Ler Beije o Estranho (Novel) – Capítulo 47 Online

⚝ Capítulo 47
Zakriya continuou:
— Vossa Majestade, o Príncipe Herdeiro. Ouvi dizer que o Doutor Steward trouxe um novo assistente. Vossa Majestade já o conheceu?
Eu me assustei por um momento. Enquanto eu tentava não demonstrar meu desespero, Zakriya prosseguiu:
— Eu pensei que fosse uma mulher por causa das roupas e do niqab. Mas o doutor diz que é um homem. Embora eu mesmo não tenha verificado ainda. Não é, doutor?
— …De fato.
Camar finalmente abriu a boca. E, para quebrar o silêncio tenso que se seguiu àquela pergunta velada, ele falou num tom de total indiferença:
— Eu já o conheci mais cedo. O doutor disse que precisava de ajuda, então achei que não seria um problema se o assistente viesse.
— E então? — Zakriya perguntou com um sorriso cínico. — Vossa Majestade também deve estar curioso para saber como andam as pesquisas do doutor Steward sobre a sua condição.
Zakriya nem esperou pela resposta e deu uma risada alta antes de assumir uma expressão mais séria e fria.
— Tudo isso porque eu me preocupo constantemente com a saúde de Vossa Majestade, o Príncipe Herdeiro. Já faz um bom tempo desde que Vossa Majestade voltou e se acomodou de vez no palácio. Minha filha está começando a ficar ansiosa.
Ele mudou o tom e perguntou, como se exigisse uma resposta:
— Quando Vossa Majestade pretende tomar uma decisão oficial? Minha filha tem esperado por muito tempo e, em breve, a paciência dela vai se esgotar. Se continuarmos assim, ela vai envelhecer e morrer solteira. O herdeiro do trono precisa logo de uma esposa adequada. O que ganhamos atrasando as coisas dessa forma e desperdiçando o nosso tempo?
Senti um arrepio percorrer o meu corpo. Steward, percebendo a minha agitação, virou-se para mim. Ele colocou a mão sobre a minha, apertando-a de leve, tentando me confortar. Continuei em silêncio, esperando pela resposta.
E então, a voz de Camar soou.
— Me parece que o senhor é o mais apressado aqui, Lorde Zakriya.
O silêncio que caiu sobre o salão foi tão pesado que eu não conseguia ouvir sequer a respiração dos outros homens. O ar ao redor dos dois parecia carregar o peso de uma tempestade.
Zakriya, momentaneamente sem palavras, abriu a boca com cautela:
— De forma alguma, Vossa Majestade. Como eu ousaria? — E, com uma expressão ligeiramente contrariada, acrescentou num tom cínico: — Eu apenas oro fervorosamente pela força e prosperidade da família real.
— É mesmo?
O aroma doce e forte de feromônios do Príncipe se intensificou no ar. Minha visão embaçou por um momento e eu pisquei rapidamente. Uma atmosfera assustadora começou a pairar pelo salão, e Zakriya, como se percebesse o limite que havia ultrapassado, mudou de assunto apressadamente, voltando-se para o doutor:
— Sendo assim, não vejo problema se o doutor Steward quiser se retirar agora. Não é mesmo, doutor?
A atenção de todos voltou-se abruptamente para ele, e o doutor pareceu ser pego de surpresa. Steward sorriu sem graça e olhou para o Príncipe Herdeiro.
— Ah, sim. Era exatamente isso que nós íamos pedir. Como nós não temos nenhum pedido em particular a fazer e meu assistente ainda está em recuperação, não haveria problema se saíssemos mais cedo, não é, Vossa Majestade? Poderíamos nos retirar?
Diante daquelas palavras, o olhar do Príncipe Herdeiro voltou-se diretamente para mim. Desta vez eu tive certeza absoluta. E ele ordenou de forma lenta e arrastada, como se quisesse me torturar:
— Sentem-se.
Steward não pôde dizer mais nada e apenas ajeitou a postura, voltando a se sentar. Ele resmungou baixinho, mas foi uma reclamação tão tímida que eu mal pude ouvir.
Os nobres ao redor, que haviam ficado quietos durante a tensão, pareceram ganhar coragem para falar de novo, e um homem puxou o próximo assunto:
— Vossa Majestade, quando o senhor gostaria de iniciar a próxima caçada? Eu ficaria honrado se o senhor visitasse minhas terras e se juntasse a nós.
Outro nobre rapidamente entrou na conversa para bajulá-lo:
— Oh, seria esplêndido! Agora que penso nisso, já faz um tempo desde que o Príncipe participou de uma caçada oficial. Os cães e falcões que treinamos estão sedentos por uma presa. Hahaha…
Risadas de concordância ecoaram pelo salão. Incapazes de escapar, permanecemos sentados em silêncio enquanto a conversa fútil corria solta. A bajulação barata entrava por um ouvido e saía pelo outro, até que um comentário em particular chamou minha atenção.
— Vossa Majestade, o senhor ouviu as notícias? Lorde Makkal acabou de tomar uma terceira esposa. Mas o problema é que… ela é uma ômega.
Eu quase deixei minha xícara de chá cair no chão. Steward olhou para mim imediatamente, em pânico. Para tentar disfarçar e me acalmar, ele segurou meu braço com força e depois o soltou. Ainda bem que eu estava usando o niqab, pois, de outra forma, todos teriam visto a expressão de terror no meu rosto.
Outras vozes se seguiram, misturadas com exclamações de nojo e choque.
— Pff, eu sempre achei que Lorde Makkal fosse um homem sábio, mas agora que está envelhecendo, parece estar perdendo a cabeça. Será que ele está senil? E a reputação da família dele?
— Ele até foi professor de Vossa Majestade na juventude, mas como ele pôde se rebaixar a esse ponto…?
— Vossa Majestade, o senhor deve puni-lo, mesmo sendo um conhecido pessoal. Esta não é uma infração que possa ser ignorada.
— Eu realmente não entendo por que não usou aquele ômega apenas para aliviar seus desejos sujos e depois descartá-lo como o lixo que é. Por que tomá-lo como esposa?
— Aquele ômega asqueroso deve ter feito algum truque. Makkal caiu na lábia daquela aberração e agora não há solução senão apagar os dois.
— Seja como for, está claro que Lorde Makkal enlouqueceu. Alguém já fez contato com os filhos dele sobre isso?
Eu estava ficando confuso e atordoado com as palavras seguintes. Estive tremendo o tempo todo, mas de repente o ambiente ficou quieto. Involuntariamente, levantei a cabeça a tempo de ver o Príncipe Herdeiro erguer a mão para pedir silêncio.
Ele só abriu a boca depois que todos se calaram.
— Não repitam boatos não confirmados como se fossem fatos. — A voz fria dele cortou o silêncio. — Como poderia um homem sábio como Makkal cometer um ato tão vulgar quanto tomar um ômega como esposa? Se isso for verdade, eu não deixarei passar em branco. Mas até lá, exijo que todos contenham suas línguas.
Diante da ordem do Príncipe Herdeiro, todos responderam em uníssono:
— Sim, Vossa Majestade!
Não houve mais comentários sobre o caso, mas a frase dele ficou cravada na minha mente.
“Um ato tão vulgar…”
Senti como se uma pedra pesada estivesse esmagando meu coração. Fiquei com tanta dificuldade de respirar que lutei para recuperar o fôlego em silêncio. E, naquela atmosfera novamente pesada, outro homem falou com um tom sádico:
— Vossa Majestade… em relação à caçada… Nós estivemos separando os ômegas que se manifestaram recentemente em nossos territórios. O que o senhor acha de usá-los como isca dessa vez?
Fiquei chocado com as palavras que eu jamais imaginaria ouvir. O que aquilo significava? Antes que eu pudesse processar o horror, outro homem se adiantou, concordando animadamente:
— Oh, excelente ideia! Usar ômegas como presa é infinitamente mais emocionante do que caçar coelhos ou raposas. Será um entretenimento digno para o retorno de Vossa Majestade às caçadas!
E um terceiro nobre sugeriu, com total frieza:
— Vossa Majestade, que tal removermos as glândulas de feromônios dos ômegas que sobrarem antes de jogá-los para os cães? Assim, não haverá perigo de o cio deles atrapalhar a caçada. Já que eles não terão mais serventia, será uma forma eficiente de descartá-los.
Eles falavam sobre nós como se estivessem discutindo como descartar lixo. Eu tremia de medo, mas não podia fugir dali. Minhas pernas estavam tão fracas que eu não conseguiria me levantar mesmo se quisesse. E a conversa sobre as atrocidades continuava ao meu redor, sem que eu pudesse fazer nada além de me encolher.
— Vossa Majestade, eu treinei alguns cães de grande porte especialmente para caçar ômegas. Se o senhor permitir, adoraria hospedar a caçada em minhas terras. Nós também estamos preparando outros pequenos “shows” do mesmo tipo que garanto que o agradarão muito.
Meu estômago revirava enquanto o nível de sadismo só aumentava. Sem saber como reagir ao desespero, prestei atenção na voz do Príncipe que cruzou o salão em resposta.
— Nasim.
O tom baixo e imponente de Asgyle calou os nobres instantaneamente.
“Diga que não”, eu implorei desesperadamente na minha mente. “Por favor, diga que não. Diga que você não gosta dessa crueldade.”
“Estou tão feliz que você seja um ômega.”
Foi o que ele me disse uma vez. Camar tinha dito aquilo pra mim!
— Sim, Vossa Majestade! — O homem chamado Nasim respondeu alegremente.
O Príncipe Herdeiro perguntou com um tom de escárnio lento e arrastado:
— Você acha mesmo que eu vou me divertir assistindo a alguns cachorros rasgarem ômegas em pedaços no meio do mato?
Meus pensamentos pararam. Não havia o menor sinal de desgosto na voz dele. Ele apenas parecia entediado. E a sua expressão indiferente confirmava isso.
Nasim, percebendo o tédio do Príncipe, apressou-se em garantir:
— Claro que não será só isso, meu Senhor! Desta vez nós preparamos algo diferente! Por favor, venha até as minhas propriedades e o senhor verá.
Antes que ele continuasse, outro homem o interrompeu, não querendo ficar para trás:
— Vossa Majestade! O que Nasim preparou não passa de um showzinho barato. Ele só vai trancar um ômega no cio numa jaula junto com um macaco pra ver o bicho comê-lo vivo!
O salão se encheu de exclamações surpresas e risadas vulgares. Nasim lançou um olhar mortal para o homem que roubou o seu momento, e depois se apressou em se defender perante o Príncipe:
— Não é um macaco, é um gorila da montanha! E ele foi muito bem treinado! O senhor verá que o animal e a aberração nasceram para se destruir!
— Chega.
Asgyle acenou com a mão, claramente irritado. Quando Nasim se calou, o Príncipe comentou, ainda entediado:
— Como é que o macaco vai ser afetado por um ômega no cio se feromônios só funcionam em humanos, Nasim?
Olhei para ele cautelosamente, com uma última e ínfima faísca de esperança.
“Por favor, diga que é cruel demais. Por favor, Camar.”
E então, Asgyle continuou, rindo de forma desdenhosa:
— Poupem-nos dos detalhes dessa crueldade com os animais bem na frente do nosso convidado estrangeiro. Vocês sabem como os americanos são sensíveis com os direitos dos bichos.
Ele estava fazendo uma piada. Para o Príncipe, tudo não passava de uma piada sem graça sobre o macaco.
Enquanto meus olhos se enchiam de lágrimas e minha visão embaçava, Asgyle acrescentou num tom final:
— Mas isso não significa que devamos adotar cães de rua como se fossem gente.
De repente, a minha mente se apagou.
Steward foi quem falou por mim, enquanto eu continuava olhando para o nada:
— O senhor deveria se preocupar em proteger os direitos dos seres humanos, Vossa Majestade.
Asgyle respondeu a ele com um sorriso prepotente, como se fosse a coisa mais óbvia do mundo:
— Mas é claro, doutor. Eu já protejo muito bem a vida e os direitos de todas as pessoas que vivem no meu reino. O senhor por acaso duvida disso?
Steward ficou em silêncio por um momento. Respirou fundo, como se estivesse engolindo as próprias palavras, e respondeu, soltando um suspiro:
— Não, Vossa Majestade.
Asgyle soou arrogante, sarcástico e vazio.
A única coisa que eu queria era desaparecer dali. Depois disso, a voz do Príncipe se misturava de forma intermitente com as outras vozes estranhas dos nobres pelo resto do jantar.
A voz era exatamente igual à do Camar, mas não era ele. O meu Camar jamais teria dito coisas tão perversas. Ele teria ficado furioso. Ele teria mandado eles pararem.
“Ele diria que me ama…”
A conversa cruel e risonha continuou. Eu apenas baixei a cabeça e esperei em agonia para que aquele inferno acabasse, enquanto lágrimas silenciosas escorriam pelo meu rosto e caíam nas costas das minhas mãos.
***
Várias horas se passaram em agonia pura, até que os nobres finalmente começaram a se retirar.
Quando o Príncipe Herdeiro se levantou e deu a noite por encerrada, eu já estava completamente esgotado física e mentalmente. Steward, que parecia tão exausto quanto eu, suspirou pesadamente e se levantou primeiro para me ajudar a ficar de pé.
— Vem. Você deve estar acabado — o doutor resmungou num sussurro, como se não tivesse mais energia nem para praguejar, e me ajudou a sentar na cadeira de rodas.
Assim que eu me sentei e comecei a piscar para tentar afastar o inchaço dos meus olhos vermelhos de choro debaixo do véu, Steward empurrou a cadeira. Mas, assim que estávamos prestes a sair pelas portas do salão, uma voz nos chamou pelas costas.
— Doutor. Espere um momento.
Steward parou de repente e soltou um suspiro frustrado. A voz dele soou cansada logo acima da minha cabeça:
— Sim, Lorde Zakriya? O que deseja?
O som de passos lentos e calculados começou a se aproximar. Todos os outros convidados já haviam deixado o salão, sobrando apenas nós três e o silêncio. Um cheiro doce, agressivo e ameaçador avançou na nossa direção. Minha espinha congelou mais uma vez.
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✦ Tradução, revisão e Raws: Jor&Belladonna
Ler Beije o Estranho (Novel) Yaoi Mangá Online
Sinopse:
Em um país do Oriente Médio onde a discriminação contra ômegas é profundamente enraizada, Yohan, um ômega abandonado após a manifestação de seu gênero secundário, vive sozinho em um oásis com apenas um gato como companhia. Um dia, ele resgata um homem ferido que perdeu completamente a memória do seu passado. Conforme passam o tempo juntos, Yohan se apaixona por ele… mas, um dia, o homem desaparece subitamente, sem deixar rastros.
Depois de esperar por ele em vão por muito tempo, Yohan encontra inesperadamente o príncipe herdeiro, um homem exatamente igual àquele que um dia amou. No entanto, o príncipe não o reconhece de forma alguma…
Nome alternativo: Kiss The Stranger Beije O Estranho