Ler O Governador está doente – Capítulo 96 Online


Modo Claro

Xiahou Lian mandou Shen Jue de volta para casa. O ar estava frio, frio o suficiente para inalar pelo nariz. A lua pairava alta no céu, e o luar banhava o beco com um branco prateado. Xiahou Lian segurava a mão de Shen Jue enquanto caminhavam pela trilha; os pátios cinzentos e quadrangulares de ambos os lados recuavam um a um, e à frente, casas e ruas escuras. O mercado noturno já estava distante, então eles não conseguiam ouvir vozes, apenas latidos esporádicos de cães. Seu humor melhorou lentamente, mas voltou a ficar melancólico, pois Shen Jue logo voltaria para casa.

 

Shen Jue chegou ao portão de sua casa. Os dois leões de pedra eram duas grandes sombras, agachadas estupidamente em frente ao portão da Mansão Shen. Os dois ficaram no portão e se despediram, e Shen Jue tirou a cicatriz, revelando o rosto que havia escondido por uma noite. Duas lanternas pendiam abaixo do beiral e, na luz e nas sombras, seus olhos estavam baixos, contendo uma gentileza que normalmente não possuíam. 

 

Xiahou Lian olhou para ele em silêncio. Shen Jue sempre fora tão bonito e, por onde quer que estivesse, era uma pintura; se ele estivesse em um atoleiro, o atoleiro também poderia se transformar em um lago cheio de lótus por causa dele. Quando estava ao lado de Xiahou Lian, o coração de Xiahou Lian se encheu de alegria.

 

Shen Jue temia que a noite não fosse segura, então quis designar alguns servos para Xiahou Lian.

 

Xiahou Lian disse que não precisava deles.
— Vai para dentro, eu vou ficar aqui te vendo entrar, e então vou embora.

— Eu é que vou ver você ir embora, vai — respondeu Shen Jue.

— Ah, entra logo! — Xiahou Lian empurrou levemente os ombros dele.

Os dois ficaram ali enrolando, e mesmo depois de muito empurra-empurra, nenhum dos dois tinha dado um passo sequer. Os guardas do depósito observavam de longe, no vento frio, sem entender o que estava acontecendo entre eles.

— Por que a gente não conversa mais um pouco? — disse Shen Jue, por fim.

Na verdade, eles podiam se ver no dia seguinte, dali a oito horas, para ser exato, fechar e abrir os olhos e o tempo passaria num piscar. Normalmente, ele até achava que oito horas de sono não eram suficientes. Mesmo assim, Xiahou Lian ainda relutava, como se sentisse que aquela pessoa precisava estar ao seu lado, e que só ficaria em paz se pudesse esticar a mão e apertá-lo contra o coração. Antes mesmo que tomasse uma decisão, sua boca respondeu por ele:

— Tá bom.

Assim, eles se sentaram nos degraus, e Xiahou Lian colocou um lenço de seda debaixo do traseiro de Shen Jue. Os dois sentaram-se ombro a ombro e olharam para a lua. O céu era cinza-azulado, e às vezes podiam ver as sombras branco-acinzentadas das nuvens. O luar caía em padrões, e o mundo parecia estar molhado, ondulando como na água.

— Você terminou de construir sua fornalha de sabres? — perguntou Shen Jue.

— Já foi construída, mas não tenho como forjar o ferro — Xiahou Lian respondeu, com uma leve dor de cabeça. — Só tenho tempo à noite, mas meus vizinhos dizem que o barulho do martelar é tão alto que não conseguem dormir. Toda vez, eles chutam minha porta e ainda dizem que vão me denunciar às autoridades.

— Denunciar às autoridades? Mas você não é uma autoridade? — Shen Jue olhou de lado para ele.

— Não posso usar isso para intimidar as pessoas — disse Xiahou Lian.

Shen Jue ficou sem palavras; Xiahou Lian estava mesmo determinado a manter as aparências. Da última vez, ele havia tentado ensinar Xiahou Lian a intimidar as pessoas com seu poder e usar o título de governador para conseguir o que queria. Já haviam se passado vários dias, mas ele nunca tinha ouvido Xiahou Lian usá-lo. Se não fosse por ele usar o sobrenome de “Padrinho”, como teria conseguido investigar Garan tão facilmente?

— Construa a fornalha de sabres na minha mansão — disse Shen Jue. — Minha casa é grande, então o som da forja não vai incomodar os vizinhos.

— Okay. — Xiahou Lian tocou o braço dele. — Quer ver a Seda de Mecanismo Condutor? Espere eu forjá-la e te mostro. É muito divertida, e é como tecer: você precisa instalar um clipe de fio e há urdiduras e tramas, embora não seja tecido tão densamente.

— Dá para tecer uma flor? — Shen Jue perguntou casualmente.

— Sim. — Xiahou Lian tateou a dobra de suas roupas e puxou um cordão vermelho de uma bolsinha. Ele enrolou o cordão na mão e, conforme os dedos se moviam, o fio vermelho gradualmente tomava forma. Ele tecia enquanto dizia: — A teoria das matrizes de Seda Condutora é um pouco parecida com isso, mas um pouco mais complicada. Se quiser aprender, eu te ensino. Você é tão esperto, vai aprender depois de dois dias tecendo.

No fim, transformou-se em uma orquídea de três pétalas. Ele colocou a pequena orquídea na palma da mão de Shen Jue.

— Para você.

— Você é um homem adulto, e ainda sabe tecer. — Shen Jue segurou a pequena orquídea e cutucou as pétalas pequenas e delicadas com o dedo.

— Não tive outra escolha, né? Minha mãe não sabia, então eu que tive que aprender. Caso contrário, como faríamos com as roupas? Falando nisso, eu sei fazer muitas…

— Coisas como fritar, cozinhar, fiar, tecer, varrer, cortar hastes de bambu e construir casas… tudo isso minha mãe me obrigou a aprender — disse Xiahou Lian.

— Oh — disse Shen Jue. — Eu não sei fazer nenhuma dessas coisas.

— Pra que você precisaria saber? — Shen Jue pensou que Xiahou Lian fosse dizer que era extremamente rico, com milhares de servos, e que por isso não precisava se preocupar com essas tarefas. Mas Xiahou Lian apenas disse:

— Basta que eu saiba.

A luz da lua era serena, e tudo ao redor estava calmo. Em algum lugar distante, alguém soltava uma lanterna no céu. Ela subia lentamente, tornando-se uma segunda lua no firmamento. Xiahou Lian falou:

— Jovem mestre, deixe que eu teça uma bolsinha perfumada pra você.

— Seu trabalho é bom mesmo? Eu apareço na corte imperial e vou a templos. Não me faça passar vergonha usando isso — Shen Jue respondeu, um pouco desconfiado.

— Não me subestime, tá?

Shen Jue abaixou o olhar para os próprios pés e, de repente, lembrou-se de que as garotas da capital adoravam costurar bolsinhas perfumadas. Quando o rapaz que elas gostavam passava embaixo da sacada do prédio de bordados, elas jogavam a bolsinha para ele. A partir daí, a paixão ficava no ar — e elas não esqueciam pelo resto da vida.

Um pensamento secreto nasceu em seu coração: era como se, ao receber uma bolsinha perfumada de Xiahou Lian, ele passasse a ser dele a partir daquele momento. Um leve sorriso surgiu no canto de seus lábios, e ele disse:

— Tudo bem. Quero uma com cheiro de orquídea.

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A vela estava acesa, e a cera vermelha escorria, pingando no pires e secando lentamente em pequenas flores. Enquanto Baili Yuan olhava para a vela com o olhar perdido, o corpo vermelho da vela e a chama amarela se fundiam, sem contornos definidos, transformando-se num halo bonito.

Ela pensava sobre por que tinha escutado aquele som de xun naquele momento. Era como o destino, o fantasma do fado segurando sua mão e a guiando até o jardim, onde encontraria aquele som. Era como se ela fosse o próprio espírito maligno do destino, destinada a matar seus pais e irmãos e no fim, ninguém da família sobrevivera, exceto ela.

Foi só muitos anos depois que encontrou Chi Yan novamente. Já era a Yama do clã Baili, e todos os assassinos se curvavam diante dela. Na primeira vez em que expandiu o Fruto da Felicidade até o Desfiladeiro Zijing, o bandido local não obedeceu; ele queria se apossar de suas mercadorias e até matar seu povo. Ela ficou furiosa e o enterrou na neve, deixando apenas sua cabeça lisa para fora. Viu que ele chorava, lágrimas e muco escorrendo e se transformando em gelo que pendia de seu rosto. Na manhã seguinte, quando voltou para olhar, ele já havia sido congelado por completo, transformado num bloco de gelo, com a mesma expressão miserável no rosto.

Ela havia deixado os assuntos nas mãos de seus subordinados e ido até a cidade para se divertir. Lá, viu Chi Yan, e ele também estava miserável. Usava um casaco cinza de pele de carneiro todo esfarrapado, e Shana estava envolta em trapos presos à sua cintura. Ele comprou um pão cozido duro e ficou debaixo das beiradas de uma estalagem, comendo. Parecia ter mais de vinte anos, mas ainda mantinha a expressão de uma criança, a mesma de antes.

Ela se escondeu no meio da multidão e o observou; ele estava olhando uma criança brincar na rua. A criança sacudia um chocalho e se movia de um lado para o outro diante dele. Alguém empurrando uma carroça de boi passou na frente, e muitos produtos de couro de vaca e de carneiro estavam empilhados sobre ela. A luz do sol se espalhava pelo chão, tênue e rarefeita. O sol do Norte não era forte, sempre tão apagado quanto água morna. Não se sentia nada quando brilhava sobre o corpo, mas, por causa daquela camada de cor amarela clara, parecia ser capaz de aquecer um pouco as pessoas.

A multidão se movia entre eles. Eles eram como duas rochas, mantendo um acordo tácito que não existia, e nenhum dos dois se movia. A rua estava animada, e havia sorrisos nos rostos das pessoas, mas aquilo não tinha nada a ver com eles. Eram apenas observadores, apenas estranhos. Ela pensou: Que bom. Ele ainda é o mesmo de antes, solitário como eu.

A-Chu terminou de remover a maquiagem e levantou a saia enquanto se aproximava. Sem o rouge vermelho e o pó branco, seu rosto era uniforme e claro, com sobrancelhas longas como montanhas ao longe, olhos grandes com forte contraste entre o preto e o branco, e lábios vermelhos um pouco pálidos. A-Chu se agachou ao lado da cama e perguntou se ela estava se sentindo melhor.

— A-Chu-jiejie, você é bonita sem maquiagem — disse ela, ao invés de responder, estendendo a mão para tocar o rosto de A-Chu.

A-Chu cobriu a boca e riu, cutucando o nariz de Baili Yuan.

— Sua boca é tão doce!

— Ainda mais bonita do que aquele Shen Jue — disse Baili Yuan.

— Você fala como se já tivesse visto ele antes — A-Chu sorriu. — Cuidado para os subordinados do Depósito Oriental não ouvirem isso e te pegarem pra fazer ensopado. Ouvi dizer que os eunucos do palácio gostam de pegar crianças pra fazer ensopado, porque carne de criança é macia e ajuda a manter a beleza. Talvez o Eunuco Shen cozinhe e coma crianças todos os dias.

— A-Chu-jiejie, não use mais maquiagem no futuro.
— Por quê? Ainda tenho que trabalhar, como posso não me maquiar? — A-Chu inclinou a cabeça e olhou para ela.
— Pare de trabalhar. Existem regras para a prostituição? Eu tenho dinheiro, vou cuidar disso pra você. — Baili Yuan tirou uma bolsa da dobra de sua roupa e derramou vários lingotes de ouro, que caíram na cama com um som metálico.

A-Chu ficou boquiaberta ao olhar para eles.
— Meu Deus, reconheci o deus da fortuna como minha irmãzinha. — Ela balançou a cabeça com força e guardou os lingotes de volta na bolsa de Baili Yuan, enfiando-a na parte da frente de suas roupas. — Esconda bem seu dinheiro e não tire ele por aí. Se um ladrão vir isso, você morre. Deus do céu, com o que trabalha a sua família?

— Minha família vende remédios — disse Baili Yuan.

— Vender remédios dá tanto dinheiro assim?! Ah, o dono de uma loja de ervas veio aqui da última vez assistir à ópera, mas achei ele gordo demais e não me interessei. — A-Chu torceu os pulsos e suspirou. — Deixa pra lá, deixa pra lá, é a vida! Anda, anda, levanta logo, vamos soltar lanternas.

A-Chu puxou Baili Yuan para cima. Ela vestiu por enquanto seu short sujo, colocou a saia e, por fim, jogou sobre os ombros um manto escarlate antes de ser arrastada para o pátio.

Chi Yan estava lá, segurando a borda do papel de óleo de um balão celeste. Já os aguardava fazia um bom tempo, com os ombros e a cabeça cobertos de neve.

A-Chu correu animada, pegou um pincel de tinta e começou a escrever seus desejos no papel de óleo. Baili Yuan observava ao lado; A-Chu havia escrito:


— Ganhar muito dinheiro, encontrar um homem rico, poderoso e bonito, comprar minha liberdade e virar concubina.

Baili Yuan ficou em silêncio.  — …

Ela não viu o que Chi Yan escreveu, mas também não precisava. Com certeza havia escrito algo como: 

 — Encontrar meu irmãozinho.

 — Que meu irmão esteja seguro — essas coisas.

Irmãozinho, irmãozinho. Ela realmente odiava aquele irmãozinho e queria encontrá-lo o mais rápido possível… para matá-lo. Chi Yan só podia ter uma irmãzinha, não um irmãozinho.

— Pronto, é a sua vez de escrever! — disse A-Chu, entregando-lhe o pincel.

Baili Yuan pegou o pincel e escreveu seu desejo no papel de óleo. A-Chu observava em silêncio e murmurou:

— A-Yuan, sua caligrafia é tão bonita.

De fato, entre os três, a caligrafia dela era a melhor, com traços que lembravam dragões e serpentes, exibindo uma ousadia que parecia desafiar o mundo.

Chi Yan acendeu o fogo, e o balão de papel começou a inflar rapidamente, deixando os três no chão olhando para cima, enquanto ele subia cada vez mais alto. À medida que a chama crepitava com força, o balão girava lentamente ao sabor do vento, flutuando para longe. A luz do fogo queimou o lado onde Baili Yuan havia escrito, e Chi Yan conseguiu ver seu desejo.

— A-Yuan quer ficar para sempre com o Chi Yan-gege e a A-Chu-jiejie.

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O mundo não esperava que o Yama de uma montanha de cadáveres e líder dos ociosos, Xiahou Lian, fosse reduzido ao posto mais baixo de subordinado no Depósito Oriental. Ele tinha um salário mensal de dois taéis, que não era nem o suficiente para o aluguel.
Como um rebelde no mundo das artes marciais e o criminoso mais procurado do Depósito Oriental, Xiahou Lian não esperava que o delicado jovem mestre que ele conhecera em sua infância se tornasse, na verdade, o poderoso e arrogante governador do Depósito Oriental.
Quanto a esse governador, havia um raio de luar branco em seu coração, a memória de alguém que ele cobiçara por muito tempo, mas que estava fora de seu alcance.
“Eu me tornarei um fantasma para você, e você se tornará um Buda para mim.”
Nome alternativo: The Governor Is Sick, The Governor Is Ill, Du Zhu You Bing, Theres Something Wrong With The Governor

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