Ler Beije o Estranho (Novel) – Capítulo 46 Online

⚝ Capítulo 46
— Sua Alteza Real, o Príncipe Herdeiro!
Ao ouvirem o anúncio do lacaio, todos os homens que já estavam acomodados se levantaram imediatamente de seus lugares. Com o apoio de Steward, eu também me ergui, com dificuldade. Do meu lugar, que ficava na extremidade mais distante do assento de honra, não era fácil ver o Príncipe. Esticando o pescoço e me esforçando para conseguir enxergá-lo por cima dos homens altos à minha frente, um aroma doce e avassalador me atingiu em cheio.
No instante em que reconheci o cheiro de Camar, as palavras de Steward voltaram à minha mente, perfurando minha esperança.
“O Príncipe Herdeiro tem uma parceira com quem está noivo desde a infância. Ela é uma mulher muito bonita e elegante.”
Meu coração, que estava calmo há pouco tempo, começou a bater forte e a doer. Pisquei rapidamente para afastar as lágrimas e tentei parar de pensar naquilo. No entanto, as memórias vinham incontrolavelmente à tona, trazidas à vida pelo cheiro dele.
“Não vá”, o meu Camar sussurrava.
“Eu vou ficar do seu lado. Eu nunca vou te deixar, porque eu te amo.”
Os lábios que me beijavam, os braços fortes que me seguravam e aqueles olhos violeta que me fitavam com tanto carinho estavam tão nítidos na minha mente. Quando as lágrimas transbordaram, respirei fundo para não desabar de vez.
“Nós vamos morrer juntos.”
O Príncipe Herdeiro finalmente havia adentrado o salão, trazendo consigo aquele perfume doce e misterioso de feromônios que inebriava o ambiente.
— Yohan, abaixe a cabeça.
Steward colocou a mão sobre minha cabeça e fez uma reverência apressada. Eu estava tão absorto nas minhas lembranças que demorei um segundo para segui-lo. Curvei-me enquanto movia os olhos de um lado para o outro sob o tecido do niqab*, observando ao redor. Todos os outros homens no salão também estavam curvados em reverência profunda para prestar seus respeitos ao Príncipe Herdeiro.
Enquanto isso, o homem caminhou até o topo do salão e ocupou o assento de honra. Assim que ele se sentou, os criados que o seguiam se apressaram em ajeitar a bainha de suas roupas. O salão estava em silêncio absoluto. Ninguém ousava fazer um único ruído ou sequer respirar alto.
Eu queria olhá-lo até o meu coração se satisfazer, mas, como eu precisava manter a cabeça baixa, tudo o que eu conseguia fazer era tentar espiar os movimentos dele de relance. Porém, meus olhos estavam embaçados e minha visão turva me impedia de distinguir qualquer traço com clareza.
Somente quando o Príncipe Herdeiro se acomodou é que pudemos nos erguer. Com o peito doendo como se estivesse em chamas, eu ouvi ele finalmente abrir a boca:
— Sentem-se e fiquem à vontade.
Logo, os homens relaxaram a postura e se sentaram, um a um. O doutor rapidamente me ajudou a sentar no chão e acomodou almofadas nas minhas costas, tentando me deixar o mais confortável possível.
— Não force o seu corpo, Yohan. Se você se sentir cansado, me avise a qualquer momento. Nós já marcamos presença aqui, então não me importo de irmos embora no meio do jantar. Entendeu?
Quando ele perguntou, apenas forcei um sorriso através do tecido, em vez de responder. Mas Steward franziu a testa e inclinou a cabeça.
— Com esse véu, tudo o que eu consigo ver são os seus olhos, então como eu vou saber se você tá bem ou não…? Enfim.
Ele deu dois tapinhas nas minhas costas para me encorajar e desviou o olhar. Segui o movimento dele e voltei os olhos para o assento de honra. E finalmente, eu vi o rosto do Príncipe.
— Consegue ver alguma coisa, Yohan? — Steward perguntou baixinho.
Eu estava exausto, e respondi num murmúrio:
— Muito mal. É só um borrão.
— A sua visão está bem pior do que eu imaginava, Yohan.
— É… — murmurei de novo.
De fato, minha visão estava pior do que antes. E não eram só as lágrimas que deixavam tudo embaçado. Esfreguei os olhos e pisquei, tentando focar a visão com muito esforço, quando ouvi a voz familiar soar.
— Houve muitos pedidos de audiência para tratar de diversos assuntos. Por isso, eu criei este evento. Se algum de vocês tem algo a me dizer ou pedir, não hesite em fazê-lo agora.
Contrariando o tom encorajador das palavras, o salão permaneceu em silêncio. A tensão era tão clara que eu quase podia ver os nobres trocando olhares furtivos entre si. Enquanto os criados se enfileiravam para servir os pratos, ninguém se atrevia a falar.
Todas as travessas em que a comida era servida eram de prata pura. No centro de cada mesa repousava uma enorme tigela de prata, ao redor da qual vários tipos de frutas frescas e cordeiros assados inteiros estavam dispostos em fileiras; a sopa e a salada foram os primeiros pratos servidos individualmente na frente de cada convidado.
— Comer assim não é um pouco desconfortável para você? — Steward comentou com uma careta frustrada.
Não era só por causa do véu do niqab* que cobria meu rosto, mas também devido à postura. Não era nada fácil comer sentado no chão sobre almofadas, ainda mais com o meu corpo dolorido. Steward, que tinha pernas longas e não sabia como cruzá-las de forma confortável, resmungou baixinho enquanto mudava de posição várias vezes. Era evidente que todos ali, não apenas nós, estavam ligeiramente desconfortáveis com o protocolo de comer no chão.
Apenas o Príncipe Herdeiro parecia inteiramente confortável. Por causa da distância e da minha visão turva, eu não conseguia reconhecer a expressão no rosto dele com clareza, mas dava para sentir pelo ar relaxado que ele emanava.
Steward deu um grunhido de insatisfação, parecendo ler meus pensamentos.
— Tem mesas perfeitamente boas no palácio inteiro, por que diabos eles insistem em nos fazer sentar no chão e comer feito pombos no corredor? Isso aqui não é um jantar, é uma tortura.
Enquanto o doutor resmungava, a voz do Príncipe cortou o salão de repente.
— Se ninguém tem nada a dizer, devo presumir que não têm nada a me pedir. Está de bom tamanho para mim.
Assustei-me com o tom sarcástico e voltei os olhos para ele. Forcei a visão, franzindo a testa e apertando os olhos para tentar enxergar a expressão no rosto dele com clareza, mas não adiantou muito. Desisti e abaixei o olhar novamente, com o coração em confusão.
“O Camar que eu conhecia falaria com esse tom?”
Ao tentar me lembrar de um momento assim, suspirei de forma involuntária.
“Você realmente espera que eu acredite nessa asneira? Isso não tem a menor graça.”
Lembrar da expressão e do tom de voz carregados de desprezo do Camar na primeira vez em que nos vimos fez uma curiosidade subitamente me invadir. Será que o Príncipe Herdeiro estava fazendo aquela mesma expressão de antes?
“Sim, deve ser isso.”
Meu coração disparou. Se fosse assim, então eu poderia ter certeza…
— Vossa Majestade!
A voz de um homem desconhecido interrompeu meus pensamentos e quebrou o silêncio do salão. O homem, que era bastante corpulento e estava sentado perto do assento de honra, começou a falar com uma voz fina que não condizia com seu tamanho.
— A única coisa que este humilde servo deseja é o progresso infinito do nosso reino e a integridade de nossa sagrada Família Real. Que Deus abençoe o nosso Príncipe sem limites! Eu oro pela prosperidade de Vossa Majestade todos os dias, com todo o meu coração… No entanto, se o Senhor permitir, há um pequeno pedido que eu gostaria de fazer.
O Príncipe Herdeiro respondeu ao homem, que suava frio e destilava lisonjas, balançando a mão em um gesto lento de desdém.
— Concedido.
Foi uma resposta curta e seca, completamente desprovida de qualquer cortesia. Mas o nobre agiu como se não se importasse e continuou a falar com entusiasmo.
— Oh, muito obrigado! A bênção da Vossa Majestade se estende amplamente sobre os seus servos!
Apenas depois de uma longa sequência de elogios e baboseiras é que ele finalmente mencionou um novo projeto de desenvolvimento em suas terras. Ele começou a detalhar que tipo de construção seria e a altura do projeto, mas eu não prestei atenção em nem metade daquilo.
Tudo o que ficou claro foi que o Príncipe Herdeiro permitiu a obra e, ao ouvir a resposta positiva, o homem bateu a testa contra o chão repetidas vezes, louvando o Príncipe como a um deus.
Depois que o primeiro quebrou o gelo, os pedidos se seguiram um após o outro. Para mim, estava sendo bem difícil conseguir levar a comida à boca debaixo do véu, mas até que deu para me virar depois de pegar o jeito. Comecei a comer a sopa quente devagar, sempre lançando olhares na direção do Príncipe Herdeiro sempre que minha visão parecia melhorar um pouco. Mas, quanto mais eu forçava os olhos, mais embaçados eles ficavam, até o ponto em que eu quase derrubei a tigela de sopa e tive que parar de tentar observá-lo.
— Yohan, tenha cuidado para não inalar muitos feromônios. Você tomou os inibidores, mas se continuar absorvendo muito dessa energia, ainda vai ser afetado — alertou Steward em um sussurro repreensivo no exato momento em que eu puxava o ar profundamente.
Como ele tinha me flagrado, eu nem tentei inventar uma desculpa. Exausto, apenas murmurei um “sim”.
“Por que eu tive que nascer um ômega?”
Meus olhos se encheram de tristeza. Se eu fosse pelo menos um beta, eu poderia ter inalado o cheiro do Camar até meus pulmões doerem sem ter que me preocupar com as consequências físicas.
— Primeiro de tudo, termine de comer a sua comida. Nós já vamos embora, dependendo de como o clima ficar por aqui — Steward disse num tom sério, e empurrou um prato de kabsa* para mim.
O clima geral no salão até que estava suportável. Se continuasse assim, poderíamos sair sem nenhum problema.
Steward já tinha limpado dois pratos de kofta* e estava só me esperando terminar minha refeição para ir embora. Mas quando eu parei de comer, não tendo conseguido chegar nem na metade do prato, ele franziu a testa.
— Yohan, eu já estava percebendo isso, mas você come muito pouco. O seu corpo não consegue se recuperar bem das lesões se você continuar comendo igual a um passarinho.
De repente, como se tivesse se lembrado do motivo, Steward suspirou.
Durante os primeiros meses depois que Camar desapareceu, eu fiquei tão devastado que mal conseguia trabalhar, então houve muitos dias em que passei fome por não ter dinheiro. Steward tinha me ajudado muito desde que nos conhecemos, mas quando eu finalmente recuperei as forças para voltar a trabalhar, minha visão piorou tanto que eu mal conseguia render no serviço de carregar areia. Assim, passar fome já tinha se tornado uma rotina para mim há muito tempo. Steward sempre odiou me ver assim. Fazendo uma careta de desgosto, ele repreendeu baixinho:
— Enquanto estivermos aqui no palácio, você vai comer direito. O motivo de a sua visão estar cada vez pior é essa desnutrição absurda. A comida daqui é de primeira linha, então isso é ótimo. Trate de se alimentar bem a partir de agora.
Depois de dar a bronca, ele desviou o rosto. Era evidente pela impaciência dele que já estava pronto para pedir licença e nos tirar dali. Aproveitei o momento para abaixar a cabeça discretamente, torcendo para conseguir enxergar o Príncipe mais uma vez antes de Steward anunciar a nossa saída.
E foi nesse exato momento que eu senti, com toda a certeza do mundo, que meus olhos se encontraram com os do Príncipe Herdeiro.
Fiquei paralisado por um instante, mas logo sacudi a cabeça, convencido de que era impossível. Era uma ilusão absurda achar que tínhamos trocado olhares sendo que eu sequer conseguia enxergar o rosto dele direito a essa distância. Enquanto eu afastava esse pensamento estúpido, uma voz potente e carregada de malícia cortou o ar subitamente.
— Vossa Majestade, vejo que o Doutor Steward parece estar querendo se retirar do banquete mais cedo.
A voz pertencia a Zakriya, que ocupava o assento mais próximo ao do Príncipe Herdeiro. De repente, todo o barulho de conversas no salão cessou. Steward, que estava com a mão levantada a poucos centímetros do chão para chamar a atenção de um criado, congelou no lugar.
Todos os olhos do salão se voltaram para nós ao mesmo tempo.
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* kofta: A kofta é um prato tradicional muito comum no Oriente Médio, sul da Ásia e regiões próximas. É feita de carne moída (geralmente cordeiro ou boi) misturada com temperos e ervas, moldada em formato de bolinhas ou cilindros, pode ser grelhada, frita ou cozida
* kabsa: A kabsa é um prato tradicional muito popular em países do Oriente Médio, especialmente na Arábia Saudita.
É basicamente arroz bem temperado com especiarias, servido com carne (geralmente frango, cordeiro ou boi) pode levar também nozes, passas e legumes tem um sabor marcante por causa de especiarias como cardamomo, canela, cravo e pimenta. Visualmente, lembra um “arroz com carne”, mas é muito mais aromático e elaborado.
* niqab: O niqab é um tipo de véu usado por algumas mulheres em culturas islâmicas. Ele cobre todo o rosto, deixando apenas os olhos visíveis. Geralmente é usado junto com outras roupas que cobrem o corpo, como a abaya/burqa. Pode ter significados religiosos, culturais ou sociais, dependendo do lugar.
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✦ Tradução, revisão e Raws: Jor&Belladonna
Ler Beije o Estranho (Novel) Yaoi Mangá Online
Sinopse:
Em um país do Oriente Médio onde a discriminação contra ômegas é profundamente enraizada, Yohan, um ômega abandonado após a manifestação de seu gênero secundário, vive sozinho em um oásis com apenas um gato como companhia. Um dia, ele resgata um homem ferido que perdeu completamente a memória do seu passado. Conforme passam o tempo juntos, Yohan se apaixona por ele… mas, um dia, o homem desaparece subitamente, sem deixar rastros.
Depois de esperar por ele em vão por muito tempo, Yohan encontra inesperadamente o príncipe herdeiro, um homem exatamente igual àquele que um dia amou. No entanto, o príncipe não o reconhece de forma alguma…
Nome alternativo: Kiss The Stranger Beije O Estranho