Ler Icing On The Cake (Novel) – Capítulo 06.4 Online


Modo Claro

6. Todos temos esqueletos na alma (Tolstói) (Parte 4)

No dia da festa, Boston recebeu uma chuva leve.

Por estar perto da costa, o clima era imprevisível. Ao contrário da previsão, Yurij olhou o céu escuro enquanto a garoa o molhava. Para uma chuva daquelas, comprar um guarda-chuva teria sido mais um incômodo. Alexei disse que o pegaria em frente ao hotel, mas já passavam dez minutos da hora combinada e ele ainda não chegava.

Como ele costumava se atrasar, dez minutos era bem aceitável. Alguns dias ele se atrasava até quarenta minutos, e quando isso acontecia, normalmente era porque demorava ajudando algum desconhecido num bairro que não conhecia bem e acabava metido em encrenca sem querer. Ou porque esquecia de carregar a bateria e o carro não pegava.

Yurij dirigiu seu olhar ocioso para a pequena bagagem de mão que comprou no aeroporto. Dentro só levava dois livros, um casaco, a camisa branca que não conseguiu devolver a Cheriot e uma muda de roupa.

Infelizmente, não pôde trazer sua pistola. Ao cruzar fronteiras, parecia que era preciso solicitar uma licença temporária específica para cada país e apresentá-la no balcão. Deixou a pistola guardada num lugar que só Yurij conhecia. Ele teria gostado de inventar uma desculpa para ir buscá-la e poder passar mais uma vez pelas redondezas de Big Fox.

Ao despregar a vista da bagagem, Yurij observou a rua e, diante de uma repentina pontada de inquietação, franziu o cenho. Provavelmente se devia ao fato de que o que estava por vir não seria algo comum. Embora o plano tivesse que se encaixar perfeitamente, os planos de Alexei costumavam se desenrolar de maneira favorável de uma forma ou de outra.

Ontem à noite, depois de discutir com Dolly, Benji aceitou o plano de Alexei. Para mobilizar a polícia eram necessárias certas provas, e a confiança veio porque no telefone do subchefe, que Alexei tinha copiado às escondidas, estava registrada com precisão a agenda da festa.

Benji, depois de receber essa informação, passou-a primeiro ao seu superior e depois pediu ajuda de maneira privada aos colegas. Parecia que combinaram de se misturar com os seguranças e intervir se a situação ficasse grave. No entanto, Dolly disse que isolar Cheriot separadamente era impossível. Se fizessem isso, Cheriot sem dúvida perceberia, e eles queriam evitar que, ao deixá-lo nervoso sem motivo, tudo fosse por água abaixo. Além disso, o culpado poderia perceber e fugir, então chegaram à conclusão de seguir o plano original.

A festa era às cinco da tarde. Se saíssem agora, chegariam bem na hora. No mesmo instante em que pensava isso, Alexei parou o carro diante dele.

—Desculpa, me atrasei.

Alexei, com a janela abaixada, indicou com o olhar que ele colocasse a bagagem no banco de trás. Ao descer da calçada e abrir a porta traseira, Yurij viu várias sacolas de compras. Colocou a bagagem no chão com cuidado para não danificar as sacolas, prendeu-a e depois entrou no banco do passageiro.

—O que é isso?

Ao apontar para trás, Alexei enrugou o nariz.

—Já que a gente chegou a Boston, eu não podia deixar de comprar uma lembrancinha da companhia de balé. O Lieruchka tinha querido vir ver antes.

Antes ele só fazia o namorado mais novo chorar, mas agora parecia ter aprendido muito sobre como fazê-lo feliz. Diante dessa mudança agradável, Yurij esboçou um leve sorriso e olhou para a frente.

—Vamos logo.

—Combinado. Estou me sentindo um pouco mais nervoso do que eu imaginava. Faz tempo que a gente não faz uma coisa dessa escala.

Alexei murmurou isso e pisou no acelerador. Yurij assentiu em silêncio diante de suas palavras. Durante os últimos dois anos ajudando nas encomendas de Alexei, não é que não tivesse havido situações perigosas, mas normalmente eram no máximo três ou quatro pessoas.

Embora tivessem chegado matadores, eles costumavam vir em duplas e eram administráveis, mas hoje claramente teriam que lidar com muitos mais.

—Você lembra? Acho que teve um dia parecido com o de hoje.

Alexei quebrou a tensão com uma piada. Como o conteúdo da piada era muito mais pesado, Yurij sorriu brevemente. Ele parecia se referir ao dia em que decidiram derrubar Igor, antes de escaparem de Saratov.

—Ah, uma vida passada.

Acompanhando o tom do amigo, Yurij também sussurrou em voz baixa.

—Exato, uma vida passada de merda.

Alexei respondeu com uma grosseria.

—Se não fosse por você, eu ainda estaria preso nessa vida passada.

Alexei salvou muita gente. Na verdade, eles decidiram derrubar Igor porque descobriram que Alexei, às escondidas de Igor, estava tirando gente para o Canadá. Em vez de matar os membros da organização que planejavam denunciá-lo à polícia, ou aqueles que, por não terem como pagar suas dívidas, tinham recebido a ordem de serem executados, ele os ajudava a cruzar a fronteira. Alexei assumiu o bastão e conseguiu fazer o que seus pais, Mikhail e Nina, tinham tentado.

—Você fala como se eu tivesse feito sozinho. Sem você, eu jamais teria conseguido.

—Eu… nunca teria pensado numa coisa dessas. Em tirar e salvar gente, quero dizer. Só foi possível graças a você.

Alexei aumentou um pouco a velocidade. O carro, que tinha saído rapidamente da cidade, percorria a estrada litorânea com a sombria beira do mar à sua esquerda. Pela janela aberta entravam gotas de chuva misturadas com uma brisa morna. Ao sentir a umidade na bochecha, Yurij subiu lentamente o vidro. No entanto, como gostava do ar em sua pele, não o fechou por completo. Entendia por que Cheriot sempre queria ficar com a janela aberta.

«Eu me sinto vivo. Só por estar assim.»

—Da outra vez, por telefone, você disse. Que você é alguém de má índole. Você até soltou a bobagem de que eu não tenho nada de que me envergonhar, mas você tem. Yurij, você e eu somos essencialmente iguais. Nós dois ficamos presos pelas dívidas dos nossos pais e passamos por coisas horríveis que não queríamos.

—Aliocha… agora eu não quero falar disso.

Ao lembrar da conversa de ontem com Benji, Yurij sentiu como se a cicatriz gravada no centro de suas costas latejasse. Junto com a horrível cicatriz que imitava a forma de uma cruz, feita a golpes múltiplos de facão, começou o dia em que Yurij e Alexei se tornaram essencialmente diferentes.

Embora não tenha falado com força, talvez Alexei tenha notado o tom dolorido em sua voz, pois franziu o cenho e apertou os lábios. Nesse meio-tempo, a chuva começou a se intensificar.

—Eu sei tudo o que você fez por mim. E eu sempre te agradeço.

—…Eu não fiz grande coisa, Aliocha.

Alexei o encarou fixamente com olhos que pareciam conter palavras reprimidas, e depois negou com a cabeça.

—É verdade que o Valery era o centro da minha vida e que eu vivia por ele, mas se você não estivesse lá, Yurij, eu já teria morrido de doença ou de fome.

—Isso também não é grande coisa.

—Quando eu penso naquela época… me desculpa.

Diante das palavras de desculpa, Yurij girou lentamente a cabeça para olhá-lo. O perfil de Alexei, que olhava para a frente, agora realmente parecia o de um homem entrando nos trinta. Seus vinte anos, aquela época impetuosa em que, desesperados por sobreviver, agiam primeiro e pensavam depois, agora jaziam enterrados na memória.

—Eu deveria ter prestado mais atenção em você, pra você não ficar sozinho com esses pensamentos.

—A chuva te faz refletir, Aliocha?

—É porque desde que a gente chegou em Vancouver quase não teve oportunidade de ficar assim, só nós dois, por isso eu falo agora.

Os nós dos dedos de Alexei, que seguravam o volante, se retesaram. Observando suas veias sob a pele pálida, Yurij examinou em silêncio as cicatrizes em suas mãos. Como ele dizia, os dois estiveram a ponto de ser essencialmente iguais. Na aparência, no ambiente.

—Eu sempre me senti culpado por ser feliz primeiro.

Yurij escutou aquelas palavras que, abafadas pelo som crescente da chuva, quase não se ouviam. Não entendia por que Alexei se desculpava de repente, como se tivesse feito algo errado, e seu olhar mostrou essa confusão.

—Não entendo.

—É por causa dessa sua atitude que eu digo de propósito.

Alexei disse isso e depois, dirigindo o olhar para o lado esquerdo de Yurij, lançou uma reprovação.

—Depois de planejar tudo ontem, a mulher chamada Dolly me contou separadamente. Que você machucou as costas. Mas você age como se fosse alguém a quem os ferimentos não importam nem um pouco. Os únicos a quem não dói se machucar são os que querem morrer.

—Eu não quero morrer.

—Mas a sua atitude sugere o contrário.

Como se estivesse frustrado, Alexei estendeu a mão para o maço de cigarros que estava no centro. Ao ver aquilo, Yurij arrancou o maço dele e lhe passou um. —Vamos lá. —Ao oferecê-lo perto da boca, Alexei o pegou com os lábios. —Olha pra frente. —Diante daquela atitude quase condescendente, Alexei soltou uma risada irônica, mas manteve a vista na estrada, e Yurij acendeu o isqueiro para ele.

Fuuu… Uma longa tragada e exalação de fumaça se misturou com um suspiro.

—Você podia demonstrar um pouco mais quando dói. Assim as pessoas percebem e podem cuidar de você.

—Isso não dói tanto.

—E você só deve ser feliz.

Hoje Alexei estava agindo de maneira muito sentimental, como se tivesse bebido uma dose. Yurij se perguntou se sua aparência parecia tão estranha e olhou o vidro da janela. Seu rosto, refletido tenuemente, não era diferente do de sempre. Pele pálida, lábios secamente rachados, olhos azuis sob sobrancelhas negras. Um rosto severo, carente de vitalidade.

—As nossas acusações foram oficialmente apagadas. Foi um direito legítimo de negociação obtido em troca de cooperar para derrubar Igor Volkov, e a condição foi não voltar a tocar nos assuntos que tinham acontecido antes. Então não tem nenhum problema.

Eram palavras reconfortantes. Mas os pecados que Yurij cometeu não eram do tipo que pudessem ser perdoados pelo consolo terno de um amigo. —Chega.

Não é que ele mesmo… nunca tivesse tido esses pensamentos. Como Yurij Kiselyov estava longe de ser um santo, toda vez que se deparava com o desespero de ter que viver e se arrepender de seus pecados em vez de morrer, muitas vezes sentia o impulso de se perdoar.

—Hoje de manhã, falando com a empresa de bufê, eu de repente pensei. Esse lixo que tenta matar a própria família vive tão bem, por que é que você tem que ser tão infeliz, Yurij? Não é mesmo?

Yurij ficou em silêncio e escutou Alexei. Ele parecia decidido a lhe dizer hoje palavras que de algum modo pudessem consolá-lo, e uma vez que Alexei se empenhava em algo, não havia como detê-lo. Em vez de interrompê-lo, Yurij refletiu sobre o que ele dizia.

Na verdade, ele não era tão diferente em essência daquele lixo de quem Alexei falava… mas hoje, especialmente, aquela ideia de que esse tipo de gente vivia sem problemas tocou seu coração.

—No começo, eu também duvidava até onde levar essa encomenda. Eu até pensei em me retirar com você se você fosse embora, procurando uma oportunidade de sair, mas se eu não ajudasse o Goodnight…

Alexei jogou o cigarro, quase consumido de um puxão, no cinzeiro do carro. Depois, encarou fixamente Yurij com seus intensos olhos azuis.

—Eu achei que você ia pular sozinho pra sua morte.

Ele separou os lábios, tentando dizer que não, que Alexei sempre exagerava. Mas ao encontrar uns olhos que o conheciam bem demais, não conseguiu continuar negando sem sentido. Era metade verdade, metade mentira. Como o tempo que passava observando Cheriot, mesmo de longe, tinha se tornado muito precioso, ele não pensava em morrer tão facilmente.

No entanto, havia momentos, desde muito tempo atrás e só para si mesmo, em que pensava que se morresse, ao menos encontraria paz.

Parecia que Alexei tinha enxergado através dele.

Ao acordar em seu dormitório seco e olhar o teto vazio, Yurij muitas vezes ruminava em silêncio se havia alguma razão para manter aquela vida mísera. Mesmo que tentasse pensar em outra coisa para evitar esses pensamentos, não havia nada significativo o suficiente para distraí-lo.

Ainda assim, pelo dever de ter que viver, ele conseguia passar o dia de alguma maneira e, antes de dormir, toda noite, tentava apagar à força os pensamentos negativos. Mas quando voltava o dia seguinte, a tentação do fim da vida brotava como um espinho e o esperava novamente naquele mesmo lugar. Por mais que apagasse e apagasse, não desaparecia e, bem quando se sentia perdido sobre como continuar vivendo, conheceu Cheriot.

。・゚♡゚・。。・゚♡゚・。

Continua….

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✦ Tradução, revisão e Raws: Faby&Belladonna

Ler Icing On The Cake (Novel) Yaoi Mangá Online

Sinopse: 
Chegou um convidado indesejado.
Um dia aconteceu algo estranho na vida de Yurij Kiselyov, que havia vivido no fundo da sociedade lidando apenas com gente da mesma laia que ele. Recebeu a incumbência de proteger Cheriot Goodnight, um famoso atleta norte-americano muito distante de sua pessoa repugnante.
—De perto você é ainda mais bonito, gato.
Desde o primeiro encontro, Yurij sentiu que ele e Cheriot não eram compatíveis. Apesar de ambos serem alfas, Cheriot flertava descaradamente com ele. Yurij pensou que jamais conseguiria se aproximar de uma pessoa assim.
—Então você era lixo, Yurij.
E, como era de se esperar, mal assumiu a incumbência, a relação entre Cheriot e ele logo tomou o pior rumo. Cheriot, que odiava profundamente os criminosos, ao descobrir a verdadeira identidade de Yurij o rejeitou sem hesitar com palavras cortantes, demonstrando uma forte hostilidade, ao contrário da atitude proativa e próxima que tinha antes.
Mas o que Yurij achou que fosse um simples drama passional se transformou em uma ameaça à vida de Cheriot, e Yurij, a contragosto, assumiu o papel de protegê-lo temporariamente até que encontrasse um novo guarda-costas.
—Você não disse que não queria tocar em gente ruim?
—Te odiar e te tocar são duas coisas diferentes.
Embora soubesse claramente que Yurij era um criminoso, Cheriot, ao contrário da atitude que mostrou no início, em algum momento começou a desconcertá-lo com palavras doces que não paravam.
—Por quem você me toma, Yurij? Para te carregar no colo me sobra força. Os jogadores de hóquei não são bons só de briga, também são fortes.
—Você gosta desse tipo? Qualquer ômega serve para você?
—Por mais que eu olhe, não sou eu o mais bonito? Mesmo se você considerar pelo lado da fofura, não continuo sendo eu o mais fofo?
O homem, a quem ele só havia considerado uma pessoa superficial, colocou nas mãos de Yurij coisas que ele nunca havia conseguido segurar, como se não fosse nada, e no fim fez com que Yurij cobiçasse sentimentos que jamais deveria almejar.
Embora soubesse que era alguém com quem não podia ter um relacionamento, sem que percebesse uma faísca se acendeu no coração de Yurij, e começou sua campanha devota para proteger Cheriot.
Nome alternativo: Cherry On Top Icing On The Cake

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