Ler Beije o Estranho (Novel) – Capítulo 43 Online

⚝ Capítulo 43
Fui despertado por um ruído estridente e agudo. Quando olhei para cima, percebi que estava jogado no chão. Só então me dei conta de que havia sido derrubado. Mas, antes que eu pudesse sequer tentar mover meu corpo, uma chuva de chutes começou a cair sobre mim. Sem ter como resistir, eu apenas recebia os golpes. Minha mente ficou turva pelas pancadas violentas e minha visão começou a piscar. Mesmo quando tudo o que eu conseguia fazer era me encolher no chão e gritar de dor, aquele cheiro continuou flutuando ao meu redor.
“O doce perfume do Camar.”
No meio da minha visão embaçada, o rosto dele apareceu. A figura do Camar estava logo acima dos homens que me espancavam. Ele estava lá, de pé, me observando com uma expressão vazia, como se eu não fosse absolutamente nada para ele. Por um instante, senti como se o meu coração estivesse se partindo ao meio.
“Eu senti tanto a sua falta…”
No segundo seguinte, levei um chute no estômago e uma onda forte de náusea me atingiu. Vendo-me engasgar de dor e tossir, os guardas começaram a gritar palavrões.
— Seu bastardo desgraçado!
— Como ousa fazer uma cena dessas aqui? Quem é você? Confesse quem te mandou!
— Ei, tirem ele daqui e joguem nas masmorras. Se deixarmos esse rato trancado por uns dez dias, ele vai acabar confessando tudo.
Depois das ameaças de um dos homens, uma voz familiar cortou a confusão.
— Yohan!
Era o Steward. Imediatamente, os homens pararam de me chutar e o doutor me puxou para longe deles. Ele me abraçou de forma protetora e perguntou:
— Yohan, você está bem? Fique calmo!
A voz urgente dele estava misturada com uma respiração ofegante. Ele tinha corrido até ali só por mim. Se não fosse pelo Steward, eu vagamente pensei, eles talvez tivessem me espancado até a morte. Quando consegui abrir os olhos, vi o rosto familiar do doutor me encarando, preocupado.
Quando minha visão focou de novo, os guardas pareciam uma montanha intransponível, nos observando com ódio. O homem que parecia ser o líder deles gritou, com uma voz grossa:
— Como ousam causar esse escândalo aqui? Quem são vocês? Revelem suas identidades!
O som estrondoso me deixou aterrorizado. Fiquei paralisado e não consegui me mover. Meu corpo inteiro tremia enquanto o Steward protestava, tão alto quanto o homem:
— Dave, você por acaso está duvidando de mim?! Eu sou o pesquisador convidado, e este é o assistente que eu trouxe comigo!
Steward parecia furioso, mas o guarda chamado Dave não se intimidou. Ele continuou me olhando com desprezo e rosnou entre os dentes:
— Você tem ideia do que esse seu bastardo tentou fazer? Se você o trouxe até aqui, deveria ter controlado esse lixo! Como ele ousa correr na direção do Rei dessa maneira?!
Senti o corpo do Steward ficar tenso. Ele hesitou por um segundo, mas logo respondeu:
— O garoto é doente — Steward disse sem gaguejar. — Por isso eu o contratei como assistente e decidi testar alguns reagentes nele. Enfim, eu já tinha solicitado uma audiência para apresentá-lo a Sua Alteza formalmente, mas, como o pedido foi negado, eu já estava levando ele de volta para o meu quarto. Mas, quando ele ouviu que o Príncipe Herdeiro estava passando, esse garoto ficou muito emocionado e perdeu o controle. Vocês não conseguem entender isso?
Os guardas se entreolharam, parecendo incertos após o protesto firme de Steward. Dave fez uma careta e olhou para trás. Imediatamente, os homens abriram caminho em duas fileiras, e Dave recuou apressado, curvando-se. E então, ele finalmente entrou no meu campo de visão sem nenhuma obstrução.
“Era o Camar.”
Ele vestia um terno preto impecável, algo que eu nunca o tinha visto usar antes. Eu nunca sequer tinha imaginado vê-lo assim, parado ali com uma mão no bolso da calça enquanto segurava um cigarro com a outra. O cabelo dele estava cortado curto, a camisa parecia limpa e lustrosa, e o prendedor de gravata era cravado de joias. O relógio no pulso dele brilhava tanto que parecia refletir a própria luz do sol.
Mas a diferença mais brutal de todas era a expressão no rosto dele. Ver o Camar me olhando com aqueles olhos frios e desprovidos de qualquer simpatia fez meu peito doer de uma forma insuportável. Fiquei completamente fora de mim enquanto continuava a encará-lo.
“Quanto tempo eu esperei por esse dia?”
Eu passei os últimos meses vivendo apenas pela esperança do dia em que eu encontraria o Camar de novo. Mas agora que esse sonho tinha se tornado realidade, o que estava na minha frente era um pesadelo aterrorizante. Era obviamente o Camar, mas, ao mesmo tempo, não era o meu Camar. Eu até quis negar a realidade. Não havia a menor possibilidade de o Camar me olhar com aqueles olhos.
Em meio à minha visão turva, vi o Camar levar o cigarro lentamente aos lábios. Ele soltou a fumaça de forma lenta, torceu os lábios num sorriso cínico e, finalmente, falou pela primeira vez.
— Doutor, se você continuar a cometer atos desrespeitosos como este, não sairá ileso, mesmo sendo um cidadão estrangeiro.
Ah!
Ouvir a voz dele destruiu o que restava do meu coração. Por mais idênticas que duas pessoas pudessem ser, era possível que elas tivessem exatamente a mesma voz? Aquele perfume doce, os olhos violeta escuros e até mesmo o formato daqueles lábios… tudo ali pertencia a ele.
Mas por que parecia que ele não me conhecia de jeito nenhum?
— Vossa Alteza, por favor, perdoe a minha falta de educação — Steward disse acima da minha cabeça, curvando-se. — Este garoto… Ele queria tanto ver Vossa Alteza que acabou perdendo a razão e sendo desrespeitoso. Eu imploro a vossa misericórdia.
Ao ouvir o pedido repetido do doutor, Camar apenas colocou o cigarro de volta na boca, em silêncio. Um silêncio pesado e sufocante se instaurou. Ninguém ousou dizer uma palavra até que ele falasse novamente. Camar inalou a fumaça com calma e depois a exalou muito lentamente. Aquele pequeno intervalo de tempo me pareceu uma eternidade. Depois de um longo tempo, ele finalmente falou.
— Esta é a primeira e última vez, doutor. Na próxima, mandarei cortar sua garganta e pendurar o seu corpo na entrada.
Diante daquele aviso que faria qualquer um gelar a espinha, Steward fez uma reverência profunda, acatando a ordem.
— Muito obrigado, meu Senhor. Que Deus abençoe a vossa misericórdia.
E então, Camar deu uma risada silenciosa.
— Doutor.
— Sim, meu Senhor.
Camar estreitou os olhos e falou num tom mais baixo e mais sombrio do que o normal.
— Eu sou Deus.
Minha mente ficou em branco. Eu não conseguia respirar e apenas o encarei. Mas, para os guardas alinhados em volta, aquela frase pareceu perfeitamente natural. Eles imediatamente se curvaram ainda mais, baixando as cabeças até quase encostarem no chão. Apenas Camar permaneceu com a postura reta, olhando para nós dois do alto de sua imponência. Steward mal conseguiu morder os próprios lábios, que tremiam, e abriu a boca mais uma vez.
— Vossa Sagrada Majestade, eu tenho um último pedido.
Camar franziu a testa, como se questionasse a ousadia do doutor. Steward olhou para mim, apiedado, e implorou.
— Por favor, conceda a sua bênção a esta criança.
O olhar de Camar pousou em mim. Steward continuou a falar rapidamente por cima de mim, tentando evitar outra reação exagerada da minha parte.
— Como eu disse, ele é um garoto doente. Se Vossa Majestade lhe conceder a sua bênção, isso o ajudará muito em sua recuperação.
Camar não disse nada. Eu nem conseguia abrir a boca, aterrorizado com o que ele poderia dizer; apenas continuei olhando para ele. Camar tirou o cigarro dos lábios e respondeu, de forma curta:
— Farei isso.
Meus olhos se arregalaram de surpresa diante da resposta inesperada. Steward, parecendo já prever que seria o momento, empurrou meus ombros de leve para me forçar a ajoelhar e deu um passo para trás. Camar caminhou em minha direção enquanto eu estava lá, jogado de joelhos. Fiquei o encarando sem reação, vendo-o se aproximar um passo de cada vez.
Ele parou a um par de passos de distância e olhou para baixo. Eu tive que inclinar a cabeça o máximo que pude para conseguir enxergar o rosto dele lá no alto. Camar abaixou a mão direita, mantendo uma certa distância da minha cabeça, e disse as palavras:
— Que Deus te abençoe e leve embora todas as tuas aflições.
O tom de voz frio e monótono dele soou mais como uma maldição do que como uma bênção. Eu havia perdido completamente o juízo e continuava apenas encarando o rosto dele.
“Ele estava tão perto…” O cheiro dele estava tão forte ali que paralisou completamente o meu olfato. Era a primeira vez que eu sentia aquele cheiro de forma tão intensa estando tão próximo. Mesmo nas noites em que o Camar adormecia me abraçando e afundando o rosto no meu pescoço, eu nunca tinha sentido um cheiro tão forte e opressor.
Tão perto, e ao mesmo tempo tão longe.
Ao perceber isso, minha visão ficou embaçada pelas lágrimas novamente.
— Por que você está chorando?
A voz do Camar ecoou. Parecia confusa e um pouco irritada ao mesmo tempo. A resposta veio de trás de mim, do Steward:
— Ele está chorando porque está muito comovido por estar na presença do representante de Deus. Por favor, seja compreensivo.
Camar me observou em silêncio por um momento. Pisquei para afastar as lágrimas, mas meus olhos logo se encheram de novo. Ele olhou brevemente para longe, num ponto além de nós, e então soltou um suspiro entediado.
— Qual é o seu nome?
— O nome dele é Yohan.
Mais uma vez, Steward respondeu por mim.
— Yohan. — Camar repetiu o meu nome. Embora o tom da voz dele fosse perfeitamente calmo, soava estranho para mim, como se fosse a primeira vez que eu o ouvia dizer aquilo.
— Lembre-se, Yohan. Se você tentar encostar as mãos em mim de novo, eu vou cortar os seus braços.
Ele deu o aviso aterrorizante com uma voz tão mansa e suave, virou as costas e começou a ir embora. Os guardas rapidamente o seguiram em formação, e eu fiquei ali no chão, sozinho com o Steward.
Assim que a comitiva real desapareceu de vista, Steward correu até mim e começou a examinar meu rosto e meu corpo.
— Meu Deus, como podem fazer isso com uma pessoa…? Yohan, você está bem? Consegue andar? Vamos voltar para o meu quarto primeiro. Eu vou cuidar dos seus machucados. Ha, esses filhos da mãe ignorantes. O que eles acham que um graveto feito o Yohan ia conseguir fazer? Idiotas descerebrados…
Steward praguejava de raiva, mas a voz dele mal chegava aos meus ouvidos. A única coisa que se repetia na minha cabeça era o olhar morto do Camar e a voz fria dele.
“Aquele não é o Camar.”
Não havia a menor chance de que o Camar olhasse para mim daquele jeito ou dissesse aquelas coisas cruéis.
Mordi os lábios com força, mas não consegui conter os soluços. As lágrimas começaram a rolar pelo meu rosto sem parar e eu comecei a chorar copiosamente, sem conseguir me segurar.
“Aquele não é o meu Camar!”
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✦ Tradução, revisão e Raws: Jor&Belladonna
Ler Beije o Estranho (Novel) Yaoi Mangá Online
Sinopse:
Em um país do Oriente Médio onde a discriminação contra ômegas é profundamente enraizada, Yohan, um ômega abandonado após a manifestação de seu gênero secundário, vive sozinho em um oásis com apenas um gato como companhia. Um dia, ele resgata um homem ferido que perdeu completamente a memória do seu passado. Conforme passam o tempo juntos, Yohan se apaixona por ele… mas, um dia, o homem desaparece subitamente, sem deixar rastros.
Depois de esperar por ele em vão por muito tempo, Yohan encontra inesperadamente o príncipe herdeiro, um homem exatamente igual àquele que um dia amou. No entanto, o príncipe não o reconhece de forma alguma…
Nome alternativo: Kiss The Stranger Beije O Estranho