Ler Beije o Estranho (Novel) – Capítulo 142 Online


Modo Claro

⚝ Capítulo 142

A atmosfera no tribunal tornou-se agitada. Naturalmente, era algo que ninguém esperava.
— Vossa Alteza, está sugerindo que este caso foi inteiramente fabricado? — perguntou o promotor, deixando transparecer em sua voz todo o seu desconcerto.
O Príncipe Herdeiro respondeu calmamente:
— Eu não disse isso. Há tantas evidências que, para ser uma farsa completa, todos os policiais das terras de Al-Fatih teriam que ser cegos.
— Então…
— Mas e se eles tiverem inventado apenas uma pessoa?
O promotor ficou sem palavras. Como se fosse de propósito, Asgyle acrescentou lentamente, enfatizando cada palavra:
— E se o caso não tivesse sido forjado, mas eles tivessem criado uma pessoa que não existe?
— Com todo o respeito, Vossa Alteza, está dizendo que o Senhor Al-Fatih inventou esse culpado?
Após a pergunta confusa do promotor, meu tio gritou subitamente:
— Isso é um absurdo, meu senhor! Está me tratando como o culpado agora? Isso já é demais!
— Eu estou falando de possibilidades — a voz de Asgyle permanecia calma.
Senti meu coração encolher, mas, ao mesmo tempo, surgiu uma esperança. Agora eu parecia entender suas intenções. Asgyle estava tentando transformar o Camar em uma pessoa inexistente. Se fosse esse o caso, seria perfeito. O Camar ficaria enterrado no passado para sempre. Então tudo acabaria.
Mordi o lábio e cerrei os punhos para não cometer nenhum erro. Eu não pretendia dizer uma única palavra até o julgamento terminar. Estava tão nervoso que mal conseguia respirar, mas Asgyle continuou:
— A ausência de informações no banco de dados de DNA significa que não há antecedentes criminais. Querem que eu acredite que um réu primário cometeu um crime tão bárbaro? Estaria ele louco por causa de um ômega?
Aquilo era verdade. Até perder a memória, o Camar não teria matado ninguém diretamente. Ele é um membro da família real e era capaz de encerrar a vida de alguém com uma única palavra, sem sujar as mãos. O Camar só fez aquilo porque me amava.
— Se você esperar, criminosos sempre voltam a atacar. O primeiro crime é difícil, mas o segundo é fácil — argumentou o promotor.
Asgyle soltou uma risada curta e rebateu:
— Você está esperando que o assassino mate de novo para provar seu ponto?
— Ele deve ter cometido algum assassinato antes. Pode ser que não haja evidências no momento. Há muitos exemplos de suspeitos que cometem o crime perfeito e, empolgados com o sucesso, acabam deixando pistas em crimes sucessivos.
— Não existe registro de outro massacre e, se houvesse, ele teria matado uma ou no máximo duas pessoas antes. Que evidências restariam após um evento tão espantoso como este?
— Como o senhor disse, é espantoso. Pelo tamanho da mansão, acho que qualquer coisa é possível.
— Um assassino de pequena escala causa seu primeiro massacre e deixa evidências… Posso lhe oferecer uma razão mais plausível do que esta?
O promotor calou-se e Asgyle moveu-se. Eu agora estava confiante de que não deveria intervir. Como planejado, permaneci em silêncio e esperei por suas próximas palavras. A voz de Asgyle soou pausada:
— O último assassinato ocorreu por volta das 3h da manhã, quando o Senhor Al-Fatih estava dormindo. O primeiro funcionário a acordar encontrou as manchas de sangue às 5h da manhã. Levou mais 30 minutos para informar o senhor e entender a situação. Outros 40 minutos se passaram até a polícia chegar. Antes disso, o Senhor Al-Fatih chamou uma ambulância e enviou seu filho e o funcionário, que ainda respiravam, para o hospital. Houve um intervalo de cerca de 30 minutos aqui.
— Porque eu estava esperando a polícia chegar! — gritou o tio.
— Tenho uma opinião diferente — Asgyle negou as palavras do promotor. — A partir daqui, olhemos para o caso sob a perspectiva do Senhor Al-Fatih. Afinal, era a casa dele.
Ele soltou a pista deliberadamente e continuou:
— Logo cedo, um funcionário vem acordar o casal de um sono profundo. Relata, aterrorizado, que há cadáveres e sangue por toda a casa. “O que é isso?”, o Senhor Al-Fatih sai correndo e sente a atmosfera estranha. O que aconteceu com a casa dele? O que ele pensou naquele momento? Os pais, claro, se preocupam com os filhos. “Como está meu filho? Ele está bem?”. Ele corre depressa. E vê… corpos empilhados no quarto.
Por um momento, ele parou de falar. O silêncio tomou a sala. Asgyle retomou:
— O homem, atordoado, recupera a consciência rapidamente. “Onde está meu filho? Ah, ele está ali”. Ele abraça o filho e verifica se está vivo ou morto. Felizmente, ele ainda respira. “Chamem uma ambulância!”. Ele dá ordens ao funcionário e pergunta ao filho: “Como isso aconteceu? Quem fez isso? O que diabos aconteceu aqui?”.
Ouvi o som de papel sendo virado.
— O registro do incidente indica que, àquela altura, o filho, Salaam, estava consciente. E ele contou o que aconteceu ao Senhor Al-Fatih. Disse que um homem com as mesmas características do funcionário morto no dia anterior havia matado todos, e foi isso.
Ouvi o som de papéis sendo colocados sobre a mesa.
— É verdade? Está dizendo que a vítima mentiu? Logo ele que estava diante da morte? — perguntou o promotor, impaciente.
— Claro que não — negou Asgyle. — Ele teria dito a verdade. Mas o único que o ouviu foi o Senhor Al-Fatih.
— Está sugerindo que existe outra verdade, meu senhor? — perguntou o juiz.
— Sim — respondeu Asgyle sem hesitar. — Meu raciocínio é este: No dia anterior, Salaam e seus amigos sequestraram um ômega. Ele certamente tinha más intenções.
— Um sequestro? Do que está falando? Que provas você tem! — O tio gritou, incapaz de se conter. Asgyle respondeu imediatamente à altura:
— Caso contrário, não haveria razão para um ômega estar na mansão do senhor, certo? Ou será que o Yohan nem estava naquela mansão, para começo de conversa?
— Ele estava! Ele realmente estava lá!
— Então ele deve ter sido sequestrado.
Meu tio, que parecia prestes a explodir de raiva, apenas soltou uma respiração ofegante, como se tivesse ficado sem palavras. Asgyle conhece minha relação com ele. Enquanto eu me perguntava o que ele estava tramando, meu tio disparou:
— …Aquele ômega veio para vender o corpo!
Quase gemi involuntariamente ao ouvir aquelas palavras cuspidas entre dentes. Mas não senti decepção ou angústia; afinal, eu sabia que ele nunca teria qualquer afeto familiar por mim. Enquanto eu tentava me recompor, meu tio falou rapidamente:
— Aquele brutamontes era o cafetão dele. Isso, os dois vieram juntos para a minha casa. Então, quando viram que havia muitas coisas valiosas lá, mudaram de ideia e fugiram matando as pessoas e roubando tudo. É isso! Aquele ômega é um bastardo imundo que se vendeu!
Subitamente, senti um cheiro doce. Percebi que o Príncipe Herdeiro estava liberando feromônios. No entanto, o aroma desapareceu tão rápido quanto surgiu; Asgyle os ocultou novamente. Fiquei confuso, mas logo ele continuou:
— Você não acha que faz sentido ter um cafetão lá dentro, acha? Onde no mundo existe um homem que faz sexo na frente de um cafetão?
— Ele… ele… talvez estivesse esperando na porta…
— Deixe-me continuar minha história — Asgyle cortou as palavras dele friamente. — Os homens que sequestraram o Yohan estão lá. Não importa como começou, pequenas brigas escalaram para algo maior.
A memória daquele dia ressurgiu subitamente. Os homens segurando meus membros, deixando-me incapaz de me mover, as vozes me insultando e amaldiçoando, as risadas estridentes e até os órgãos genitais exibidos diante dos meus olhos. As lembranças que eu havia enterrado explodiram, e meu corpo começou a tremer violentamente.
“Está tudo bem, é passado. Estão todos mortos, nunca mais vai acontecer.”
Tentei manter a racionalidade.
“Está tudo bem, está tudo bem.”
Com um suspiro trêmulo, ouvi Asgyle continuar:
— No fim das contas, ocorre um assassinato. Eles esfaquearam, estrangularam e se divertiram. Mas o ômega, que havia sido sequestrado, conseguiu escapar nesse meio tempo. Salaam fica furioso e sai para procurar o Yohan, mas seu pênis é cortado por uma faca empunhada por outro amigo. Salaam revida e mata o amigo, mas sofre uma hemorragia grave. No fim, ele perde a consciência e relata ao pai, que o encontra mais tarde. O Senhor Al-Fatih deve ter ficado desesperado. “Como posso resolver esta situação?”. O ômega culpado por tudo já fugiu, e o pecado do meu filho precisa ser acobertado.
Passos lentos foram ouvidos enquanto ele falava. Era o som de alguém caminhando e refletindo. Assim que parou, a voz de Asgyle prosseguiu:
— “Sim, podemos inventar um criminoso”.
— Agora o Príncipe Herdeiro está indo longe demais! — protestou o promotor.
Asgyle não parou:
— O Senhor Al-Fatih criou um fantasma. Se for assim, o criminoso jamais será pego e o caso terminará sem solução. O filho continua sendo uma “vítima”, e tudo termina ao culpar o ômega fugitivo e esse fantasma. Ômegas raramente são absolvidos em tribunal, então, mesmo que fosse abusado, Yohan teria sorte se chegasse a ser julgado!
Senti uma agitação ansiosa na sala. As pessoas estavam inquietas. Asgyle continuou insistindo:
— Quando o Yohan foi sequestrado, o Senhor Al-Fatih deve ter visto. Você deve ter visto e ignorado, pensando que era “apenas um ômega”. Você disse que, no dia anterior, o funcionário fez um relatório sobre o homem? Então, não é estranho? O Senhor Al-Fatih conhecia o rosto do Yohan, mas nunca viu o homem pessoalmente? Como pode ser que um cafetão tão meticuloso, que esperava na porta enquanto o “serviço” era feito, como você diz, tenha deixado o Yohan? Só existe uma conclusão: esse homem não é real!
— Não, ele estava lá!
— Senhor, espere um momento — o promotor tentou contê-lo, mas meu tio não se importou e gritou:
— Eu estou dizendo que ele era uma pessoa real! Juiz, ele existe de verdade! Eu juro por Deus que é verdade. Disseram que o Yohan e o homem viviam juntos antes de chegarem à mansão. O ômega luxurioso, louco por aquele homem, o levou para a minha mansão!
Em um instante, o tribunal silenciou. Meu tio calou a boca subitamente, como se percebesse o erro. Quebrando o silêncio, a voz de Asgyle surgiu:
— “Antes de chegarem à mansão”? O que quer dizer com isso?
— É que… — o tio gaguejou. Asgyle perguntou novamente:
— Você já conhecia o Yohan antes, Senhor Al-Fatih? Diga-me, qual é o parentesco entre vocês?
— Senhor, então…
Meu tio quis falar mais, mas Asgyle não permitiu.
— Chega. Vou ouvir o acusado.
O som dos passos aproximou-se. Senti uma sombra sobre mim e levantei a cabeça. Como se estivesse me olhando, a voz de Asgyle veio de cima:
— Yohan, diga-me. Qual é a sua relação com o Senhor Al-Fatih?
Engoli em seco. O ambiente estava em um silêncio mortal. Pisquei meus olhos sem visão, tendo a ilusão de ouvir as batidas do meu próprio coração.
“Eu posso falar? Sério? Você pode proteger o Camar mesmo se eu contar tudo?”
Foi difícil abrir a boca, e exigiu ainda mais esforço emitir um som.
— Ele…
Minha voz falhou e comecei a tossir. De repente, um calor reconfortante tocou meu ombro. Asgyle me deu um tapinha, como se dissesse que estava tudo bem. Ganhando coragem, finalmente confessei:
— Ele é meu tio.
Houve outro silêncio profundo. Asgyle perguntou novamente:
— Yohan, quem é o seu pai?
Respondi com a voz um pouco mais firme:
— Raihan bin Faisal bin Abdul Aziz Al Hamed. Ele era o irmão mais velho do atual senhor e também o antigo senhor de Al-Fatih.
Ao meu lado, gritos de espanto e uma grande comoção tomaram conta do tribunal.

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✦ Tradução, revisão e Raws: Jor&Belladonna

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Sinopse:
Em um país do Oriente Médio onde a discriminação contra ômegas é profundamente enraizada, Yohan, um ômega abandonado após a manifestação de seu gênero secundário, vive sozinho em um oásis com apenas um gato como companhia. Um dia, ele resgata um homem ferido que perdeu completamente a memória do seu passado. Conforme passam o tempo juntos, Yohan se apaixona por ele… mas, um dia, o homem desaparece subitamente, sem deixar rastros.
Depois de esperar por ele em vão por muito tempo, Yohan encontra inesperadamente o príncipe herdeiro, um homem exatamente igual àquele que um dia amou. No entanto, o príncipe não o reconhece de forma alguma…
Nome alternativo: Kiss The Stranger Beije O Estranho

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