Ler Winter Field (Novel) – Capítulo 01.1 Online

. ₊ ⊹ . ⋆ Capítulo 01 – País Frio
Pt. 01
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Rensley nunca havia sentido o vento frio bater em seu rosto, nem uma vez sequer, desde que nascera. Nas canções dos poetas, nos livros deixados pelos literatos, às vezes aparecia a expressão “vento cortante que corta a pele”, mas para ele aquilo não passava de letras impressas no papel.
O vento sempre fora o amigo mais próximo de Rensley. Depois de um treino de esgrima, quando ele ofegava, o vento era a mão refrescante que secava seu suor e afagava seus cabelos. Quando lia um livro num canto da biblioteca com a janela aberta, era o travesso que virava as páginas e fugia correndo. Nas ruas do mercado noturno, quando caminhava levemente embriagado de vinho doce, era o companheiro de bebida que refrescava seu rosto corado. Na infância, a relação era ainda mais íntima. Quando ele enxugava as lágrimas que finalmente escorriam depois de suportar zombarias e castigos, o vento chegava sorrateiramente e acariciava sua bochecha, como um irmão. No sótão escuro onde era trancado como punição, o vento era o companheiro que o impedia de estar completamente sozinho. Quando corria pelos rios ou florestas, o vento se aproximava e disputava corridas com ele, como um parceiro de brincadeiras.
Sempre gentil, suave e quente. Diante do lado aterrorizante e desconhecido desse velho amigo, Rensley chorava depois de muito tempo. Não era tristeza. Era puro frio.
Até as lágrimas congelaram, endurecendo suas bochechas. Se não fosse pelo véu que cobria seu rosto, seu rosto inteiro já teria se transformado num bloco de gelo.
O vento norte gelado, misturado com neve, rasgava a pele através das roupas acolchoadas e da grossa capa de couro que envolviam todo o seu corpo. Não bastava cortar a carne — chegava a doer nos ossos. Rensley sentia que agora conseguiria cantar sobre o vento com mais variedade de expressões do que qualquer poeta. O frio que ele aprendera apenas em palavras e escritos. Era uma dor que enlouquecia mais as pessoas do que espadas, flechas ou chicotes.
— Quem está aí?
Se soubesse que seria assim, teria impedido as pessoas de partirem. Jamais teria concordado com aquela ideia frouxa de que, como restava pouco caminho, se apressassem para chegar enquanto o sol ainda estivesse no céu.
Enquanto Rensley gritava por dentro diante do portão que finalmente alcançaram, o guarda do portão, usando um grosso gorro de pele, gritou. Um dos acompanhantes de Rensley também ergueu a voz para não ser levada pelo som do vento.
— Somos convidados de Sua Alteza o Grão-Duque Gisel Zibedad!
— A esta hora da noite? Que assunto têm com Sua Alteza?
O acompanhante, sem dizer nada, aproximou uma lanterna da bandeira. O guarda estreitou os olhos e pareceu comparar o brasão da bandeira com o documento oficial que tinha em mãos.
— Ora essa!
Ele soltou uma exclamação e fez um gesto, dando alguma ordem.
Pouco depois, o portão da muralha externa do castelo se abriu. Pessoas se aglomeravam para receber o grupo de Rensley.
— Ora, imaginávamos que chegariam amanhã, é claro. Não esperávamos que viessem no meio da noite. Atravessar as planícies a esta hora!
— Nós também nos arrependemos.
— Não me digam que vieram montados naquilo? Sem carruagem de escolta?
“Aquilo” era a carroça de carga alugada na última pousada em que haviam ficado. Também era uma espécie de carruagem, mas ninguém a consideraria um meio de transporte adequado para a jornada de uma princesa. Além disso, o que puxava a carroça não era um cavalo elegante, mas um jumento nativo do norte, resistente ao frio.
— A carruagem escorregou numa estrada de gelo e a roda quebrou pelo caminho, e o cavalo adoeceu e ficamos com ele na pousada.
— Se ao menos tivessem mandado um recado da pousada, teríamos ido buscá-los. Nós estamos acostumados com esta terra, então não há problema, mas para os visitantes de fora a planície à noite é perigosa. Por favor, venham por aqui. Aqueçam-se um pouco no fogo.
“Não imaginei que seria tanto assim.”
Rensley engoliu as palavras. Para começar, não havia mesmo nenhuma carruagem luxuosa de escolta. Os guardas do portão apressaram-se em colocar mais lenha na lareira e serviram uma tigela de sopa quente para cada um dos acompanhantes. Só então os acompanhantes esticaram os braços como se tivessem voltado da morte, mas Rensley, com o rosto totalmente coberto pelo véu, não conseguiu sequer beber um copo d’água. Ainda assim, o simples calor do fogo já lhe permitia sentir que havia escapado da beira da morte.
Não restava força alguma para dar qualquer explicação. Felizmente, os guardas não perderam mais tempo e trouxeram uma carruagem de escolta, conduzindo o grupo até o interior da fortaleza. Ao subir numa carruagem devidamente construída, com teto e paredes, sentiu-se aliviado por não precisar mais enfrentar o vento, mas o frio que já havia penetrado seu corpo não se dissipava facilmente apenas com o breve calor da lareira.
A lua branca brilhava de forma dolorosamente clara. O gelo e a neve acumulados em toda parte refletiam sua luz, fazendo com que a noite do país do norte fosse mais azulada do que negra. Atrás do campo de neve azulado, a sombra negra e interminável da floresta de coníferas parecia um gigante adormecido prestes a ganhar vida a qualquer momento.
Enquanto se deslocavam, a notícia parecia ter chegado tanto ao interior da fortaleza quanto ao castelo do grão-duque. Embora fosse tarde, algumas pessoas mostravam o rosto com lanternas nas mãos, observando a chegada dos novos hóspedes.
A muralha externa, erguida como um penhasco, aproximava-se aos poucos. A enorme parede cinzenta era rude, sólida e fria, como se a própria paisagem do país do norte tivesse sido transformada em construção.
Ao fechar os olhos para afastar o medo, a carruagem atravessou a ponte e entrou pelo portão da muralha externa do castelo do grão-duque. Continuou avançando por algum tempo até finalmente parar. As pessoas do castelo estavam lá para recebê-los.
— Deve ter sido difícil, uma viagem tão longa.
— Não foi um clima fácil para quem vem do sul.
Diante das palavras de consolo, Rensley apenas inclinou levemente a cabeça em silêncio, escondendo ainda mais o rosto dentro do véu. Os acompanhantes que o haviam trazido responderam em seu lugar.
— Primeiro gostaríamos de levar a princesa para dentro. O corpo dela deve estar completamente congelado.
— Por aqui, por favor.
As mulheres do castelo apressaram-se em guiar Rensley. O lugar para onde foi levado imediatamente foi o banheiro. Numa profunda banheira esculpida em pedra, havia água quente até a borda, soltando vapor.
O banheiro estava cheio de umidade, e mesmo sem contar com a água quente, havia um braseiro aceso que o mantinha aconchegante. O corpo que, até pouco antes, escapara diversas vezes da morte por congelamento, rapidamente se acostumou ao calor e agora começava a suar. Rensley soltou um suspiro trêmulo de profundo alívio.
Mas isso durou pouco. Diante das palavras da criada, Rensley voltou a se assustar, encolhendo os ombros.
— Vou ajudá-la no banho.
Rensley balançou a cabeça rapidamente e escreveu com o dedo na palma da mão da criada.
<Em Cornia, uma noiva prestes a se casar não pode falar nem mostrar o corpo a ninguém. Ainda não realizei a cerimônia, então sou uma pessoa de Cornia. Por favor, deixem-me sozinha.>
Enquanto Rensley segurava seu coração ansioso aguardando a resposta, as criadas trocaram olhares entre si e conversaram. Felizmente, quem parecia ser a responsável por elas chegou facilmente a uma conclusão e assentiu com a cabeça.
— Entendido. Descanse tranquilamente, e quando terminar o banho, sacuda esta corda. Viremos buscá-la.
Rensley olhou para a corda. A corda longa subia pela parede e se estendia para fora do banheiro; parecia servir para tocar um sino quando puxada.
As criadas se retiraram do banheiro, e mesmo assim Rensley permaneceu parado no lugar, espiando para ver se elas voltariam ou se alguém entraria de novo. Só depois que os arredores ficaram silenciosos e todo sinal de presença desapareceu, ele começou lentamente a tirar a roupa. Primeiro tirou o gorro de pele que cobria a cabeça e o véu que escondia o rosto.
— Ufa…
O suor brotava do corpo como se fosse mentira que, pouco antes, lágrimas haviam escorrido por causa do frio cortante. Rensley apressou-se a despir-se: luvas, a capa de couro, o casaco grosso acolchoado, o vestido de veludo pesado com mangas infladas que escondia a linha dos ombros, e as várias camadas de roupas íntimas por baixo.
Finalmente, Rensley ficou apenas com uma calça fina, e ao jogá-la fora também, revelou-se um corpo de jovem completo. Ombros retos e angulosos, peito e abdômen firmes e planos, costas com sombras suaves seguindo o contorno de músculos finos, pernas longas e retas. Um corpo branco que se descreveria melhor como firme e esguio do que macio e suave, e na virilha desse corpo o órgão sexual masculino se assentava de forma imponente.
Rensley se aproximou da banheira e primeiro mergulhou a mão. A temperatura da água era quente, quase fervente. Havia molhos de ervas secas — cujos tipos ele não conseguia identificar todos — pendurados na banheira, exalando um cheiro forte que picava o nariz. Em Cornia, não se tomava banho com água tão quente. Banhava-se com água morna perfumada com óleo, ou até mesmo com água fria.
Mesmo assim, Rensley, sem reclamar, começou pelas pontas dos pés e mergulhou o corpo despido naquela água quase fervente. A cada vez que se afundava um pouco mais na água, uma sensação parecida com um arrepio subia fazendo cócegas pelo corpo. Ao mergulhar completamente, deixando apenas a cabeça de fora, ele teve que soltar um suspiro silencioso, com os lábios levemente entreabertos.
“Será que tomar banho podia ser algo tão excitante assim?”
O som do vento que açoitava seus ouvidos não conseguia de forma alguma invadir o banheiro do castelo do grão-duque. A água que transbordou um pouco quando Rensley entrou molhava o chão de areia sob a banheira, e só se ouvia o som das gotas caindo, uma a uma, das bordas.
Rensley mexeu a água algumas vezes com a mão. O som suave da água se agitando derretia aos poucos a tensão que enrijecia seu coração. Ele mergulhou até a raiz do cabelo e soltou bolhas. Quando voltou à superfície da água, o cabelo estava completamente molhado, revelando por baixo dos fios louros a testa branca e lisa.
Depois de secar o corpo cuidadosamente com um pano seco, Rensley vestiu-se novamente. Felizmente, as criadas haviam preparado roupas novas, então não precisou voltar a usar as várias camadas de roupas íntimas nem o vestido molhado de neve e gelo.
“No norte, até dentro do castelo se usam roupas tão grossas assim.”
Felizmente, as roupas eram feitas para se fechar pela frente, no peito, e não pelas costas. Depois de passar o cordão que ia da cintura até o peito, amarrar o laço e colocar até o casaco de uso interno, Rensley pôs o véu que cobria completamente o rosto, deixando apenas os olhos à mostra. O corpo que estivera submerso na água quente por tanto tempo, ao vestir as roupas e o véu, logo começou a esquentar demais.
Puxou a corda que as criadas haviam indicado. Não pareceu fazer nenhum som, mas pouco depois as criadas entraram.
— Por aqui, por favor.
Rensley caminhou em silêncio, seguindo aquelas que o rodeavam. Os criados que o haviam escoltado não estavam mais à vista, provavelmente já tinham ido descansar. Tendo transportado a noiva viva e a salvo, não restava mais nenhum dever a cumprir para eles.
Devem estar bebendo à valer em algum lugar. Rensley teve inveja deles. Ah, se agora ele pudesse tomar uma caneca de cerveja diante de um braseiro quente, não teria mais nenhum arrependimento.
Desceu uma longa escada em espiral. Até onde iria? O corpo que a água quente havia relaxado começava novamente a se enrijecer. Não havia explicação, mas para onde estavam indo era evidente.
O grão-duque do território do norte, Gisel Zibedad.
Rumores sobre ele haviam se espalhado por todo o continente, até além-mar. Um monstro e um excêntrico que governava este território vasto e árido. Um monarca que recusava a maioria das audiências com estrangeiros e se trancava no castelo, um louco que pesquisava magia negra dia e noite, diziam.
Algumas pessoas que o haviam conhecido descreviam-no como um grande corvo. Outros diziam que parecia um grande falcão negro, ou um lobo.
Vestindo a capa negra, símbolo do senhor do norte, seus cabelos também eram negros como carvão, e apesar de toda a sua pele estar nas sombras, apenas seus olhos brilhavam em dourado — o que não era belo, mas verdadeiramente sinistro. As pessoas do norte tinham um lado selvagem e não davam muita importância à linhagem, por isso certamente havia se misturado em seu sangue o sangue de bárbaros ou de criaturas monstruosas…
— Vossa Alteza, a Princesa Yvette Elvanes, vinda de Cornia, chegou.
Um velho servo anunciou, e a porta se abriu. A primeira coisa que preencheu a visão de Rensley foi uma luz avermelhada.
Como se tivessem trazido a fornalha do inferno para dentro daquele lugar, a luz vermelha ondulante fez Rensley cerrar os punhos de tensão, mas ao se acalmar e observar melhor, percebeu que a luz era apenas o reflexo de uma grande lareira que tingia o escuro porão subterrâneo.
Em seguida, o que entrou em seus olhos foram longos cabelos negros, a pele preta que os decorava embaixo, a capa negra bordada em prata com o brasão do norte. As costas enormes, exatamente como nos rumores, estavam eretas diante de Rensley.
— Justo hoje…
…com certeza havia se misturado sangue de bárbaros ou de raças monstruosas naquela linhagem, e por isso ele havia se tornado uma figura tão sinistra assim…
— A esta hora tão tardia.
Murmurando baixinho, como se falasse consigo mesmo, ele se virou lentamente.
Rensley curvou a cabeça um pouco mais rapidamente. Já que não podia falar, esperava que ao menos com gestos pudesse transmitir suas desculpas pela visita tardia.
Seu coração batia tão forte que parecia que ia saltar pela boca. Tudo era exatamente como nos rumores. Um louco que se trancava no subsolo do castelo cinzento parecido com uma fortaleza, dedicando-se apenas à pesquisa mágica; a aparência de um grande animal negro; olhos dourados brilhando na escuridão. Meu Deus. Não era possível que olhos humanos comuns brilhassem daquele jeito. Rensley cerrou os dentes com força para conter um gemido de choque que quase escapou.
Geralmente, o porão de um castelo é usado como depósito de alimentos ou vinho, ou como prisão. É raro o senhor do castelo descer ao porão, a não ser para julgar e interrogar criminosos ou verificar pessoalmente o estado dos suprimentos armazenados.
No entanto, a paisagem do porão do castelo do grão-duque era bem diferente. Todos os cantos, tingidos em vermelho e dourado pelo fogo intenso da lareira, estavam repletos de livros, e nas paredes vazias havia diversos mapas e desenhos afixados. Também havia lousas de pedra cobertas de marcas que pareciam cálculos.
Será que tudo aquilo eram preparativos para pesquisas de magia negra? Mesmo já não sentindo mais frio, arrepios percorreram suas costas e ombros.
Enquanto Rensley, parado quietamente em seu lugar, apenas movia os olhos observando atentamente o entorno, uma das criadas transmitiu sua vontade ao grão-duque em seu lugar. Ao ser comunicado o costume de Cornia — de que até a cerimônia de casamento ela não podia mostrar o rosto nem falar —, os olhos dourados de lobo se voltaram diretamente para Rensley. Ele se aproximou a passos firmes.
Rensley jurava que em Cornia não era de estatura baixa. Ao contrário, se considerava mais alto que a média. Mas as pessoas de Oldenland pareciam, em geral, ter compleição maior, então mesmo entre as criadas Rensley não se destacava particularmente. O fato de isso ser vantajoso para esconder seu sexo era motivo de alívio, mas quando um homem muito mais alto do que ele se postou à sua frente como uma muralha, seu coração se agitou.
Em mais de vinte anos de vida, ele nunca vira alguém tão grande. Se levassem esse homem para a Praça Celestine, todos fugiriam apavorados. Mas neste momento, o medo, a ansiedade e o nervosismo se escondiam dentro do véu que cobria seu rosto. O grão-duque diante dele abriu lentamente a boca.
— Recebê-la…
A voz era fria e baixa, como o som do vento gelado que ouvira na última parte da jornada. Ouvida de perto, era ainda mais ameaçadora.
Enquanto Rensley não conseguia encontrar os olhos dele e mantinha o olhar baixo, fixo no chão, o grão-duque continuou:
— Desculpe-me por não sair para recebê-la. À noite, a notícia chegou até mim… tarde…
Depois de um breve silêncio, Rensley, hesitante, ergueu a cabeça.
Encontrar o rosto de perto deveria ser adiado ao máximo, mas por ora, apenas os olhos revelados pela fenda do véu seriam visíveis para ele. A expressão do grão-duque estava rígida, mas, se seus ouvidos não o enganavam, ele definitivamente pronunciara a palavra “desculpe”.
“Será que ele acabou de se desculpar?”
Diante do pedido de desculpas cortês que não esperava, Rensley piscou os olhos. …Foi um pouco surpreendente, mas, afinal, ele era o monarca de um país. Já ouvira dizer que, embora localizado no frio e árido norte, Oldenland era mais estável economicamente e politicamente do que qualquer outro país do continente. Sendo o rei de um país assim, mesmo que fosse um tanto excêntrico, respeitar a etiqueta poderia ser algo à parte.
Rensley balançou a cabeça, indicando que estava tudo bem. Então ele, como se hesitasse, ficou parado no lugar por um momento e atravessou à frente de Rensley em direção à escada.
— Siga-me.
— …
— Vou guiá-la até onde vai se hospedar.
Ele não podia responder que a orientação das criadas seria suficiente; enquanto permanecia parado, o homem de olhos dourados, como se tivesse percebido algo, voltou para junto dele.
— Suba primeiro. Se acaso tropeçar, seria perigoso…
Não era desajeitado a ponto de tropeçar e cair numa escada. Se necessário, Rensley conseguia praticar esgrima até mesmo numa varanda, numa ponte, ou sobre a estreita mureta de uma torre de castelo.
Mesmo assim, Rensley segurou levemente a barra da saia em silêncio, fez uma reverência de agradecimento e, como ele disse, subiu a escada à frente.
Mas logo se arrependeu de não ter preferido segui-lo por trás. A sensação de uma fera desconhecida seguindo suas costas era tão sinistra e desconfortável que não queria experimentá-la uma segunda vez.
Felizmente, depois de deixarem o porão, o grão-duque voltou a caminhar à frente. Rensley o seguiu quase sem respirar, quase como um fantasma.
Subiram escadas, atravessaram um longo corredor e abriram uma porta feita de madeira escura. Passando por uma sala interna que também servia de sala de estar, uma grande cama recebeu o hóspede no centro do quarto. Nas paredes havia várias lâmpadas acesas na escuridão, e a lareira queimava intensamente.
— Este é o quarto da grã-duquesa.
Ele terminou de falar e franziu as sobrancelhas. Cobriu a boca com a mão e ficou em silêncio por um momento.
— Como ainda não realizamos a cerimônia, talvez seja indelicado usar o título de grã-duquesa.
Não seria indelicado para alguém que veio para se casar. Ao contrário, se fosse alguém quem cometesse indelicadeza usando o título de grã-duquesa, ele entenderia, mas…
Enquanto Rensley balançava a cabeça e gesticulava hesitante, a criada que o havia guiado no banho, percebendo rapidamente a situação, se aproximou e estendeu a palma da mão.
<Como disse, como ainda não fizemos a cerimônia, não é necessário me ceder o quarto da grã-duquesa. Qualquer quarto onde eu possa fechar os olhos já é suficiente.>
A criada pareceu surpresa, mas transmitiu com calma a vontade de Rensley ao grão-duque, e Rensley admirou-se algumas vezes internamente. Não demonstrar nenhum sinal de intimidação diante daquela figura terrível — realmente, tal senhor, tal criado. Os servos da casa do grão-duque de Jivendad tinham um espírito e tanto.
Ao ouvir isso, o homem de olhos dourados olhou para Rensley com expressão fria. Permaneceu quieto sem reagir, e então respondeu num tom brusco:
— Deve ser uma brincadeira do sul.
Era sério. Mas Rensley desistiu de insistir mais.
Ao redor da grande cama havia colunas altas erguidas, e entre elas pendiam cortinas cor de vinho, espessas, macias e de aparência pesada.
A forma em si não era muito diferente da de Cornia, mas as colunas eram muito mais altas e as cortinas mais grossas. Em Cornia, penduram-se cortinas quase transparentes nas colunas da cama. Assim, durante o sono, uma brisa agradável pode circular e é possível impedir insetos que querem sugar sangue. Enquanto Rensley observava a cama, o grão-duque continuou explicando.
— Entre o colchão e a cama colocam-se pedras aquecidas, e sob a coberta se põe um aquecedor de brasas, que retiraremos antes de dormir; assim, se ela adormecer, o calor durará até tarde na manhã seguinte.
Colocam pedras aquecidas dentro da cama? Para Rensley, tudo aquilo eram métodos que via e ouvia pela primeira vez. Logo as criadas trouxeram brasas em fogo vermelho e as colocaram dentro do aquecedor redondo, que tinha uma alça longa. Rensley, esquecendo até mesmo sua posição, observou com curiosidade os utensílios de aquecimento que o grão-duque explicava.
— Como vem do sul, este clima deve lhe parecer estranho… mas, como pode ver, há vários preparativos, então dentro do castelo não sentirá tanto frio.
Terminado o discurso, o grão-duque ficou parado em silêncio, como se não tivesse mais nada a dizer. Ao fecharem a tampa do aquecedor de brasas, ele adquiriu a forma de duas panelas de cobre, das usadas na cozinha, colocadas uma sobre a outra viradas de boca para baixo.
As criadas colocaram o aquecedor dentro da coberta e esfregaram-no amplamente, como quando se passa ferro para alisar rugas na roupa. Provavelmente era um método para distribuir uniformemente o calor das brasas pela cama.
— Esta é Samlit, a chefe das criadas. Se precisar de algo, diga qualquer coisa. Ela cuidará da senhora.
A pessoa que o grão-duque indicou era a mulher de meia-idade que, pouco antes, transmitira a mensagem escrita dele. Rensley assentiu com a cabeça e voltou a se concentrar nas criadas que preparavam a cama.
— Então, até mais.
— Ah.
Ops. Rensley tapou a própria boca com a mão, assustado. Absorto observando as criadas trabalhando, a saudação do grão-duque saiu de sua boca reflexivamente.
Um suor frio quase brotou. Rensley, sem conseguir tirar os olhos, observou a reação do grão-duque, fixando-o com o olhar. Na situação em que sua vida estava em perigo, sem poder fugir nem desviar o olhar. Sentiu que compreendia perfeitamente, naquele dia, o sentimento de um rato diante de um gato.
Mas quem desviou o olhar primeiro foi o gato… não, o grão-duque. Será que não ouviu? Ou talvez, por ter sido uma exclamação tão curta, não tenha percebido que era voz de homem. Ele encarou Rensley por um instante, como se recebesse seu olhar, e então virou a cabeça silenciosamente.
O grão-duque deu as costas e se virou. O bordado de prata do pássaro monstruoso em sua capa ondulou pesadamente. As criadas, ocupadas com o próprio trabalho, não estavam olhando para Rensley.
Rensley olhou alternadamente para as costas do grão-duque que se afastava e para as criadas que aqueciam a cama, e por fim deu um passo. A passada do grão-duque, alto como era, era proporcionalmente larga, mas quando Rensley segurou a barra da saia e apressou o passo, conseguiu alcançá-lo.
— …Havia algo mais que queria dizer?
O grão-duque, já ao lado de sua noiva — mais precisamente, de Rensley, que vestia a pele de sua noiva —, olhou-o para baixo com indiferença.
Ao ver alguns gestos de fala humana, o choque assustador do primeiro encontro havia se atenuado. Com o medo um pouco reduzido, agora ele conseguia finalmente encará-lo direito.
Os olhos dourados que não pareciam humanos continuavam os mesmos, e a impressão fria, como se não corresse sangue naquele rosto, também não mudava, mas, surpreendentemente, aquele rosto era extremamente elegante. Se apenas fechasse aqueles olhos estranhamente brilhantes, teria uma impressão muito mais refinada e graciosa do que a das pessoas comuns — um belo rosto esculpido, com sobrancelhas espessas e retas, e um nariz bem definido.
Rensley também conseguia perceber vagamente que aquele belo homem, à sua própria maneira, demonstrava gentileza para com quem considerava sua noiva. Mas o que aconteceria se ele soubesse que quem se escondia atrás daquele véu era um homem? Se aqueles olhos dourados, fantasmagóricos, brilhassem agora de raiva, quão aterrorizante seria?
Se, como punição por ter enganado o grão-duque, ele fosse condenado à decapitação ou à forca, seria até uma decisão misericordiosa. Se fosse usado como cobaia em pesquisas de magia negra, ou torturado sem piedade, ou reduzido à escravidão, então seria melhor tirar a própria vida.
Não importa quão severa fosse a punição que ele impusesse, Oldenland não precisaria se preocupar com conflitos políticos. Fosse qual fosse a situação em que Rensley se encontrasse, Cornia fingiria não saber de nada e não ofereceria nem um fio de ajuda.
Quando Rensley ergueu lentamente a mão, o grão-duque demonstrou uma leve estranheza, mas então, lembrando-se do gesto da criada pouco antes, estendeu a palma da mão em silêncio. Era uma mão grande, proporcional ao seu porte, mas mantinha intacta a graça de uma mão nobre.
Ao contrário, a mão de Rensley, embotada por trabalhos manuais e treinamento militar, era mais áspera. As criadas ainda não haviam percebido, mas alguém com uma mão como essa poderia perceber que os dedos dele não eram os de uma princesa.
Rensley hesitou, mas a mão já estava estendida. Lentamente, escreveu com os dedos sobre ela. Palavras que não deixam forma, roçando apenas pelo toque.
<Obrigada.>
Já que o futuro era incerto, a cama quente daquela noite poderia ser o último luxo que teria em toda a vida. Mesmo que fosse a última vez, a flecha do ressentimento não deveria ser dirigida ao grão-duque, que o havia guiado até o quarto da grã-duquesa, mas às pessoas da família real de Cornia, que o usaram como uma peça descartável. Isso ele precisava lembrar.
<Não esquecerei a gentileza que me foi oferecida hoje.>
Depois que Rensley retirou os dedos, o grão-duque ainda esperou um momento com a palma aberta, antes de abaixar a mão. O quarto, aquecido pela lareira, ia ficando cada vez mais quente, e talvez por isso, seus olhos, que pareciam sempre frios, agora tinham um leve tom de cor.
— Descanse.
O grão-duque disse apenas isso e, sem nenhuma outra despedida, saiu do quarto. Rensley também voltou para perto da cama.
Enquanto isso, os preparativos pareciam ter terminado; as criadas tiravam o aquecedor de brasas de dentro da coberta.
— Princesa, agora já pode dormir. A ajuda para se despir deve ficar para depois do casamento, não é?
Diante das palavras de uma das criadas, Rensley assentiu com a cabeça. Observou o rosto de cada uma delas, transmitindo agradecimentos em pensamento.
Obrigado, todas vocês. Graças a vocês, vou passar uma noite numa cama tão luxuosa, na qual jamais deitei antes na vida.
— De manhã, a água para lavar o rosto está no jarro ao lado da lareira. Depois de se arrumar, se puxar a corda ao lado da cama, como no banheiro, viremos buscá-la.
As criadas se despediram e saíram em fila. Quando a porta grande e pesada se fechou, o quarto ficou silencioso. Apenas o som crepitante da lenha queimando e, de longe, o uivo ocasional de algum animal selvagem interrompiam o silêncio.
A camisola era feminina, mas era longa e ampla o suficiente para que Rensley pudesse usá-la sem problemas. Ao tocar a pele nua com o tecido macio de musselina, ele sentiu como se o próprio quarto o estivesse recebendo.
Ao se enfiar na cama, Rensley soltou um suspiro involuntário, quase como um gemido. Um calor seco, macio e denso, diferente do que sentira mergulhado na banheira quente, envolveu suavemente todo o seu corpo. Movimentou os braços e as pernas lentamente sob a coberta, como se nadasse, tentando aproveitar ao máximo aquele conforto que jamais experimentara na sempre quente Cornia.
“Esta felicidade só é possível porque estive prestes a congelar.”
Rensley duvidava se conseguiria dormir naquela situação perturbadora, mas seu corpo, cansado pela jornada longa e fria, logo relaxou como queijo derretendo sobre fogo, prestes a perder a consciência.
Não podia dormir tão profundamente. Precisava acordar cedo. Caso alguém entrasse no quarto enquanto dormia, precisaria acordar antes de qualquer um, se vestir e esconder sua verdadeira aparência…
Se pensasse bem em toda sua vida em Cornia, o único frio que se lembrava de ter sentido era quando ficara brincando demais na água de um riacho e o corpo esfriara. Mesmo esse frio desaparecia rapidamente ao se deitar numa pedra seca aquecida pelo sol.
O frio e o calor de Oldenland eram, ambos, tenazes e profundos. Pensando que a noite ali também seria assim, Rensley não resistiu ao sono que o invadia e fechou os olhos.
***
↫─✧ Continua….
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✦ Tradução, revisão e Raws: Yuki&Belladonna
Ler Winter Field (Novel) Yaoi Mangá Online
Sinopse:
Rensley Maelrosen, o príncipe do quente reino sulista de Cornia, disfarça-se de mulher para assumir o papel de noiva do Duque Gezell Jivendad no lugar de sua irmã desaparecida. Ele parte em uma jornada até as terras nórdicas de Aldrant, onde o aguarda um frio glacial — tanto no corpo quanto na alma.
— No fim das contas, foi você quem me pediu para salvar sua vida, não foi?
Ao chegar às terras do norte, abandonado pela família real, Rensley enfrenta o frio extremo e desconhecido que congela não apenas seu corpo, mas também suas emoções.
O calor humano das pessoas dessa terra impiedosamente fria, semelhante ao capim que encontra seu lugar nos locais mais improváveis,
e o afeto indiferente do Duque Gezell, que orquestra uma cerimônia de casamento falsa, fazem o coração de Rensley florescer descontroladamente.
— Quando a jornada terminar… espero que você volte.
Mesmo diante da confissão desajeitada do jovem Duque, emoções conflitantes surgem em Rensley, que o ama, mas precisa partir.
— Eu amo o senhor, Vossa Graça.
Em Winterfield, a terra mais fria do continente, onde todo o calor do mundo se reúne, há alguém que o acolhe com um abraço reconfortante.
Nome alternativo: Winter Field