Ler Roses And Champagne (Novel) – Capítulo 09 Online

Capítulo 9
Não havia sido especificado nenhum horário durante a ligação. Won sabia que poderia ligar de volta e perguntar, mas também sabia que pessoas como Caesar não simplesmente esqueciam coisas daquele tipo. Sem dúvida, havia sido de propósito, apenas para perturbá-lo. Caesar queria que Won ficasse tenso o dia todo, imaginando quando o carro chegaria.
Won, porém, não tinha tempo para isso. Depois de passar a maior parte da noite com Nikolai na maternidade do hospital, ele voltou para casa, dormiu algumas horas e retomou o trabalho no processo de Nikolai após um café da manhã rápido com a Sra. Ivana. Mesmo sem as provas e informações de Caesar, ele ainda precisava garantir que todo o resto estivesse pronto. Pesquisando precedentes legais, já era meio-dia quando percebeu que o tempo havia passado.
“Toc, toc.”
Won deu um pulo. Ivana lhe dirigiu um pequeno sorriso. Ela entrara em seu quarto e batera levemente em seu ombro. Ela parecia nervosa.
— Alguém está aqui para você.
— Certo… okay. — Ele engoliu em seco e pegou seu casaco.
No andar de baixo, um dos subordinados de Caesar o aguardava. Won já o tinha visto antes. Ele estava se dirigindo até ele quando Ivana perguntou:
— Você não quer almoçar primeiro?
— Devemos ir — o homem interrompeu. Sua voz estava carregada de ansiedade. Obviamente, ele não queria deixar o Czar esperando.
Com um sorriso pesaroso, Won beijou a bochecha de Ivana.
— O dever chama. Vejo você hoje à noite, para o jantar.
Ela acenou com a cabeça, e Won saiu, encontrando o carro de Caesar à sua espera. Eles partiram, serpentando entre os bondes e o tráfego, aproximando-se cada vez mais do destino de Won.
✦ ✦ ✦
Ele devia ter adormecido. Um minuto estavam na cidade, no seguinte Won piscava sonolento pela janela, perguntando-se por que estavam dirigindo por um parque. A mente ainda embaçada, ele franziu os olhos desconfiado para a vegetação exuberante que desfilava até que seus neurônios começaram a disparar e ele reconheceu que se tratava apenas de uma entrada privada ostensivamente longa.
A mansão que aguardava no final da alameda era, sem surpresa, igualmente grandiosa, mas ele não estava preparado para sua escala colossal. Um tanto atordoado, Won murmurou um “obrigado” distraído ao mordomo que segurava a porta do carro para ele, depois apenas olhou para cima, para o colosso que se erguia diante dele. Ele não achava que já tinha visto uma casa tão grande em toda a sua vida — fazia o prédio do café parecer uma casa de bonecas em comparação.
— Por aqui, senhor.
Won saiu de seu transe e seguiu apressadamente o mordomo até a entrada, seus próprios movimentos vigiados por homens de terno alinhados ao longo do caminho. Nenhum deles disse uma palavra, e o silêncio assustador só se intensificou no saguão. Isolado do exterior, a quietude se transformou em uma imobilidade opressiva, como um museu. “Ou um necrotério”, pensou Won com sarcasmo.
Depois de sete anos em um país tão marcado por discriminação étnica como a Rússia, ele reconhecia o brilho de desdém nos olhos dos capangas da máfia. Não que eles estivessem tentando escondê-lo.
Aquele que montava guarda perto da porta no fundo da sala fixou os olhos nele e sorriu com desprezo quando Won não desviou o olhar. O duelo de olhares durou o tempo que Won levou para atravessar o saguão e, quando ele se aproximou, o guarda articulou silenciosamente uma única palavra: Bang.
Completando com gestos de arma de dedo. Won teve que conter o impulso de revirar os olhos. Com o rosto inexpressivo, ele passou pelo guarda e foi levado para o que ele presumiu que seria uma sala de estar, mas que só poderia ser descrito como um conservatório. Agradáveis raios de sol atravessavam as paredes e o teto de vidro, derramando luz sobre a exuberante vegetação. Havia um cantinho com um sofá antigo, mesa e relógio, mas o espaço parecia ter sido especificamente construído para imitar o ambiente externo, com trechos de grama intercalados com árvores e canteiros de flores.
Olhando por entre galhos e folhas, o olhar de Won se fixou em um objeto estranho e oblongo suspenso no teto. Ele percebeu que era uma cadeira de ovo suspensa quando avistou longas pernas balançando preguiçosamente por baixo dela. O mordomo se desculpou silenciosamente e se aproximou da cadeira. O suave movimento de balanço parou, e o ocupante da cadeira se levantou, revelando uma figura esbelta e ombros largos.
“Olá, pequeno advogado. Eu estava esperando por você”
Raios de sol se aglomeravam em brilhos radiantes, emoldurando perfeitamente o pequeno sorriso que dançava nos lábios de Caesar.
✦ ✦ ✦
— Nenhum problema na viagem até aqui?
Eles tinham se mudado para outro cômodo, sentados um de frente para o outro em sofás opostos. O mordomo apareceu com chá para os dois antes mesmo de Won perceber que ele havia saído.
— Não — respondeu Won impassível.
Caesar pareceu achar divertida a postura carrancuda dele e deu uma risadinha antes de tomar um gole de chá. Uma pequena ruga surgiu em sua testa, mas ele não disse nada até o mordomo desaparecer por uma porta.
— Ninguém se compara à Ludmila — lamentou Caesar, balançando a cabeça.
Observando as mechas de cabelo loiro quase branco caírem sobre a testa de Caesar, Won percebeu que era a primeira vez que o via tão informal. Em vez de um terno, ele usava uma calça de sarja e um suéter de tricô macio, e deixara o cabelo ao natural.
Sentindo-se como se estivesse invadindo alguma espécie de férias longamente aguardadas, Won comentou secamente:
— Esta é a sua casa, presumo.
— Por quê? Gostou?
— O aquecimento deve ser um pesadelo.
A boca de Caesar se contraiu como se ele estivesse contendo uma risada.
— Nada que eu não possa pagar.
— Claro que não — disse Won, com sarcasmo. “Bastardo rico.” Decidiu que era melhor acabar logo com aquilo.
— Então, o que exatamente você quer que eu faça?
Caesar subitamente se inclinou à frente, e Won teve um momento de pânico antes que os dedos ágeis de Caesar se fechassem sobre seu umidificador de charutos.
— Nada muito exigente. Só uma pequena disputa sobre direitos de propriedade.
Ele levou os charutos ao seu umidificador.
— Está familiarizado com o nome Berdyaev? perguntou, sem levantar os olhos. Won estava, de fato, familiarizado com o nome Berdyaev – como a maioria das pessoas, já que era o nome do ex-prefeito. O homem também estava morto, por sorte.
Semicerrou os olhos, sentindo a irritação crescer quanto mais tempo Caesar levava para escolher um charuto. Ele não tinha ido até lá para ser ignorado. Sua mão disparou, agarrando o pulso de Caesar. Lentamente, Caesar levantou os olhos do umidificador.
A voz de Won era puro veneno.
— Está familiarizado com o fato de que é falta de educação não olhar para as pessoas quando está falando com elas?
Caesar o encarou em silêncio, e Won podia sentir a sutil tensão dos músculos sob seu aperto, sentir o quão forte era o braço em sua mão. Olhos cinzentos escureceram; lábios carnudos se curvaram num sorriso lascivo.
— Erro meu.
Won segurou por mais alguns segundos antes de soltar o pulso de Caesar e recostar-se no assento.
— Este caso envolve o ex-prefeito.
Caesar deixou o umidificador sobre a mesa.
— Percebi — cortou Won.
— E quão acidental foi a morte dele? — Seus olhos se estreitaram em fendas acusadoras.
Caesar deu de ombros.
— Todos morrem eventualmente.
Embora verdadeiro, “eventualmente” chegava mais cedo se você fosse assassinado. Won bufou, continuando a observar o homem à sua frente.
— Sabe — Caesar começou indolentemente —, assumir que tudo o que a máfia faz é ilegal é um tanto… — ele fez um gesto vago com a mão — …tendencioso, não concorda?
Novamente, embora verdadeira, a afirmação não teve nenhum efeito sobre as suspeitas de Won, então seu cenho permaneceu franzido.
Caesar jogou o braço sobre o encosto do sofá.
— Berdyaev nunca se casou. Teve muitas mulheres, mas morreu sem família, sem filhos.
Os olhos de Caesar adquiriram um brilho predador.
— Todo aquele dinheiro e imóveis, apodrecendo.
Won podia prever onde isso ia dar.
— Então você quer tudo.
— Existe alguma razão pela qual eu não deveria? Se eu não pegar, outro vai pegar.
Dessa vez, Won teve que admitir que Caesar estava certo. Todos sabiam dos rumores de que o ex-prefeito era apoiado pela máfia, então os bens de Berdyaev deviam ser substanciais. Disputas sobre propriedade podiam facilmente incitar uma guerra mafiosa.
— Tudo bem — concedeu Won.
— Mas o que isso tem a ver com meu caso?
— Nada.
Caesar soltou uma risada quando a testa de Won se franziu de irritação.
— Mas corrupção nunca acontece sozinha, não é?
Ele voltou a esticar a mão para o umidificador.
— Onde um vai, os outros inevitavelmente seguem.
Won respirou fundo, considerando o que aquilo implicava.
— Berdyaev e Zhdanov estavam em conluio…? — arriscou cuidadosamente.
— Agora vê por que deveria aceitar o caso.
Caesar lançou-lhe um pequeno sorriso, mas Won estava perdido demais em pensamentos para notar.
Se fazer isso pudesse expor Zhdanov, seria o golpe final de que Won precisava. Assim que o escândalo se tornasse público, Zhdanov poderia dar adeus à sua cadeira no conselho – e provavelmente à vida fora de uma cela. E Nikolai manteria a fábrica.
Quanto mais pensava, mais Won sabia que precisava fazer aquilo. “O mundo dá voltas”, e era hora de todos aqueles políticos corruptos receberem o que mereciam.
— Moy tigr encontrou sua presa — murmurou Caesar para si mesmo.
“Ego tiger?” Aquilo foi tão desconcertante que Won saiu dos próprios pensamentos, mas Caesar mudou de assunto antes que ele pudesse pensar muito sobre isso.
— Vou te levar até seu quarto.
— Meu quarto?
— Claro. Igor levou os documentos principais para lá; o resto está no escritório. Ele é conectado ao quarto, então você pode analisá-los com calma—
— Com licença, o quê? — Won o interrompeu rapidamente.
— Não tenho intenção nenhuma de ficar aqui. Me envie tudo e eu entrarei em contato quando tiver analisado.
Caesar fingiu surpresa.
— Enviar tudo? E onde exatamente você colocaria? Você estaria dormindo no corredor.
Ele falou como se já tivesse visto o quarto de Won antes… “Não… isso seria ridículo. Não tinha como… certo?”
— É realmente surpreendente você ter aguentado aquele lugar por sete anos — acrescentou Caesar — Por que nunca se mudou?
Won poderia ter se mudado, claro. E por mais que prezasse a amizade com a Sra. Ivana, havia um motivo específico pelo qual ele nunca iria para outro lugar se pudesse evitar.
— Tenho suíte.
— Uma suíte. Tipo um chuveiro.
Caesar riu em voz alta.
— Que tipo de lugar não tem banheiro próprio?
A maioria das pensões, mas Won não estava disposto a explicar banheiros e chuveiros comunitários para Caesar – que provava mais uma vez ser um bastardo burguês.
— Muitos não têm — disse Won secamente.
Caesar piscou.
— Sério?
Won tinha quase certeza de que a surpresa dele era genuína dessa vez.
Por mais satisfatório que normalmente fosse provar que um sabe-tudo insuportável não sabia de tudo, Won se sentia mais cínico do que qualquer outra coisa. Caesar poderia passar a vida inteira sem saber da existência de apartamentos compartilhados ou banheiros coletivos e ainda assim estaria perfeitamente bem. Não era algo com que ele jamais teria que se preocupar, e ver essa desigualdade social esfregada na sua cara deixava um gosto amargo na boca de Won.
Ele se lembrou da vez em que todos os canos da suíte congelaram na pensão, anos atrás; foi extremamente estressante para todos. Depois disso, eles juntaram dinheiro e a Sra. Ivana mandou instalar um chuveiro comunitário e um banheiro extra, o que foi uma sorte, pois todo mundo teve que usar o chuveiro coletivo pelo menos uma vez por ano, quando os canos do apartamento congelavam de novo.
De qualquer forma, Won não estava com humor para ficar mais tempo.
— Deixa pra lá vou fazer o trajeto diariamente.
— Trajeto? repetiu Caesar lentamente.
— Estarei aqui das nove às cinco. Espero que providenciem almoço. — Won se levantou — Eu mesmo me despeço.
Os olhos de Caesar se estreitaram.
— Não espere ser trazido de carro até aqui também.
— Vou pegar um bonde.
— Ah. Ah, meu Deus. — Havia um tom sarcástico na voz de Caesar agora. — Temo que não existam bondes para você pegar. Posso mandar construir uma estação aqui perto, se quiser.
— Não será necessário. Won exibiu um sorriso forçado de pura falsidade.
Caesar deu de ombros com indiferença, mas Won podia sentir o “Você que sabe” que teria acompanhado o gesto. Ele se virou e saiu antes que Caesar pudesse dizer mais alguma coisa.
A porta se fechou com um estalido, e Caesar soltou uma risada.
— Não será necessário.
Escolheu um charuto do umidificador, um leve sorriso no rosto.
— Vamos ver, pequeno advogado.
✦ ✦ ✦
No dia seguinte, pouco antes das nove horas, o ruído feio de um motor mal regulado interrompeu Caesar justamente quando ele estava prestes a entrar em seu carro. Virando a cabeça, deparou-se com a visão de uma lambreta decrepita buzinando em sua entrada.
O triste veículo avançou até Caesar e todos os seus capangas de terno, então soltou o que só podia ser um último suspiro mecânico quando parou abruptamente exatamente às nove em ponto.
No silêncio ensurdecedor que se seguiu, o único som foi a inalação afiada de Caesar quando Won se levantou e removeu o capacete. Seus olhos percorreram entre o terno barato de Won e a aberração automotiva ao seu lado, sem acreditar no que estava vendo.
Won ajustou as mangas e a alça de sua pasta.
— Bom dia — disse ele animadamente, e passou por Caesar em direção à porta da frente. Ondas de animosidade emanavam dos mafiosos quando ele passou, mas Won não deixou que isso o afetasse.
Ao chegar à porta, olhou para trás, para o mordomo, com um sorriso cortês estampado no rosto.
— Seria tão gentil a ponto de me levar à biblioteca?
O mordomo olhou para ele, depois para Caesar, e novamente para ele. Parecia hesitante, como se temesse que o Czar não ficaria contente se ele não se despedisse adequadamente.
— Vá — Caesar ordenou com um movimento de queixo. O mordomo correu de volta para a mansão e conduziu Won para dentro.
Enquanto isso, com a manhã já começando de forma estranha, os mafiosos do lado de fora não estavam preparados para o sorriso que floresceu no rosto de Caesar enquanto ele olhava para sua própria porta da frente. Todos trocaram olhares furtivos e incrédulos, precisando confirmar que nenhum deles estava alucinando.
Eles não conheciam aquele homem e seu sorriso afetuoso, e era francamente perturbador. Quase se esqueceram de fazer reverência quando o Czar entrou em seu carro e o motor roncou suavemente. Felizmente, um homem teve a presença de espírito de lembrar e salvou a todos enquanto o carro deslizava pela alameda.
No banco de trás, Caesar estava estranhamente quieto.
— Uma lambreta.
Ele estalou a língua.
— Veremos.
O som de sua voz foi alto o suficiente apenas para chegar ao banco da frente. Os olhos do motorista piscaram no retrovisor, mas Caesar permaneceu em silêncio pelo resto da viagem.
— Bom dia, senhor.
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Won vinha recebendo a mesma saudação sem graça do mordomo há alguns dias. No primeiro dia, ele entrara no escritório e percebera que Caesar estivera errado sobre o volume de documentação – ele teria que dormir na rua se tentasse levar tudo para casa, pois o segundo andar inteiro não seria suficiente para armazenar tudo.
Analisar tudo seria uma grande tarefa, mesmo com o pouco que leu até então confirmou que Berdyaev foi repugnantemente rico e seus métodos de aquisição foram igualmente chocantes.
Em certo momento, Won até se pegou pensando que o mundo era sem dúvida um lugar melhor sem Berdyaev, mas imediatamente afastou o pensamento. Ele estava lá para coletar informações, não para julgar.
Por sorte ou design, Caesar nunca estava em casa quando Won estava lá. Eles se viam por alguns segundos às nove da manhã e essa era a extensão de suas interações diárias. Won estava secretamente grato por isso – assim podia se concentrar no trabalho.
— Por aqui, por favor.
E essas eram as mesmas instruções sem graça que Won recebia toda manhã. A essa altura, Won já poderia encontrar o escritório sozinho, mas não se deu ao trabalho de reclamar. O mordomo – diferente da maioria dos russos que Won conhecera era avesso a contatos. Ele era o tipo de pessoa que fazia seu trabalho e fazia bem, mas não se importava em fazer mais do que isso. Ele e os mafiosos que sempre circulavam pelo lugar eram parecidos nesse aspecto.
Subitamente ocorreu a Won que o mordomo também poderia ser etnicamente russo. Isso explicaria melhor seu comportamento. A Rússia certamente tinha sua parcela de terrorismo e conflitos internacionais, mas a discriminação racial e étnica era particularmente severa. Havia uma divisão entre os russkiye – como os russos puros se referiam a si mesmos – e os rossiyane – ou cidadãos da Rússia de qualquer origem. As tensões eram altas entre aqueles que subscreviam tais crenças, e era ingênuo pensar o contrário. Won sentira isso no primeiro dia em que visitara a mansão.
Provavelmente deveria ter sido óbvio para ele que o Sindicato era composto por russkiye naquele exato momento.
( Russkiye = Palavra para Russos étnicos, origem eslava, cultura e língua russa)
Sendo esse o caso, Won não tinha ideia do que Caesar estava pensando ao convidá-lo para sua casa. Felizmente, não houve ameaças explícitas contra ele, mas passar o dia todo em um lugar onde claramente não era bem-vindo não era sua ideia de diversão. A animosidade aberta dirigida a ele era horrível de se experimentar. Até a pessoa encarregada de garantir seu conforto não se dava ao trabalho de esconder o ódio em seus olhos. O mordomo só era cordial porque recebera ordens para isso.
Won decidiu que analisaria todos os materiais do caso Berdyaev, então daria o fora daquele lugar e nunca mais voltaria.
— Por favor, me avise se precisar de algo. — O mordomo desapareceu, deixando Won em frente ao escritório.
Dentro, Won levou um momento para planejar seu caminho pelo chão. Cuidadosamente passando por processos e dossiês espalhados por todas as superfícies e contornando pilhas de papéis precariamente altas, ele chegou ao único espaço livre em todo o cômodo, tirou o paletó, colocou a pasta no chão e começou a trabalhar.
Ele delicadamente pegou parte de um conjunto de documentos que não conseguira terminar de analisar no dia anterior. Esse conjunto, em particular, traçava a história das aquisições de Berdyaev, e este era na verdade o terceiro dia que passaria lidando com ele. Se possível, gostaria muito de começar outra coisa amanhã.
Com o marcador pronto, Won se preparou para um longo dia.
✦ ✦ ✦
No final do corredor, o mordomo olhou para a porta do escritório antes de se virar. Era hora.
Seu passo decidido o levou até a porta da frente e para fora, até a inocente lambreta estacionada a poucos metros.
Ele recebera ordens para pôr um fim em seu sofrimento.
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— E isso — Won colocou o último pedaço de papel — é tudo.
Ele respirou fundo e soltou o ar lentamente enquanto se espreguiçava. Por algum milagre, ele conseguira terminar a última parte. Apenas as seções que destacara somariam centenas de páginas, mas ele tinha as informações de que precisava.
Claro, o problema agora era usar essas informações para legalmente dar a Caesar a posse de tudo.
Won soltou um suspiro resignado e… “Por que está escuro lá fora?”
Ele ergueu a mão rapidamente para verificar o relógio e encarou o ponteiro enquanto ele se movia quase imperceptivelmente em direção ao 1, então deixou a cabeça cair para trás para encarar o lustre que iluminava alegremente o cômodo.
Ele ia perder o último bonde.
Ele se levantou de um salto, pegando seu paletó e sua pasta. As montanhas de papel impediam uma saída rápida, mas ele fez o possível para sair sem derrubar nada, arrancando a porta quando a alcançou e colidindo com uma parede.
Percebeu que não era, de fato uma parede quando sentiu o calor de um braço familiar envolvendo sua cintura firmemente.
— Você realmente parece gostar de me fazer te segurar… Você está sempre correndo para mim.
O comentário estava carregado de riso. Inclinando a cabeça para trás, Won foi recebido por um sorriso conhecido.
A abrupta colisão com o peito de Caesar deixou Won momentaneamente atordoado demais para formular uma resposta. Ele apenas olhou para Caesar como um idiota, com a boca aberta.
Então, algo no ar mudou – o leve sorriso no rosto de Caesar desapareceu, o brilho penetrante em seus olhos suavizando para algo mais. Por alguns breves segundos, o mundo parou, e nenhum dos dois parecia capaz de desviar o olhar.
O olhar de Caesar ficou pesado, sua cabeça inclinando para o lado enquanto sua mão puxava Won para mais perto com uma pressão suave. Longos cílios elegantes dominaram a visão de Won, e um frágil suspiro, quase suave demais para sentir, roçou seus lábios enquanto seu rosto corava com a aproximação de Caesar. Assim, a realidade voltou com força e Won se soltou do abraço de Caesar com um empurrão no ombro do homem, escapando antes que Caesar pudesse detê-lo.
Eles se encararam, chocados e com os olhos arregalados, o braço de Caesar ainda pendendo estranhamente no ar.
— Desculpe – eu – está tarde. — Won saiu correndo, ofegante, apenas para fechar a boca imediatamente novamente. Sentindo-se inexplicavelmente desamparado após a perda do braço de Caesar em sua cintura, ele agarrou qualquer coisa para se distrair da sensação, mas seus tropeços só pareciam piorar as coisas.
O que ele estava fazendo? E por que o mordomo não lhe dissera que era hora de ir? Ele fizera isso todos os outros dias – por que não hoje? Won estivera tão absorto em seu trabalho? Tão absorto que não ouvira o mordomo chamando por ele? Won estremeceu, envergonhado com o pensamento.
— Sim. Posso ver isso — Caesar disse, baixando o braço. — E o que foi que te deixou tão agitado?
O pequeno sorriso voltou, permitindo que Won sacudisse sua vergonha por um momento. Ele precisava ir para casa. Mas definitivamente perdera o último bonde agora. Uma imagem de sua lambreta decadente veio à sua mente, e ele fez uma careta. Quase não havia como chegar ao café com a lambreta – ela mal conseguia ir da estação até a entrada da mansão.
Um suspiro de sofrimento ameaçou escapar de seus lábios, mas ele o reprimiu e começou a descer o corredor em direção à porta da frente. Ele tinha que voltar de um jeito ou de outro.
Mal sabia ele que não haveria jeito nenhum.
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Won ficou paralisado diante do que outrora fora conhecido como sua lambreta. O único motivo pelo qual reconheceu aquele amontoado de metal como algo mais que sucata e pneus cortados foi o fato de estar exatamente onde a estacionara de manhã.
Respirando fundo, Won prestou suas últimas homenagens ao falecido (e valioso) companheiro, então girou nos calcanhares para encarar o homem atrás dele, cruzando os braços com um olhar assassino que exigia explicações.
— Hmm. O que será que aconteceu? — Caesar disse. Won não caiu naquilo, apertando os olhos e batendo o pé impaciente.
— Provavelmente um gato — Caesar acrescentou, como se comentassem o clima. — Pulou em cima e virou. Que azar.
Ele forçou um sorriso fingido.
— Acho que você está preso aqui até arrumar outra.
“A audácia desse homem.” Won cerrou as mãos, questionando como alguém tão irritantemente despreocupado podia viver consigo mesmo. O sujeito destruíra seu único meio de transporte – comprado com suado dinheiro, diga-se de passagem – e ali ficava, com ar de inocência! Won preferiria morrer no ato a ser tão insuportável.
Deveria estar em casa, dormindo – e parte dele queria mandar Caesar à merda e ir embora a pé. Mas sabia que os bondes não circulavam àquela hora, e levaria horas até o café. Pior: Caesar o queria ali e jamais ofereceria carona. Estava encurralado.
Ondas de raiva e pânico o invadiram, e Won começou a contar mentalmente até se acalmar. Chegou a 3245 antes de relaxar os punhos. Olhou para Caesar – ainda fingindo inocência, quase fazendo-o recomeçar a contagem – e disse cortante:
— Você me paga por cada hora extra aqui. Presumo que não preciso lembrá-lo dos meus dados bancários.
Caesar sorriu.
— Não, está resolvido.
“Provavelmente ele sabe até o nome do meu primeiro bicho de estimação”, Won pensou, revirando os olhos mentalmente enquanto voltava para a mansão.
✦ ✦ ✦
Continua parte 2…
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✦ Tradução, revisão e Raws: Belladonna
Ler Roses And Champagne (Novel) Yaoi Mangá Online
Sinopse:
O advogado de direitos civis Lee Won atua na Rússia, defendendo clientes de baixa renda que não teriam acesso a um jurista. Um dia, ele visita o vereador Zhdanov para interceder por seu cliente Nikolai. Won desconhece que o político tem ligações com a máfia russa — até se deparar com César durante a reunião. E aquele homem de olhos prateados e cinzentos… era o mesmo com quem Won quase colidira na rua dias antes! Algo fora do comum está prestes a acontecer quando ele conhece César Aleksandrovich Sergeyev, o homem que em breve liderará um dos grupos mafiosos mais temidos do país.