Ler Beije o Estranho (Novel) – Capítulo 31 Online


Modo Claro

⚝ Capítulo 31

Antes do amanhecer, Camar acordou. Eu mal tinha conseguido pegar no sono quando fui despertado pelo movimento dele se levantando.
— O sol nem saiu ainda — ele murmurou baixinho.
Ele me pegou no colo com cuidado, me colocou no banco do passageiro, guardou nossas coisas sozinho e deixou tudo pronto para partirmos. Camar, já no banco do motorista, parou por um segundo ao ver que o gato esperto já tinha se acomodado no meu colo, e então deu a partida sem dizer uma palavra. Enquanto eu terminava de despertar, ele me entregou o pão e a garrafa de água que tinha deixado separados.
— Temos que dirigir por algumas horas. Vamos parar para descansar mais tarde.
Acenei com a cabeça. Despejei um pouco de água para o Rikal primeiro, tirei as cascas do pão, peguei o miolo mais macio e coloquei na palma da mão. Vendo o gato devorar a comida com pressa, Camar franziu a testa.
— O que esse gato não come?
— Ele prefere peixe — respondi. — Mas, como a gente não tem muita comida, ele tem que encher a barriga com o que tiver, né?
Acariciei a cabeça do Rikal com a ponta dos dedos. O gato soltou um miado curtinho e voltou a comer depressa. Depois que ele se satisfez um pouco, fui comer o que tinha sobrado. Camar continuava com a expressão neutra e não falou mais nada.
O problema veio logo a seguir: meu rosto, que estava latejando até então, doeu de forma infernal quando tentei mastigar.
— Ah…
Assim que soltei um gemido de dor sem querer, Camar se virou rápido para mim.
— O que foi? Onde tá doendo? Tá doendo muito?
O lugar onde meu tio me bateu estava ficando cada vez mais sensível com o passar das horas. Toda vez que eu engolia, meu rosto inteiro latejava, piorando com os solavancos do carro velho. Peguei rapidamente o remédio que eu havia trazido e tomei. Vendo que os analgésicos estavam acabando, achei melhor guardar para quando a dor ficasse realmente insuportável. Minhas bochechas e até minhas pálpebras estavam inchadas, o que dificultava até o simples ato de piscar. Além disso, o gosto de sangue na boca embrulhava meu estômago toda vez que eu engolia em seco.
— Quem foi? Foi um daqueles merdas? — Camar perguntou, a voz grave e carregada de ódio.
Parecia que ele estava com um impulso incontrolável de dar meia-volta com o carro e massacrar todos eles de novo. Balancei a cabeça depressa, assustado.
— N-não. Não é isso… Aquilo já foi o suficiente.
— O que foi suficiente? Eu errei. Devia ter deixado aquele desgraçado vivo para sofrer, e não só matado de uma vez.
Pensei no que ele seria capaz de fazer se tivesse o “deixado vivo”, mas não tive coragem de perguntar.
— Tudo bem, eu já tomei o remédio. Vou melhorar logo.
Tentei sorrir para tranquilizá-lo, mas logo desisti por causa da dor e só repeti que estava bem. Ainda assim, a aura assassina do Camar não sumia. Perguntei, meio ansioso:
— E se eles vierem atrás da gente… Você vai me deixar para trás?
Camar não respondeu, mas sua expressão sombria também não desapareceu. Enquanto isso, o sol começava a despontar lentamente no horizonte.

***

O deserto de areia se estendia infinitamente. Mesmo dirigindo há um bom tempo, a paisagem lá fora não mudava nada. Pouco depois do amanhecer, o interior do jipe virou um verdadeiro forno, e o carro velho não tinha ar-condicionado.
Depois de ser castigado pelo calor quase o dia todo, ofegando e derretendo no banco, só me restava tentar aproveitar a pouca brisa que entrava pela janela.
— Bebe água. Vai mais para trás.
Camar segurou o volante com uma mão e esticou a outra para o banco de trás. O Rikal, que estava deitado lá, não perdeu a chance e tentou arranhá-lo, mas estava cansado demais para fazer qualquer estrago de verdade. Ignorando as garras fracas, Camar pegou uma garrafa de água e me entregou.
Bebi rapidamente e olhei para trás. Como se estivesse só esperando, o gato levantou a cabeça devagar. Estiquei o braço, peguei o Rikal com cuidado, coloquei-o no meu colo e despejei um pouco de água na tampinha da garrafa.
— Vem cá, Rikal. Bebe.
Observei o gatinho lamber a água com sede e depois estendi a garrafa para o Camar. Ele pegou, inclinou a cabeça para trás e virou o resto da água em apenas três goles grandes. Ele jogou a garrafa vazia no banco de trás sem cerimônia, checou a posição do sol estreitando os olhos e girou o volante. Quando o carro, que subia uma duna de areia, começou a descer pelo lado oposto, a luz direta diminuiu um pouco.
— Vamos fazer uma pausa.
Com isso, Camar desligou o motor, esticou o braço para trás e puxou alguma coisa da nossa pilha de bagagem.
— Vem cá.
Eu estava exausto do calor, largado no banco, mas abri os olhos quando Camar me ergueu com cuidado e começou a me enrolar num tecido branco e leve. No espaço apertado do carro, ele cobriu meu corpo da cabeça aos pés em silêncio, deixando apenas meus olhos de fora, para me proteger do sol inclemente. Recuperei um pouco a lucidez depois disso e foquei no gato ofegante no meu colo.
Notando minha preocupação, Camar comentou com a voz meio ríspida:
— Teria sido melhor ter deixado esse gato para trás.
— Mas…
Mordi o lábio inferior. Eu queria fazer algo para refrescar o Rikal, mas não sabia o quê. Camar, que me observava com um leve incômodo, suspirou e esticou a mão. Ele pegou uma garrafa de água nova e uma toalha, molhou o pano e colocou delicadamente sobre o corpo do gatinho.
— Troca a toalha sempre que secar.
— Tá bom — concordei na mesma hora e segurei a garrafa, mas logo fiquei apreensivo. — A gente tem água suficiente…?
— Não — ele respondeu de imediato.
Enquanto eu olhava desesperado para o Rikal, levantei a cabeça sem querer e vi Camar dar um sorrisinho de canto, corrigindo em seguida:
— Tem sim.
— Tem ou não tem? — perguntei cauteloso, mas ele manteve o rosto sério de novo.
— Tem. Só falei que não porque você só tem olhos pra esse gato.
Fiquei sem graça e dei um sorriso tímido. O Camar não riu, mas sua expressão suavizou bastante. A conversa acabou e o silêncio voltou a reinar no jipe. Exaustos pelo calor e respirando rápido, Camar quebrou o silêncio novamente:
— Não se preocupe. A gente chega numa cidade em um ou dois dias.
— …Tá.
— Eu tenho um plano em mente. Vai ficar tudo bem.
— …Uhum.
Após uma pausa curta, Camar virou o rosto para mim e perguntou:
— Você confia em mim, não confia?
— Confio. — Respondi sem pensar duas vezes. — Eu confio em você mais do que em mim mesmo, Camar.
Naquele momento, o olhar dele amoleceu de vez. Camar se inclinou para me beijar, mas parou no meio do caminho. Minhas feridas no rosto ainda não tinham curado. Com uma expressão frustrada, ele apenas recuou um pouco e acariciou meu cabelo com o polegar.
— …Sempre batiam em você assim?
Demorei um pouco para responder àquela voz tão calma e dolorida.
— Não era insuportável.
Quando o Gurab, que fazia o meio de campo das vendas, estava de mau humor, eu costumava levar uns tapas pesados. Mas, depois que comecei a tecer as tapeçarias, as agressões físicas tinham parado.
Só então me lembrei e olhei para o banco de trás do carro. A tapeçaria que eu estava fazendo estava lá.
— Como você pegou isso? — perguntei, surpreso.
Camar respondeu com indiferença:
— Dei uma olhada lá no seu quarto. Foi você que fez, então é claro que eu tinha que trazer junto.
A lembrança dele quebrando o pescoço do Gurab me veio à mente de repente, e engoli em seco. Tossi para disfarçar a tensão e desviei o olhar. Camar voltou a falar, a voz firme:
— As pessoas te tratam mal porque acham que você é fraco.
— Eu sei… — respondi com amargura. Era a verdade, afinal, então não tinha o que contestar. Mas ele não tinha terminado.
— Eles estão todos errados. Você é forte, eu sei disso.
Levantei a cabeça, surpreso com aquelas palavras inesperadas. Ele me olhava com muita seriedade.
— Você é uma pessoa muito forte. Acredite nisso.
— …Tá bom.
Acenei com a cabeça devagar. Meu coração de repente começou a bater tão rápido que eu não conseguia mais articular nenhuma palavra. Meu rosto estava fervendo, e dessa vez, com certeza absoluta, não era por causa dos machucados. Vendo minha vergonha, Camar deu um meio sorriso e mudou de assunto rápido.
— Vamos nessa? Se ajeita aí, vamos pegar a estrada.
— Vamos.
Voltei a me arrumar no banco do passageiro, com o Rikal no colo, trocando a toalha molhada de tempos em tempos. Com o carro de volta em movimento, passei a viagem inteira com os olhos fixos no gato, tentando com todas as minhas forças segurar a vontade louca de beijar o Camar.
Estava escurecendo novamente quando ele finalmente parou o carro ao entardecer.

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✦ Tradução, revisão e Raws: Jor&Belladonna

Ler Beije o Estranho (Novel) Yaoi Mangá Online

Sinopse:
Em um país do Oriente Médio onde a discriminação contra ômegas é profundamente enraizada, Yohan, um ômega abandonado após a manifestação de seu gênero secundário, vive sozinho em um oásis com apenas um gato como companhia. Um dia, ele resgata um homem ferido que perdeu completamente a memória do seu passado. Conforme passam o tempo juntos, Yohan se apaixona por ele… mas, um dia, o homem desaparece subitamente, sem deixar rastros.
Depois de esperar por ele em vão por muito tempo, Yohan encontra inesperadamente o príncipe herdeiro, um homem exatamente igual àquele que um dia amou. No entanto, o príncipe não o reconhece de forma alguma…
Nome alternativo: Kiss The Stranger Beije O Estranho

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