Ler Beije o Estranho (Novel) – Capítulo 35 Online


Modo Claro

⚝ Capítulo 35

O quarto estava inundado com o cheiro delicioso de comida. Havia frutas, vegetais, carnes e sobremesas doces. Era a primeira vez que tínhamos uma variedade tão rica de alimentos disposta na nossa frente de uma só vez. E o melhor de tudo: eu não tinha precisado jogar água no arroz. Era arroz de verdade, não aquela papa rala com alguns grãos boiando. Era um arroz soltinho, com um brilho apetitoso.
— Você tem que esperar, Rikal.
O gato, inebriado pelo cheiro, ficou eufórico e não parava de correr agitado por entre os nossos pés. Enquanto tentava escalar a minha perna, ele deu um pulo em direção à beirada da mesa, esticou as patinhas da frente e tentou fisgar o peixe assado, causando o maior alvoroço. Vendo que aquilo não ia dar certo, decidi afastar o gato por um momento.
— Ei, eu vou terminar de grelhar a carne — Camar avisou.
— Tá bom.
Camar tentou pegar o gato com cuidado. No mesmo instante, Rikal soltou um chiado agressivo e arrepiou todos os pelos. Os dois tiveram que trocar de lugar rápido, porque o gato colocou as garras para fora e arreganhou os dentes, parecendo pronto para atacar Camar a qualquer segundo.
— Vem cá, Rikal. Não pode fazer isso.
Quando eu o peguei no colo e o chamei com uma voz doce, o rosnado agudo de Rikal mudou na hora para um ronronar suave e satisfeito. Vendo a cena, Camar fez uma expressão de pura indignação, e eu caí na risada.
— Dizem que os gatos têm uma memória muito boa pra coisas importantes. O que diabos você fez com o Rikal, hein?
Quando lancei a pergunta em tom de provocação, Camar me olhou de cara fechada.
— Esse bicho é só um gato.
— E daí?
— Quem é que sabe o que se passa na cabeça de um gato?
Fazia sentido, então não consegui segurar o riso. Enquanto eu me virava com o Rikal no colo, meus olhos se encontraram com os do doutor Steward, que estava sentado à mesa, esperando pacientemente.
— Vocês se dão muito bem. Diria até que é emocionante de ver — o médico comentou.
Não havia nenhum traço de sarcasmo ou deboche no sorriso dele, então sorri de volta, meio sem graça, e concordei. Puxei uma cadeira e me sentei para agradecê-lo.
— Obrigado. Muito obrigado por ter conseguido vender a tapeçaria por um preço tão bom.
Como ele tinha prometido no primeiro dia, Steward nos ajudou bastante. Primeiro, ele deu uns remédios para o Camar e indicou uma loja confiável onde eu poderia vender a tapeçaria que tinha feito. Camar não entendeu por que precisava tomar os remédios, mas foi forçado a aceitar quando o médico apontou que “o cheiro dos feromônios do Yohan é muito forte e isso pode causar problemas”. E, de fato, como Steward previu, depois de tomar o remédio, o cheiro de alfa do corpo de Camar sumiu quase por completo. Fiquei com pena, mas Camar me garantiu que não faria mal à saúde dele. Em compensação, eu não tomei nenhum inibidor; Camar foi totalmente contra a ideia, dizendo que gostava muito do meu cheiro.
Além disso, Steward nos ajudou a entender como as coisas funcionavam por ali para conseguirmos nos virar.
O médico me cumprimentou, parecendo lembrar de algo, e deu um sorriso suave.
— Eu é que agradeço. Onde mais eu conseguiria compartilhar uma refeição tão boa como essa?
Ele acrescentou num tom leve:
— E foi um trabalho incrível, de verdade. Ainda custa a acreditar que foi você mesmo quem teceu aquilo, Yohan.
Steward olhou para as minhas mãos. Fiquei com vergonha das minhas mãos calejadas e cheias de cicatrizes e, instintivamente, as escondi debaixo da mesa. Steward continuou a falar sem rodeios:
— Não é comum ver homens bordando ou tecendo com tanta habilidade. Especialmente num lugar como Al Aad.
— Não é bem visto em Al Aad? — perguntei, confuso.
Steward concordou com a cabeça.
— As pessoas daqui são extremamente conservadoras e antiquadas — ele explicou, como se achasse graça da situação. — Chega ao ponto de existir uma lei que diz que se você dormir com um virgem, é obrigado a se casar. Em pleno século vinte e um! E o pior: do ponto de vista de uma mulher, ela é obrigada a se casar com o primeiro homem com quem dormiu. Um absurdo sem tamanho.
Que sentido faz obrigar alguém que foi estuprada a se casar com o próprio estuprador?
O médico balançou a cabeça e deu um sorriso amargo.
— Existem muitas outras formas de alcançar seus objetivos além dessa loucura.
— Entendi… — murmurei, com a mente vagando.
“Se eu tiver que me casar com a primeira pessoa com quem dormi… então eu teria que me casar com o Camar…”
Lentamente, uma pontada de ansiedade começou a crescer em mim.
“E se eu não for o primeiro do Camar?”
Steward continuou falando sobre várias outras coisas. Ele contou, por exemplo, que o motivo de ter vindo para cá foi para estudar uma condição genética peculiar da família real, mas que os planos deram errado e ele não conseguiu contato com o palácio.
— Bom, eu não posso ficar aqui pra sempre esperando. Se demorar muito mais, vou ter que voltar pro meu país — ele disse, dando de ombros.
Curioso, perguntei:
— Essa condição genética peculiar… o que é exatamente? Ah, mas deve ser segredo da família real, né? Desculpe perguntar.
Me desculpei rápido, mas ele piscou, sorriu e balançou a cabeça.
— Não é nenhum segredo de estado. Muita gente sabe sobre isso…
O médico, que estava falante até então, fez uma expressão estranha e me encarou.
— Eu já tinha pensado nisso antes, mas nem você e nem o Camar sabem de quase nada, né? De onde diabos vocês vieram? Mesmo que venham de uma cidade muito distante, o nível de desinformação de vocês é preocupante.
Pego de surpresa pela observação direta, fiquei sem saber o que dizer por um momento. Instintivamente, olhei na direção do Camar, mas ele estava concentrado na carne e não parecia estar nos ouvindo. Enquanto eu hesitava, Steward deu de ombros.
— Tudo bem, todo mundo tem seus problemas pessoais. Você não é obrigado a me contar nada.
Mas, de repente, senti vontade de falar. Olhei para Camar mais uma vez e, com dificuldade, comecei a explicar.
— É que…
Falei com cuidado. O médico, que escutava em silêncio, franziu a testa enquanto eu resumia de forma bem breve como nós nos conhecemos, qual era a condição atual do Camar e por que tivemos que fugir.
— Amnésia? Então ele não se lembra de absolutamente nada agora? Nem de quem ele é?
— Sim — respondi, assentindo.
Foi então que me lembrei de que o homem na minha frente era médico. Ganhei um pouco de esperança. Observei-o coçar o queixo, pensativo, e perguntei, meio sem jeito:
— Doutor Steward… por acaso, não tem nenhum jeito? De fazer as memórias do Camar voltarem?
— Eu não sei… Amnésia não é um caso muito comum de se tratar. O cérebro humano é algo extremamente delicado.
— Entendi…
Steward murmurou algo para si mesmo e então perguntou:
— Mas as memórias dele não precisam voltar, certo? Acho que vocês conseguem viver bem assim. Se ele conseguir controlar os feromônios direitinho, não deve ter problemas. Vocês não pretendem ficar morando aqui, pretendem? Pra onde vocês vão?
— Bom, a gente ainda… — comecei a falar, mas a frase morreu na minha boca sob o olhar atento dele.
— Vocês não têm nenhum plano concreto do que fazer a seguir, né?
— …É, ainda não.
Steward suspirou, alisando o queixo, e murmurou:
— Bom, não dá pra saber o que vai acontecer no futuro.
Diante daquele tom sombrio e cauteloso dele, eu respondi, tentando soar firme:
— Mas eu tenho certeza de que nós vamos ficar juntos.
— Ah, é? — Steward piscou, surpreso. E, mais uma vez, aquela expressão estranha e indecifrável tomou conta do rosto dele. — Tome cuidado, Yohan. Nunca se sabe.
Fiquei encarando-o, surpreso. Steward apontou de leve com a cabeça na direção de Camar, que estava de costas para nós.
— Você mesmo disse, Yohan. Você não sabe absolutamente nada sobre o passado do Camar. É perigoso confiar cegamente em alguém assim.
A imagem de Camar coberto de sangue, cortando a garganta daqueles homens com a maior frieza, invadiu minha mente. E ainda havia uma marca vermelha e fraca no pescoço do médico sentado bem na minha frente. Engoli em seco e falei com dificuldade:
— Eu acho… que o Camar pode ter feito coisas ruins no passado.
Steward estreitou os olhos.
— Ele pode ser alguém de uma índole muito pior do que um simples criminoso.
Quando o médico soltou essa frase num tom baixo e sério, Camar apareceu carregando um prato cheio de carne.
— Do que vocês tão falando?
Coloquei meu prato na mesa rapidamente, forcei um sorriso e balancei a cabeça.
— Nada não, só conversa fiada, né?
Quando olhei para o médico pedindo confirmação, Steward sorriu e concordou:
— Se você diz, Yohan, então é.
Depois disso, o doutor Steward não falou mais nada suspeito, limitando-se a jogar conversa fora sobre coisas realmente banais: um escândalo envolvendo um jogador de futebol americano, como ele comprou comida para um cachorro de rua que viu no dia anterior, e coisas do tipo. No entanto, mesmo enquanto eu respondia e participava da conversa, uma frase não saía da minha cabeça.
“Ele pode ser alguém de uma índole muito pior do que um simples criminoso.”
Estranhamente, aquelas palavras se cravaram no meu coração e se recusavam a sair.
Alguém de índole pior? Pior do que o quê?
Por algum motivo, senti um arrepio frio subir pela minha espinha, como se uma lufada de vento gelado tivesse batido nas minhas costas. Mas engoli o medo e fingi que não era nada.

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✦ Tradução, revisão e Raws: Jor&Belladonna

Ler Beije o Estranho (Novel) Yaoi Mangá Online

Sinopse:
Em um país do Oriente Médio onde a discriminação contra ômegas é profundamente enraizada, Yohan, um ômega abandonado após a manifestação de seu gênero secundário, vive sozinho em um oásis com apenas um gato como companhia. Um dia, ele resgata um homem ferido que perdeu completamente a memória do seu passado. Conforme passam o tempo juntos, Yohan se apaixona por ele… mas, um dia, o homem desaparece subitamente, sem deixar rastros.
Depois de esperar por ele em vão por muito tempo, Yohan encontra inesperadamente o príncipe herdeiro, um homem exatamente igual àquele que um dia amou. No entanto, o príncipe não o reconhece de forma alguma…
Nome alternativo: Kiss The Stranger Beije O Estranho

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