, River Ross era adequado em todos os sentidos.
Mesmo que tudo desse errado, ele poderia simplesmente retornar ao exército ou solicitar uma transferência para o exterior.
Além disso, como plebeu, não possuía honra aristocrática a preservar.
O fato de ser sobrinho do jardineiro também era perfeito para destruir uma reputação.
E havia mais. Ele era um homem que alcançara o posto de sargento na marinha repleta de aristocratas.
Sua competência estava praticamente comprovada.
‘Além disso, ele é bastante impressionante fisicamente.’
Depois de avaliá-lo com a mesma leveza com que alguém examinaria um bichinho de estimação, Vanessa sorriu enquanto guardava a caneta.
Quanto mais pensava no assunto, mais acreditava que aquele homem havia sido enviado por Deus para salvá-la.
Pela primeira vez, Vanessa decidiu acreditar no destino.
Durante os dias seguintes, Vanessa observou River Ross discretamente à distância.
Ela nem precisava fazer nada. Mesmo sentada junto à janela da sala de visitas, conseguia vê-lo trabalhando no jardim.
Observando-o, percebeu que River Ross parecia tão inexperiente em jardinagem quanto ela própria.
No entanto, sua velocidade de adaptação era extraordinária. Depois de aprender uma tarefa, dominava-a mais rápido do que qualquer outra pessoa.
Agora parecia alguém que passara a vida inteira cortando árvores mortas, cavando a terra e podando arbustos. Ainda assim, não perdia nem por um instante a disciplina e a compostura de um soldado.
— Vanessa. Você deveria estar olhando para mim.
Vanessa, que procurava River Ross inconscientemente entre os trabalhadores agrupados, voltou a si.
Do outro lado da quadra de tênis, Blair a observava com um leve sorriso.
— Se não se concentrar, vai perder desta vez também.
Vanessa suspirou e segurou a raquete, assumindo posição.
Ela não fazia ideia do que havia acontecido com aqueles gêmeos, que normalmente jamais acordavam cedo.
Blair, reclamando de inquietação desde o amanhecer, finalmente conseguira arrastá-la para a quadra.
Ela girou a raquete entre os dedos com certa nostalgia.
Quando tinha cerca de dez anos, parecia bastante competitiva. Agora, tudo aquilo era apenas cansativo.
Vanessa limpou o suor que escorria pelo queixo com o dorso da mão.
A blusa encharcada grudava desconfortavelmente em sua pele.
— Quer parar se estiver muito cansada?
Blair sugeriu, jogando-lhe um cantil.
Vanessa assentiu vigorosamente.
Diferente dela, que estava exausta, Blair parecia alguém que acabara de terminar um passeio leve.
Depois de esvaziar o próprio cantil, ele entregou a raquete a um criado e falou:
— Rosalyn estava preocupada. Ela me disse para cansá-la, para que você não tivesse tempo de pensar em outras coisas.
— Ah… então era por isso… que você estava tão insistente… em jogar…
— Vamos entrar. Será perfeito para nos lavarmos e depois irmos almoçar em Bath. Deixe a tarefa de conseguir permissão do seu tio para Rosalyn.
Foi justamente quando Vanessa concordou prontamente. River Ross estava sozinho em um caminho isolado que levava ao Jardim das Rosas. De alguma forma, havia conseguido se livrar das criadas que o perseguiam como um bando de tubarões.
No instante em que o viu, as palavras escaparam de sua boca antes mesmo que pudesse pensar.
— Espere um momento, Blair.
— Por quê?
— Acabei de me lembrar de algo que preciso dizer ao Sr. Ross. Não vai demorar.
— É urgente?
— Entre na frente. Eu vou logo atrás.
— Ei, não me empurre.
Mesmo tropeçando teatralmente após o leve empurrão, ele voltou-se para ela com curiosidade.
— Você não está me mandando embora para encontrar outro homem, está?
— …Pelo amor de Deus.
— É brincadeira, brincadeira.
Ele deu de ombros, pegou o cantil e a toalha e deixou a quadra.
Assim que teve certeza de que estava completamente fora do campo de visão de Blair, Vanessa se virou e começou a caminhar rapidamente.
Seu coração ficou mais ansioso à medida que o leve cheiro de tabaco no ar começava a desaparecer.
‘Onde ele foi? Ele estava aqui há apenas um instante…’
O caminho para o Jardim das Rosas estava tomado por ervas daninhas descuidadas que frequentemente escondiam seus pés.
Além disso, a chuva de alguns dias antes transformara o solo em lama.
Depois de atravessar o caminho com dificuldade, Vanessa ficou desanimada ao encontrar um portão de ferro forjado firmemente trancado com um cadeado.
Aquele era o único caminho ligando o jardim dos fundos, onde ficava a quadra de tênis ao Jardim das Rosas.
Se River Ross tivesse retornado pelo mesmo caminho, inevitavelmente teria cruzado com ela.
Portanto…
‘Isso significa que ele está lá dentro.’
Vanessa observou o jardim com olhar hesitante. O portão era alto demais para escalar usando uma saia volumosa. Além disso, estava envolto por roseiras secas e espinhosas.
Era uma prova do abandono daqueles três anos em que ela passara no internato.
‘Não é hora de desistir.’
Vanessa fechou as mãos com firmeza. Nada mudaria se continuasse parada. Ajoelhou-se rapidamente. Enfiou o braço entre as grades e tateou sob uma estátua inclinada.
‘Eu deixei a chave por aqui em algum lugar.’
Será que sua memória falhara por ser tão novinha naquela época?
Por mais que esticasse o braço, não encontrava nenhum pedaço de metal.
Foi então. Junto com um som de folhas se movendo, ouviu passos se aproximando. Se levantou apressadamente. A presença vinha diretamente em sua direção. Em seu nervosismo, não percebeu uma tábua caída no chão e pisou nela. No mesmo instante, a madeira fina se partiu. Seu pé esquerdo afundou diretamente.
— Ah!
Vanessa soltou um breve grito e caiu pesadamente no chão. Seu peso recaiu sobre o tornozelo torcido. Uma dor intensa a atingiu imediatamente. Gemendo, sentou-se enquanto segurava o tornozelo. Só então se lembrou do aviso do mordomo para não se aproximar do jardim.
Todo o terreno havia sido escavado para a instalação da fiação elétrica. Era patético ter esquecido algo tão importante apenas para perseguir seu objetivo. Sentada na lama, sentiu uma pontada de miséria.
Nesse momento, uma sombra escura caiu sobre sua cabeça. Como uma geada que não deveria existir em um jardim de verão.
— Que tipo de truque é este?
Theodore olhou para a mulher caída no chão. Havia um cigarro apagado entre seus lábios. De repente, se sentiu como um personagem de uma peça barata. Um papel indesejado que fora forçado a interpretar sem jamais tê-lo escolhido. As mulheres eram sempre assim.
Sempre que apareciam diante dele, deixavam cair alguma coisa, perdiam o caminho para seus aposentos, tropeçavam em terrenos perfeitamente planos ou adoeciam subitamente.
Cada uma dessas situações era um clichê dramático. Claro, a condição da senhorita Vanessa parecia um pouco mais séria do que uma simples encenação.
Seu tornozelo, visível sob a barra enlameada da saia, inchava rapidamente e adquiria uma tonalidade arroxeada. Theodore estreitou seus olhos frios e estendeu a mão para ajudá-la. Antes de ser aristocrata, ele era um soldado. E proteger os fracos era um hábito profundamente enraizado.
— Você…
Vanessa arfou e agarrou seu braço com uma mão úmida e coberta de lama. Embora seu aperto não fosse forte, havia nele um desespero suficiente para parecer firme.
— Tenho uma proposta para você, River Ross.
Continua…
Tradução e Revisão: Elisa Erzet
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