Ler Beije o Estranho (Novel) – Capítulo 80 Online


Modo Claro

⚝ Capítulo 80

A voz dele ressoou em meus ouvidos como um trovão. Eu tentava conter a careta involuntária causada pela dor lancinante, e um gemido escapou. Mas, mesmo assim, não consegui levantar a cabeça. A voz de Asgyle tomou conta de mim, que havia paralisado de pavor.
— Levante a cabeça.
Ele ordenou, mas eu não obedeci. Não porque não quisesse, mas porque não conseguia mover meu corpo como desejava. Não havia força em um único dedo; eu apenas tremia. Um momento de silêncio se passou. Meu coração batia como louco, e um aroma doce subitamente acalmou o ar ao meu redor. Minhas bochechas estavam tão inchadas que eu não conseguia abrir os olhos direito.
Pouco depois, sua mão grande entrou em meu campo de visão semicerrado. Asgyle segurou meu queixo com leveza e ergueu meu rosto. E, independentemente da minha vontade, fiz contato visual com o Príncipe Herdeiro.
— …
Um silêncio sufocante se seguiu. Por algum motivo, Asgyle olhou para o meu rosto e não disse nada. Estava claro que ele não gostava do leve franzir de testa em meu rosto, mas eu não conseguia decifrar o que ele sentia. Eu só queria que ele não estivesse zangado comigo.
— … Yohan.
Após um tempo insuportável, Asgyle abriu a boca. Uma voz mais baixa que o normal fluiu de seus lábios.
— Eu bati em você ontem?
As rugas em sua testa se aprofundaram. Ele parecia tentar lembrar se havia perdido o controle ao entrar em Rut. Mas ele não tinha feito aquilo.
Não importava o quanto ele tivesse ejaculado e despejado feromônios em mim no dia anterior, eu não senti sequer o cheiro, muito menos entrei no cio. Mas o rut dele não devia ter passado. Não sei porque eu perdi a consciência no final, mas, pela reação dele agora, estava claro que tinha sido um fracasso. Os olhos de Asgyle se estreitaram, como se ele pensasse o mesmo.
— O que aconteceu com esse rosto? Eles te espancaram enquanto você resistia para não vir?
Eu não sabia como reagir àquela voz calma que não demonstrava emoção alguma. Mas a verdade é que aquela suposição não era real. Só consegui falar depois de balançar a cabeça negativamente.
— Resistência… eu não fiz isso… Eu estava dormindo, então o camareiro… para me acordar…
— … Ele te bateu só para te acordar?
Assenti vigorosamente. Foi mais do que o necessário, mas aquela era a intenção do camareiro. Asgyle continuava a me olhar com a testa franzida. “Ele não gostou da minha resposta?” Quando comecei a ficar ansioso, ele subitamente gritou:
— Camareiro!
— Hic!
Soltei um gemido sem perceber diante da voz que perfurou meus ouvidos. Quando Asgyle me olhou com aquela expressão, a porta se abriu e o camareiro-mor entrou apressado.
— Sim, Vossa Alteza. Chamou-me?
Asgyle falou sem desviar os olhos de mim:
— Foi você quem deixou o rosto dele assim?
— Perdão?
O camareiro, que fez a pergunta instintivamente, assustou-se com o olhar de Asgyle que se voltou para ele e baixou a cabeça novamente.
— Ah, sim. Vossa Alteza, já era hora, mas ele não apareceu. Fui ao laboratório e ele estava dormindo profundamente. Dei uns tapas nele para acordá-lo. Para ômegas preguiçosos e luxuriosos, o açoite é o melhor remédio.
O camareiro perguntou em um tom triunfante:
— Deixei as roupas dele como estavam, por via das dúvidas. Posso tirá-las agora?
Asgyle me encarou sem dizer uma palavra. Percebendo que o olhar dele permanecia no colarinho esfarrapado que foi rasgado no dia anterior, tentei apressadamente fechá-lo. No entanto, minhas mãos tremiam e não tinham força, então eu continuava perdendo o tecido. Asgyle encarava meu corpo exposto através da camisa rasgada. Embora eu soubesse que era inútil, repetia meus esforços em vão, até que Asgyle falou:
— Não, está tudo bem. Pode ir.
O camareiro pareceu confuso, mas retirou-se sem dizer nada. Depois que ele fechou a porta, fiquei sozinho com Asgyle.
— … O que você está fazendo? Se quer morder a própria língua, saia daqui e faça lá fora. Não quero ver nada pior do que isso.
Fiquei tão envergonhado que não consegui levantar o rosto diante daquela voz de desagrado. Por que meu rosto está tão horrível? “Um rosto grotesco…”
Meus olhos arderam de novo, mas as lágrimas não vinham. Estranhamente, eu tentava engolir a saliva rapidamente porque não sabia se era um soluço ou outra coisa, mas de repente um som abafado ressoou do fundo da minha garganta. Meu rosto esquentou subitamente.
Asgyle continuava encarando minha feiura. A única coisa pela qual eu era grato era que ele não ria de mim; a vergonha era o fato de ele me olhar com uma expressão de pena. De repente, achei ouvir um estalar de língua e Asgyle falou:
— … Gatos criam coisas tão venenosas, você não é melhor que um cachorrinho…
Embora fosse óbvio que ele falava consigo mesmo, não ousei olhar para o seu rosto. Enquanto eu apenas baixava a cabeça, senti a presença de Asgyle se levantando. Ergui o olhar hesitante e o vi passar por mim, caminhando em direção à mesa.
Observei de longe enquanto ele pegava uma garrafa de vidro com entalhes delicados e enchia um copo vazio com água. O som da água correndo era audível.
Fiquei atordoado por um momento, mas Asgyle se virou com o copo. Imediatamente recuperei os sentidos, tentei endireitar minha postura e estremeci de novo. A dor nas minhas costas parecia atravessar meu corpo inteiro. Ao recordar as memórias daquele dia, meu corpo tremeu reflexivamente. Ouvi o som de meus dentes batendo e vi Asgyle fazendo uma careta. Ele se aproximou passo a passo, e minha mente ficou em branco. Quanto mais ele chegava perto e o cheiro ficava forte, mais difícil era respirar.
*Haa… haa…*
Enquanto eu arquejava, Asgyle finalmente parou na minha frente. Não tive escolha a não ser erguer meus olhos trêmulos para olhá-lo. Asgyle me olhava com o mesmo rosto inexpressivo de antes. Ele moveu lentamente o olhar dos meus olhos para minhas bochechas inchadas e lábios trêmulos, e então voltou para os meus olhos.
— Beba.
Inesperadamente, Asgyle estendeu o copo que trazia. Não pude conter o espanto diante daquela situação inacreditável. Poderia ser um sonho? Um pesadelo ou um delírio?
Sem que eu conseguisse reagir, Asgyle franziu a testa novamente.
— Você não me entende mais?
Era uma voz baixa, mas o suficiente para me despertar. Estendi a mão urgentemente, com medo do que aconteceria se não obedecesse de imediato. Mas o problema foi a pressa. Minha mão falhou em segurar o copo e, infelizmente, ele caiu no chão.
— Ah…!
Um grito lamentável escapou como um gemido. Felizmente, o copo caiu no tapete e não quebrou, mas a água se espalhou. Paralisado em descrença, ouvi Asgyle estalar a língua.
— O que diabos foi isso?
“… Você me pergunta isso? mas claro.”
Justo quando pensei que ele me mandaria sumir dali, Asgyle se virou novamente. Olhei-o boquiaberto enquanto ele ia até a mesa e servia água em outro copo. Após repetir a mesma ação, Asgyle parou na minha frente e me estendeu o copo com palavras completamente inesperadas:
— Não o deixe cair desta vez.
Fiquei assustado, mas não podia cometer o mesmo erro. Com cuidado extremo, estendi a mão e peguei o copo, evitando tocar nos dedos dele. Somente após confirmar que eu segurava o copo com as duas mãos é que Asgyle soltou. A água parecia límpida e gelada. Senti vontade de me afogar nela, mas meu corpo não se movia com facilidade. Quando olhei para Asgyle, ele me encarava em silêncio. Como se esperasse que eu bebesse. Abri a boca, mas o som mal saiu.
— Obrigado…
Uma voz rouca escapou junto com o som da respiração. Era tudo o que minhas cordas vocais cansadas conseguiam produzir. Levei cuidadosamente o copo de água que o Príncipe Herdeiro me dera à boca. A água gelada infiltrando-se em minha boca parecia algo sagrado. Fechei os olhos e deixei o líquido descer bem devagar pela garganta. A água deslizou pela minha língua seca e áspera; após alguns goles, senti minha boca umedecida.
*Ah!*
Depois de beber o copo inteiro, um suspiro de alívio fluiu espontaneamente. De olhos fechados, aproveitei o frescor percorrendo meu corpo. Inspirei devagar e expirei. Abri os olhos lentamente, sentindo minha mente se acalmar.
De repente, tudo ficou turvo e franzi a testa. Minha visão, que escurecera por um momento, oscilou algumas vezes e então clareou. Quando finalmente consegui me concentrar, percebi: o Príncipe Herdeiro Asgyle estava o tempo todo me observando.
O calor do corpo dele ainda corava meu rosto. Quando lembrei que Camar, que tinha uma temperatura corporal muito mais alta que a minha, costumava dormir me abraçando, Asgyle retirou a mão. Ele se virou, ignorando-me enquanto eu olhava fixamente, e murmurou algo para si mesmo. Não entendi de início, mas depois de um tempo compreendi o sentido.
“Ele acha que este ômega é patético.”
Quando percebi o significado, meu coração apertou. Eu não conseguia decidir se deveria ficar triste por Asgyle sentir pena de mim ou se deveria agradecer por ele demonstrar ao menos um pouco de humanidade.
Asgyle estava servindo vinho em uma taça, de costas para mim. O álcool é proibido para o povo comum, mas ele bebia desde aquele dia. Ele não esquecia de queimar aquele pó de conteúdo desconhecido. Bebeu o vinho de uma vez, como se fosse água, e serviu a próxima taça. Após alguns goles seguidos, pousou o copo. Asgyle virou-se e foi em direção à cama.
Não havia espaço para hesitação. Hesitei por um momento, pensando que suas palavras poderiam ter sido um capricho passageiro e que eu poderia ser golpeado novamente, então meu corpo rígido começou a se mover desajeitadamente. Não consegui me levantar e fui em direção a ele de quatro.
Asgyle, que estava sentado à beira da cama, baixou o tronco, colocou a mão na testa e soltou um suspiro profundo. O cansaço estava estampado em seu rosto. Quanto mais eu me aproximava, mais intenso era o aroma que ele exalava.
*Haa… haa…*
Respirei fundo e finalmente parei de rastejar quando cheguei a uma distância que mal alcançaria com a mão estendida. Enquanto eu me encolhia aos seus pés, Asgyle, que estava de olhos fechados até então, levantou as pálpebras. Seus olhos violetas me observavam por entre os dedos apoiados na testa. Ficamos nos encarando assim por um tempo.
Asgyle permanecia em silêncio. Apenas olhava para o meu rosto. A diferença de antes era que ele não estava mais franzindo a testa. Eu não tinha ideia do que ele estava pensando. Achei estranho que ele me olhasse daquela forma. Hesitei e abri a boca com dificuldade.
— … Devo tirar a roupa?
Ergui minha mão trêmula e a levei ao pescoço. Se eu não pudesse usar aquele traje, talvez tivesse que ficar realmente nu. Ninguém me traria roupas novas, certamente não o camareiro. Quando lembrei dos ômegas jogados nos quartos nus, um calafrio percorreu minha espinha. Eu não era diferente deles.
Enquanto eu o olhava com uma mistura de medo e ansiedade, Asgyle franziu a testa novamente. Senti o medo de que meu coração parasse por um momento, mas ele falou:
— Não. — Asgyle disse, mal movendo os lábios. — Descanse hoje.
Quase gritei diante das palavras inesperadas. Consegui conter o som, mas não pude evitar que meus olhos se arregalassem. Asgyle me viu assim, virou a cabeça imediatamente e deitou-se na cama. Fiquei sentado no chão apenas olhando para ele. Não conseguia conter a ansiedade, achando que a qualquer momento ele gritaria para eu me aproximar.
Pensei se deveria tirar a roupa agora, achando que seria um problema se eu estragasse mais essas vestes. Mas e se fosse verdade? E se ele realmente não quisesse nada hoje?
Poderia ser. Porque… porque eu estou uma bagunça agora. Não importa o quanto um ômega fosse usado para aquele propósito, era claro que meu rosto estava tão ruim que ele perdeu o interesse. Ao pensar nisso, meus olhos arderam, mas desta vez não saíram lágrimas.
Tardiamente, senti sede, mas não havia como beber água. Movi o pescoço para tentar produzir saliva, mas nada mudou. Assim que percebi isso, a sede tornou-se ainda mais intensa. No entanto, por mais que eu tentasse engolir, minha boca estava seca e era difícil até mover a garganta. Enquanto tentava mover a língua novamente com todas as forças, senti uma sensação estranha. Levantei a cabeça involuntariamente e me surpreendi. Asgyle havia se levantado da cama e estava me olhando.

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✦ Tradução, revisão e Raws: Jor&Belladonna

Ler Beije o Estranho (Novel) Yaoi Mangá Online

Sinopse:
Em um país do Oriente Médio onde a discriminação contra ômegas é profundamente enraizada, Yohan, um ômega abandonado após a manifestação de seu gênero secundário, vive sozinho em um oásis com apenas um gato como companhia. Um dia, ele resgata um homem ferido que perdeu completamente a memória do seu passado. Conforme passam o tempo juntos, Yohan se apaixona por ele… mas, um dia, o homem desaparece subitamente, sem deixar rastros.
Depois de esperar por ele em vão por muito tempo, Yohan encontra inesperadamente o príncipe herdeiro, um homem exatamente igual àquele que um dia amou. No entanto, o príncipe não o reconhece de forma alguma…
Nome alternativo: Kiss The Stranger Beije O Estranho

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