Ler Blood Poker (Novel) – Capítulo 01.2 Online


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Blood Poker 01, Parte 02

Os grandes olhos de Seunghyun estavam pesados enquanto ele olhava vagamente para o corredor vazio e limpo. O cansaço acumulado nas últimas duas semanas havia atingido seu limite. Seunghyun fechou os olhos e os abriu com dificuldade. Suas costas curvadas estavam impregnadas de exaustão. Ele sabia que ainda não era hora de dormir, mas suas pálpebras estavam pesadíssimas. Incapaz de suportar, ele esfregou as órbitas dos olhos e puxou as próprias bochechas.

— …

Após dar um leve tapa em sua bochecha dolorida, Seunghyun soltou um suspiro suave enquanto fixava o olhar na ponta de seus tênis velhos.

Após receber o inacreditável veredito de ser um Guia Classe A, o mundo mudou. Ou melhor, virou de cabeça para baixo. Uma cidade limpa. Um local seguro. Ele ainda não conseguia acreditar que estava aqui.

As últimas duas semanas foram o período mais corrido e caótico da vida de Seunghyun. Como alguém vindo do Setor 13, o procedimento para entrar em Neo foi mais complexo e difícil do que ele imaginava. Uma triagem agressiva em preparação contra possíveis perigos foi realizada ao longo de vários dias. Passou por exames físicos gerais, reexames e até desinfecção sob o pretexto de prevenir patógenos de origem desconhecida. Até mesmo sua mochila e os poucos itens que foram as únicas coisas que ele pôde trazer do Setor 13 tiveram que passar por uma quarentena repetitiva e cansativa.

O fato de a imigração, que ele nem sequer ousava tentar, ter sido possível deveu-se inteiramente ao seu tipo paranormal. O funcionário da imigração, ao entregar a identidade para Seunghyun simultaneamente com a permissão de entrada, disse em tom de surpresa:

— É a primeira vez que vejo um nível Backspl.

Backspl, o posto mais alto mesmo entre a Classe A, era a subcategoria de Seunghyun. O funcionário olhou para Seunghyun com curiosidade e lhe estendeu um papel branco.

— Um autógrafo, por favor…

Neo era composta por quatro grandes cidades, e cada cidade tinha um tamanho comparável à soma de vários pequenos países do velho mundo. Haon, Erto, Império Rocan e Cyan, nessa ordem, possuíam os maiores níveis de economia e segurança. O local para onde Seunghyun veio foi Haon, localizada no ponto mais interno e rico de Neo.

Seunghyun seguiu as orientações de um homem que se apresentou como funcionário enviado pelo Centro de Paranormais. Passou meio dia em um avião. Hospedou-se por um dia próximo ao aeroporto e embarcou novamente em um avião. Ele estava em movimento desde a madrugada, e de repente já era tarde.

— [Primeiro, você deve ir ao Centro e se registrar como Guia vinculado a Haon para poder utilizar todas as instalações do Centro. O local onde você irá morar será informado depois disso.]

Assim, ele entrou no “Centro de Paranormais do Distrito Haon”, e já fazia dez minutos que ele estava sentado esperando no local indicado após lhe dizerem para aguardar o médico responsável. Embora estivesse sentado por apenas dez minutos, o sono vinha de forma avassaladora. Era por causa do alívio da tensão ao pensar que aquele era o destino final de uma longa jornada.

Como não havia nada que não fosse novo para Seunghyun, ele vivenciou coisas demais em duas semanas. Hoje, ele chegou até a andar de avião. Descobriu pela primeira vez na vida que tinha acrofobia, mas não podia descer. O fato de ter perdido a consciência por um momento durante a decolagem tornou-se um segredo pessoal.

O desejo de dormir estava incontrolável. Enquanto tentava afastar o sono lavando o rosto a seco, a porta finalmente se abriu. Sentindo uma presença, Seunghyun virou a cabeça bruscamente. Um homem vestindo um jaleco branco estava entrando. Ele era bastante alto e tinha uma imagem geral limpa, com o cabelo penteado para cima.

Assim que viu Seunghyun, ele exibiu um sorriso leve. Seus olhos verdes, em contraste com o cabelo castanho-claro, quase se fundiram no sorriso. Parecia que sorrir era o cumprimento padrão para pessoas que vestiam aquela roupa. Seunghyun, deixando o cansaço de lado, também curvou os lábios.

— Senhor Seunghyun Ji?

— Sim. Olá.

Quando ele tentou se levantar, o médico gesticulou para que ficasse sentado enquanto se aproximava.

— É um prazer. Eu sou seu médico responsável, Daniel Gray.

— Sou Seunghyun Ji.

O homem passou por trás de Seunghyun, contornou a mesa e sentou-se na cadeira. Ele segurava um tablet. Provavelmente ali estavam contidas todas as informações que Neo havia coletado sobre Seunghyun.

Assim que se acomodou, Daniel olhou fixamente para o rosto de Seunghyun. Era um olhar como se estivesse gravando as feições de Seunghyun em sua mente. Ele captou cada detalhe que podia ser observado e analisado. Era um olhar que ignorava o fato de ser o primeiro encontro deles.

— É um prazer real, real mesmo conhecê-lo, senhor Seunghyun Ji.

O tom de voz dele transbordava uma emoção que Seunghyun não conseguia compreender. Seunghyun apenas coçou a cabeça.

— Você pode me ver como a pessoa que cuida do seu condicionamento geral.

O tom de voz, que poderia parecer burocrático, não soava tão frio, talvez por causa de sua expressão calorosa. Seunghyun sentiu um alívio repentino e assentiu.

O homem, que leu rapidamente o conteúdo tocando na tela, sorriu satisfeito. Seunghyun olhou de relance para os lábios dele, que se curvavam de forma sedutora, e logo baixou o olhar.

— A taxa de sincronia com o Jaeil é realmente…

— …?

Jaeil? Quem era essa pessoa? E o que era taxa de sincronia? Quando Seunghyun o olhou com olhos que diziam que ele não sabia de nada, Daniel deu de ombros.

— Ah, você pode não saber ainda.

Seunghyun Ji era do Setor 13.

— O que é taxa de sincronia?

Diante da pergunta inocente de Seunghyun, Daniel encontrou seu olhar. Parecia haver uma intenção de transmitir algum significado, mas não havia como saber. Seunghyun apenas fez o que podia. Ao enfrentar o olhar do homem honestamente sem desviá-lo, Daniel exibiu um sorriso ainda mais intenso.

— As instruções começarão amanhã, mas quanto maior a taxa de sincronia, melhor o efeito do guia. Então…

O olhar de Daniel voltou-se brevemente para a diagonal enquanto ele escolhia as palavras adequadas.

— Bem, você pode ver como se fosse uma compatibilidade.

— …

Seunghyun, que não entendia perfeitamente o significado, assentiu mecanicamente. “Ah, existe algo assim”. Ele aceitou apenas nesse nível. Parecia ser um conceito muito básico. Como as instruções começariam amanhã, ele pensou que deveria se preparar psicologicamente para aprender.

— Quer aproveitar para conhecer o Jaeil?

— Perdão?

— Essa coisa de taxa de sincronia é entendida instantaneamente através da experiência direta, mais do que por números.

Seunghyun perguntou com os olhos arregalados. Ele estava inquieto, com o rosto um pouco assustado.

— E-eu… vou fazer o guia? Eu não sei como fazer.

Daniel sorriu, dizendo-lhe para ficar tranquilo.

— Não. Não estou dizendo para fazer hoje. É apenas para se apresentarem. O Jaeil está no Centro agora. Pelos números, parece que ele será a pessoa que você mais encontrará, então qual é o problema?

Jaeil Ha havia recusado o guia hoje novamente. Como ele costumava evitar receber o guia sempre que possível, Daniel, sendo o médico responsável, acabara de lhe dar uma bronca.

No entanto, à frente de Daniel estava o Guia Classe A que ele tanto esperara. A taxa de sincronia com Jaeil era de nada menos que 98%, e, sendo do Setor 13, ele era um paranormal puro cujos desejos de dominação ou consciência de autoridade — naturezas crônicas dos Guias — não haviam se formado adequadamente. Não era exagero dizer que ele era um Guia sob medida para Jaeil Ha. Daniel era o único ansioso para fazê-los se encontrarem imediatamente, imaginando onde ele estivera escondido até agora. Isso porque Seunghyun estava agindo de forma perturbada, como se tivesse recebido uma tarefa monumental.

— É realmente apenas para me apresentar?

— Com certeza.

Daniel respondeu com um sorriso intenso. “O que eu esperaria de você, que nem tem o conceito de taxa de sincronia?”, ele engoliu essas palavras.

Mesmo com as palavras de Daniel para que ficasse tranquilo, Seunghyun não conseguiu relaxar e ficou apertando as mãos unidas. Suas mãos suavam constantemente.

— Essa pessoa… é um Esper?

A voz de Seunghyun tremeu devido ao nervosismo, mas Daniel não pareceu se importar muito.

— Naturalmente. O mesmo posto que você.

Daniel desviou o olhar frio que lançava a Seunghyun enquanto ligava para algum lugar.

— Sim, Jaeil. Venha ao meu consultório por um momento. Como assim “por quê”? É porque existe um motivo.

↫────☫────↬

Jaeil, após terminar a ligação com Daniel, estava com o rosto mais entediado do mundo. Após passar o dia todo ouvindo sermões, agora ele ouvia que deveria passar lá de novo. Joy, que observava a expressão dele vagamente enquanto saboreava um pirulito, disse:

— Acho que eu sei o motivo.

— Qual é?

Joy começou a falar olhando para Jaeil, mas Rowan interveio e perguntou em seu lugar. Diante da atitude sem noção de Rowan, Joy tirou a embalagem de um pirulito e o colocou na boca dele. Joy olhou de soslaio para Rowan com os olhos semicerrados e murmurou enquanto rolava o pirulito na boca:

— Disseram que um Guia de nível Backspl viria desta vez.

— É mesmo? Por que eu não sabia?

A bochecha de Rowan, que mordia o pirulito, estava inchada.

— É porque você é burro.

— J-Joy… acho que chamar o seu irmão de burro é demais.

— De qualquer forma, tenho um bom pressentimento. É intuição feminina.

Ao lado dos gêmeos sentados lado a lado, Jaeil jogou a cabeça totalmente para trás e soltou um longo suspiro. No som do suspiro profundo, o tédio estava impregnado. Embora ele o tenha expelido para o ar, parecia que o chão iria desabar. Rowan, observando o estado de Jaeil, disse timidamente:

— Quer receber o guia agora?

— …

A cabeça de Jaeil girou lentamente. No olhar que ele dirigiu, não havia exatamente uma emoção. Havia apenas uma leve dúvida se ele realmente conseguiria fazer aquilo. Rowan, cujos pelos do corpo se arrepiaram apenas com a troca de olhares, ficou com o corpo rígido instantaneamente. Jaeil soltou um sorriso um tanto desolado, como se já esperasse por aquilo.

— Apenas recupere logo a saúde do seu corpo.

O nível do homem, que poupava os gêmeos desgastados pelos guias frequentes ultimamente, era de 30%. Embora fosse um nível alto que não se comparava ao de outros Espers, Jaeil estava acostumado. Estava tão acostumado que chegava a enjoar.

— Tá.

Jaeil levantou-se, sacudiu a barra das calças para organizá-las e endireitou a coluna.

— Tenho que ir.

Nesse momento, Joy puxou levemente a ponta da manga de Jaeil. Com uma voz impregnada de solenidade, ela o encorajou:

— Acredite na minha intuição. Esta é certeira.

↫────☫────↬

— Normalmente, a manifestação paranormal ocorre antes dos dez anos de idade; embora o redespertar seja possível até os vinte ou trinta anos. Mas, no caso do senhor Seunghyun, o despertar inicial ocorreu aos vinte e dois anos, o que por si só já é algo muito raro.

— Sim.

— De qualquer forma, as instruções para paranormais começam a partir de agora. Um Guia deve controlar bem a aura de um Esper, mas isso é mais difícil quanto maior o nível. Exige muito tempo.

— …

— Normalmente, fazem-se testes teóricos e práticos a cada três anos, e se não passar, a retenção é por tempo indeterminado. Faz-se até conseguir. Mas o senhor Seunghyun veio direto para o Centro de Paranormais, não é? Curioso, não?

Ao ouvir as palavras de Daniel, ele ficou confuso se estava em uma aula ou em uma consulta. O registro de Guia já fora concluído e parecia que ele já poderia sair dali e se deitar em uma cama, mas havia a forte sensação de que Daniel estava ganhando tempo para fazê-lo conhecer a pessoa chamada Jaeil. Seunghyun apenas assentia repetidamente enquanto ouvia as explicações detalhadas.

— Então, o que quero dizer é que você deve aprender rápido, já que começou tarde.

— Sim, me esforçarei.

Quando Seunghyun respondeu com indiferença, Daniel enfatizou novamente:

— Esforço apenas não é suficiente.

Olhando diretamente nos olhos que o fitavam com dúvida, ele falou quase como se estivesse fazendo uma lavagem cerebral:

— O mais rápido possível. Entendido?

O olhar de Seunghyun baixou e depois subiu lentamente.

— É por isso que você está chamando essa pessoa chamada Jaeil?

— Fui descoberto?

— Você disse que era apenas para nos apresentarmos.

— Sim. Apenas se apresentem.

Eram palavras suspeitas. Ele pensara que a primeira impressão era de alguém limpo e educado, mas talvez não fosse o caso. Uma bochecha de Seunghyun se inflou. Como ele deveria realizar um crescimento que nem o esforço era capaz de suprir?

Além disso, ele nunca conhecera um Esper Classe A. Como alguém vindo do Setor 13, onde os paranormais eram raros, esse tipo de encontro era inédito para Seunghyun. À medida que a ansiedade crescia, as explicações de Daniel começaram a não entrar mais em seus ouvidos.

Foi no momento em que ele considerava perguntar se a apresentação poderia ser adiada. Os ombros de Seunghyun, que estava com a cabeça baixa olhando apenas para a mesa, estremeceram. Ele ergueu a cabeça bruscamente, com os olhos arregalados.

— …?

Uma aura estranhamente incômoda oscilava atrás de suas costas. Aura? Para começar, um humano era capaz de sentir algo assim? Enquanto Seunghyun inclinava a cabeça com olhos de descrença, Daniel sorriu levemente.

— Parece que ele chegou.

Logo, ouviu-se uma batida na porta. Com a permissão de Daniel, ouviu-se o som da porta se abrindo. As pálpebras de Seunghyun piscaram rapidamente. A sensação bizarra que tocava os pelos de seu corpo tornou-se ainda mais forte.

— Você veio?

— Olá.

Quando a voz firme e de ressonância grave penetrou claramente em seus ouvidos, os ombros de Seunghyun estremeceram novamente. Ele ainda não tivera coragem de olhar para a direção do som.

— Jaeil. Esta pessoa tem uma taxa de sincronia de nada menos que 98% com você. Senhor Seunghyun, apresente-se.

— …

— “Não consigo olhar”.

Apoiado na borda da mesa, Seunghyun estava apavorado. Seu rosto já estava pálido há muito tempo. Seunghyun, sem sequer considerar desviar o olhar de Daniel, apenas balançou a cabeça negativamente.

— Tudo bem. Isso é… bem.

Daniel, para quem era difícil dar uma explicação precisa por não ser um paranormal, fez um sinal para Jaeil.

— Jaeil. Aproxime-se um pouco.

— Acho melhor eu apenas ir embora.

A cada sílaba que o homem pronunciava, o coração de Seunghyun palpitava violentamente.

— Você tem que fazer isso de qualquer jeito. Esta pessoa é o seu salvador.

— …Haa.

O homem soltou um suspiro atrás dele. Então, Seunghyun sentiu uma sensação desagradável e viscosa, como se algo estivesse arranhando sua pele das costas. Era nítido, como se as emoções dele estivessem grudadas em suas costas.

— “Impossível”.

Os passos se aproximaram por trás. A sensação estranha e misteriosa tornou-se ainda mais intensa.

— Sou Jaeil Ha.

A mão grande do homem preencheu seu campo de visão. A fumaça negra que ondulava ao redor da mão era inacreditável. Sem mais escapatória, o rosto de Seunghyun subiu lentamente. Foi um movimento lento, como em câmera lenta. No instante em que captou a figura do homem, as pupilas de Seunghyun se dilataram ao máximo.

— …!

Aquilo era um monstro. O homem de porte físico grande carregava um monstro de tamanho equivalente em seus ombros. Seunghyun, sem perceber, levou a mão à boca para cobri-la.

A cor era negra e a textura, hostil. Aquilo se encolhia e depois ardia intensamente, como se tivesse consciência própria. Brincava de forma astuta, como se estivesse enganando o oponente. Apenas olhar para aquilo causava uma náusea extrema.

Ele encontrara alguns Espers no caminho até aqui. Mas nunca vira aquele tipo. Não, era a primeira vez na vida. Suas pupilas, onde o branco dos olhos estava muito visível, percorriam de forma desordenada o redor do homem.

— “O que… é aquilo…”.

— Ugh.

Diante da aura imaterial que causava um desconforto a ponto de provocar ânsia de vômito, Seunghyun franziu o cenho. Sua consciência começou a ficar turva rapidamente. Até a respiração estava se tornando difícil.

Estava claro que o homem também estava explorando Seunghyun. O homem inclinou levemente a cabeça e observou Seunghyun fixamente. Parecia até estar encarando-o.

Auras nítidas até mesmo a olho nu eram familiares, embora fosse a primeira vez que as via; pareciam amigáveis, embora fossem puramente repulsivas. Era uma sensação contraditória. Ele pensava o que seria aquilo. Todos os Espers carregavam algo assim? Era bizarro além da conta.

Conseguindo recuperar a lucidez por um triz, Seunghyun olhou para a mão estendida do homem e cerrou o próprio punho. Ele deveria retribuir o aperto de mão, mas não tinha coragem. Sentia que, se fizesse isso, aquele monstro passaria para ele através da mão.

— S-Seungh…

O homem dirigiu-se a Daniel com uma voz entremeada por um suspiro. Ele fez algo parecido com uma repreensão, dizendo que aquele não era um bom modo, mas Seunghyun não ouviu. Pelo contrário, sentia que enlouqueceria por causa das emoções negativas que ele exalava. Sua mente começou a ficar distante. A voz dele parecia vir de cada vez mais longe, tornando-se turva. Sua visão também oscilava. Esfregando o plexo solar que estava apertado, Seunghyun balançou a cabeça. Estava sofrendo demais e um cansaço repentino o atingiu.

— Sinto mui…

Ele sentia que ia morrer.

↫────☫────↬

Ele deveria saber desde o momento em que Daniel lhe disse para ir ao laboratório sem sequer dizer o motivo. Daniel possuía uma natureza terrível que o fazia usar qualquer método para atingir seus objetivos.

— “Acredite na minha intuição. Esta é certeira”.

Jaeil, ao ver as costas do homem sentado à frente de Daniel, logo se lembrou das palavras de Joy.

— “Onde já se viu algo assim?”.

Ele deixou de lado, por enquanto, o pensamento cético que era um hábito. Ao encurtar a distância, Daniel apresentou o homem.

— Jaeil. Esta pessoa tem uma taxa de sincronia de nada menos que 98% com você. Senhor Seunghyun, apresente-se.

O homem, que não conseguia nem olhar para esta direção e apenas tremia, certamente não parecia um Guia. Um Guia Classe A apenas no nome, vindo do Setor 13. As informações de Joy pareciam bastante precisas.

— Você tem que fazer isso de qualquer jeito. Esta pessoa é o seu salvador.

Jaeil não gostou da forma como Daniel forçava algo que era claramente indesejado pelo outro. É claro que as palavras de Daniel também estavam certas. Algo que teria que ser feito de qualquer jeito. Algo de que não se poderia escapar a menos que fosse feito. Algo que não dependia da sua vontade. Jaeil, eliminando as emoções como de costume, estendeu a mão. Seu olhar indiferente caiu sobre o topo da cabeça do homem. Quanto mais rápido o procedimento formal e tedioso fosse resolvido, melhor.

— Sou Jaeil Ha.

Jaeil estendeu a mão com uma voz seca.

Superficialmente era um aperto de mão, mas o contato das mãos era o rito mais básico para a troca de auras. Sua cooperação com a empolgação de Daniel terminaria ali. Jaeil apenas desejava suprir seu sono insuficiente. Sinceramente, não importava se era taxa de sincronia ou Guia Classe A. Afinal, seria apenas mais uma das inúmeras pessoas que passaram e passariam por ele nos últimos sete anos.

Jaeil estava exaurido e gravemente cansado, mas ninguém percebia seu estado. O Estado apenas se entusiasmava com sua habilidade excepcional e lhe impunha os guias como se estivesse carregando uma bateria. Expectativa, decepção, empolgação e emoção já haviam se esgotado. Ele, que percebera em meio ao tempo desperdiçado que as coisas apenas variavam um pouco para mais ou para menos, sentia que aquele tempo era puramente improdutivo.

O homem que olhava para a mão estendida levantou a cabeça lentamente. Parecia ser realmente um Guia Classe A, pois reagia sensivelmente mesmo a um risco de amplificação que não era um valor tão alto. Seguindo o olhar lento, o nariz proeminente, os cílios longos para um homem e as bochechas pálidas entraram sucessivamente em seu campo de visão. Quando as emoções começaram a ser estampadas no rosto do homem, as pálpebras de Jaeil baixaram e subiram calmamente.

— …

— …

Jaeil pensou que o rosto do homem parecia uma castanha descascada.

Por outro lado, o homem, ao descobrir Jaeil, olhou para ele como se estivesse vendo um fantasma. Começando pelo fato de ter inspirado profundamente com os olhos arregalados de susto, ele exibiu reações variadas a cada segundo. O primeiro foi o susto avassalador, o segundo foi cobrir a boca, e ele chegou até a ter ânsia de vômito.

— Ugh.

De todos os cumprimentos que já recebeu de Guias, aquele foi o mais absurdo.

O homem não conseguiu sequer terminar de dizer “sinto muito” e desabou. Quando o corpo que tremia relaxou subitamente, Jaeil estendeu o braço por reflexo. O braço do homem foi envolvido pelos dedos longos e firmes de Jaeil.

— …?

Naquele momento, uma sobrancelha do anteriormente inexpressivo Jaeil subiu levemente. Foi um contato momentâneo e o homem estava até inconsciente. Jaeil, retirando a mão que o segurava, piscou os olhos rapidamente.

Sem a mão que o sustentava, o corpo do homem naturalmente desmoronou. Jaeil, que se ajoelhou instintivamente para segurar o homem, ainda tinha uma expressão de surpresa. Mesmo ele, que tinha uma personalidade que raramente demonstrava grandes reações, ficou bastante confuso desta vez. No momento em que as peles se tocaram, as auras ferozes que esmagavam e corroíam seu corpo estavam passando através da mão.

Daniel, que assistira a todo o processo com o queixo apoiado na mão, observou com interesse a expressão surpresa de Jaeil e só então abriu a boca. Durante todo o tempo em que falou, os cantos de sua boca estiveram voltados para cima.

— É isso que significa 98%.

Jaeil nunca tivera um Guia com uma taxa de sincronia superior a 90%.

— Leve-o e durma.

— …?

Jaeil, que olhava fixamente para o homem estendido, franziu o cenho, parecendo descontente.

— Durmam os dois juntos por apenas algumas horas.

↫────☫────↬

— Joy.

Rowan reclamava em um canto de onde era possível ver a sala de consultas de Jaeil apenas inclinando a cabeça.

— Não vamos para casa?

O novo Guia que Daniel Gray assumira era realmente a pessoa sobre quem Joy ouvira rumores. Eles já haviam concluído a investigação rapidamente e agora estavam espionando no canto do corredor.

— Fique quieto.

O tom de voz de Joy era bastante irritado, mas devido ao seu porte pequeno e aparência semelhante a um esquilo, não representava uma grande ameaça. Rowan, olhando para Joy que estava absorta na espionagem, disse com uma expressão de pena:

— Joy. O fato de você fazer isso não vai melhorar a habilidade daquele Guia.

— Só estou curiosa sobre o rosto dele. Como ele é.

— Você vai acabar conhecendo-o de qualquer jeito depois…

— Cale a boca! Se é assim, vá para casa primeiro!

Era uma irmã realmente irritante. Rowan pensou em dar um tapa na nuca de Joy, mas desistiu logo em seguida. Com aquele entusiasmo, não seria melhor ela fazer o guia mais uma vez? No entanto, Rowan, incapaz de quebrar a teimosia da irmã, caminhou pesadamente e sentou-se em um banco no corredor.

— Ele saiu…!

Ela comemorou a aparição de Jaeil saltitando. Devido a isso, seus quadris balançavam. Era um movimento como se ela tivesse uma cauda. Rowan, que estava largado com uma atitude desleixada, também se levantou bruscamente e ficou logo atrás de Joy.

Assim que a porta se abriu, a primeira coisa que viram foram as pernas longas e os tênis de Jaeil. Ele carregava algo nos braços. Os olhos de Joy e Rowan, que semicerraram os olhos para focar no que era aquilo, arregalaram-se em seguida. Jaeil saiu da sala carregando alguém no estilo “carregada de noiva”. Eles, que deduziram com suas cabeças pequenas quem seria a pessoa carregada, exclamaram:

— Hã?

— Sério?

Daniel, que saiu logo atrás, disse algo para Jaeil, e viram Jaeil assentir com a cabeça.

Antes de começar a caminhar de fato, ele ajeitou o homem em seus braços mais uma vez para que ele se apoiasse mais profundamente em seu peito. A imagem dele segurando a nuca do outro e puxando-o cuidadosamente para o peito parecia irreal.

“O que diabos está acontecendo?”. Os olhos dos gêmeos arregalaram-se novamente. Quando Jaeil começou a caminhar, Rowan virou o corpo primeiro e encostou-se na parede, e Joy colou-se imediatamente ao lado dele. Os dois, ainda sem conseguir sair do estado de choque, começaram a murmurar:

— Rowan.

— Eu também não sei. Não me pergunte.

A expressão de bobos dos dois era um espetáculo à parte.

— Por que… por que… por que o Jaeil está tocando no Guia?

— Pois é.

Enquanto Joy cobria a boca com as duas mãos e ficava vermelha, Rowan inclinou a cabeça para além do canto da parede. O olhar de Rowan seguiu obstinadamente as costas do homem que se afastava pelo fim do corredor. O porte físico robusto, a grande estatura, o cabelo desalinhado. Aquele era certamente Jaeil Ha. Não sabiam o que acontecera lá dentro para o Guia perder a consciência, mas o fato de Jaeil Ha, que permitia apenas o contato necessário — ou melhor, menos que o necessário — com Guias, mostrar tal comportamento era algo realmente raro.

O olhar de Rowan não se desviou até que Jaeil desaparecesse.

↫────☫────↬

Jaeil, que entrou na Sala de Guia e deitou Seunghyun, soltou um suspiro suave. Ele não deveria ter caído na desculpa esfarrapada de Daniel de que suas costas doíam e ele não conseguiria carregá-lo. Ele se sentiu um idiota tardiamente por ter sido levado pela situação até ali.

O homem chamado Seunghyun Ji perdera a consciência naquele momento e absorvera a aura de Jaeil. Por causa do Guia irresponsável que fugira para a inconsciência, apenas Jaeil ficou confuso.

— “O que eu devo fazer com isso?”.

— “Tudo bem. Vocês se tocaram”.

A propósito, o que significava perder a consciência? Quando perguntou sobre o estado do homem por preocupação, Daniel apenas disse coisas estranhas.

— “Mais do que isso, acredite em mim e feche os olhos por três horas”.

— “…”.

— “Falta muito para ele conseguir fazer o guia. Fique perto dele pelo menos enquanto dorme”.

Certamente ele fora enfeitiçado por um momento. Jaeil puxou o cobertor e cobriu o homem até a altura do peito. Ele não pretendia executar a tarefa que Daniel lhe dera. Se algo assim fosse possível, ele deveria ter dado abertura primeiro para os gêmeos Guias que cuidavam dele com tanto esmero. Ter passado os últimos dois anos mantendo uma distância quase fria daqueles que eram responsáveis por ele e agora dividir a cama com um Guia que conhecera há menos de trinta minutos…

— …

O cenho de Seunghyun ainda estava franzido, como se a dor anterior permanecesse. “Será que desfranze se eu massagear?”. No momento em que ele estava prestes a virar o corpo, deixando de lado o sentimento de autodepreciação, uma sobrancelha de Jaeil subiu. Ele sentiu uma tensão em sua manga.

Ao baixar o olhar, viu o homem com os olhos semicerrados. Em comparação ao olhar turvo, o que estava contido em seus olhos era nítido.

— Onde você vai?

Mordendo o lábio inferior e com o cenho franzido ao máximo, ele tinha um rosto bastante sofrido. Ele esfregava o plexo solar repetidamente, como se estivesse desconfortável, e subitamente estendeu a mão.

— Venha aqui…

— …?

Embora fosse o momento em que ele acabara de se repreender por seu comportamento incomum e estava se virando, a mão do homem estendida do nada foi igualmente desconcertante. Jaeil sobressaltou-se e recuou meio passo. Seus olhos surpresos seguiram a ponta dos dedos do homem por instinto.

— “O que ele está fazendo…”.

Sua boca, que tentou dizer algo, apenas capturou o ar.

A mão estendida do homem não alcançou Jaeil e tocou o lençol. O homem, que olhou vagamente para a mão que não atingiu o objetivo, murmurou de forma lamentável:

— Eu disse para vir aqui…

Ele chamava de forma tão desesperada que parecia que ia começar a chorar a qualquer momento se ele não o fizesse. Estranhamente, aquela voz fez com que a força de seu corpo se esvaísse. Jaeil pensou que aquilo era um absurdo. A voz entrecortada parecia quase uma ordem.

Em um impasse onde não conseguia se aproximar nem partir, Jaeil permaneceu imóvel como uma estátua por um tempo.

— …

— …

Pelo que via, o homem parecia estar agindo de forma inconsciente. Se estivesse lúcido, não conseguiria ser tão indelicado com um Esper que acabara de conhecer. Como Jaeil permanecia parado sem fazer nada, o homem, incapaz de aguentar, levantou o corpo. Apoiando-se no lençol para se erguer, ele engolia em seco com dificuldade, como se algo estivesse preso em sua garganta.

— Eu disse para vir aqui…

A voz dele tornou-se cada vez mais úmida. Ele pretendia realmente chorar?

O homem, incansável, estendeu a mão novamente. A barra da roupa de Jaeil finalmente ficou presa em seus dedos. A mão que agarrou o colarinho puxou Jaeil para perto de si com certa brutalidade.

Era uma velocidade que ele poderia ter evitado facilmente e uma força que ele poderia ter repelido sem esforço, mas, por algum motivo, ele não conseguiu se mover. Nesse meio tempo, o braço do homem subiu tateando o ombro largo de Jaeil, dobrou-se lentamente e acabou envolvendo o pescoço em um abraço apertado.

— …

— …

Jaeil piscou os olhos lentamente duas vezes. O perfume do homem o atingiu. Parecia que o coração dele também palpitava logo ao lado de seu ouvido. Ele sentiu uma pressão suave, como se o outro estivesse colando ainda mais o corpo ao dele. Acima de tudo, a aura que estava descontrolada começou a fluir para o homem, como se tivesse encontrado um novo hospedeiro.

Diante da sensação da dor se dissipando, o olhar de Jaeil fixou-se no homem. Metade do significado em seu olhar era desconforto, metade era uma preocupação inevitável. Se continuasse a transferir assim tão rápido e sem limites, não sabia que tipo de fardo isso causaria ao Guia.

No entanto, contrariando a preocupação de Jaeil, um suspiro lânguido escapou do homem.

— Isso…

A voz confortável e impregnada de sono acariciou seus ouvidos. Seguiu-se o toque da mão que acariciava sua nuca, como se o estivesse elogiando. Os olhos surpresos de Jaeil, que recuou levemente o pescoço, captaram o perfil lateral do homem. Parecia estar vendo uma criatura fascinante que nunca vira antes.

Parecendo detestar até mesmo um leve distanciamento do corpo, o homem abraçou Jaeil com força. A bochecha do homem esfregou-se na nuca de Jaeil. O som da pele roçando estimulou seus sentidos. Parecia que a inconsciência dele estava se infiltrando através da pele. “Tudo bem. Bom trabalho. Fique aqui. Não vá a lugar nenhum”. O homem, independentemente da permissão de Jaeil, o acolhia com uma opressão suave que nunca fora vista em lugar algum do mundo.

Os ombros, que estavam tensos e rígidos diante do contato estranho, relaxaram em um instante. Foi como se a neve estivesse derretendo.

Continua…

⌀ ⌀ ⌀

✦ Tradução, revisão e Raws: Faby,Belladonna&Nala

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Sinopse:
Jaeil é um Esper Backsplash de nível A que vive em um estado sempre perigoso, pois não consegue encontrar um Guia compatível com ele. Devido a um incidente do passado, ele não confia facilmente nas pessoas e evita contato físico até mesmo com Guias. Mesmo nessas condições adversas, Jaeil tem pouco apego ao mundo e se leva ao limite. Até que um dia, ele recebe uma notícia: um novo Guia Backsplash de nível A virá ao centro. No entanto, esse Guia, Seunghyun, é do Distrito 13. O único problema? Ele não recebeu nenhuma educação e nem sequer sabe como ser um guia!?

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