Ler Sob o mesmo céu cinza – Capítulo 07 Online

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Capítulo 7 – Um Toque no Frio

 

O outono avançava, e com ele, o frio começou a se infiltrar pelas frestas das janelas e pelos cantos da cidade. Haru, apesar de acostumado com a dureza das ruas, nunca lidava bem com o frio. As roupas surradas que usava há anos não protegiam o suficiente, mas ele nunca se queixava.

 

Não era do tipo que aceitava ajuda facilmente — ainda mais de alguém como Akira.

 

Naquela tarde, depois de um longo dia na fundação, ele saiu por uma das portas laterais, esfregando as mãos enluvadas que mal esquentavam. O céu já escurecia, mesmo sendo apenas cinco da tarde. Ele puxou o capuz do moletom e seguiu para casa.

 

Mas, ao dobrar a esquina, parou.

 

Akira estava lá. Encostado na moto como sempre, braços cruzados, vestindo uma jaqueta grossa demais para alguém que dizia não sentir frio.

 

— Me seguiu? — Haru perguntou, sem rodeios.

 

— Eu te esperei. — Akira deu de ombros. — Achei que poderia te levar até em casa. Está mais frio do que parece.

 

Haru bufou, mas o tremor involuntário do corpo o traiu.

 

— Eu me viro.

 

— Sei que se vira. Mas isso não quer dizer que tem que congelar sozinho.

 

Haru abriu a boca para rebater, mas Akira se adiantou, estendendo algo enrolado nos braços: uma jaqueta de lã escura, simples, mas pesada e quente. Ainda com etiqueta.

 

— Achei que você podia precisar.

 

— Eu não pedi isso.

 

— Eu sei.

 

— E não gosto de caridade.

 

Akira ficou em silêncio por um momento. Então disse, com a voz mais baixa do que Haru esperava:

 

— Não é caridade, Haru. É cuidado.

 

Essas palavras o atingiram mais fundo do que qualquer insulto ou provocação poderia. Haru olhou para o casaco, depois para Akira, que segurava o tecido como quem oferece algo sagrado — com respeito e sem pressa.

 

Finalmente, Haru pegou a jaqueta.

 

— Só porque hoje tá pior que o normal.

 

— Claro, — Akira respondeu, contendo um sorriso.

 

 

 

Naquela noite, enquanto Kaori dormia encolhida ao lado de um aquecedor elétrico velho, Haru ficou acordado olhando para o teto.

 

Vestia a jaqueta. Estava quente. Confortável.

 

E isso o incomodava mais do que queria admitir.

 

Ele se lembrava do dia em que seus pais foram mortos. Da voz de um policial dizendo que uma disputa entre facções havia saído do controle. Que não tinham nada a ver com aquilo, mas estavam no caminho. Vítimas colaterais.

 

O mesmo tipo de violência que Akira representava.

 

Como ele podia estar agora… aquecendo seu corpo?

 

Haru fechou os olhos, lutando contra pensamentos que misturavam ódio, saudade e o calor silencioso que começava a crescer por dentro. Um calor com nome e sobrenome.

 

 

 

No dia seguinte, Akira não apareceu na fundação.

 

Haru notou sua ausência no mesmo instante. E detestou que isso o afetasse.

 

Passou o dia inquieto, errando nos formulários, confundindo datas, perdendo a paciência mais rápido que o normal. Quando voltou para casa, Kaori estava terminando o jantar — arroz simples, legumes e um pouco de peixe seco.

 

— Você tá diferente, — ela disse, observando-o com olhos pequenos e atentos.

 

— É o frio.

 

— É o Akira, né?

 

Haru quase deixou os hashis caírem da mão.

 

— O quê?

 

— Eu vejo como você olha pra ele. E como fica estranho depois.

 

— Kaori, ele é perigoso. Eu não…

 

— Ele é triste, Haru-nii. Você também é.

 

Haru ficou em silêncio.

 

— Às vezes as pessoas tristes se entendem melhor do que qualquer outra, — Kaori disse, dando de ombros como se estivesse falando da chuva.

 

 

 

Naquela noite, Haru não aguentou.

 

Pegou a jaqueta, vestiu o capuz, e saiu pelas ruas molhadas até o velho depósito onde sabia que Akira costumava treinar sozinho. A construção abandonada no fim da linha do trem tinha janelas estouradas e concreto rachado, mas era um lugar onde Akira podia ser apenas um homem — sem trono, sem soldados, sem muralhas.

 

Ele o encontrou lá. Sozinho. Socando um saco de areia, os nós dos dedos vermelhos.

 

— Achei que estivesse doente, — Haru disse.

 

Akira parou, respirando com dificuldade, e o encarou.

 

— Só estava… lidando com os fantasmas.

 

— Tem muitos?

 

— Mais do que gostaria.

 

Silêncio. O som do vento passando pelas janelas quebradas era o único ruído.

 

Haru caminhou devagar até ele, parando a poucos passos.

 

— Eu vesti a jaqueta. — disse.

 

Akira sorriu. — Percebi.

 

— E… eu não odiei.

 

Akira o encarou. A tensão entre eles se tornou algo denso, elétrico. Haru sentiu o coração bater mais rápido. Um medo novo. Um desejo antigo.

 

— Haru…

 

— Eu ainda não sei o que sinto. Ainda dói. Ainda te odeio… um pouco.

 

— Tudo bem.

 

— Mas… — Haru deu um passo. — É menos frio quando você tá por perto.

 

Akira não disse nada. Apenas ergueu a mão devagar, como se estivesse tocando algo frágil demais.

 

Os dedos dele roçaram a bochecha de Haru — gelada pela noite. E naquele instante, o toque foi mais forte do que qualquer palavra.

 

Haru fechou os olhos.

 

Por um momento, só havia silêncio. E calor.

 

Um toque no frio.

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Sinopse:

Akira é o líder temido de uma das maiores gangues da cidade. Conhecido por sua frieza e postura implacável, ele aprendeu desde cedo a sobreviver com os punhos e a dominar com silêncio e força. Para ele, sentimentos são fraquezas — até o dia em que cruza o caminho de Haru, um garoto pobre e solitário, que cuida da irmã caçula após perder os pais em um ataque brutal de gangsters.
Haru odeia tudo o que Akira representa. Carrega no peito a dor da perda e o ódio por aqueles que destruíram sua família. E mesmo quando Akira tenta se aproximar, movido por uma atração intensa e crescente, Haru responde com desdém, medo e resistência.
Mas Akira não desiste. O que começa como um simples interesse se transforma em uma obsessão silenciosa — e, pouco a pouco, em um sentimento que ele nunca soube nomear. Já Haru, entre a desconfiança e as feridas abertas, começa a ver rachaduras naquele mundo cruel — e talvez algo mais no homem que jurou odiar.
 
Sob o Mesmo Céu Cinzento é uma história sobre amor e redenção em meio à violência, sobre dois mundos colidindo, sobre cicatrizes que doem, mas também sobre a possibilidade de recomeçar. Um romance intenso, cheio de tensão, descobertas e transformação, onde até mesmo no céu mais cinzento, a luz pode encontrar seu caminho.

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