Ler Uma Proposta Vulgar – Capítulo 03 Online
— Todas as noites, minha irmã chora por causa da cicatriz que o seu irmão deixou nela… e, mesmo assim, você…
Herman já havia pertencido à família Claudia, filho do casal de jardineiros que trabalhava para eles. Enquanto observava a pele impecável de Inês, seu rosto se contorceu em um misto de desprezo e amargura.
— Ainda tão perfeita como sempre.
Vê-lo ferver de raiva silenciosa trouxe à tona memórias de horrores passados. Sua irmã, cinco anos mais nova, havia sido violentada… pelo irmão de Inês.
— Se você continuar vivendo confortavelmente sob a proteção do Rei, meus pais chorarão em seus túmulos.
E não parou por aí. O pai de Inês havia assassinado os pais de Herman, que suplicaram por justiça quando o irmão dela atacou sua filha. Mas os crimes da família Claudia não pararam aí.
Os pais de Inês usaram a própria filha, noiva do rei, para encher seus próprios cofres.
Mesmo durante a grande fome causada por colheitas ruins, jamais consideraram interromper suas crueldades. Quando uma criança faminta roubou algo na fazenda da família, eles cortaram o pulso do menino.
Eles tratavam a vida de seus súditos como se valessem menos que formigas e se deleitavam em luxos pagos com o sangue dos explorados. Provavelmente, haviam cometido atrocidades ainda piores do que as conhecidas. Sua família era assim. Por isso, Inês não ousava contestar as acusações de Herman. Tudo o que podia fazer era…
— Me desculpe.
‘Pedir desculpas.’
Mas sua desculpa, em vez de acalmar, pareceu irritá-lo ainda mais. Seu olhar se tornou assustadoramente sombrio.
— Não preciso de desculpas vazias. Parece que você está sendo forçada a se curvar. Aposto que, se a rebelião não tivesse acontecido, eu nunca ouviria isso.
Ele não acreditava na sinceridade de Inês. Para ele, a mulher apenas se humilhava porque sua posição havia caído. A família Claudia era cheia de pessoas desprezíveis.
Chegando a sua própria conclusão, Herman inclinou a cabeça com desdém.
— Acho que é preciso um nível especial de falta de vergonha para ter coragem de ficar com o irmão do próprio noivo.
As críticas contra Inês se tornaram cada vez mais cortantes.
— Você sabe o que andam dizendo sobre você agora?
Cansada da repreensão implacável, ela respondeu com expressão resignada.
— Como eu não saberia? As pessoas gritam isso todos os dias em frente aos portões do castelo.
A menos que fosse surda, era impossível ignorar. As criadas a desprezavam abertamente, e os manifestantes exigiam sua morte diariamente. Estava ciente que protestavam ali de propósito, no portão mais próximo ao Palácio dos Lírios, onde ela ficava. E sabia também que Herman era quem orquestrava aquilo.
— E mesmo sabendo disso… você ainda quer viver?
Seus olhos cheios de desprezo perfuravam Inês. Ele parecia ressentido por ela ainda respirar. A hostilidade era tão palpável que sufocava.
Os pecados de seu pai e irmão mortos pesavam sobre seus ombros como uma maldição.
— Eu…
O que mais poderia fazer? Quando finalmente conseguiu abrir os lábios, colados pelo silêncio…
— Herman.
Uma voz familiar se interpôs entre eles.
— … Vossa Majestade.
Era Charles. Herman não esperava encontrar seu soberano ali, desviou o olhar, surpreso. Embora Inês fosse alvo do desprezo geral, ela era a mulher destinada a se tornar esposa do rei.
— Vá embora.
Charles ordenou, sem acrescentar nada. Não havia raiva nem deboche em sua expressão. Após fazer uma reverência, Herman passou por Inês e partiu, deixando os dois sozinhos no corredor vazio.
Ele se aproximou dela.
— Espero que compreenda. Como você sabe, Herman perdeu a família por causa do seu pai. E a única irmã que lhe restou carrega uma cicatriz para a vida inteira.
Ele colocou a mão no ombro de Inês com um toque suave.
Comparado ao que Herman suportou, o que ela vivia agora parecia pequeno. Sua voz calma quase sussurrava que tudo o que acontecia com ela era merecido.
Sim, ele estava certo.
Era o seu carma.
A tensão em seus ombros cedeu. Inês o deteve antes que ele passasse.
— Você tem razão.
— …
— Tudo isso é por minha causa.
Mesmo que o mundo inteiro a condenasse, só lhe restava suportar em silêncio. Por isso, não era justo que alguém como ela permanecesse ao lado do novo rei coroado.
— Então, casar comigo não faz sentido. Como um herói que derrotou o mal pode se unir à filha desse mesmo mal?
— … O que está tentando dizer?
Inês começou a sugerir outras candidatas, a voz firme.
— Escolha outra mulher para ser sua rainha. Que tal a filha do Conde Colsen, que apoiou a rebelião? Eu a conheci certa vez. É graciosa, perspicaz e muito virtuosa.
— …
— Ou talvez a princesa do Grão-Ducado de Hessen. Um casamento com ela poderia fortalecer as relações com o Ocidente.
— Inês.
Charles a chamou em um tom como se pedisse que parasse. Mas ela continuou.
— Se ela não o agradar, e a princesa de Natassen? Dizem que é belíssima. Você sempre apreciou elegância e graça, não é? Tenho certeza de que, ao vê-la, ficará satisfeito…
— Chega.
O homem se aproximou sem ela perceber, agarrou o seu braço.
— O que exatamente está tentando dizer?
Ela não desviou do olhar intenso dele.
— Quero dizer que há opções melhores do que eu. Não entendo por que escolheria a pior quando existem tantas boas.
— Está dizendo que se casar comigo é a pior escolha?
— Pelo menos, não é a melhor.
Os boatos eram claros: o herói que salvou Tezever do demônio estava envolvido com a filha dele. Essa era a conversa de todos os dias.
Ao escolhê-la, ele perderia mais do que ganharia. Então… por quê?
— A pior escolha, hã!…
Charles riu com amargura.
(Elisa: ML com baixa-estima é um pé no saco, e esse aqui ultrapassa todos.)
Algo dentro dele pareceu se romper. No limite, ele puxou Inês para perto com força. Ela, incapaz de resistir, deixou a bengala escorregar de suas mãos e cair no chão.
— Foi você quem fez essa escolha primeiro.
O ressentimento queimava em seu olhar.
— Ter escolhido meu irmão em vez de mim… não foi essa a sua pior escolha?
— …
— Veja a sua situação agora.
Antes, não havia uma só pessoa em Tezever que não amasse Inês. Assim como Charles a considerava nobre e pura, todo ser vivo a admirava. Mas agora?
— Todos os dias, o povo vem me pedir que a execute. Dizem que uma mulher perversa como você não deveria continuar viva.
O mundo agora a odiava. Todos exigiam sua morte. Seus olhos desceram até sua perna ferida.
— Dizem que você manca porque caiu de uma varanda, cometendo adultério com outro homem.
— …
— Todos juram que você será uma mancha em meu reinado.
Inês respondeu sem desviar o olhar:
— Então me abandone.
Ele a encarou em silêncio, como se tentasse decifrar o que havia por trás daquele pedido.
— Não posso.
Charles tocou seu rosto suavemente, quase um contraste com a frieza de suas palavras.
— Inês… você vai… — Seus dedos acariciaram lentamente sua pele pálida. — … permanecer aqui como uma mancha em minha vida… para sempre.
Ela não conseguiu dizer nada. Apenas o encarou, com os olhos trêmulos.
O homem se afastou e murmurou uma última coisa antes de partir:
— O casamento acontecerá como planejado.
E passou por ela, indiferente. No corredor vazio, o som de seus passos pesados ecoou carregado de emoções. Estranhamente, a perna esquerda de Inês latejou.
Assim como um ano atrás, quando ele caminhou pela primeira vez naquele corredor, arrastando a própria dor.
Passo após passo.
Cada movimento trazia de volta memórias miseráveis, de nunca poder chamar seu pai de “pai”, ou seu irmão de “irmão”.
“Aprovo seu casamento com a Inês. Mas há uma condição, você irá à guerra no lugar do meu filho.”
Se isso significasse estar ao seu lado, ele faria qualquer coisa.
“Eu vou esperar por você, Charles.”
Ele acreditou que ela sentia o mesmo.
Mas…
“Bem-vindo, irmãozinho. Venha, cumprimente. Já se conhecem, não é? Minha noiva, Inês.”
Quando voltou das garras da morte, ela já pertencia a outro, havia se tornado a noiva do seu irmão.
Continua…
Tradução: Elisa Erzet
Ler Uma Proposta Vulgar Yaoi Mangá Online
Sinopse:
Charles Ivan – O atual rei que usurpou o trono de seu meio-irmão.
No passado, era devotado a Inês, a ponto de ir à guerra por ela, mas foi traído por sua família e perdeu alguém muito importante. Apesar da oposição de todos, ele a coroa rainha, por motivos desconhecidos.
Inês Claudia – A herdeira da Casa Claudia, conhecida como “A Flor de Tezever” por sua beleza deslumbrante. Originalmente, deveria ter se casado com Joseph, o rei legítimo de Tezever, mas acabou se tornando esposa de Charles, que usurpou o trono. Desprezada pelo povo devido a rumores sobre sua reputação, ela suporta tudo em silêncio, carregando o peso dos crimes de sua família. Ama Charles mais do que ninguém, mas um mal-entendido os mantém distantes.
Leia quando: você quer ver uma história em que o protagonista que só fez a mocinha sofrer finalmente descobre a verdade e se arrepende profundamente.
Frase marcante:
— Você vai ficar aqui, para sempre, como uma mancha na minha vida.
No dia do casamento do rei, o filho ilegítimo do falecido monarca iniciou uma rebelião.
O homem que seria seu marido a abandonou no castelo e fugiu, e sua outrora poderosa família caiu em desgraça. Quando ela esperava apenas pela morte, percebendo que seu fim estava próximo…
— Então era aqui que você estava. Pensei que tivesse fugido.
Uma voz grave, como um eco de uma caverna, ressoou no quarto. Era uma voz familiar. A mesma que um dia sussurrou palavras carinhosas para ela.
— Ah, será que foi difícil por causa da perna?
Charles Ivan — outrora um príncipe desprezado por todos devido a sua mãe plebeia, mas agora um rei que ninguém ousa desafiar.
— Acabe logo com isso, por favor. Em consideração ao que já tivemos…
— Ah, sinto muito, mas não tenho pressa.
Charles passou suavemente a mão sobre a bochecha molhada de lágrimas.
— Você será minha esposa.
O sangue nas mãos dele manchou a pele de Inês.
— Tudo o que era do meu irmão agora é meu. Naturalmente, a esposa dele também deve ser minha.
Foi uma proposta vulgar.