Ler Beije o Estranho (Novel) – Capítulo 34 Online

⚝ Capítulo 34
O som de mastigação e de alguém engolindo comida ecoava no quarto silencioso. Camar e eu olhávamos para o homem sentado do outro lado da mesa com uma mistura de surpresa e aversão. Diante do meu pedido para dividirmos a refeição, Camar, como era de se esperar, havia recusado no início. Mas eu insisti.
— A gente precisa ajudar, Camar. Tem bastante comida.
Com essas palavras, Camar cedeu, mas com uma expressão nada amigável. E assim, o homem sentou-se sem a menor cerimônia à mesa e começou a devorar o que tínhamos preparado. Ele comia mais rápido que o Rikal, que já era apressado, e, para piorar, comia uma quantidade absurda.
Finalmente, quando o homem esticou a mão para pegar mais carne fresca, Camar agarrou seu pulso.
— Já chega. Tá bom pra você.
Serrando os dentes, Camar largou o pulso do homem quase com nojo e puxou o prato de carne para a minha frente.
— Eu não consigo comer tanto assim — tentei amenizar, dando uma piscadela para Camar, mas ele apenas resmungou algo em voz baixa.
O homem, que havia invadido nosso quarto de repente, olhou para o prato de carne com olhos de pura lamentação, mas logo abriu um sorriso largo.
— Cara, isso tava muito bom! Eu tava quase morrendo de fome. Tive muita sorte de pessoas tão compassivas se mudarem pra cá. — Ele continuou tagarelando com um tom descontraído. — Não tem muitos hóspedes nesta pousada, a galera vem e logo vai embora. Aliás, eu sou o cara que tá aqui há mais tempo, então, se precisarem de qualquer coisa, é só perguntar. Seja um restaurante bom ou uma lojinha barata, eu sei indicar a maioria das coisas.
— Se você conhece tudo tão bem, por que tava morrendo de fome? — Camar retrucou, sarcástico.
O homem coçou a cabeça e deu uma risada.
— É que eu me perdi no tempo enquanto tava pesquisando umas coisas. Quando me dei conta, a geladeira tava vazia. Fui sair pra comprar comida e achei que ia desmaiar no meio do caminho. Mas aí, senti esse cheiro delicioso de carne no corredor…!
Ele puxou o ar fundo, como se sentisse o aroma de novo, e abriu um sorriso enorme.
— Nunca vou esquecer essa gentileza. Me avisem se precisarem de qualquer coisa, eu serei de grande ajuda.
— É… — murmurei, dando um sorriso sem graça diante da confiança descabida dele.
O homem continuou, falando com a maior naturalidade:
— Então, é a primeira vez de vocês em Al Aad?
O olhar dele se voltou para Camar. O clima ficou estranho de repente. Fiquei nervoso por dentro, sem saber o que estava errado, até que Camar respondeu de forma seca:
— É.
— Ah, entendi. Entendi.
Ele riu, repetindo a mesma coisa, e depois inclinou a cabeça. Era, sem dúvida, um sujeito muito estranho. O homem bateu palmas de repente, como se quisesse chamar a atenção, e olhou para nós.
— Bem-vindos a Al Aad! Vocês têm amigos por aqui? Ou eu sou o primeiro? Olha só que sorte a minha.
Ele emendou a falar sobre o clima, o trânsito e um monte de outras coisas aleatórias. Minha mente já estava exausta e não conseguia processar mais nada. Quando eu já estava com o olhar perdido, beirando o transe, Camar segurou meu ombro e me puxou para perto. Ele parecia estar tentando me acalmar. Pisquei, voltando a mim, e ouvi a voz de Camar soar acima da minha cabeça:
— Já que você terminou de comer, pode ir embora. Nós precisamos do nosso próprio tempo.
— Ah, entendi. Vocês dois são um casal? — o homem perguntou, olhando de mim para Camar.
Por um segundo, pisquei em choque. Eu não só tinha tirado o pano que enrolava meu rosto, como também já tinha falado algumas vezes. Ele com certeza já tinha percebido que eu era homem. Como ele simplesmente deduziu que éramos um casal? Camar também franziu a testa, achando a pergunta suspeita.
O homem sorriu e continuou:
— Dá pra perceber só de bater o olho. Felicidades pra vocês. A propósito, o que vieram fazer aqui? Viagem de negócios?
— E a gente tem algum motivo pra te contar isso? — Camar finalmente rosnou, cerrando os dentes.
Aquele cara falava demais. Parecia que ele estava nos sondando, e isso me deixou incomodado. Decidi ficar calado e deixar Camar lidar com a situação. Nós já tínhamos dado a refeição que ele queria, então achei que já tínhamos sido úteis o suficiente.
Mas o homem abriu um sorriso provocador:
— Parece que vocês se amam muito. Estão fugindo por amor?
Como se quisesse calar aquela boca de vez, Camar me soltou e se levantou. Parecia que, se o cara dissesse mais uma palavra, Camar iria agarrá-lo pelo colarinho e jogá-lo pra fora do quarto a força. Mas o homem abriu a boca sem hesitar:
— Não deve ter sido fácil viajarem juntos. Vocês estão fugindo por causa disso? De onde vocês vieram?
— Onde você quer chegar com essa conversa? — Camar questionou, ameaçador.
O homem deu de ombros e encarou Camar com uma expressão séria que ainda não tínhamos visto nele.
— Eu já disse, eu vou ajudar vocês.
Os olhos por trás dos óculos emitiam um brilho afiado. O olhar do homem recaiu pesadamente sobre mim.
— Ele é um ômega, não é? Esse aí.
Naquele exato segundo, Camar avançou sobre a mesa e o agarrou pelo pescoço.
— Camar!
— …Urgh!
Um gemido sufocado escapou da garganta do homem. Desesperado, tentei puxar o braço do Camar, mas ele não se moveu um milímetro. Segurando o homem pela garganta com apenas uma mão, Camar ficou apenas encarando o rosto dele, que começou a ficar pálido e sem ar.
— Já chega, Camar! Ele vai morrer, ele vai morrer de verdade!
Camar não respondeu. Seus olhos ganharam um tom dourado assustador, e o cheiro de seus feromônios ficou denso e sufocante. Fiquei tonto na mesma hora e quase desabei.
— Camar, por favor…
A lembrança do sangue vermelho espirrando na minha frente voltou com tudo. Camar não hesitava em matar. E ele faria a mesma coisa de novo agora. Vendo a mão dele apertar o pescoço do homem até as juntas ficarem brancas, comecei a gritar em pânico:
— Camar, chega! Para com isso!
Finalmente, me joguei na perna dele e me agarrei com força. Camar, que estava esganando o homem até aquele momento, olhou para baixo. Ao ver o terror absoluto no meu rosto, ele franziu a testa. Ele praguejou baixinho e afrouxou o aperto.
— Cof, cof… Caramba… Uau.
O homem se curvou sobre a mesa, tossindo violentamente. Corri rápido para pegar um copo d’água e ofereci a ele.
— Obrigado… você é mesmo muito gentil.
Ele agradeceu com a voz rouca e arranhada, o óbvio efeito colateral de ter sido quase enforcado, e virou o copo d’água de uma vez só. Depois disso, ele soltou um suspiro longo e olhou para nós de novo.
— Eu falei que a gente devia conversar com palavras, mas vocês preferem resolver na força física, hein?
— Cala a boca e dá o fora daqui agora! — Camar explodiu.
— Se vocês continuarem agindo assim, não vão durar muito tempo.
O homem falou sério pela primeira vez. O tom soou como um aviso real, e até Camar pareceu travar no lugar. O sorriso relaxado que o homem exibia tinha sumido por completo enquanto ele continuava:
— Vocês não estão se perguntando como eu soube que ele é um ômega? O cheiro desses feromônios é forte demais. O seu também.
Diante da menção a Camar, intervi com cautela:
— O Camar é um beta.
— É mesmo? — O homem franziu a testa, descrente.
Eu expliquei com calma de novo:
— Ele é um beta. Então, isso é só o cheiro natural do corpo dele, não são feromônios.
O homem ficou em silêncio por um momento. Ele apenas olhou de mim para Camar e franziu os olhos, cheio de suspeitas. Camar finalmente abriu a boca:
— É verdade.
— …É.
O homem soltou um suspiro trêmulo, coçou a cabeça e, por fim, deu de ombros.
— Bom, que seja. De onde vocês são? Vieram da Cidade da União, certo? Se não quiserem contar, não precisam. Mas acho que vocês deveriam saber em que tipo de lugar acabaram de se enfiar.
Ele se recostou na cadeira e fez um gesto com a mão para que nós nos sentássemos, como se ele fosse o dono do lugar. Camar e eu hesitamos, mas acabamos sentando. O homem voltou a falar.
— Diferente de outras cidades, Al Aad é o lugar mais preconceituoso de toda a aliança. É o lugar perfeito pra você ser pego e acabar virando um escravo sexual.
Vendo a expressão de Camar endurecer novamente, o homem continuou:
— Além disso, o rei está com os dias contados, e o príncipe que devia assumir o lugar dele sumiu há meses. Dizem por aí que ele tá doente, mas ninguém sabe o que realmente tá acontecendo. De qualquer forma, é por isso que a segurança e a política daqui estão um caos. E mesmo que o príncipe volte, não vai mudar nada pra vocês. Ele é um fanático religioso. Ele nem sequer trata os ômegas como seres humanos. Mas, pensando bem, todos esses membros da realeza são assim.
Ele soltou uma risada sarcástica e acrescentou:
— Enfim, eu fui ajudado por vocês, e se houver qualquer coisa que eu possa fazer em troca, eu farei. Por exemplo… inibidores?
— Inibidores? — perguntei, chocado.
— Ué — ele disse, piscando confuso. — Eu não contei pra vocês? Sou médico.
— Você não falou nada sobre isso.
— Detalhes… — O homem exclamou de forma despreocupada e adicionou com leveza: — Bom, agora vocês já sabem, tá tudo certo. Então, espero que a gente se dê bem daqui pra frente. Quais são os nomes de vocês?
O homem estendeu a mão com a maior naturalidade do mundo. Camar apertou a mão dele com uma expressão de total descrença.
— …Camar.
— Entendi. E ele?
— Ele é o Yohan.
— Yohan…
O homem repetiu os nomes devagar, sorriu e finalmente se apresentou:
— Meu nome é Norman Steward. Sou americano. Espero poder ser útil para vocês no futuro.
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✦ Tradução, revisão e Raws: Jor&Belladonna
Ler Beije o Estranho (Novel) Yaoi Mangá Online
Sinopse:
Em um país do Oriente Médio onde a discriminação contra ômegas é profundamente enraizada, Yohan, um ômega abandonado após a manifestação de seu gênero secundário, vive sozinho em um oásis com apenas um gato como companhia. Um dia, ele resgata um homem ferido que perdeu completamente a memória do seu passado. Conforme passam o tempo juntos, Yohan se apaixona por ele… mas, um dia, o homem desaparece subitamente, sem deixar rastros.
Depois de esperar por ele em vão por muito tempo, Yohan encontra inesperadamente o príncipe herdeiro, um homem exatamente igual àquele que um dia amou. No entanto, o príncipe não o reconhece de forma alguma…
Nome alternativo: Kiss The Stranger Beije O Estranho