Ler Passion – Novel – Capítulo 32 Online

Essa era uma posição perigosa. Não, já tinha ultrapassado o nível do perigo. Jeong Taeui mais uma vez se culpou por sua própria tolice. Nessa posição, se aquele homem atacasse, havia nove chances em dez de ele sair ferido. Ele nem conseguia pensar em uma maneira astuta de escapar daquela situação. Deveria tê-lo impedido alguns passos antes.
— Que estranho… Onde foi parar toda aquela coragem do outro dia, hmm?
Riegrow falou suavemente. Parecia até que cantarolava uma melodia alegre enquanto falava.
Jeong Taeui olhou diretamente para Riegrow. Seus olhos eram tão frios que pareciam desumanos. Aquilo era arrepiante. Era difícil acreditar que um homem assim pudesse existir.
— Jeong Taeui.
Uma voz lenta chamou seu nome. A pronúncia era clara e precisa, como se afirmasse: “Conheço você tão bem quanto pronuncio o seu nome.”
Riegrow inclinou levemente a cabeça. Sua mão se ergueu com suavidade. Ela pareceu roçar o pulso de Jeong Taeui, que permanecia imóvel, encarando-o. O toque então se moveu lentamente, como se o acariciasse, ou rastejasse sobre ele. Do cotovelo ao ombro, e então até o pescoço. A sensação das luvas de couro frias era lisa e macia, como a pele de uma cobra. As luvas azul-índigo, quase pretas, estavam impecáveis, sem um traço de sangue, mas ainda assim exalavam um leve cheiro metálico que lembrava sangue.
A mão deslizou do queixo até a bochecha e, em seguida, pelos cabelos. Era um toque suave e cuidadoso. Aquela mesma mão poderia facilmente quebrar o pescoço de Jeong Taeui a qualquer instante.
A mão alcançou a parte de trás da cabeça dele. A palma larga a envolveu, puxando-o de leve, quase num gesto de abraço. O ombro de Riegrow entrou no campo de visão de Jeong Taeui.
Uma voz baixa e calma sussurrou em seu ouvido:
— Aquilo… é seu?
Jeong Taeui se sobressaltou, tremendo levemente, como se não tivesse entendido.
Riegrow olhava por cima da cabeça dele, para dentro do quarto de Xinlu. Talvez seus olhos estreitos e cruéis estivessem fixos diretamente em Xinlu, logo além da porta.
— Não é?
Riegrow respondeu por Jeong Taeui, cuja língua parecia presa demais para formar palavras.
Ele riu alegremente. Depois de acariciar o cabelo de Jeong Taeui mais algumas vezes, afrouxou o aperto com delicadeza. Jeong Taeui, quase preso no abraço de Riegrow, deu um passo para trás. Tudo o que conseguiu fazer foi encará-lo com raiva.
— Não me olhe assim. Não pretendo tirar isso completamente de você. Só quero provar um pouco de vez em quando.
Ele disse com um sorriso no rosto. A voz arrastada espalhou uma sensação densa de desconforto dentro de Jeong Taeui.
— Riegrow. Não faça isso.
Jeong Taeui falou com firmeza. Mas ele não respondeu. Como se Jeong Taeui nem estivesse ali, seus olhos voltaram mais uma vez para o quarto de Xinlu. Então ele se virou e começou a se afastar.
— RIEGROW!
Jeong Taeui gritou, irritado. Riegrow, que já estava alguns passos à frente, pareceu olhar de relance para trás, mas continuou andando, rindo enquanto falava:
— Para conquistar sua refeição de verdade, é preciso ter habilidade. Se for jogado em um inferno nu, você tem confiança de que vai sobreviver?
Ele acenou levemente com a mão. Em seguida, virou-se e desapareceu escada acima.
Jeong Taeui ficou sozinho, olhando apenas para o corredor vazio.
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— O tempo está horrível. Disseram que ia abrir à noite, mas abrir uma ova. Aqueles idiotas do Departamento Meteorológico deviam ser todos demitidos.
Taeui ouviu as reclamações vindo da frente. Pelo tom de voz, era definitivamente Tou. Embora estivessem separados por apenas alguns metros, precisavam se guiar pelas vozes para saber quem estava falando.
E não era só porque era noite. Também não era apenas por causa dos inúmeros obstáculos na floresta que bloqueavam a visão.
A névoa havia começado a se formar no final da tarde, cobrindo cada canto da floresta. Era tão densa que, ao caminhar, suas golas ficavam úmidas sem que percebessem.
— Eu preferia arrancar as roupas daqueles instrutores que fizeram a gente marchar à noite, nesse tempo, do que culpar o Departamento Meteorológico.
Quem resmungou atrás de Tou foi Qing. A risada ao lado dele veio de Carlo.
— Eu até aguento a marcha noturna, mas começar logo depois de uma tarde exaustiva de treinos surpresa é inaceitável.
Essa voz era desconhecida, provavelmente de alguém de outra equipe. Pelo modo como falava entre os dentes cerrados, dava pra perceber que ainda tinha energia de sobra.
Jeong Taeui pensou que, se o tio dele ouvisse aquilo, certamente diria: — Vocês ainda nem chegaram no limite. A lembrança o fez rir baixinho.
Maurer, que caminhava ao lado dele, olhou de repente e resmungou:
— Tá com humor pra rir? Minhas pernas parecem que vão cair.
— Um dia assim só, qual o problema?
— Isso não é só um dia e pronto. Logo depois da marcha, vamos começar o treino de resistência de alta intensidade. Cara, você entende? Não tem um único momento pra descansar.
Maurer claramente estava irritado, falando entre os dentes cerrados. Ainda assim, parecia ter energia de sobra pra continuar. Jeong Taeui sorriu discretamente, mas o sorriso logo desapareceu.
Realmente não havia tempo pra descansar. Cada dia era uma corrente contínua de tensão, as tardes quase sempre cheias de treinos em grupo que mais pareciam brigas de gangue com os membros da filial europeia. Hoje não tinha sido diferente: a manhã foi de palestras, como de costume, embora, em poucos dias, até durante as palestras eles já estivessem se provocando verbalmente e duelando uns com os outros, e a tarde seguiu com combates individuais. Não era só o time de Jeong Taeui; os outros passavam pelo mesmo.
Os confrontos eram incessantes, com adversários sendo trocados sem parar, não importava quantas vezes fossem derrotados. Se fosse um colega de equipe, até podiam combinar de aliviar, fingir lutar e deixar o outro ganhar. Mas quando os oponentes eram membros da filial europeia, inimigos declarados que não se suportavam, era outra história. Mesmo exaustos, ao ponto de querer cair mortos, a maioria pensava que tinha que vencer de qualquer jeito, jogando o outro no chão ou, no mínimo, quebrando um braço ou uma perna.
Jeong Taeui não tinha motivo pra guardar tanto rancor, então só queria lutar de leve e acabar logo com aquilo. Infelizmente, seus adversários não pensavam do mesmo jeito. Diante de quem avançava pra cima dele como se quisesse devorá-lo vivo, Taeui não podia se dar ao luxo de demonstrar fraqueza.
Depois de terminarem as tarefas principais do dia, finalmente acharam que o dia tinha chegado ao fim. Mas, no instante em que se preparavam pra ir embora, o instrutor chamou todos de volta. Anunciou que haveria uma marcha noturna de vinte quilômetros, deveriam comer imediatamente e se apresentar novamente em trinta minutos.
Naquele momento, talvez não fosse só Jeong Taeui quem quis jogar o capacete na cabeça do instrutor. Embora exaustos, o alívio de ter concluído o dia desapareceu, dando lugar a uma atmosfera fria e tensa.
Vinte quilômetros não era uma distância assustadora. Caminhar metade da ilha levaria apenas umas cinco horas. Normalmente, fariam piadas e conversariam como se fosse um passeio.
Mas estavam exaustos. Até o jantar, que durou apenas trinta minutos, foi apressado, enquanto ainda xingavam os instrutores pela marcha repentina, mal tendo tempo de mastigar e engolir a comida. Pra piorar, tinham que carregar todo o equipamento militar completo durante o trajeto.
“Tio, isso aqui não é o exército. Então o que é tudo isso? Qual é o sentido de marchar e ainda carregar equipamento militar?“
Jeong Taeui sentia o peso completo do equipamento pressionando seus ombros, amaldiçoando o tio mentalmente incontáveis vezes desde que chegara à ilha.
— Se o instrutor não tirar a roupa, eu é que vou arrancar tudo e fugir dessa ilha maldita.
Alguém lá na frente resmungou assim.
— Se quiser tirar a roupa, espere o treino conjunto acabar. E se alguém quiser me despir, será sempre bem-vindo. Então, fiquem à vontade para vir depois da marcha.
Uma voz firme e sem o menor sinal de cansaço ecoou atrás de Jeong Taeui. O ambiente ficou em silêncio na hora. Não só os homens à frente se calaram, como os que vinham atrás quase pularam de susto. Ninguém tinha percebido que havia um oficial misturado no grupo.
Jeong Taeui também se sobressaltou ao ouvir aquela voz familiar não muito longe. Mesmo sabendo que seus xingamentos só tinham ficado na cabeça, sentiu o rosto esquentar de vergonha.
— Tio… digo, o Instrutor Jeong tá vindo com a gente também?
— Você acha que eu ia ficar sentado quieto na sala dos instrutores? Nunca se sabe quando algo pode acontecer. Além disso, se continuarmos mais uma ou duas horas, logo vamos encontrar os outros times.
Ele não sabia quando o tio tinha se juntado ao grupo,com certeza não estava lá no começo, mas o tio de Jeong Taeui resmungava como se aquilo fosse um incômodo. E ele tinha razão: embora tivessem começado em horários diferentes, era bem provável que cruzassem com outra equipe enquanto passavam pela floresta. Se fosse outro time da filial asiática, tudo bem… mas se não fosse, poderia dar problema.
— Com essa neblina espessa, se formos mais fundo, dá pra matar alguém, enterrar o corpo e ninguém nunca vai saber. Aliás, se cavássemos a floresta inteira, capaz de achar uns corpos sem identificação por aí.
O tio de Jeong Taeui disse em tom de piada, mas com uma seriedade que deixava dúvida. Talvez fosse verdade mesmo. Jeong Taeui pensou nisso e olhou discretamente para o relógio de pulso. Já fazia cerca de uma hora desde que começaram.
— Já andamos uns três ou quatro quilômetros. Se são vinte no total, terminamos logo e provavelmente voltamos por volta da meia-noite.
Jeong Taeui se perguntou se conseguiriam achar o caminho de volta no escuro, coçou a cabeça e murmurou:
— Tá tudo tão escuro… Essa floresta já é densa de dia, e agora, com a noite e essa névoa toda, tá pior ainda. Nem seria surpresa se a gente se perdesse aqui.
Jeong Taeui murmurou de novo, mais para si do que para o tio:
— Mas… a ilha não é tão grande assim. Mesmo que a gente se perca, no fim vamos acabar em algum lugar por perto.
O tio respondeu como se aquilo não tivesse importância:
— Não vamos voltar antes da meia-noite. Hoje à noite, vamos dormir na floresta.
— O quê?
— Vamos andar mais uns dez quilômetros e parar num lugar apropriado pra descansar. Eu te falei pra trazer um saco de dormir, você trouxe?
— Trouxe, porque eu coloquei na bagagem. Mas a questão não é se temos saco de dormir ou não, é que vamos ter que dormir lá fora, na mata?
— Ora, às vezes tem que dormir fora pra treinar a si mesmo. Vamos revezar a guarda e ficar de olho na fogueira.
— Ouvi dizer que tem cobras venenosas aqui, cobras venenosas!
— Exato, por isso que vamos revezar a guarda. Você tem que confiar nos camaradas e dormir um pouco.
— Mas quem manda as pessoas dormirem no meio da mata à noite, com cobras venenosas!
— Mesmo que sejam venenosas, o veneno delas não é tão forte. Se alguém for mordido, será atendido na hora, então não vai morrer. Já te disse.
— O problema não são só as cobras, tio. Tem coisas mais perigosas do que cobras —
Jeong Taeui gritou, como se fosse perder a paciência se dissesse mais algumas palavras. Mas ninguém respondeu. Ao ver a atitude deles, como se aquilo acontecesse com frequência e já não surpreendesse ninguém, Jeong Taeui percebeu claramente que não era brincadeira, aquilo era realidade.
Jeong Taeui já havia dormido ao relento muitas vezes. Dormira sob o céu estrelado, sob orvalho noturno e até em lugares por onde cobras ou centopeias passavam. Mas aquelas cobras não eram venenosas, e as pessoas com quem dormira não eram inimigos esperando a oportunidade de matá-lo.
— Ah, a propósito, você deveria me proteger bem. Só que… no caderno que você me deu, notei uma caligrafia estranha. De quem é essa letra?
O tio de Jeong Taeui sorriu de repente, gentilmente, e perguntou. Jeong Taeui imediatamente ficou em silêncio. Ele queria responder “É daquele sujeito” pra garantir que a pessoa também tivesse que pagar escrevendo mais dez rascunhos e assim diminuir as chances de cruzar com ele, mas ficou meio sem jeito de dedurar abertamente. Quando ele estava prestes a falar para assegurar sua segurança, o tio falou primeiro:
— Mas, Taeui, mesmo que o tempo livre daquela pessoa possa influenciar o seu tempo de sobrevivência, você não acha que isso pode colocar sua vida em ainda mais perigo a longo prazo?
Jeong Taeui fechou a boca novamente, sem conseguir dizer nada. Não ficou surpreso que o tio tivesse reconhecido o dono daquela caligrafia. Com a habilidade do tio de organizar e lidar com uma montanha de documentos num piscar de olhos, não era de se espantar que ele soubesse.
No entanto, o que o tio disse também o fez refletir. Jeong Taeui se perguntou se a ajuda que Riegrow lhe dera acabaria se tornando uma armadilha mortal.
— Pense bem e me dê uma resposta antes de voltarmos à filial amanhã. — disse o tio, ainda com um sorriso no rosto.
Jeong Taeui suspirou amargamente. Nesse caso, só restavam duas opções: insistir teimosamente que era sua própria letra ou aceitar em silêncio o fardo de escrever mais dez cópias.
A floresta ficava cada vez mais densa. Os companheiros à frente faziam barulho o tempo todo, quebrando galhos e resmungando:
— Devíamos incendiar essas malditas árvores. Cada vez que avançavam por uma área sem caminho, os galhos e arbustos arranhavam seus rostos sem piedade.
Jeong Taeui achou uma sorte estar no final da fila e continuou caminhando em silêncio. De repente, perguntou em voz baixa:
— Então… aquele cara… ouvi dizer que ele já matou um instrutor, é verdade?
Imediatamente, o tio, que vinha logo atrás, respondeu com naturalidade:
— Sim, foi no começo do ano passado. O instrutor cometeu um erro estúpido. O irmão mais novo dele, que também era da mesma filial, ficou aleijado por causa do Rick e teve que passar o resto da vida no hospital. Como aconteceu durante um treinamento, não havia base para punição. Mas talvez o instrutor tenha achado que isso não era o bastante para o Rick. Claro, o instrutor não pretendia matar o Rick, mas o resultado foi…
O tio parou a história bem no ponto em que Taeui já podia imaginar o desfecho. Jeong Taeui franziu a testa. Sabia que leis e regras sempre tinham brechas, mas, no caso daquele cara… as brechas pareciam enormes.
Ao mesmo tempo, lembrou-se da atitude dos membros da filial europeia quando estavam diante de Riegrow.
Não era o comportamento de camaradas próximos. Era medo, preocupação e, acima de tudo, reverência. Somando a personalidade de Riegrow com histórias como aquela, era claro que ele também tinha muitos inimigos dentro da própria organização.
Ainda assim, ao pensar naquele homem, alguém que não se importava com nada e usava livremente suas habilidades de matar, o rosto de Jeong Taeui se endureceu involuntariamente.
— A menos que haja um poder muito grande por trás dele, como isso seria possível…? — murmurou confuso, inclinando a cabeça.
De repente, todo o grupo parou. Ao mesmo tempo, parecia haver algum tipo de obstáculo à frente, e logo começaram a soar gritos curtos e irritados vindos da linha de frente. Em instantes, os gritos se multiplicaram.
— Bem, eu esperava por isso, mas não estava torcendo pra que acontecesse — murmurou o tio de Jeong Taeui atrás dele, avançando logo em seguida.
Mesmo sem ouvir claramente as palavras do tio, ao perceber os sons agudos vindos da frente, Jeong Taeui pôde adivinhar o motivo: haviam encontrado outra equipe em marcha, e era uma equipe da filial europeia.
Havia uma regra desde o início: quando duas equipes se encontrassem no caminho, deveriam seguir juntas. Por isso, todos torciam para que, se encontrassem alguém, fosse uma equipe da mesma filial. Alguns até diziam abertamente que, se tivessem que marchar ao lado da equipe europeia, quatro ou cinco cabeças certamente iriam rolar antes do amanhecer.
Jeong Taeui percebeu que talvez ficassem parados ali por um tempo, então se recostou em uma árvore próxima. Colocou a mochila ao pé da árvore e se abaixou para aliviar o peso do equipamento. Seus ombros finalmente pareciam um pouco mais leves.
Alguns minutos depois, o barulho caótico da frente começou a diminuir. O silêncio repentino e antinatural fez Jeong Taeui virar o rosto para olhar adiante. Embora não pudesse ver nada por causa da névoa espessa e dos inúmeros obstáculos, sentiu que algo fora do comum havia acontecido.
Milk & Ink Scan
Traduzido e revisado por Mandy Ink.
Até o próximo capítulo!
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Jeong Taeui, cujo irmão mais velho é o gênio Jeong Jaeui, é um ex-soldado que se considera uma pessoa comum. Atendendo à recomendação de seu tio, Jeong Chang-in, Jeong Taeui decidiu trabalhar por seis meses na Organização das Nações Unidas para o Desenvolvimento de Recursos Humanos (UNHRDO). Mas, ao se envolver com um homem maluco de mãos bonitas, Ilay Riegrow, ele nem imaginava que sua vida começaria a desandar em uma direção totalmente inesperada.
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