Ler Jardim de Maio – Capítulo 05 Online

Blair e Rosalyn suportaram a temporada social do Sul com uma paciência obstinada e incompreensível. Apesar das previsões iniciais de que não aguentariam nem três dias, pareciam determinados a permanecer no Castelo Gloucester até o exato momento em que seu navio partisse.
Os rumores de que os irmãos Winchester, membros da alta nobreza da capital, estavam hospedados no Castelo Gloucester levaram os círculos sociais do Sul à beira de um frenesi. Uma sequência incessante de chás, bailes e piqueniques se estendia dia e noite. Rosalyn insistia para que Vanessa os acompanhasse em todas as ocasiões, mas, para Vanessa, a vida social era tediosa demais.
Sentar todos os dias diante das mesmas pessoas tomando chá, aplaudir os homens que retornavam das caçadas, visitar o hipódromo e folhear os novos catálogos do distrito comercial até decorá-los, não encontrava satisfação em nada disso.
Preferia usar esse tempo para escrever nem que fosse uma única palavra a mais.
Claro que, quando surgiam situações que não podia recusar, Vanessa suportava a maior parte delas com sua diligência habitual, mesmo que sua mente estivesse meio perdida em outras fantasias. Porque essas não eram as coisas verdadeiramente insuportáveis.
— Muito bom.
A respiração úmida do Barão roçou seu ombro.
Aconteceu no escritório, para onde ela fora chamada por ordem do tio. Agarrando repentinamente sua mão, o Barão exigiu que ela lhe mostrasse uma valsa. Enquanto a mão do velho guiava seu corpo para um lado e para o outro, Vanessa simplesmente suportava tudo, rígida e ereta.
Como se aquilo fosse alguma prova de modéstia, um brilho satisfeito surgiu nos olhos do velho.
— Você educou sua sobrinha de forma admirável.
— Então podemos prosseguir conforme o planejado?
— Bem…
Naquele instante, Wyatt lançou ao velho um olhar como se estivesse diante de um vigarista. Sentindo a hostilidade, o Barão Howard fez um gesto displicente com a mão.
— Não é nada demais. Apenas gostaria que a pureza da noiva pudesse ser comprovada antes do casamento.
— Está insultando a mim e à minha sobrinha.
— Não é assim que são os internatos? Não há como saber que tipo de imprudências as crianças podem cometer dentro daqueles muros.
Wyatt pareceu, de forma incomum, sem palavras.
O Barão não deixou escapar aquele breve momento de hesitação e pressionou ainda mais.
— Ouvi dizer que o filho do Marquês de Winchester e a jovem desta casa são próximos.
— Isso é… porque cresceram juntos… Não, como exatamente espera que eu prove uma coisa dessas?
— Conheço alguém famoso por esse tipo de assunto. Alguém capaz de dizer com uma precisão assustadora se uma mulher esteve com um homem intimamente ou não.
O olhar do Barão percorreu lentamente o corpo dela.
Mesmo completamente vestida, Vanessa sentiu-se despida, e as pontas de seus dedos começaram a tremer.
— Desde que sua pureza seja garantida, o Conde poderá me pedir qualquer coisa.
Exigências. Negociações. Provas.
Às vezes, àquelas palavras vulgares eram difíceis até de ouvir.
E coisas assim aconteceram várias vezes.
Terrível. Horrível…
Ultimamente, o candidato favorito de seu tio era um novo-rico proprietário de diversos jornais. Segundo ele, aqueles papéis baratos, vendidos por uma única moeda de cobre, estavam repletos dos mais variados escândalos sensacionalistas. Como ganhava dinheiro dessa forma, não sabia economizar.
Uma apresentação que fazia parecer que aquele era o único mérito do homem.
— O sucesso certamente merece admiração. Pensar que eu conheceria pessoalmente a senhorita Vanessa, cuja beleza é exaltada pelo mundo inteiro.
Uma fumaça espessa de charuto escapava dos dedos do magnata dos jornais.
Era mais uma noite em que ela quis fugir no instante em que abriu a porta do escritório e foi atingida pelo cheiro forte de uísque.
Uma mistura estranha de inveja e sadismo vulgar brilhava nos olhos do homem.
— Vinte anos atrás, alguém como eu jamais ousaria sequer olhar para você.
Sempre que ficava diante deles, deixava de ser uma pessoa para se tornar um objeto.
Cada homem estabelecia um preço, avaliava-a e calculava sua utilidade, decidindo se valia ou não a compra.
Parecia que sequer consideravam a possibilidade dela ser um ser humano com sentimentos.
Por outro lado, em uma terra onde uma mulher não podia sequer herdar os bens dos próprios pais, que grandes expectativas poderia ter?
— Ah…
Foi naquele momento que a caneta-tinteiro que segurava com força se partiu.
Vanessa olhou com tristeza para o papel e para a caneta, agora manchados por tinta derramada.
Ela já estava rachada havia muito tempo, e Vanessa continuava usando-a com cola e tiras finas de tecido para mantê-la inteira. Deveria ter sido mais cuidadosa.
Sentiu mais pesar pela caneta quebrada do que pelo manuscrito em que trabalhara durante três horas e que fora arruinado em um instante.
Principalmente porque, junto com seus óculos, era uma das poucas lembranças deixadas por seu pai.
— Minha senhorita, está na hora de apagar as luzes.
— Entendido, Mary.
Atendendo ao aviso da criada, Vanessa limpou apressadamente a tinta derramada com um lenço.
Queria continuar trabalhando por mais algum tempo, mas, se desperdiçasse querosene com coisas consideradas inúteis, não escaparia das reclamações do tio.
Lavou o rosto e as mãos na bacia preparada e trocou de roupa, vestindo sua camisola.
Depois de confirmar que ela estava na cama, a criada apagou o lampião a óleo e fechou a porta do quarto.
Era uma noite em que o sono não viria facilmente.
Normalmente, estaria deitada ao lado de Rosalyn, conversando baixinho. Porém, naquele dia, os irmãos Winchester estavam fora do castelo visitando parentes em uma aldeia vizinha.
Depois de se revirar por muito tempo na cama, Vanessa finalmente se levantou e colocou um xale sobre a camisola.
Atravessou o quarto com urgência e abriu as portas da varanda, que estavam firmemente trancadas.
Como era o início do verão, a brisa noturna ainda era fresca.
Somente depois de inalar profundamente sentiu que conseguia voltar a respirar de verdade.
Então…
O que aconteceria com ela?
Seria exibida de um lado para outro até ser vendida ao maior lance?
Para um homem interessado apenas em sua juventude, seu rosto bonito e seu sobrenome, sem o menor respeito por sua vontade?
“Enquanto meu valor no mercado matrimonial não despencar, meu tio não desistirá do negócio.”
As palavras que ela mesma havia dito um dia voltaram como um eco sufocante.
A cada suspiro, sentia ser consumida pouco a pouco.
Quando achou que não conseguiria mais suportar o silêncio, ouviu passos vindos da parte distante do jardim escuro, próximo ao caminho que levava ao Jardim das Rosas.
‘Quem é?’
Vanessa endireitou o corpo, que estava apoiado no corrimão.
A presença que se aproximava parou exatamente abaixo da varanda onde ela se encontrava.
Então veio o cheiro acre de fumaça de tabaco.
Até mesmo ela, que nada entendia de tabaco, percebeu que o cheiro era forte demais para ser um charuto de cavalheiro.
Era um cigarro enrolado à mão, de qualidade inferior.
Semicerrando os olhos por causa da fumaça irritante, ela olhou para baixo e viu uma silhueta escura.
Era ele. O mesmo homem que havia aparecido e desaparecido como uma ilusão alguns dias antes.
Seu rosto, iluminado pelos lampiões do jardim, era coberto por sombras suaves e alaranjadas.
“Às vezes, ela se torna estranhamente corajosa.”
Seria um presságio? Acima do belo rosto do homem, a voz de Rosalyn flutuou como poeira antiga.
“Você precisa ser mais cautelosa, Vanessa.”
Bem.
Vanessa pensou com cinismo enquanto apertava o corrimão.
Se ninguém podia salvá-la, não lhe restava escolha senão salvar a si mesma.
— Posso usar o automóvel amanhã à tarde?
Wyatt, que estava curvado sobre a escrivaninha escrevendo algo com afinco, levantou a cabeça e franziu a testa diante do pedido repentino.
Vanessa sorriu e entrelaçou as mãos para esconder o nervosismo.
— Tenho um assunto para resolver na cidade.
— Na cidade?
— A caneta-tinteiro que eu usava quebrou, e gostaria de ver se pode ser consertada.
Wyatt a observou atentamente por alguns instantes antes de balançar a cabeça de forma categórica e mergulhar novamente a pena no tinteiro.
— Não.
— Mas, tio…
— Este é um momento importante. Não fique vagando por aí sem necessidade até que seu casamento esteja decidido. É cansativo quando surgem rumores desnecessários.
— …
— Se entendeu, volte calada para o seu quarto, e faça alguma coisa com essa cara.
Wyatt franziu a testa como se quisesse esmagar os primeiros sinais de rebeldia que surgiam nela.
Vanessa se virou, mordendo o lábio trêmulo. Sentia o olhar cruel do tio acompanhando suas costas. Assim que fechou a porta, ouviu-o murmurar baixinho.
— Vou ter que colocar mais gente para vigiá-la. Ela começou a responder de repente…
Vanessa voltou para o quarto arrastando os pés. Como não recebera permissão para sair, não poderia consertar a caneta imediatamente. Mas isso não significava que não houvesse outra forma de enviar seu manuscrito.
Felizmente, entre os encarregados dos recados da propriedade havia alguns que aceitavam pequenos favores, como levar correspondências.
Vanessa olhou para o relógio e puxou para perto de si o papel de manuscrito e a caneta que estavam sobre a mesa.
Já haviam se passado três meses desde que começara a publicar um romance em capítulos em uma revista semanal usando um pseudônimo.
Era um passatempo um tanto perigoso para uma dama, mas a alegria de escrever sempre superava qualquer outra coisa.
Pelo menos enquanto segurava uma caneta, não precisava pensar em nada complicado.
— Estou entrando, senhorita.
A porta do quarto se abriu sem sequer uma batida. O rosto frio de Mary, sua criada pessoal e supervisora, surgiu abruptamente do outro lado.
Ao ver as mãos manchadas de tinta de Vanessa, a criada soltou um suspiro exasperado.
— Como ainda está fazendo isso? O banquete de jantar começará em breve.
— Vou me arrumar rapidamente. Só um momento.
Vanessa rabiscou algumas palavras a mais no manuscrito e então colocou cuidadosamente, dentro de um envelope, as páginas que levara várias noites para escrever.
Enquanto isso, Mary despejou óleo perfumado na bacia de água para lavagem e retirou o vestido que havia escolhido previamente.
— Sente-se aqui. Vou escovar seu cabelo primeiro.
Conforme instruída, Vanessa sentou-se obedientemente diante da penteadeira. Mary começou a desembaraçar e escovar seus cabelos. Seus movimentos não eram delicados, mas eram rápidos e eficientes.
— E o almoço de amanhã será servido um pouco mais tarde. Todas as criadas da cozinha foram mobilizadas para preparar os campos de caça e o salão do banquete.
— Tantas assim?
— Está uma confusão por causa da falta de trabalhadores competentes. Contrataram alguns temporários, mas três deles fugiram logo após o almoço do primeiro dia.
Trabalhadores..Ao ouvir aquilo, Vanessa naturalmente pensou em uma determinada pessoa..Ela olhou para Mary através do espelho.
— Mary. Você por acaso conhece aquele homem?
— Quem?
— O homem bonito que estava com o jardineiro-chefe. Parecia ser um novo assistente de jardinagem. Ele também é um trabalhador temporário?
Ao ouvir as palavras, “aquele homem bonito,” a mão de Mary, que escovava seus cabelos sem parar, congelou por um instante.
Continua…
Tradução e Revisão Elisa Erzet
Ler Jardim de Maio Yaoi Mangá Online
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