Ler Projection (Novel) – Capítulo Parte 01 Online


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Projection Vol. 1

A fumaça branca se dispersou no ar. O homem baixou a mão enquanto mantinha o cigarro entre os lábios. A pequena cabeça posicionada abaixo de sua cintura movia-se lentamente. Ao enfiar a mão entre os fios macios do jovem parceiro e acariciá-lo, ele sentiu o prazer subir por sua espinha.

O suor frio brotava devido ao esforço para conter a ejaculação que latejava intensamente. Ah… Junto com um gemido que escapou como um suspiro, pequenas gotas de suor acumuladas em sua nuca escorreram para baixo.

O tigre negro que mostrava as presas ferozmente nas costas do homem, Cheon Seju, exibia garras afiadas como se estivesse prestes a estraçalhar o oponente a qualquer momento. Uma pequena gota deslizou pela grande pata tatuada acima da cintura estreita em comparação aos ombros. Finalmente, no instante em que o suor escorregou pelas nádegas firmes e caiu no chão, Cheon Seju pressionou com força a nuca do outro e ejaculou no fundo de sua garganta.

— Haa, haa.

O homem que logo cuspiu o membro avantajado, Kang Doyun, olhou para ele com os olhos avermelhados enquanto sua respiração saía pesada. Cheon Seju acariciou a testa suada dele, roçou sua bochecha e deu um sorriso leve.

— Bom trabalho.

Por aquele elogio insignificante, Doyun deu uma risadinha e deitou-se na cama. Cheon Seju, que sorriu acompanhando-o, esmagou o cigarro que ainda estava entre seus lábios no cinzeiro e baixou o olhar para a mesa de cabeceira ao lado. O celular deixado ali emitia luz continuamente já faz um tempo. Após verificar o remetente, Cheon Seju encarou o nome com um rosto indiferente e, só depois de um longo momento, estendeu a mão para pegar o aparelho.

Ao apertar o botão de chamada, uma voz familiar veio do outro lado do alto-falante.

— Chefe.

Cheon Seju, no entanto, não respondeu e começou a caminhar. Ao vestir o roupão que fora jogado sobre o sofá, o tigre que rugia em suas costas desapareceu instantaneamente. Amarrando frouxamente o cinto que pendia até o chão, ele se dirigiu à sala de estar.

— Chefe, o senhor acordou?

A sala de estar da suíte estava envolta em um silêncio absoluto. Sentindo a textura do tapete que envolvia seus pés com aspereza, Cheon Seju aproximou-se do bar de café ao lado do banheiro. Ao colocar o relógio de pulso que estava diante da caneca, viu que eram 9 horas. Sábado, 9 horas da manhã. Um horário em que o contato de qualquer pessoa não seria bem-vindo.

— Chefe, me desculpe…

Ainda mais se tratando do contato de um membro da organização soltando esse insuportável chamado de “chefe”. Com a irritação crescendo, Cheon Seju não respondeu e ligou a cafeteira. Enquanto inseria a cápsula na máquina e tirava um café expresso quente, colocou outro cigarro na boca e o acendeu. A fumaça acre obscureceu sua visão. Cheon Seju olhou para o celular através do ar enevoado. O tempo de chamada acabara de passar de um minuto.

Em seguida, Cheon Seju tragou profundamente o filtro até suas bochechas encovarem e apagou o cigarro, que estava pela metade, no cinzeiro ao lado. Com um clique, apertou o botão para descartar a cápsula e pegou uma nova. Pelo barulho transmitido pelo alto-falante, o interlocutor soltou um som que parecia um lamento.

— É realmente a última vez. Por favor, me ajude só mais uma vez. Se algo assim acontecer de novo, aí eu simplesmente…

— Você me acha um palhaço, não é?

Diante da pergunta afiada, veio imediatamente uma resposta negativa dizendo que “claro que não”. Soltando um suspiro irritado, ele desligou o telefone sem sequer ouvir a explicação que se seguia.

Um telefonema a essa hora, não havia mais nada para ouvir. Não era a primeira vez que o novato do escritório deletava os arquivos de contabilidade. Ele já tinha feito essa palhaçada duas vezes, e mesmo tendo sido severamente repreendido em ambas, fez de novo. Parece que só vai tomar jeito se apanhar. Cheon Seju fechou os olhos sentindo o cansaço.

Por ele, fingiria que não sabia de nada, mas como sabia que, se não fosse, o novato responsável pela bagunça seria espancado até sangrar, não conseguia simplesmente ignorar. Cheon Seju soltou um curto suspiro, deixou o celular de lado e pegou as duas canecas com café nas mãos.

Ao voltar para o quarto, Doyun, que estava deitado de bruços na cama olhando pela janela, estendeu a mão para ele. Entregando a caneca nas mãos dele, que já sorria com os olhos desde cedo, Cheon Seju tomou um gole de seu próprio café e disse:

— Tenho que ir.

— Já?

Doyun levantou a cabeça ao ouvir aquilo. Seu semblante de decepção era evidente. Apesar de terem se encontrado após muito tempo e passado alguns dias juntos, parecia que para Doyun aquilo ainda não era o suficiente.

— Surgiu um problema.

Ao explicar brevemente a situação, Doyun deu de ombros e resmungou:

— Não tem jeito, então…

No entanto, ao contrário de suas palavras de aceitação, sua ação foi o oposto. Após virar o expresso já morno de uma vez, Doyun engatinhou sobre a cama em direção a Cheon Seju. Estendendo a mão com um sorriso no rosto bonito, Doyun sussurrou baixinho enquanto desamarrava o cinto do roupão dele:

— Então fique só mais 30 minutos e depois vá…

Era uma sedução direta e atrevida. Cheon Seju, que olhava para Doyun com um olhar frio, em certo momento soltou uma risadinha e desceu seu corpo sobre a cama. Suas mãos grandes seguraram as pernas de Kang Doyun, abrindo-as.

Quando Cheon Seju saiu do hotel com o cabelo úmido, passava um pouco das onze da manhã. O vento soprava entre a gola da camisa com o botão superior aberto. Sentia o calor que subira à cabeça esfriar drasticamente. Diante do vento gelado, frio demais para ser encarado com o corpo exposto nesta transição do verão para o inverno, Cheon Seju fumou um cigarro enquanto o carro era preparado. Com a mão que segurava o cigarro, ele bagunçou os cabelos ainda úmidos e pegou o celular.

32 chamadas perdidas. A tela estava cheia de vestígios de quem o procurara com persistência. Além disso, como se para mostrar que não desistira mesmo após quase duas horas desde que ele desligara sem dizer nada, o telefone tocou novamente no mesmo instante. O remetente era o mesmo sujeito de antes.

— Chefe! Por favor!

Assim que atendeu, ouviu uma voz implorando quase num grito. Sem querer nem ouvir aquilo, Cheon Seju, com o cigarro na boca, disse apenas “estou indo” e desligou de novo.

— Senhor, vou trazer seu veículo por aqui.

Um funcionário do valet aproximou-se de Cheon Seju, que massageava os olhos devido ao cansaço profundo. À sua frente, uma Lamborghini branca acabara de estacionar. Cheon Seju percebeu tardiamente que aquele era seu carro novo e tirou a carteira do bolso de trás da calça. Entregou uma nota de cinquenta mil won ao funcionário e entrou no banco do motorista cuja porta estava aberta.

Do hotel até a financeira não era uma distância muito longa. O carro esportivo branco em que ele estava chegou ao destino em apenas 10 minutos.

Cheon Seju parou o carro rente à calçada e virou a cabeça. Pela janela, via-se um prédio antigo. Perto da porta de vidro, que tinha marcas de adesivos aqui e ali, avistavam-se alguns brutamontes fazendo guarda. Eles, que fumavam com rostos entediados, reconheceram o veículo se aproximando da calçada e caminharam rapidamente em sua direção.

Os homens se perfilaram esperando que Cheon Seju desembarcasse. Sentado no banco do motorista observando aquela cena, Cheon Seju fechou e abriu os olhos em silêncio. Toda vez que vinha a este lugar, sentia um desconforto no estômago, como se estivesse usando uma roupa que não lhe servia. No entanto, era algo inevitável e que precisava ser feito. Cheon Seju cobriu seu rosto indiferente com uma máscara gélida e abriu a porta do motorista.

— O senhor chegou, chefe!

O som da saudação vigorosa ecoou pelos arredores. Ao descer do carro, Cheon Seju acenou levemente com a cabeça enquanto carregava o paletó do terno sob o braço esquerdo. Pela atmosfera que, apenas por sua presença, deixava as pessoas tensas, os homens engoliram seco.

Sem dizer muito, ele passou pelos brutamontes e dirigiu-se à entrada do prédio. Foi o momento em que os homens, relaxando a tensão, suspiraram e esticaram as costas. Cheon Seju, parando subitamente, chutou uma bituca de cigarro que estava jogada perto da porta.

— Limpem isso, seus merdas.

Diante da ordem dita em voz baixa, os brutamontes correram desesperados e curvaram as costas novamente. Enquanto eles recolhiam as dezenas de bitucas caídas perto da porta de entrada, Cheon Seju suspirou e entrou.

Havia o cheiro de mofo úmido característico de prédios velhos. A Shinsa Capital estava localizada em um ambiente que Cheon Seju, que detestava coisas sujas, não tinha como não odiar. O prédio construído nos anos 80, que resistira por décadas sem reforma, era tão mal cuidado que, mesmo olhando com os olhos semicerrados, dava para sentir claramente que o interior era sombrio e imundo.

Mas parece que ser velho e sujo daquele jeito ainda não era o suficiente. Hoje, no caminho para o fim do corredor onde ficava o elevador, havia até um saco enorme jogado. “Desgraçados porcos, nem para jogar isso fora logo”, pensou ele. No momento em que ia passar pelo monte de lixo, Cheon Seju baixou o olhar e percebeu que o vulto preto que vira vagamente não era lixo, mas sim uma pessoa encolhida vestindo um moletom preto com capuz.

— …

Entre os cabelos compridos, via-se a linha de um queixo fino. O rosto da criança estava pálido e rígido, e o olhar direcionado a Cheon Seju estava cheio de uma hostilidade que poderia ser descrita como puro rancor.

Naquele brevíssimo instante em que seus olhos se cruzaram com os daquela criança bonita, Cheon Seju pôde presumir, apenas pelo que viu de relance, que os pais dela deviam ter pegado um empréstimo alto ali. Provavelmente, a criança estava esperando pelos pais que haviam sido levados para os andares de cima.

Tsc. Ele estalou a língua levemente, franzindo o cenho. Havia tantos pais deploráveis no mundo. No entanto, como não era problema seu, Cheon Seju passou pela criança, pegou o elevador e subiu para o terceiro andar.

Não havia sequer uma formiga no corredor. Lembrando-se de que fora chamado até ali em um dia em que todos os outros estavam descansando, ele abriu a porta do escritório com um chute. Com o barulho da porta batendo, alguns homens que cochilavam sentados em cadeiras levantaram a cabeça sobressaltados.

— Chefe! O senhor chegou!

Cheon Seju franziu a testa diante do tratamento insuportável. Ele não respondeu à saudação e vasculhou o interior do escritório. Por ser sábado, a maioria das mesas estava vazia, e apenas os brutamontes que faziam cobranças dia e noite ocupavam o lugar descansando no sofá.

Mas o escritório estava um lixo. Sobre a mesa, embalagens de salgadinhos e latas de cerveja estavam espalhadas, e no sofá havia até um sujeito dormindo profundamente até agora. Era uma verdadeira bagunça.

Sentindo uma irritação súbita, Cheon Seju aproximou-se e levantou o pé, chutando o sofá. Com o impacto repentino, o sujeito que dormia acordou gritando. Ao ver aquilo, uma voz gélida fluiu de Cheon Seju:

— Aqui é a sua casa? Se for para ficar dormindo, pague o aluguel, seu merda.

— Ah, chefe! O senhor chegou!

— Limpem isso aqui também. Isso aqui é um chiqueiro? Porra, será que eu devo marcar um dia para fazer um abate?

Com a fúria de Cheon Seju, o escritório ficou agitado. “Perdão”, os homens pediam desculpas apressadamente enquanto arrumavam o lugar de qualquer jeito.

Querendo sair logo daquele lugar imundo, Cheon Seju ignorou os sujeitos e dirigiu-se ao fundo do escritório. No entanto, não havia ninguém dentro da sala de contabilidade dividida por divisórias. Ao ver apenas o computador que ele teria que consertar ligado solitariamente, ele distorceu suas sobrancelhas bem desenhadas.

Havia um motivo plausível para Cheon Seju, o executor da organização, acabar no papel de dono de uma financeira que não combinava em nada com ele. O ocorrido foi simples: três meses atrás, houve uma grande briga entre membros da organização dentro da Shinsa Capital, e os funcionários civis de temperamento fraco que testemunharam a batalha sangrenta pediram demissão em massa. A notícia de que a Shinsa Capital tinha virado uma bagunça chegou até Shin Kyoyeon, o sucessor da organização, e quando surgiu a necessidade de alguém para colocar ordem no lugar, ele convocou Cheon Seju.

Os dois membros da organização que iniciaram a briga sofreram uma punição implacável de Cheon Seju. Um vento de sangue soprou no escritório e, após o clima se estabilizar, ele começou a contratar novos funcionários para trabalhar na empresa.

O problema começou aí. Não se sabe como o boato se espalhou, mas simplesmente não se conseguia ninguém para cuidar da parte contábil. Como a vaga no escritório não era preenchida mesmo após uma semana, Cheon Seju acabou selecionando alguns membros jovens e promissores da organização para assumirem as tarefas temporariamente.

O sujeito que causou o problema desta vez era um deles. Ele parecia inteligente, então foi encarregado da contabilidade, mas o problema era que ele não era meticuloso e vivia cometendo erros. E, infelizmente, a única pessoa na Shinsa Capital capaz de reverter esses erros no momento era Cheon Seju.

Aonde ele teria ido depois de me chamar para limpar a sujeira dele? Cheon Seju soltou um suspiro irritado e perguntou em voz alta:

— Onde está o novato?

No entanto, nenhum dos sujeitos respondeu à pergunta. Franziu o rosto e, com os olhos semicerrados, Cheon Seju observou além da divisória. Viu os brutamontes cutucando as costelas uns dos outros, adiando a resposta. Era óbvio que algo desconfortável de se contar a ele havia acontecido ali.

Ha. Soltando um suspiro pesado, Cheon Seju sentou-se na mesa e massageou a testa latejante por um instante. Repetiu o gesto até que um lado da testa, coberto pelo cabelo, ficasse avermelhado, e então fez outra pergunta. Pensando bem, outro sujeito que deveria estar ali também não estava à vista.

— Mun Seonhyeok foi para casa?

— Não, ele ainda está aqui.

— Onde ele foi?

— …É que, bem, por um instante, ali fora.

Mun Seonhyeok pertencia originalmente à equipe de processamento e era um dos subordinados diretos que cortaria o próprio pescoço se Cheon Seju ordenasse.

Ele tinha dito com certeza ontem que estaria aqui o sábado inteiro, e agora estava fora de seu posto. No momento em que a suspeita atípica de Seju crescia em relação a Mun Seonhyeok…

Mun Seonhyeok entrou no escritório secando o dorso das mãos com papel-toalha, como se tivesse acabado de lavá-las. Cabelo cortado curto e estrutura física imponente. Mun Seonhyeok era maior do que qualquer outra pessoa ali. Assim que avistou Seju, aproximou-se e curvou a cabeça respeitosamente para ele.

— O senhor chegou.

— …

Cheon Seju baixou o olhar em silêncio. Viu que, sob o papel-toalha, não apenas as mãos, mas as mangas da camisa ainda tinham vestígios de umidade. Seju, que conhecia a tendência obsessiva por limpeza de Mun Seonhyeok, logo percebeu o que havia acontecido no escritório antes de sua chegada.

O lábio firmemente fechado inclinou-se de lado. A linha da mandíbula de Cheon Seju, que cerrava os dentes, revelou-se nitidamente, e veias azuis saltaram ao lado do músculo do pescoço. Vendo que o olhar de quem estava à sua frente se dirigia para sua nuca, Cheon Seju levantou a mão e acariciou os vestígios da relação sexual deixados por Kang Doyun. Logo, uma voz baixa escapou dele:

— Seonhyeok.

Sob as sobrancelhas retas, as pupilas indiferentes encararam Mun Seonhyeok. Mun Seonhyeok, sabendo de sua culpa, não teve coragem de sustentar o olhar. Assim que ele baixou a cabeça, os dedos gélidos de Cheon Seju bateram levemente na bochecha de Seonhyeok.

— Quando você vai consertar esse seu vício de usar as mãos?

O movimento que parecia uma brincadeira tornou-se um tapa que estalou na bochecha de Mun Seonhyeok logo após o término da pergunta. Com o som seco que ecoou nitidamente pelo escritório, os brutamontes que limpavam silenciosamente prenderam a respiração. Sentindo os olhares assustados se dirigirem a ele de relance, Cheon Seju fuzilou com o olhar Mun Seonhyeok, que permanecia de cabeça baixa.

— Quem você pensa que é para ficar encostando nos garotos?

O tom de voz que questionava seu mérito era calmo. Cheon Seju não estava furioso, nem se sentia mal. Como sabia o motivo pelo qual Mun Seonhyeok usara violência, não podia condená-lo sinceramente. Aquilo era apenas uma repreensão que Cheon Seju, como responsável pela Shinsa Capital agora, obviamente precisava fazer.

— Sinto muito.

Mun Seonhyeok admitiu seu erro sem uma única desculpa. Diante do pedido de desculpas breve, mas claramente sincero, Cheon Seju estalou a língua internamente e virou a cabeça. Deu ordens aos brutamontes que estavam paralisados para buscarem o encrenqueiro que o fizera vir até ali.

E, pouco depois, o novato retornou com o rosto desanimado e a bochecha inchada. Mun Seonhyeok aplicara a punição primeiro naquele que, por ter causado um problema em pleno fim de semana, forçara a vinda de Cheon Seju.

Poderia até ter deixado passar, já que ele tivera o azar de apanhar de Mun Seonhyeok, mas Cheon Seju, estalando a língua, também desferiu um tapa na bochecha do novato sem qualquer piedade. Desta vez, o som ecoou mais uma vez. Logo, o sangue escorreu pelo canto da boca do novato. Cheon Seju abriu a boca enquanto observava sua aparência lamentável:

— Youngjun.

— Sim…

A mão grande acariciou a cabeça do novato Youngjun. Youngjun, admiravelmente, respondeu em voz alta mesmo com os lábios tremendo. Cheon Seju, olhando para a bochecha inchada e vermelha dele, repreendeu-o com uma voz suave e um sorriso nos lábios:

— Se você tem cérebro, pense. Quantas vezes já foi? Se continuar assim, vou começar a ter vontade de abrir sua cabeça para conferir se realmente tem algo aí dentro.

— N-não farei isso nunca mais!

— Assim espero… Quantos dos seus veteranos precisam se envolver para limpar sua sujeira?

— Sinto muito!

Diante do pedido de desculpas vigoroso de Youngjun, um cansaço súbito o atingiu. Preferia mil vezes bater em alguém do que fazer esse papel ridículo de “chefe”; realmente não combinava com ele. Cheon Seju sentiu vontade de ir logo para casa descansar.

Ele deixou Youngjun, que gritava com os olhos marejados, e virou-se. Youngjun seguiu Cheon Seju, que passava pela divisória em direção à sala de contabilidade. Só então a paz retornou ao escritório. Mun Seonhyeok saiu para comprar café para Cheon Seju, e os brutamontes, observando o humor de Cheon Seju, voltaram a limpar.

— Pegue o mouse e faça o que eu disser.

Sentado no parapeito da janela da sala de contabilidade, Cheon Seju ensinava o método de recuperação de arquivos para Youngjun, que segurava o mouse em uma postura rígida, dando ordens sobre o que fazer. Quase levantou o punho quando Youngjun tentou sobrescrever o arquivo de backup mais recente ao contrário pela segunda vez, mas felizmente, a partir da terceira tentativa, ele aprendeu o método de recuperação com clareza, não havendo mais motivo para irritação.

Finalmente, a recuperação terminou e, enquanto Youngjun inseria os dados contábeis que precisavam ser entregues ainda hoje, Cheon Seju não saiu do lugar; ficou apenas olhando pela janela enquanto bebia o Americano gelado que Seonhyeok comprara. Foi por causa da preguiça que bateu no momento em que ia para casa. Ele chamou alguém em voz alta quando já fazia pouco mais de uma hora que chegara ao escritório.

— Ei!

Lá embaixo, na calçada a 10 metros da janela, um homem que rondava a Lamborghini branca encolheu os ombros ao ouvir o chamado. Logo em seguida, ele fingiu que não ouviu e apressou o passo para passar pelo carro. Cheon Seju, achando aquilo um absurdo, atirou o copo que segurava pela janela.

Puf. O copo descartável, que continha apenas gelo, atingiu em cheio o pé do homem. O homem, que deu um sobressalto de susto, logo fez uma expressão de surpresa como se realmente não soubesse de nada e olhou para o terceiro andar onde Cheon Seju estava.

— Ora, chefe! Quando o senhor chegou?

Diante da pergunta feita aos gritos, Cheon Seju respondeu com uma voz gélida:

— Seu merda atrevido, fingindo que não me viu. Não vai subir?

— Hein? Não estou ouvindo bem! Já estou indo!

O protagonista que ligara para ele trinta vezes desde cedo, Kim Dong-gil, fingiu não ouvir os insultos de Cheon Seju, virou o rosto e moveu-se rapidamente. Ao vê-lo desaparecer para dentro do prédio, Cheon Seju desceu do parapeito e saiu da sala de contabilidade.

— Diretor, o senhor gostaria de ir comer?

Assim que ele saiu, Seonhyeok, que esmagou o cigarro que fumava, correu até ele e perguntou aquilo. “Não precisa”, Cheon Seju afastou Mun Seonhyeok com o braço e dirigiu-se ao bebedouro. Após beber um copo de água gelada, viu Dong-gil entrando no escritório bem na hora.

Cabelo raspado rente, um rosto rechonchudo que não poderia ser chamado de bonito nem por cortesia, mas que brilhava com um aspecto oleoso. Ao cruzar olhares com Cheon Seju, Kim Dong-gil abriu um sorriso radiante com seu rosto estranhamente simpático.

— Quando o senhor chegou?

Ele já devia ter ouvido a notícia de que ele chegara faz tempo, mas o tom de quem fingia não saber irritou-o.

— Pare de palhaçada e venha aqui.

— Estou um pouco ocupado…

— Se eu tiver que ir aí, você apanha.

Assim que Cheon Seju deu um passo, Dong-gil veio correndo como se voasse. Kim Dong-gil, que afastou Mun Seonhyeok com o quadril, parou diante de Cheon Seju com as mãos unidas educadamente. Olhando para aquela cara folgada que dizia para bater sem doer se fosse bater mesmo, ele apontou o queixo para a sala de contabilidade.

— Quando o novato terminar o trabalho, leve-o para comer carne.

Ele devia estar desanimado, já que apanhara de Seju e Seonhyeok, além de ter levado bronca. Quando Youngjun também deixasse o escritório, não sobraria mais ninguém com um nível de inteligência significativo ali. Apenas primatas com aparência humana. Portanto, era preciso cuidar dele enquanto estava lá.

No entanto, ao ouvir que deveria cuidar do novato, Kim Dong-gil fez um bico como se tivesse ouvido algo absurdo e resmungou:

— Eu não tenho dinheiro…

Diante daquelas palavras sem sentido, Cheon Seju irritou-se:

— Esse merda mastiga e engole o próprio dinheiro? Você recebeu o salário ontem.

— Enfiei tudo em criptomoedas. Está na moda ultimamente, não está?

— Ha…

Eu disse para não apostar, e ele vem com essa de criptomoeda. Cheon Seju segurou a cabeça onde a dor latejava com as duas mãos e soltou um suspiro. Se tivesse que bater obrigatoriamente em alguém enquanto trabalhava, Kim Dong-gil era quem ele mais queria bater ali, mas infelizmente não tinha desculpa. Ser burro não era motivo para apanhar.

Sem alternativa, Cheon Seju balançou a cabeça e logo fez um sinal para Seonhyeok, que percebendo rapidamente, buscou e trouxe o paletó que ele havia deixado de lado. Ele tirou a carteira do bolso interno do paletó e colocou algumas notas de cinquenta mil won na mão de Kim Dong-gil.

— Se comer tudo sozinho, você morre.

— Sim, obrigado!

Vendo-o responder com um sorriso largo, ele não lhe pareceu nem um pouco confiável. Cheon Seju engoliu a irritação e perguntou a ele:

— Quantos garotos estão lá em cima?

— Nenhum. A correria acabou, então é só isso.

Como não precisava se preocupar com os sujeitos que guardavam a entrada, somando Dong-gil, Youngjun e os brutamontes, eram apenas cinco ou seis. Mas, sabendo o quanto eles comiam, Cheon Seju tirou mais duas notas de valor alto da carteira e as entregou. Para não deixar o novato passar fome, era preciso encher bem a barriga dos de cima. A boca de Dong-gil se abriu em um sorriso largo ao segurar o dinheiro.

— Puxa, que sorte termos o nosso Diretor Cheon aqui. Antigamente, a gente vivia passando fome todo dia…

— Deixa de conversa fiada. Estou indo.

No momento em que Cheon Seju, que não queria ficar nem mais um minuto naquele lugar sujo, vestia o paletó e se virava, Kim Dong-gil perguntou com uma voz sugestiva:

— Ah, o Diretor Han disse que vem às 13h, o senhor vai embora sem vê-lo?

— …

Ao ouvir o nome do Diretor Han, o rosto de Cheon Seju se contorceu em irritação. Logo, virando-se para trás, ele olhou para Dong-gil e levantou a mão. Com o dedo girando ao lado da têmpora, Cheon Seju disse:

— Você ficou louco?

— Como eu poderia estar? É só porque faz tempo que o senhor não vem, então quis dizer para ficar um pouco mais antes de ir.

Cheon Seju sabia muito bem que, embora fingisse ser desatento, Kim Dong-gil era mais rápido do que qualquer um para perceber as coisas e habilidoso em lidar com situações sociais.

O Diretor Han, Han Jong-hyeon, era, assim como Cheon Seju, um dos indivíduos sob o comando do sucessor da organização, Shin Kyoyeon, e era um sujeito desprezível que era louco por mulheres.

O motivo de ele passar na Shinsa Capital era apenas um: sob o pretexto de pagar as dívidas, ele queria brincar com garotas jovens que, sem medo, haviam pegado empréstimos e sido levadas ao limite pela cobrança.

As palavras de Kim Dong-gil significavam que ele queria que Cheon Seju lidasse com aquele Diretor Han. Mas Cheon Seju não tinha a menor intenção de fazer isso. Não era problema dele se o irritante Kim Dong-gil ficasse em apuros, e também era pelo fato de o tal Diretor Han ser uma figura extremamente irritante. Cheon Seju não queria cruzar com ele de jeito nenhum.

— Para mim já deu, você que lamba e chupe muito o Diretor Han.

Cheon Seju virou as costas soltando palavras que Han Jong-hyeon detestaria. No entanto, no instante em que parou diante da porta de saída, um rosto surgiu em sua mente. Ele franziu o cenho ao se lembrar da garota que vira no andar de baixo.

Mesmo tendo-a visto apenas de relance, era uma criança tão bonita que ficara marcada em sua memória. Não parecia ser adulta, mas ele se lembrava vagamente de ter ouvido que Han Jong-hyeon era o tipo de sujeito que mexia até com menores de idade.

Porra. Cheon Seju fechou os olhos com força e passou a língua por dentro da boca. “Não é problema meu”, repetiu para si mesmo, mas seus pés não se moviam. Sentindo aversão a si mesmo por aquilo, ele bagunçou o próprio cabelo e acabou encostando o quadril em uma mesa perto da porta, perguntando:

— Aquela criança lá embaixo, quem é?

— Criança? Ah…

Ele esperava uma resposta do tipo “Quem? Não tinha ninguém”, mas Kim Dong-gil assentiu, franzindo os olhos como se soubesse. “Ainda está lá”, Dong-gil explicou ao notar o sinal de cabeça de Cheon Seju:

— Quem mais seria? O pai pegou dinheiro emprestado e fugiu, então a mãe que foi fiadora foi levada. Mas faz alguns dias que ela está lá pedindo para ser levada para onde a mãe dela está.

Ela não estava esperando pelos pais trazidos para a cobrança. Estava esperando pelo retorno da mãe, que já fora levada para uma empresa para pagar a dívida.

Aquela criança pequena, sozinha, aqui…

O gosto na boca ficou amargo. Devia ter ido para casa esperar quietinha, o que ela acha que pode fazer ficando plantada aqui? Cheon Seju estalou a língua internamente e perguntou de volta:

— Faz quantos dias?

— Uns três dias…? Três dias são quatro dias, né?

— Três dias, seu burro.

Diante da bronca de Cheon Seju, Kim Dong-gil deu uma risadinha. Logo, um suspiro exagerado saiu de Dong-gil:

— Puxa, o temperamento daquele pirralho não é brincadeira. Mesmo mandando ir para casa, ele grita a plenos pulmões pedindo para ser levado para a mãe. Sério, não é brincadeira. Ele não sai do lugar de jeito nenhum, e eu fiquei com medo de que, se eu encostasse um dedo nele para expulsá-lo, ele chamasse a polícia, então apenas o deixei lá.

— Acho que ele não tem mais casa agora, sabia? Por isso que, mesmo querendo ir, não pode.

Atrás da voz tagarela de Kim Dong-gil, alguém se intrometeu. Ao virar a cabeça, viu que era um dos brutamontes que limpava o sofá enquanto observava o clima. Querendo saber o que significava aquilo de não ter casa, Cheon Seju olhou para ele, e o homem explicou com gestos exagerados:

— É que anteontem fui na casa dele para receber o dinheiro e vi que tinha outros caras lá além de nós. Sabe, aqueles sujeitos da Haechan. Aqueles merdas chegaram antes da gente, tiraram o dinheiro do depósito da casa e iam levar a tia também, mas eu fui lá, puf, derrubei eles com socos e a trouxe. Como perderam a tia, eles iam tentar levar o moleque, mas eu disse que se encostassem em criança iam morrer, mandei eles pegarem o depósito e caírem fora, fiz até um sinal de dedo antes de sair.

— Kim Maeng-gi finalmente fez valer a comida que come.

Ao ouvir a fala orgulhosa do homem, Dong-gil sorriu e fez sinal de positivo. Cheon Seju praguejou internamente. Parecia que a única protetora da criança fora levada para algum estabelecimento. Provavelmente, ela não sairia de lá até pagar toda a dívida.

A conclusão é que não restara casa para aquela criança voltar. Com a dor de cabeça aumentando, Cheon Seju tirou um cigarro do paletó e o colocou na boca. Enquanto tragava profundamente o fogo que Mun Seonhyeok acendera, perguntou em tom casual:

— Para onde a mãe da criança foi?

— Ah, até que ela teve sorte. Foi para o Ihwagak. Surgiu uma vaga na cozinha de lá.

Se tivessem pego empréstimo pesado com agiotas em outro lugar, tanto a mãe quanto a criança poderiam ter sido vendidas para prostíbulos. Mas a Shinsa Capital, pelo menos, não chegava ao ponto de fazer tráfico de pessoas. Se é que houve algo que o homem que pegou o dinheiro fez de “certo”, foi isso. Além disso, a mãe também teve sorte. Embora não pudesse se comunicar com o exterior, ouviu dizer que o Ihwagak era um lugar onde, se trabalhasse duro, poderia pagar a dívida e até sair com uma indenização.

Mas aquilo se aplicava a adultos que faziam valer o pagamento; não havia lugar naquele estabelecimento para uma criança que não servia para nada. Como a Haechan levara o depósito, a casa já devia estar vazia. Era óbvio que todos os objetos de valor também haviam sido vendidos e não restara nada. Casa, dinheiro, pais… não sobrou nenhum meio de proteção para a criança.

Ao entender a situação até ali, Cheon Seju arrependeu-se da escolha que acabara de fazer. Ah, porra. Teria sido melhor nem ter ouvido.

Enquanto fumava o cigarro repetidamente, ele lembrou das pupilas que vira há pouco de relance. Era um olhar cheio de hostilidade. Sentiu que, com uma desculpa qualquer, não conseguiria fazer a criança se levantar daquele lugar. O que deveria dizer para fazer a criança sair dali antes que Han Jong-hyeon chegasse? Enquanto ponderava, Seju perguntou:

— E a criança, deram comida para ela?

— Não sei. Acho que no segundo dia o Youngjun deu um pão para ela comer, mas depois de ser ignorado, ninguém mais olhou. Hum, pensando bem, acho que não a vi saindo do lugar nem por um momento…

Então aquela criança pequena ficara sem comer por quatro dias. Um suspiro saiu naturalmente. Mesmo não sendo melhor do que eles, Cheon Seju olhou para Kim Dong-gil com uma expressão de desprezo.

— Seus merdas, vocês não têm nenhuma compaixão?

— O que é isso? Eu conheço kimchi curtido.

— Esse desgraçado realmente…

Se falasse mais, sentia que sua pressão subiria e teria que ir para o hospital. Seju, com o rosto irritado, jogou a bituca de cigarro perto do sapato de Dong-gil e levantou-se. Ignorando Kim Dong-gil, que tentava segurá-lo pedindo para ficar mais um pouco, e despedindo-se de Mun Seonhyeok, ele caminhou para fora do escritório.

Ao apertar o botão de chamada, o elevador que estava no 10º andar desceu com uma lentidão proporcional à sua idade. Cheon Seju mergulhou em pensamentos enquanto via os números diminuindo gradualmente.

À primeira vista, parecia uma criança de uns quinze anos. Por mais que Han Jong-hyeon fosse o que fosse, ele não mexeria com uma criança tão pequena. Aquele sujeito era um devasso, não um estuprador. Estava óbvio que, se interviesse aqui, acabaria se desgastando por uma preocupação desnecessária.

É, então vamos apenas para casa. Cheon Seju concluiu isso e entrou no elevador. Ao apertar o botão, esforçou-se para desviar seus pensamentos. Mas no momento em que chegou ao 1º andar, a porta se abriu e ele viu o vulto preto ainda agachado no corredor, todos os seus pensamentos sumiram.

Cheon Seju caminhou pelo corredor como se estivesse enfeitiçado. Parando diante da criança, ele sussurrou com uma voz sombria:

— …Levante-se.

A criança, que estava totalmente encolhida para se proteger de um mundo sem misericórdia, parecia tão pequena que ele sentia que poderia levantá-la com uma só mão. Cheon Seju já vira uma criança com aquela mesma aparência no passado. Ele também sabia que tipo de escolha uma criança negligenciada pelo mundo acaba fazendo, assim como esta fora abandonada ali por quatro dias.

Naquela época, se alguém tivesse estendido a mão para aquela criança, o resultado teria sido diferente? Por causa dessa pergunta sem resposta… Cheon Seju não conseguiu simplesmente ignorar a criança.

— Levante-se.

— …

Diante das palavras repetidas pela segunda vez, a criança levantou a cabeça. As pupilas dos dois se encontraram. Cheon Seju leu naquelas pupilas transparentes e límpidas uma desconfiança extrema dirigida a ele. Tardiamente, ele se lembrou da própria aparência. Cabelo bagunçado, camisa com o botão de cima aberto, marcas de sucção no pescoço; era óbvio que sua figura não era nada confiável.

Tsc. Ele estalou a língua e agachou-se diante da criança. Esforçou-se para passar a mão no cabelo e passar uma impressão mais arrumada enquanto observava a criança.

Apesar de estar coberta pelo capuz e pelo cabelo, o rosto da criança era surpreendentemente bonito. A linha alongada dos olhos parecia ter sido desenhada delicadamente com um pincel fino, e os cílios caídos, as bochechas frias e os lábios ressecados da criança sopravam uma vitalidade quase morta naquele semblante pálido. Era uma criança que emanava uma aura sensível, como se fosse quebrar ao ser tocada. Estava claro que se tornaria uma grande beleza quando crescesse.

Após confirmar aquele rosto de perto, pareceu que fizera bem em falar com ela. Foi por causa da certeza — ou quase certeza — de que um devasso como Han Jong-hyeon não ignoraria uma criança tão bonita. Cheon Seju, pensando que precisava tirá-la dali antes que ele chegasse, apressou a criança sem tempo para esperar.

— Levante-se. Você disse que queria ver sua mãe. Vamos.

Ao falar suavemente, ele esboçou um sorriso com os olhos para a criança. Cheon Seju nunca fora ignorado por uma mulher ao abordá-la dessa forma. Talvez a criança não fosse exceção, pois ela, que se mantivera em silêncio absoluto, finalmente abriu a boca.

— …Você vai me levar?

Mas, de repente, ela falou de forma informal. Além disso, talvez por causa da fome, sua voz rouca e sem forças passava uma sensação estranhamente andrógina. “É uma menina mesmo, certo?”, pensou Cheon Seju enquanto olhava para a criança. Mas um menino não poderia ser tão bonito daquele jeito. Parecia óbvio que era uma menina.

Cheon Seju assentiu à pergunta da criança. No entanto, apesar da resposta afirmativa, a criança não se levantou imediatamente. Pelo contrário, com o som do tecido se roçando, a força em suas mãos que abraçavam os joelhos aumentou. A criança, encolhendo-se ainda mais, vasculhou Cheon Seju com um olhar afiado.

— Quem é você?

É, ele sabia que não seria tão fácil assim. Seju suspirou internamente e mostrou o sorriso mais inofensivo que pôde. Acalmar crianças não era tão difícil, pois ele já fizera muito disso no orfanato. Ele respondeu com uma voz gentil:

— Um tio que trabalha aqui.

No entanto, diante das palavras ditas para se colocar em um nível acessível, veio uma contestação ríspida:

— É mentira, não é?

— O quê.

Seju entendeu as palavras de Kim Dong-gil sobre o temperamento da criança não ser brincadeira. Ela não tinha nenhuma hesitação em falar informalmente com um adulto. Mesmo diante de um adulto muito maior do que ela, a criança não se intimidava nem um pouco.

— Que vai me levar para ver minha mãe, é mentira.

Para ele, que inclinou a cabeça como se não entendesse, a criança perguntou olhando em seus olhos. Ela tentava penetrar no íntimo de Seju, como se quisesse detectar a falsidade. No entanto, Cheon Seju não era ingênuo a ponto de deixar suas intenções serem descobertas por um pirralho tão jovem. Diante das palavras ditas com espinhos, ele soltou uma risadinha e rebateu:

— O que eu ganharia mentindo para você?

— …Se você fizer algo ruim comigo, eu não vou deixar barato.

Pela expressão, parecia que ela até bateria nele se ele encostasse a mão. “Eu pareço um cara tão ruim assim? …Bem.” Cheon Seju percebeu que, aos olhos da criança, ele devia parecer um marginal e riu de forma autodepreciativa. Ele logo vasculhou o bolso interno do paletó e tirou a carteira. De lá, retirou sua identidade e a entregou sem hesitar para a criança.

— Se eu encostar um único dedo em você, pegue isso e vá à delegacia fazer a denúncia. Diga tudo o que quiser dizer. Diga que esse cara mexeu com você, que te prendeu, te deixou com fome e te bateu.

— …É falsa, não é?

Ele entregara para diminuir a desconfiança, mas diante da suspeita ainda maior que retornou, Cheon Seju soltou uma risada incrédula. Não imaginava que ela desconfiaria até disso. Achando aquela audácia um absurdo, ele ficou observando enquanto a criança virava a identidade dele de um lado para o outro, soprava e até esfregava com a mão antes de enfiá-la no bolso do moletom. Parecia ter aceitado que era real.

Ainda assim, como se não tivesse baixado totalmente a guarda, ela se levantou com cuidado mantendo distância de Cheon Seju. Aquilo lembrava muito um gato de rua que aparecia no quintal do orfanato na infância. Um gato que só se aproximou dele com a cauda erguida após três meses recebendo petiscos.

Mas agora ele não tinha o luxo de esperar três meses. Cheon Seju verificou o relógio no pulso direito e finalmente se levantou. Enquanto estava agachado, achou que ela era extremamente pequena, mas ao se levantar, a criança era mais alta do que parecia. Cheon Seju achou aquilo inesperado e disse:

— Vai ver sua mãe ou não? O tio está ocupado.

— Eu vou. Mas não me chame de tio. Eu nunca tive um tio como você.

— …

A criaturinha não era nada fácil. Olhando para a criança que parecia ser do tipo que chamaria um funcionário idoso de um restaurante pelo cargo em vez de “tio”, Cheon Seju riu com incredulidade. Então ele percebeu que os brutamontes da Shinsa Capital costumavam se autointitular “tios” para os filhos dos devedores e lamentou internamente. A criança devia ter visto aqueles “tios” levando sua mãe diante de seus olhos. Era compreensível que detestasse o termo.

Então, como deveria chamá-la? Ele acariciou a bochecha em silêncio, estimando a idade da criança, e perguntou:

— Então, “oppa”?

— …

Mas a reação foi pior do que com “tio”. Com o rosto pequeno ruborizado, ela o encarava com os lábios cerrados, como se contivesse um insulto. Que difícil… Com um sorriso de canto, ele assentiu como se não tivesse escolha.

— Tá bom, o senhor aqui está ocupado. Vamos logo.

Só então o cenho franzido da criança relaxou um pouco. Cheon Seju apontou a saída com o queixo e virou-se.

Ao sair do prédio, viu a Lamborghini estacionada da mesma forma que antes. Ao ver o copo plástico ainda jogado ali na calçada ao lado, Cheon Seju franziu o cenho. Tinha sinalizado com o olhar para o brutamonte que vigiava a entrada limpar o lixo, mas o sujeito sem noção curvou as costas e gritou:

— Sinto muito, chefe!

— …

Aquele porra, eu preciso dar um jeito de fazê-lo parar de me chamar de chefe. Fuzilou o homem com o olhar e virou a cabeça, sentindo um olhar ao lado. Cheon Seju descobriu um nojo impossível de esconder no olhar da criança que passava por ele em direção ao homem. Ele não se importou muito. Era natural. A criança tinha motivos suficientes para odiá-los.

Empurrando a criança para o banco do passageiro, Cheon Seju deu a volta no carro e entrou no banco do motorista. Mas, ao dar a partida, viu que a criança estava se batendo, sem conseguir colocar o cinto.

— É só puxar o que está atrás e encaixar ali embaixo.

Com a instrução de Cheon Seju, a criança puxou o cinto por cima do ombro. No entanto, como se não soubesse onde encaixar, o cinto continuava indo para o lado da costela dela. Era uma reação comum de quem via um cinto de segurança de 4 pontos pela primeira vez. Cheon Seju, que observava o que ela fazia, disse “não é aí”, mas mesmo com a explicação adicional, a criança não sabia para onde o cinto deveria ir. Finalmente, impaciente, ele suspirou e inclinou o corpo.

— Eu faço. Me dê aqui.

A criança entregou o cinto hesitante. Cheon Seju puxou o fecho para esticar a tira e estendeu a mão entre as pernas da criança para encaixar na fivela.

— Não faça isso…!

Surpreso com a voz que gritou agudamente naquele instante, ele ergueu o tronco. Um silêncio gélido caiu dentro do carro. Ao encontrar o olhar que o fuzilava com um rosto que parecia prestes a chorar, Cheon Seju percebeu só então que a criança interpretara mal sua ação. Um calafrio subiu por sua espinha.

— Desculpe, a fivela fica aqui.

Sentindo-se como um lixo humano, ele apressou-se em abrir as próprias pernas e apontar para a fivela do cinto que estava localizada entre suas coxas. Mesmo tendo confirmado a posição da fivela, a criança não baixou a guarda facilmente. Vendo a criança, que ainda mantinha uma expressão feroz, puxar o cinto com gestos desajeitados, Cheon Seju só deu a partida após ouvir o som do clique. Pediu desculpas novamente e colocou o pé no acelerador. Sentia-se exausto antes mesmo de partir.

— O que quer comer no almoço? Ouvi dizer que não come faz dias.

Cheon Seju tentou usar uma voz gentil à sua maneira, pensando que precisava dissipar aquele clima gélido. A criança não respondeu de imediato. Como ele achava que entendia o sentimento da criança que estava em seu carro agora, Cheon Seju também não apressou a resposta.

Mesmo assim, em comparação com a atitude agressiva, ela entrou no carro com facilidade. Pelo brilho no olhar, ele achou que teria que discutir por um longo tempo…

O semáforo ficou vermelho e, aproveitando a parada do carro, Cheon Seju olhou para a criança. Olhando para aquele rosto tão bonito que atrairia olhares mesmo de relance, ocorreu-lhe que nem sabia o nome dela e perguntou:

— Qual é o seu nome?

— …Kwon Sejin.

— Nome bonito.

Diante do elogio, Kwon Sejin encarou Cheon Seju novamente com um olhar frio. Não era nem um porco-espinho, mas como colocava espinhos em cada palavra, não dava nem para elogiar à vontade. Cheon Seju ignorou aquele olhar e pisou no acelerador novamente.

O silêncio reinou no carro. Ele voltou a ouvir a voz de Kwon Sejin quando haviam passado cerca de 10 minutos desde a partida.

— …Não tenho dinheiro para comer.

Ele se perguntou o que aquilo significava de repente. Então, ao perceber que era a resposta para sua pergunta de antes, Cheon Seju deu um sorriso leve. Ele virou a cabeça, olhou para Kwon Sejin e disse:

— O senhor aqui paga.

— …Não precisa.

A criança expressou recusa, mas Cheon Seju, achando que eram apenas palavras por educação, ignorou o que Kwon Sejin disse. Ele tamborilou o volante com as pontas dos dedos enquanto pensava. Como ela ficou sem comer por dias, deveria dar mingau? Ou algo reforçado como sopa de osso bovino…? Decidindo que seria melhor perguntar diretamente, abriu a boca:

— Quer comer mingau ou sopa de osso? É melhor…

— Já disse que não vou comer.

Perguntou com toda a gentileza, mas o que retornou foi uma recusa fria. Diante da atitude áspera da criança, Cheon Seju pisou no freio e encarou Kwon Sejin. Um rosto gelado o enfrentava. Podia-se sentir a existência de um muro altíssimo erguido pela criança.

Sentindo uma dor de cabeça súbita, Cheon Seju parou o carro no acostamento e soltou o cinto. Tateou o cigarro, mas desistiu de pegá-lo e perguntou olhando para Kwon Sejin:

— Por que não vai comer?

— …Não quero ficar devendo para alguém como você.

As palavras eram bem atrevidas. Já que pegara carona, era bem audaciosa. Mesmo em uma situação em que não seria exagero implorar por uma refeição, as palavras ditas sem noção de sua própria condição fizeram Cheon Seju sorrir silenciosamente. Por outro lado, era cômico como, aos olhos de uma criança que conhecera há menos de 10 minutos, ele parecia um lixo.

— O que seria “alguém como eu”?

Após pensar um pouco, ele perguntou calmamente para Kwon Sejin. Sentia-se uma pressão na voz grave. Só então Kwon Sejin pareceu perceber que falara demais e fechou a boca com um semblante constrangido.

De relance, as pupilas transparentes observaram o rosto de Cheon Seju. O canto de sua boca bem desenhada estava curvado para cima, mas seu olhar, envolto em frieza, não sorria nem um pouco. Kwon Sejin, ao cruzar olhares com ele, mordiscou o lábio inferior e logo pediu desculpas com uma voz desanimada:

— Eu falei errado. Não precisa me dar comida. Não estou com fome. Apenas… me ajude a encontrar minha mãe…

Diante da atitude de quem recuava rapidamente, Cheon Seju olhou fixamente para o lado. No entanto, ao contrário da voz que parecia assustada, a rebeldia ainda permanecia nas pupilas de Kwon Sejin. Dava para ver que estava se rebaixando à força sob aquele olhar óbvio.

Cheon Seju sentiu piedade daquela atitude. Lamentava, mas não tinha a intenção de ajudar até esse ponto. Cheon Seju apenas pretendia tirar Kwon Sejin dali para fugir dos olhos de Han Jong-hyeon, alimentá-la e mandá-la de volta. Ele hesitava em fazer mais do que isso porque havia alguém que não parava de vir à sua mente.

No entanto, por causa daquela criança que engolia o próprio orgulho com a ideia de encontrar a mãe, e por sentir pena de uma criança que precisava baixar a cabeça até para alguém lixo como ele… seu coração vacilou.

— Quer ver sua mãe?

Diante da pergunta baixa de Cheon Seju, Kwon Sejin assentiu levemente.

Na verdade, se fosse apenas para deixar que se vissem uma vez, não era difícil. Ele conhecia o Ihwagak e tinha alguém para quem pedir o favor.

Achou que era intromissão demais, mas pensou que, se dissesse agora que não tinha intenção de ajudar tanto, a criança ficaria extremamente decepcionada. Não seria melhor evitar ganhar o rancor de alguém por algo tão pequeno? Cheon Seju convenceu-se disso e abriu a boca:

— Então você tem que ouvir bem o que eu digo. Como você usa o termo “alguém como você” sabendo que eu posso fazer qualquer coisa com a sua mãe?

— …Não foi de propósito.

— Eu não sou um velho careta. Estou até deixando passar você falar informalmente de forma abusada comigo. Mas não acha que falar desse jeito é errado? Não é?

Diante da observação gélida de Cheon Seju, Kwon Sejin mordeu o lábio com força. Um silêncio gélido se instalou no carro. Kwon Sejin pareceu se exaltar com as palavras ameaçadoras de Cheon Seju e, após ficar um tempo em silêncio, perguntou fuzilando-o com um olhar cheio de veneno:

— Você pode mesmo me deixar encontrá-la?

Era uma pergunta cheia de desconfiança. Cheon Seju deu a partida novamente com um sorriso mudo. Partindo em direção à sua casa enquanto pisava no acelerador, disse a Kwon Sejin:

— Lá, a única pessoa que pode te ajudar sou eu. Mingau ou sopa de osso. Escolha.

Kwon Sejin não respondeu de imediato. Enquanto observava Cheon Seju dirigir, tentava avaliar se as palavras dele eram verdadeiras e, finalmente percebendo que não tinha escolha, encostou as costas no banco com desânimo e abriu a boca:

— Sopa de osso. Com macarrão somyeon…

— …

Diante da fala bastante ousada, Cheon Seju olhou de relance para o lado e deu uma risada curta. No entanto, o autor do pedido parecia ter falado sem pensar muito, olhando vagamente pela janela. Cheon Seju assentiu e, aproveitando a parada em um sinal, fez o pedido. E enquanto ia para casa, pensou no que deveria fazer com o destino da criança.

Levar a criança ao Ihwagak e deixá-la ver a mãe não era tão difícil. Mas e depois? Não podia simplesmente abandonar uma criança sem casa e voltar. Já que a mãe estava morando lá para pagar a dívida, o Ihwagak não aceitaria um dependente e, mesmo que o mundo desse voltas e aceitassem Kwon Sejin, o lugar ficava em uma região montanhosa de Gyeonggi-do, próxima a Seul, onde não havia lugar para frequentar a escola.

Tuc, tuc. Cheon Seju tamborilou o volante enquanto pensava.

Crianças sem teto e sem pais que pudessem cuidar delas no momento deviam ir para instituições de proteção, como orfanatos. Então, após deixá-la ver a mãe, deveria enviar Kwon Sejin para lá? Cheon Seju franziu os olhos ao lembrar do Orfanato Anjo, onde ele mesmo crescera. Se falasse com a irmã diretora, ela certamente a aceitaria, mas ele hesitava em encontrá-la. Já faz cinco anos que ele evitava contato propositalmente. Não tinha cara para pedir ajuda a ela agora. Nem sabia se o orfanato tinha vaga ou não…

Algo que começou com uma breve piedade tornou-se mais complexo do que imaginava. “Será que estou fazendo a coisa certa?”, pensou Cheon Seju ao observar o perfil de Kwon Sejin, que não lhe dirigia um único olhar, e de repente perguntou:

— Quantos anos você tem?

Pelo jeito de falar, parecia que não era tão jovem quanto ele imaginara. Quando estava encolhida, sua estrutura parecia muito pequena, então ele estimou cerca de 15 anos, mas pensando bem, para uma garota, aquela era uma estatura alta.

No entanto, não houve resposta para a pergunta simples. Cheon Seju curvou o canto da boca e simplesmente a apressou:

— Responda.

Tinha que deixar de lado a gentileza barata. Não parecia ser uma criança que ouviria com mimos e doçura. Diante da voz gélida de Cheon Seju, Kwon Sejin finalmente respondeu com uma voz emburrada:

— Dezoito anos.

Como esperado, não eram quinze anos. Mas ele não imaginava que ela fosse uma garota já tão crescida. Cheon Seju, surpreso no momento, acabou resmungando “é uma boa idade”, como um velho.

10 minutos depois, os dois estacionaram e desceram. O elevador logo chegou e subiram para o 41º andar. Ao abrir a porta social, viu que Kwon Sejin estava visivelmente tensa. Como seguira um homem que vira pela primeira vez, era natural. Cheon Seju entrou mantendo uma distância considerável de Kwon Sejin para não provocá-la.

— Venha por aqui.

O interior da casa de Cheon Seju estava praticamente vazio. Os únicos móveis na sala eram a TV, o sofá e uma pequena mesa à frente. Não havia sequer cadeiras na mesa de jantar da cozinha. Kwon Sejin observava aquele espaço que nem parecia um lugar onde morava gente com certa agitação. Vendo que ela estava distraída olhando tudo como se fosse a primeira vez em uma casa assim, mesmo fingindo que não, Cheon Seju riu de canto e estendeu o braço apontando o sofá:

— Pedi a sopa de osso, então sente e espere.

Kwon Sejin foi em silêncio e sentou-se onde ele apontara. O rosto da criança, que encostou o quadril desajeitadamente no sofá, estava cheio de curiosidade e desagrado. “Um agiota merda vive em uma casa boa com o dinheiro que ganhou passando os outros para trás”, parecia ser essa a expressão.

Cheon Seju deixou Kwon Sejin e foi para o quarto trocar de roupa. Costuma andar quase pelado em casa, mas como não podia, vestiu uma camiseta e calças de moletom. Ao tirar a camisa, as marcas de sucção no pescoço ficaram mais visíveis, mas como não podia continuar de camisa, saiu daquele jeito mesmo.

Atravessou a sala descalço e dirigiu-se ao quarto de hóspedes, que era o mais afastado de seu próprio quarto. O lugar onde Kwon Sejin ficaria era onde Doyun costumava dormir de vez em quando, e após uma rápida olhada, viu que estava limpo, sem necessidade de faxina.

Cheon Seju pegou um edredom e um travesseiro novos no closet de lá, deixou-os sobre a cama e saiu. O interfone tocou bem na hora vindo do lobby.

— Obrigado. Bom trabalho.

Abriu a porta, foi até a entrada e recebeu a comida. Além da sopa de osso, pedira também guiozas. Cheon Seju trouxe a sacola e a colocou sobre a mesa em frente ao sofá.

— O que vai querer?

Uma era porção normal, a outra era especial. Diante da pergunta, Kwon Sejin escolheu o tamanho normal, como se não quisesse ficar devendo nem um centavo a mais para ele. Ao ver a criança abrir a tampa com cuidado, Cheon Seju também trouxe uma tigela e separou cerca de metade de sua sopa para ela.

Por um tempo, apenas o som de gente comendo ecoou pela enorme sala. Kwon Sejin tinha bons modos à mesa. Movia os talheres silenciosamente, sem fazer barulho.

O estômago, que estava apenas à base de café, foi se enchendo gradualmente. Cheon Seju largou a colher antes de Kwon Sejin e foi buscar uma cerveja na geladeira. Esvaziou cerca de metade da lata pequena de uma vez e abriu a boca. Tinha muito a perguntar para a criança.

— Temos que ir ao Ihwagak na quarta-feira. Não dá para ir e ver a qualquer hora. Fique nesta casa até lá.

Ao ouvir aquilo, Kwon Sejin levantou a cabeça com uma expressão complexa. “Por que só diz isso agora?”, “Vai mesmo me levar?”, seu rosto estava cheio de descrença, dúvida e estranhamento enquanto encarava Cheon Seju fixamente. Cheon Seju, olhando naquelas pupilas cor de outono, perguntou para confirmar:

— Você foi na sua casa?

— Fui. …Não tem nada lá.

A voz de Kwon Sejin foi diminuindo no final. Kwon Sejin parou de comer e, como se tivesse perdido o apetite, baixou a cabeça profundamente, olhando para os próprios pés sobre o tapete. Os ombros caídos causavam pena. Murmurou com uma aparência que faria qualquer um sentir uma culpa desnecessária:

— Não precisa se… importar com esse tipo de coisa. Só me deixe encontrar minha mãe.

Talvez a bronca de antes tenha funcionado, pois ela não soltou aquele “não se meta”. No entanto, diante do pedido para apenas deixá-la ver a mãe, Cheon Seju terminou a cerveja e apoiou o queixo no braço do sofá.

O próprio Cheon Seju queria exatamente isso. Queria levar Kwon Sejin ao Ihwagak, deixá-la ver a mãe e depois simplesmente esquecer o assunto. Mas não conseguia fazer isso. Pensando em silêncio, Seju assentiu e respondeu:

— Entendi, então enquanto estiver nesta casa, responda direito.

— …

Diante das palavras ditas deliberadamente de forma ríspida, Kwon Sejin mudou de semblante desanimado para um rosto irritado e olhou de relance para Cheon Seju. Aquela mudança foi inusitada, mas era melhor do que ficar olhando para a ponta dos pés. Ele continuou as perguntas para avaliar a situação de Kwon Sejin:

— Como não tem casa, também não deve ter roupas. E a escola? O uniforme?

— Estou usando…

Kwon Sejin respondeu hesitando. Ao ouvir aquilo, Cheon Seju semicerrou os olhos e observou a figura da criança. Entre o moletom preto e a nuca pálida, via-se a gola de uma camisa gasta. A parte de baixo, que ele achara ser apenas calças de sarja, parecia ser calça de uniforme ao olhar de novo. “Garotas usam calças hoje em dia?”, pensou Cheon Seju, sentindo uma estranheza súbita e examinando Kwon Sejin.

Não percebera antes porque ela estava com o capuz, mas vendo agora, o cabelo era mais curto do que imaginava. Somado à voz rouca, às calças de uniforme e à atitude de não se intimidar diante de um homem adulto…

Cheon Seju pensou por um instante: “Será que este garoto é um menino?”. Pensando bem, acho que já vi darem o nome de Sejin para meninos também. Parecia ter menos de 1,70m, mas havia muitos homens baixos…

Não pode ser…

Enquanto encarava as feições delicadas que não pareciam em nada com as de um menino, Cheon Seju sentiu o olhar de Kwon Sejin, que o via como um tarado, e virou os olhos para a janela. Mas no momento seguinte, não aguentou e perguntou:

— Você é uma menina, certo?

— …

Kwon Sejin não respondeu de imediato. No entanto, após olhar para Cheon Seju como se visse um lixo humano, rebateu com um tom gélido:

— Se eu for um menino, vai me expulsar? O que eu disse antes não era brincadeira. Se você fizer algo ruim comigo… eu não vou deixar barato.

Para dizer algo assim, não deveria nem ter entrado nesta casa, para começo de conversa. Cheon Seju franziu o cenho e, percebendo que Kwon Sejin não respondera direito à sua pergunta, perguntou de novo:

— Eu perguntei se você é uma menina.

— Vo… você não está vendo?

Diante da pergunta feita de forma gélida, a criança gritou com as bochechas coradas, e o contorno de seus olhos ficou vermelho num instante. Tinha uma expressão de humilhação, como se tivesse sofrido um insulto. Não parecia algo encenado. Cheon Seju pensou que fora longe demais com alguém em uma idade sensível com a aparência e apressou-se em pedir desculpas:

— Desculpe. O senhor aqui é um pouco desconfiado.

— …

Diante do pedido de desculpas, Kwon Sejin lançou um olhar cortante para Cheon Seju e virou a cabeça. “Que fofa”, pensou Cheon Seju, olhando fixamente para a criança que estava vermelha até o pescoço, e levantou-se. Apontando para o quarto no fim do corredor, disse:

— Tem edredom e tudo mais naquele quarto ali no fundo, então termine de comer e descanse lá. Vamos conversar mais no jantar.

— …Vai me dar jantar também?

Pois é, ela tinha seu lado fofo por ter dezoito anos. Cheon Seju conteve o riso diante das palavras ditas com o olhar baixo, como se estivesse sem graça.

— Vou comprar frango frito. Vá dormir um pouco.

Kwon Sejin apenas assentiu em silêncio. Cheon Seju olhou para a tigela vazia de Kwon Sejin e empurrou a sua sopa, da qual comera apenas metade, para a frente da criança. “Se não for suficiente, coma isso também”, disse ele, virando-se em direção ao seu quarto.

Ao entrar e fechar a porta, Cheon Seju passou a mão no rosto e sentou-se na beira da cama. Estendeu a mão, pegou um cigarro na gaveta da mesa de cabeceira e o acendeu. Fumou o tabaco calmamente como se fosse alguém que não tivesse nada além disso para fazer e, logo em seguida, deitou-se no colchão pegando o celular.

— Sim, Diretor.

Mun Seonhyeok atendeu antes mesmo de o sinal completar uma chamada. Sentiu que o barulho ao redor, que estava agitado, foi se afastando gradualmente. Parecia que ele se movera para um lugar silencioso. Cheon Seju esperou por ele e apagou o cigarro, que queimara até perto do filtro, no cinzeiro. Cobrindo os olhos com a palma da mão ressecada, abriu a boca lentamente:

— Onde você está?

— Ainda estou no escritório.

— É sábado e não foi embora? O trabalho já deve ter acabado.

— Kim Dong-gil disse que ia pegar uns viciados em jogo à noite, então eu estava pensando em ir junto.

Ao ouvir aquilo, Cheon Seju soltou uma risadinha. Cobrança não era trabalho de Mun Seonhyeok. Ele apenas queria assumir o papel de vigia antecipadamente, com medo de que os garotos fizessem alguma besteira e gerassem mais problemas irritantes para ele. Cheon Seju baixou a mão, virou-se de lado e olhou para o Rio Han visível pela janela:

— Dong-gil faz bem o trabalho dele, então deixe-o em paz e me faça um favor. Te dou um extra.

— Não precisa. Apenas me diga qual é o favor.

— Compre umas roupas para mim. Não para mim… para uma garota de uns 1,70m.

“Quanto será que ela pesa?”, pensou Cheon Seju ao imaginar Kwon Sejin. O rosto era pequeno e as mãos e pernas eram só pele e osso. Era miudinha a ponto de parecer que ele poderia levantá-la com uma mão. Então…

— O peso é uns… 30kg…?

Ao soltar aquelas palavras, Cheon Seju percebeu que aquilo não fazia sentido e riu como se fosse um absurdo. Não sabia por que Kwon Sejin sempre parecia tão pequena para ele, mas embora não desse para ver bem por causa do moletom, como tinha ossos e carne, anatomicamente deveria passar bem dos 30kg.

— Não. Uns 45kg.

Como as mulheres costumam ter ossos finos, se o pescoço e os pulsos fossem finos daquele jeito, parecia que por baixo da roupa ela seria bem magra. Diante das palavras de Cheon Seju, Seonhyeok perguntou hesitante:

— …Por acaso o senhor está falando daquela criança que estava lá embaixo?

— É.

Mun Seonhyeok já presenciara Cheon Seju salvando uma estudante do ensino médio que estava sendo espancada em um beco anteriormente. Seonhyeok manteve silêncio por um momento, pensando na intromissão do superior, e respondeu:

— Eu também não sei bem os tamanhos de roupas femininas…

— Vá ao mercado e compre qualquer coisa. Coisas para usar em casa por enquanto. Pijama e roupa íntima… coisas assim.

— Se o senhor diz roupa íntima…

— Calcinha e aquilo, a parte de cima…

Os dois homens silenciaram ao mesmo tempo. Mesmo estando sozinho, Cheon Seju sentiu-se sem graça e acariciou a bochecha desajeitadamente, tentando lembrar da figura de Kwon Sejin que vira antes. O peito… por mais que estivesse de moletom, parecia não ter nada à vista. “Copa A…?”, sussurrou baixinho, e Seonhyeok pigarreou antes de responder:

— Sim, entendi. Ligarei para o senhor novamente quando chegar ao mercado, Diretor.

— Tá. Obrigado.

A ligação terminou e Cheon Seju fechou os olhos com a intenção de tirar um cochilo. Então, lembrou-se do Ihwagak, franziu o cenho e pegou o celular novamente. Procurou o contato e ligou para o número salvo como “Filho da Puta”. Diferente de Mun Seonhyeok, o “Filho da Puta” só atendeu após ele deixar duas chamadas perdidas. Ouviu-se uma resposta desleixada:

— O que foi.

— Me faça um favor.

Mas, tuc, assim que terminou de falar, a ligação caiu. Cheon Seju praguejou baixinho e ligou para ele de novo. Após o sinal longo de chamada, o outro atendeu novamente.

— Chae Beom-jun.

Chamou o nome assim que a ligação conectou, e novamente, tuc, a chamada é encerrada. Haa. Um suspiro profundo escapou de Cheon Seju. Ele massageou a testa repetidamente para conter a irritação e apertou o botão de chamada de novo. Desta vez, ele não falou primeiro quando a ligação conectou. Respirou lenta e profundamente como se acalmasse seu interior e finalmente abriu a boca:

— Diretor Chae.

— Diga.

Com o tratamento educado, finalmente veio uma resposta normal.

Chae Beom-jun era um homem que trabalhava sob as ordens de Shin Kyoyeon junto com Cheon Seju, e podia ser considerado o braço direito de Shin Kyoyeon. Não eram íntimos, mas como tinha a certeza de que ele aceitaria um pedido simples, Cheon Seju prometera a Kwon Sejin que a levaria para ver a mãe.

No entanto, era inevitável sentir-se sujo e humilhado por causa da prepotência dele sobre um simples tratamento por cargo. Cheon Seju fez um sinal de dedo médio para o celular e falou no viva-voz:

— Tenho alguém para encontrar no Ihwagak, pode dar uma palavra por lá para mim?

— Quem o Diretor Cheon teria para encontrar por lá? Que eu saiba, o senhor não conhece ninguém lá. Por acaso arranjou um namorado novo por lá?

Ele ignorou a ironia de Chae Beom-jun e continuou:

— Tem uma tia que entrou para pagar dívida da Shinsa desta vez, o filho dela está pedindo para vê-la pelo menos uma vez. Me ajude só desta vez.

— Ah… A mãe? Ela é bonita? Se for, eu penso no assunto.

— …

Era de se esperar que ele perguntasse as circunstâncias diante de um papel repentino de babá, mas Chae Beom-jun só perguntava o que lhe interessava. Cheon Seju olhou para o celular com um olhar de desprezo. Lamentava o fato de não ter ninguém além desse sujeito depravado, que não escolhia idade ou sexo desde que fosse bonito, para aceitar seu pedido. Cheon Seju respondeu com uma voz indiferente:

— Se a criança é bonita, a mãe também deve ser. Vai fazer ou não?

— De graça não dá, se me chamar de “hyung” eu faço.

Hyung é o caralho. Diante de tamanha audácia, ele soltou uma risada de desprezo.

Houve uma época em que ele quis chamar Chae Beom-jun de hyung. No entanto, após sofrer o que poderia ser chamado de traição por parte dele alguns anos atrás, nunca mais o considerou um hyung. Chae Beom-jun era um homem que só tinha sexo na cabeça.

Ele fechou bem a boca e evitou a resposta. Enquanto baixava discretamente o volume do viva-voz, ouviu a voz de Chae Beom-jun sussurrando, como se já não esperasse nada:

— Enfim, entendi. Como é você quem me pede, não tem como eu não aceitar. Vou avisar o Ji-won. Então, Diretor Cheon, se não estiver ocupado, hoje comigo…

O quarto foi silenciando gradualmente e, por fim, o silêncio se instalou. Cheon Seju verificou que o tempo de chamada se estendeu até a ligação cair e fechou os olhos. O cansaço tardio o atingiu.

Shadow (2)

Aquele homem finalmente causou um desastre.

Kwon Sejin cerrou os punhos ao lembrar do dia em que vira o pai pela última vez. Não devia ter batido no rosto dele, devia ter quebrado as pernas dele. Não, devia ter simplesmente matado aquele homem. Se tivesse feito isso, nada disso estaria acontecendo…

Em meio ao arrependimento tardio, Kwon Sejin jurou. Se aquele homem aparecesse diante de seus olhos novamente, faria o que fosse preciso para tirar a vida dele.

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Ler Projection – Novel Yaoi Mangá Online

Cheon Sejoo, que não teve escolha a não ser se juntar à organização para vingar sua irmã falecida, em meio a uma vida sem esperança, conhece um jovem que o lembra de sua irmã, o que o leva a praticar um pequeno ato de gentileza.
Se ele soubesse que essa intenção leviana se tornaria tão pesada, ele não o teria trazido para sua vida.
* * *
“Eu te disse. Sempre foi você primeiro…”
Seus olhos, normalmente penetrantes, pareciam gentis hoje. O olhar de Cheon Sejoo era suave, doce e persistente.
“Então assuma a responsabilidade.”
Era sempre Cheon Sejoo quem dava o primeiro passo. Era ele quem estendia a mão para ele primeiro, quem o olhava primeiro. Sejin simplesmente pegava sua mão porque ele a oferecia, e olhava para ele porque ele lhe dava o olhar. E, ao fazer isso, ele se apaixonou por aquele homem gentil.
Sejin não queria mais ver Cheon Sejoo se afastando dele.
Se você não pode vir até mim, então eu irei até você.
“Você é tudo o que me resta agora…”
Nome alternativo: Projection

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