Ler No fim do inverno – Capítulo 20 Online


Modo Claro

Cabeça Erguida, Ombros Para Trás.

 

— Você já estava indo dormir?

Johannes perguntou indiferentemente enquanto avançava lentamente.

Com a inesperada visita tarde da noite, Eunice instintivamente mexeu na barra de sua camisola. Sua boca estava seca.

— Não, por favor, entre.

Foi uma saudação um pouco tardia para alguém que já havia entrado. Mas ela estava atordoada demais para responder logicamente.

Antes que percebesse, Johannes já estava bem diante dela, e seus passos pararam.

O olhar de Eunice naturalmente se ergueu.

Seu pescoço grosso, a linha definida da mandíbula, o nariz alto e aqueles frios olhos azuis. À medida que cada traço entrava em seu campo de visão, ela suspirava silenciosamente. Um leve cheiro de terra e metal emanava dele. Como se tivesse acabado de empunhar uma espada, vestido em uma armadura.

‘É esse o cheiro da guerra?’

O aroma frio e duro fez seu coração tremer.

Ela sentiu visceralmente que ele era o homem que havia unificado Nordisch pela força. E que, de alguma forma, havia ferido o orgulho de um homem tão formidável.

Enquanto Johannes a observava em silêncio, ele abriu a boca:

— Avril.

— Ela finalmente se acalmou e disse que iria ver o pai antes do jantar.

— Não. Não é isso.

— …?

Pensou que ele pudesse estar preocupado depois de tê-la feito chorar, mas aparentemente não. Quando o encarou confusa, Johannes desviou o olhar com uma expressão ligeiramente sem graça e então falou um instante depois.

— Ela deve ter… falado um monte de besteira sobre mim para você.

— Ah, certo. Como você soube…?

— Ha, imaginei.

‘Eunice, você é realmente louca?’

Estava ficando difícil distinguir o que deveria dizer em voz alta e o que precisava permanecer apenas em sua cabeça nesses últimos dias.

Ainda assim, definitivamente isso era algo que não podia dizer.

— Haha…

Ela soltou uma risada sem graça, tentando forçar um sorriso. Quase conseguia ouvir o som de sua relação com ele rachando.

‘Será que foi por isso que ele veio aqui no meio da noite?’

‘Porque estava preocupado que pudesse pensar mal dele?’

Que expressão ele faria se soubesse que, no Sul, era conhecido como um monstro feroz?

Enquanto sua curiosidade crescia silenciosamente, a parte superior do corpo dele se inclinou mais perto, com uma voz baixa, começou a sondar.

— Então? O que ela disse?

— Nada demais.

Eunice até balançou as mãos para negar.

Nem morta ela poderia repetir o que Avril realmente havia dito. Que ele era um idiota, sempre rude e cheio de si. Não havia como repetir aquilo com a própria boca.

— Nada, é?

Por que ele estava sendo tão insistente?

Eunice queria chorar.

Ele não parecia ser do tipo que se importa com assuntos tão triviais, mas ali estava ele, agindo de forma surpreendentemente mesquinha.

Com ele tão perto que seus narizes quase se tocavam, ela não conseguia olhá-lo diretamente nos olhos. Se o fizesse, sentia que ele veria através dela. Desesperada procurou freneticamente por algo para dizer e finalmente abriu a boca.

— Ela… e-ela elogiou você.

— Aquela garota?

Johannes ergueu uma sobrancelha, incrédulo. Eunice se apressou em acrescentar mais:

— Ela disse que você é legal.

— O quê?

A distância entre eles subitamente aumentou.

Ele se endireitou, e um leve traço de perplexidade cruzou seu rosto.

— Ela disse que sua gentileza às vezes a pega desprevenida e faz seu coração acelerar. O que faz sentido. Você é incrivelmente gentil quando quer.

— Quem, eu?

Ele perguntou de volta como se fosse a coisa mais absurda que já tinha escutado.

Aquela reação alheia fez Eunice sentir uma estranha simpatia por Avril. A sensação dele colocando a luva em sua mão ainda permanecia vagamente.

Esse homem não fazia ideia de quanta confusão sua gentileza ocasional causava.

Ele nem parecia estar ciente de que podia ser gentil.

Essa frustração borbulhou dentro dela e, antes que percebesse, estava defendendo Avril.

— Ela disse que você a repreendeu terrivelmente por te seguir durante a caçada, mas quando um urso apareceu, você correu e a salvou como um herói.

— Eu?

Seus olhos azuis se ergueram como se procurassem na memória. Vê-lo parecendo tão desinteressado fez Eunice engolir em seco.

Sorrindo à luz da fogueira.

Escovando seu cabelo.

Colocando a luva.

Talvez  fosse a única que se lembrava daqueles momentos como algo especial.

Aquelas memórias que deixaram marcas em seu coração – ele as trataria assim também?

— Ah, aquilo.

Ele assentiu como se tivesse acabado de se lembrar.

— Eu realmente a salvei. E daí?

— Ela disse que você correu desesperadamente para ajudá-la, e que foi muito legal.

— Você continua usando essa palavra ‘legal’. Deixa essa parte de fora. E claro que eu corri. O que eu deveria fazer, caminhar tranquilamente? Deixá-la morrer?

— …

Agora que ele colocava dessa forma… ele tinha razão.

Parecia que os mesmos acontecimentos existiam de forma bem diferente em suas memórias.

Eunice perguntou cautelosamente outra coisa.

— Ouvi dizer que você não se dá bem com Knoxville, o chefe da família Evangel.

— Como você sabe disso?

— Você já descontou isso na senhorita Avril depois de brigar com ele?

— Houve muitas vezes.

— …Mas ainda assim você garantiu que ela tivesse refeições.

— Jamais, nem uma única vez.

— Quando ela veio ao palácio no ano passado, ela disse—

— Taylor deve ter resolvido isso em meu nome. Tsc.

Estalando a língua pela intromissão desnecessária de seu mordomo, Johannes cruzou os braços e soltou um longo suspiro irritado.

Isso trouxe Eunice de volta à realidade.

‘Por que estou interrogando esse homem?’

Ela engoliu em seco, sentindo-se desconfortável.

Quando o ambiente ficou em silêncio, os olhos azuis de Johannes a percorreram, percebendo algo estranho.

Seu olhar afiado a fez retrair-se ainda mais.

Antes que percebesse, sua cabeça estava baixa.

— Eunice.

— Ah.

Ele gentilmente levantou seu queixo. Seus olhos verdes tremeram.

— Cabeça erguida. Ombros para trás.

— …Oi?

‘O que esse homem estava dizendo?’

Apesar da confusão, ela obedientemente seguiu suas instruções. Enquanto suas mãos guiavam levemente seus ombros para trás, ela corrigiu sua postura.

Johannes se inclinou para trás, apoiando o queixo em uma das mãos como se avaliasse uma obra de arte, e a examinou dos pés à cabeça.

— Muito melhor.

Não havia necessidade de perguntar o que ele queria dizer.

Ele estava dizendo para ela não se encolher.

Para permanecer ereta e orgulhosa.

Que tipo de pedido é esse…?

Seus olhos verdes piscaram confusos, mas ela manteve a postura.

— Haha.

Seus lábios se curvaram, e então Johannes caiu na gargalhada.

Lá estava ele de novo. Aquela risada inocente e juvenil.

Era espantoso que um riso assim pudesse existir no mesmo homem que exalava um frio aterrorizante.

Eunice perguntou com a voz misturada de emoções:

— …O que é tão engraçado?

— Você é fofa. Essa expressão, com os ombros todos rígidos assim.

— Foi você que me fez ficar assim.

As palavras escaparam em um pequeno resmungo.

Ele cobriu a boca, tentando conter a risada, então gentilmente estendeu a mão e envolveu os ombros dela.

Seu toque era quente e firme.

— Relaxe.

— …

— Pare de agir como uma refém.

—…Está bem.

Por alguma razão, sua garganta apertou.

Talvez fosse apenas um ato passageiro de gentileza, talvez fosse sincero.

Só o tempo diria.

— Então, até amanhã, minha noiva.

Não soou mal.

Não. Na verdade foi extremamente doce.

Será que esse foi um final decente?

Ao fim do dia, Johannes observou silenciosamente o céu noturno. O vento frio roçava seu rosto.

Se alguém o visse, provavelmente perguntaria por que estava na torre tão tarde da noite. Mas Johannes frequentemente vinha ali em segredo.

Mais precisamente, sempre que não queria ser incomodado.

— Haa.

Sua respiração formou uma névoa no ar como um suspiro.

Ele a observou por um momento, então inclinou a cabeça para trás.

Apoiando-se no parapeito grosso da janela, ele descansou preguiçosamente um braço sobre o joelho dobrado.

Sua mente estava uma bagunça.

Eunice von Pavlone.

Wilhelm II.

A aliança matrimonial.

As propostas…

Sim. As cartas de Tranche e Candel que chegaram em competição.

Johannes claramente leu nas entrelinhas. Este casamento era uma aliança militar.

Dois países que brigavam como cães e gatos pareciam prontos para a guerra. E quando chegasse a hora, provavelmente pediriam reforços.

No momento, Nordisch não podia enviar tropas para o Sul. Embora estivessem expandindo rapidamente seu exército, essas forças tinham outros propósitos.

Sob qualquer perspectiva, ele deveria ter recusado ambas as propostas. E ainda assim, aceitou, unicamente por causa de Eunice von Pavlone.

Apenas aquele nome.

‘Se Eunice pedir algo, não posso recusar.’

Ele esperava forte oposição das Doze Casas, mas no final, nenhuma delas ousou desafiá-lo.

A garganta de Johannes se moveu quando ele engoliu em seco.

O importante era que Eunice não se via mais como refém.

Mesmo que ela ainda o tratasse como um dever e estivesse focada em gerar seu filho pelo bem da aliança…

Essa conversa teria que acontecer algum dia.

— …Droga.

Doía.

Enquanto permanecia ali remoendo seus sentimentos, um pássaro escuro voando sob o luar chamou sua atenção.

Um corvo.

Ele assobiou alto, e o pássaro inteligente mudou de curso em sua direção. Com um bater de asas, pousou no parapeito da janela.

Johannes abriu a pequena cápsula presa ao pescoço do pássaro e retirou uma carta firmemente enrolada.

Não havia brasão de família nem selo, apenas uma fita mantendo-a fechada.

Uma resposta do Duque de Pavlone?

Ele examinou o exterior casualmente …

E então suas sobrancelhas se franziram.

— …Kallion?

Continua…

Tradução e Revisão: Elisa Erzet 

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— Tenha um filho de Johannes, Reinhardt, e solidifique a aliança.
Ela estava prestes a ser enviada como uma espécie de refém para o infame governante do Norte, conhecido por sua crueldade.
— Por favor… Que ele não seja tão aterrorizante quanto dizem os rumores.
Com o coração cheio de medo, Eunice parte rumo à terra desconhecida do inverno…
— Perdão, sinto muito, não quis te assustar.
— Você é bonita mesmo sem maquiagem. Sinceramente, não consigo ver diferença.
— Quando estivermos só nós dois, me chame pelo nome.
O afeto inexplicável do rei… Seria apenas um capricho, ou algo genuíno?
Johannes, se lembra da garota como um raio de sol, e Eunice, não reconhece o menino antes tão mal-humorado.
Um doce romance de inverno sobre cura e reencontros, entre Eunice, que viveu uma vida inteira lutando para ser amada, e Johannes, que a ama incondicionalmente pelo que ela é.
 
Uma das frases favoritas dessa tradutora aqui.
 
— Está tudo bem se você não provar a sua utilidade.

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