Ler Roses And Champagne (Novel) – Capítulo 15 Online

Capítulo 15
A porta da frente se escancarou com apenas um toque de Won, batendo com força contra a parede interna. Rapidamente, Won empurrou Caesar para dentro, depois lutou para fechar a porta contra uma rajada persistente de vento do norte. Quando finalmente saiu vitorioso, Won fechou os olhos e encostou a testa na madeira, tomado por um profundo cansaço. Permitiu-se algumas respirações profundas antes de espiar por sobre o ombro.
Na escuridão, conseguiu distinguir a forma de Caesar sentado no chão, recostado de forma apática contra a parede. Apesar do grande casaco de pele, Caesar claramente lutava para se manter aquecido; e entre o dia que haviam tido e a gravidade do ferimento, Won estava mais do que um pouco preocupado com a possibilidade de Caesar entrar em hipotermia.
Mais uma respiração, e Won começou a tatear pela parede em busca de um interruptor. As luzes piscaram e acenderam – a eletricidade ainda funcionava, felizmente – mas a palidez extrema de Caesar ofuscou qualquer sentimento de alívio. A casa estava congelante; Won precisava agir rápido. Ele se virou, pronto para vasculhar a casa em busca de suprimentos, quando percebeu que Shishkin ainda estava ali, amarrado a uma cadeira, no centro da sala de estar.
Claro que estava. Onde mais ele estaria? Won se repreendeu por estar surpreso, mas notou que o frio havia impedido o corpo de Shishkin de se decompor, então ele permanecia congelado no lugar, exatamente como antes. Poderia estar dormindo, não fosse pela grande parte de sua cabeça que estava ausente. Won estremeceu.
“Ok. Ok. Eu consigo lidar com isso.” Eles precisavam de abrigo, e aquela era a única opção. Reunindo coragem, o olhar de Won percorreu o tapete e as cortinas, mas parou ao descobrir o motivo de estar tão frio dentro da casa: as janelas da frente estavam estilhaçadas, permitindo que vento e neve invadissem livremente a sala. Won contraiu o maxilar, encarando os pequenos pingentes de gelo pendurados nas molduras, xingando Leonid até o inferno e de volta. Tudo bem. Só mais uma coisa. Ele resolveria.
Optando pelo tapete, Won o puxou do chão – forçando-se a não se encolher diante do sangue seco – e cobriu o corpo de Shishkin com ele, depois empurrou Shishkin, cadeira e tudo, para um canto afastado.
Revirando alguns armários e closets, Won encontrou uma caixa de ferramentas, correu de volta à sala e improvisou barricadas nas janelas, sentindo-se muito melhor agora que estavam, de alguma forma, mais protegidos dos elementos.
Finalmente, Won voltou para Caesar.
— Consegue ficar de pé? — estendeu a mão.
O olhar de Caesar se deslocou, encarando a mão com quase desconfiança. Para Won, era como se ele estivesse diante de um animal selvagem, oferecendo a mão para que o cheirasse, torcendo por aceitação e não por um ataque. Ele esperou, tenso, mal ousando respirar. Segundos se arrastaram até que, finalmente, finalmente, Caesar estendeu a mão e a colocou na de Won, e uma pequena parte de Won sentiu um alívio imenso.
Cambaleando um pouco mesmo com Won o amparando, Caesar permitiu que fosse guiado pela sala e acomodado próximo à lareira. Em seguida, Won saiu rapidamente para reunir lenha, um isqueiro e qualquer coisa ao alcance que pudesse servir como graveto. Juntou tudo na grelha, acendeu um pouco de papel, e… a chama se apagou.
Tudo bem, mais uma tentativa.
Mas ainda assim, nada.
Os gravetos recusavam-se terminantemente a pegar fogo.
A essa altura, Won já não tinha mais pedaços de papel ou casca de árvore para adicionar, então arrancou o próprio casaco e começou a agitá-lo para cima e para baixo, transformando-o em um leque improvisado. Quando os gravetos e pedaços menores de madeira finalmente estalaram e as chamas começaram a crescer e envolver os troncos, Won se sentou de joelhos, sorrindo orgulhoso de si mesmo.
Uma risadinha veio de seu lado. Won virou a cabeça rapidamente para olhar Caesar, querendo saber o que havia de tão engraçado. Caesar tocou a própria bochecha, os lábios se contorcendo com um sorriso contido. A mão de Won voou até o rosto, limpando-o, e voltou coberta de fuligem.
— Eu poderia te largar numa ilha deserta e você daria um jeito de sobreviver.
Won parou no meio do gesto de remover o resto da fuligem da bochecha, e Caesar fez um leve gesto com a cabeça na direção do cadáver de Shishkin.
— Nunca imaginei que você viria aqui, — explicou Caesar.
— Achei que pessoas normais achassem corpos mortos perturbadores.
Won realmente achava perturbador, mas não tinha muita escolha.
— Ou durmo ao lado de um cadáver ou congelo lá fora. — Deu de ombros.
Caesar murmurou em concordância. Alguns segundos de silêncio depois, ele falou novamente:
— Sabe… às vezes acho que você é mais adequado pra máfia do que eu.
— Qualquer pessoa racional faria o mesmo, — Won rebateu na hora. A resposta brusca escondia sua agitação. Se não estivesse se forçando a conter as ondas de pânico vindo do cérebro reptiliano, já estaria do outro lado da ilha, correndo para o aeroporto, tempestade de neve ou não.
Isso o levou de volta à corrida desesperada que haviam feito pela segurança mais cedo na floresta; e agora que não havia uma crise iminente, a adrenalina começou a deixar seu corpo, dando espaço para que Won pensasse em tudo o que havia acontecido naquele dia.
Lá fora, na floresta, ele tinha certeza de que Caesar ia morrer. Ainda assim, Caesar não vacilou; manteve-o seguro, mandou que ele corresse. Melhor ainda, por algum milagre, Caesar ainda estava vivo. Mas — Leonid ainda estava lá fora, e eles estavam presos em uma casa isolada, numa ilha remota, durante uma nevasca, com um cadáver como companhia na sala de estar.
Shishkin.
Won suspirou consigo mesmo. Tanta coisa tinha acontecido que ele quase se esquecera do motivo pelo qual haviam vindo ali em primeiro lugar.
— Mas quem queria ele morto? — perguntou, mais para si mesmo do que para Caesar.
E por quê? Obviamente, era alguém com ligações com Berdyaev e sua corrupção, mas contratar um assassino profissional para eliminar alguém tão discreto quanto Shishkin parecia um exagero. E, além disso, quem sequer sabia que Shishkin estava ali?
Os pensamentos de Caesar seguiam uma linha semelhante à de Won, mas sua lista de suspeitos era bem mais enxuta. Seria Lomonosov? Ou alguém querendo que ele achasse que era Lomonosov? O cartão de visita era quase óbvio demais; mas, ao mesmo tempo, talvez não fosse.
— Você sabe algo sobre o Leonid?
A pergunta de Won tirou Caesar de seus devaneios. Ele balançou a cabeça.
— Dá pra ver que ele é da elite, mas eu não interajo diretamente com assassinos.
Won supôs que fazia sentido – Caesar seria o tipo que dá as ordens, não quem as cumpre. Mas agora ele estava curioso sobre outra coisa.
— Não deve haver muitos assassinos desse nível, certo?
Dessa vez, Caesar inclinou a cabeça, concordando.
— Dez, talvez.
E Leonid era um deles, contratado por alguém para matar Shishkin. A mente de Won já voltava a se perguntar quem estaria tão determinado a frustrar seus planos. Quem quer que fosse, provavelmente estava muito satisfeito consigo mesmo… o que significava que, de alguma forma, se beneficiava com Won perdendo o caso Berdyaev…
Um nome lhe veio imediatamente à mente. Ele havia trabalhado com Berdyaev, então poderia saber sobre Shishkin; e já estava afundado em processos, então fazia sentido se fosse—
— Zhdanov…? — murmurou Won para si mesmo.
Caesar fez um som.
— Improvável.
Isso rendeu a ele um olhar curioso de Won, mas Caesar não explicou seu raciocínio. Em vez disso, disse em voz baixa:
— O julgamento provavelmente já era.
Won fez uma careta. Shishkin era a peça-chave do seu caso; ele teria que refazer tudo agora que não poderia contar com o testemunho.
— Embora… encontrar algum podre do Zhdanov não seria má ideia.
Won piscou.
— O quê?
— Mentes corruptas pensam parecido e o Zhdanov não é exatamente original. — O tom de Caesar era pura despreocupação.
— Aposto que ele tem algumas propriedades em nomes de laranjas. O que
significa que há testemunhas associadas a esses nomes, não? — Ele sorriu.
— Só um palpite.
“Só um palpite?” A mente de Won já disparava com as possibilidades. Se Caesar conseguiu encontrar Shishkin naquele fim de mundo, com certeza conseguiria alguém que fizesse o mesmo com Zhdanov; talvez até mais de uma pessoa. Aquilo era a chave!
— Isso é genial. — Won sorriu para Caesar, genuinamente impressionado.
Então Caesar retribuiu o olhar, e o sorriso de Won se esvaiu. A sensação de euforia em seu peito se transformou em outra coisa – algo estranho e tenso, mas tudo estava ali, nos olhos de Caesar, e ele não queria desviar. Engoliu em seco, entreabriu os lábios, percebeu que não conseguia desviar o olhar porque Caesar estava olhando para sua boca, e ele também queria observar o tom delicado dos lábios de Caesar; estava respirando Caesar; estavam tão perto
Com um engasgo, Won caiu para trás e se levantou de um salto.
— Chá. — Sua voz falhou.
Ele tossiu. — Chá, sim, isso… vou preparar.
Caesar permaneceu no mesmo lugar no chão, mas Won podia sentir os olhos cinzentos o seguindo enquanto fugia para a cozinha, podia jurar que ainda o seguiam mesmo com uma parede entre eles.
Ele levou a mão ao peito; uma tentativa inútil de acalmar o coração que tropeçava, disparado quase dolorosamente contra suas costelas. Um calor estranho se acumulava em seu estômago, e ele passou muito mais tempo na cozinha do que o necessário, apenas tentando respirar.
Na manhã seguinte, o sol estava brilhando demais. Pelo menos, era o que Won pensava ao despertar piscando. Ainda sonolento, presumiu que a luz ardente por trás de suas pálpebras era o reflexo impiedoso do sol na neve. Levou mais algumas piscadas para perceber que o brilho vinha, na verdade, do cabelo de Caesar.
Depois que acendera a lareira naquela noite e garantira que houvesse espaço suficiente entre ele e Caesar, Won se deitara perto da lareira, usando o casaco como cobertor. De alguma forma, todo aquele espaço havia desaparecido durante a noite, e agora os dois estavam deitados lado a lado.
Mas, por algum motivo, Won não queria se levantar ou se afastar. Permaneceu onde estava, observando a forma adormecida de Caesar.
Um halo de luz solar lhe dava uma aparência quase etérea, tudo em tons de dourado e prata. Mechas de cabelo caíam sobre sua testa, e sua expressão estava relaxada – livre da máscara de indiferença cuidadosamente cultivada à qual Won estava tão acostumado.
Katya estava certa, ele decidiu. Já pensara nisso antes, no conservatório, mas agora podia contemplar os traços de Caesar de perto, tão perto que podia estender a mão.
Encantado, Won foi tomado por um impulso de tocar – de ver se os traços angelicais eram tão suaves quanto pareciam. Um sopro de ar acariciou sua mão e, então, seus dedos estavam roçando os lábios macios, sentindo a suavidade da pele.
Seu pulso acelerou; ele inclinou a cabeça, aproximando-se.
Os olhos de Caesar se moveram sob as pálpebras, uma ruga se formando entre suas sobrancelhas ao despertar, e Won quase pulou de susto, percebendo o quão perto estivera.
Quão perto estivera de beijar Caesar.
Quão perto estivera de ser pego.
Caesar abriu os olhos ao som de passos apressados se afastando, o espaço ao lado vazio. Encolhendo-se no lugar onde seu pequeno advogado deveria estar, fechou os olhos, sem querer acordar ainda.
O local ainda estava quente.
Dessa vez, o som constante de passos se aproximando tirou Caesar do sono, o espaço ao lado dele agora estava frio.
— Vamos, hora de levantar. — A voz de Won veio de cima. — Você precisa comer.
Virando a cabeça, Caesar viu Won olhando para ele, uma bandeja nas mãos. Com relutância, Caesar se sentou.
— Vamos comer aqui; está frio demais na cozinha. — Won ofereceu a bandeja, mas Caesar a olhou com desconfiança.
— Você cozinhou?
— O quê, acha que o Shishkin se levantou e ajudou?
Caesar não pareceu convencido.
— O que é isso?
— Um sanduíche.
Caesar recuou visivelmente, mas Won permaneceu impassível.
— Achei um pouco de carne na geladeira, então usei isso.
Ele olhou para Caesar, que parecia ligeiramente enjoado. — Muita carne. O olhar que Caesar lançou a ele foi tão horrorizado que Won decidiu poupá-lo da agonia antes que ele tivesse um ataque cardíaco.
— Nah, — disse, colocando a bandeja no chão.
— Esquentei umas latas de sopa.
O corpo inteiro de Caesar relaxou e ele soltou um suspiro dramático de alívio.
— Cristo, você não devia me assustar assim.
— Eu estava brincando.
— Não-não, chega disso, — disse Caesar.
— Uma coisa odiosa já é mais do que suficiente para um dia.
Won inclinou a cabeça, sem ideia do que Caesar estava falando.
Caesar sorriu de lado. — Você vai descobrir em breve.
E com esse comentário enigmático, Caesar voltou sua atenção para a sopa. Justo quando ia alcançar a colher, Won a pegou primeiro e levou até a boca de Caesar, fazendo um som de ahh, como se estivesse alimentando uma criança.
A expressão de Caesar se endureceu, e Won ficou tenso sob a intensidade do olhar dele. Um silêncio altamente desconfortável se estendeu… e estendeu… até que, finalmente, Caesar disse:
— Eu posso me alimentar sozinho.
Como para provar, arrancou a colher da mão de Won e começou a comer.
— Eu achei que… — Won torceu as mãos.
— Eu só… queria ajudar.
Ele esperou, mas Caesar não respondeu, continuando a levar a colher da tigela à boca de forma constante.
Incapaz de suportar por mais tempo, Won se levantou, resmungando:
— Pão. Eu vou pegar — é…
Ele pigarreou, se repreendendo mentalmente por dar uma desculpa idiota ao invés de simplesmente ir embora.
Fugiu para a cozinha, empilhando o que via em outra bandeja enquanto tentava reprimir a sensação que lhe arranhava o peito. Caesar. Sozinho. Não, ele sacudiu a cabeça para afastar os pensamentos antes que fossem mais longe. Se não pensasse nisso, não precisaria nomear o sentimento ou pensar no porquê de senti-lo.
Era melhor assim.
Eles estavam sentados no chão com suas sopas, algumas fatias de presunto e um pouco de pão que Won encontrou no congelador. Tirando o crepitar do fogo, comiam em silêncio.
As pernas de Won adormeceram. Ele não lembrava da última vez que isso acontecera.
Espiou Caesar por baixo dos cílios. Embora o homem tentasse manter alguma dignidade, pelo menos o quanto comer no chão permitia, se remexia desconfortavelmente de tempos em tempos.
— Vai estar frio, mas quer jantar na cozinha? — perguntou Won quando Caesar começou a se agitar novamente.
Caesar se aquietou e encarou a distância.
— Ay, aí está o problema, — comentou com ar de sabedoria.
Bem, isso confirmava que Caesar conhecia Shakespeare, ao menos. Em qualquer outra circunstância, tal resposta seria hiperbólica, mas Won sentia o dilema intensamente. Devia engolir sua triste sopa enlatada e pão descongelado encolhido no chão? Ou arriscar congelar só pelo luxo de uma cadeira e evitar desenvolver uma corcunda?
— Um problema decididamente intratável, — acrescentou Caesar com ironia.
— Pensei em mover a mesa pra cá… — Won lançou um olhar significativo ao redor da sala apertada.
— Mas não tô a fim de dormir em cima dela também.
Caesar começou a rir alto, e Won ficou confuso. Por que Caesar sempre parecia rir dele? Won tinha quase certeza de que ele não era assim com mais ninguém.
— Uma proposta perigosa, — disse Caesar por fim, a voz carregada de divertimento.
— Você corre o risco de rolar no meio da noite e quebrar alguma coisa, aí onde é que a gente ia parar? Dois braços funcionais entre nós.
Won se engasgou, felizmente não com a sopa; ainda não tinha dado a próxima colherada.
— Provavelmente é bom que o Leonid tenha desistido, então. Não sei se a gente aguentaria muito mais, independente dos membros disponíveis.
Eles riram juntos. Alguns segundos se passaram, e Won acrescentou:
— Ainda não entendo quem contrataria ele pra vir atrás da gente ou por quê. Mas… você tem certeza de que não foi o Zhdanov?
Soava como uma pergunta porque Won estava genuinamente curioso. A única pessoa que ele conseguia imaginar com motivação e recursos suficientes para contratar um assassino era Zhdanov mas Caesar parecia pensar diferente.
Caesar ponderou a pergunta, rolando-a na mente antes de se decidir por uma resposta apropriada.
— O cartão de visitas, — disse com um gesto de cabeça em direção a Shishkin, no canto.
— Tiro na cabeça, amarrado na cadeira, coisa do Lomonosov.
Lomonosov. Won já tinha ouvido o nome. A Bratva Lomonosov era a gangue rival da Irmandade Sergeyev; fazia sentido que Caesar soubesse seu cartão de visitas, se a violência entre eles era frequente. E Caesar não mencionara eles quando falou do próprio sequestro? Nebulosas lembranças de algo que ele viu nos jornais há um tempo começaram a tomar forma, distraindo-o, até que Caesar voltou a falar.
— Duvido que tenhamos feito o bastante pra chamar a atenção do velho demônio, no entanto. — Bufou.
— Chyortov lyev.
— Lyev? — “Por que Caesar estava falando de um leão, de repente?”
— O atual don, — explicou Caesar.
— Teve um derrame há pouco tempo. — Seus olhos se estreitaram.
— Mas sei que eles não manchariam o retorno dele com um assassinato.
— Então…? — Won incentivou, quando Caesar não se explicou mais.
Caesar lançou-lhe um sorriso irônico. — Ratos.
Aquela aparente desconexão rendeu a Caesar um olhar de completa perplexidade. “Leões, ratos – o quê, ele estava abrindo um zoológico?”
— Cuidaram do Berdyaev pra forçar qualquer infiltrado a sair do esconderijo, — acrescentou Caesar, quase para si mesmo. Mas a declaração deixou Won atordoado. O animal, dessa vez ao menos, tinha contexto; mas Won não conseguia processar o que acabara de ouvir.
— Infiltrados? Eu achei que você só queria os ativos do Berdyaev. Legalmente.
— Se fosse só isso, eu teria usado um advogado da Irmandade, temos vários na folha de pagamento, — respondeu Caesar, com naturalidade. — Eu quis você pra saber quem cantou.
Won piscou, mudando de posição no chão enquanto tentava aceitar o que Caesar acabara de admitir – admitido como se estivesse comentando sobre o tempo ou o jantar da noite passada. Se tudo o que Caesar queria era identificar informantes entre os seus… Mas isso significava que ele nunca se importou com testemunhas, ou evidência, ou depoimentos… Como alguém atolado em um pântano, a mente de Won cambaleava em direção a terreno sólido e à arrepiante sensação de compreensão que vinha com ele.
A mentira de Caesar ia mais fundo do que ele jamais imaginara.
Era uma pílula amarga e cortante, raspando e arrancando pedaços dele ao descer. Desde o começo, até aquele momento sentado na sala de Shishkin com seu cadáver – tudo era mentira.
Won bufou, a voz crua.
— Sabe, eu já desconfiava que algo não batia. Devia ter sabido que era tudo besteira. Devia ter percebido que você nunca se importou comigo ou com o que aconteceu aqui. Você nunca se importou com nada disso.
A bile subia à garganta agora, queimando a carne dilacerada que a pílula deixara em seu caminho. Ele se sentira culpado. Sentira-se responsável! Sentira que seria culpa dele se Caesar morresse e pra quê? Que idiota ele foi por sentir qualquer coisa.
Bem, Caesar garantiu que tudo que ele sentisse agora fosse repulsa, nojo por sua própria idiotice. Won sabia – sabia porque já tinha caído nisso antes – mas se deixou ser usado. De novo.
Tolo duas vezes.
— Ainda só uma peça no seu joguinho, — cuspiu.
A testa de Caesar se franziu. — Você é o outro jogador, não uma peça.
— Que porra você tá falando?
— Você age como se não tivesse tirado nada disso. — Caesar o encarou diretamente. — Você queria provas; eu queria limpar a casa, não é minha responsabilidade corrigir suas suposições. Você me usou tanto quanto eu te usei. Uma troca justa, eu diria.
Ele parecia quase indolente, objetivo; e, à distância, uma parte pequena de Won sabia que ele estava certo.
Won sempre deixara claro que trabalhar para Caesar dependia de derrubar Zhdanov, ajudar Nikolai – caso contrário, ele cairia fora. Vasculhando suas memórias, teve que admitir que nunca fez nada daquilo por Caesar. Tinha seus próprios motivos; Caesar também. Won só foi mais transparente. Na verdade, estavam quites. Então por que ainda parecia uma facada nas costas?
— Por que você não disse nada? — Won exigiu, a única coisa razoável que conseguia perguntar.
— Você teria jogado junto?
Não. Não, ele não teria — e Caesar sabia disso, o entendeu desde o início.
— Os dois conseguimos o que queríamos. Nada pra ficar ofendido—
— Tá bom, — Won o interrompeu, cortante. — Entendi, tá? Só… para de falar.
Ele pegou a faca de cozinha que usara para cortar o presunto, lançando a Caesar um olhar carregado enquanto testava seu peso. Os olhos de Caesar desceram e voltaram, a única reação sendo uma sobrancelha arqueada com diversão. Não era o que Won esperava, mas aceitaria o silêncio.
Voltou à comida, as mãos rasgando o pão com imprudência enquanto sua mente fervilhava. Caesar era realmente outra coisa. Apesar de tudo o que haviam passado nos últimos dias, ele não mudara nada, não conseguia compreender por que Won se ofenderia com suas ações.
Ou então, sabia exatamente por que Won estava magoado e simplesmente não se importava. Tinha entendido ele desde o começo, afinal… Isso fazia sentido com o jeito de Caesar manter tudo em segredo.
Won contraiu o maxilar.
Ele não devia se importar. Caesar não se importava; ele também não devia.
Mas, por algum motivo, ele se importava.
Fitou sua sopa, de repente sem muita fome.
A neve voltou a cair. Won a espiou por uma fresta na janela da frente, céus cinzentos e ameaçadores encarando de volta. Pelo que parecia, eles poderiam ficar presos ali por um tempo.
Suspirando, Won deixou a janela e começou a fazer um inventário mental de seus suprimentos. Havia alimentos não perecíveis suficientes na despensa para alguns dias. Provavelmente conseguiria estender por uma semana, se fosse necessário.
O fogo era outro problema. Ficar sem fonte de calor nessas condições era imprudente, na melhor das hipóteses; mas restava pouca lenha. Won contemplou as brasas na lareira antes de jogar outro tronco e reacender o fogo. Supôs que poderiam começar a cortar cadeiras e coisas do tipo se as coisas ficassem desesperadoras. Uma onda reconfortante de calor o envolveu ao mesmo tempo em que um sorriso amargo surgiu em seu rosto.
Caesar tinha razão, ele daria um jeito de sobreviver em qualquer lugar.
Mesmo quando, por dentro, estava desmoronando.
Won olhou para as chamas, sem realmente vê-las. Sua praticidade infinita podia levá-lo fisicamente por tudo que o mundo quisesse jogar sobre ele. Sempre acreditou que isso o sustentaria mentalmente também. Mas, não importava o quanto dissesse a si mesmo que… isso que tinha com Caesar era puramente transacional, que era apenas um meio para um fim para ambos, seu coração não queria escutar.
Ele podia dizer a si mesmo que nada mudara entre eles, mas isso seria mentira.
E ele não podia mais fingir.
Era irracional, e impraticável, e ilógico, mas era verdade. Ele tinha se apegado.
E aqui, nesta ilhazinha, nesta casinha, por mais estranho que fosse, eles estavam juntos. Mas e depois? E quando a tempestade passasse, quando não estivessem mais lutando para sobreviver? Será que ele conseguiria voltar a tratar Caesar como se não significasse nada? Será que queria?
Antes que pudesse considerar sua resposta, houve um clunk, depois silêncio.
Franzindo a testa, Won examinou o cômodo, e outro clunk o fez espiar a cozinha e o banheiro.
Nada.
Não houve outro baque, mas Won estava em alerta. Ele se esgueirou até o quarto, abrindo a porta devagar para espiar.
Ele não sabia o que esperava ver, mas Caesar, sentado sem camisa na cama, definitivamente não era. Caesar estava de costas para ele, o que deu a Won tempo para perceber o kit de primeiros socorros aberto sobre o edredom e entender o que estava acontecendo. Observou mãos experientes aplicarem antisséptico e regressarem ao ferimento, baforadas e nuvens brancas emoldurando os cabelos loiros a cada respiração no quarto gelado.
Os olhos de Won percorreram a extensão das costas de Caesar, absorvendo cada cicatriz e mancha que marcava a pele branca como porcelana. “Será que ele estava sozinho nessas vezes também?” O uso hábil do kit de primeiros socorros sugeria que sim. “Eram essas as marcas deixadas toda vez que mais um pedaço da alma dele morria?”
Incapaz de desviar o olhar, Won empurrou a porta mais para dentro e caminhou até o outro lado do quarto. Caesar se enrijeceu com o som. Won estendeu a mão até o kit de primeiros socorros e tirou uma gaze.
— Não preciso de ajuda. — Caesar nem olhou para ele.
— Eu posso fazer essa parte, pelo menos. — Ele embebeu a gaze em antisséptico e a pressionou perto da clavícula de Caesar, ao lado das que ele já havia tratado.
— Já vi um ou dois filmes; sei como funciona.
Caesar ficou tenso. Won não podia ver seu rosto, mas imaginava que devia ser parecido com a expressão de horror que ele fez quando Won disse que tinha preparado sanduíches no café da manhã.
Ele embebeu outro pedaço de gaze e começou a desinfetar a pele ao redor da omoplata de Caesar. Com o ferimento tão recente, o antisséptico devia estar ardendo, mas Caesar não demonstrou sentir dor.
— Sempre achei que minha vida fosse difícil — comentou Won com sarcasmo, enxugando as costas de Caesar — Mas acho que você me supera.
— Se você tivesse me perguntado antes, eu diria que a última coisa que faria seria me ajudar. Achei que você preferia me ver morto. — Ele podia sentir Caesar esboçando um sorriso.
— Eu não desejo a morte de ninguém, — respondeu Won — Por mais horríveis que sejam.
Caesar não comentou a escolha de palavras de Won, mas havia algo no ar durante o silêncio, uma espécie de zumbido sob a pele de Won.
— Eu não queria que isso acontecesse.
O movimento de Won hesitou; ele encarou as costas de Caesar e respirou fundo antes de jogar fora a gaze usada e pegar uma nova.
De repente, Caesar segurou seu pulso e levantou o braço de Won, sem olhar para ele, mas pressionando os lábios contra o antebraço, sobre a malha grossa do suéter. Caesar mordiscou o braço dele, puxando o tecido para baixo até expor o pulso de Won; e então seus lábios estavam ali, bem sobre o pulso, e Won tinha certeza de que ele podia sentir o quanto seu coração estava acelerado.
Caesar continuava próximo, sem soltar o braço de Won. Ele podia sentir os lábios roçando sua pele enquanto Caesar sussurrava:
— Eu te coloquei em perigo.
— Você quem foi ferido — Won respondeu com a respiração ofegante, algo se partindo dentro dele diante do tom cortante da voz de Caesar, da maneira como ele não conseguia encará-lo enquanto segurava seu pulso.
— Isso não é importante. — Caesar sussurrou.
Um silêncio vibrante caiu entre eles. Havia tantas coisas que ele poderia dizer, mas Won não sabia se estava pronto, uma ansiedade crescia dentro dele. Lutando para manter a voz estável, Won disse suavemente:
— Você está certo.
Caesar não respondeu, mas Won podia perceber que ele estava ouvindo.
— Eu também te usei, e nós dois nos beneficiamos disso. — Ele retirou gentilmente o pulso das mãos de Caesar — Quando tudo isso acabar, você não vai precisar me ver de novo.
Ele estendeu a mão para o kit de primeiros socorros para terminar de tratar o ferimento de Caesar, mas Caesar agarrou seu pulso de novo, agora com força. Foi então que ele levantou o olhar para Won.
— O que foi que você disse?
Won hesitou por um momento.
— Eu—
Então Caesar o puxou, fazendo-o perder o equilíbrio e, de alguma forma, deitar-se na cama, com Caesar ficando sobre ele.
— Caesar, o que—
— Você não tem o direito de dizer isso. Eu não vou permitir.
— Como assim “não vai permitir”? — Won rosnou, tentando empurrar Caesar para longe; mas Caesar pegou sua mão com facilidade, segurando-a acima da cabeça de Won enquanto se movia para cobrir seu corpo com o próprio.
— Tão mandão.
— Mandão? — Won repetiu, furioso.
Um esboço de sorriso apareceu nos lábios de Caesar antes de desaparecer, e ele soltou o pulso de Won, deixando a mão subir para brincar com as mechas escuras que haviam caído sobre a testa de Won, depois afastando-as com delicadeza.
— É por isso que eu gosto de você.
As palavras mal haviam se registrado antes que os lábios de Caesar estivessem sobre os seus.
A respiração de Won falhou, e Caesar aproveitou a oportunidade para provocar a junção de sua boca, lábios carnudos e língua pedindo permissão e Won permitiu, os olhos se fechando com um suspiro satisfeito. Por um momento, a pressão insistente cessou.
— Você… — Caesar desprevenido por Won permitir algo mais, mas logo retornou, com Won se abrindo prontamente para ele, deixando-o aproveitar ao máximo.
— Cala a boca e me beija — Won sussurrou.
Caesar mordiscou o lábio inferior de Won, puxando-o para dentro da boca, e voltou a saboreá-lo. Won não sabia há quanto tempo estavam se beijando, perdido na sensação; ele seguiu a boca de Caesar quando este fez uma pausa para respirar, sem querer ficar longe daquela sensação. Eles se mordiscavam, o corpo de Caesar um peso luxuoso sobre o dele, suas excitações perigosamente próximas enquanto respiravam um ao outro.
Caesar olhou para baixo, entre eles, e um gemido rouco escapou de sua garganta, enfeitiçado pela visão de ambos pressionados contra as próprias calças. Ele voltou a olhar para Won, pupilas dilatadas até quase engolirem a íris, restando apenas um traço de prata ao redor do negro infinito, e ele não conseguia se afastar.
Naquele momento, ninguém jamais fora tão perfeito, tão bonito, e era tudo o que Caesar sempre quis e mais; ninguém podia se comparar.
Um deles puxou o ar; Won não sabia se tinha sido ele ou Caesar. De repente, percebeu o quanto não queria parar, o quanto queria mais. Agarrou-se a Caesar, as mãos percorrendo a pele pálida, as cicatrizes e os músculos rijos, querendo sentir tudo; cravou as mãos nas costas de Caesar para aproximá-lo mais.
Ele podia sentir a força de Caesar, como os músculos se flexionavam sob seus dedos, e gemeu. Inclinou a cabeça para o lado quando Caesar começou a descer, roçando os lábios ao longo da garganta de Won. Caesar deixou uma marca de mordida no pescoço de Won, enquanto ele passava a mão pelos cabelos de Caesar.
Won puxou-o de volta para sua boca e os girou de modo que ele ficasse por cima. Sentou-se sob ele, e Caesar puxou seu suéter e sugou um de seus mamilos para dentro da boca. O gemido de Won foi alto desta vez. Deitou-se novamente, querendo sentir a pele de Caesar contra a sua. Seus mamilos estavam arrepiados pelo frio, e Caesar estremeceu quando se tocaram, sugando o ar.
Havia algo inebriante em ter Caesar ofegante embaixo dele, sabendo que ele era o único que fazia Caesar perder o controle. Won deslizou para baixo, lambendo e sugando um mamilo, depois o outro.
Dominado, Caesar soltou um gemido baixo e os girou novamente – só que estavam muito perto da borda, escorregando do colchão para o chão. Estavam muito além de se importar, tocando e apalpando enquanto exploravam a boca um do outro.
Caesar embaixo dele novamente, Won rolou os quadris contra o volume duro e pulsante sob ele, desesperado de desejo. Mesmo enquanto se beijavam, as mãos de Caesar já estavam rasgando as calças de Won enquanto Won empurrava as calças de Caesar para baixo das pernas. O pênis de Caesar imediatamente se libertou, duro e pesado.
Won não pôde deixar de querer senti-lo, tocar o líquido que se formava na ponta. No entanto, assim que roçou os dedos ao longo do comprimento aveludado, Caesar soltou um gemido gutural, soando quase dolorido. A mão de Won parou. Ele olhou para cima, incerto.
Por um breve momento, os únicos sons foram expirações ásperas, nuvens de vapor rodopiando e subindo ao redor deles no ar invernal, uma sensação de algo selvagem e irrestrito pulsando ao seu redor.
O olhar de Caesar era quente e magnético; Won nunca o vira tão vivo, e ele adorou isso.
“Mas… Não, o que eu estou fazendo? Caesar está ferido; está congelando; estamos no chão.”
Acima de tudo, ele não deveria ter esses sentimentos.
Ele começou a se afastar timidamente.
Caesar não estava aceitando; ele esperara demais. Cravou a mão nos cabelos de Won, chocando seus lábios, engolindo o suspiro de Won enquanto ele gemia – e a hesitação desapareceu. Won o beijou de volta com a mesma ferocidade, perseguindo a língua de Caesar quando ela se retirou, mergulhando dentro da boca de Caesar para saboreá-lo. Ele era tão quente. Muito mais quente do que Won jamais imaginara, e ele não conseguia ter o suficiente.
Caesar passou as mãos pelas costas de Won, empurrando a cintura das calças de Won até que estivessem baixas o suficiente para ele envolver as mãos na bunda de Won e apertar. Parecia tão bom em seu aperto. Seu pau pulou de prazer, roçando a própria ereção de Won.
Imediatamente, Caesar inclinou a cabeça para procurar a reação de Won, querendo ver a mesma fome nos olhos de Won que ele sabia estar nos seus. E estava lá – então a hesitação retornou abruptamente – Won olhando para ele. Tímido. Tentativo.
Isso não ia dar certo. Eles mal tinham começado.
A pureza inocente era tão intoxicante, no entanto, ele…
O casal pulou ao som de um estrondo ensurdecedor, girando a cabeça para olhar a porta do quarto, depois um para o outro. Ambos mal ousavam respirar.
O barulho de passos chegou até eles no mesmo instante em que uma voz gritou:
— Caesar!! Onde você está?! Caesar!!
Todo o calor e a paixão evaporaram da fisionomia de Caesar; e, pela primeira vez, Won ouviu Caesar xingar.
Ele ficou tão surpreso que demorou muito para Won perceber que alguém estava prestes a encontrá-los, sozinhos, quase completamente nus, um em cima do outro no chão. Won pulou em pé e vestiu apressadamente seu jeans. Da mesma forma, Caesar se levantou para sentar-se na beirada da cama e puxou para cima suas calças e cueca.
A porta do quarto se abriu violentamente com um — Caesar!! —, uma rajada gelada de ar frio e o que Won só poderia descrever como um abominável homem das neves, já que o intruso tinha pelo menos a mesma altura de Caesar e estava coberto de neve.
O homem das neves removeu o capuz de seu traje, revelando uma cabeça de cabelos escuros e um rosto humano, mas Won ainda se encolheu em um dos cantos, desconfiado e mais do que um pouco envergonhado.
— Graças a Deus você está bem — gritou o homem das neves, avançando com os braços abertos — Jesus, Caesar, pensei que algo tinha acontecido! Sua frequência cardíaca estava quase inexistente e então disparou, e eu pensei que teria que entrar aqui pronto para matar.
De seu lugar na cama, Caesar bloqueou o abraço com um pé no estômago do homem das neves, fazendo-o cair para trás.
— Você precisa sempre ser tão barulhento? — Caesar rosnou. Ele murmurou algo mais que Won não conseguiu ouvir, mas que soou suspeitosamente como mais xingamentos.
Apesar do chute rápido no estômago, o homem das neves se recuperou imediatamente. Won ficou levemente impressionado.
— Vamos, vamos levá-lo ao médico e tirá-lo daqui. Cristo, que merda aconteceu? Parecia que você estava sangrando até a morte em algum momento.
“Esse cara homem das neves parece saber muito sobre Caesar”, Won pensou, sentindo-se desconfiado e intrigado ao mesmo tempo.
Com um suspiro, Caesar se levantou e se dirigiu à porta.
— Você pode se arrumar com calma — murmurou para Won. (Pelo qual Won ficou extremamente grato.)
O homem das neves tentou espiar por cima do ombro de Caesar, mas ele tapou seus olhos com uma mão e o arrastou para fora.
A porta da frente estava arrancada das dobradiças. Caesar a olhou com descontentamento, a mão ainda cobrindo os olhos de Dmitri.
— Czar! — uma voz agitada gritou. Dmitri se soltou de seu aperto e se posicionou atrás dele.
— Onde estão suas roupas? Seu casaco? Venha agora, rápido, por favor. Vou examiná-lo no helicóptero. Pelo menos é um pouco mais quente.
Caesar não se preocupou em vestir a camisa novamente, e o médico parecia frenético por causa disso. Arqueando uma sobrancelha, Caesar olhou para Dmitri, que deu um encolher de ombros indolente enquanto se aproximava.
— Deixe ele te examinar. Eu busco seu… companheiro — Dmitri disse baixinho. — Sua pressão caiu para sessenta, todos pensaram que uma guerra tinha começado.
Estudando os rostos ao seu redor, Caesar não podia negar que seus homens pareciam graves. Cada um deles. Essas eram pessoas cujas expressões eram cuidadosamente neutras o tempo todo, então isso significava algo.
Caesar refletiu sobre isso enquanto um de seus homens encontrava seu casaco e o colocava sobre seus ombros. Ele começou a caminhar em direção ao helicóptero.
— Você vai explicar que diabos aconteceu? — Dmitri cutucou, acompanhando-o.
Caesar manteve os olhos fixos no helicóptero.
— Um assassino, franco atirador. Apenas um arranhão.
— Um assassino? — a pergunta virou uma afirmação no meio da frase, a expressão de Dmitri ficando fria ao perceber o significado do que lhe foi dito. Melhor ainda, Caesar parecia absolutamente homicida.
— Se ele gosta tanto do cartão de visitas de Lomonosov, teremos que garantir que ele receba outro.
Um sorriso cruel apareceu no rosto de Dmitri.
— Sim, Czar.
Depois de lidar relutantemente com sua ereção, Won saiu do quarto e encontrou a casa deserta. Ele vasculhou a sala, sem entender o que estava acontecendo, e deu um salto quando virou e se viu cara a cara com o homem das neves.
— E você deve ser o advogado — o homem das neves sorriu cordialmente.
— Enfim nos conhecemos — Won ficou instantaneamente cauteloso. Como essa pessoa o conhecia?
Indiferente, o homem das neves estendeu a mão.
— Dmitri. Primo do Caesar.
“Primo? Eles não se pareciam em nada” Won pensou, mas supôs, que eles tinham o mesmo tipo de perigo inerente em seus modos, então não era completamente absurdo. Ele aceitou o aperto de mão.
— Caesar está sendo examinado. Vamos — Dmitri inclinou a cabeça em direção à porta e começou a andar. Won pegou seu casaco e o seguiu apressadamente.
A neve caía do céu cinzento em rajadas intermitentes de branco. Obviamente, nenhuma tempestade seria preferível; mas, a menos que pudesse magicamente dissipar um sistema climático inteiro, Won sentiu que teve sorte de não ter que caminhar em uma nevasca novamente. Ele preferia neve até os joelhos e alguns flocos a aquilo.
Havia um caminho aberto na neve de qualquer maneira, então ele não estava exatamente se afundando nela.
Distraidamente, Won notou que o caminho estava compactado, como se muitos pés tivessem passado por ali. Então ocorreu a ele que, para que isso acontecesse, deveria haver várias pessoas ali.
— Como você nos encontrou? — ele perguntou a Dmitri, a curiosidade superando-o. — Todo o transporte para entrar ou sair da ilha foi interrompido…
Os ombros de Dmitri tremeram em uma risada silenciosa.
— Ele tem um microchip — Dmitri tocou o próprio pescoço. — Inserido sob a pele.
Won quase tropeçou. Um microchip? Dmitri pareceu divertido.
— Ele registra seus sinais vitais em tempo real e envia um sinal de socorro sempre que ele não está em homeostase perfeita, se sua frequência cardíaca dispara ou sua temperatura corporal cai, esse tipo de coisa. Ele triangula com satélites de GPS para nos dizer exatamente onde ele está, em qualquer lugar do mundo. Ele poderia estar no fundo da Fossa das Marianas e nós o encontraríamos.
Demorou alguns segundos e algumas piscadas para aquilo fazer sentido. Pessoas podiam ter microchips? Won só tinha ouvido falar de donos de animais colocando chips em seus bichos caso se perdessem. Mas a prova estava nos fatos: o primo de Caesar estava lá e sabia que ele tinha sido ferido. Por mais que aquilo soasse como ficção científica, ali estavam eles. Won se sentiu um pouco sobrecarregado.
— Certo, suba.
Eles chegaram em frente a… um helicóptero? Won estava tão distraído que não o tinha notado até estar bem na frente dele, e ele não tinha ideia de como. A coisa era enorme. Parecia um daqueles helicópteros militares de alta capacidade. Ele o encarou, de boca aberta, sentindo-se duplamente deslocado. Ele não tinha ideia de que civis poderiam ter um.
— Mas estou curioso — Dmitri começou.
— O que exatamente vocês estavam fazendo quando cheguei? — Won ficou tenso. Dmitri sorriu maliciosamente. — Só acho um pouco estranho, estar no quarto em vez de onde está o fogo.
Dmitri inclinou a cabeça e apoiou o queixo na mão.
— E Caesar tem todos esses arranhões nas costas, mas… tenho quase certeza de que ele disse que o assassino só acertou um tiro.
— Não tenho obrigação de responder isso — Won retrucou calmamente. Ele começou a entrar no helicóptero quando a voz de Dmitri em seu ouvido o parou.
— Então não responda — Dmitri se aproximou por trás dele, o tom não tão brincalhão mais. — Mas saiba disso: se você algum dia atrapalhar, comprometer sua segurança, eu vou cortá-lo em pedacinhos e passar uma tarde agradável alimentando os patos no Parque Gorky.
Franzindo a testa, Won se afastou, olhando para Dmitri por cima do ombro. O sorriso de Dmitri era perverso quando ele passou por ele.
— Apenas algo para manter em mente.
Won olhou ao redor, mas aparentemente ninguém tinha ouvido a ameaça. Balançando a cabeça, ele seguiu Dmitri para dentro do helicóptero, descobrindo uma multidão de pessoas se agitando em torno de Caesar dentro do vasto compartimento. Um deles era um médico, Won notou, mas ele não tinha ideia de quem eram os outros. Cada homem carregava um dispositivo misterioso, e eles circulavam em torno de Caesar enquanto os olhavam. Dmitri passou por eles facilmente, inclinando-se para dizer algo a Caesar, que parecia estar ouvindo atentamente.
Logo depois, o médico se endireitou e deu o sinal para decolar. Todos os capangas que estavam de guarda do lado de fora entraram no helicóptero e se sentaram.
Em um estado de choque, Won procurou um assento vazio para si mesmo. Ele os tinha chamado de civis antes, mas Won foi atingido pelo fato de que, na verdade, isso estava mais próximo de uma operação militar do que apenas capangas da máfia em uma missão de resgate improvisada. Ao seu redor estava um exército em miniatura – o exército pessoal de Caesar – completo com médicos, infantaria e oficiais tudo apenas para garantir a segurança de Caesar.
Apenas alguns minutos atrás, os dois estavam se beijando no chão; e Won não conseguia conciliar aquele homem com o que estava dentro do helicóptero. Era muito bizarro, muito emblemático do abismo entre eles, para pensar muito sobre isso sem sentir algo pesado e desolado se enrolando no fundo de seu estômago. Won encontrou um assento assim que as hélices começaram a rugir e girar, ficando cada vez mais alto, até que decolaram – de volta ao continente.
Caesar foi levado para a mansão assim que pousaram. Eles não tinham conversado.
Won deixou seus olhos vagarem até a janela que ele sabia que dava para o quarto de Caesar. Pessoas corriam de um lado para o outro atrás do vidro. Ninguém olhou para baixo, para ele. Ele ficou olhando por um longo tempo.
Eventualmente, ele baixou o olhar e começou a caminhar para casa.
Continua…
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✦ Tradução, revisão e Raws: Belladonna
Ler Roses And Champagne (Novel) Yaoi Mangá Online
Sinopse:
O advogado de direitos civis Lee Won atua na Rússia, defendendo clientes de baixa renda que não teriam acesso a um jurista. Um dia, ele visita o vereador Zhdanov para interceder por seu cliente Nikolai. Won desconhece que o político tem ligações com a máfia russa — até se deparar com César durante a reunião. E aquele homem de olhos prateados e cinzentos… era o mesmo com quem Won quase colidira na rua dias antes! Algo fora do comum está prestes a acontecer quando ele conhece César Aleksandrovich Sergeyev, o homem que em breve liderará um dos grupos mafiosos mais temidos do país.