Ler Beije o Estranho (Novel) – Capítulo 51 Online

⚝ Capítulo 51
Steward estava agitado desde as primeiras horas da manhã. Quando acordei e saí do meu quarto para o laboratório, fiquei surpreso ao vê-lo já de pé, trabalhando.
Sabendo que ele havia ficado até tarde da noite anterior, ainda não era hora de o doutor estar acordado e se movendo daquele jeito. Olhei para o relógio na parede para confirmar o horário e perguntei, confuso:
— Steward? O que aconteceu?
— Hã? Ah, Yohan! Desculpe, eu te acordei?
Ele se desculpou sem parar de se mover, revirando os papéis na mesa. Confuso, não tive escolha a não ser perguntar de novo:
— O que foi? Me diga para que eu possa ajudar.
Steward então parou por um segundo, soltou um “Ah”, e olhou para mim.
— Não é nada tão grave. É que hoje é o dia do exame de rotina de Vossa Majestade, o Príncipe Herdeiro, e eu não consigo encontrar as anotações que fiz sobre isso.
Meu coração disparou por um momento ao ouvir a menção ao Príncipe Herdeiro, mas aquela não era hora para ficar parado. O doutor tinha o péssimo hábito de rabiscar qualquer ideia repentina no primeiro pedaço de papel que visse pela frente. Geralmente, ele encontrava a anotação que queria no meio daquela bagunça em cima da mesa, mas às vezes, quando ele não achava de jeito nenhum, acabava virando o laboratório inteiro de pernas para o ar.
Na maioria das vezes, eu só limpava e organizava o chão e os móveis do laboratório, evitando tocar na mesa dele para não estragar a pesquisa. Mas, em momentos como este, eu frequentemente o ajudava a vasculhar o chão atrás dos papéis caídos. E foi exatamente o que aconteceu desta vez também. Enquanto eu me abaixava para procurar debaixo dos móveis, ele me perguntou abruptamente:
— Yohan, você não jogou fora ontem quando estava limpando, não é?
— Absolutamente não. Eu nunca toco em nenhum papel que tenha algo escrito.
Como, de vez em quando, alguns papéis caíam da mesa para o chão, talvez as anotações tivessem se misturado. Apresentei a teoria que me veio à mente, mas Steward balançou a cabeça.
— Eu já procurei no lixo antes, não está lá. Ah, isso é um problema. Estou ficando sem tempo.
Segurando a cabeça com uma expressão séria, de repente o rosto dele se iluminou, como se tivesse tido uma ideia, e ele abaixou as mãos, assumindo uma postura relaxada:
— Bem, o que eu posso fazer?
Pisquei, perplexo com a mudança repentina de atitude. Mas o doutor apenas se virou, segurando a alça do carrinho médico que já estava preparado ao lado, como se tivesse simplesmente aceitado a derrota.
— Sendo assim, eu vou indo para o exame médico. Você fica aqui e espera, Yohan.
— S-Steward, tem certeza de que está tudo bem ir assim?
Eu o chamei de forma apressada, e ele respondeu de forma casual:
— Ah, não se preocupe. Continue procurando depois. O que eu posso fazer se perdi? Terei que improvisar.
Ele saiu do laboratório, me deixando atônito para trás. Fiquei surpreso que a atitude do doutor diante do Príncipe fosse tão despreocupada.
“Tenho certeza de que ficará tudo bem… eu acho?”
Eu estava preocupado com ele, mas não havia nada que eu pudesse fazer a respeito. Depois de ficar parado por um tempo, decidi começar limpando o laboratório bagunçado primeiro.
“Seria bom se eu pudesse encontrar as anotações enquanto limpo…”
Eu estava limpando o lugar bem mais devagar do que o normal, prestando atenção em tudo, mas Rikal veio até mim e começou a fazer gracinhas, pulando. Segurei o gato em um braço enquanto pegava a bagunça com a outra mão e colocava cada coisa em seu devido lugar.
Do lado de fora da janela escancarada, o som dos guardas fazendo a troca de turno podia ser ouvido. Olhei para o relógio na parede; era o mesmo horário de sempre. Naturalmente, meu olhar se desviou para o calendário pendurado ali perto.
Desde aquele dia no jardim, eu não tinha visto Asgyle novamente. Isso porque eu nunca saía do laboratório e, mesmo quando o Príncipe vinha fazer exames, ele e Steward iam para as salas internas onde as pessoas não podiam vê-los. Eu apenas ficava isolado na minha área.
Enquanto isso, os dias foram passando e a data que Steward havia prometido estava se aproximando rapidamente. Em mais ou menos dez dias, eu deixaria o palácio e voltaria para a estalagem.
“Eu nunca mais vou ver o Príncipe Herdeiro…”
Fiquei atordoado com o pensamento e parei de varrer. Para ser sincero… eu não queria ir embora. Eu queria ver o rosto do Príncipe mais uma vez.
Mesmo que o meu Camar tivesse me esquecido para sempre.
Foi um momento em que a realidade, a qual eu tanto lutava para negar, me atingiu de novo. Acordei dos meus pensamentos com uma batida repentina na porta. Se fosse o doutor, ele simplesmente entraria. Talvez fosse algum funcionário do palácio.
Quando abri a porta, vi a empregada do palácio parada ali, segurando uma bandeja com o nosso café da manhã, exatamente como eu esperava. Ela olhou para mim e sorriu com simpatia, como sempre.
— Bom dia, Yohan! Eu trouxe o seu café.
— Muito obrigado. Deixe comigo.
Normalmente, eu pegaria a bandeja na porta, mas desta vez Zahara não me entregou e olhou para trás. Ela deu um passo à frente, entrando voluntariamente no laboratório, e deixou a bandeja diretamente na mesa. Achei que ela fosse sair logo em seguida, como de costume, mas ela olhou ao redor com uma hesitação incomum.
— Hum… o doutor não está aqui agora?
Diante da pergunta cautelosa, respondi com honestidade:
— Ele saiu mais cedo hoje porque tinha que fazer o exame de rotina do Príncipe Herdeiro.
— Ah… É verdade, hoje é dia. — Ela assentiu, como se lembrasse do cronograma, mas o rosto dela murchou em decepção.
Percebendo a expressão de Zahara, perguntei, confuso:
— Aconteceu alguma coisa? Você precisava de algo do doutor?
— Ah, bem… é que… — Claramente envergonhada, ela hesitou e murmurou para si mesma. Então, como se tomasse uma decisão, abriu a boca cautelosamente: — Na verdade, eu machuquei um pouco a minha mão… e estava me perguntando se o doutor poderia dar uma olhada e fazer um curativo para mim.
— Oh, entendi… como isso aconteceu? Espere um segundo.
Uma simples desinfecção não era difícil de fazer. Depois de pedir que ela aguardasse, me virei e fui até a prateleira pegar o kit de primeiros socorros.
Zahara ficou parada perto da mesa até eu voltar. Quando ela estendeu as duas mãos para mim, olhei para os ferimentos e inclinei a cabeça involuntariamente.
— Estes são ferimentos de costura, não são?
Ao ouvir isso, ela respondeu com surpresa:
— Nossa, como você adivinhou?
— Como assim? Estão todos marcados com furos de agulha e cortes de linha.
Dei um sorriso amargo, e o rosto de Zahara corou rapidamente.
— A verdade é que… eu estou tecendo um tapete para levar para a minha casa depois do meu casamento. Mas eu sou péssima costurando e bordando, então minhas mãos estão neste estado.
Foi só então que compreendi a situação. Na cultura do nosso reino, no momento do casamento, enquanto a família do noivo paga um grande dote à casa da noiva, é tradição que as mulheres façam tapeçarias, roupas ou objetos bordados à mão desde muito jovens para o enxoval. Em famílias com boas condições financeiras, podiam até pagar para alguém fazer o bordado no lugar delas, e é provável que algumas tapeçarias que eu fiz na estalagem no passado tenham sido usadas no casamento de alguma jovem rica.
Mas na capital, as coisas eram muito diferentes. Neste lugar de abundância e luxo, os itens tradicionais para o casamento eram tapetes e carpetes, e não simples tapeçarias de tecido. O trabalho era imenso. Dizem que a maioria das meninas começa a tecer esses tapetes quando são muito novas e só os terminam quando vão se casar, mas era uma tarefa torturante para mulheres que não tinham habilidade com as mãos. Claro, se a família tivesse muito dinheiro, poderiam encomendar a peça de um artesão, mas o preço de um tapete de luxo era dezenas de vezes mais alto do que o de uma tapeçaria comum.
A situação de Zahara não era diferente. Ao ver as mãos machucadas e cheias de furos, soltei um suspiro de pena.
— Tecer um tapete do zero deve ser muito difícil.
Ela se surpreendeu ao me ouvir falar aquilo involuntariamente e, em seguida, assentiu várias vezes, com um rosto abatido.
— Eu sou mesmo muito ruim costurando. Eu trabalho na peça de vez em quando no meu tempo livre. A velocidade do progresso é um problema, claro, mas a padronagem é muito complicada pra mim…
Ver o rosto triste dela também me fez sentir mal. Zahara sempre nos trazia comida e era muito gentil; era impossível não criar empatia.
Considerando que eu não estaria ali por muito mais tempo…
— Por acaso há um tear ou molde de tricô e tapeçaria sobrando aqui no palácio?
Quando perguntei cuidadosamente, Zahara disse que sim e concordou:
— Sim. Como há várias de nós que não têm habilidades, as artesãs que vendem os teares acabaram deixando alguns lá nos nossos quartos. As damas de companhia deram uma sala especial para a Senhorita usar as ferramentas com a gente, e a Senhorita tem nos ajudado.
— Senhorita? Você quer dizer uma princesa? — perguntei.
Como ela falou de forma tão casual, presumi que falasse da realeza. Mas Zahara corou suavemente e sorriu:
— Sim! Eu falo da Senhorita Najima! Você não imagina o quanto aquela nobre maravilhosa se importa com os servos do palácio. Além de ser absurdamente gentil, ela borda tão bem! Todas nós ficamos maravilhadas com a tapeçaria que ela mesma fez com as próprias mãos. Sempre tão elegante, cheia de dignidade…
Ao ouvir os elogios transbordando da boca de Zahara, senti um frio no estômago. O nome que ela mencionou evocou um sentimento horrível dentro de mim.
— Essa… pessoa chamada Najima… — comecei a perguntar com dificuldade.
Zahara respondeu com um sorriso perfeitamente inocente:
— Ela é a filha do Lorde Zakriya. A futura noiva de Vossa Majestade, o Príncipe Herdeiro.
– Ah!
Não houve som para a exclamação que saiu da minha boca, apenas um suspiro vazio que escapou junto com o meu fôlego. Com um atraso terrível, a realidade bateu em mim com uma força brutal.
“O que Asgyle disse naquela noite no jardim?”
“A amiga que Najima trouxe do interior?”
Então… o Príncipe Herdeiro só foi tão gentil comigo… por causa dela. Ele me confundiu com a amiga da noiva dele.
A percepção esmagou o meu coração. Meus olhos começaram a arder e o meu nariz começou a pinicar. Virei o rosto rapidamente, fingindo procurar uma bandagem no kit. Mas as lágrimas se formaram rápido demais e embaçaram minha visão. Apenas imaginar Camar… Asgyle… sendo carinhoso com outra pessoa tirou o meu fôlego.
A tontura foi tanta que mal consegui ficar de pé e tentei mudar de assunto apressadamente, com a voz falhando:
— I-isso… deve ser muito difícil mesmo fazer um tapete depois de trabalhar tanto o dia todo…
Minha voz tremeu levemente, mas, felizmente, como eu estava de costas, ela não notou e apenas desabafou casualmente:
— Sim! É exatamente por isso! Mesmo que eu quisesse pagar alguém pra fazer, custa o olho da cara. Não tem atalho, sabe? Eu vou ter que dar um jeito de terminar sozinha. Mas, se eu atrasar o tapete, o casamento terá que esperar por muito tempo, então… ah…
Tentei engolir o choro, e enquanto ainda tentava esconder o meu rosto, perguntei de forma forçada:
— V-você já tem um noivo?
— Sim! Nossos pais arranjaram o compromisso desde que éramos crianças…
Depois disso, Zahara continuou falando sobre os preparativos do casamento por um tempo e, só depois que outra empregada do palácio veio chamá-la, ela finalmente deixou o laboratório com o curativo feito nas mãos.
Assim que a porta se fechou e eu fiquei sozinho, soltei o ar preso nos pulmões e desabei no sofá. As lágrimas que eu estava segurando queimaram os meus olhos e começaram a rolar livres pelo meu rosto. Enterrei o rosto nas mãos e solucei.
Eu estava tentando abafar o som do meu choro de todas as formas, quando, de repente, ouvi o som de passos apressados e pesados se aproximando pelo corredor. Um segundo depois, a porta foi escancarada com violência.
O doutor, que entrou quase sem fôlego e suando frio, me viu sentado no sofá com o rosto banhado em lágrimas. Ele arregalou os olhos em pânico e gritou, apavorado:
— Não… Yohan! Por que você tá chorando desse jeito de novo?! Foi por causa do Príncipe Herdeiro?!
Pisquei para ele com os olhos vermelhos e inchados, incapaz de entender como ele poderia ter chegado a essa conclusão de forma tão abrupta. Sem conseguir responder, fiquei apenas encarando o rosto atônito do doutor.
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✦ Tradução, revisão e Raws: Jor&Belladonna
Ler Beije o Estranho (Novel) Yaoi Mangá Online
Sinopse:
Em um país do Oriente Médio onde a discriminação contra ômegas é profundamente enraizada, Yohan, um ômega abandonado após a manifestação de seu gênero secundário, vive sozinho em um oásis com apenas um gato como companhia. Um dia, ele resgata um homem ferido que perdeu completamente a memória do seu passado. Conforme passam o tempo juntos, Yohan se apaixona por ele… mas, um dia, o homem desaparece subitamente, sem deixar rastros.
Depois de esperar por ele em vão por muito tempo, Yohan encontra inesperadamente o príncipe herdeiro, um homem exatamente igual àquele que um dia amou. No entanto, o príncipe não o reconhece de forma alguma…
Nome alternativo: Kiss The Stranger Beije O Estranho