Ler Beije o Estranho (Novel) – Capítulo 32 Online

⚝ Capítulo 32
Enquanto a carne assava na grelha portátil sobre o fogo, um aroma delicioso se espalhou por todo o acampamento. Sempre que a gordura pingava nas brasas, as chamas subiam com força e logo baixavam. Engoli em seco.
Puxei o Rikal para o meu colo. O gato estava agitado desde mais cedo, miando sem parar. Eu tentava mantê-lo perto de mim para que ele não se machucasse nas chamas, mas de vez em quando o Rikal se contorcia todo, tentando escapar.
— Não pode, Rikal.
Depois que ele tentou fugir de novo, o repreendi com firmeza. O gato desistiu, mas logo franzi a testa ao notar algo.
— O que foi isso, Rikal? Seus pelos estão queimados.
Os bigodes longos e os pelinhos acima dos olhos dele estavam todos enrugados e tortos para um lado só. Ver o gato com os bigodes crespos me deu uma mistura de dó e vontade de rir. Tentei segurar a risada, mas meu rosto começou a doer quase na mesma hora.
— Ai! — murmurei, levando a mão ao rosto.
Foi quando ouvi um suspiro vindo do outro lado. Levantei os olhos sem querer e encontrei Camar me encarando. Me sentindo envergonhado sem motivo, desviei o olhar depressa, fingindo checar como o Rikal estava.
— Yohan.
Camar me chamou. Quando olhei, vi que ele estava cortando a carne assada com uma faca e colocando os pedaços num pratinho.
— Toma.
O cheiro da carne recém-assada já era o suficiente para fazer meu estômago roncar. Rikal, que estava no meu colo, pulou para fora dos meus braços num piscar de olhos. Peguei o prato enquanto observava o gato rodear o banco ao meu lado, miando sem parar. Eu já ia colocar a comida na frente dele.
— Não.
De repente, Camar puxou o prato da minha mão. Assustado, Rikal soltou um chiado alto ao meu lado:
— Kyaang!
Camar olhou para o gato, que estava com os pelos eriçados e os dentes à mostra, e falou com indiferença:
— Você não come. Não é você que me odeia?
Confuso, fiquei olhando de Camar para Rikal.
— Pra que fazer isso com o gato?
Camar piscou para mim, dando um sinal sutil. Era como se ele pedisse para eu ficar quieto e entrar na brincadeira. Sem entender direito onde ele queria chegar, fechei a boca e observei o Rikal.
O gato miou alto. Ele pulou no meu colo, desceu de novo, ficou andando em círculos ao meu redor e miou de forma sofrida, apoiando as patinhas no meu braço. Os olhos do Rikal não desviavam da carne que Camar segurava. Dava para ver claramente o dilema na cabecinha dele: pedir comida para o inimigo que ele tanto odiava ou manter seu orgulho intacto. Tentei interceder com o olhar, mas acabei fazendo uma expressão de pura confusão.
O desespero do Rikal só piorou. Vendo a situação do gato, decidi parar com a brincadeira e ia pedir o prato de volta, mas arregalei os olhos de surpresa.
— …Rikal!
O gato se encolheu todo no chão e começou a chorar. Ele miava e choramingava de um jeito tão patético e, ao mesmo tempo, tão absurdamente fofo que não consegui segurar a risada.
— Tá bom, para com isso e me dá aqui.
Revirei os olhos de leve e estendi a mão. Camar franziu o nariz, contrariado, mas me entregou o prato a contragosto.
— Vem cá, Rikal. Desculpa. Você tá com fome, né? Vem comer.
Assim que coloquei o prato no chão, o gato parou de chorar na hora e começou a devorar a carne com desespero.
— Meu Deus…
O barulho era alto. Dava para ouvir o som dele mastigando com fome e, ao mesmo tempo, soltando pequenos rosnados na direção do Camar. Fiquei olhando para o Rikal daquele jeito e depois virei o rosto para Camar.
— Agora ele vai te odiar ainda mais.
Camar franziu a testa.
— Foi ele quem começou. — Ele protestou, parecendo ofendido. — Foi esse bicho que começou a me odiar primeiro.
— É verdade — falei, inclinando a cabeça por um momento, pensativo.
Por que o Rikal odiava tanto o Camar? Tinha alguma coisa que eu não sabia?
Enquanto eu estava perdido nos meus pensamentos, Camar cortou mais um pedaço de carne fresca e me entregou. Diferente da porção que eu tinha dado ao gato, ficou claro que aqueles pedaços picados bem fininhos eram um cuidado especial comigo e com a minha boca machucada. Meu coração quase transbordou.
— Obrigado.
Camar apenas ergueu a mão, num gesto para eu comer. Apertei os lábios com cuidado, assoprei a carne para esfriar e mordi um pedacinho, colocando na boca. Fiquei maravilhado com o suco da carne macia que se espalhou pela minha língua, mas não pude evitar a dor no rosto toda vez que eu mastigava. Mesmo assim, olhei feliz para Camar, que me observava com a testa franzida.
— Tá muito bom.
Ele não disse nada, mas a expressão dele suavizou um pouco.
Finalmente, quando Camar ia cortar um pedaço de carne para si mesmo, Rikal começou a miar de novo. Nós dois olhamos para baixo ao mesmo tempo. Encarei Camar enquanto via o gato choramingando sem parar na frente do pratinho vazio.
Sem dizer uma palavra, Camar pegou o prato do chão e jogou a carne que ele próprio ia comer para o Rikal. O gato voltou a mastigar fazendo barulho, e eu abri um sorriso surpreso.
— Com o tempo, o Rikal vai gostar de você também.
Foi uma tentativa de consolo, mas Camar retrucou com amargura:
— O Rikal que se dane. Eu só preciso que você goste de mim.
Depois de soltar isso com a maior naturalidade, ele cortou pedaços maiores de carne e os colocou no próprio prato. Vendo ele começar a comer com vontade, voltei a focar na minha refeição. Mas aquelas últimas palavras dele já tinham ficado gravadas na minha mente.
— …Eu já gosto tanto de você.
Murmurei bem baixinho, quase para mim mesmo. Camar levantou a cabeça.
— O que você disse?
— Ah, não! Nada.
Tentei negar rápido, mas parecia que ele já tinha escutado.
— Você diz que gosta tanto de mim e depois fala que não disse nada?
Meu rosto ferveu na mesma hora e minha voz saiu mais alta sem eu querer:
— Fica na sua!
Camar levou um pedaço de carne à boca com calma e deu um sorriso de canto. Era irritante ver como ele parecia se divertir com aquilo. Ele abaixou os olhos devagar e parou quando ia pegar mais carne fresca.
— O gato já esvaziou dois pratos, e você ainda tá aí?
Como ele disse, Rikal já tinha rapado o segundo prato e estava deitado do meu lado, estufado, soltando um ronronado satisfeito.
— É que… minha boca ainda não tá muito boa.
Tentei levar mais um pedaço à boca depressa, mas Camar estendeu a mão em silêncio. Fiquei confuso e soltei um “Ah”, entregando o prato com a carne que já estava esfriando. Camar fez uma careta, jogou os pedaços frios fora, cortou carne quente e fresquinha da grelha e me devolveu o prato fumegante.
Só então percebi que ele tinha entendido errado a minha lentidão.
— Não é isso, não… Eu agradeço, mas…
Camar me olhou, confuso. Eu me perdi no tempo e as palavras não saíam direito.
— Eu queria dizer que…
Acabei dando de ombros.
— Deixa pra lá.
Camar me encarou por mais um segundo e voltou a comer. Parecia que ele estava esperando eu falar, num sinal silencioso, mas resolvi mudar de assunto.
— Como você conseguiu arranjar tudo isso? E a carne?
A comida que a gente estava comendo agora, enquanto fugíamos, era muito melhor e mais variada do que a que tínhamos recebido no oásis. Camar, que ainda tinha colocado uma panelinha pequena na ponta da grelha para ferver arroz, me entregou a porção. Mais uma vez, notei o cuidado dele comigo.
— Obrigado.
Agradeci e olhei para baixo. Rikal, que tinha comido carne até não aguentar mais, virou de costas, deixando claro que não comeria mais nada nem se eu implorasse.
Fuu, fuu…
Enquanto eu assoprava a comida para esfriar, dei uma risadinha leve e repentina. Nós sabíamos para onde estávamos indo. Eu sabia que aquela rotina pacífica não ia durar muito. Mas, no fundo do meu coração, rezei baixinho para que dias como aquele durassem só mais um pouquinho.
***
Depois de comermos, Camar me pegou no colo de novo e me levou direto para a barraca.
— Como tá o corpo? Consegue se aguentar firme?
Diante da expressão de preocupação dele, eu assenti.
— Sim, obrigado.
Depois de tomar os remédios, a dor tinha diminuído bastante. Em vez de responder, Camar deu um sorriso suave, se virou e saiu para terminar de arrumar as coisas do lado de fora. Fiquei observando ele trabalhar pela porta aberta da barraca. Logo depois, Rikal entrou e se acomodou no meu colo.
Comecei a fazer carinho no queixo do gato, que já se preparava para dormir, e me peguei pensando.
“O que vai acontecer quando a gente chegar na cidade?”
Tentei forçar minhas memórias, mas não conseguia me lembrar de quase nada. Camar também tinha perdido a memória, então a situação dele não devia ser muito diferente da minha.
Mas… e se for verdade que ele é da cidade? Ele pode encontrar alguém que o conheça. Família, amigos… ou talvez, um amor.
Meu coração gelou na mesma hora.
“E se isso acontecer?”
Minha imaginação começou a correr solta. Se a gente for para a cidade, será que as memórias dele vão voltar?
“Ele devia ser casado…”
Esse pensamento, que tinha me assombrado uma vez logo depois que conheci o Camar, voltou à tona com força total.
“E então, o que eu faço?”
Minhas mãos ficaram suadas e frias.
“O que vai ser de mim?”
Sem saber a resposta, fiquei ali sentado, com o olhar perdido, repetindo a mesma pergunta na minha cabeça como um disco arranhado.
…Se o Camar for embora, como eu vou viver?
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✦ Tradução, revisão e Raws: Jor&Belladonna
Ler Beije o Estranho (Novel) Yaoi Mangá Online
Sinopse:
Em um país do Oriente Médio onde a discriminação contra ômegas é profundamente enraizada, Yohan, um ômega abandonado após a manifestação de seu gênero secundário, vive sozinho em um oásis com apenas um gato como companhia. Um dia, ele resgata um homem ferido que perdeu completamente a memória do seu passado. Conforme passam o tempo juntos, Yohan se apaixona por ele… mas, um dia, o homem desaparece subitamente, sem deixar rastros.
Depois de esperar por ele em vão por muito tempo, Yohan encontra inesperadamente o príncipe herdeiro, um homem exatamente igual àquele que um dia amou. No entanto, o príncipe não o reconhece de forma alguma…
Nome alternativo: Kiss The Stranger Beije O Estranho