Ler O Marido Malvado – Capítulo 35 Online
Nenhuma resposta. Apenas um silêncio atônito, pontuado por olhos arregalados e imóveis. Eileen, ao revelar seu rosto numa tentativa desesperada de acalmar a situação, sentiu uma pontada familiar de vergonha. ‘Provavelmente vão querer que eu esconda os olhos novamente’, pensou, preparando-se para o julgamento.
Os olhos que sua mãe considerava grotescos, as mesmas feições que provocavam seu desprezo. Eileen lutou contra o impulso de recuar, respirou fundo para se acalmar e então levou a mão ao cabelo. Com um movimento hábil, retirou o grampo, deixando a franja cair sobre os olhos, obscurecendo sua visão. Aquele era o refúgio mais seguro que conhecia.
— … Meu Deus!
Um suspiro coletivo, pesado de alívio, foi o tiro de largada. A butique, antes mergulhada em desespero, vibrou com uma nova energia. As donas, que estavam num acalorado debate, agora se uniram com uma facilidade quase sobrenatural.
— Pura e inocente, é isso! Como uma visão saída de um conto de fadas, — exclamou uma delas, com a voz vibrando de entusiasmo. — Perfeito para uma cerimônia ao ar livre.
— Podemos simplesmente trocar as mangas do vestido por uma renda delicada. Vamos adicionar um toque de fantasia, para não ficar tradicional demais.
— Chifom, com certeza! Precisamos de um tecido que esvoaça com o menor vento.
— Finalmente, você disse algo útil.
Instruções rápidas, recheadas de termos técnicos, voavam entre as donas e a equipe, que corria para executá-las com eficiência. A mulher do vestido ornamentado, com urgência na voz, ordenou:
— Tragam uma cabeleireira, imediatamente!
Uma funcionária saiu correndo pela porta, os passos cheios de urgência. A mulher no vestido vibrante tocou gentilmente o braço de Eileen e se apresentou, tardiamente.
— Grã-Grã-Duquesa, pode me chamar pelo nome da butique.
O reflexo de Eileen zombava de si no espelho, provocando uma risada vazia. Era um lembrete cruel do porquê ela o evitava há tanto tempo.
A mulher de roupa discreta era Bella. Sua contraparte vibrante, Rosetto. E aquela com o vestido de padrões elaborado? Bright. Apesar dos gostos radicalmente diferentes, evidenciados nas apresentações sarcásticas, agora estavam unidas por um propósito comum: transformar Eileen em uma noiva deslumbrante.
Sob olhares atentos, Eileen vestiu o modelo guardado no fundo da butique.
— Deixe sua franja presa por enquanto, a cabeleireira já vem.
Disse uma delas. Outra ajustou delicadamente a cintura, pedindo:
— Respira fundo.
Uma terceira sugeriu:
— Vamos ver como ficam estas luvas de renda.
Uma enxurrada de comandos fez Eileen se sentir como uma boneca bem vestida, cada movimento orquestrado por mãos invisíveis. Finalmente, elas recuaram, com expressões de admiração e algo mais profundo. Rosetto, com seriedade incomum, declarou:
— Você será uma noiva que o Império jamais esquecerá.
Com mãos cuidadosas, a conduziram para fora da improvisada sala de prova. Diego, absorto na conversa com uma funcionária, se virou ao ouvir passos se aproximando. Seus olhos se arregalaram, e ele perdeu momentaneamente a fala. Por fim, balbuciou:
— Você está… deslumbrante.
Os elogios de Diego jorravam, cada um deixando Eileen mais corada. Bella, com cuidado, a virou para o espelho, mas Eileen manteve os olhos no chão.
Anos se passaram desde que encarou seu reflexo por completo. Aquele ato, banal para a maioria, exigia uma coragem que ela não tinha. ‘Todos dizem que estou bonita’, pensou, com palavras ecoando em sua mente.
Apesar de desconfiar que os elogios eram só para animá-la, a ternura nos olhos delas acendeu uma centelha de esperança. Talvez, naquele vestido, não fosse tão repulsiva. Respirando fundo, Eileen levantou os olhos com hesitação. O espelho a encarou de volta, e por um momento, tudo ficou em silêncio.
Uma risada amarga escapou de seus lábios, um lembrete cruel do motivo pelo qual havia banido os espelhos da sua vida. O vestido elegante e toda a gentileza não apagavam anos de autoaversão. No espelho, ela não via a imagem encantadora que todos descreviam, mas sim as imperfeições que a assombravam.
O reflexo era uma caricatura grotesca, um pesadelo infantil rabiscado com giz preto. Devorava a beleza do vestido, deixando apenas uma figura monstruosa olhando de volta. ‘Mesmo que eu quisesse’, pensou, ‘não consigo ver meu próprio rosto.’
Anos de exílio autoimposto, alimentados pela crueldade da mãe, distorceram a percepção de Eileen. Seus olhos funcionavam bem, mas sua mente criou uma prisão deformada. Corrigir isso parecia impossível. O reflexo só confirmava seus piores medos, um deboche monstruoso que reforçava sua dor.
— Gostei. Posso voltar para minhas roupas agora?
Forçando um sorriso, Eileen elogiou o trabalho delas e voltou para o conforto do seu traje habitual. O nó em seu peito afrouxou, um pequeno triunfo em meio à batalha que travava.
Um alvoroço anunciou a chegada da cabeleireira. Vinda direto de um almoço tardio no salão próximo, correu ao ouvir a notícia: a futura Grã-Duquesa de Erzet precisava de seus cuidados. Sem rodeios, sentou Eileen na cadeira, cobrindo seus ombros com um pano.
— Aparar a franja não vai levar mais de dez minutos, —anunciou.
A ideia de experimentar outro vestido depois do corte foi recebida com um aceno silencioso. Seu coração ansiava pelo conforto da sua casa de tijolos, mas fugir ainda não era uma opção. Quando a cabeleireira pegou a tesoura, Eileen sentiu um calafrio subir pela espinha. Algo, bem lá no fundo, parecia errado.
Seu coração disparou ao ver a tesoura se aproximar. A cena parecia se desenrolar em câmera lenta. As lâminas prateadas brilhavam sob a luz.
Sua visão escureceu. As vozes ao redor se tornaram indistintas, como se viessem de longe, enquanto o som de sua própria pulsação preenchia os ouvidos. Um zumbido agudo rasgou sua mente.
‘Eu… eu sinto que vou morrer.’
A respiração falhou. O corpo enrijeceu. O pânico explodiu dentro dela, imobilizando qualquer pensamento ou movimento. Um medo instintivo subiu até sua garganta e a fez abrir a boca com desespero.
— Senhor… Senhor Diego.
Instintivamente, ela chamou pela única pessoa em quem confiava. Assim que ouviu sua vozinha trêmula, Diego correu até ela, afastando a cabeleireira. Ajoelhou-se, segurou suas mãos e falou com um sussurro suave:
— Está tudo bem. Respire devagar. Inspire… isso. Expire… mais devagar. Você está indo muito bem.
Eileen apertou as mãos de Diego com força, tremendo enquanto tentava obedecer às instruções, inspirando e expirando. Aos poucos, o ritmo da respiração se normalizou, e ela começou a se acalmar. Com o rosto pálido, olhou para Diego, que sorriu e murmurou:
— Que tal deixarmos o vestido para depois e irmos tomar um chá?
Eileen assentiu, sentindo uma onda de alívio tomar conta. A tensão foi se dissipando, substituída pela gratidão pela presença reconfortante de Diego. O agito da butique ficou distante. Agora, havia apenas os dois. Diego a ajudou a se levantar e então se voltou para os outros na sala.
— Obrigado pelo trabalho de vocês hoje, mas por enquanto já é suficiente. Vamos indo.
As costureiras e a cabeleireira compreenderam em silêncio. Com um aceno gentil, se afastaram, permitindo que Diego conduzisse a situação. Ele guiou Eileen para fora da loja, e o ar fresco bateu em seu rosto como um bálsamo. A cada passo para longe, um pouco do pânico sufocante se desfazia.
Diego encontrou um canto tranquilo num café próximo. Quando se sentaram e aguardavam o chá, Eileen enfim sentiu alívio. O episódio da loja, que antes parecia um pesadelo, já parecia distante, substituído pela presença firme do amigo.
O café na varanda, banhado pelo sol da tarde, exalava serenidade. Um refúgio dos cidadãos de classe média do Império, afastado da estrada principal, envolto em tranquilidade.
Uma atendente com voz tão bela quanto a de uma cantora de ópera anotou o pedido com graça. Após uma troca de cumprimentos com Diego, ela desapareceu na cozinha.
— Sou cliente assíduo aqui. O Cortado e o Cappuccino são excelentes. Tomo café da manhã aqui quase todos os dias.
Explicou Diego, completando o pedido por Eileen.
Ele então notou um pedaço de papel e um lápis na mesa. Com um gesto rápido, desenhou um gato e entregou a ela.
— Esse é meu gato. Não é lindo?
O desenho mais parecia um tigre, o que fez Eileen sorrir. Diego, satisfeito, continuou:
— Ultimamente, um gato branco anda rondando minha casa. Já estamos íntimos. Talvez ele entre de vez.
Enquanto falavam sobre o gato rechonchudo, a atendente trouxe os pedidos. Diego empurrou o leite e o Cortado para Eileen.
Ela segurou o copo com as duas mãos, focando no calor em suas palmas, tentando afastar as lembranças do provador.
Acima de tudo, sentia vergonha. O que as pessoas da butique estariam pensando dela? Felizmente, não precisou rastejar para fora em humilhação.
— Obrigada, Sr Diego. Acho que te assustei…
— De maneira nenhuma. Já vi situações assim muitas vezes no campo de batalha. Mas não sabia que você tem medo de tesouras.
Respondeu ele, com naturalidade, antes de perguntar com delicadeza:
— Posso saber por quê?
Continua…
Tradução Elisa Erzet
Ler O Marido Malvado Yaoi Mangá Online
Cesare Traon Karl Erzet, o Comandante-Chefe Imperial.
Após três anos de serviço na guerra, ele voltou para propor casamento a Eileen.
Eileen lutou para acreditar que a proposta de casamento de Cesare era sincera.
Afinal, desde o momento em que se conheceram, quando ela tinha dez anos, o homem afetuoso sempre a tratou como uma criança.
— Eu não quero me casar com Vossa Alteza.
Por muito tempo, seu amor por ele não foi correspondido.
Ela não queria que o casamento fosse uma transação.
Foi por causa da longa guerra?
O homem, que normalmente era frio e racional, havia mudado.
Suas ações impulsivas, seu desejo desenfreado por ela — tudo isso era muito estranho.
— Isso só deve ser feito com alguém que você ama!
— Você também pode fazer isso com a pessoa com quem planeja se casar.
Eileen ficou intrigada com essa mudança.
E, no entanto, quanto mais próxima ela ficava de Cesare…
Ela descobriu coisas que desafiavam a razão ou a lógica.
Eileen soube das muitas ações malignas de seu marido pouco tempo depois.
— Eu não pude nem ter o seu corpo, Eileen.
Tudo o que ele fez foi por ela.
Ele se tornou o vilão, apenas por sua Eileen.
Nota: Mesma autora de Predatory Marriage
Ps: Cesare é o maridinho dessa tradutora aqui ❤️❤️❤️