Ler Beije o Estranho (Novel) – Capítulo 61 Online


Modo Claro

⚝ Capítulo 61

A situação repentinamente se desenvolveu numa direção inesperada. A ligação no meio da noite fez com que Steward parecesse completamente atordoado. Ele ficou agradecendo à pessoa do outro lado da linha por ter providenciado algo rápido, e esfregava a testa como se ela doesse. Depois de desligar, esperei até que ele estivesse pronto para falar. O doutor, que andava de um lado para o outro como se perdesse a cabeça, me explicou a situação de forma confusa.
— Eu tinha alguns negócios inacabados antes de vir para cá. É um caso sob investigação nos Estados Unidos, então é difícil dar detalhes… Enfim, o fato é que eu terei que voltar para lá para resolver isso o mais rápido possível e de uma vez por todas. Mas… quanto tempo isso vai demorar?
Ele gemeu novamente, engoliu um gole de chá e depois soltou um murmúrio desesperado. Mas, mesmo vendo a aflição dele, eu não consegui dar um sorriso amarelo.
— Mas, doutor Steward… isso significa… que o senhor não sabe quando ou sequer se vai conseguir voltar para cá?
Minha voz saiu extremamente tensa. Steward olhou para o meu rosto assustado e deu um sorriso desajeitado e reconfortante.
— Está tudo bem, Yohan. Não se preocupe. Eu vou dar um jeito de levar você comigo de qualquer forma. Eu nunca te deixaria sozinho nesse palácio.
Ele deu tapinhas no meu ombro como se tentasse convencer a si mesmo, mas eu apenas abaixei a cabeça e não disse nada.
No dia seguinte, o doutor, que havia solicitado uma audiência às pressas, retornou no começo da tarde com o rosto completamente vermelho de raiva.
— Não, é ridículo! Eu sou o responsável por ele e vou embora, como o Príncipe pode me proibir de levá-lo?!
Assim que ele fechou a porta do laboratório e gritou, eu me assustei e abracei Rikal com força. Logo, soltei o gatinho e me aproximei dele com passos rápidos.
— O senhor está dizendo que eu não tenho permissão de sair?! E o senhor?! Eles o proibiram também?!
— Não, não… isso não. Eu posso. Eu tenho a permissão de saída autorizada, mas eu pedi a sua e eles a negaram!
— …Ah.
Eu não fiquei tão decepcionado pela resposta vagamente esperada, mas a reação de Steward foi bem diferente. Ele estava enfurecido e parecia não aceitar aquele resultado de forma alguma.
— Eles nunca nem se importaram ou sequer sabiam direito se você estava aqui ou não todo esse tempo…! Eu posso apostar que ninguém desconfiaria se eu apenas te colocasse no porta-malas do meu carro e saísse desse castelo!
— Haha…
Eu não pude evitar de soltar uma risada sem graça. Fiquei em silêncio, observando o doutor andando pelo laboratório com raiva, mas, de repente, ele parou e olhou para mim com o cenho franzido.
— Mas, Yohan… por que você está tão calmo com isso?
Paralisado pela pergunta repentina, desviei o olhar para o chão, constrangido. Então, Steward murmurou para si mesmo:
— Você já não acreditava desde o começo que conseguiria sair? É verdade que você… sequer quer sair do palácio e ir embora comigo?
— Ah, não! Não é nada disso!
Apressei-me em negar balançando a cabeça e as mãos. Steward continuou me encarando, ainda com a testa franzida. Eu abri a boca honestamente.
— Para começar… aqui eu sou tratado como alguém que quase não existe. Eu sei que precisaria de uma identificação civil oficial e um passaporte para ir para o exterior. E eu não tenho essas coisas.
— Você não tem documentos nem passaporte? De que buraco o Camar te tirou? Como não resolveu uma coisa básica dessas?
Ele perguntou como se fosse algo absurdo de se ouvir, mas resolver aquilo era impossível e o doutor não sabia o quão grave era.
Eu nunca contei a ninguém, nem mesmo a Steward. Camar e eu vivíamos escondidos, não apenas pelo fato de eu ser um Ômega.
A imagem do rosto de Salman, manchado de sangue, piscou na minha mente. Manchas de sangue espalhadas por toda parte e os capangas mortos que caíram e não se moveram um após o outro, com o pescoço quebrado, fizeram a minha espinha estremecer de frio. Eu não sabia se todos estavam mortos e nunca tive coragem de perguntar.
Mas se os meus documentos fossem escavados e meu nome, atrelado a ele, surgisse na polícia daquele país, a investigação traria o incidente à tona. Camar, que assumiu toda a culpa para me proteger, seria indiciado.
O Príncipe Herdeiro seria indiciado por assassinato.
Se alguém tivesse que assumir a responsabilidade, é claro que teria que ser eu, e seria eu, em vez dele. Foi apenas por minha causa que Camar se sujou de sangue daquele jeito.
Se o problema terminasse só comigo, não importava, mas se aquilo se envolvesse no nome de Camar e arruinasse a reputação do Príncipe… O sangue pareceu esvair do meu corpo perante a imaginação aterrorizante. Balancei a cabeça rapidamente e respondi com dificuldade:
— Eu tenho… algumas circunstâncias… Além disso, o senhor mesmo viu. Mesmo que eu tivesse todos os documentos possíveis, eu não recebi a permissão real de saída. De qualquer jeito, não adiantaria nada.
— Droga…
Steward rosnou em frustração e voltou a andar em círculos pelo laboratório. Mas não haveria saída. Apenas o Príncipe Herdeiro poderia resolver aquela situação, que ele mesmo instaurou. E o Príncipe já havia respondido com uma proibição; não haveria outra conclusão.
— Doutor Steward… por favor, não se preocupe comigo e pode ir resolver os seus assuntos. Eu vou ficar quietinho no laboratório o máximo possível e esperar.
Enquanto eu o confortava, Steward soltou um suspiro profundo, tão pesado que pareceu ter sido forçado para fora de seus pulmões.
— Eu não deveria ter concordado em trazer você para cá desde o início…
— Não diga isso…
Eu o neguei rapidamente.
— Fui eu quem insistiu para vir. O senhor só me ajudou e eu sou o único que deve arcar com os arrependimentos de minhas próprias escolhas. Por minha causa, aconteceram muitas coisas e o senhor se colocou em vários perigos para cuidar de mim e me esconder… Ficarei realmente bem. Eu vou ficar quietinho aqui esperando e serei o mais discreto possível enquanto o senhor estiver fora.
E adicionei com um pequeno sorriso para tranquilizá-lo:
— Como o senhor mesmo disse, as pessoas por aqui nem sabem da minha existência, não é?
— …Haaah.
Steward não pôde negar nem afirmar o que eu disse e suspirou profundamente de novo. Dei um tapinha no braço dele como se não me importasse. O doutor me olhou com os olhos apertados.
— Mesmo que seja você quem vai ficar preso aqui numa linha de fogo, você parece muito calmo com isso, Yohan.
Eu sorri amargo.
— Eu também estou apavorado… Mas não há mais nada que eu possa fazer.
Diante dessas palavras, Steward abaixou a cabeça e evitou o meu olhar em silêncio, derrotado.
E, apenas dois dias depois, ele finalmente deixou o palácio e voou de volta para a América.
Ele organizou rapidamente o laboratório, reuniu todos os materiais de pesquisa e anotações necessárias e me instruiu sobre tudo antes de partir. O doutor disse que precisava correr para não perder o transporte, e me deu um abraço apertado para se despedir na porta do laboratório.
— Eu estarei de volta em um mês, no máximo.
— Certo.
Eu sorri e o soltei. Mas no fundo, não havia muitas expectativas em mim de que ele fosse conseguir voltar.
Apenas guardei na memória a visão das costas de Steward se afastando e desaparecendo pelo corredor através da pequena fresta na porta, imaginando que poderia ser a última vez que o veria. Finalmente, depois que o doutor sumiu de vista completamente, fechei a porta e me virei.
Éramos apenas Rikal e eu no laboratório. Era comum que Steward saísse do laboratório e me deixasse sozinho no dia a dia, mas dessa vez era diferente. Ele não voltaria à noite. Agora, eu estaria verdadeiramente e o tempo todo sozinho num território hostil.
Mas eu também sabia que aquilo seria inevitável desde o início. Steward não era nativo deste país, ele já estava preparado para ir embora do palácio a qualquer momento.
“Talvez essa seja a hora.”
“Tudo bem.”
Abracei Rikal nos braços. Eu já estava mais do que acostumado a deixar as pessoas que amo irem embora da minha vida.
***
Alguns dias se passaram pacificamente desde a partida de Steward. Com o doutor longe, Zahara trazia cada vez menos comida. Às vezes, passava com uma bandeja apenas uma vez ao dia, às vezes não aparecia nenhuma vez.
O palácio parecia extremamente caótico e ocupado naqueles dias.
Eu comi os restos que Zahara havia trazido no dia anterior e preparei a refeição. Fazia muito tempo desde que tive que racionar comida dessa forma, mas não era impossível me adaptar. A minha maior preocupação era Rikal, e eu fiquei com bastante medo ao ver que a comida do gato estava acabando.
“Se eu for ao ateliê amanhã e conseguir terminar aquela tapeçaria, talvez eu possa vendê-la…”
“Dessa forma, poderei pedir a Zahara para me comprar comida de gato na cidade e dou a ela uma pequena gorjeta com o que sobrar.”
Depois de encher a tigela com água, agachei-me e observei enquanto Rikal comia diligentemente o que restava. Pensei em como Rikal era o único que sempre havia permanecido ao meu lado o tempo todo, em qualquer circunstância.
“Se eu perder até o Rikal…”
Enquanto sentia o peito apertar de dor, de repente ouvi o som de passos apressados e pesados vindo do corredor do palácio. O som barulhento dos sapatos marchando diretamente em direção ao laboratório me assustou. Aqueles definitivamente não eram os passos familiares de Zahara.
Pior ainda: era o som de várias botas marchando. Eu corri em pânico em direção à porta e alcancei a maçaneta, mas a pessoa do outro lado foi mais rápida.
A porta foi aberta de supetão, batendo direto no meu corpo. O impacto me jogou para trás e caí no chão com força. Rikal se assustou e correu para perto de mim. No susto, puxei o gatinho para meus braços para protegê-lo e, ao levantar a cabeça atordoado, me deparei com um grupo de homens me encarando lá de cima.
O homem à frente, com uma expressão feroz, abriu a boca enquanto me olhava caído.
— Você é o criado que anda com o estrangeiro?
Ouvindo a voz rouca e dura, estremeci e me levantei devagar, segurando Lical perto do peito.
— …O estrangeiro…? O doutor?
— Sim, aquele americano foragido!
Ele grunhiu e cuspiu no chão em sinal de desprezo. Eu estava com medo, mas juntei o resto da minha coragem para corrigir as palavras do homem.
— Ele não fugiu.
— O quê?
Os homens pararam de avançar. No silêncio tenso que se seguiu, engoli a seco e continuei com a voz vacilante:
— O doutor Steward não fugiu do palácio… Ele foi autorizado a sair porque tinha negócios urgentes a resolver na terra natal, e disse que estaria de volta logo.
No fundo, eu também duvidava daquilo, mas não achava que aqueles homens tinham o direito de insultar e culpar o doutor Steward de foragido quando ele trabalhou tanto por eles.
O fato era que ele não havia fugido. Mas os homens de Asgyle, é claro, não concordavam comigo. Pelo contrário. O homem à frente levantou a mão num movimento brusco e, com o rosto brutalmente contorcido de ódio, me deu um tapa forte e estalado na bochecha.
Um estampido alto ecoou pelo laboratório. Minha visão escureceu e caí de cara no chão de novo. Rikal miou assustado, pulando dos meus braços, e o homem me xingou:
— Seu maldito traidor imundo! Como ousa tomar o partido de um estrangeiro que causou isso a Vossa Majestade?! De que país você é?!
Eu pisquei atordoado pela dor, o rosto formigando no tapete, e olhei para cima. Minha bochecha já estava tão inchada que eu não conseguia abrir o olho esquerdo direito, mas nem sequer tive tempo de abrir a boca.
Eles passaram por cima de mim, se espalharam e começaram a vasculhar todo o laboratório de forma bruta. Eu não tinha o poder de impedi-los, então apenas fiquei no chão encolhido, mantendo os olhos neles.
E então, com atraso, reconheci o rosto de um deles. Era da equipe médica que havia examinado Camar e o diagnosticado no dia do envenenamento.
“Aconteceu alguma coisa com ele?!”
Eles estavam revirando a mesa de pesquisa, mas o doutor já havia levado todos os seus documentos de anotações confidenciais e registros com ele de qualquer maneira.
Como esperado, depois de um tempo quebrando frascos e arremessando arquivos para o ar, eles se viraram, balançando a cabeça em frustração. O homem que me bateu me fuzilou com os olhos injetados de fúria e rosnou.
— Onde estão os registros de indução de rut que ele estava pesquisando?! Fale a verdade ou eu te mato agora mesmo!
Não era uma ameaça vazia. Eles provavelmente me matariam ali mesmo e ninguém sequer faria perguntas ou sentiria minha falta.
Respondi com a voz esganiçada.
— O doutor… ele levou todas as pastas com ele para os EUA… Nada do que procuram vai estar aqui.
— O quê?! Você jura pela sua vida?!
— …S-sim.
Depois de um breve silêncio pesado, em que eles fecharam a boca e cerraram os punhos, olharam uns para os outros em desespero e consternação. Parecia que não acreditavam totalmente em mim, mas também não tinham tempo a perder para me arrancar a verdade.
Vendo os homens sussurrando algo entre si de forma urgente, fiquei recuado perto da parede, assustado. Eu só queria que eles sumissem dali, mas não pareciam querer ir embora de mãos abanando.
Como o esperado, após a breve troca de olhares, o homem se virou para mim de novo.
— Muito bem. Então acho que teremos que levar você em vez dos papéis.
— O… o quê?!
Surpreso, eu gritei involuntariamente. O homem, agarrando-me pelos cabelos na nuca, continuou a falar entredentes.
— Nunca se sabe quando aquele canalha vai voltar, e o rut de Sua Alteza começou, e o estado dele está piorando cada hora mais por causa das induções pesadas. Precisamos arrumar um jeito de abaixar os níveis dele imediatamente.
Então, ele piscou para os outros e se virou, indo em direção à porta do corredor. De repente, outros dois homens enormes se aproximaram e agarraram os meus braços. Eu não conseguia sequer me equilibrar e fui arrastado à força pelo palácio.
— Esperem… O-o que estão fazendo?! Aonde estão me levando?! Me soltem! Por que eu?!
Enquanto eu gritava e me debatia em pânico, sem conseguir me desvencilhar do aperto, um cheiro que eu havia esquecido completamente de repente invadiu os meus sentidos.
No instante em que a essência extremamente agressiva, sombria e dominadora preencheu os meus pulmões à medida que avançávamos pela ala real, percebi instintivamente aterrorizado de onde vinha.
O rut de Asgyle.
O puro cheiro de uma força incontrolável e da loucura.
As memórias sobre o quão sádico e destrutivo era o comportamento dele naqueles dias colidiram contra minha mente. Enquanto o rosto aterrorizado do doutor quando me trancou no laboratório me vinha à cabeça, os homens me jogaram brutalmente para dentro de um quarto sem iluminação, a porta pesada se trancou nas minhas costas, e os feromônios espessos daquele predador enlouquecido cobriram meu corpo inteiro de uma só vez.

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✦ Tradução, revisão e Raws: Jor&Belladonna

Ler Beije o Estranho (Novel) Yaoi Mangá Online

Sinopse:
Em um país do Oriente Médio onde a discriminação contra ômegas é profundamente enraizada, Yohan, um ômega abandonado após a manifestação de seu gênero secundário, vive sozinho em um oásis com apenas um gato como companhia. Um dia, ele resgata um homem ferido que perdeu completamente a memória do seu passado. Conforme passam o tempo juntos, Yohan se apaixona por ele… mas, um dia, o homem desaparece subitamente, sem deixar rastros.
Depois de esperar por ele em vão por muito tempo, Yohan encontra inesperadamente o príncipe herdeiro, um homem exatamente igual àquele que um dia amou. No entanto, o príncipe não o reconhece de forma alguma…
Nome alternativo: Kiss The Stranger Beije O Estranho

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