Ler Beije o Estranho (Novel) – Capítulo 49 Online


Modo Claro

⚝ Capítulo 49

Eu sentia como se meu coração estivesse prestes a pular pela boca. Meu pulso latejava nas têmporas e minha boca secou instantaneamente. Parecia haver um alarme soando freneticamente na minha cabeça, mas os meus pés, que até um segundo atrás estavam se movendo livremente, congelaram no lugar.
O aroma doce e profundo invadiu minhas narinas. Minhas pernas ficaram fracas e a minha visão turvou. Ainda assim, meu olhar estava fixo nele, e eu não sabia como me mexer.
O longo corredor, alinhado com colunas em arco, dava para um jardim espaçoso e bem cuidado. O homem estava em pé, no centro daquele jardim. Me escondi atrás da coluna mais próxima e o observei de longe.
“Por que ele está num lugar como este, a uma hora dessas?”
Enquanto eu ficava ali, ansioso, meu coração batia cada vez mais forte. Pisquei várias vezes para tentar focar a visão, que teimava em embaçar.
Há quanto tempo eu não via o rosto dele de verdade? Nunca imaginei que o encontraria de repente, numa situação tão inesperada. Prendi a respiração, observando o perfil dele, maravilhado.
O homem estava parado, imóvel. O cabelo preto e curto balançava levemente com a brisa da noite, mas não havia nenhum outro movimento; o olhar dele estava perdido em algum lugar distante. A primeira coisa que notei em seu rosto foi uma expressão que eu não conhecia.
“O meu Camar alguma vez já fez uma expressão tão desolada e vazia?”
Eu poderia jurar com absoluta certeza que não. Quando estava comigo, Camar sempre demonstrava uma infinidade de emoções e fazia incontáveis expressões, mas eu nunca o tinha visto com um rosto como aquele. Eu nem sequer imaginava que existissem pessoas no mundo capazes de ter uma expressão tão morta. O rosto, de contornos definidos que brilhavam pálidos à luz do luar, era belo como uma escultura, mas exatamente por isso, parecia completamente desprovido de vida.
Se ele fosse mesmo uma estátua esculpida em mármore frio, eu acharia mais plausível. Se não fosse por aquele cheiro doce e forte de feromônios exalando dele, eu teria acreditado nisso sem a menor dúvida. O choque de ver o rosto dele me causou uma pontada no peito, até que a figura inteira dele entrou no meu campo de visão.
O homem alto, que estava com as mãos enfiadas nos bolsos da calça social olhando para o nada, usava um terno preto impecável, e não as roupas tradicionais do palácio. Quando percebi isso, fui subitamente lembrado da primeira vez em que vi o Príncipe Herdeiro, assim que chegamos. E de como os olhos violeta dele me encararam friamente.
Num instante, meu sangue gelou. A cicatriz que mal havia sarado no meu peito pareceu latejar de novo.
Ele ainda não havia notado a minha presença. Aquela era a hora de fugir.
“Vamos, antes que ele vire a cabeça. Antes que ele me veja. Eu tenho que sair daqui…”
Apesar de pensar isso, eu não conseguia tirar os olhos dele, muito menos dar um passo para trás. O rosto vazio e inexpressivo dele havia me capturado e não me deixava ir.
“No que você está pensando, Camar?”
Continuei o observando, paralisado. A distância entre nós era de apenas alguns metros, mas parecia ser a distância entre a Terra e a Lua. Olhar para ele me fez sentir um buraco abrir no meu peito, preenchido por uma sensação de distanciamento que eu nunca havia sentido quando estávamos juntos.
“E se… e se a verdade é que ele for apenas alguém que se parece com você?”
Enquanto esse pensamento passava pela minha cabeça, minha visão embaçou por outro motivo. Uma mistura de alívio e decepção avassaladora me invadiu.
“Se ele for só um estranho… então, Camar… onde é que você está?”
De repente, a força dos meus joelhos cedeu e eu tropecei para frente. Num instante, meu pé escorregou e eu bati o ombro contra a coluna, soltando um pequeno grito abafado.
Apesar do ruído quase imperceptível, o homem reagiu imediatamente. O olhar dele disparou na minha direção. Ao mesmo tempo, um arrepio subiu pela minha espinha.
Meu coração, que pareceu parar por uma fração de segundo, voltou a bater enlouquecido. Sem perceber, tentei dar um passo para trás, mas o homem franziu a testa e abriu a boca.
— Quem está aí?
A voz, mais fria que o vento do deserto cortando a noite, congelou o meu corpo inteiro. Em vez de correr, tudo o que consegui fazer foi me encolher atrás da coluna. Tremi de medo e o observei se aproximar, passo a passo. O cheiro doce da minha nostalgia derramava-se sobre mim como um castigo. Minha boca estava seca e eu tentei engolir em seco, mas nem isso funcionou. Eu mal conseguia abrir a boca; apenas fiquei ali, tremendo.
E, de repente, uma constatação aterrorizante atravessou a minha mente.
“Eu não tomei os meus inibidores.”
Como eu estive trancado no laboratório do Steward o tempo todo, e comíamos pouco, eu tinha parado de tomar os remédios para disfarçar o meu cheiro por pura distração. Quando me dei conta desse fato crucial, senti minha visão escurecer. A conversa horrenda entre os nobres durante o banquete ecoou na minha cabeça. E, junto com ela, as palavras frias do Príncipe Herdeiro.
“E se ele descobrir que eu sou um ômega aqui?”
Enquanto o rosto desesperado de Steward piscava diante dos meus olhos, Asgyle parou a poucos passos de mim e perguntou novamente:
— Quem é você? O que está fazendo aqui a uma hora dessas?
Não havia nenhuma emoção naquela voz calma. Ele não parecia com ódio nem irritado comigo. Fiquei momentaneamente desconcertado com o tom extremamente burocrático e distante, como se ele estivesse apenas perguntando as horas.
“Será que os feromônios dele são tão fortes a ponto de mascararem o meu cheiro?”
Levantei os olhos nervosamente, e os meus se encontraram com os olhos violeta que me encaravam de volta. Por um segundo, meus olhos se arregalaram.
Ele estava muito mais perto do que eu imaginava. Tão perto que eu achei impossível que não sentisse o meu cheiro de ômega de jeito nenhum.
“Tranquem o ômega no cio na jaula com o macaco e o deixem ser comido vivo.”
Meu corpo inteiro gelou de pavor. O meu Camar jamais faria algo assim. Mas e quanto ao Príncipe Herdeiro Asgyle?
Olhei para o homem na minha frente, apavorado, mas ele continuava sem qualquer reação agressiva. Fiquei atordoado com aquela atitude indiferente.
Ele me observou e franziu a testa, mas foi só isso. Eu não conseguia dizer nada devido ao desespero, até que, de repente, ele suavizou a expressão, como se tivesse entendido algo sozinho. Antes que eu pudesse compreender o que estava acontecendo, o Príncipe falou primeiro.
— Ah, sim. Eu ouvi dizer que a Najima havia convidado uma amiga de infância para o palácio. É você?
Foi a primeira vez que ouvi aquele nome. Ao ouvir um nome feminino, me perguntei brevemente quem seria Najima, e senti meu coração apertar. Mas, antes que eu pudesse pensar mais a respeito, ele falou de uma maneira surpreendentemente gentil.
— Uma mulher não deveria andar sozinha por aqui numa noite como esta. Najima não te avisou sobre isso? Você não deveria sair dos seus aposentos a esta hora e, mesmo que fosse urgente, não deveria andar sem escolta.
Fiquei tão chocado com aquelas palavras que arregalei os olhos sob o véu do niqab. Mas o choque veio por várias frentes: eu estava chocado por ele não ter me reconhecido mesmo estando tão perto, chocado por ele ter me confundido com uma mulher, e chocado por ele estar falando de forma tão gentil e protetora.
Mais do que tudo, o tom suave e as ações dele me abalaram de uma forma que eu não esperava. Mas não parou por aí. Asgyle continuou a falar:
— Onde ficam os seus aposentos? Você está hospedada nos mesmos quartos que a Najima? Venha, eu te acompanho até lá.
E então… ele sorriu para mim.
No instante em que vi aquele sorriso, pareceu que o tempo e o espaço de repente se inclinaram e começaram a passar voando, deixando tudo para trás. Em questão de segundos, o mundo virou de cabeça para baixo e, de repente, era o Camar que estava ali na minha frente. Era inacreditável.
Meu coração bateu tão forte que parecia que ia explodir. Eu queria me jogar nos braços dele e dizer o quanto senti a sua falta, mas eu não conseguia mover a ponta de um único dedo. Apenas pisquei, com a mente em branco.
De repente, minha visão ficou turva. Quando pisquei apressadamente para clarear os olhos, vi o rosto do Camar me encarando com uma expressão de surpresa.
“Ah, eu estou chorando.” Percebi o motivo com atraso. Eu conseguia entender perfeitamente o porquê de o Camar estar me olhando daquele jeito. Ele parecia muito preocupado. Camar sempre fazia aquela cara de pânico quando me via chorar. Desesperado e sem saber o que fazer, ele tentava me consolar.
“Oh, o Camar teria enxugado as minhas lágrimas.”
Enquanto esse pensamento cruzava minha mente, o homem à minha frente lentamente levantou a mão em direção ao meu rosto coberto. Minha visão estava embaçada demais e eu não conseguia distinguir que tipo de expressão ele estava fazendo. Eu apenas o observei, vendo a mão dele se aproximando em câmera lenta, como se estivesse assistindo a uma tela cortando os quadros impiedosamente.
“Você vai me abraçar como costumava fazer e me dizer que está tudo bem?”
— YOHAN!
O mundo virou de cabeça para baixo de novo num piscar de olhos, como se a magia tivesse sido quebrada por aquela voz repentina. E, na minha frente, quem estava ali era novamente o Príncipe Herdeiro Asgyle. Hesitei e virei a cabeça, apenas para ver a figura pálida e apavorada do doutor correndo na nossa direção. Aos poucos, meu coração começou a desacelerar, voltando ao ritmo normal. Como se eu estivesse despertando de um sonho de volta à realidade.
— …Doutor? — Asgyle murmurou, abaixando a mão.
O doutor mal conseguia recuperar o fôlego; ofegando pesadamente, ele freou bruscamente, parando entre mim e o Príncipe Herdeiro.
— Oh… Vossa Majestade! A-a uma hora dessas… c-como o senhor está por aqui?
A voz do Steward tremia. Imagina o tamanho do susto que ele levou ao acordar e não me encontrar na cama. Era evidente que ele tinha corrido feito um louco pelo palácio inteiro até me achar.
Olhei para as costas dele e sussurrei:
— Me desculpe.
Então, a voz de Asgyle soou novamente.
— Você acha tão estranho assim que eu esteja caminhando no meu próprio jardim?
Era uma voz carregada de sarcasmo. O tom amigável de antes tinha desaparecido completamente.
— Ahahahaha! — Steward soltou uma risada alta e terrivelmente forçada e exagerada. — N-não, claro que não, Vossa Majestade! Eu só fiquei um pouco surpreso! Vejo que o senhor ainda não foi dormir, haha!
Asgyle não respondeu. A risada de Steward morreu no ar, de forma miserável. E então, veio o silêncio.
Uma brisa fria soprou pelo jardim silencioso, e o som do farfalhar das folhas podia ser ouvido de vez em quando. Steward discretamente agarrou meu braço por trás, e Asgyle finalmente quebrou o silêncio:
— Você conhece essa pessoa?
A voz fria pareceu paralisar o doutor por um segundo, antes de ele assentir rapidamente.
— Sim, Vossa Majestade não o reconheceu? Este é o meu assistente, Yohan.
Asgyle não respondeu de imediato. Eu me perguntava que tipo de expressão ele estava fazendo, mas as costas largas do doutor bloqueavam a minha visão. Após um momento de silêncio denso, a voz do Príncipe soou novamente:
— O seu assistente?
Num tom um pouco mais contido, o doutor confirmou:
— Sim. Quando Vossa Majestade o viu pela primeira vez, ele estava usando este mesmo véu por causa dos ferimentos. Oh, é claro que ele pode andar agora, mas o rosto dele ainda está cheio de escoriações por causa do incidente.
Após a explicação, Asgyle perguntou novamente, com um tom incisivo:
— …Ele não era um homem?
— Sim, o Yohan é um homem, é claro, Vossa Majestade — Steward respondeu com naturalidade.
Asgyle ficou em silêncio de novo. No fim, não consegui conter a minha curiosidade e espiei, enfiando a cabeça por trás das costas do doutor. Naquele exato instante, meus olhos se encontraram com os do Príncipe.
Ele ergueu uma das sobrancelhas, e Steward, percebendo a tensão, perguntou ao Príncipe Herdeiro:
— O senhor está decepcionado, Vossa Majestade?
O Príncipe não respondeu. Apenas franziu a testa, murmurou algo ininteligível para si mesmo com desdém e, logo em seguida, virou-se e foi embora sem se despedir.
Eu me escondi atrás de Steward e apenas o observei desaparecer na escuridão do corredor.
Quando finalmente ficamos sozinhos de novo, Steward virou-se para mim, agarrando meus ombros com urgência, e perguntou em desespero:
— Yohan, você tá bem?! Aconteceu alguma coisa?! Ele fez algo com você?!
— Eu tô bem… me desculpe, Steward. Eu te deixei preocupado.
— Fala sério, o que você acha que eu ia fazer acordando e vendo que você sumiu no meio do palácio?! Se você queria sair, pelo menos devia ter me acordado pra eu ir com você!
Comecei a me desculpar desenfreadamente diante da bronca merecida:
— Me desculpe… o quarto é tão pequeno, eu só queria respirar um pouco de ar puro…
— E se tivesse acontecido alguma coisa?! — Furioso, ele bagunçou o próprio cabelo violentamente e começou a resmungar para si mesmo: — Graças a Deus que pelo menos eu te dei os inibidores de feromônios hoje de manhã… Mesmo assim, ele podia ter sentido algo…
— Ah…
Soltei um som sem querer, e Steward ergueu o rosto, me olhando com a testa franzida.
— O quê? Que cara é essa?
— B-bem, é que…
Hesitei e respondi com a voz trêmula:
— Na verdade… eu esqueci de tomar o remédio nos últimos dias.
— …O QUE?!
— Me desculpe, Steward! Eu juro que nunca mais vou fazer isso! — pedi desculpas de novo, apavorado.
Mas a expressão de Steward congelou. Em vez de gritar comigo e ficar com o rosto ainda mais contorcido de raiva do que antes, ele de repente me agarrou pelos ombros e enfiou o nariz no meu pescoço.
— S-Steward?! O que você tá fazendo?!
Gritei de surpresa, mas ele ignorou e continuou cheirando e fungando freneticamente o meu pescoço, orelhas, bochechas e até a minha clavícula. Por fim, o doutor levantou a cabeça e perguntou, com os olhos arregalados de choque:
— Você não tomou os inibidores mesmo?! Tem certeza?!
— Sim… Como nós ficamos trancados no laboratório o tempo todo, e eu ando pulando as refeições, acabou virando um hábito não tomar…
Quando terminei de falar, ele ficou me encarando, perplexo. Não consegui entender o porquê de uma reação tão exagerada. Enquanto eu piscava de forma envergonhada, Steward de repente endireitou a postura e olhou ao redor apressadamente.
Após confirmar que ainda estávamos sozinhos, ele olhou bem no fundo dos meus olhos e murmurou num tom muito baixo:
— Yohan.
— Sim?
Como fiquei assustado com aquela atitude estranha e séria, engoli em seco sem perceber.
— Vamos para o quarto primeiro. Quando chegarmos lá… nós conversamos.

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✦ Tradução, revisão e Raws: Jor&Belladonna

Ler Beije o Estranho (Novel) Yaoi Mangá Online

Sinopse:
Em um país do Oriente Médio onde a discriminação contra ômegas é profundamente enraizada, Yohan, um ômega abandonado após a manifestação de seu gênero secundário, vive sozinho em um oásis com apenas um gato como companhia. Um dia, ele resgata um homem ferido que perdeu completamente a memória do seu passado. Conforme passam o tempo juntos, Yohan se apaixona por ele… mas, um dia, o homem desaparece subitamente, sem deixar rastros.
Depois de esperar por ele em vão por muito tempo, Yohan encontra inesperadamente o príncipe herdeiro, um homem exatamente igual àquele que um dia amou. No entanto, o príncipe não o reconhece de forma alguma…
Nome alternativo: Kiss The Stranger Beije O Estranho

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