Ler Passion – Novel – Capítulo 36 Online

O tio dele continuou falando. Taeui voltou ao silêncio. O tio falava com calma, sem qualquer sinal de engano no rosto. Quando seus olhares se encontraram, o tio sorriu levemente, indicando que tudo o que dizia era verdade, embora nem tudo tivesse sido revelado.
— Sim, é isso mesmo. Eu não sei por que alguém como ele está presente na filial da UNHRDO, mas a vida é cheia de acontecimentos imprevisíveis.
Ou melhor, era impossível compreender a complexidade da família daquele homem dentro da UNHRDO.
Taeui deu de ombros. Na verdade, mesmo que o tio tivesse contado antes, nada teria mudado. Talvez isso só acrescentasse alguns preconceitos vagos. Ou pior, ele poderia ter acreditado erroneamente que o homem chamado Riegrow era apenas Ilay, aquele que ele só havia visto através de uma tela.
Jeong Taeui coçou a cabeça.
— Certo. Eu vou indo. Mas… provavelmente não vou ter muito tempo pra ler, então, quando eu terminar, o treinamento já vai ter acabado faz tempo.
— É… Tudo bem. Mas esse é um livro que eu ainda não li, então não fique com ele por muito tempo.
— Você disse pra eu ler com calma.
— Eu não estava me referindo a esse livro em específico. Só disse que podia ler primeiro, se quisesse.
— Sério… Você disse que tinha vários outros livros pra ler — murmurou Taeui enquanto caminhava até a porta.
Suspirou internamente, pensando: “Poxa… amanhã é o precioso fim de semana, e eu nem vou poder descansar. Ainda tenho que passar por aquele treinamento. E dizem que vai ser pesado… Será que desta vez vai ser tão ruim assim?”
Quando abriu a porta para sair, o tio o chamou de repente.
— Taeui.
— Sim?
Jeong Taeui virou-se, ainda segurando a maçaneta. O tio o olhou com uma expressão significativa. Não era o rosto de um instrutor, e sim o de um verdadeiro tio.
— Quem ele é, ou o que faz, não importa. Se em algum momento você achou que Ilay e Riegrow eram duas pessoas diferentes, talvez o engano não seja sobre Riegrow… e sim sobre Ilay.
Taeui olhou silenciosamente para o tio. A implicação era clara. O tio tentava dizer que a imagem de Riegrow, a quem ele conhecera pessoalmente, era mais próxima da realidade do que as conversas casuais que tivera com Ilay através de uma tela.
Jeong Taeui ficou em silêncio por um momento antes de rir baixinho e balançar a cabeça.
— Não, tio. Eu nunca realmente entendi o Ilay.
“Desde o momento em que ele me mostrou aquelas mãos, eu soube que era um mistério imprevisível”, pensou Jeong Taeui, levantando ambas as mãos diante de si. Seu tio esboçou um leve sorriso.
— Certo, vá. E não deixe ninguém te pegar.
— É… mais fácil falar do que fazer. Esse lugar está cheio de câmeras de vigilância.
— …Ah, é mesmo, eu esqueci disso. Você pode acabar copiando mais dez volumes de regulamentos.
Jeong Taeui fez uma careta. Seu tio, com um olhar de simpatia, acrescentou:
— Como é que você se deixou filmar por uma câmera? Seja mais cuidadoso da próxima vez.
Mas o que estava feito, estava feito.
Quanto a Riegrow, Jeong Taeui quase nada sabia sobre ele. Além do fato de que era extremamente perigoso e alguém a ser evitado, ele também não sabia muito sobre Ilay. Tudo o que tinha eram algumas conversas por telefone, tão poucas que podiam ser contadas nos dedos de uma mão.
Embora Jeong Taeui tivesse uma habilidade acima da média para ler as expressões das pessoas em conversas curtas, era impossível avaliar alguém apenas por algumas ligações ou sem nunca tê-lo encontrado pessoalmente.
Ainda assim, como acontecia com muitas pessoas com quem ele havia falado apenas brevemente, Taeui tinha uma impressão vaga de Ilay, uma imagem fugaz de uma pessoa, se é que podia chamá-la assim. Alguém que, ao falar, às vezes fazia o coração pesar, outras vezes trazia risos, e em certos momentos o deixava frio, como se tivesse sido atingido por água gelada.
Pensando bem, parte disso havia se provado verdadeiro. Na realidade, quanto ele realmente conhecia qualquer um dos dois?
Jeong Taeui caminhou pelo corredor, sem se importar se as câmeras de vigilância capturavam sua imagem. Esfregou o pescoço e deu um sorriso amargo.
— Droga. Isso é um golpe. Um golpe total. Como mãos tão bonitas podem pertencer a alguém como ele?
Aquelas mãos eram tão belas que ele não conseguia desviar o olhar. Mesmo quando as viu sem luvas, à beira-mar, seus sentimentos não mudaram. Na verdade, pareciam ainda mais refinadas do que quando as via através de uma tela.
Mas Taeui sabia muito bem. Sabia que aquelas mesmas mãos podiam facilmente se fechar em um punho e acertá-lo sem hesitar, e que, com a mesma facilidade, poderiam tirar sua vida quando quisessem.
Ele havia percebido isso durante a última conversa deles. Não importava quantas vezes conversassem, mesmo que fossem centenas de vezes, aquele homem nunca o veria como nada além de um estranho.
Sim, quando se pensava bem, Ilay e Riegrow realmente eram a mesma pessoa.
— Golpe total… Mesmo quando ele disse que aquelas mãos não combinavam comigo, eu ainda quis cortá-las e colocá-las em mim. São bonitas demais pra serem desperdiçadas em alguém como ele.
No entanto, considerando o rosto limpo e bem-feito que ele tinha, aquelas mãos combinavam perfeitamente com sua aparência. Mas o problema não estava nas mãos, nem no rosto. O problema era a personalidade dele. A PERSONALIDADE.
Jeong Taeui diminuiu o passo de repente. Os acontecimentos da manhã passaram por sua mente. Naquela manhã, aquele homem havia morrido, o mesmo que tinha mirado em Ilay com uma besta na noite anterior.
Ilay havia dito que lidaria com o homem assim que voltasse para a Europa. E, de fato, cumprira sua palavra. Até o homem atacar novamente.
Quando a marcha terminou e eles retornaram ao prédio pela manhã, todos, recém-saídos do café, tiveram de mergulhar de imediato nas tarefas sem um segundo de descanso. Resmungaram e praguejaram enquanto pegavam seus equipamentos e seguiam para dentro.
Jeong Taeui murmurou:
— Eles sabem mesmo como sugar uma pessoa até a última gota! — disse, pegando a bagagem novamente.
Nesse momento, ele avistou alguém e murmurou:
— Hã…?
No meio dos homens grandes e com aparência rude da filial europeia, um rapaz chamou sua atenção, embora não fosse exatamente pequeno, era um pouco mais delicado que a média. Havia algo de familiar nele… Mas o quê? Jeong Taeui observou com atenção e, de repente, percebeu.
Era o homem que ele tinha visto na noite anterior. Embora não o tivesse enxergado claramente, lembrava-se do rosto dele durante a briga com Ilay. A linha afiada do maxilar lhe pareceu familiar, então olhou novamente… e, de fato, era o mesmo sujeito.
Jeong Taeui pigarreou de forma constrangida, sem motivo algum. Ele não havia olhado diretamente para o homem, nem testemunhado a cena embaraçosa da noite passada, mas mesmo assim se sentia um pouco envergonhado.
— Então é esse o tipo do Ilay, hein… Corpo menor que a média e traços delicados, suaves.
O humor de Jeong Taeui afundou. Ele se lembrou do olhar que Ilay lançara a Xinlu, e uma onda de desconforto o tomou. Sabia que precisava ser cuidadoso, mas não fazia ideia de como. Não podia simplesmente dobrar Xinlu e colocá-lo no bolso, e se Xinlu realmente decidisse ir embora, não haveria nada que ele pudesse fazer para impedir.
Ilay era, sem dúvida, um homem perigoso, capaz de fazer os outros sentirem que suas vidas estavam por um fio. E, ainda assim, possuía um charme inegável, difícil de resistir. Jeong Taeui havia sentido isso claramente na noite anterior.
De repente, uma dor aguda atravessou o peito de Jeong Taeui, e seu humor piorou ainda mais. Ele não pôde evitar o pensamento:
“Se Ilay realmente for atrás do Xinlu, eu conseguiria impedi-lo?” Só de imaginar, sentiu um peso esmagador no peito, uma inquietação impossível de afastar.
Enquanto Jeong Taeui se perdia em seus pensamentos sombrios, algo inesperado aconteceu.
Bem diante dos olhos de todos, o homem, ainda com a cabeça enfaixada e coberta de sangue seco, de repente avançou contra Ilay. A lâmina em sua mão brilhou com um reflexo frio e azulado, mirando diretamente o lado de Ilay, enquanto ele investia com uma velocidade assustadora.
Taeui estava a poucos passos de Ilay, distraído, com a bagagem pendurada no ombro. E então, ele viu.
A longa e afiada faca estava a poucos centímetros de cortar o lado de Ilay.
Ilay se virou. Lançou um breve olhar ao agressor e, em seguida, desviou o olhar para Taeui. Foi um instante fugaz, tão breve que era difícil dizer se realmente se encararam, mas Ilay deu um leve sorriso.
“Viu? Isso não é culpa minha. Eu não tive escolha.”
Aquele sorriso parecia dizer tudo.
No momento seguinte, Ilay golpeou o homem desesperado e imprudente. Sem hesitação, usou a própria faca que o homem carregava e passou-a em seu pescoço.
A lâmina abriu um corte profundo, quase até a metade, rasgando a carne. O sangue jorrou como uma fonte, uma chuva escarlate. Ilay ficou parado, deixando o sangue cair sobre si, antes de jogar a faca no chão como se fosse um objeto sem valor. Com o dorso da mão, limpou o sangue que cobria suas pálpebras. A área ao redor dos olhos era a única parte de seu rosto que permanecia limpa.
Jeong Taeui ficou imóvel, atônito diante da cena que se desenrolava a poucos metros de distância. Algumas gotas de sangue respingaram em sua bochecha e na gola da roupa.
Ninguém ao redor disse uma palavra. Todos apenas encaravam o homem que desabava lentamente em meio a uma poça de sangue, enquanto Ilay observava o corpo com indiferença.
Ilay levantou a cabeça. Seu olhar encontrou o de Jeong Taeui novamente, um contato rápido, quase acidental. Taeui baixou os olhos para o corpo do homem morto e murmurou:
— Mais um caso de “legítima defesa”, hein?
Ilay certamente entendeu o sarcasmo nas palavras de Taeui, e com certeza o ouviu claramente. Ainda assim, limitou-se a responder com um leve sorriso de desdém.
Jeong Taeui limpou o sangue da bochecha com o polegar e continuou andando.
Ao passar por Ilay e entrar no prédio, não demorou muito até ouvir, atrás de si, a voz de um instrutor, firme e constrangida, chamando a atenção de Ilay:
— De acordo com as regras, não podemos responsabilizá-lo por isso, mas se continuar acontecendo, não poderemos mais fingir que não vimos. Se acontecer de novo, teremos que tomar providências.
Era um aviso que até mesmo Jeong Taeui sabia que ninguém realmente levava a sério, e certamente Ilay também não se importava.
Jeong Taeui esfregou os braços, sentindo a pele arrepiar. Mesmo com o sistema de ar-condicionado de última geração do prédio, só de lembrar da cena daquela manhã seu estômago se revirou e um arrepio percorreu sua espinha.
Aquele era Ilay. E aquele era Riegrow. Um homem que nem piscava, que permanecia inabalável mesmo em uma situação daquelas. E era exatamente isso o que mais incomodava Jeong Taeui.
— Aquele desgraçado… Será que veio pra cá só porque pode matar gente sem consequência? — murmurou Taeui, irritado.
Ele não queria pensar dessa forma, mas… e se Ilay realmente tivesse algum tipo de prazer distorcido em matar pessoas?
— Quem é esse, Tay-hyung?
Jeong Taeui, que estava encostado na parede olhando para os próprios pés, ergueu a cabeça ao ouvir a voz inesperada. A poucos passos dali, Xinlu o observava em silêncio. No instante em que seus olhares se encontraram, Xinlu sorriu docemente, como algodão-doce.
— Oh, Xinlu. Há quanto tempo você está aí?
— Desde que você disse: “Essas mãos são bonitas demais pra ele.”
Quem é que tem mãos tão bonitas assim, hyung? — perguntou Xinlu, inclinando a cabeça com curiosidade.
Jeong Taeui balançou as mãos depressa, negando.
— Não, não. Não é nada importante. Não é alguém com quem você precise se preocupar.
— Hum…..
Xinlu o encarou por um momento, antes de sorrir novamente e assentir com brilho nos olhos.
— Tudo bem. Seja o que for, não se preocupe tanto. Você não tem parecido muito bem ultimamente… Voltou agora de ver o Instrutor Jeong? Ser pego não seria bom.
O tom de Xinlu era preocupado. Afinal, o andar onde estavam era um lugar em que Jeong Taeui não deveria estar. Mas ele já tinha se conformado com a ideia de talvez acabar copiando mais dez volumes de regulamentos, então, já não sentia medo algum. “Chegou até a pensar: Se já fui pego pelas câmeras uma vez, qual o problema de ser mais algumas?”
Taeui olhou silenciosamente para Xinlu. Só de vê-lo, um sorriso lhe escapou.
Xinlu era sempre bonito e adorável. Só de olhar para aquele rosto puro e inocente, o coração de Taeui se tornava mais leve. E, especialmente, aquele sorriso doce… como caramelo derretido.
— Xinlu.
— Sim?
— … Não é nada.
Jeong Taeui chamou seu nome e sorriu suavemente. Xinlu inclinou a cabeça, confuso, mas logo voltou a sorrir, com aquele sorriso adorável de sempre. Ver aquele sorriso fez o coração de Taeui apertar. Talvez fosse isso que as pessoas chamavam de felicidade de estar apaixonado.
Embora não tivesse certeza se estava realmente apaixonado, ele sabia que gostava de Xinlu, e Xinlu, por sua vez, compreendia seus sentimentos e respondia com carinho. Pensando que até compartilharam um beijo, embora apenas na bochecha, Jeong Taeui sorriu consigo mesmo, sentindo uma alegria silenciosa.
— Para onde você vai?
— Ah, só estou voltando para o meu quarto. Acabei de terminar o trabalho. Demorou um pouco mais hoje, porque havia muita coisa para fazer.
— É mesmo… Então vá descansar. Se cuida, e nos vemos mais tarde.
Taeui deu um leve tapinha no ombro de Xinlu, escondendo a pontada de arrependimento que sentia por dentro. Xinlu também pareceu um pouco relutante, permanecendo em silêncio por um instante antes de dizer:
— Sim. Você também se cuide. Não se esqueça, vamos sair juntos quando seu treinamento acabar.
A forma como Xinlu disse aquilo, meio brincando, meio sério, com um tom divertido, fez o coração de Taeui apertar novamente. Aquilo realmente parecia amor.
— Certo. Nos vemos mais tarde… — murmurou Taeui, enquanto esfregava o canto da boca, tentando esconder o sorriso tímido que surgia sem controle.
Mas, naquele instante, ele parou. O sorriso desapareceu completamente do seu rosto.
Bem à sua frente, no topo da escada, estava um homem.
Ilay Riegrow.
O rosto de Taeui se tensionou. Xinlu deve ter percebido também, pois se virou, com expressão confusa. Ilay, que acabara de descer as escadas e os viu, parou por um momento, direcionando o olhar a Taeui antes de desviar os olhos para Xinlu.
— …..
— ……
Um silêncio estranho caiu sobre eles. Ilay olhou para Xinlu, e Xinlu, por sua vez, encarou Ilay. Jeong Taeui olhou ansiosamente de um para o outro, seu olhar saltando de um lado para o outro.
Sempre que Jeong Taeui pensava em Xinlu diante daquele homem, um medo vago surgia dentro dele. Um medo instintivo, o medo de perder algo precioso. Exatamente como agora.
— …Tay-hyung, vou indo. Se cuida.
Xinlu quebrou o silêncio pesado com sua voz suave. Virou as costas para Taeui, de modo que ele não pôde ver sua expressão, mas havia uma sutil cautela em seu tom. Taeui se sentiu um pouco aliviado com aquela vigilância. Pelo menos por enquanto, Xinlu não demonstrava interesse ou curiosidade pelo homem. Ele estava sendo cauteloso.
Por mais cuidadoso que fosse, Taeui sabia que Ilay era alguém que não hesitaria em usar a força para conseguir o que queria, sempre agindo por seus caprichos. Mas a vigilância de Xinlu lhe trouxe algum conforto. Porque, lá no fundo, Jeong Taeui sempre temeu que Xinlu pudesse ser atraído pelo estranho fascínio de Ilay.
— Certo. Até mais.
— Sim, eu entro em contato com você.
Xinlu se virou para olhar Taeui e sorriu. Embora o sorriso parecesse um pouco forçado, ainda assim era doce e encantador. Pensar que Ilay também via aquele sorriso à distância deixou Taeui desconfortável. Mesmo assim, Ilay se apoiava na parede, observando-os em silêncio, como se assistisse a uma cena interessante. Seus olhos brilhavam de curiosidade.
Xinlu se despediu de Jeong Taeui antes de se virar para ir em direção ao seu quarto. À medida que se aproximava de Ilay, seus passos ficavam mais pesados, como um pequeno animal assustado, arrepiado diante de um predador.
Passo a passo, a distância entre Xinlu e Ilay diminuía. Ilay, com os braços cruzados, encostado na parede e um sorriso de canto nos lábios, mantinha o olhar fixo em Xinlu. De repente, o coração de Taeui começou a disparar.
— Xin…
Taeui mal teve tempo de abrir a boca para chamá-lo.
Quando Xinlu, agora a poucos passos de Ilay, virou a cabeça em resposta ao chamado, Ilay se endireitou e estendeu o braço, agarrando-o pela cintura.
Incapaz de se esquivar, Xinlu foi puxado bruscamente contra ele. Ilay o empurrou contra a parede, pressionando seu corpo contra o dele. Os dedos longos de Ilay seguraram o queixo de Xinlu, erguendo-o enquanto mordia com força seus lábios, como se quisesse devorá-lo. A língua grossa de Ilay invadiu rapidamente a boca de Xinlu, ainda aberta de espanto. Os olhos de Xinlu se arregalaram em puro terror.
— ILAY! PARE AGORA MESMO!
Jeong Taeui rugiu de fúria enquanto corria em direção a eles.
Mas Ilay parecia completamente indiferente às palavras de Taeui. Sua mão deslizou sem hesitação, agarrando a parte sensível de Xinlu. Um gemido fraco escapou dos lábios de Xinlu. A mão grande de Ilay o apertava e acariciava entre as pernas, o tecido fino começando a se umedecer. O movimento de sua mão era obsceno, tornando a cena imunda e sufocante.
— ILAY!
Taeui agarrou Ilay pelos ombros e o arrancou de cima de Xinlu. Ilay não resistiu, como se já pretendesse soltá-lo desde o início. Taeui o segurou pelo colarinho e o empurrou com força contra a parede.
— NÃO FAÇA ISSO! NÃO TOQUE NELE!
Jeong Taeui gritou, os olhos arregalados de raiva. Sua mente ardia. Quando Ilay beijou Xinlu à força e sua mão deslizou entre as pernas dele… Taeui sentiu como se não conseguisse respirar.
Ilay olhou para Taeui com diversão, mas logo desviou o olhar de volta para Xinlu. Sua atitude indiferente deixava claro que Taeui não era alguém digno da sua atenção. A raiva de Taeui aumentou ainda mais, e ele apertou com força o colarinho de Ilay.
— ILAY…!
— Hyung… eu estou bem. Não faz isso.
Mas quem impediu Jeong Taeui foi Xinlu — aquele que Taeui tentava proteger, agora visivelmente atordoado.
Ainda segurando o colarinho de Ilay, Taeui olhou para Xinlu. O olhar de Xinlu estava confuso, indo e voltando entre os dois com preocupação nos olhos. Sua voz tremeu quando ele murmurou, ansioso e abalado:
— Não briguem… por favor, não briguem.
Ao ouvir aquelas palavras, o coração de Taeui doeu. Ele encarou Ilay por um longo momento antes de, lentamente, soltá-lo. Ilay sorriu de canto e ajeitou o colarinho com calma.
— Isso foi maravilhoso. Ele é ainda mais doce do que eu imaginava… hum?
— …!!
As palavras provocativas e zombeteiras de Ilay fizeram o sangue ferver novamente nas veias de Taeui. Mas, quando ele cerrou o punho, Xinlu rapidamente interveio. Embora Taeui o olhasse com clara insatisfação, o rosto tenso de Xinlu, prestes a chorar, o impediu de fazer qualquer coisa.
Jeong Taeui forçou-se a se acalmar, respirando fundo várias vezes antes de se afastar de Ilay. Então, falou com Xinlu em um tom baixo e contido:
— Vá para o seu quarto… Está tudo bem. Apenas vá.
Xinlu olhou para Taeui, ainda preocupado. Em seguida, virou-se para Ilay com um olhar de pura desaprovação, o que trouxe um pequeno alívio a Taeui. Ele não queria que Xinlu ficasse nem mais um segundo perto de Ilay, então o incentivou a sair. Xinlu entendeu e assentiu, antes de se afastar.
Taeui permaneceu parado, observando até que Xinlu entrasse no quarto e fechasse a porta. Ilay continuou ao lado dele, imóvel.
Mesmo depois que Xinlu sumiu de vista, Taeui ainda encarava aquela direção por um longo tempo, como se tentasse gravar a imagem dele na memória. Por fim, virou-se lentamente para encarar Ilay. Este, de braços cruzados, olhava para a parede oposta com uma expressão pensativa. Quando sentiu o olhar de Taeui, baixou os olhos e o encarou de volta.
Jeong Taeui relaxou lentamente os punhos cerrados e soltou o ar, deixando que a raiva intensa que o consumira aos poucos se dissipasse. Ele raramente demonstrava tanta fúria, e ainda menos era o tipo de pessoa que guardava rancor por muito tempo.
Jeong Taeui deu um passo para trás, sentindo-se um tanto patético, e perguntou com a voz carregada de irritação e amargura:
— O que você está planejando fazer?… Quer ficar com ele pra você?
Por um instante, uma faísca de interesse brilhou nos olhos de Ilay, um interesse que se assemelhava ao desejo.
— Ele ainda não é completamente seu, não é?
— É mesmo? Acho que Xinlu também gosta de mim.
Disse Jeong Taeui, ao que Ilay soltou uma risada baixa, seu interesse diminuindo um pouco.
— Ei, Taeui, você está entendendo errado de novo. Eu não estou falando de sentimentos como “gostar” ou “não gostar”. Pode ficar com isso pra você. Eu não preciso. O que eu quero é prazer, breve e intenso.
— …É mesmo.
Uma sensação profunda de incômodo e desconforto cresceu dentro de Jeong Taeui, ainda mais forte que a ansiedade que já o dominava antes.
Ele olhou diretamente para Ilay. Os olhos negros e frios de Ilay o encaravam de volta, indecifráveis, como se escondessem todos os seus pensamentos.
Ilay era um homem que sempre conseguia o que queria, custasse o que custasse. Desistir ou simplesmente perder o interesse não parecia fazer parte de quem ele era. Por isso, Jeong Taeui sabia que não podia recuar. Se Ilay pretendia ferir ou tomar Xinlu, alguém que Taeui prezava tanto, ele não ficaria parado. Não poderia, de jeito nenhum. Mesmo que soubesse o quanto era impotente diante dele.
De repente, Ilay soltou algo entre um riso e um suspiro, balançando a cabeça como se admitisse uma pequena derrota.
— Certo, certo. Eu não pretendo brigar com você agora. Mesmo que quisesse, este não é o momento certo. Então… eu posso ceder um pouco. Mas você também vai ter que recuar.
Taeui franziu o cenho ao ouvir a voz baixa e calma de Ilay. Não conseguia prever o que aquele homem diria sobre o desejo tão evidente que sentia por Xinlu.
Taeui clicou a língua, encarando Ilay por alguns segundos.
Droga. Agora Taeui entendia exatamente o que seu tio quis dizer.
Independentemente de ser algo bom ou ruim, o melhor era manter distância dele e não se envolver.
Jeong Taeui falou com um tom amargo:
— Certo, então me diga o que quer dizer com “ceder”. Não acho que eu tenha muita escolha.
Ao ouvir o tom irritado e um tanto derrotado de Taeui, Ilay riu. Era uma risada leve, como se estivesse oferecendo uma grande concessão.
— Ele é alguém de quem você gosta, certo? Eu também o acho atraente… e me sinto excitado. Meu princípio é conseguir o que eu quero. Mas, como eu disse, não pretendo brigar com você agora. Então, não interfira no que eu fizer com ele. Em troca, eu não vou usar força para obrigá-lo.
— O quê…?
— Você não entendeu? Já que ele ainda não é completamente seu, se eu me aproximar dele, seduzindo ou o levando pra cama, você não pode interferir. Em compensação, eu não vou usar violência nem nenhum tipo de coerção.
Taeui ficou parado, atônito, encarando Ilay. Era como se alguém tivesse acertado um golpe forte em sua nuca.
— Não… isso é…
— Se vocês não estão oficialmente namorando, então você não tem o direito de me dizer o que fazer.
Taeui permaneceu em silêncio.
Ilay tinha razão. Na verdade, Taeui não conseguia definir claramente o que havia entre ele e Xinlu. Podia-se dizer que ele estava tentando conquistá-lo, e Xinlu, por sua vez, respondia aos seus sentimentos, mas Taeui não tinha o direito de proibir Ilay de se aproximar de Xinlu.
Ainda assim, Jeong Taeui não conseguiu dizer “vá em frente”. Ele hesitou, sem saber o que responder, quando Ilay se virou, como se a conversa já tivesse acabado.
— Ilay! — chamou Jeong Taeui, sem nem perceber.
Ilay arqueou uma sobrancelha, mas apenas virou a cabeça para olhar por cima do ombro.
Jeong Taeui o encarou, o olhar pesado, e disse num tom triste:
— Se você usar violência… eu não vou deixar passar.
Ilay soltou uma risada leve e despreocupada.
— Claro. — respondeu de forma vaga, antes de simplesmente se afastar.
Jeong Taeui ficou parado ali, observando até que Ilay desaparecesse na esquina. Quando ele sumiu de vista, Taeui escorregou pela parede, sentindo como se o peso de décadas inteiras de exaustão tivesse desabado sobre seus ombros.
Tudo havia dado errado, da pior forma possível. Mesmo que não pudesse recusar abertamente a proposta de Ilay, pois, se tivesse se oposto com firmeza, as coisas só teriam piorado, também não havia um motivo real para não aceitá-la. Mas aquela situação estava muito longe do que Jeong Taeui havia desejado.
— O que foi isso de “não vou deixar passar”? Você precisa ter poder para dar respaldo a essas palavras, para que as pessoas acreditem em você.
Taeui murmurou com amargura, a própria voz carregada de autodepreciação, e soltou um suspiro doloroso.
Desde que pisara naquele lugar, sua vida não havia sido nada além de azar, e parecia que todas as situações ridículas em que se envolvia eram culpa dele mesmo.
[FIM DO VOL. 1]
Milk & Ink Scan
Traduzido e revisado por Mandy Ink.
Obrigada por acompanharem até aqui!
Nos vemos no Volume 2.
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Jeong Taeui, cujo irmão mais velho é o gênio Jeong Jaeui, é um ex-soldado que se considera uma pessoa comum. Atendendo à recomendação de seu tio, Jeong Chang-in, Jeong Taeui decidiu trabalhar por seis meses na Organização das Nações Unidas para o Desenvolvimento de Recursos Humanos (UNHRDO). Mas, ao se envolver com um homem maluco de mãos bonitas, Ilay Riegrow, ele nem imaginava que sua vida começaria a desandar em uma direção totalmente inesperada.
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