Ler Winter Field (Novel) – Capítulo 01.2 Online


Modo Claro

. ₊ ⊹ . ⋆ Capítulo 01 – País Frio
Pt. 02

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— Ah…

Como alguém que acordasse de um pesadelo, Rensley abriu os olhos ofegante. O quarto, escuro e silencioso, com as cortinas grossas bloqueando a luz e o vento externo.

Depois de checar o entorno, ele estalou a língua, meio sem jeito. Longe de ter tido pesadelos, dormira profundamente sem sonhar nada. O suficiente para se autocriticar por ser tão descarado, considerando que estava prestes a morrer.

“Eu ia acordar de madrugada para me vestir. E se alguém tiver espiado enquanto eu dormia?”

Preocupado, Rensley na verdade se enfiou mais fundo sob a coberta. Deixando apenas os olhos de fora, observou o ambiente por um bom tempo, buscando qualquer sinal de presença. Mas, pelo menos naquele momento, não havia ninguém no quarto.

Como o grão-duque havia dito, o calor duraria até a manhã; o interior da cama, aquecido pelo calor remanescente e pela temperatura do próprio corpo de Rensley, ainda estava quente. Mas o fogo da lareira havia diminuído bastante, e o ar do quarto estava um pouco mais úmido e frio do que na noite anterior.

Rensley se levantou com cuidado. Vestiu o casaco, colocou também sobre os ombros o xale de pele que estava sobre a cadeira e, cobrindo o rosto com o véu, aproximou-se da janela.

Ao puxar a maçaneta da porta de madeira que bloqueava completamente a luz, revelou-se a janela de vidro externa e as grades decorativas de metal. Na janela de vidro havia uma geada afiada, pontiaguda, bela o suficiente para ser confundida com folhas de artesanato esculpidas em prata. Diante daquele padrão misterioso criado pelo ar frio do norte, Rensley esqueceu momentaneamente a situação e exclamou de admiração.

O vidro embaçado não clareava facilmente mesmo esfregando com a manga da roupa. Sem outra opção, abriu a janela e a paisagem externa entrou completamente em sua vista.

— Droga…

Rensley soltou um palavrão e deixou os ombros caírem. O sol, já a pino, o recebia.

De fato, o sol do norte tinha um brilho mais pálido e frio do que o do sul, mas ainda assim, sol era sol. Não faltava a ele o papel de iluminar o mundo.

Suspirando mais uma vez, Rensley apoiou os cotovelos na janela como quem desiste, e observou a vista lá fora. A paisagem do castelo do grão-duque, Raudken, que na noite anterior não conseguira ver bem por causa da escuridão, e o céu de Oldenland, entravam de uma vez em seu campo de visão.

Talvez fosse por causa do sol pálido, mas o céu também estava turvo e sombrio, sem qualquer tom de azul. Bem, olhando a neve acumulada em toda parte, dias de céu claro deveriam ser raros. Ao deixar Cornia e se dirigir cada vez mais ao norte, quando viu neve pela primeira vez, esquecera-se de sua situação e se empolgara. Mas agora que já havia chegado ao destino, tinha se acostumado à paisagem nevada.

“E se eu fugisse para longe antes da cerimônia?”

Mas a muralha traseira de Raudken também era uma barreira que protegia o extremo norte do continente. Além dela se estendia um mundo desconhecido, sobre o qual Rensley não sabia absolutamente nada.

O casamento se realizaria em breve, e mesmo que fosse possível escapar do castelo antes disso, morreria congelado ou de fome em algum lugar da vasta planície nevada. Se permanecesse no castelo, poderia esperar o milagre de o grão-duque conceder-lhe misericórdia, mas Rensley havia aprendido na própria pele, durante o caminho até ali, que o frio do norte não tinha misericórdia.

As pessoas visíveis pela janela se preparavam diligentemente para o dia. Alguém carregando baldes de água pendurados numa vara, alguém indo trabalhar com picaretas e pás, pessoas carregando potes e cestas, pequenas carroças de carga passando pelo pátio, e crianças brincando com peões e bolinhas de gude — Rensley observou tudo com atenção.

O jeito das crianças brincarem não parecia diferente, mesmo tendo atravessado o continente de uma ponta a outra. Rensley sorriu de leve, observando-as de cima. O ar frio que entrava pela janela fazia arder a ponta de seu nariz, mas mesmo assim não desistiu de observar a paisagem externa.

Foi então que uma criança, agachada rolando bolinhas de gude, como se sentisse o olhar, virou a cabeça bruscamente. Não houve tempo de se esconder. A criança se levantou de um pulo, boca aberta, olhando para cima, na direção da janela.

Rensley fechou a porta como um raio. Aliviando o coração acelerado, afastou-se da janela. Havia pensado em levantar o véu por um instante, pois estava sufocante, mas foi um enorme alívio não ter feito isso.

Pegou água do jarro ao lado da lareira, despejou numa bacia e lavou o rosto. Depois de pentear os cabelos com os dedos e ajeitar as roupas, Rensley se aproximou das colunas da cama para puxar a corda, mas parou a mão de repente, sobressaltado.

“Será mesmo necessário chamar as criadas e atrair atenção?”

Batendo o queixo, pensativo, Rensley logo chegou a uma conclusão. Diria que a princesa, exausta pela viagem longa e árdua, ficara trancada no quarto dormindo até tarde. Ninguém suspeitaria mesmo que ficasse mais um bom tempo deitado na cama.

A protagonista das histórias que espera pacientemente pela cerimônia de casamento e, ao receber seu companheiro, passa dias felizes, era sempre a verdadeira princesa nobre. Esse não seria o destino reservado a Rensley Malocen, a noiva falsa; se esperava encontrar uma brecha para escapar de uma situação desesperadora, precisava, no mínimo, descobrir onde essa brecha estava.

Range. Abriu a porta do quarto, que estava firmemente fechada. Rensley observou o exterior pela pequena fresta.

O corredor, sem ninguém passando, estava silencioso, e ao longe havia dois guardas de pé. Parecia mesmo que não seria possível sair pela porta principal.

Fechando a porta na mesma medida em que a abrira, Rensley apressou-se em seus movimentos. Depois de tirar completamente o roupão, o casaco e até o véu, ele trocou de roupa, vestindo as roupas masculinas que carregava desde que começara o disfarce, guardadas dentro de um embrulho. Mesmo sendo roupas masculinas, eram roupas de Cornia — se as pessoas dali as vissem, sentiriam estranheza, mas ainda seria mais seguro do que andar por fora vestido como a futura grã-duquesa.

— Ai, que frio.

Mesmo estando dentro de casa, ao vestir roupas mais finas, o frio logo penetrou seu corpo. Rensley estremeceu e se apressou até a lareira. Colocou alguns pedaços de lenha a mais e, ao mexer algumas vezes, o fogo reviveu rapidamente, para sua satisfação.

Enquanto se aquecia por um momento, um pequeno espelho colocado sobre a lareira chamou sua atenção. Rensley sorriu, pela primeira vez em muito tempo, para o homem tenso refletido no espelho. O sentimento sombrio melhorou ao encarar seu próprio rosto sorridente.

— Olá, belo Rensley Malocen. Não se preocupe demais. Se a sorte ajudar, talvez você viva uma vida melhor, não é mesmo?

Rensley percorreu o quarto observando cuidadosamente todos os cantos e, por fim, abriu a pequena janela no canto mais interno.

Sob a janela do lado oeste do castelo, um pouco mais isolado, não havia crianças brincando nem criados trabalhando. Talvez porque a janela não fosse grande, não havia grades instaladas.

Ele dobrou cuidadosamente todas as roupas que havia tirado e as colocou na fresta entre a porta de madeira interna do batente e a janela de vidro externa. Diferente de Cornia, as janelas tinham estrutura dupla, com um espaço considerável entre a parte interna e externa, ideal para esconder objetos. Prevendo qualquer eventualidade, pegou também um castiçal vazio.

— Ótimo.

Terminados os preparativos, Rensley segurou firmemente o batente da janela e deitou o corpo, achatando-se. Passou primeiro a cabeça, saiu pela janela e olhou para baixo. O quarto da grã-duquesa ficava no quarto andar da torre principal, onde o senhor do castelo vivia.

“Não é uma altura desprezível, mas nada que eu não consiga.”

Uma altura que uma pessoa comum sequer tentaria, mas Rensley, segurando e pisando nas saliências entre os tijolos e nos ornamentos esculpidos, desceu com facilidade, pulo após pulo. Quem visse pensaria que ele era um acrobata, de tão ágil o seu movimento.

Talvez o silêncio nos arredores do quarto tivesse sido justamente por consideração à futura grã-duquesa, que deveria estar descansando; quanto mais Rensley andava para fora, mais barulhentos ficavam os sons.

— Ainda nem terminaram de tingir? O que pretendem fazer?

— Confiram de novo a contagem dos talheres de prata!

— Vamos precisar de mais um pouco de cal. Perguntem se ainda tem sobrando.

Ao chegar ao pátio central, o clima agitado do castelo em preparativos para o casamento chegou até ele com força. Rensley se escondeu atrás de uma coluna e observou a situação.

— Até quando vão ficar enrolando? Levem essas cestas para a lavanderia agora mesmo!

— Já está quase pronto!

Um menino, que devia ter uns treze, catorze anos, terminando de limpar os restos deixados pelos artesãos, ergueu uma cesta de roupa suja e a colocou no ombro. A cesta era quase do tamanho da metade do corpo do menino.

Rensley usou a cesta como cobertura, andando alguns passos num ângulo inclinado, e furtivamente roubou as roupas que estavam dentro dela. Uma jaqueta cinza acolchoada com algodão grosso e uma calça. De bônus, até luvas.

Vestindo rapidamente a jaqueta, Rensley aproveitou o momento em que o menino virava a esquina do prédio para se esconder na sombra de uma coluna onde os olhos das pessoas dificilmente alcançariam. Ao vestir também a calça extra, soltou um suspiro parecido com um assobio de alívio.

— Quase morri congelado.

Vestir mais uma camada de roupa acolchoada não fazia o frio que enrijecia braços e pernas desaparecer, mas pelo menos tinha certeza de ter escapado do risco de morte por congelamento.

Talvez fosse graças à muralha ao redor, ou por ser dia, mas o vento terrível que sentira na planície na noite anterior estava consideravelmente enfraquecido. Rensley, com uma disposição mais tranquila, observou diversos cantos do castelo.

A barreira norte, Raudken, à altura de sua fama, ostentava muralhas altíssimas e robustas. Só na entrada, passara por duas muralhas. Somando a muralha externa do castelo do grão-duque, era uma fortaleza de ferro, com três camadas de muralha.

Em cada canto das muralhas erguiam-se altas torres de vigia, e além do castelo principal onde vivia o grão-duque, havia diversos outros edifícios: para receber visitantes, para servos e trabalhadores. Ao passar da muralha externa do castelo do grão-duque, começava a área de moradia dos habitantes.

Oldenland era o país que possuía o maior território do continente, mas grande parte de sua terra era ocupada por florestas, montanhas e planícies congeladas, inabitáveis. Sendo assim, tanto agricultura quanto pecuária ou apicultura eram atividades difíceis, e naturalmente a quantidade de pessoas vivendo dentro do castelo era, de longe, maior do que em outros países. Raudken era, ao mesmo tempo, o nome do castelo onde vivia o grão-duque Jivendad e o nome da capital de Oldenland.

— Ei, você! Por que está por aqui e não na cozinha?

Se soubesse que aquele dia chegaria, teria estudado mais geografia. Recordando o conteúdo das aulas que ouvira distraidamente na infância, como se fossem memórias de uma vida passada, Rensley percorreu o pátio central e o quintal, os estábulos, o galinheiro e até o canil.

Os animais criados ali não eram muito diferentes dos de Cornia, mas ver uma quantidade enorme de cachorros, de porte grande como potros e pelagem farta, era algo novo. Aqui, parecia que os cachorros também eram usados para puxar cargas, como bois ou cavalos. Ao lado dos cachorros, havia carroças com uma estrutura curiosa em vez de rodas redondas — algo como suportes retos, afiados como lâminas. Curioso, Rensley parou para observar aquela cena.

— Ei, você! Você mesmo!

No início, não percebeu que aquele grito era dirigido a ele. Distraído observando, Rensley só se virou depois que uma pequena pedra voou e roçou perto de sua orelha.

Um homem robusto, usando gorro de pele e vestido com camadas de roupas, gritava furioso, apontando o dedo.

— Se você ficar vadiando por aí só para receber salário, volte para casa agora mesmo!

— Perdão. Vim buscar ovos, mas acabei me distraindo.

Rensley curvou-se rapidamente, pedindo desculpas. Parecia que o dono das roupas que ele havia roubado era um trabalhador da cozinha.

— Hã? Nunca te vi por aqui antes, qual é o seu nome?

— Este humilde chama-se Maelrosen.

— Pela cara bonita, achei que você era mais um vagabundo tentando ganhar uns trocados nos preparativos do casamento; se não trabalhar direito, não vai receber nem um tostão. Volte já para o seu posto!

Foi um alívio ele não ter perguntado mais detalhes. Aliviado, Rensley apressou-se em sair dali. Parecia que, para os preparativos do casamento, várias pessoas que normalmente não trabalhavam no castelo também haviam sido contratadas.

Sempre que há um grande festival ou celebração, aumenta a quantidade de estranhos dentro do castelo. Desde espiões e assassinos, no lado perigoso, até pequenos ladrões, no lado mais trivial — aumenta naturalmente a possibilidade de todo tipo de gente infiltrar-se dentro do castelo.

Por isso, no castelo real de Cornia, em ocasiões como essa, os supervisores costumavam identificar cuidadosamente a quantidade e a identidade das pessoas que trabalhavam, monitorando-as ao máximo. Ou seja, não bastava perguntar apenas o nome de alguém desconhecido, como o homem havia feito, e expulsá-lo com um pontapé.

“Isso talvez signifique… que aqui é um lugar pacífico.”

O frio, os ventos fortes, a terra árida podiam dificultar a vida do povo, mas não tentariam prejudicar as pessoas de propósito.

Se a segurança não fosse rigorosa e não conseguissem controlar direito os trabalhadores vindos de fora, talvez fosse possível aproveitar uma oportunidade para escapar do castelo do grão-duque e se esconder numa vila de plebeus. O problema, é claro, era o que fazer depois disso…

Rensley, imerso em pensamentos, seguiu para a cozinha conforme o homem havia mandado. Talvez fosse instintivo, mesmo em culturas diferentes, os passos irem em direção onde há comida; ele não teve muita dificuldade em encontrar a cozinha.

Ao se aproximar da cozinha, sentiu o cheiro de óleo fervendo e derretendo, de temperos, de pão assando no forno. Seu estômago, cujo apetite estivera esquecido pela tensão, apertou-se de dor de tão vazio. Sua última refeição havia sido, na noite anterior, um mingau de feijão e alguns pedaços de carne defumada, antes de sair da pousada.

Num canto da cozinha, sobre um fogo intenso, um leitão e um frango inteiros giravam num longo espeto de metal. Enquanto giravam devagar, dourados e crocantes, gotas de gordura douradas caíam, fazendo um chiado que fazia a chama crescer momentaneamente antes de diminuir novamente.

No teto, salsichas trazidas do depósito pendiam em fileiras. Um cozinheiro cortava várias de uma vez, retirando habilmente a pele e o recheio. Fritava numa panela, temperando com sal, pimenta e especiarias. Aparentemente havia pimenta seca e páprica, pois exalava um aroma picante.

Sem dúvida, estava fazendo molho com o recheio das salsichas. Só aquilo, envolvido num pão pita, sem mais nada, já deveria ser delicioso. Um pouco de coentro ou alecrim, ou até mesmo salsinha, seria um toque a mais. Se pudesse beber um vinho ou uma cerveja junto…

“…Se acaso for condenado à morte, vou pedir para minha última refeição ser assim.”

De um lado, preparavam espetinhos e saladas, e algumas sopas fervilhavam em grandes panelas. Pães brancos, macios, recém-saídos do forno, se empilhavam camada após camada. Rensley ficou parado, absorto, deslumbrado com aquela cena.

— O que está fazendo aí parado feito um bobo? Leve isto logo!

Um cozinheiro, que ia e vinha apressado entre o forno e a bancada, gritou e empurrou uma grande bandeja nas mãos de Rensley.

Olhando ao redor, arregalando os olhos, percebeu que já havia outros criados carregando bandejas semelhantes, além dele. O cozinheiro resmungou, estalando a língua.

— Sem derramar ou espirrar nada, leve isso para Sua Alteza o Grão-Duque. Se não levarem até a sala de estudos dele, ele nem cogita comer. Achei que perto do casamento ele mudaria um pouco, mas continua exatamente igual. Ora, com um homem tão temperamental assim, que mulher vai querer se apegar a ele?

— Não fica tão brava assim, Reina. Graças a esse homem com temperamento, a vida de gente como nós melhorou, e não piorou nem um pouco.

Nenhum povo deste continente subestima Oldenland ou o senhor do norte… Rensley respondeu apenas em pensamento, resmungando.

Até mesmo o imperador, geração após geração, sempre fora mais cauteloso com o monarca de Oldenland do que com qualquer outro. Somando a isso os estranhos rumores que circulavam como lendas assombrosas, o grão-duque Gizel Zibedad era, sem dúvida, uma figura de atenção especial.

Havia muito o que dizer, mas Rensley manteve a boca fechada e, por acaso, misturou-se com os outros criados a caminho da sala de estudos do grão-duque. Estava um pouco ansioso, mas, coberto pelo véu escuro o tempo todo, dificilmente o grão-duque reconheceria seu rosto.

A sala de estudos devia ser o mesmo porão do dia anterior… será que, ao ponto de pular refeições por causa da paixão pela pesquisa de magia negra, ele havia sido amaldiçoado e recebido aqueles olhos como de fera? Caminhando em silêncio, Rensley recordou os olhos que brilhavam dourados.

— Vossa Alteza, o almoço está pronto.

A porta do mesmo porão do dia anterior, agora já alcançada, se abriu.

A paisagem que aguardava Rensley também era igual à do dia anterior. A lareira com fogo intenso, o porão tingido pela cor daquele fogo, e livros de todo tipo, esboços, desenhos e mapas.

Só que a grande mesa em um canto do quarto estava ainda mais desarrumada do que no dia anterior. Papéis com anotações e instrumentos de escrita espalhados, junto a aparelhos mecânicos e substâncias que Rensley não sabia identificar, também jogados por ali.

E o grão-duque estava afundado numa grande poltrona forrada de pele, diante da lareira. Sem sequer olhar para os criados que traziam a comida, fez um leve gesto e ordenou:

— Deixem aí.

Não estava sozinho na sala de estudos. Havia algumas pessoas de aparência cansada junto dele. Pela vestimenta, não pareciam ser nobres que cuidavam dos assuntos de estado junto com ele.

Rensley ajudou os criados a arrumar a comida numa mesa com rodas. Enquanto isso, ouvia trechos da conversa entre o grão-duque e os outros.

— Vou tentar modificar a fórmula mais uma vez.

— Se a fórmula estivesse errada, não teria sequer ativado. O problema parece ser o grau de amplificação.

— Não fique tão desapontado, Vossa Alteza. Ainda assim, o envio está funcionando até a entrada da vila de Tirgabeim, então ampliar o raio é apenas uma questão de tempo.

Empurrou a mesa com rodas até a poltrona onde o grão-duque estava sentado. Ao se aproximar, viu um longo pergaminho sobre seus joelhos. Sem conseguir conter a curiosidade, Rensley inclinou a cabeça, fingindo preparar a refeição, para tentar ver o conteúdo daquilo. Por mais cuidadoso que tenha sido, o grão-duque pareceu perceber e ergueu a cabeça de repente.

Ao encontrar os olhos dele de forma inesperada, assim como no dia anterior, ele se enrijeceu como um rato diante de um gato.

Mas mesmo enquanto seu corpo se enrijecia, Rensley arregalou os olhos. Como podia ser? Numa única noite, os olhos do grão-duque, antes de um dourado reluzente, haviam se tornado um âmbar apagado.

“Um irmão gêmeo…?”

…não havia ouvido falar de nada assim antes.

— Insolente! Por que está aí parado, encarando desse jeito?

O grito de repreensão caiu sobre o criado de cozinha que fitava descaradamente o rosto do grão-duque sem desviar os olhos. Era um dos que conversavam com o grão-duque. Ai. Rensley apressou-se em se ajoelhar e se prostrar no chão.

— Cometi um crime imperdoável! Por favor, perdoe-me!

Já não sabia quantas vezes tinha se desculpado desde que saíra do quarto. Rensley Malocen não costumava ser tão desastrado assim; é verdade que uma nova vida numa terra estranha não tem misericórdia com ninguém.

Mas o grão-duque, na verdade, não parecia nem desagradado nem irritado; sua expressão não mudou em nada. O servo que o repreendera, ao contrário, ficou surpreso e resmungou consigo mesmo.

— Ah, não, não. Por que fazer tudo isso…

— Levante-se.

A voz do grão-duque, também hoje, era baixa e indiferente. Fria, quase languida. Rensley se levantou lentamente. Contrastando com o tom despreocupado, o olhar do grão-duque, o âmbar sem brilho de fera, continuava fixo em Rensley.

— Aproxime-se.

Erguendo os olhos do chão, encarou o grão-duque. Não parecia particularmente irritado, então por quê…

Por mais que tentasse manter a calma, seu pulso começou a acelerar. Segurando firmemente os lábios trêmulos de ansiedade, Rensley se aproximou da poltrona do grão-duque. O calor da lareira crepitante logo esquentou suas bochechas.

Os olhos do grão-duque, bem próximos, observavam Rensley em silêncio. Mesmo com a luz estranha desaparecida, seus olhos continuavam profundos e afiados como sempre. As chamas da lareira, refletidas no âmbar de seus olhos, pareciam deixar entrever, por um instante, o resquício dourado.

Não era possível imitar esse ambiente. Não era um gêmeo imaginário, era o próprio grão-duque.

Era a repetição de uma situação semelhante, mas na noite anterior havia o véu que protegia seu rosto, e agora nada protegia Rensley. Enquanto o olhar do grão-duque percorria lentamente, da cabeça aos pés, como se medisse ou avaliasse algo, Rensley se sentiu como uma doninha aguardando ser esfolada diante de um caçador. Mesmo vestido de casaco acolchoado, sentia-se despido.

Ele estendeu o braço de repente. Rensley se sobressaltou instintivamente, balançando o corpo levemente, mas permaneceu no lugar, quieto.

A longa manga negra deslizou sobre o braço da poltrona e caiu pesadamente. Aquela mesma palma que servira de papel para as mensagens escritas por Rensley na noite anterior, se aproximou de seu rosto.

Sem entender a intenção daquilo, Rensley observava a mão em silêncio quando, no instante seguinte, sentiu como se seu coração tivesse despencado, quase gritando de susto.

Ele estava conferindo o rosto de Rensley, cobrindo tudo, menos os olhos.

Seus joelhos amoleceram e seu fígado gelou. Rensley cerrou os dentes. Para não deixar transparecer sua agitação, propositalmente encarou os olhos dele.

— …Um rosto que nunca vi antes.

Não sabia quanto tempo ficaram assim. Depois do que pareceu, para Rensley, uma eternidade, o grão-duque retirou a mão e disse baixinho. Um dos criados respondeu antes de Rensley.

— Muitos trabalhadores novos entraram no castelo por causa dos preparativos do casamento.

— Nunca o vi entre os moradores externos também.

Ele olhou para Rensley, esperando uma resposta. Ao ouvir as palavras do grão-duque, todos os outros também voltaram sua atenção para Rensley. A mente de Rensley girava freneticamente.

“O que ele está dizendo?”

Por mais que Oldenland fosse uma terra dura e afastada, a população da capital não era assim tão pequena. Os criados do castelo do grão-duque, talvez, mas dizer que memorizava até o rosto de cada morador de fora… será que era brincadeira?

Rensley moveu os olhos de um lado a outro, mas ninguém ali levava aquilo como fanfarronice ou piada. Não tinha como acreditar, mas por ora precisava aceitar. A ideia de fugir por um tempo para a área residencial de plebeus tornou-se completamente inútil.

Rensley entrelaçou firmemente as mãos. Se conferissem até os dedos, talvez fosse descoberto de verdade, mas felizmente estava usando luvas. O grão-duque também não parecia ter intenção de pedir que tirasse as luvas. Rensley curvou a cabeça e começou a atuar.

— Perdão, Vossa Alteza! Este humilde se chama Maelrosen. Sou um dos acompanhantes que trouxe a Princesa Yvette. Os outros decidiram voltar imediatamente para Cornia, mas, para falar a verdade, eu vinha vagando de um lugar para outro sem conseguir um emprego digno na minha terra natal, e ao chegar aqui, mesmo com o clima frio, vi que há muito trabalho e parece um bom lugar para viver, então pensei em me estabelecer aqui.

Diante disso, alguém resmungou, acrescentando um comentário.

— Mesmo para viajar ou fazer negócios, não é assim tão simples; para se mudar, é preciso permissão do órgão competente. Não se torna cidadão de Oldenland só porque decide se instalar sem mais nem menos.

— Sei disso. Sinto muito mesmo. Vou pedir a permissão formal imediatamente. Vossa Alteza, senhores, por favor, tenham piedade só desta vez.

O grão-duque assentiu com a cabeça calmamente.

— Deve ser uma cor comum no sul.

— Como?

— Vá confirmar com os acompanhantes. Se há alguém chamado Maelrosen entre eles.

Diante disso, um dos criados falou em tom constrangido.

— Vossa Alteza, os acompanhantes da princesa partiram cedo. Disseram que, como escurece rápido no norte, queriam se apressar, então preparamos a refeição já de madrugada para eles.

Eles sabiam que Rensley era homem, mesmo assim o carregaram até ali. Os mensageiros da família real de Cornia certamente fugiram rapidamente para não se envolver em problemas incômodos.

Deviam querer voltar logo para casa, receber a boa gorjeta e descansar bastante. Rensley, no fundo, não conseguia se sentir grato a eles, mas, ao menos naquele momento, queria agradecer aquela pressa.

— Vossa Alteza, vou examinar esses alimentos primeiro.

Um dos que conversavam com o grão-duque se adiantou até a mesa. Estendeu a mão, passando-a sobre os pratos de comida, um por um. Uma luz fraca envolveu sua mão e os pratos.

São magos. Rensley percebeu a identidade das pessoas naquele porão e entreabriu a boca. Em Cornia, pessoas comuns quase nunca têm contato com magos.

Mesmo com as poucas vezes que vira magos na infância, o ambiente deles era muito diferente daquele daquelas pessoas ali presentes. Os magos de Cornia costumavam andar apenas entre si, com um ar extremamente rígido e fechado, mas os magos ali pareciam eruditos comuns.

O exame não demorou muito. Terminando o procedimento, ele reportou ao grão-duque:

— Não parece haver nenhum problema na comida.

Era um veredito que os isentava de suspeitas de conspiração política.

O grão-duque ficou pensativo por um momento, mas o assunto não pareceu prender seu interesse por muito tempo. Logo fez um gesto de desinteresse.

— Está bem, todos podem sair. Vou comer com calma.

Os criados saíram em fila do porão. Rensley também, misturado a eles, saiu sem olhar para trás.

***

↫─✧ Continua….

⌀ ⌀ ⌀
✦ Tradução, revisão e Raws: Yuki&Belladonna

 

Ler Winter Field (Novel) Yaoi Mangá Online

Sinopse:
Rensley Maelrosen, o príncipe do quente reino sulista de Cornia, disfarça-se de mulher para assumir o papel de noiva do Duque Gezell Jivendad no lugar de sua irmã desaparecida. Ele parte em uma jornada até as terras nórdicas de Aldrant, onde o aguarda um frio glacial — tanto no corpo quanto na alma.
— No fim das contas, foi você quem me pediu para salvar sua vida, não foi?
Ao chegar às terras do norte, abandonado pela família real, Rensley enfrenta o frio extremo e desconhecido que congela não apenas seu corpo, mas também suas emoções.
O calor humano das pessoas dessa terra impiedosamente fria, semelhante ao capim que encontra seu lugar nos locais mais improváveis,
e o afeto indiferente do Duque Gezell, que orquestra uma cerimônia de casamento falsa, fazem o coração de Rensley florescer descontroladamente.
— Quando a jornada terminar… espero que você volte.
Mesmo diante da confissão desajeitada do jovem Duque, emoções conflitantes surgem em Rensley, que o ama, mas precisa partir.
— Eu amo o senhor, Vossa Graça.
Em Winterfield, a terra mais fria do continente, onde todo o calor do mundo se reúne, há alguém que o acolhe com um abraço reconfortante.
Nome alternativo: Winter Field

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