Ler Sob o mesmo céu cinza – Capítulo 08 Online
Capítulo 8 – Os Muros de Haru
O toque de Akira ficou em Haru como um resíduo morno no rosto. Não um calor que queimava, mas algo que penetrava lentamente, abrindo fendas no que ele passara anos tentando manter sólido.
Ele havia dito aquilo — “é menos frio quando você tá por perto” — e agora as palavras o seguiam, como um eco que se recusava a desaparecer.
Nos dias que se seguiram, Haru manteve distância.
Voltou a se dedicar ao trabalho na fundação com o dobro de foco. Evitava os corredores por onde Akira poderia passar. Chegava mais cedo, saía mais tarde. E ainda assim, toda vez que via um lenço sobre a mesa de recepção ou uma garrafa de chá de gengibre esquecida no canto da copa, seu peito apertava.
Porque ele sabia.
Era Akira, tentando chegar perto sem invadir.
Respeitando seus muros.
Mas Haru não sabia como lidar com isso.
—
Kaori notou primeiro.
— Você parou de sorrir com os olhos. — disse, enquanto comia o pão amanhecido que Haru trouxera do mercado.
— Eu nunca sorri com os olhos, Kaori.
— Você sorria quando ele aparecia.
Haru revirou os olhos, mas ficou em silêncio. Porque sabia que era verdade.
—
No final daquela semana, enquanto organizava documentos em uma das salas da fundação, ouviu a voz baixa de Akira no corredor. Não conseguiu entender as palavras, mas o tom era cansado.
Haru se aproximou, escondido atrás da porta entreaberta, e viu Akira falando com um dos voluntários.
— Ele tá se fechando de novo… — Akira murmurou. — E eu não sei se tenho o direito de forçar a entrada.
— Mas você quer entrar?
Akira hesitou, depois assentiu.
— Quero. Mais do que já quis qualquer coisa.
Haru recuou, o coração batendo alto demais. Aquilo não era um jogo. Akira não estava brincando com ele. Mas também não era fácil.
Ele não sabia como abrir a porta. Como baixar os muros. Eles foram construídos com dor, cimento de perdas e tijolos de desconfiança. Ninguém nunca os atravessou.
Ninguém — até agora.
—
Naquela noite, ao chegar em casa, Haru encontrou Kaori com febre.
A garota tremia, olhos opacos, pele quente demais. Haru entrou em pânico. Procurou pelo termômetro, pelas meias grossas, pelos chás, mas nada parecia suficiente. A febre não cedia. Ela sussurrava palavras desconexas. E Haru tremia junto.
Sem pensar, pegou o celular. Um número já estava salvo ali, mesmo que nunca tivesse sido usado.
Akira.
— Alô? — a voz dele soou grave, mas alerta.
— Kaori… ela… está mal. Eu… preciso de ajuda.
Não houve hesitação. Só silêncio por um segundo e depois:
— Me passa o endereço. Estou a caminho.
—
Akira chegou em vinte minutos. Trazia uma sacola com remédios, panos limpos, uma garrafa térmica e um cobertor térmico enrolado.
Ajeitou Kaori com cuidado, como se fosse dele. Deu o antitérmico, resfriou o corpo dela com panos úmidos, e só falou o necessário. Haru observava tudo calado, parado ao lado da porta, como se o mundo estivesse congelado — menos Akira.
Horas depois, Kaori dormia. Febre sob controle. Coração mais calmo.
Akira fechou a porta do quarto com cuidado e voltou até Haru. Ele estava de pé na sala, braços cruzados, olhos vermelhos de tanto segurar.
— Por que faz isso? — Haru perguntou, a voz falha. — Por que insiste?
— Porque… eu sei o que é perder tudo. E você não merece perder mais ninguém.
— Mas você é parte do que eu odeio.
— E você é tudo que eu não posso evitar.
Silêncio.
Haru tremeu. Mas não de frio.
— Eu não sei amar alguém como você.
— Então não me ame ainda. Só me deixa ficar… perto.
Haru olhou para ele por um longo tempo. Depois, como quem entrega uma chave, murmurou:
— Você pode ficar… só hoje.
Akira assentiu. E se sentou no sofá, sem tirar os olhos dele.
—
Naquela noite, Haru não dormiu.
Mas pela primeira vez… também não se sentiu sozinho.
—
E no fundo de todos aqueles muros, uma pequena rachadura começava a crescer. E por ela, entrava um pouco de luz.
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Sinopse:
Akira é o líder temido de uma das maiores gangues da cidade. Conhecido por sua frieza e postura implacável, ele aprendeu desde cedo a sobreviver com os punhos e a dominar com silêncio e força. Para ele, sentimentos são fraquezas — até o dia em que cruza o caminho de Haru, um garoto pobre e solitário, que cuida da irmã caçula após perder os pais em um ataque brutal de gangsters.
Haru odeia tudo o que Akira representa. Carrega no peito a dor da perda e o ódio por aqueles que destruíram sua família. E mesmo quando Akira tenta se aproximar, movido por uma atração intensa e crescente, Haru responde com desdém, medo e resistência.
Mas Akira não desiste. O que começa como um simples interesse se transforma em uma obsessão silenciosa — e, pouco a pouco, em um sentimento que ele nunca soube nomear. Já Haru, entre a desconfiança e as feridas abertas, começa a ver rachaduras naquele mundo cruel — e talvez algo mais no homem que jurou odiar.
Sob o Mesmo Céu Cinzento é uma história sobre amor e redenção em meio à violência, sobre dois mundos colidindo, sobre cicatrizes que doem, mas também sobre a possibilidade de recomeçar. Um romance intenso, cheio de tensão, descobertas e transformação, onde até mesmo no céu mais cinzento, a luz pode encontrar seu caminho.