Ler Jardim de Maio – Capítulo 04 Online

Tradução e Revisão: Elisa Erzet
— Vou ajudar no que puder, seja para fugir ou desaparecer.
— Se isso realmente acontecer, vocês dois serão os primeiros suspeitos — respondeu Vanessa com uma risada leve, quase brincalhona.
Mesmo que, por algum milagre, ela conseguisse escapar sem deixar rastros, Wyatt era o tipo de homem que a procuraria obsessivamente, mesmo que levasse a vida inteira. Seu tio era incompetente em quase tudo. Mas suas conexões perigosas eram muito reais.
Todos aqueles vagabundos, jogadores, mensageiros suspeitos e membros de gangues…
Vanessa não sabia com que tipo de pessoas ele havia se envolvido durante o período em que esteve afastado da família, mas os “negócios” do tio pareciam se estender por cantos sombrios. Embora não parecessem ser muito lucrativos.
Segundo o próprio tio, tudo começou com uma montanha de dívidas contraídas com a família.
Ele alegava que a situação era tão grave que nem mesmo a venda completa do patrimônio, tanto o castelo quanto a residência na capital, seria suficiente para cobri-las.
Quaisquer propriedades que pudessem gerar renda já haviam sido confiscadas pelos bancos há muito tempo.
As relíquias da família também haviam sido vendidas e desperdiçadas.
Agora, a única “mercadoria” restante que os Somerset podiam vender era a própria Vanessa.
Por volta da época em que os fofoqueiros começaram a comentar sobre a beleza da Senhorita Somerset, a atenção de seu tio passou a se concentrar em um único objetivo: Vender seu único ativo restante por um preço alto.
— Há muitas pessoas neste mundo dispostas a comprar um título de nobreza, mesmo que seja apenas simbólico. Enquanto meu valor no mercado matrimonial não despencar, meu tio não desistirá.
— Ainda assim, você precisa ganhar algum tempo para respirar — disse Blair. — Não deixe que ele a empurre para outro plano precipitado e mal pensado quando se sentir encurralada. Como aquela vez que você fugiu aos quatorze anos. — Acrescentou ele com um sorriso de canto.
Envergonhada, Vanessa sentiu suas bochechas esquentarem.
— Isso foi há uma eternidade… E nem sequer foi uma fuga. Eu só fui visitar meus pais no Cemitério Melvin no aniversário da morte deles.
— Chame do que quiser. Você desapareceu por três dias e depois foi trazida de volta pela polícia.
— Bem… isso é verdade, mas…
— Ela fica estranhamente corajosa às vezes.
Rosaline se mexeu desconfortavelmente na cadeira dura, tentando encontrar uma posição menos dolorosa.
Sinceramente, se não fosse por sua preocupação com Vanessa, ela não ficaria um único dia neste lugar horrível.
Mesmo entre a aristocracia decadente, os Somerset estavam em um nível à parte. Grande parte da mobília do castelo estava danificada. E cada uma das pinturas de paisagem penduradas nos corredores era falsificada.
Tudo o que restava era uma tentativa desesperada de sobreviver apoiando-se nos fragmentos da antiga glória da família.
E aquela negligência cuidadosamente disfarçada…
Nenhuma família aristocrática respeitável trataria parentes ou convidados daquela maneira.
— Está quente. Abra mais a janela.
Atendendo ao pedido preguiçoso de Rosaline, Vanessa abriu completamente a janela que estava apenas entreaberta.
Uma rajada de vento fez as cortinas brancas inflarem para dentro.
O ar ainda era fresco, o sol já tinha a intensidade do auge do verão. Vanessa puxou uma cadeira e se encostou preguiçosamente no peitoril da janela, como um gato.
A atenção dos gêmeos já havia se voltado para suas dissertações, fofocas da sociedade e conversas triviais.
Vanessa deixou que suas vozes se misturassem ao ambiente enquanto observava o jardim lá embaixo.
A janela da sala de estar era um de seus lugares favoritos no Castelo Gloucester.
Dali, podia contemplar o jardim de rosas de sua mãe. Havia sido negligenciado por tanto tempo que era difícil imaginar o esplendor que possuíra. Mas ainda preservava uma beleza silenciosa.
Os choupos e as moitas de urze crescidos demais, o galpão onde as ferramentas de jardinagem eram guardadas, as rosas silvestres que logo floresceriam em abundância, e…
Foi então que ouviu um ruído vindo debaixo da janela. Vanessa se endireitou imediatamente. Erguendo a cabeça do peitoril. O jardim de rosas geralmente estava deserto. Será que o senhor Ross, o jardineiro, já havia voltado?
Ele dissera que iria à estação de Bath buscar o sobrinho, que o ajudaria durante as férias.
Talvez algum trabalhador desinformado tivesse invadido o jardim de sua falecida mãe. Ela estava pensando no que fazer quando um homem estranho emergiu dos arbustos. As mangas da camisa estavam dobradas até os cotovelos, como se estivesse trabalhando. Seus cabelos negros como a noite estavam levemente desalinhados. A vegetação densa projetava sombras sobre metade de seu rosto.
‘Quem é ele?’
Vanessa prendeu a respiração. Observando-o. À sombra das árvores, o homem parecia um predador à espreita. Ela teve a nítida impressão de que ele estava tentando evitar ser visto.
Enquanto observava, o homem tirou um cigarro do bolso e o acendeu, um ato incrivelmente desrespeitoso no jardim seco e abandonado. Assustada, Vanessa segurou a moldura da janela.
Crec.
As dobradiças rangeram sob o movimento repentino.
O homem levantou a cabeça de repente. Seus olhos se encontraram. Olhos tão profundos e escuros quanto o oceano. Por um momento, Vanessa sentiu uma estranha falta de ar, como se tivesse sido pega fazendo algo errado.
— …
Seu olhar percorreu lentamente o corpo dela. Vanessa mordeu o lábio até que ficasse branco. Ela não conseguia desviar o olhar. Era inacreditável que um mero trabalhador ousasse olhá-la com tamanha ousadia… e ainda assim, ela estava estranhamente curiosa sobre como ele a enxergava naquele momento.
— Vanessa.
A voz de Blair atrás dela a fez pular. Seu coração disparou como se tivesse sido pega em algum ato proibido.
— Sim?
— O que houve com você?
— Ah… nada…
Sua reação deve ter parecido suspeita, pois Blair levantou e caminhou até a janela. Parando ao lado dela.
Enquanto observava cuidadosamente o jardim, Vanessa inconscientemente mordeu o lábio mais uma vez e juntou as mãos.
Por que ela estava tão nervosa? Era apenas um trabalhador invadindo o jardim. Se alguém fosse ter problemas, seria ele.
Um instante passou, pareceu uma eternidade. Então Blair soltou uma breve risada desdenhosa.
— Não tem absolutamente nada ali.
— O quê?
— Era um gato ou algo assim?
‘Nada? Impossível.’
Vanessa voltou o olhar freneticamente para fora. Mas o local sob a árvore onde o homem estivera parado estava vazio. Como se ele tivesse sido um fantasma criado pela miragem do calor do verão.
‘Quem era ele?’ Ela repetiu silenciosamente a pergunta que não conseguia pronunciar em voz alta.
— Falando nisso, Enoch enviou um convite para um chá.
Rosaline, que já havia tocado a campainha diversas vezes para chamar a criada perpetuamente ausente, falou com uma animação incomum. Blair, que estava prestes a pegar a xícara de chá novamente, ficou ligeiramente rígido.
— Enoch Berkshire? Ele está aqui no Sul? E aquele superior que ele vivia seguindo?
— Desapareceu completamente por algum motivo. Há especulações de que esteja em algum lugar do Sul. É o que minhas fontes me dizem
— Quem desapareceu?
Ainda perdida em um estado onírico, Vanessa perguntou distraidamente. Ela havia interrompido a conversa por impulso. Aquele assunto desconhecido havia despertado sua curiosidade. Ela acabara de ver um homem estranho em um jardim familiar e, de alguma forma, sentia que aquilo estava conectado.
— O Duque de Batenberg.
Rosaline pronunciou apenas o nome, como se aquela única palavra explicasse tudo, incluindo sua animação incomum.
Vanessa piscou, confusa.
Percebendo o próprio erro, Rosaline rapidamente acrescentou:
— Ah, esqueci completamente que você ainda não fez sua estréia na sociedade… É compreensível que não o conheça.
— Vanessa passou praticamente todas às férias enterrada em livros no internato — comentou Blair. — Não é surpresa que ela não saiba. Além disso, a única imagem pública do duque é uma fotografia tirada no funeral da mãe, quando tinha oito ou nove anos.
— Sim, aquela foto famosa. Mesmo naquela idade, ele já tinha um rosto que prometia um futuro extraordinário.
— Um elogio bastante generoso, Rosaline.
— Ele raramente participa de eventos sociais, então só o vi uma vez de longe. Mas é realmente um colírio para os olhos. Faz vinte e três anos este ano. Retornou do Principado de Hesse há cerca de seis anos, formou-se na Academia Naval Real e atualmente serve como Tenente-Comandante.
Após fazer sua avaliação altiva, Rosaline corou repentinamente:
— Corre o boato de que ele está procurando uma esposa durante esta licença. Parece que ele recebeu férias prolongadas após seu serviço distinto na Batalha de Potsdam.
Algo despertou vagamente na memória de Vanessa. A manchete do jornal que as meninas do internato estavam passando umas para as outras:
“O Herói da Batalha de Potsdam”.
Não era um assunto que a interessasse. Mas se lembrava de como ele era imensamente popular.
— As jovens da capital devem estar terrivelmente decepcionadas. O que ele poderia encontrar de interessante neste Sul tão monótono?
Rosaline cutucou Blair e lançou um olhar para Vanessa. Naturalmente, Vanessa não se sentiu nem um pouco ofendida. Concordava plenamente que o Sul era entediante.
Uma região resistente a mudanças e lenta para abraçar qualquer coisa nova. Ela apostaria sua caneta-tinteiro favorita que o Sul, e Gloucester em particular, era o último lugar em todo Ingram a ter eletricidade.
De qualquer forma, Vanessa rapidamente perdeu o interesse no assunto.
O homem do cigarro, um hábito típico para criados, não poderia ser de forma alguma o cavalheiro das colunas sociais.
— O que um homem como ele estaria fazendo em um lugar como esse, o Sul?
— Quem sabe? — zombou Blair cinicamente. — Talvez tenha enlouquecido e desenvolvido alguma excentricidade repentina.
Continua …
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