Ler Roses And Champagne (Novel) – Capítulo 13 Online

Capítulo 13
Won estremeceu ao sair do terminal, enfiando-se mais profundamente em seu casaco para tentar se proteger do frio enquanto procurava um lugar aquecido. Um hotel seria ótimo agora – assim ele poderia dormir – mas aceitaria uma cafeteria. Um aquecedor portátil. Honestamente, até uma fogueira serviria neste momento. Sentindo-se um tanto delirante por causa do frio, ele se perguntou se encontraria alguns fósforos. Poderia vendê-los e congelar na rua como a pequena vendedora de fósforos. Um fim poético, realmente.
Uma voz surgiu atrás dele, deliberadamente despretensiosa:
— Mais quente do que eu esperava.
Won virou a cabeça rapidamente para lançar um olhar furioso a Caesar enquanto acelerava o passo. O vento nesta ilha maldita era absurdo, e ele não ia parar de se mover. Mas, é claro, Caesar, com seu enorme casaco de pele, estava confortável como um bug em um tapete e ainda precisava esfregar isso nele. Won apertou a mandíbula. Caesar era culto; provavelmente conhecia Shakespeare. Se ele fosse interpretar o verdadeiro César, Won se perguntava se o Sr. Torre de Marfim conseguiria dizer “Et tu, Brute?” com alguma convicção. Provavelmente não. Maldito.
Amaldiçoando Caesar e sua existência privilegiada de casaco de pele, Won finalmente avistou um táxi parado abençoadamente perto e correu em sua direção, sem perder tempo avisando o homem atrás dele, porque Caesar era insuportável e o seguiria de qualquer maneira. Jogando-se no banco de trás, ele conseguiu dizer o destino entre dentes que batiam e foi recebido com uma sobrancelha levantada.
— Lá longe? É um lugar bem vazio. Acho que não teriam muito o que fazer por lá — disse o motorista, cético.
Mal havia terminado de falar quando Caesar entrou no veículo, e toda esperança de uma partida rápida se foi. Com seu casaco preto e branco sobre o terno listrado perfeitamente alinhado e óculos escuros, Caesar exigia atenção, e o motorista rapidamente a concedeu, encarando-o em silêncio, com os olhos arregalados de admiração.
Desesperado, Won tentou tirar o motorista do transe:
— Desculpe, mas temos um horário a cumprir—
— Você-você é uma celebridade? — perguntou o motorista, parecendo atordoado e como se não tivesse ouvido uma palavra do que Won dissera.
Caesar apenas encarou o homem por cima dos óculos escuros, o que aparentemente, era toda a confirmação de que o motorista precisava.
— Você é! Não é! — Ele bateu as mãos como se tivesse acabado de descobrir a penicilina, seu sotaque ficando mais forte na empolgação.
— Já vi você nos jornais! Nossa, uma celebridade de verdade, bem aqui no meu táxi. Só espera até eu contar pros meus amigos, eles não vão acreditar!
Won empalideceu, incerto sobre qual seria a reação de Caesar, mas certo de que não seria boa, seja lá o que fosse. O motorista estava animado demais para notar.
— Você está fazendo um filme? Foi isso que trouxe você pra tão longe?
Uma ruga apareceu na testa de Caesar, e ele parecia prestes a dizer algo quando Won, levemente em pânico, atropelou:
— É uma viagem pessoal. E gostaríamos de chegar lá o mais rápido possível, se puder, por favor.
O motorista ficou desapontado por uns dois segundos.
— Sim, senhor, vou levá-los lá rapidinho — disse ele, com toda a atenção de volta em Caesar.
— Mas posso pedir um autógrafo antes de vocês irem? Nunca conheci alguém famoso, e uma lembrança seria incrível! Eu até corto a tarifa—o que acha do negócio?
Ele não esperou por uma resposta antes de se virar e colocar o carro em movimento.
Won engoliu em seco, ainda com frio apesar do calor do interior do carro. Ele observou a neve acumulada na beira da estrada passar cada vez mais rápido, torcendo para que isso não tivesse sido um erro.
✦ ✦ ✦
A viagem havia sido decidida no café da manhã, dois dias antes, depois que Caesar disse que Won poderia conhecer a pessoa misteriosa, se quisesse. Won não respondera imediatamente, a mente acelerada, enquanto Caesar observava com um sorriso extremamente satisfeito. Ele deixaria Won perguntar sobre o velho mordomo ou sobre a testemunha-chave, mas não os dois. Era uma armadilha óbvia para evitar falar sobre o que acontecera com Igor, mas ter acesso a essa testemunha era importante demais para recusar. Se tudo corresse bem, Won poderia sair da casa de Caesar e garantir o julgamento de Nikolai, tudo de uma só vez.
Won mordeu o lábio, flexionando as mãos no colo, pesando suas opções. Ele não tinha escolha, realmente. Era isso que ele estava esperando.
Won encarou Caesar do outro lado da mesa.
— O mordomo não tinha nada a ver com o julgamento, certo?
A resposta não importava de verdade; só parecia errado não perguntar.
— Nada.
— Ok. — Won assentiu enquanto respirava fundo, ele precisava seguir em frente antes que mudasse de ideia.
— Como você encontrou essa pessoa? — ele perguntou rapidamente.
— Por que ela faria isso por Berdyaev? Estava trabalhando com Zhdanov?
Caesar deu um sorriso de superioridade às perguntas rápidas.
— Não há nada que meus homens não possam encontrar.
Won teve a sensação sinistra de que essa informação fora obtida de forma ilícita, mas Caesar apenas deu de ombros.
— Ele devia uma dívida — disse, mais casual.
— A Berdyaev.
— E usar o nome dele foi o pagamento…
As coisas começaram a se encaixar na mente de Won. Ele iria encontrar esse homem que Caesar encontrara, obter seu depoimento por escrito, talvez até convencê-lo a comparecer ao tribunal, se necessário. Precisaria de cerca de três dias para isso, então poderia usar essa evidência para ajudar Nikolai, e tudo estaria resolvido.
Um senso de urgência o invadiu. Não havia tempo a perder, cada segundo que ele não estivesse trabalhando seria desperdiçado. Imediatamente, ele começou a listar mentalmente todas as suas tarefas e a planejar a ordem mais eficiente para realizá-las, os olhos percorrendo a sala enquanto sua mente trabalhava.
Em certo momento, seu olhar encontrou o de Caesar, e ele hesitou.
— Você tem certeza de que isso é legítimo?
— Você duvida de mim? — Caesar perguntou, despreocupado.
— Já decidiu?
Won deu um único aceno resoluto.
— Eu vou.
Ele esperou que Caesar lhe dissesse o destino. Poderia ser no outro extremo da Sibéria, ele não se importava, isso era importante demais para se preocupar com trivialidades como distância.
Caesar inclinou levemente a cabeça, observando Won em silêncio por um momento.
— Posso trazê-lo aqui — disse finalmente.
Won franziu a testa.
— Você quer trazê-lo aqui? Você disse que queria que isso fosse limpo. Não posso apresentar provas obtidas sob coação. Essa é a testemunha-chave do meu caso— não posso deixar você estragar tudo sequestrando-a e forçando um depoimento.
Uma pequena ruga apareceu na testa eternamente lisa de Caesar, e Won ficou tenso.
— Bem, isso não vai servir — Caesar murmurou.
— Certo, então—
— Iremos juntos.
Won se encolheu, o queixo quase tocando a traqueia enquanto recuava fisicamente. “Por que, em nome de tudo que é sagrado, Caesar iria querer mw acompanhar? “
O comportamento de Caesar voltou à sua habitual equanimidade distante.
— Sou um homem ocupado, mas posso dispensar alguns dias. Partimos amanhã?
— Por que diabos você precisaria ir comigo? — Won exigiu, irritado.
Caesar tomou um gole deliberadamente lento de seu chá.
— E quem encontrou essa pessoa? Acredito que tenho o direito de saber o que acontece.
Won fez uma careta, não gostando de ouvir seu próprio raciocínio ecoado de volta, nem das memórias que seu último passeio evocava. Ele trancou todos os pensamentos sobre Caesar e seus capangas de terno atrás de uma grande porta metálica em sua mente antes que pudessem avançar para o que acontecera depois.
— Você só vai atrapalhar — ele disse, cruzando os braços enquanto Caesar arqueava uma sobrancelha.
— Eu vou. Eu. Sozinho. — Ele descruzou um braço e fez um gesto expectante com a mão.
— Então me diga onde esse homem está e todas as outras informações que sei que você cavou sobre ele.
— Não.
— O quê?
De onde isso estava vindo? Won não fazia ideia. Bem, não, ele sabia. Caesar sempre conseguia o que queria e fazia o que bem entendia, por que Won esperaria algo diferente? Caesar não o usara, sem seu consentimento, em seu esquema para pegar Igor? Ele empurrou esses pensamentos para trás da porta metálica também, mas seu sangue já fervia.
— Se eu não for, você também não vai — Caesar disse, a voz perigosa novamente.
— Não tenho obrigação de te contar nada. Ou eu vou, ou você não vai.
Won bateu a mão na mesa.
— Eu não vou a lugar nenhum com você e seus capangas imundos!
Ele não percebeu o quão alto falara até o silêncio absoluto que se instalou na sala de jantar. Ainda podia ouvir sua própria voz ecoando no teto abobadado e pelos corredores enquanto Caesar e seus capangas imundos o encaravam.
Caesar esperou até que todos os vestígios de som desaparecessem para falar.
— Tudo bem.
Oh, Won teve um mau pressentimento sobre isso.
Um vestígio de sorriso apareceu nos lábios de Caesar.
— Então você não se importará se eu for sem você.
Todos os homens de Caesar viraram a cabeça para encarar o chefe enquanto Won gritava:
— Como é?! — e olhava para Caesar em descrença.
O sorriso agora era mais que um vestígio.
— A escolha é sua.
Caesar tomou outro gole satisfeito de seu chá.
✦ ✦ ✦
De volta ao táxi, Won soltou um suspiro, olhando pela janela sem realmente enxergar o que passava. Ele estava entre seus velhos amigos Scylla e Caríbdis, então não teve muita escolha a não ser concordar. Ainda assim, impôs três condições a Caesar.
Um: Sem armas.
Dois: Sem capangas.
Três: Sem palhaçada de Mafioso.
Ou seja, Caesar não poderia, sob nenhuma circunstância, fazer com que alguém suspeitasse que ele fazia parte da máfia. Ponto final. Sem exceções.
Won tinha certeza de que Caesar diria não imediatamente, mas, surpreendentemente, ele aceitou todos os termos e parecia até estar cumprindo com eles. Caesar chegou a lançar lhe um sorriso bem presunçoso ao passar pela segurança do aeroporto, sem nenhum sinal de capangas do Sindicato, pelo menos até onde Won podia perceber.
Ser confundido com uma celebridade não era exatamente ideal, mas pelo menos ele não estava sendo identificado de imediato como um criminoso de alto escalão, então Won aceitava o que podia conseguir nesse aspecto.
“Não que o Caesar vá algum dia parecer um cara comum”, Won refletiu, lançando um olhar furtivo para o homem ao seu lado. Mas sem os homens o seguindo por todos os lados, era fácil para Caesar parecer alguém dentro da lei, ainda que fosse alguém absurdamente privilegiado. Até agora, ele já tinha passado por magnata de negócios, ator, modelo, governante de um pequeno país…
Caesar parecia imerso em pensamentos, olhando pela própria janela. Won aproveitou a oportunidade para observar seu perfil, sentindo, por um breve instante, que Caesar realmente poderia ser todas aquelas coisas. Ele sabia melhor que ninguém o que se escondia por trás daqueles traços angelicais.
“E mesmo assim, não consigo parar de olhar.”
✦ ✦ ✦
A ilha ficava tão ao norte que o sol se punha bem mais cedo, e já estava baixo no horizonte quando eles chegaram ao destino, em algum momento da tarde. Querendo entrar antes do anoitecer, Won usou suas melhores habilidades de advogado para dissuadir o motorista de táxi, claramente deslumbrado, de aceitar um autógrafo em vez de pagamento e o despachou, deixando Caesar e Won sozinhos para observar o lugar onde haviam chegado.
Won conseguia entender o ceticismo do motorista. Havia talvez umas vinte casas e cerca de cinco postes de luz na minúscula vila. Embora, talvez, “minúscula” não fosse o termo mais preciso. Isso certamente se aplicava à população, mas as casas eram bem espaçadas, algumas tão afastadas que seria preciso gritar para tentar chamar a atenção do vizinho, isso se ele ouvisse. Dali onde estavam, dava para ver o oceano, e Won ouvia as ondas quebrando ritmadamente na costa. Um grupo de pescadores se aproximava, baldes com a pesca do dia nas mãos. Eles olharam com desconfiança para os dois estranhos. Won ofereceu um sorriso muito sem jeito em saudação. Não foi retribuído.
A principal atividade econômica da ilha era a pesca, e isso era também o principal atrativo para qualquer visitante. Mas Won e Caesar estavam, obviamente, ali por outros motivos que não pescar, então Won supôs que a desconfiança fosse esperada. Observou o grupo seguir em direção à vila, montanhas baixas com topos nevados ao fundo tornando-se cada vez mais indistintas à medida que o sol mergulhava no horizonte.
Desviando o olhar da procissão, Won perguntou:
— Onde é a pousada?
O olhar de Caesar se desviou para o lado, e Won acompanhou. Uma pequena placa cintilava na escuridão crescente. Assentindo, Won virou-se de volta, olhou Caesar de cima a baixo e franziu a testa. “Será que ele não podia ter sido mais discreto? Esse casaco enorme era tão chamativo.”
— Não cause nenhuma cena lá dentro — advertiu em voz baixa ao abrir a porta da pousada, justamente quando outro homem se aproximava por trás deles. Tinha mais ou menos a altura de Won, porte médio e aquele tipo de simpatia natural que vinha com marcas de expressão nos cantos dos olhos. Também estava carregado com alguns baús grandes e de aparência bem pesada, então Won, educadamente, saiu do caminho e segurou a porta para ele enquanto Caesar observava de canto de olho o homem acenar em agradecimento. Eles o seguiram para dentro, e Won ficou agradavelmente surpreso com o que encontrou.
A pousada não era grande nem de longe, mas passava uma sensação de aconchego em vez de aperto. Havia um fogão a lenha numa das paredes, estalando alegremente, convidando os viajantes a esquentar as mãos do frio. O carpete era gasto pelo tempo, mas bem cuidado e limpo. Havia até um cantinho dedicado a equipamentos e suprimentos de pesca, com uma plaquinha alegre anunciando que tudo ali estava disponível para compra ou aluguel, e as paredes eram decoradas com fotos de hóspedes orgulhosos exibindo suas capturas.
Sorrindo, Won pensou que, pelo menos, a pousada era bem agradável.
— Oi, eu gostaria de um quarto, por favor.
Uma voz calorosa se espalhou até onde Won e Caesar estavam, e Won avançou pelo saguão, encontrando o homem para quem havia segurado a porta agora no balcão da recepção, fazendo o check-in. O homem deve ter percebido o movimento de canto de olho, porque virou a cabeça e abriu um largo sorriso ao avistar Won. As marcas de expressão ao redor dos olhos se aprofundaram, e Won acabou sorrindo de volta, sem notar o leve franzir de testa no rosto de Caesar enquanto ele também se dirigia ao balcão.
O recepcionista acabava de pegar o livro de registros quando Won se aproximou do balcão.
— Vai se hospedar sozinho? — perguntou o recepcionista, deslizando o registro e uma caneta para o homem.
O homem assentiu.
— Só eu, infelizmente. — Sorriu de novo.
Os olhos do recepcionista desceram até a bagagem do homem no chão, depois voltaram para ele.
— Você certamente não viaja leve — comentou com uma pitada de ironia.
— Qual é a ocasião?
O homem não levantou os olhos enquanto preenchia o registro.
— Pesca — disse simplesmente, a voz ainda calorosa e suave.
— Sei que pra muita gente parece perda de tempo, só ficar ali sentado, esperando morder, mas para mim, não tem nada igual.
Ele riu.
— Hoje de manhã mesmo, antes de eu sair, a patroa tava reclamando sem parar, perguntando o que eu amava mais: ela ou a pesca.
— Nem me fale — o dono da pousada também riu, balançando a cabeça. — A esposa pode até ir embora, mas a pesca sempre vai estar lá por você.
— Todos esses molinetes e iscas novos e sei lá mais o quê não me ajudam muito com isso — acrescentou o homem.
— Mas assim que você acha que já tem tudo, aparece uma novidade e puf, lá se vai o próximo salário.
— Aí vem mais um sermão da esposa.
— Um ciclo verdadeiramente cruel.
Os dois homens dividiram uma risada sonora por causa do sofrimento em comum, bem na hora em que uma mulher saiu dos fundos. Ela se sobressaltou ao ver Won esperando no balcão e correu para atendê-lo.
— Ai, meu Deus! Me desculpa por te deixar esperando, querido. Vamos fazer seu check-in num instantinho!
Ela parecia tão nervosa com a possibilidade de Won estar irritado que ele ofereceu um de seus sorrisos mais encantadores para tranquilizá-la de que não havia ressentimentos. Os ombros dela relaxaram, e ela sorriu de volta, prestes a dizer algo quando o dono da pousada a interrompeu.
— Certo — ele conferiu o nome no registro — Leonid, tudo certo. Vou preparar umas coisas lá nos fundos e te mostrar o quarto.
Ele deslizou o registro para a mulher, sem cerimônia, toda a atenção voltada para Leonid.
— Faz o check-in do nosso hóspede, coelhinha.
A mulher, esposa do dono da pousada, apertou os lábios, lançando um olhar de lado para o marido, mas qualquer indício de ressentimento desapareceu quando ela voltou os olhos para Won e lhe entregou a caneta.
— É só um quarto pra você, querido?
— Não, vamos precisar de dois quartos individuais, por favor.
Won fez um gesto com a cabeça indicando que havia alguém atrás dele, e a mulher olhou por sobre seu ombro para encontrar Caesar parado no centro do saguão, encarando-a em silêncio. Seus olhos se arregalaram.
— Ai, nossa! Então vocês estão viajando juntos?
Sem querer realmente confirmar, Won soltou um ruído indeciso.
— Pode-se dizer que sim.
A mulher, aparentemente com esforço, desviou o olhar de Caesar e voltou a encarar Won, com um ar meio atordoado.
— Ah, mas… só tem um quarto disponível, sinto muito.
— Desculpa? — perguntou Won, a voz falhando.
Um pouco menos atordoada, a mulher apenas sorriu com educação e começou a explicar num tom apaziguador:
— Só havia duas vagas, e o cavalheiro antes de vocês ficou com uma. Mas, não se preocupe. O seu quarto é para duas pessoas; não é uma sorte?
— Você tem certeza de que não há mais nada? Nenhum outro quarto?
Closets vazios? Sótãos de depósito? Won aceitaria qualquer coisa em vez de dividir um quarto com Caesar.
— Só esse mesmo, sinto muito, senhor.
Won pressionou os lábios entre os dentes para conter o gemido desesperado que ameaçava escapar. A viagem estava indo tão bem; por que justo agora?
— O quarto tem duas camas…
— Existe algum outro lugar pra ficar por aqui, por acaso?
A mulher lhe deu um sorriso triste.
— Receio que não. Somos a única pousada da região.
Dessa vez, Won realmente gemeu, contemplando seu destino inevitável. Dividir um quarto com Caesar. Tomar banho no mesmo espaço que Caesar. Dormir no mesmo ambiente que Caesar. Só os dois. Ele fechou os olhos com força e beliscou o braço, torcendo para que aquilo fosse um pesadelo.
Uma voz veio por trás dele.
— Não tenho objeções a dividir um quarto.
Won virou a cabeça tão rápido que provavelmente foi audível. Caesar sorriu daquele jeito irritantemente enigmático que Won já sabia significar que ele estava no modo mais insuportável.
— A menos que você esteja com medo, é claro.
Os olhos de Won se estreitaram, lançando um olhar fulminante. Ele girou a cabeça de volta com um movimento brusco.
— Vamos ficar com ele.
— Maravilha! Uma excelente escolha. — A mulher sorriu radiante e pegou uma chave no painel de madeira com nichos atrás do balcão.
O marido dela reapareceu então e saiu de trás da recepção.
— Vou ajudar a levar essas malas até o seu quarto — disse a Leonid. Leonid escolheu uma das malas para o dono da pousada carregar, e os dois passaram por Caesar, seguindo em direção ao pequeno elevador no outro lado do saguão.
Caesar os observou em silêncio. Leonid não fez barulho algum ao atravessar o carpete gasto do saguão.
Won terminou de preencher o registro.
— Imagino que, numa cidadezinha assim, vocês conheçam todo mundo bem, né? — comentou com naturalidade.
A mulher assentiu.
— Sim, conhecemos. — Havia um leve tom de cautela em sua voz.
— Conhecemos todo mundo por aqui.
Caesar olhava para além de Won e da recepção, focado nos dois homens que agora esperavam o elevador.
— Na verdade — começou Won com cautela — viemos aqui procurar alguém. Vasily Shishkin — ele supostamente mora neste endereço.
A mulher pegou o bilhete com o endereço rabiscado e inclinou a cabeça.
— Vasily Shishkin… Não posso dizer que conheço. Sei quem mora nessa casa, mas esse não é o nome dele. Tem certeza de que esse é o lugar certo, querido?
— Você saberia dizer se, por acaso, essa pessoa veio de fora? Ou sempre morou naquela casa?
A mulher soltou um som pensativo.
— Não, ele se mudou pra cá… ah, faz uns três ou quatro anos. Mas é bem reservado, não sai muito, nunca recebe visitas…
O elevador fez um “ding” e as portas se abriram no exato momento em que um brilho de triunfo acendeu nos olhos de Won. O dono da pousada e Leonid entraram no elevador, o olhar de Caesar ainda fixo neles do outro lado do saguão. Pouco antes das portas se fecharem, Leonid virou-se e olhou de volta. Então, ele sorriu.
Foi só por um instante, mas Caesar viu. Seus olhos se moveram rapidamente pelas portas do elevador, uma ruga quase imperceptível surgiu em sua testa.
— Você pode me dizer como chegar lá? — perguntou Won, enquanto Caesar ainda estudava as portas do elevador. Caesar olhou de volta para a recepção, depois para baixo, e ficou completamente imóvel.
Com alguma hesitação, a mulher explicou:
— É só virar à direita quando sair — é a quarta casa, tem o telhado vermelho. Não tem erro, querido.
Ela fez um gesto em direção à entrada, e o olhar de Won naturalmente acompanhou o movimento; mas ao virar a cabeça, ele notou pelo canto do olho que Caesar estava estranhamente rígido. Ele também olhou para baixo e, assim como Caesar, ficou completamente imóvel.
Aos pés de Caesar havia uma garotinha. Won não sabia dizer quantos anos ela tinha. Provavelmente não mais de três. Ela chupava os dedos de uma mão, enquanto acariciava e agarrava alegremente a grossa pelagem do casaco de Caesar com a outra.
Acima da cabeça da menina, Won viu a mão de Caesar lentamente se fechar em punho, os nós dos dedos ficando brancos de tensão, e subiu um pouco mais o olhar. A expressão no rosto de Caesar era tão severa que Won reagiu antes mesmo de pensar. Tudo o que sabia era que precisava manter a garotinha segura.
Ele acabara de estender a mão para ela quando a mulher soltou uma risada bem-humorada.
— Katya. Vamos lá, deixa o moço e o casaco dele em paz — ela chamou enquanto saía de trás do balcão.
— Crianças, você sabe como são. — Ela balançou a cabeça, sorrindo para Caesar. O sorriso não foi retribuído.
A mulher piscou, o sorriso se tornando rígido.
— Katya, amor, você sabe que não pode tocar nas coisas sem permissão.
Ela passou os braços pela filha, mas Katya não estava pronta para desistir. Havia uma coisa fofa bem ali pedindo para ser acariciada, e ela não pretendia ir embora. Tirando a outra mão da boca, ela agarrou o casaco com as duas mãos enquanto a mãe tentava puxá-la, o que só fez com que o casaco de Caesar fosse puxado junto.
— Hora de se comportar e ouvir a mamãe, Yekaterina. Solta.
A garotinha e o casaco balançavam agora, à medida que a mulher se tornava mais desesperada para afastá-la.
— Me desculpa mesmo, senhor. Ela é muito pequena pra saber o que está fazendo.
Won, por outro lado, não prestava muita atenção na mulher ou na filha, ocupado demais observando a reação de Caesar, ou a falta dela. Por que ele não fez nada? Ele não afastou a garotinha à força. Nem sequer falou com ela. Tudo que fez foi lançar aquele olhar sombrio em silêncio. O olhar era ameaçador, sem dúvida, mas esse era o homem que havia sacado uma arma contra Won só porque ele se aproximou durante uma soneca, sem mencionar o que havia acontecido antes disso. Então por que agora ele só ficava ali parado?
Won inclinou a cabeça, pensativo, o que Katya pareceu achar muito engraçado. Ela soltou uma risadinha alta e olhou para cima, para Caesar. A risada morreu na hora quando os olhos dela se arregalaram. Então, ela caiu no choro.
A mãe ficou frenética tentando acalmar a filha, o que só parecia deixá-la mais desesperada, e seus choros viraram berros. Won sabia que precisavam sair dali antes que as coisas piorassem ainda mais.
— Obrigado pelas direções. Isso deve cobrir o quarto, — disse rapidamente, jogando dinheiro sobre o balcão.
— Vamos ver isso quando voltarmos.
A mulher ficou boquiaberta, tentando fisicamente arrancar Katya do casaco de Caesar naquele ponto, mas Won já havia agarrado o braço de Caesar e começado a arrastá-lo para a porta antes que ela pudesse dizer qualquer coisa. Katya segurou o casaco até o último segundo, seus gritos os acompanhando até o lado de fora.
Do lado de fora, no frio, Won estremeceu, congelado por um momento enquanto uma rajada gelada de vento o atingia.
— Isso foi bem direto da sua parte. Era só pedir, sabia? Se queria tanto assim ficar a sós comigo.
Won imediatamente soltou o braço de Caesar.
Caesar apenas sorriu de canto, o olhar subindo para o céu. O sol havia desaparecido atrás do horizonte, e a penumbra que se instalava sobre a vila deixava tudo cinzento e sombrio. Ele observou a escuridão crescente com desgosto.
— Você prefere isso a subir e descansar?
— E quem foi que nos forçou a sair?!
Won lançou um olhar fulminante, depois marchou para a direita. De qualquer forma, só tinham um tempo limitado ali, mas Won estava irritado demais para se sentir reconfortado por isso.
— Você tem certeza de que é ele? — perguntou Caesar atrás dele.
— Quem é que se esconde usando o nome verdadeiro?
Won não tinha dúvidas de que era Vasily.
— Ele pode se chamar do que quiser aqui — não muda o fato de que é o nosso cara.
Acelerou o passo, Caesar o seguindo em silêncio desta vez.
Não foi difícil encontrar a casa. Quarta da rua, telhado vermelho. Won assentiu, abriu o portão e caminhou até a porta da frente. Tirando o telhado, era parecida com todas as outras casas dali: um pouco desgastada e mostrando sua idade, rachaduras espalhadas pelas paredes desbotadas. Uma luz antiga piscou quando Won chegou à porta e apertou a campainha.
Passos arrastados se aproximaram, e um homem com aparência exausta abriu a porta.
— Quem… é…
A voz do homem sumiu, um olhar cauteloso alternando entre Won e Caesar.
Won lançou um olhar significativo para Caesar, mas manteve a voz leve.
— Olá, senhor. Me desculpe incomodar, mas por acaso o senhor seria Vasily Shishkin?
Foi só um instante, mas Won não deixou de perceber o sobressalto do homem ao ouvir o nome.
— Não tem ninguém com esse nome aqui.
O homem tentou fechar a porta rapidamente, mas Won a segurou e colocou o pé no batente antes que se fechasse. O homem soltou um suspiro agudo, os olhos se arregalando.
— Berdyaev está morto, — disse Won — Tem algumas coisas sobre as quais eu preciso conversar com você. Podemos entrar por alguns minutos?
O homem empalideceu, tentando fechar a porta em pânico, apesar de Won resistir fisicamente. De repente, um braço surgiu. Shishkin nem teve tempo de gritar antes de a mão de Caesar envolver sua garganta.
— Ele disse que devíamos entrar. — Sua voz era absolutamente fria.
Shishkin emitia sons de sufocamento enquanto Won, agora também em pânico, exigia saber o que diabos Caesar achava que estava fazendo. Caesar o ignorou, apertando ainda mais o pescoço de Shishkin enquanto o empurrava para dentro. Shishkin começava a ficar azul, e Won correu atrás deles para tentar impedir Caesar de sufocar a testemunha.
A casa era pequena, mas aconchegante. Uma lareira alegre iluminava a sala de estar, e velas brilhavam sobre a lareira acima dela. Havia fotos de lugares cênicos da ilha penduradas nas paredes. Won suspeitava que Shishkin as tivesse tirado. Ele passou apressado por uma mesa rústica de madeira, um pouco aliviado ao ver que Caesar havia soltado Shishkin.
— Sinto muito por isso, Sr. Shishkin, — disse Won. — Você está bem?
A única resposta foi uma série de tosses e um olhar assustado que alternava entre ele e Caesar. Won mordeu o interior da bochecha, lançando um olhar direto para Caesar. Previsivelmente, Caesar parecia imperturbável, calmamente tirando o casaco e o pendurando sobre o braço. Sua figura alta parecia preencher todo o cômodo, e ele parecia deslocado em meio a tantos bibelôs e móveis artesanais. Erguendo uma sobrancelha, lançou um olhar imperioso para Shishkin.
— Você não tem cadeiras? — Falou Caesar
Shishkin imediatamente apareceu com uma cadeira pequena e a ofereceu a Caesar, que se sentou. Won lançou um último olhar compreensivo a Shishkin e foi até sua própria cadeira. As cadeiras pequenas rangiam em protesto e bamboleavam em pernas irregulares. Caesar lançou-lhe um olhar reprovador, mas Won decidiu que seria melhor ignorá-lo.
— Sr. Shishkin, — começou com cautela. — Você estaria disposto a conversar comigo por alguns minutos?
Shishkin continuava ofegante e tossindo. Lentamente, Won acrescentou:
— Encontrei seu nome ligado a alguns bens que estou investigando. O senhor conhece o prefeito Berdyaev?
A cabeça de Shishkin se ergueu de repente, e seus olhos voaram freneticamente entre Won e Caesar. Por motivos desconhecidos, Caesar decidiu que era um bom momento para tirar algo do bolso do peito e começar a brincar com aquilo. Won não ficou nada feliz ao ver um brilho metálico no canto do olho e perceber que Caesar estava com um canivete grande, abrindo e fechando a lâmina com indolência.
Rígido de incredulidade, ele lançou a Caesar um olhar fulminante, querendo dizer “para com essa merda agora”, mas já era tarde demais: Shishkin pulou da cadeira, parecendo pronto para gritar por socorro enquanto fugia.
— Sr. Shishkin! — gritou Won, levantando-se e segurando o ombro dele.
— Está tudo bem, Sr. Shishkin, — disse de forma muito mais gentil, tentando conduzi-lo de volta ao assento. — Não estou aqui para machucá-lo. Sou advogado, só quero lhe fazer algumas perguntas. Certo?
Shishkin começou a esfregar dois dos botões do cardigã entre os dedos. Won notou que estavam mais gastos do que os outros. Sua mão ainda repousava sobre o ombro de Shishkin num gesto que esperava ser reconfortante, ao mesmo tempo garantindo que ele não fugisse novamente. Ele podia sentir Shishkin tremendo sob sua palma.
Lentamente, retirou a mão e ergueu o olhar até o rosto de Shishkin. Ele parecia atordoado e pálido, tomado demais pela situação para falar. Tudo bem. Won podia esperar. Ele acabaria convencendo-o.
Won voltou à cadeira.
— Seu depoimento seria inestimável para o caso que estou construindo contra a corrupção do falecido prefeito. O senhor estaria disposto a atuar como testemunha material no julgamento?
Ele estampou um sorriso benevolente no rosto, mas Shishkin se encolhia ainda mais e tremia demais para perceber.
— Sr. Shishkin, — chamou Won para chamar a atenção, mas outra voz acabou por interrompê-lo.
— Vasily Shishkin.
Caesar não foi alto, mas havia um tom cortante na voz que o tornava ainda mais assustador. Won virou o corpo inteiro para encarar seu companheiro de viagem, esperando que a malícia que irradiava dele fosse suficiente para Caesar entender o recado.
— Faz algum tempo desde que Berdyaev faleceu. Tenho certeza de que ele adoraria uma companhia.
“Cala a boca! Cala a boca!” Won lançou um olhar ainda mais incisivo na direção de Caesar, mas o estrago já estava feito. O corpo de Shishkin era sacudido por tremores incontroláveis, a ponto de ele parecer ter dificuldades para respirar. Encolheu-se ainda mais, os dedos voltando aos botões do cardigã.
Won tentou consolar o pobre homem novamente, mas Caesar decidiu que, se não podia falar, ocuparia as mãos com o canivete. No fim, tudo que Shishkin conseguiu fazer foi lançar alguns olhares tímidos na direção deles.
— Eu—eu só—água — conseguiu balbuciar e saiu cambaleando de vista.
Won o deixou ir. Provavelmente seria bom dar alguns minutos para que Shishkin se recompusesse. Assentiu e afundou na cadeira para esperar. Curiosamente, Caesar não fez o mesmo. Seu olhar estava fixo no ponto onde Shishkin desapareceu, imóvel e sem piscar.
A testa de Won se franziu ao notar, um leve desconforto se formando no estômago.
Mais passos vacilantes anunciaram o retorno de Shishkin, segurando um copo d’água com as duas mãos.
“Não. Tem algo errado.”
Um arrepio de terror percorreu Won. Ele já estava de pé antes mesmo de perceber.
— FIQUE LONGE! — gritou Shishkin, o frio cinza metálico de uma arma refletindo a luz tênue da sala, apontada diretamente para a cabeça de Won.
Won congelou, o sangue pulsando nos ouvidos enquanto a adrenalina disparava, a mente muito atrás, ainda tentando assimilar a reviravolta repentina. O presente parecia distante e irreal, como se estivesse de volta ao Bolshoi assistindo a um balé; as coisas aconteciam, mas ele não fazia parte.
Caesar mal piscou.
De repente em desvantagem, Won ergueu lentamente as mãos num gesto de rendição.
— Só estou aqui para conversar, Sr. Shishkin. Então vamos baixar essa arma—
— P-para! Não chegue mais perto!
Em seu acesso de pânico, Shishkin atirou.
Houve uma explosão de poeira e som; o calor passou de raspão pela bochecha de Won. O movimento de Caesar foi quase imperceptível: uma mão enorme desviando o cano da arma no último segundo, puxando Shishkin para si ao se levantar; a outra mão agarrando o antebraço de Shishkin, o aperto implacável obrigando-o a soltar a arma, depois torcendo o braço para trás com um estalo horrível.
Aconteceu mais rápido do que Won pôde compreender. Ele ficou parado, congelado de choque. Um grito e a realidade voltou rugindo.
— O que você está fazendo?! Pare!
Outro estalo. Caesar não deu sinal de ter ouvido, o aperto de ferro forçando o braço de Shishkin cada vez mais alto.
— Essa é nossa testemunha mais importante, Caesar! Pare!
Won viu Caesar inspirar. Os estalos cessaram; ele se afastou. Shishkin desabou no chão, soluçando e segurando o braço contra o peito.
— Prometo, Sr. Shishkin, não viemos aqui com intenção de lhe fazer mal. — Won correu para se ajoelhar ao lado dele. — Sei que começamos mal, mas, por favor, me escute.
Caesar chutou a arma para debaixo de um grande armário no canto enquanto Won fazia o possível para consolar o pobre Shishkin. Eventualmente, conseguiu colocá-lo de volta na cadeira, mas, por mais que tentasse, Shishkin se recusava a falar. Estava curvado novamente, tremendo muito, lançando olhares para Caesar a cada poucos segundos. Won lançou um olhar fulminante por cima do ombro para Caesar, esperando que fosse suficiente para demonstrar sua insatisfação.
Em certo ponto, Shishkin parecia à beira de hiperventilar, respirando em golfadas profundas e irregulares, e Won decidiu que seria melhor eles irem embora.
— Se um dia quiser conversar, — murmurou Won, — é só me ligar, tudo bem? Estou hospedado na pousada ali na rua.
Ele colocou seu cartão de visitas na mesa.
— Não importa o que você fez, ou o que acha que fez, eu garanto que nada vai acontecer com você — eu prometo.
Levantou-se, fitando Shishkin por um momento, batendo pensativo com o dedo no cartão, sentindo-se terrivelmente culpado.
— Certo, — disse, oferecendo uma despedida breve antes de sair, com Caesar seguindo atrás.
Assim que saíram pela porta da frente, Won se virou bruscamente.
— Eu achei que tinha dito para não fazer nenhuma merda estilo O Poderoso Chefão! — enfiou o dedo no peito de Caesar.
— Só estava ajudando a fazer as coisas andarem, — respondeu Caesar com indiferença.
Won bufou e jogou os braços para o alto.
— Andarem?! Você estava ameaçando minha testemunha!
Ele parou, os olhos se voltando novamente para Caesar.
— E por que diabos você está com um canivete?!
Caesar deu de ombros — Você não disse nada sobre facas.
— Se você não pode ter uma arma, por que uma faca seria melhor?!
“Como diabos ele trouxe isso num avião?” Na verdade, não! Won nem queria saber.
— Você quer perder esse julgamento ou algo assim? Gosta de sabotar meu trabalho?! Você quase quebrou o braço daquele pobre homem!
Um sorriso surgiu nos lábios de Caesar.
— Se eu não tivesse feito isso, você estaria morto.
Won mordeu o interior do lábio, um calor fantasmagórico voltando a atravessar sua bochecha. Por mais que detestasse admitir, Caesar o salvara; ele era maduro o bastante para reconhecer isso, apesar dos sentimentos que nutria pela pessoa.
— Sim… bem, sobre isso… obrigado.
O sorriso se transformou num quase riso.
— Foi fácil demais. Tudo o que precisei fazer pra você gostar de mim foi salvar sua vida?
A expressão de Won se tornou inexpressiva.
— Não. Você não pode simplesmente mutilar nossa testemunha e sair ileso. Eu avisei: nada de merda. Se eu vir essa faca de novo, eu vou tomá-la e você pode dar adeus às suas bolas porque eu vou castrar você com ela. — Ele encarou Caesar, recusando-se a desviar o olhar. — Estamos entendidos?
Caesar soltou uma risada pelo nariz.
— Agora quem está fazendo ameaças?
— É um Aviso, não ameaça.
Won lançou a Caesar uma última carranca antes de se virar e marchar para a rua. Caesar o observou ir, o sorriso se transformando num gesto de afeto.
✦ ✦ ✦
Vasily espiava os dois homens em seu jardim da frente por uma fresta nas cortinas, os dedos de volta nos botões do cardigã.
O que ele ia fazer?
O pânico crescia enquanto ele tremia. Ele tinha vindo até aqui — e pra quê?
Eles ainda o encontraram. Ele nunca escaparia.
Tentou respirar, pensando no que o advogado, Won, havia lhe dito.
Ele dissera que Berdyaev estava morto. Vasily quase não acreditou. Berdyaev estava sob proteção dos Lomonosov, pelo que ele sabia. Mas, até onde lembrava, só haviam surgido rumores de investigações sobre sua corrupção. Foi por isso que Vasily fugiu até esse fim de mundo, fingindo ser outra pessoa – pra que ninguém o encontrasse. Ele não tinha nenhuma proteção da máfia; que esperança ele teria se alguém o ligasse a Berdyaev?
Mas Berdyaev estava morto.
Vasily empalideceu. A máfia não gostava de problemas. Se achassem que a investigação contra Berdyaev colocava qualquer parte dos negócios em risco, ele teria sido eliminado, com ou sem proteção. Lomonosov talvez até tivesse ordenado a execução pessoalmente.
E eles gostavam de terminar o serviço, garantir que não houvesse pontas soltas. Vasily precisava encontrar proteção antes que eles o encontrassem.
Molhou os lábios secos e engoliu em seco. O outro homem – o do canivete – tinha sido aterrorizante. Mas o advogado… O advogado disse que manteria Vasily seguro, acontecesse o que fosse. E se ele trocasse o que sabia por essa ajuda?
Não foi o advogado que impediu o loiro de machucá-lo? Talvez aquela fosse sua chance de sair.
Decidido, Vasily se virou para pegar o cartão de visitas sobre a mesa – e congelou, metal frio pressionando sua testa. Seus olhos se arregalaram e todo o ar deixou seu corpo. A única lâmpada que iluminava a sala deixava o intruso meio na sombra.
— Q-qu-qu-qu-qu… — tentou dizer.
Um brilho de dentes apareceu na escuridão.
— Ah, mas acho que você já sabe, não é, Shishkin?
A arma pressionou com mais força contra sua testa. Vasily estremeceu, boca aberta, lutando para emitir qualquer som.
— S-são-os-L-L-Lomo—
O homem sorriu.
— Boa noite, Sr. Shishkin.
Um estalido abafado, seguido por um suspiro – e tudo ficou em silêncio novamente.
✦ ✦ ✦
A esposa do dono da pousada estava esperando para mostrar o quarto quando Won voltou, e ele ficou grato por isso. Tudo o que queria naquele momento era uma cama quentinha e um pouco de sono. Não, melhor dizendo – um banho quente, depois cama, depois sono. Seus dentes batiam só pela curta caminhada desde a casa de Shishkin.
— É meio pequeno — disse a anfitriã enquanto caminhavam — , mas é um quartinho bom.
Ela abriu a porta e conduziu Won e Caesar para dentro.
Bem… pelo menos era pequeno. Sobre ser “bom”, Won não tinha tanta certeza. As paredes estavam cheias de rachaduras e manchas pretas que pareciam mofo. Won tinha certeza de que o que mantinha as paredes em pé eram apenas alguns desenhos infantis feitos de giz de cera logo acima do rodapé e uma grossa camada de poeira. Claro, essas coisas eram menores. Ele podia lidar com elas. Mofo, pó, rabiscos de criança – tudo isso dava pra aguentar.
O que não dava pra aguentar eram as acomodações.
Won encarava com horror crescente, seu antigo orgulho desaparecido. Um beliche. Ela não disse que era um beliche.
— Uhm, desculpe, mas — ele soltou uma risada sem graça — tem certeza que esse é o único quarto…?
A mulher deu-lhe um sorriso igualmente constrangido.
— Receio que sim, querido… É a época mais movimentada do ano. Todos os outros quartos estão ocupados.
Won forçou a expressão mais simpática que conseguiu — embora não pudesse dizer o quão convincente era.
— Dou um desconto pra vocês dois — ofereceu a mulher, gentilmente. — Que tal, querido?
Ah – então não muito convincente. Won tentou ver o lado bom. Não morreria congelado lá fora. Sim, havia isso. Ele assentiu, sorrindo um pouco mais genuinamente dessa vez, e a mulher se afastou, deixando-os ali.
Assim que a porta se fechou, ele deu mais uma boa olhada no quarto.
“Desolador” talvez fosse a melhor palavra para descrevê-lo. Resignado “melhor que morrer congelado”, lembrou a si mesmo, soltou um suspiro alto e se virou para Caesar.
Caesar examinava o cômodo com o olhar. Ele parecia grande demais para aquele quarto minúsculo. Won duvidava que ele já tivesse sido submetido a algo parecido na vida.
— Provavelmente não está à altura dos seus padrões refinados, imagino — comentou, chutando um pouco de poeira.
— Já fiquei em lugares piores — respondeu Caesar, impassível.
Won ergueu a cabeça de repente.
— Ficou? Quando?
Caesar pensou por um momento.
— Uma vez quando eu tinha quatro; depois aos sete; e depois aos doze.
Won franziu a testa. Ele não queria se intrometer, mas… por que tão novo? E por que esses intervalos estranhos?
— Aconteceu algo com seus pais? — arriscou.
— Fui sequestrado.
— Mais de uma vez?!
— Duas vezes. Uma foi um teste de sobrevivência.
Won ficou boquiaberto, mas Caesar parecia nem notar.
— Depois da primeira vez, me ensinaram formas de escapar, como sobreviver até me encontrarem. Foi como consegui fugir quando tinha doze.
Won piscou, abalado demais pra reagir de outra forma. Ele já sabia que Caesar vivia num mundo diferente do seu, mas só ali percebeu o quão grande era esse abismo.
— Queriam resgate…? — Agora ele estava definitivamente se intrometendo.
Mesmo assim, Caesar respondeu no mesmo tom indiferente de antes.
— Não. Só algumas das tentativas de Lomonosov de me matar. Fracassou, obviamente. Mas talvez um dia consiga.
Era perturbador o modo como Caesar falava de tentativas de assassinato como se fossem nada, como se fossem apenas notícias de jornal ou trechos de um livro. Won ainda tentava processar tudo quando o telefone do quarto tocou.
Relutante, ele foi atender.
— Vão querer jantar, querido? — a voz animada da dona da pousada soou do outro lado.
Ele conteve um suspiro e seguiu com as formalidades ao telefone. Suas respostas pareceram satisfatórias, e ele desligou, voltando o olhar para a cama. Nenhuma das opções parecia particularmente atraente.
— De cima ou de baixo? — perguntou a Caesar.
Caesar arqueou uma sobrancelha.
— Achei que você já conhecesse minhas inclinações. — disse com malícia. Won estreitou os olhos.
— Tô falando da cama.
— Sempre fico em cima.
Won revirou os olhos, reprimindo o impulso de subir a escada e reivindicar o beliche de cima por pura birra. Ele se jogou no de baixo e passou as mãos pelo rosto. Tinham se passado nem vinte minutos e as coisas já estavam indo maravilhosamente bem.
Do lado de fora, o vento se intensificou.
✦ ✦ ✦
Won não conseguia dormir.
O colchão era cheio de caroços e estranho, a cama um pouco pequena, mas o que realmente o mantinha acordado era o barulho. Parte disso era o vento do lado de fora, batendo nas janelas e uivando entre as árvores; e parte era a estrutura da cama, rangendo ao menor movimento.
Pelo som das coisas, Caesar também não conseguia dormir.
A cama fazia tanto barulho que Won não conseguia ignorá-lo, então ele percebia toda vez que Caesar se mexia lá em cima. Nunca estivera tão consciente da respiração de alguém antes, nem gostava do fato de que aquele quarto lúgubre o fazia se sentir culpado por tentar dormir. Ele sentia que precisava permanecer na mesma posição até ela ficar insuportável.
Ele tinha chegado nesse ponto agora e começou a se virar, incrivelmente devagar, mas a cama insistia em protestar com seus rangidos, e Won ficou completamente imóvel, atentos os ouvidos, torcendo para não ter incomodado Caesar.
Depois de um minuto ou dois sem nenhum rangido em resposta, Won relaxou com um suspiro silencioso de alívio. Claro que foi exatamente nesse momento que Caesar se mexeu, quase como se estivesse esperando por aquele suspiro.
Os olhos de Won vagaram até o colchão acima dele. Ele não podia ver Caesar, mas era como se pudesse. Como se pudesse sentir a presença dele, apesar do espaço entre os dois. Aquilo deixava seus nervos à flor da pele.
O vento assobiava lá fora, e de repente, seus olhos se abriram. Ele devia ter cochilado.
A cama rangeu. Ainda grogue, Won piscou, sentindo… algo. Não sabia dizer o quê. Mais rangidos vieram – mas não soavam iguais. Então Caesar começou a descer a escada.
Won ficou tenso, a boca absurdamente seca. Fechou os olhos com força, fingindo estar dormindo. A cama parou de ranger e ele soube que Caesar havia alcançado o chão. Sentia os olhos dele sobre si e fez o máximo para manter a respiração estável, cerrando os punhos debaixo do cobertor onde Caesar não podia ver.
Finalmente, Caesar se moveu. Won não ousou abrir os olhos, então apenas escutou enquanto Caesar se afastava. Achou que Caesar talvez fosse sair do quarto, mas o que ouviu foi o som do armário se abrindo. Abrindo um olho, Won conseguiu distinguir vagamente as costas de Caesar à luz pálida da lua. Ele estava enfiando a mão no casaco, procurando algo.
A testa de Won se franziu. “O que ele estava fazendo?”
Então Caesar se virou – a Beretta em sua mão.
A raiva ferveu no sangue de Won. Ele deveria ter imaginado.
Deveria saber que Caesar não dava a mínima, que estava apenas enganando-o, fingindo seguir suas regras. Por que ele fingiu estar dormindo antes? Podia ter dito que Caesar o acordou ao descer da cama. Então poderia confrontá-lo sobre suas mentiras. Agora, só podia ferver de raiva, mantendo os olhos fechados enquanto Caesar fechava o armário.
Por que Caesar precisava pegar uma arma no meio da noite? O pensamento não era nada reconfortante. Won se encolheu debaixo do cobertor da forma mais discreta possível enquanto Caesar se aproximava, a apreensão pesando em seu peito junto com a raiva e a ansiedade. Ele sentia que não conseguia respirar.
Caesar não parou ao lado da cama. Won arriscou espiar por entre os cílios.
O vento ainda batia na janela, fazendo os vidros tremerem. E Caesar estava apenas… ali, sentado no parapeito, olhando para a escuridão.
Won não entendia. Observou e esperou, mas Caesar não fazia mais nada. Só olhava pela janela, segurando sua Beretta. Por fim, percebeu que Caesar poderia desconfiar se ele não se mexesse por muito tempo, então tentou mudar um pouco as pernas, mas a cabeça de Caesar se virou imediatamente em sua direção, e ele congelou, fechando os olhos com rapidez.
O olhar de Caesar permaneceu fixo nele por um tempo. Ele podia sentir. Won se concentrou no sobe e desce de seu peito, tentando parecer natural, torcendo para que seu coração não estivesse audível por cima do vento, apesar de quão forte ele batia.
Pareceu uma eternidade até que teve coragem de abrir os olhos novamente.
Caesar voltara a olhar pela janela — o que foi um alívio. Mas não era reconfortante. Won ainda não entendia por que Caesar estava fazendo aquilo. Por que ele sentiu necessidade de pegar uma arma? Por que estava basicamente montando guarda na janela? Ele pretendia ficar ali a noite toda?
Não havia respostas; e Won fora vítima da própria escolha de fingir estar dormindo. Não podia abandonar o fingimento agora.
E assim foi a noite inteira. Caesar observando pela janela; Won o observando às escondidas. Às vezes, Caesar se virava para olhar Won; Won fechava os olhos com rapidez e normalizava a respiração. Caesar voltava a encarar a janela; Won voltava a encarar Caesar. Caesar nunca fazia mais nada, nem acontecia nada, mas os nervos de Won o mantinham alerta – por precaução.
Won não dormiu.
Compreensivelmente, o sol da manhã já estava alto quando Won se arrastou para fora da cama e foi até o café da manhã, bocejando e esfregando os olhos vermelhos o caminho todo. Ainda meio adormecido, entrou na sala de jantar e pegou alguma comida, não estava desperto o bastante para saber o quê. Com os olhos semicerrados, procurou uma cadeira vaga e encontrou uma ao lado de alguém com um cabelo loiro ofuscante.
Que conveniente.
Se não fosse pela névoa espessa do cansaço nublando seus sentidos, Won talvez tivesse ficado um pouco irritado por Caesar não parecer nem um pouco desarrumado. No entanto, naquele estado, ele só teve energia para desabar na cadeira e agradecer silenciosamente a quem quer que tivesse preparado a grande garrafa de café sobre a mesa.
Serviu-se de uma xícara generosa, depois começou a cortar as panquecas, os membros ainda pesados e lentos. Ao espetar o primeiro pedaço, foi dominado por um bocejo colossal, os olhos lacrimejando com a força dele.
Um arrepio agradável percorreu sua espinha enquanto ele se espreguiçava, limpando os cantos dos olhos antes de deixá-los repousar. Finalmente, com algumas piscadas lentas, levou o pedaço de panqueca à boca – só para perceber que havia esquecido de colocar qualquer cobertura. Esticou a mão para pegar o pequeno bule de mel que acompanhava o prato, quando dois dedos acenaram preguiçosamente no canto de sua visão.
— Não é saudável comer e dormir ao mesmo tempo, sabia? — Caesar lançou-lhe um sorriso irônico.
Won bufou.
— Observe. — disse e imediatamente perdeu o controle do bule.
Won levou um susto e rapidamente o endireitou, mas o estrago já estava feito: mel escorria pela mesa, pingando no chão. Um som surpreso veio de ao lado, e Won avistou uma mancha de mel na perna da calça do vizinho.
— Desculpe, senhor… — começou limpando a bagunça.
Seu pedido de desculpas morreu na boca assim que olhou para cima. Era o homem do dia anterior, na recepção. Qual era o nome dele?
— Bom te ver de novo. — disse o homem com um sorriso afável.
Won sorriu de volta.
— Embora eu preferisse que não fosse no momento em que estou sendo tão
desastrado, é bom te ver de novo também. Desculpa por isso. Leonid, certo?
— Esse mesmo. — O sorriso de Leonid se alargou, depois ele acenou com a mão em despreocupação.
— É só um pouco de mel. Sem danos, sem faltas, como eu sempre digo. —
Inclinou a cabeça.
— Mas você vai ter que me lembrar — seu nome era…?
— Won, sou Won. — disse, apertando a mão dele.
— E aquele vento da noite passada, hein? — Leonid perguntou com voz jovial.
— Achei que as janelas fossem voar das dobradiças.
Ele cutucou Won de brincadeira.
— Você parece meio acabado também, Won. Não dormiu muito?
— É… infelizmente. — Won tentou manter o tom leve. Não era culpa de Leonid que ele não tinha dormido.
— Menos ainda que você, pelo visto.
Leonid o dispensou com um gesto e uma risada.
— Você não me viu antes de descer aqui, Won. Viu como este lugar ao meu lado está vazio? — Ele se inclinou para frente com ar cúmplice.
— A xícara de café caiu enquanto eu cochilava.
Won reprimiu um sorriso.
— Não, não. Não precisa mentir para poupar meus sentimentos. Eu assumo total responsabilidade pelas minhas travessuras sonolentas.
Os dois riram juntos.
Caesar, no entanto, não estava nada feliz ou se divertindo com a situação. Não dissera uma palavra até então, ocupado demais fulminando Leonid por cima do ombro de Won. Aquele Leonid simpático e receptivo não era confiável. Ele sabia que o homem que vira no dia anterior, sorrindo de forma presunçosa atrás das portas do elevador, apareceria de novo; só não sabia quando.
Os olhos de Leonid encontraram os de Caesar por um breve momento, depois desviaram. Ele pegou seu próprio bule de mel, levantando uma sobrancelha e inclinando-o na direção de Won em um gesto silencioso.
— Obrigado, — murmurou Won, estendendo a mão para pegar o bule.
— Oh! — Mel escorreu pelas costas da mão de Won e se infiltrou entre os dedos; Leonid segurou seu pulso, com expressão arrependida.
— Agora o desastrado sou eu, hein? Desculpa por isso, Won.
A expressão de Caesar ficou perigosa, os olhos se estreitando enquanto focavam na mão de Won nas garras de Leonid. Won, claro, não notou.
— Tudo bem, — disse a Leonid.
— Não é como se eu já não tivesse feito a mesma coisa mais cedo.
— Isso quer dizer que estamos quites? — Leonid arqueou uma sobrancelha.
— Aposto que vou fazer 2 a 1 logo, logo.
Leonid deu uma gargalhada com isso, ainda segurando a mão de Won. De repente, ele ficou em silêncio e olhou para baixo.
— Mãos tão delicadas. — Passou o polegar pela pele do pulso de Won — Bonitas, como as de um pianista.
Won enrijeceu.
Leonid levou a mão mais alto, então inclinou-se e beijou o dorso.
Caesar parecia prestes a cometer um assassinato, mas Won estava tão atordoado com a reviravolta repentina de Leonid que não percebeu.
Ele se sobressaltou. Algo quente deslizou por sua pele. A língua de Leonid.
Leonid se afastou.
— Doces, também. —
Ele sorriu, passando a língua pelos lábios.
Uma onda palpável de fúria emanou de algum lugar atrás de Won, e ele arrancou a mão de volta, lançando um olhar rápido por cima do ombro. Caesar estava fora da cadeira, encarando Leonid com puro veneno nos olhos.
O café da manhã esquecido, Won se levantou de um salto e começou a arrastar Caesar para longe.
— É melhor irmos…
— Won.
Relutante, Won se virou.
Leonid se levantou e estendeu a mão.
— Achei algo seu. Não queria que você deixasse para trás.
A curiosidade falou mais alto, e Won permitiu que Leonid deixasse um pequeno objeto em sua palma e fechasse seus dedos em volta dele. Lançou a Leonid um olhar inquisitivo, mas Leonid apenas sorriu, e Won olhou para baixo.
Um botão.
Mas por quê—
A cabeça de Won se ergueu num estalo, procurando por Leonid, mas o homem já havia desaparecido.
Uma sensação horrível de pressentimento floresceu em seu estômago.
Rápido, ele enfiou o botão no bolso e disparou para a saída, com Caesar logo atrás.
✦ ✦ ✦
A caminhada até a casa de Shishkin pareceu incrivelmente mais curta sob a luz do dia. Won marchou direto até a porta e tocou a campainha, rezando para ouvir o som de passos apressados a qualquer momento. A casa permaneceu em silêncio.
— Sr. Shishkin? Está aí? Sou eu, o advogado de ontem — chamou.
Won esperou por uma resposta, mas nenhuma veio.
Ficando cada vez mais preocupado, ele bateu na porta. Ainda assim, nada.
Sem alternativas, ele tentou a maçaneta e ficou perturbado ao encontrá-la destrancada.
— Sr. Shishkin? — chamou novamente, abrindo a porta cuidadosamente.
Ele ficou parado no limiar, desconfortável em invadir a casa de alguém enquanto se agarrava à esperança de que houvesse alguma explicação boba e perfeitamente ingênua para Shishkin não poder ouvi-lo.
Essa esperança diminuiu a cada momento de silêncio.
Finalmente, deu os primeiros passos para dentro e foi atingido por um calafrio perturbador. Não havia onda alguma de calor aconchegante para recebê-lo como ontem. Em vez disso, um cheiro horrível e rançoso queimou suas narinas, enviando um tremor de apreensão por seu corpo.
— Espere aqui.
Caesar subitamente colocou-se à sua frente, bloqueando seu caminho com um braço. Won teria discutido em outras circunstâncias, mas um olhar rápido transmitiu tudo que ele precisava saber.
Tudo estava idêntico ao dia anterior – exceto pela poça escura de líquido aos pés de Caesar.
Sangue.
Won inspirou bruscamente, incapaz de evitar seguir o rastro até sua fonte: Shishkin caído em uma cadeira, sangue escorrendo pelo que restava de seu rosto.
— Sr. Shishkin! — Won avançou, apenas para ser segurado por Caesar.
— É tarde demais.
— Você não pode saber disso! — Won tentou desesperadamente.
— Metade da cabeça dele está faltando.
A voz de Caesar era baixa, impassível, não para zombar da negação de Won, mas para apontar a dura verdade. E Won teve que aceitá-la. Seu olhar caiu sobre os pedaços de carne ensanguentada e osso espalhados pelo chão, depois para a corda amarrando Shishkin à cadeira, como se ele tivesse sido deixado indefeso e forçado a assistir enquanto a arma era apontada para sua cabeça.
— Mas… quem…
Caesar não respondeu, seus olhos estreitados fixos no corpo sem vida. Ele já tinha visto isso antes – um tiro na cabeça, cadáver amarrado a uma cadeira. Um cartão de visitas. Só usado em assassinatos ordenados por um homem.
Lomonosov. Chyertov lyev. Aquele maldito leão.
Caesar percebeu um movimento pelo canto do olho.
— Fique aqui.
Ele parou Won com seu braço novamente, guiando-o para trás de suas costas e sacando sua Beretta. Arrepios percorreram os braços de Won. Era perturbador como qualquer traço do Caesar que ele conhecia podia desaparecer tão rápido; como era facilmente subjugado. Não havia som enquanto Caesar se afastava, nenhuma indicação de que ele realmente estava lá exceto visualmente. Como assistir a um filme mudo.
Won subitamente ficou muito consciente de sua própria respiração; parecia alta demais em seus ouvidos.
Caesar pressionou seu corpo contra uma parede, movendo a cabeça o suficiente para espiar além do canto. Won permitiu-se olhar para outro lugar, então, seus olhos vagando até se fixarem na cadeira – e no corpo de Shishkin. Estendendo um braço trêmulo, Won chegou perto o suficiente para segurá-lo sob o nariz de Shishkin.
Nada.
Ele moveu sua mão para o pescoço de Shishkin, onde deveria haver um pulso.
Novamente, nada.
Won mordeu o lábio. Ele não sabia o que esperava, mas… precisava verificar.
Deixou a cabeça cair. Subitamente parecia pesada demais. Mas quando olhou para baixo, seu olho foi atraído para o cardigã de Shishkin, para o tecido vazio entre o primeiro e terceiro botões. Ajoelhando-se, pegou o botão que Leonid lhe dera e o segurou, sentindo as bordas gastas.
Ele não se mexeu quando Caesar retornou.
— Está limpo — disse ao entrar na sala. Quando Won não respondeu, ele se aproximou.
— O que há?
Won lhe entregou o botão, os olhos nunca deixando o corpo de Shishkin.
— De Leonid, esta manhã. — Os olhos de Caesar ganharam um brilho perigoso e Won acrescentou — Disse que estava devolvendo para mim.
Caesar estudou o botão em silêncio. Quando o devolveu, Won levantou-se.
— Foi—não foi—ele não poderia ter…
Won deixou a frase incompleta, parecendo perdido.
— Você confia demais para um advogado. — O comentário foi despreocupado, mas o tom de Caesar ficou sério quando seu olhar voltou-se para o corpo de Shishkin. — Isso foi feito por um profissional; nenhum mercenário seria tão meticuloso.
Won deixou seus olhos vagarem. Era verdade.
Não havia sinais de luta ou de que alguém arrombou a entrada. Ele teria assumido que Shishkin simplesmente fugiu – exceto que seu corpo foi deixado lá para eles encontrarem.
Ele mordeu o lábio com mais força, seu foco subitamente em Caesar.
— Você sabia?
Caesar assentiu. — Sabia.
— Quando? No saguão?
— Quando você segurou a porta aberta.
Won olhou para ele boquiaberto. Ele não acreditava. Como?
Subitamente, Caesar estava olhando de volta, tensão ao redor de seus olhos. — Mas você…
Won esperou, o olhar pesado de Caesar o prendendo no lugar, mas Caesar nunca terminou o pensamento – e então, ele piscou, e o momento se foi.
— Devemos ir. — Caesar agarrou Won pelo braço e começou a arrastá-lo para fora.
Won lançou um último olhar para Shishkin, uma sensação horrível de culpa inundando-o. Por que ele foi embora ontem? Poderia ter ficado – deveria ter ficado. Talvez então… O lábio de Won estava quase cru de tanto morder. O que fariam agora? Shishkin era a testemunha…
Caesar olhou para ele de soslaio, percebendo seu desespero.
— Não há nada que você possa fazer agora. Voltaremos para o continente.
Caesar olhou para cima quando passaram pela porta da frente. — Vem tempestade.
Won seguiu o olhar de Caesar distraidamente, encarando o céu vazio, quando sentiu Caesar enrijecer ao seu lado.
— Abaixe-se!
A próxima coisa que Won soube foi que estava no chão. Caesar o agarrou e jogou ambos para baixo, protegendo o corpo de Won com o seu enquanto uma rajada de tiros parecia vir de todas as direções. Balas estilhaçaram pedaços de terra a centímetros de seu rosto, poeira e detritos atingindo-os ambos.
Caesar não vacilou, segurando Won firmemente sob ele. Estava tão alto que Won sentiu o zumbido em seu cérebro. Doía pensar.
Então ele estava de pé novamente, Caesar o impulsionando para frente.
— Corra!
E Won correu.
“Oho”, isso estava se mostrando melhor do que imaginara. Leonid baixou seu rifle de assalto, sorrindo satisfeito, enquanto trocava por uma pistola. Seus alvos estavam ficando menores à distância, mas ele não estava com pressa, cantarolando uma melodia animada enquanto descia descuidadamente a pequena colina que usara como ponto de vantagem e caminhava em direção à montanha ao longe.
A caça seria boa hoje.
✦ ✦ ✦
Os pulmões de Won estavam em chamas quando eles finalmente pararam. Com as mãos apoiadas nos joelhos, ele se engasgava com o ar gelado, os membros tremendo de exaustão. Forçando os olhos a se abrirem, viu Caesar mais adiante, muito pálido, olhando para o vazio. Para o quê, Won não sabia. Não havia muito o que ver na montanha. Pedaços de neve antiga e congelada salpicavam o solo rochoso entre pinheiros espaçados e era só.
Ele se sentia completamente exposto.
Caesar, por sua vez, estava concentrado em ouvir. Leonid os seguiria. O que acontecera antes tinha sido só para assustar, ou ambos já estariam mortos. Leonid queria brincar com eles, como um gato brincando com um rato, forçá-los a um canto antes de finalizar o serviço. Provavelmente estava se divertindo ao fazê-los pensar que tinham alguma chance antes do inevitável. Esse tipo era o mais perigoso. E ele não estava ali por acaso. Um assassino daquele calibre não aparecia do nada. Alguém havia encomendado aquele serviço contra Shishkin. Mas Leonid estava rastreando-os por esporte… Caesar era o alvo dele? Ou—
Caesar agarrou Won e o puxou para baixo num agachamento, os instintos agindo mais rápido do que o pensamento consciente. Um leve farfalhar veio logo em seguida. Seria um homem? Ou um animal? Ele preparou a Beretta enquanto inspirava fundo, tentando estabilizar o ritmo cardíaco.
Foi então que Won percebeu que quem atirara neles antes tinha sido Leonid. O que ele não entendia agora era: por quê? Ele também devia matá-los? Ou só devia assustá-los? Ele encarou o perfil de Caesar, inquieto e desejando respostas. Mas Caesar não disse nada, nem sua expressão revelava qualquer coisa. Estava apenas… vazia. Sem medo, sem ansiedade, sem tensão, nada. Como se fosse só mais um dia qualquer. Eles podiam estar comendo panquecas ou no escritório dele, e Caesar pareceria exatamente do mesmo jeito. Era assustador o quanto ele não parecia afetado.
De repente, Caesar abaixou a arma. Ao longe, apareceu um gato, que logo desapareceu de vista. Won soltou o ar que nem percebera estar segurando. O alívio durou pouco. Caesar o soltou, mas pressionou seu ombro, sinalizando que deveria permanecer abaixado. Então, Caesar começou a tirar o casaco, estendendo-o para ele.
“O quê?” Won articulou sem som, fazendo um gesto amplo com os braços. Caesar apenas levou o dedo aos lábios.
Foi então que Won viu o sangue.
— Você tá ferido? — falou em voz alta, surpreso.
Caesar colocou a mão sobre sua boca e sussurrou “Depois.”
Caesar estava ouvindo alguma coisa; Won percebia pela inclinação de sua cabeça. Subitamente, a mão de Caesar sumiu, e ele sinalizou para que Won permanecesse onde estava enquanto se esgueirava para longe, passando entre árvores e rochas, silencioso como uma sombra.
“Foi por isso que ele tirou o casaco,” Won percebeu. “Era volumoso demais para se mover com essa furtividade.” Ainda assim, estava escurecendo, e a tempestade estava se aproximando. Won não sabia se deveriam se preocupar mais com o assassino ou com o risco de morrerem de hipotermia primeiro.
Mas sua mente ainda girava em torno do ferimento de Caesar. Tinha que ter acontecido na casa de Shishkin; era sangue demais para ser apenas um arranhão. Mas isso significava que o ferimento era sério? Won notou que Caesar segurava a arma com a mão não dominante, então o ferimento devia estar no ombro ou nas costas, talvez. “E se a bala atingiu uma artéria? E se ele sangrar até morrer?” Won teve que reprimir rapidamente o pânico que esse pensamento provocou.
Ele sentiu quando Caesar parou de se mover, com o olhar e a Beretta fixos em um grupo de árvores ao longe. Won espiou de onde estava escondido, mas não viu nem ouviu nada. Olhou de volta para Caesar. A escuridão crescente realçava seus traços. Um trovão ressoou nas nuvens acima, e os olhos de Won acompanharam um único floco de neve enquanto ele caía, caía… e pousava na bochecha de Caesar.
Ele atirou.
O som dos disparos reverberou no ar, e Won precisou cobrir os ouvidos. Não fazia ideia de quem estava atirando em quem ou de onde vinham os sons, e só podia esperar e rezar para que acabasse logo. De repente, ouviu passos correndo em sua direção, mal teve tempo de olhar quando Caesar o agarrou pelo braço e o puxou para longe. Won agarrou o casaco de Caesar antes de começar a correr a toda velocidade. A neve preenchia o ar.
Leonid estudava a mancha de sangue no chão. Não era recente, mas ainda estava fresca, pegajosa. Então os boatos eram verdadeiros. Sempre ouvira falar do Czar — como Sasha o moldou, arrancou sua humanidade e o transformou em uma arma viva. Leonid sempre fora cético.
Mas o Czar ainda estava vivo.
E ainda conseguia manter seu amiguinho a salvo. Muito impressionante. Isso não fazia parte da missão — ir atrás do Czar —, mas Leonid sentia a sede de sangue borbulhar em suas veias, exigindo ser saciada. Seu olhar ficou distante.
“O coração do Czar explodindo, todo aquele carmesim em contraste com a neve branca pura; o crânio estilhaçado, carne e osso e massa encefálica espalhados por toda parte, impossível de juntar de novo.”
“Que bela imagem seria.”
Os olhos de Leonid identificaram outras manchas de sangue, uma trilha macabra de migalhas levando direto até sua presa.
Ele estremeceu de prazer.
Continua…
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✦ Tradução, revisão e Raws: Belladonna
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Sinopse:
O advogado de direitos civis Lee Won atua na Rússia, defendendo clientes de baixa renda que não teriam acesso a um jurista. Um dia, ele visita o vereador Zhdanov para interceder por seu cliente Nikolai. Won desconhece que o político tem ligações com a máfia russa — até se deparar com César durante a reunião. E aquele homem de olhos prateados e cinzentos… era o mesmo com quem Won quase colidira na rua dias antes! Algo fora do comum está prestes a acontecer quando ele conhece César Aleksandrovich Sergeyev, o homem que em breve liderará um dos grupos mafiosos mais temidos do país.