Ler Jardim de Maio – Capítulo 03 Online


Modo Claro

A pergunta de Theodore trouxe River Ross de volta à realidade. Seu superior não apreciava distrações.

— Estou planejando… viajar para o sul, senhor. Para o Castelo de Gloucester.

— Castelo de Gloucester? É sua casa?

— Ah, não, senhor. Meu tio trabalha como jardineiro na propriedade Somerset há muitos anos. Ele disse que precisam de mão de obra extras neste verão, então pensei em ajudar.

Theodore encarou momentaneamente sem palavras o subordinado excessivamente sincero. Sentindo a necessidade de explicar-se sob aquele olhar, River Ross continuou, atrapalhado:

— Achei que seria melhor fazer algo útil durante minha licença em vez de apenas ficar sem fazer nada. Gloucester tem ar fresco, um rio próximo para nadar, e posso usar um galpão vazio como alojamento. O Conde de Somerset concordou prontamente.

Claro que concordaria em receber mão de obra gratuita de braços abertos. Theodore curvou os lábios em desdém, um pensamento cínico que não podia expressar ao suboficial ecoando em sua mente. Esse sujeito lerdo não saberia aproveitar uma oportunidade nem que ela o mordesse.

‘E quem sou eu para julgar? Em poucas horas, estarei cercado pelos lobos da sociedade, participando de intermináveis eventos tediosos.’

Só o pensamento já lhe trouxe uma onda de fadiga e o início de uma dor de cabeça.

— O trem para Bath deve chegar em breve. Se me der licença, Senhor…

— Ah, sim.

Theodore assentiu de forma displicente, prestes a se afastar, quando algo o deteve. O trem vindo do sul, aquecido pelo sol, parou lentamente diante deles, irradiando ondas de calor cintilantes.

“Você parece não ter qualquer entusiasmo pela vida.”

O eco inesperado de uma conversa passada fez Theodore respirar lentamente. O sussurro de um homem morto, como o canto de uma sereia, aqueceu sua mente. Em sua imaginação, uma mão esquelética tocou seu peito.

“Você cumpre seus deveres com precisão, mas não sente alegria neles. E provavelmente nunca sentirá. Gostaria que, ao menos uma vez, seguisse seu coração em vez da razão.”

 “Meu coração?”

”Seus impulsos, seus desejos.”

Aquilo o atingiu com uma força quase desconcertante.

A luz do sol estava excepcionalmente brilhante naquele dia, a brisa fresca, o céu absurdamente claro.

E então…

— Mudei de ideia.

— Senhor?

Theodore ofereceu a River Ross um sorriso perfeito, surpreendendo o mais jovem. Aqueles que tinham a sorte de receber um sorriso assim de seu capitão normalmente reagiam com admiração reverente. River, porém, era um dos poucos que percebiam o perigo oculto ali.

— Você disse que seus parentes estão no sul?

— Sim, senhor, mas…

— Vou acompanhá-lo nessas suas saudáveis férias de verão.

— Senhor?

Enquanto River Ross permanecia boquiaberto de confusão, às portas do trem recém-chegado se abriram com um silvo, liberando uma nuvem de vapor nebuloso, tão opaca quanto o futuro do suboficial.

Os gêmeos Winchester chegaram no fim da tarde.

Diferente do carro do Barão Howard, que havia quebrado e atrasando sua chegada por vários dias, o veículo dos gêmeos chegou aos portões do Castelo de Gloucester conforme o planejado.

Vanessa correu ansiosamente para receber os velhos amigos. Embora tivessem se separado apenas algumas semanas, a alegria de vê-los fora da faculdade fazia o reencontro parecer novo e emocionante.

Enquanto os criados da família Winchester descarregavam enormes malas, os três amigos se acomodaram em uma ampla sala de estar com vista para os jardins.

— Estrague sua maquiagem.

Rosaline ofereceu o conselho com expressão séria.

Blair, mastigando um cubo de açúcar, acrescentou:

— Ou finja ser mentalmente instável.

— Que tal começar a chorar no momento em que o encontrar?

— Ou apenas aja de forma incrivelmente vulgar. Posso lhe emprestar um dos vestidos da vovó, se quiser.

— …Por que diabos você trouxe isso? — perguntou Blair, incrédulo.

Rosaline deu de ombros casualmente.

— Para tirar fotos em frente ao Templo de Santra. Quero recriar a fotografia da Grande Viagem da vovó, mesma pose e tudo mais.

— Você não preferiria o próprio Howard? Afinal, ele tem quase setenta anos.

— Eca.

A exclamação de Rosaline pareceu mais um engasgo. A diferença de idade era nauseante. Uma mulher mal chegada aos vinte e um homem beirando os setenta.

— Tenho tanta inveja de vocês — confessou Vanessa, esticando as longas pernas diante de si antes de se jogar de volta no sofá macio.

Era uma quebra de etiqueta, mas a única pessoa que entrava naquela sala era a criada que trazia gelo quando o sino era tocado.

— A Grande Viagem! Imaginem ver pessoalmente o Palácio Hessiano, o Templo de Santra, o Museu Naval Espada…

— Por que não vem conosco? Podemos cobrir suas despesas.

— Vocês sabem que mulheres não podem fazer nada sem a permissão do responsável legal. E meu tio está ansioso para acelerar esta… transação.

A palavra transação carregava uma verdade amarga, mas era a descrição mais precisa de sua situação.

Enquanto Rosaline fervia de indignação, Blair, que bebericava chá serenamente, pousou a xícara delicadamente sobre o pires.

— Talvez eu possa ajudar, Somerset?

Os olhos semicerrados de Vanessa se abriram imediatamente. O olhar azul-esverdeado de Blair permaneceu firme sobre ela.

— Ajudar?

— E se anunciarmos que estamos romanticamente envolvidos?

Os olhos felinos de Vanessa se arregalaram.

— Eu? E você, Blair Fabian Winchester, com sua noiva?

— Vou conversar com Cecily.

— Um vago envolvimento romântico não vai deter meu tio. Só aumentará a vigilância dele.

— O herdeiro dos Winchester é uma perspectiva mais tentadora, não acha?

Blair deu de ombros, o tom leve e brincalhão, mas a intenção era séria.

Há algum tempo, ele sentia um certo… anseio por Vanessa. Não era bem amor, mais próximo de um desejo possessivo por uma amiga de infância.

Bonita, mas pobre. Delicada, mas desafiadora.

Ao olhar para os olhos cinzentos e úmidos de Vanessa, ele quase conseguia entender as histórias de marinheiros encantados por sereias.

— Você enlouqueceu completamente, irmãozinho — interrompeu Rosaline, arqueando uma sobrancelha elegante.

— É cruel com a Cecily. Você sabe o quanto ela se importa com os dois.

— Isso não é problema da Vanessa. Também não é culpa dela que nossas mães fossem inseparáveis.

— Isso é uma falácia.

— Cecily precisa experimentar o mundo. Hoje em dia, ela tem uma governanta em vez de ir para a faculdade, lições de noivado em vez de um Grand Tour. Eu não suportaria uma hora na companhia dela, é terrivelmente entediante.

— Chega disso.

— Eu preferiria a Vanessa, de qualquer forma.

— Blair Fabian Winchester. 

Uma raiva sutil permeava o tom normalmente calmo de Rosaline. 

Se Blair estivesse realmente decidido, talvez fosse diferente. Mas piedade equivocada e desejo morno só traria infelicidade para todos.

Além disso, rumores, independentemente da intenção, sempre se distorcem em algo mais escandaloso.

Blair talvez sobrevivesse à tempestade, mas Vanessa seria quem acabaria arruinada.

 Uma mulher solteira, tendo um amante descaradamente.

O mundo mudava rapidamente, mas as pessoas ainda eram obcecadas pela virgindade feminina. Uma tradição milenar que não era apenas cansativa, mas horrível.

E, ainda assim, como aristocratas, estavam presos a ela.

Rosaline, Vanessa, até mesmo Blair — todos entendiam isso.

— Sim, Blair. A brincadeira acabou.

Vanessa forçou um sorriso casual e caminhou até a janela.

Todos eles eram de sangue azul. Desde o berço, aprenderam a não atrapalhar casamentos cuidadosamente arranjados por causa de sentimentos pessoais.

 

Além disso, a família de Cecily, os Bronte, era uma união muito mais vantajosa do que a decadente linhagem Somerset.

— Se você ao menos fingisse que vai deixá-la, o Marquês de Winchester teria um derrame.

— Ela teria sorte se escapasse de ser vendida para algum homem rico do Novo Mundo — acrescentou Rosaline cinicamente, arrancando uma risada de Vanessa.

Era esse tipo de época. 

Uma era da tecnologia avançada, de plebeus se recusando a continuar como agricultores arrendatários. A aristocracia fundiária tradicional declinava lentamente, enquanto aqueles que emigraram para o Novo Mundo acumulavam fortunas construídas às custas dos nativos escravizados.

Fábricas movidas por máquinas modernas alinhavam-se às margens dos rios.

Continua …

Tradução: Elisa Erzet 

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