Ler Beije o Estranho (Novel) – Capítulo 38 Online


Modo Claro

⚝ Capítulo 38

Como tinha chovido no dia anterior, o céu amanheceu mais limpo do que o normal.
Inspirei fundo e soltei o ar devagar enquanto estendia as roupas no varal. Fiquei parado por um instante e respirei fundo mais uma vez, sentindo o ar fresco encher e esvaziar meus pulmões. Rikal deu um salto até o parapeito da sacada e ficou ali, olhando em volta e observando o movimento das pessoas que passavam lá embaixo.
Dei um beijo na cabeça do gato, me virei e entrei. Minha meta para hoje era colocar as tarefas domésticas atrasadas em dia. Como já tinha terminado de lavar as roupas, decidi que era hora de faxinar a casa. Foi quando ouvi batidas na porta. Ao abrir, como era de se esperar, o doutor Steward estava lá.
— Yohan, o que está fazendo? Comprei um chá novo, gostaria de tomar comigo?
Hesitei por um instante, dando um sorriso sem graça.
— Eu tinha planejado arrumar a casa hoje… — murmurei, olhando para as coisas bagunçadas atrás de mim.
O doutor abriu um sorriso compreensivo e fez uma sugestão:
— Então façamos o seguinte: nós jantamos no meu quarto mais tarde. Assim, você não precisa se preocupar em preparar o jantar e nem em limpar a sua cozinha depois, que tal?
Sem perceber, minha voz até subiu um tom diante daquela oferta tentadora.
— É sério? Posso mesmo?
— Mas é claro, Yohan. O Rikal vem com a gente também?
O gato, que estava lá embaixo e ouviu o próprio nome, virou a cabeça, deu um pulo e veio correndo na nossa direção. Quando o doutor se abaixou, o felino ronronou, oferecendo o queixo de bom grado para receber carinho. Segurando a patinha de Rikal, Steward disse num tom casual:
— Então vamos para o meu quarto, vocês dois.
***
— Nossa, então foi isso que aconteceu. — Steward exclamou, com os olhos arregalados de surpresa.
Vendo-o abaixar a xícara de chá do outro lado da mesa, eu assenti e dei uma risada.
— Sim. E o pior é que não é a primeira vez que o Rikal faz uma bagunça absurda dessas e depois se faz de desentendido.
Steward esticou a mão para baixo e coçou a cabeça do gato, que estava esparramado no tapete.
— É um gato, a gente tem que dar um desconto — ele disse, abrindo um sorriso gentil. — Ê, carinha esperto…
Eu ri também. Steward então se endireitou e perguntou:
— Você tem mais alguma coisa pra fazer além da faxina hoje? Quer ajuda com algo?
— É que a faxina de hoje vai ser um pouco mais pesada — respondi com cautela. Era uma daquelas situações em que a altura do doutor faria toda a diferença. — Eu até conseguiria fazer tudo sozinho subindo e descendo de uma cadeira, mas…
Steward assentiu prontamente.
— Sem problema, é só me falar do que precisa.
— Obrigado. É que eu queria fazer uma daquelas faxinas pesadas de primavera, sabe? Já faz um tempo que não limpo direito. E eu não alcanço as partes mais altas da casa.
— Ah, isso é moleza. O que mais eu posso fazer por você?
Aliviado com a prestatividade dele, perguntei com um sorriso sincero:
— E como anda a sua pesquisa ultimamente? Tá rendendo frutos?
A pesquisa de Steward era focada em alfas e ômegas. Eu não entendia muito do assunto, mas sabia que existia uma parcela muito rara da população classificada como “alfas extremos” e “ômegas extremos”, que eram biologicamente diferentes dos comuns. O estudo dele era justamente sobre esse grupo.
— Ômegas extremos não são fáceis de encontrar, mas os alfas extremos são um pouco mais acessíveis de estudar. Eles possuem características físicas muito específicas. Por exemplo, a capacidade de ocultar os próprios feromônios ou de controlar quando querem ou não engravidar alguém.
— Eles conseguem controlar a própria fertilização? — perguntei, chocado.
— Sim. — Steward assentiu. — Dizem que os alfas extremos têm a habilidade de manipular isso, de modo que só engravidam quem eles realmente escolhem. Claro, isso só acontece quando o cérebro deles está funcionando perfeitamente. Porque, dizem que, quando os feromônios se acumulam demais no corpo deles, o cérebro praticamente entra em curto-circuito.
Ainda era um mundo muito desconhecido para mim. Confuso, ouvi enquanto ele continuava a explicação:
— Fica difícil de raciocinar. Alguns dizem que eles perdem a cabeça, mas, do ponto de vista médico, é um transtorno cerebral grave causado por sobrecarga. É por isso que eles precisam liberar feromônios com frequência para não acumularem. Então, não é incomum encontrar um alfa extremo que esteja sempre exalando feromônios ou que se envolva constantemente em orgias. Ter que transar desesperadamente só para se livrar do excesso de feromônios no corpo é, perdão pela palavra, uma merda.
Ouvindo a voz dele subitamente carregada de desprezo e tensão, percebi que eu não tinha entendido nem a metade da gravidade da situação. Quando eu apenas pisquei e dei um sorriso meio perdido, Steward logo notou minha confusão e mudou casualmente o rumo da conversa.
— Você nunca foi à América, né, Yohan?
— É… Na verdade, eu nunca fui a nenhum outro país.
Confessei, um pouco envergonhado, mas Steward deu um tapinha reconfortante na minha mão sobre a mesa.
— Muita gente nunca viajou para o exterior. A vida é assim mesmo. Tanta gente por aí nem sequer tem um passaporte.
— Eu também não tenho — comentei.
— Ah… Faz sentido. — Steward pareceu se lembrar da minha condição de fugitivo e retomou a explicação anterior, mais calmo. — Enfim, os alfas extremos têm um cheiro de feromônio diferente. Também existem estudos que mostram que o sistema imunológico deles é excepcionalmente forte por causa dessa biologia. Como prova disso, eles quase nunca pegam resfriados e é praticamente impossível que fiquem bêbados ou sejam dopados por drogas. Fica claro que os feromônios têm um efeito profundo e protetor no cérebro e no corpo. Por conta desse distanciamento biológico, entre os alfas extremos, há muitos casos de sociopatia.
— …
— Significa que eles não conseguem sentir empatia e emoções da mesma forma que nós, ou, mesmo que sintam, conseguem ignorá-las facilmente se for para benefício próprio. — Ele simplificou o assunto, tentando encerrar de forma clara. — É por isso que os alfas extremos costumam escalar a pirâmide social e chegar ao poder tão rápido. Mas, pessoalmente, é o tipo de gente com a qual eu não gostaria de cruzar pelo resto da minha vida. Porque eles não dão a mínima se machucam ou destroem outras pessoas no meio do caminho.
— Entendi…
— Por isso, eu digo para você tomar cuidado, Yohan, para nunca acabar esbarrando com um deles.
Sorri amargamente diante do conselho preventivo dele.
— Acho que eu nunca vou conhecer alguém assim na vida. Afinal, eles são pessoas da alta sociedade, pessoas importantes.
Steward, de forma inesperada, ficou em silêncio absoluto por um momento. Incomodado com a pausa repentina e o olhar fixo dele, abaixei a cabeça. Então, ele sorriu e concordou.
— É, tem razão. Vocês nunca vão se cruzar.
E, com isso, ele simplesmente mudou de assunto mais uma vez.
— Uma vez, quando eu era mais jovem, eu cultivava umas plantas lá em casa…
***
Depois do jantar, o doutor Steward e eu fizemos aquela faxina pesada na minha casa. Quando terminamos tudo e eu finalmente tomei um banho, já era quase meia-noite. Exausto, arrastei meu corpo dolorido até a cama e me joguei no colchão.
— Rikal.
O gato, que estava no chão se lambendo e limpando os pelos, ergueu a cabeça ao ouvir meu chamado e veio correndo pular na cama. Dormir com o Rikal numa cama grande já tinha virado um costume acolhedor. Abracei o corpinho quente e peludo dele com força e fechei os olhos, relembrando tudo o que aconteceu durante o dia.
Steward tinha me contado muitas coisas, e eu tinha escutado tudo com atenção. Mas, agora que eu estava deitado ali no escuro, prestes a dormir, apenas um pensamento martelava a minha mente.
“Não consigo me lembrar.”
O rosto de Camar, que sempre me vinha à mente quando eu lembrava de sua amnésia, se recusava a desaparecer. A imagem dele piscava diante dos meus olhos fechados. O cheiro do corpo dele já havia sumido do quarto há muito tempo, e até seus rastros tinham sido apagados.
Às vezes, o vazio era tanto que parecia que eu era o único que ainda acreditava que ele tinha existido ali. A saudade, contra a qual eu lutava arduamente todos os dias, transbordou no meu peito. Fechei os olhos com mais força, tentando não chorar, mas não consegui evitar que a ponta do meu nariz ardesse e minha garganta doesse.
Daquele dia de chuva em diante, Camar nunca mais voltou.
Tentei de todas as formas possíveis encontrá-lo, mas ele simplesmente desapareceu sem deixar rastros. Ele sequer tinha aparecido na loja onde costumávamos vender as tapeçarias. Ele sumiu no ar, como fumaça.
Nos primeiros dias, eu mal conseguia beber água, muito menos comer. Se não fossem por Steward e por Rikal, eu provavelmente teria morrido de inanição. O doutor, preocupado comigo, vinha todos os dias para preparar arroz ou me trazer frutas macias e doces para tentar me alimentar. Eu não conseguia engolir nenhuma outra comida além disso. Depois de sobreviver assim por mais de um mês, eu finalmente recobrei a sanidade.
— Eu preciso ser forte e esperar por ele.
As palavras de encorajamento que Steward repetia constantemente também ajudaram a me reerguer. Aos poucos, recuperei minhas energias e voltei a trabalhar. Fazer as tapeçarias era um trabalho bem exaustivo que forçava minha visão, mas eu não podia parar se quisesse ganhar a vida.
Hoje, eu já encontrei certa estabilidade, e minha rotina tranquila se repete todos os dias. Eu continuo vivendo. Continuo esperando por ele.
Mas, de vez em quando, quando a falta que ele me faz me atinge desse jeito, é impossível segurar as lágrimas.
Onde você está, Camar? O que aconteceu? Por que não volta pra mim?
Por fim, as lágrimas escorreram silenciosas pelo meu rosto, e chorei abraçado ao gato.
… Eu sinto tanto a sua falta.

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✦ Tradução, revisão e Raws: Jor&Belladonna

Ler Beije o Estranho (Novel) Yaoi Mangá Online

Sinopse:
Em um país do Oriente Médio onde a discriminação contra ômegas é profundamente enraizada, Yohan, um ômega abandonado após a manifestação de seu gênero secundário, vive sozinho em um oásis com apenas um gato como companhia. Um dia, ele resgata um homem ferido que perdeu completamente a memória do seu passado. Conforme passam o tempo juntos, Yohan se apaixona por ele… mas, um dia, o homem desaparece subitamente, sem deixar rastros.
Depois de esperar por ele em vão por muito tempo, Yohan encontra inesperadamente o príncipe herdeiro, um homem exatamente igual àquele que um dia amou. No entanto, o príncipe não o reconhece de forma alguma…
Nome alternativo: Kiss The Stranger Beije O Estranho

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