Ler Roses And Champagne (Novel) – Capítulo 16 Online


Modo Claro

 Capítulo 16

“Olha quem está aqui!”

Won mal havia atravessado a porta da cafeteria quando a Sra. Ivana soltou um grito de alegria e correu para abraçá-lo. Um abraço que Won retribuiu com prazer.

— Você ficou bem enquanto eu estava fora? — Won perguntou.

— Oh, cale-se — Ivana o repreendeu. — Você me conhece – estou perfeitamente bem. Mas você, jovem! O que diabos aconteceu com você? Você está horrível! Que tipo de cliente horrível é esse seu? Trabalhando você até os ossos…

Ivana continuou a criticar o misterioso empregador de Won por um tempo. Won riu, um pouco culpado por preocupá-la, mas grato por sua preocupação, mesmo assim.

— Eu tive um tempo livre e quis passar para ver se você estava bem — ele disse. — O Sr. Kuznetsov também. Ele está por aqui?

— Está — Ivana assentiu. — E é melhor você ir vê-lo imediatamente. O pobre homem está numa ansiedade só esperando notícias suas. Vai fazer bem a ele uma visita. Então vá lá – andando!

Won riu novamente e deu à Sra. Ivana outro abraço antes de subir as escadas para o apartamento dos Kuznetsov.

Uma batida suave na porta e, um instante depois, a porta do apartamento se abriu; e foi apenas um breve segundo antes de Nikolai gritar animado: — Sr. Lee! — e puxar Won para dentro.

A residência dos Kuznetsov era aconchegante e acolhedora – e obviamente um lar com crianças. Manchas de cores de brinquedos e roupas infantis pontilhavam o chão e os móveis, e o cheiro de talco para bebê pairava no ar. E, bem no centro da sala, Won avistou um berço.

Ele se aproximou e espiou dentro.

— Olá, você — murmurou. — Indo bem, não é?

Quando esticou um dedo, o bebê alcançou e agarrou-o com sua mãozinha. Um sorriso afetuoso apareceu no rosto de Won.

— Oh, Sr. Lee! — uma voz diferente gritou. Won virou-se e viu Anna colocando um pouco de chá em uma mesinha de canto.

— Estou tão feliz que você pôde vir nos visitar; ouvimos que você estava muito ocupado. Como foi?

Embora fizesse um esforço valente para parecer despreocupada, Won podia ver a esperança no rosto de Anna. Ela rezava para que Won dissesse que havia terminado com seu outro cliente para que pudesse voltar a trabalhar ativamente no caso de Nikolai.

— Ah — ele começou, transferindo o peso de um pé para o outro. — Infelizmente, ainda há alguns detalhes que precisam ser resolvidos.

O rosto de Anna caiu, e Won ofereceu um pedido de desculpas silencioso por decepcioná-la antes de continuar. — Mas vou voltar a me deslocar depois disso, então sintam-se à vontade para passar no meu quarto se tiverem dúvidas ou precisarem de ajuda.

Isso pareceu animar imensamente Anna. Ela puxou uma cadeira para ele, insistindo que ele se sentasse e tomasse seu chá antes que esfriasse. Então, ele sentou-se com Anna e Nikolai e deu a eles uma explicação, extremamente resumida, do que havia feito enquanto estava fora, assegurando-lhes que seu trabalho agora garantiria a vitória deles sobre Zhdanov.

— Assim que eu encontrar nossa testemunha, será uma brisa — Won disse com firmeza, Nikolai e Anna segurando cada um uma de suas mãos. — Só mais um pouco, certo? — Ele sorriu, colocando toda a sua força para parecer confiante.

No entanto, ele não estava tão confiante assim. Quando encontrasse uma testemunha, seria uma brisa mas e antes disso? Dizer isso a Nikolai e Anna era uma coisa, realmente encontrar a testemunha era outra; e parte dele sentia o quanto essas palavras eram vazias quando, na verdade, ele estava mais perto de começar tudo de novo do que simplesmente resolver detalhes.

Mas Isso era algo que ele guardou para si, incapaz de suportar decepcionar a família que contava com ele.

Won encontrou a Sra. Ivana subindo as escadas quando saía do apartamento dos Kuznetsov e correu para ajudá-la nos últimos degraus. Sua artrite tornava a subida difícil para ela. Antes que ele pudesse perguntar por que ela precisava subir até o terceiro andar, ela estendeu um pedaço de papel.

— Quase esqueci — Ivana disse. — Você teve uma visita enquanto estava fora. Queriam que você ligasse para eles quando voltasse.

— Uma visita? — Won perguntou distraidamente, examinando o nome e o número rabiscados no papel. Um novo cliente, talvez? Não era ninguém que ele conhecesse, de qualquer forma.

— Uma senhora mais velha — Ivana acrescentou. — Me disse umas dez vezes para garantir que você ligasse de volta, então acho melhor você ver o que ela tem a dizer.

Won assentiu. — Certo. Obrigado por me avisar.

Ivana sorriu, e ele a ajudou a descer até o segundo andar antes de se separar para entrar em seu próprio quarto.

Ele não pôde evitar se perguntar quem estava tão desesperado para falar com ele. Mesmo após alguns minutos, o nome não lhe dizia nada, então devia ser alguém que ele nunca havia conhecido. Mas então, por que queriam falar com ele tão urgentemente? Estavam em apuros? Ele achou que era melhor descobrir, então pegou seu telefone e discou os números assim que a porta se fechou.

O telefone tocou. E tocou. E tocou.

“Sentimos muito. O número que você discou não pode ser alcançado…”

✦ ✦ ✦

Um diante do outro em uma sala bem mobiliada e iluminada, um homem e uma mulher se encaravam em silêncio glacial. Sobre a mesa de chá entre eles, um telefone tocava. A mulher não fez nenhum movimento para atendê-lo.

Assim que parou, o homem tomou um gole tranquilo de seu chá.

— Posso assumir que você tem um motivo muito importante para me honrar com sua presença hoje? Ou isso é tudo o que você queria me dizer depois de vinte anos de silêncio?

A mulher franziu o rosto. — Isso é importante, Misha. — Seus olhos se estreitaram. — Ou devo dizer, Sr. Lomonosov?

Com os mesmos movimentos calculados, Mikhail tomou outro gole de chá e estudou a mulher à sua frente. Ela detinha uma grande beleza, um dia. O tempo, como sempre acontece, havia desgastado o glamour.

— Há quanto tempo você sabe, Natasha?

Natasha sentou-se um pouco mais ereta. — Por favor, Misha! Me dê um pouco mais de crédito do que isso. Sou jornalista. Tenho meus meios.

Mikhail riu baixinho; Natasha sentiu um calafrio de medo percorrer sua espinha. Ela continuou.

— Não tenho dúvidas de que foi para o melhor, você deixando Susya quando ele nasceu. Foi doloroso – para vocês dois, tenho certeza, mas foi a coisa certa a fazer. — Ela respirou fundo e olhou Mikhail nos olhos. — Você fez essa escolha naquela época. Precisa mantê-la agora.

O ar na sala ficou pesado; a postura serena de Mikhail desapareceu.

— Você prefere que eu o descarte como lixo? — ele exigiu em voz baixa.

Natasha ergueu o queixo.

— Aquele garoto está vivendo sua própria vida, uma vida boa, pacífica. Você acha que será recebido de braços abertos? Que viverão juntos algum conto de fadas? Ele sabe melhor do que ninguém sobre o abandono de Susya – o quanto a machucou. — O tom de Natasha ficou frio. — Você o destruirá se prosseguir com isso.

— Descartá-lo é o mínimo que você pode fazer.

A tensão pairou no silêncio que se seguiu. Natasha endireitou os ombros e tentou não mostrar seus nervos, recusando-se a ser intimidada.

Mikhail tomou um último gole de chá. Um tilintar suave ecoou quando ele recolocou a xícara no pires.

— Um ponto devidamente anotado — ele disse com uma inclinação de cabeça. Um lampejo de esperança apareceu nos olhos de Natasha.

— Se o que ouvi é verdade, no entanto, a decisão não é minha para tomar.

— Como assim? — Natasha exclamou, seu coração afundando.

Mikhail lhe enviou um sorriso pesaroso. — Aprecio a preocupação – mas meus assuntos são meus. Além disso, não seria — Mikhail procurou a palavra correta. Seu sorriso cresceu levemente — justo deixá-lo procurar para sempre.

Levantando-se, Mikhail sorri enquanto Natasha o encarava boquiaberta de sua cadeira.

— Peço desculpas por não poder acompanhá-la até a porta. Estou muito ocupado – tenho certeza que você entende. O mordomo a levará até a saída. Adeus.

E antes que Natasha pudesse protestar, Mikhail saiu pela porta e desceu o corredor. Quando ela recuperou os sentidos, a porta da sala já estava fechada novamente, e ela estava sozinha.

Ela cerrou os dentes, olhando furiosamente para sua xícara de chá. Ele era tão irritante quanto sempre.

“Maldito seja.”

✦ ✦ ✦

” Não pode ser alcançado no momento. Por favor, desligue e tente novamente mais tarde.”

Won inclinou a cabeça. Então deu de ombros e desligou.

Quase imediatamente, seu telefone tocou. Um pouco desconfiado, atendeu e levou o aparelho ao ouvido.

— Eu não te achei do tipo que sairia antes de terminar, pequeno advogado.

Won teve que conter um impulso de revirar os olhos.

— Eu não saí. Só voltei para casa um pouco. — Sua voz ficou um pouco mais suave ao acrescentar: — Parecia que eu só estaria atrapalhando, de qualquer forma… Como você está?

Ele queria perguntar – mas deveria? Não, Caesar estava bem. Tinha muita gente ao redor para cuidar dele… exceto que não tinha, não realmente. E agora que Won sabia a verdade, não podia fingir que não via que, mesmo com todo o Sindicato ao seu redor, Caesar estava sozinho. Sempre sozinho.

Uma risada cortou sua hesitação antes que ele pudesse decidir.

— Que pena. Você não ficou para a melhor parte.

Won franziu os olhos, percebendo que Caesar não estava falando do caso, e que o tempo todo que ele ficou preocupado com Caesar estar solitário – como um idiota – ele deveria ter mandado Caesar ir se lascar.

— Falando nisso, — Caesar disse em um tom suave, sua voz grave penetrando sob a pele de Won e enviando um calafrio por sua espinha, causando certa ansiedade — quando vamos terminar?

Dessa vez Won estava preparado. — Quando eu quiser.

Mais risadas vieram do outro lado da linha; Won estremeceu novamente com o som.

— Que tal depois de amanhã?

Won brevemente brincou com a ideia de dizer não a Caesar, mas acabou desistindo.

— Tudo bem. Quanto mais rápido terminarmos isso, melhor, — respondeu em tom monótono e desligou, cortando qualquer resposta presunçosa que Caesar certamente estava formulando. Won já havia atingido sua cota de insinuações ruins por hoje.

O tempo ficou inesperadamente agradável, o que foi uma boa maneira de começar sua primeira viagem de volta à casa de Caesar. Muito melhor do que o frio terrível de apenas alguns dias antes.

E assim, sob o sol alegre da manhã, Won seguiu para a mansão em sua nova scooter. Tinha sido um pouco cara, é claro; mas, felizmente, Ivana conseguiu lhe emprestar algum dinheiro para que ele pudesse comprar um modelo similar mas (com sorte) mais confiável. Ainda assim, ele permaneceu vigilante durante a viagem, mantendo-se bem dentro dos limites do pequeno veículo.

— Bom dia, senhor. Por aqui, por favor, — disse o substituto de Igor com modéstia depois que ele chegou à porta da frente, então prontamente o levou até o escritório.

Foi um pouco estranho ver o cômodo novamente. Tanta coisa havia acontecido; ainda assim, o escritório estava exatamente como ele o deixara. Parecia… errado, depois de tudo, que fosse tão insignificante. Quanto tempo levaria para ele se readaptar à rotina, Won não fazia ideia.

— O Cea- digo… o Czar está em casa hoje? — ele perguntou, justo quando o novo mordomo ia sair.

— Infelizmente não, — o mordomo respondeu, virando-se para encarar Won. Uma pontada de decepção o atravessou antes que o mordomo acrescentasse, quase como uma reflexão tardia: — O Czar pediu que eu lhe garantisse que ele chegará no horário habitual esta noite e solicitou que você o espere até então.

Com isso, o mordomo se foi. Won acenou para si mesmo, dando passos hesitantes em direção ao escritório. Isso era bom, ele tentou se convencer. Eles poderiam discutir sobre Zhdanov. Mas, outra parte dele contra-argumentou enquanto ele se sentava, mal passava das nove da manhã. A reunião ainda demoraria.

Assim, Won passou a maior parte do dia se sentindo agitado e distraído. Independente de quanto ele dissesse a si mesmo para sentar e se concentrar, seu olhar involuntariamente vagava para seu relógio, onde permanecia até que ele se sacudisse novamente.

Depois do que pareceu uma eternidade (durante a qual ele conseguiu fazer algum trabalho, obrigado), ele ouviu um carro se aproximando pela entrada e viu o fraco brilho dos faróis pela janela. Decidindo bancar o descolado, manteve os olhos firmes na página à sua frente – sem absorver uma palavra sequer.

O som de passos o deixou tenso. Ele tinha certeza que não estava enganando ninguém com seu ato de despreocupação, mas não ia mudar de atitude agora.

Os passos ficaram mais altos. E mais altos. A porta se abriu…

— Você não devia estar indo para casa agora, garoto advogado?

Won paralisou, soltando uma respiração que não percebera estar prendendo e controlando sua expressão antes de levantar a cabeça. Não deveria ter se incomodado; uma careta apareceu quase que imediatamente.

Dmitri.

O primo de Caesar vestia um terno magenta escuro. Won nem sabia que faziam ternos magenta escuro. Em qualquer outra pessoa, aquilo pareceria absurdo; mas, por algum motivo, Dmitri só parecia elegante com seu casaco de pele pendurado em um ombro.

Forçando sua expressão de volta ao neutro, Won disse secamente: — Caesar e eu temos coisas para discutir.

Dmitri arqueou uma sobrancelha e, com um sorriso malicioso, agachou-se na frente de Won.

— Ora ora, eu também tenho coisas para discutir com… Caesar. — Ele disse o nome com desdém, zombando do uso casual que Won fizera. Deu a Won um olhar significativo. — A sós.

Won piscou. — Que legal. — E voltou ao trabalho. Ele não tinha tempo para ficar jogando com Dmitri; precisava ajudar Nikolai a recuperar sua fábrica.

Infelizmente, ele não podia fazer Dmitri desaparecer, e o homem não parecia ter nenhuma intenção de ir embora. Na verdade, ele se moveu para sentar ao lado de Won, estudando-o abertamente. A determinação em irritá-lo provava que Dmitri e Caesar eram parentes, se nada mais.

Depois de alguns segundos olhando: — Ei, tenho uma pergunta pra você.

Won não levantou os olhos.

— Como está sua resistência?

Agora Won olhou para cima, mas deixou seus olhos vagarem pelo quarto primeiro, questionando se isso era realmente um pesadelo antes de direcionar seu olhar para Dmitri.

— Qual seu recorde de transas em um dia?

Dmitri tinha um sorriso irritante e provocador no rosto.

— Só pergunto porque, com Caesar, duvido que você consiga acompanhar. Ele é um pouco viciado, se é que me entende.

Won olhou para ele como se tivesse crescido duas cabeças. “Que porra era essa? Quem pergunta esse tipo de coisa?” O ronco de outro motor veio de fora. “Por favor seja Caesar.”

Dmitri o avaliou de cima a baixo.

— Aposto que você é bem popular, garoto advogado. Rostinho bonito como o seu – me faz questionar o quão bom você é como advogado, pra ser sincero. Imagino que houve um pouco de — ele moveu as sobrancelhas lascivamente e se levantou — toma-lá-dá-cá, né?

Sorrindo, Dmitri saiu. Won franziu a testa para a porta, se perguntando onde Dmitri se achava para insinuar que ele tinha dormido com meio mundo para se formar.

“Babaca.”

O som abafado de passos se aproximando cortou a indignação de Won. Tinha que ser Caesar.

Imediatamente, Won estava em pé, ajustando as mangas e alisando aquele tufo de cabelo que sempre ficava errado atrás. Ele não sabia por que de repente se importava; por algum motivo, simplesmente se importava.

Uma batida suave na porta. Won olhou para a porta; Caesar apareceu.

As cordas vocais de Won pareciam ter quebrado. Ele conseguia sentir seu pulso batendo em seus ouvidos.

— Oi.

— Oi, — Won conseguiu engasgar.

Caesar tinha aquele pequeno sorriso no rosto. Ele deu um passo para dentro do escritório. Ele parecia… bem; e um pouco da tensão que apertava Won se dissipou.

Ele estivera preocupado.

— Tive uns negócios de última hora. Estava com medo que você tivesse ido embora.

— Precisamos conversar. — Won deu um encolher de ombros rígido. — Sobre Zhdanov e encontrar uma nova testemunha, — ele completou rapidamente para que Caesar não tivesse ideias erradas.

— É. — Um sorriso pesaroso brincou nos lábios de Caesar. — É, eu sei. Vamos sentar em algum lugar.

Caesar saiu para o corredor, deixando Won arrumar seu trabalho do dia e segui-lo. Won não pôde evitar o suspiro que escapou quando entrou no corredor e viu Caesar já caminhando à sua frente. Ele não estava ansioso por isso.

Caesar foi para a mesma sala de estar que havia usado da primeira vez em que Won foi à mansão quando ele concordou em assumir o caso Berdyaev. Won se lembrava dos dois pequenos sofás. Eles ainda estavam frente a frente, separados por uma mesa de centro, e Caesar estava sentado no mesmo lugar, exatamente como antes. Dessa vez, no entanto, Dmitri já ocupava o sofá em frente ao do primo.

Won supôs que isso era o que ganhava por demorar tanto no caminho, mas esse conhecimento não ajudava em nada a melhorar a situação.

Caesar? Ou Dmitri?

Seus olhares cravavam nele enquanto ele hesitava sobre onde sentar. Por um lado, Dmitri era repulsivo e pegajoso. Ao mesmo tempo, Won também não gostava da ideia de sentar-se ao lado de Caesar.

Ele percebeu um brilho zombeteiro no olhar de Dmitri e se deu conta de que estava sendo ridículo, aquela indecisão era inútil, e ele precisava parar de transformar pequenos problemas em grandes dilemas.

Decidido, foi e sentou-se ao lado de Dmitri. “Seria estranho de qualquer jeito” tentou dizer a si mesmo. Não havia absolutamente nenhuma outra motivação por trás da sua escolha de assento. Nenhuma. Nada.

Talvez, se repetisse isso o suficiente, acabaria acreditando. Mas, no momento, não estava nem um pouco convencido.

Ele não viu o modo como o rosto de Caesar murchou levemente enquanto ele se sentava. Caesar tentou disfarçar com um gole de chá, mas Dmitri percebeu o lampejo de decepção. Ele já havia desaparecido no momento em que Caesar pousou a xícara de volta na mesa.

—Certo—Zhdanov, —começou Caesar, sério.

—Com nossa testemunha fora de cena, ir atrás de Zhdanov é nossa única opção. Pensei em pressioná-lo um pouco, mostrar que não vamos simplesmente aceitar tudo calados.

Dmitri se inclinou para frente, animado.

—O que você tem em mente?

—Precisamos de uma foto do corpo.

Won franziu a testa, os olhos alternando entre os dois homens.

—Já tenho. Achei que poderia ser útil.

—Perfeito. Zhdanov vai cair fácil, então.

—Tem certeza? —interveio Won.

—Ele resistiu até agora, por que mudaria agora?

—Não está à altura da tarefa, advogadozinho?

Won lançou um olhar breve de desprezo para Dmitri antes de se virar novamente para Caesar.

—Você tem algo que possamos usar?

—Não, —respondeu Caesar com naturalidade. Won lhe lançou um olhar curioso. Um brilho ameaçador surgiu nos olhos de Caesar.

—Mas eu terei.

Won não fazia ideia do que Caesar estava se referindo, mas decidiu não questionar por ora.

—Certo. Amanhã no escritório do Zhdanov?

—Claro, —disse Caesar.

—Não se atrase.

Won arqueou uma sobrancelha, exasperado.

—Não vou.

Ele se levantou e fez uma saudação de despedida para Caesar com muito mais leveza do que realmente sentia.

—Até amanhã, então.

Por um breve momento, Caesar ficou imóvel. Won esperou, curioso se ele ainda diria algo falar sobre aquilo que pairava entre eles.

Mas ele não falou.

Uma pequena onda de decepção passou por Won. Dando outro adeus, desta vez mais contido, ele saiu da sala de estar.

Dmitri observou o primo enquanto Caesar tomava mais um gole de chá.

—Pode parar de fingir agora, —disse, arrastado. Caesar enrijeceu.

—Sei que essa xícara está vazia desde que o advogadozinho chegou.

Caesar olhou para a própria xícara. Dmitri estava certo estava vazia. Ele fez o melhor que pôde para parecer indiferente, devolvendo a xícara à mesa de centro. Dmitri não deixou de notar a emoção que cruzou seu rosto.

✦ ✦ ✦

Georg Zhdanov estava de bom humor. O clima havia estado quase fora de época naquela semana, suas férias no Mediterrâneo se aproximavam e, quando voltasse, tudo relacionado àquela fábrica estaria indo de vento em popa.

Sua expressão azedou. “Aquele maldito advogado intrometido.”

Era como uma sanguessuga grudada nas costas de Georg, bem onde ele não conseguia alcançar, sugando e sugando, impossível de remover. Mas em breve— em breve, Georg cuidaria daquele advogado metido ele mesmo, que se danasse o Sindicato. “Ah, como seria maravilhoso esmagar aquele verme pretensioso e insolente sob minha bota, mostrar a ele o seu verdadeiro lugar.”

O interfone em sua mesa zumbiu, interrompendo seus devaneios rancorosos.

—Tem alguém aqui para vê-lo, senhor, —disse a voz da secretária.

—Um advogado.

—Um advogado? —Georg indagou, duvidando que o timing pudesse ser tão perfeito assim.

—Sim, senhor. Diz ser o advogado do senhor Kuznetsov. Aparentemente, precisa falar com o senhor sobre o processo.

Oho! Georg quase esfregou as mãos de tanta satisfação. A sorte realmente estava do seu lado naquele dia, e não poderia ser mais perfeito. Ele poderia cuidar daquele fedelho burocrata, depois relaxar ao sol de Creta, sem nenhuma preocupação no mundo.

—Ah, sim, o senhor Lee. Claro, claro! Mande-o entrar. E traga um café para nós também, —ordenou à secretária, bastante satisfeito com esse novo desdobramento. Aquilo seria mais fácil do que jamais imaginara.

Sorrindo, esperou o advogado aparecer, mãos levantadas em rendição, implorando por misericórdia; e, de fato, alguns momentos depois a porta se abriu com um clique.

—Ora, ora, —começou Georg, em tom condescendente —Olha só quem está aqui.

Won parecia imperturbável.

—Peço desculpas por não ter marcado hora, —disse suavemente.

—Ora, ora. Assuntos legais importantes não esperam por ninguém.

Georg lançou-lhe um sorriso indulgente.

—Certamente você não me incomodaria com alguma trivialidade. E vejo que já passou da fase de invadir escritórios. Muito bem.

—Acho desnecessário invadir quando o ocupante do escritório se digna a me receber.

Uma veia pulsou na testa de Georg, mas ele se recusou a deixar o garoto insolente tirá-lo do sério. Só mais um pouco, e tudo estaria resolvido. Só precisava esperar o momento certo.

—Sim, muito bem. —Georg pigarreou.

—Já que estamos sendo civilizados, não vejo motivo para preocupação. Agora, o que você tem aí para mim? É só assinar na linha pontilhada, certo?

Pegando sua caneta-tinteiro favorita do bolso do paletó, Georg conteve o sorriso ávido que ameaçava surgir em seu rosto enquanto Won tirava alguns papéis de um envelope pardo e os colocava sobre a mesa.

Ele estava prestes a assinar quando parou, a caneta suspensa no ar.

—O que significa isso?! —exigiu, furioso. Isso não era o que ele deveria assinar. O que aquele advogado estava tentando aprontar agora?

—É exatamente o que está escrito: um acordo de restituição por enriquecimento ilícito. Ao assinar, o senhor confirma que a fábrica e todas as propriedades relacionadas serão devolvidas ao senhor Kuznetsov e renuncia a qualquer reivindicação sobre elas.

—Como ousa?! —berrou Georg, pulando da cadeira em fúria.

—Seu maldito atrevido! Acha mesmo que vou assinar essa porcaria?!

—Não vejo por que não, —respondeu Won placidamente.

—Foi o senhor, não foi, quem abusou da própria autoridade? Falsificando contratos, pedindo favores para conseguir uma ordem de apreensão, expulsando os verdadeiros donos sob ameaça de violência.

Georg havia dado a volta na mesa e estava agora diante de Won, mas o advogado continuou:

—É do seu interesse resolver isso antes que vá parar no tribunal.

—Está me ameaçando?! —o rosto de Georg adquirira um tom púrpura grotesco.

—Você sabe com quem está falando, garotinho?! Posso acabar com sua carreira com um telefonema! Eu digo a palavra e sua vida acabou! Está me ouvindo? Acabou!

Georg arrancou o papel da mesa, rasgando-o e jogando os pedaços contra o peito de Won. “Aquele verme miserável teve a audácia de me desafiar?!” Ele não era nada, e Georg se certificaria de que aquele bostinha seria deportado para qualquer buraco de onde tivesse saído.

Seu peito arfava de raiva, ainda mais agravada pela falta de reação do advogado. Abriu a boca, pronto para despejar o resto da bronca que achava que Won merecia, quando a porta de seu escritório se abriu.

Mas quem diabos era agora? Georg já ia esbravejar contra o intruso quando todo o sangue fugiu de seu rosto.

—Cz-Czar! Q-quê surpresa boa… —balbuciou, enxugando o suor da testa com um lenço —Não esperava o senhor hoje…

Won revirou os olhos discretamente antes de se afastar para o lado. “Puxa-saco nojento.”

—Imagino que já tenha ouvido suas opções, —disse Caesar com perfeita calma, seus homens entrando logo atrás dele na sala.

—D-desculpe?

Caesar deixou os olhos deslizarem para os pedaços de papel espalhados no chão, depois voltou a encará-lo.

—Podemos fazer do jeito difícil ou do jeito fácil. A escolha é sua.

— O quê?! — a voz de Zhdanov falhou.

— Estou ciente das suas investidas com os Lomonosov — continuou Caesar. Se fosse possível, Zhdanov ficou ainda mais pálido.

— E sei de todos os joguinhos que você e Berdyaev gostavam de brincar. Escondendo-se atrás de figurantes, pagando para usarem seus nomes, limpando a bagunça depois.

— L-l-limpando…?

Como se fosse combinado, um dos homens de Caesar se aproximou, carregando um pequeno envelope. Com as mãos trêmulas, Zhdanov o aceitou, relutante em espiar dentro antes de soltar um suspiro agudo. No chão, metade inferior de uma fotografia escorregou para fora, mostrava a imagem de uma cadeira, um corpo amarrado.

— Lomonosov garantiu que não sobrasse ninguém para delatar. Esse foi o último — Caesar fez um gesto com o queixo em direção ao envelope.

— Sem mais Berdyaev, sem mais responsabilidades… — Ele lançou a Zhdanov um olhar significativo.

— Exceto uma.

Com um grito, Zhdanov desabou.

— N-não! Não, por favor! Você tem que me ajudar! — começou a rastejar. Alguns dos homens de Caesar o agarraram antes que pudesse se agarrar à perna de Caesar.

A cena lamentável fez Won franzir o nariz. Ele entendeu o que Caesar quis dizer com Zhdanov cair facilmente, o homem era um completo covarde chorão com, aparentemente, muitos esqueletos no armário. “Desprezível.”

— Então… — Caesar olhou de cima para baixo para Zhdanov, que soluçava no chão.

— Você assina a confissão, admite tudo o que roubou com Berdyaev e eu não te afundo com um par de sapatos de concreto. — Sua voz se tornou mais fria.

— Serei até generoso, você terá proteção contra Lomonosov. Temos um acordo?

— Sim! S-sim! Eu assino, eu assino! Qualquer coisa!

Outro dos homens de Caesar se aproximou, colocando uma pilha de formulários à frente de Zhdanov, que se apressou em assinar. Won não fazia ideia de quão legível estava aquilo, com suor e lágrimas manchando grandes partes de cada página, mas não conseguia se importar muito.

Finalmente, Zhdanov terminou a pilha, e uma última folha foi colocada diante dele.

— O-o que é isso? — ele olhou para Caesar, com os olhos marejados.

— Para o seu julgamento atual. Você destruiu a primeira cópia — disse Caesar friamente.

Os olhos de Zhdanov se arregalaram.

— A partir de hoje, ela não é mais sua.

Zhdanov engoliu em seco, a boca se mexendo, mas sem emitir som. Caesar inclinou a cabeça.

— A menos que… recuse?

— N-n-não! Eu assino. Veja, estou assinando! — Zhdanov se curvou sobre o documento, rabiscando sua assinatura. Era tarde demais para recuar agora. Quando terminou, o subordinado de Caesar recolheu todos os formulários, levando-os até Caesar para sua aprovação pessoal. Ele fez um leve aceno de cabeça após revisá-los.

Então, virou-se para Won.

— Vamos? — Com um aceno, Won foi ficar ao lado dele.

— Ah, que grosseria da minha parte — disse Caesar, voltando sua atenção para Zhdanov.— Conselheiro, gostaria que conhecesse meu novo advogado.

Zhdanov parecia atordoado, olhos arregalados indo de um para o outro. Won viu as engrenagens girando na mente do homem e o exato momento em que ele ligou os pontos.

— Eu sabia! — gritou.

— Eu sabia que tinha algo podre! Você vem aqui e diz que estou agindo por trás

quando esteve o tempo todo trabalhando com ele! Estava ajudando ele! Não estava?!

— Muito perspicaz — comentou Caesar secamente, então sorriu de lado.

— Confio que saberá se comportar.

Caesar deixou a ameaça implícita. Ele acenou para Won, que fez uma reverência de despedida para Zhdanov e, sem mais delongas, eles saíram do escritório, seguidos pelos homens de Caesar, deixando Zhdanov caído no chão, com apenas o conhecimento de sua derrota como companhia no silêncio.

Won mal tinha saído do prédio quando lhe entregaram o envelope.

Caesar, com um ar visivelmente satisfeito, o estendeu para ele.

Won hesitou por apenas um momento, será que tudo realmente tinha acabado? Antes de agarrar o envelope e começar a vasculhar o conteúdo.

— Satisfatório? — perguntou Caesar com um sorriso.

Segurando o fim de todos os seus problemas em mãos, Won fechou os olhos, certo de que estava prestes a explodir de felicidade. Pensou até em se beliscar porque, com certeza, aquilo era um sonho.

Incapaz de conter mais, gritou:

— Obrigado! — e jogou os braços em volta de Caesar, sua gratidão exigindo uma válvula de escape física.

Caesar ficou rígido, olhos arregalados de choque.

— Obrigado! Obrigado! — disse Won contra o ombro de Caesar, apertando-o ainda mais.

Caesar, por sua vez, ainda não tinha se mexido, exceto para apertar os olhos e reabri-los, conferindo se não estava alucinando.

De repente, Won o soltou, mas em vez de recuar, segurou o rosto de Caesar e tascou um beijo estalado em sua bochecha. “Alguém só pode ter colocado algo no chá dele, não tem outra explicação”, pensou Caesar.

Won finalmente se afastou, alheio à tensão que dominava os homens ao redor e deu um tapa amigável no ombro de Caesar, um sorriso radiante no rosto. O sorriso acabou sendo contagiante, porque Caesar sentiu um igual surgindo em seus próprios lábios.

— Fico feliz que tenha dado certo — murmurou Caesar e era verdade. Nunca tinha visto Won tão feliz. Talvez fosse uma alucinação, mas decidiu que estava gostando demais desse lado do seu pequeno advogado para se importar.

— Fiz uma reserva no—

— Ah, não posso hoje! Desculpa! — Won o interrompeu, sem soar nem um pouco arrependido.

— Tenho que contar a todos as boas notícias! — Ele apertou a mão de Caesar com

entusiasmo exagerado e saiu correndo. Caesar tentou segurá-lo, mas Won escapou facilmente, gritando por sobre o ombro:

— Te ligo depois!

Praticamente saltitando, desapareceu na esquina.

Com o braço ainda estendido no ar, Caesar piscou para o local onde Won havia desaparecido, enquanto um vento frio girava ao seu redor. Teria sido cômico, não fosse pelo vazio que Caesar sentia.

— Isso é… rejeição? Ele não me quer…?

No carro, Caesar ainda encarava a própria mão, tentando entender o que tinha acontecido. O motorista olhou discretamente pelo retrovisor quando seu chefe começou a murmurar. O Czar parecia menos do que feliz desde que se sentara no banco de trás e tudo que fazia desde então era fumar o charuto e encarar a mão, com o ocasional comentário murmurado.

Após o que pareceu uma eternidade, chegaram à mansão, o mordomo já esperando do lado de fora, com uma expressão apreensiva. Caesar não teve que esperar muito para descobrir o motivo.

— Caesar. Finalmente.

Dmitri sorriu; Caesar lançou-lhe um olhar cortante antes de passar direto para dentro da casa.

Dmitri piscou, depois se virou e correu atrás do primo.

— Ei! Vamos ao clube hoje, hein? Todas as garotas estão chateadas que você não aparece. Perguntam de você o tempo todo, sabia? Consegui uma garrafa de single malt essa semana. Que tal?

Caesar continuou marchando em direção ao quarto. “Cristo, por que essa casa é tão absurdamente grande?”

Imperturbável, Dmitri acelerou o passo.

— Tem uma nova do jeitinho que você gosta. No segundo em que a vi, soube que você ia querer provar. Caesar? Caesar!

Ele finalmente o alcançou e segurou o primo pelo braço.

— Consigo quantas garotas você quiser! Vinte, trinta, cem? O que quiser. A menos que esteja escondendo algo, sei que você está sem descarregar há um bom tempo. Ficar cheio de tensão assim não faz bem. Vamos lá, se arruma e a gente vai. Tem-

A frase morreu na garganta de Dmitri e sua mão caiu quando Caesar parou e lançou-lhe um olhar fulminante.

Sem dizer uma palavra, Caesar entrou e bateu a porta do quarto na cara do primo.

Com os olhos percorrendo a madeira, Dmitri franziu o cenho. — Não gosto disso.

Deu apenas alguns passos antes de se virar e olhar de novo.” Não gosto nada disso, Caesar”

Ficou ali, encarando a porta, por um bom tempo.

Sozinho, enfim, Caesar arrancou a gravata e a jogou na cama. Não foi a melhor das ideias, o movimento foi demais para seu ombro, e o ferimento reabriu. Sentia o frescor do sangue escorrendo sobre a pele.

“Ótimo. Perfeito.”

Caesar não sabia a última vez que se sentira tão irritado. Talvez nunca. Passou a mão pelos cabelos, furioso.

Conseguiu uma mesa particular em um dos restaurantes mais exclusivos da cidade. A lista de espera passava de três meses. Caesar tinha forçado o maître a lhe arranjar uma mesa naquele dia. E para quê?

Quanto mais pensava, mais furioso ficava. Cerrando os dentes, marchou até o banheiro.

✦ ✦ ✦

O ponteiro dos segundos deslizou pelo mostrador do relógio, passando pelo nove, dez, onze e, finalmente, pelo doze. Eram dez horas. Com passos hesitantes, o mordomo avançou para reabastecer o chá do Czar; então, com a mesma hesitação, voltou ao seu lugar junto à parede. Arriscou um olhar para a expressão de seu chefe por baixo dos cílios. O Czar estava lançando um olhar fulminante para o relógio.

Se fosse qualquer outro dia, o Czar já teria partido. Mas não era qualquer outro dia, e seu chefe estava encarando o relógio há uma hora sem dar qualquer sinal de que pretendia se mover tão cedo.

A sala estava tensa, para dizer o mínimo.

Caesar tomou um gole de sua enésima xícara de chá naquela manhã.

— Alguma coisa? — perguntou abruptamente.

— A-ainda não, senhor — gaguejou o mordomo — Ele também não atendeu o telefone quando tentamos.

Rugas sutis surgiram na testa de Caesar.

Mais trinta minutos se passaram.

Caesar terminou mais uma xícara de chá e, sem aviso, se levantou.

Todos os presentes se apressaram a inclinar a cabeça em reverência. Caesar pegou seu paletó das mãos do mordomo, vestindo-o enquanto caminhava.

— Se a montanha não vai até Maomé, — disse para ninguém em particular — Maomé vai até a montanha.

Nada poderia ter preparado Caesar para o desastre que era o quarto de Won.

Ele achava que o escritório estava ruim, mas aquilo… aquilo era o cúmulo do absurdo.

Ele tinha quase certeza de que o lugar não era habitável. Mal conseguiu abrir a porta pela metade quando o fedor de álcool barato invadiu seus sentidos, e ele rapidamente cobriu o nariz com o lenço de bolso. E, como se isso não bastasse, Caesar sequer conseguia atravessar a sala de estar. Teve que abrir caminho através de, uma quantidade impressionante de lixo empilhado sobre todas as superfícies planas disponíveis.

Balançando a cabeça, Caesar avançou cuidadosamente até o quarto, apenas para ser derrubado pela visão diante de si.

De alguma forma, seu pequeno advogado, aquele que aparecia como um relógio todas as manhãs às nove horas pronto para começar o dia, estava largado sobre o colchão, com as calças pela metade das pernas, completamente apagado.

A testa de Caesar se franziu, em uma mistura de desgosto e incredulidade. Já passava do meio-dia, e lá estava Won, com o cabelo espetado em todas as direções imagináveis, fedendo a bebida.

Ele não fazia ideia de que seu pequeno advogado era tão beberrão. Caesar já conseguia imaginar o quão miserável seria a ressaca. Cerrando os lábios, Caesar recolocou o lenço de bolso em seu devido lugar, inclinou-se e, sem a menor cerimônia, jogou Won sobre seu bom ombro, voltando rapidamente pelo caminho de onde viera, agora que tinha seu prêmio em mãos. Ele não queria permanecer naquele buraco infernal um segundo a mais do que o necessário. Por sua parte, tirando alguns resmungos e roncos, Won continuava completamente adormecido.

Havia algo macio apoiando sua bochecha. Won não sabia o que era, embora, por algum motivo, parecesse familiar e suas pálpebras estavam pesadas demais para tentar uma avaliação visual. Pelo tato, ele percebeu que não estava em sua própria cama; mas o pensamento era tão distante e indistinto que não chegou a disparar nenhum alarme. Não, Won estava bastante contente esfregando a bochecha contra aquela maciez, um sorriso bobo florescendo em seu rosto.

O sorriso, infelizmente, não durou muito. Com a consciência veio uma dor de cabeça excruciante. Fazendo uma careta, ele se enterrou sob os lençóis sedosos da cama misteriosa e tentou voltar ao sono abençoado, porém foi tudo em vão. A martelada em sua cabeça se recusava a ceder e, por isso, com relutância, ele abriu os olhos cobertos de remelas para tentar enxergar seu entorno com dificuldade.

Ele não sabia o que esperava encontrar. A única palavra que conseguiu emergir da lama mental foi: elegante. Tudo ao alcance da vista era moderno, minimalista. Daqueles tipos de coisas que fingem ser simples quando, na verdade, são absurdamente caras. Não havia cores gritantes ou decorações ornamentadas, apenas um design limpo e simples.

O que não ajudava em nada. Won não fazia ideia de onde estava e, apesar da ressaca brutal, tinha certeza de que nunca estivera ali antes. Teria apagado e vagado até a casa de algum pobre desavisado?

Foi então que ele virou a cabeça sobre o travesseiro para olhar na direção oposta e — ah. Caesar. — Falou suspirando

Won puxou as cobertas até logo abaixo dos olhos, querendo se esconder do homem assustador que o encarava ao lado da cama. “Talvez, se eu fingir que Caesar não esta ali, ele vai embora?”

Resolvendo tentar, Won fechou os olhos e virou a cabeça para o outro lado, tentando agir naturalmente, como se ele sempre adormecesse no meio de disputas de olhar.

Infelizmente, ele ainda conseguia sentir o olhar ameaçador de Caesar, mesmo sem olhar.

— Ok, ok, entendi — gemeu fracamente, quando não conseguiu mais suportar a tensão horrível.

— De volta ao trabalho amanhã. Mas será que um homem não pode sofrer sua ressaca em paz?

Ele pressionou a mão contra a testa, esperando que a pressão aliviasse a dor.

Caesar resmungou com desprezo:

— Quanto daquela porcaria de qualidade duvidosa você bebeu?

— Sei lá… o que tinha lá? — Won parecia ter passado as cordas vocais por um

triturador de papel. — Tudo vai pro mesmo lugar.

Caesar arqueou uma sobrancelha. “Ele falou a mesma coisa sobre o Sanduíche”

Suspirando alto, Caesar cedeu e chamou o mordomo, que logo apareceu com um copo d’água e alguns comprimidos de aspirina.

— Tome — ordenou Caesar, e um Won extremamente relutante se ergueu, tomou a aspirina e começou a mastigá-la.

Caesar clicou a língua em reprovação.

— Água — disse ele, empurrando o copo para Won. Que tipo de bárbaro mastigava aspirina? Won virou o copo inteiro de uma vez e, Caesar supôs, a aspirina junto, soltou por fim um suspiro satisfeito, limpou a boca e desapareceu debaixo das cobertas.

A expressão de Caesar se contraiu.

— Mais sono? — Soou mais como uma afirmação do que uma pergunta.

— Hoje eu não vou trabalhar — veio a resposta abafada. Won estava ocupado transformando os cobertores em algum tipo de casulo de tecido para si mesmo.

— Tô nem aí, você não pode me obrigar.

Os lábios de Caesar se curvaram levemente. Won soava horrível, sua voz rouca e fraca. Sentando-se na beirada da cama, Caesar observou o monte de cobertores que envolvia seu pequeno advogado. A única indicação de que não era um casulo humano abandonado eram os tufos de cabelo preto que saíam junto aos travesseiros.

O cabelo era macio, Caesar descobriu, mesmo em meio à bagunça, mechas rebeldes pressionando-se entre seus dedos enquanto ele fazia carícias lentas e deliberadas na cabeça de Won. Um suspiro confortável, seguido de respirações profundas e regulares vindas das profundezas das cobertas, sinalizavam o retorno de Won ao sono. Caesar estudou o volume na cama, depois se deixou cair de lado, pousando a cabeça sobre o casulo.

— Isso é uma permissão pra eu fazer o que eu quiser. Você sabe disso, né? — disse ele baixinho.

Nenhuma resposta. Com um sorriso irônico, Caesar levantou a mão e deu leves batidinhas na cabeça de Won, como se fosse uma porta, provocando um resmungo indignado e alguma agitação de seu pequeno advogado. O corpo sacudindo com uma risada silenciosa, Caesar permaneceu em seu lugar na cama, observando enquanto Won voltava a mergulhar num sono profundo.

Álcool era álcool. Não podia realmente importar o quão caro fosse… podia?

Atormentado por pensamentos tão inúteis, Won percebeu que estava meio acordado e começou a se desenroscar da confusão de lençóis e cobertores ao seu redor. Provavelmente deveria tomar um banho ou escovar os dentes. E era exatamente isso que ele pretendia fazer, até que sua cabeça saiu de dentro das cobertas e um choque de cabelo loiro-branco o fez congelar.

Como…? Won encarou a forma adormecida de Caesar, fazendo tentativas confusas de explicar como ele estava na cama… com Caesar. A última coisa de que se lembrava… Qual era a última coisa de que se lembrava? Levaram alguns segundos até que flashes de aspirina e o rosto carrancudo de Caesar surgissem mas isso não dizia nada a Won sobre como ele tinha ido parar naquela cama chique, naquilo que só podia supor ser a casa de Caesar.

Mas se aquela era a casa de Caesar… Os olhos de Won percorreram o cômodo, absorvendo a decoração discreta, não encontrou nem um traço de dourado ou marchetaria à vista. Era uma anomalia numa mansão cheia de antiguidades, pelo menos até onde ele sabia. Por outro lado, ele já ouvira falar de ultra-ricos que variavam o estilo dos quartos e usavam aquele que combinava com seu humor da noite. Nunca acreditara nisso antes, mas aquele cômodo parecia dar algum crédito à ideia.

E ele percebeu, ele gostava. Conseguia entender o apelo (se não o exagero) de ter vários cômodos para escolher. As cores neutras e o design discreto daquele em particular pareciam suavizar a dor em sua cabeça. Com esse pensamento em mente, afundou de volta no colchão, liberando a tensão do corpo para acalmar a pulsação incessante atrás dos olhos.

Ele deveria saber que estava prestes a ter uma ressaca brutal. E, na verdade, ele sabia. Isso não o impediu, no entanto. O dia anterior havia sido uma ocasião importante; como ele poderia se recusar a celebrar com todos os outros? Nikolai e Anna estiveram lá, chorando de alívio, agradecendo-o repetidamente; todos os vizinhos vieram, fazendo brindes e discursos longos.

Então, realmente, ele não teve muita escolha no assunto. Segurando a cabeça, Won se perguntou por que as coisas divertidas da vida não podiam ser apenas divertidas? Por que beber tinha que levar ao sofrimento? A parte da bebida era ótima mas a dor no dia seguinte, nem tanto.

Caesar continuava dormindo ao seu lado. Era como antes, na ilha. Talvez ele acordasse enquanto Won estivesse se aproximando dele, como antes também. Talvez sua testa se franzisse? Ou talvez seus olhos se abrissem bem quando Won estivesse prestes a testar se seus lábios eram tão macios quanto pareciam?

Foi a última opção, como se viu, e Won inspirou profundamente quando íris prateadas e cinzentas encararam as suas. Como ele explicaria isso? Sua mente estava completamente em branco. Parecia que a de Caesar também. Won sentiu suas bochechas esquentarem sob a intensidade do olhar de Caesar, e foi preciso todo o seu esforço para se afastar e sentar.

— Desculpe por isso — ele murmurou, limpando a garganta. — Eu bebi um pouco…

— Percebi — Caesar também se sentou. Won fez algumas tentativas inúteis de alisar o cabelo enquanto deixava os olhos vagarem pelo quarto, qualquer coisa para não olhar na direção de Caesar.

— Vou voltar ao trabalho—

— Deixa pra lá — Caesar disse suavemente. — Como está sua dor de cabeça?

Isso surpreendeu Won o suficiente para fazê-lo olhar. Caesar estava de pé, observando-o, um pequeno sorriso brincando em seus lábios. E agora que ele estava olhando para aqueles lábios, sentiu a tensão no ar – agradável desta vez, como se estivessem à beira de algo.

Como se Caesar estivesse prestes a beijá-lo.

Won respirou fundo, desviando o olhar para a cama.

— Se eu te beijar agora, você vai me bater? — O sussurro estava tingido de diversão.

Won olhou para Caesar por baixo de seus cílios.

— E se eu disser que sim?

Caesar riu baixinho, então se inclinou sobre a cama e pressionou seus lábios contra os de Won. Suspirando de contentamento, Won fechou os olhos, permitindo-se sentir o peso de Caesar enquanto ele se movia sobre ele, deitando-o no colchão macio. Caesar deu-lhe mais um beijo intenso antes de se afastar.

— Eu não gostei de você escolhendo álcool em vez de mim.

As palavras foram suaves, reais. Won podia sentir que Caesar estava se expondo com aquela declaração, e ele teve o impulso inexplicável de se desculpar, dizer a Caesar que não tinha sido sua intenção mas uma voz racional nas profundezas de sua mente disse, não, não havia nada pelo que se desculpar.

O pensamento foi interrompido quando Caesar levantou sua camisa e sugou um mamilo para dentro da boca e o mordiscou, fazendo Won se contorcer para longe. Rindo baixinho, Caesar sugou o bico ruidosamente de volta para sua boca; a obscenidade disso enviou um arrepio pelo corpo de Won.

Caesar removeu suas calças e cuecas em seguida, habilmente manobrando-as pelas pernas de Won. Ar frio o envolveu, mas Won não teve tempo de se sentir envergonhado de sua própria nudez, pois Caesar imediatamente cobriu o corpo de Won com o seu, e Won pôde senti-lo, a excitação pressionando insistentemente contra a sua – e era grande.

A mente de Won parou bruscamente.

— O que foi? — murmurou Caesar.

Won mordeu o lábio.

— É – vai… quer dizer – você vai… você sabe… dentro

— Eu vou — respondeu Caesar facilmente. Won percebeu que ele estava reprimindo um sorriso. Ele deu um casto beijo em Won.

— Assustado? — perguntou ele suavemente.

Won não conseguia se livrar da sensação de que Caesar estava rindo dele.

Ele queria perguntar por que Caesar tinha que ser o único a colocar – ele também não podia fazer isso? Mas assim que o pensamento se formou, Won percebeu que isso também não parecia particularmente atraente. Eles tinham que fazer alguma colocação? Eles não podiam apenas desfrutar de um bom amassos pesados?

Nada disso o fazia soar menos como um covarde, no entanto, então Won guardou todos os pensamentos para si. Ele não era covarde. Ele era Lee Won, com medo de nada!

Com a determinação brilhando em seus olhos, Won encontrou o olhar de Caesar enquanto ele roçava os lábios nos de Won, sua voz um rosnado baixo.

— Você não tem ideia de quanto tempo esperei por isso.

Continua…

⌀ ⌀ ⌀

✦ Tradução, revisão e Raws: Belladonna

Ler Roses And Champagne (Novel) Yaoi Mangá Online

Sinopse:
O advogado de direitos civis Lee Won atua na Rússia, defendendo clientes de baixa renda que não teriam acesso a um jurista. Um dia, ele visita o vereador Zhdanov para interceder por seu cliente Nikolai. Won desconhece que o político tem ligações com a máfia russa — até se deparar com César durante a reunião. E aquele homem de olhos prateados e cinzentos… era o mesmo com quem Won quase colidira na rua dias antes! Algo fora do comum está prestes a acontecer quando ele conhece César Aleksandrovich Sergeyev, o homem que em breve liderará um dos grupos mafiosos mais temidos do país.

Gostou de ler Roses And Champagne (Novel) – Capítulo 16?
Então compartilhe o anime hentai com seus amigos para que todos conheçam o nosso trabalho!