Ler Roses And Champagne (Novel) – Capítulo 06 Online

Capítulo 6
A manhã amanheceu fria e cinzenta, o céu havia decidido que um dia de clima agradável já era mais do que suficiente. “Muito obrigado”
O dia sombrio se transformou em uma noite igualmente melancólica, com rajadas geladas de vento em intervalos regulares. Won levantou a gola do casaco enquanto corria rua abaixo, tentando criar uma barreira entre o pescoço e as rajadas gélidas que o açoitam.
Ele estava no bonde mas – como era de se esperar – o que havia embarcado quebrou duas paradas antes da sua, forçando mais uma corrida frenética a pé até seu destino.
Com o rosto vermelho de esforço, Won forçava sua respiração, levando o ar abruptamente para dentro dos pulmões ardentes enquanto finalmente adentrava o teatro e se dirigia a um dos guarda-volumes. Só depois de deixar o casaco com um atendente é que ele parou para observar os arredores. O Teatro Bolshoi era histórico, e sua arquitetura condizia com isso. Grupos de pessoas se misturavam em roupas suntuosas, interrompendo sua visão das paredes douradas e dos lustres cintilantes. Por um momento, ficou preocupado de não conseguir encontrar Caesar no meio da multidão.
No entanto, seus temores foram imediatamente dissipados, pois Caesar era fácil de encontrar mesmo rodeado de mármore entalhado e vestidos luxuosos. Ele estava sentado em um sofá, uma perna longa cruzada sobre a outra, folheando um exemplar do programa. Vestido com um terno discreto de tom marrom acinzentado profundo, ele permanecia imóvel, exceto pelo movimento das mãos virando as páginas, mas mesmo esse pequeno gesto era de uma elegância arrebatadora. O único adorno que usava era um grande alfinete de diamante fixado a uma gravata simples e de bom gosto.
A roupa parecia representar Caesar como um todo, muito bem-apessoado, mas de alguma forma sempre chamando a atenção.
Won já podia ver todos ao redor do sofá lançando olhares furtivos para Caesar, e se perguntava o que fariam se soubessem que ele era da máfia. Não era algo que pudesse descobrir com segurança, então afastou o pensamento e atravessou o saguão, parando bem em frente ao sofá.
A mão de Caesar parou no meio de uma virada de página, e Won observou a forma como a luz dos lustres dourava suavemente o cabelo loiro-prateado do homem.
— Caesar, — disse Won baixinho, quando Caesar não levantou a cabeça. Olhos pálidos se ergueram para encontrar os de Won. Imagens de céus cinzentos tempestuosos sobre planícies nevadas voltaram a inundar a mente de Won.
Caesar fechou o programa, um pequeno sorriso surgindo em seu rosto.
— Você veio.
Uma saudação cordial não era um dos cenários que Won havia preparado. O sorriso gentil dirigido a ele era tão desarmante que Won teve que se lembrar de que estava falando com um membro de alto escalão da máfia. Na verdade, foi pego totalmente de surpresa, que apenas ficou parado, olhando embasbacado para Caesar, se perguntando como alguém tão objetivamente imoral podia parecer tão inocente.
Felizmente, seu devaneio foi interrompido no momento seguinte. Ser eclipsado pela grande sombra do homem alto ao se levantar do sofá trouxe Won de volta à realidade.
— Quero sua resposta agora – disse Won a Caesar, aliviado por sua voz ter saído firme.
Um sino soou, sinalizando que era hora de o público se dirigir aos assentos, distraindo Won. Quando virou a cabeça de volta para Caesar, o homem já estava de frente para o auditório.
— Está prestes a começar. Devemos entrar.
— O quê?! —exclamou Won, alto demais.
Impassível, Caesar colocou o programa em uma mão, segurou o braço de Won com a outra e começou a andar.
— Ei, ei, ei, —disparou Won, sem entender o que estava acontecendo. — Eu só vim para falar com você. Eu não ia–
— Você terá sua resposta depois do espetáculo.
Won arregalou os olhos para Caesar e fincou os pés no chão, se recusando a ser arrastado mais.
— Seu prazo era hoje, não era? —perguntou Caesar.
— Pela minha conta, ainda tenho cinco horas. Com certeza você pode esperar isso.
Foi sutil, mas algo no tom de Caesar fez Won perceber que estava sendo zoado. Empurrando qualquer sentimento de pânico ou histeria – extremamente inúteis – para o fundo da mente, Won assumiu sua melhor impressão de indignação e lançou um olhar furioso para o homem que ainda segurava seu braço.
— Não gosto de perder meu tempo.
Caesar arqueou uma sobrancelha.
— Só os incultos chamariam “Giselle” de perda de tempo.
Won sustentou o olhar obstinadamente.
— Meu tempo é valioso, e prefiro gastá-lo apenas em coisas que valem a pena.
A pele ao redor dos olhos de Caesar se enrugou levemente, e Won teve a impressão de que Caesar estava genuinamente se divertindo com aquele embate.
— Posso garantir que “Giselle” valerá seu tempo.
O sino tocou novamente, e os dois entraram no auditório justo quando as portas estavam se fechando.
Assistir a uma apresentação da Companhia de Balé Bolshoi realmente teria valido o tempo de Won. Ou, pelo menos, teria sido assim, não fosse pelo homem sentado ao seu lado. O trágico primeiro ato, que mostrava Giselle escolhendo a morte após ser usada por um nobre em um caso amoroso, foi lindamente encenado, mas teria sido muito melhor se Won não estivesse sendo obrigado a assisti-lo por um criminoso impiedoso.
Como estava, não conseguia realmente apreciar nada enquanto a mente corria solta, preocupado com a resposta que Caesar daria.
Ele passou o intervalo tentando acalmar os nervos à flor da pele. “Vai dar tudo certo. Caesar vai falar comigo depois. Ficar nervoso só vai dar a ele o que ele quer. Você não pode dar essa satisfação a ele,” disse a si mesmo, decidido a aproveitar o segundo ato.
A segunda metade foi muito mais sombria que a primeira. Retorcendo o corpo em formas aparentemente impossíveis, a bailarina que interpretava Giselle mostrava a pobre camponesa retornando como um espírito indefeso. E, embora ele a tivesse traído, Giselle decidiu perdoar o amante e tentava salvá-lo dos espíritos malignos de outras mulheres rejeitadas.
Todos estavam na ponta da cadeira, inclusive Won, mas de repente, uma voz sussurrou em seu ouvido:
— Gostaria da sua resposta?
A cabeça de Won virou num estalo para encarar Caesar, qualquer interesse no balé foi esquecido.
Caesar demorou para continuar, parecendo se deliciar com o suspense.
— Você deve saber, não acredito em negociação ou compromisso.
Won se enrijeceu, ainda encarando Caesar. Justo nesse momento, as luzes da casa se acenderam e o auditório foi inundado com aplausos.
O público estava de pé, afirmando quão maravilhosa fora a apresentação com aplausos entusiasmados e gritos calorosos. Mas Won continuava congelado em seu assento, boquiaberto para Caesar, tentando compreender no que havia se metido. “Ele realmente me fez assistir a um balé inteiro só para me dizer que não?”
Os olhos de Won seguiram Caesar enquanto ele se levantava. Caesar olhou para baixo e aquele mesmo pequeno sorriso apareceu novamente nos lábios.
— Jantar?
Won não conseguiu conter a gargalhada seca que escapou. Saltou de pé, indignado demais para continuar sentado.
— Você acha que eu vou simplesmente… jantar? Com você? Agora?
— Sim. Por que não? —respondeu Caesar, inabalável.
“Ridículo.” Won bufou e girou nos calcanhares, saindo pisando duro. “Devia ter enfiado aquela caneta idiota na maldita garganta dele”, resmungou para si mesmo enquanto marchava até a saída.
Caesar o deixou ir, um sorriso enigmático no rosto.
E, em um canto discreto, alguém que os observava a noite toda se pressionou mais fundo nas sombras e fez uma ligação.
— Conselheiro Zhdanov, sou eu. Tenho algumas coisas que o senhor vai querer saber.
✦ ✦ ✦
Won se sentia um lixo.
Com um gemido profundo, virou-se e afundou o rosto no travesseiro.
Ele tinha ferrado tudo.
Esse conhecimento, no entanto, não ajudava em nada a curar a ressaca. Ele sabia muito bem que não deveria ter se entupido de bebida barata para lidar com a raiva, mas agora só podia remoer seu arrependimento enquanto a cabeça latejava com uma dor insuportável. Soltou outro gemido; tinha certeza de que seu crânio estava prestes a se partir ao meio.
Uma batida interrompeu sua agonia.
— Won, você está acordado?
Mesmo abafada pela porta, a voz de Ivana parecia uma faca perfurando seu cérebro, mas Won sabia que ela só estava preocupada, já que ele não havia descido para o café da manhã. Soltando um longo suspiro pelo nariz, ele se preparou para encarar o dia.
— Sim sim, estou acordado.
Sua voz parecia estranha, as cordas vocais tensas, roucas e estalando. Mal teve tempo de perceber o quanto soava de ressaca quando Ivana apareceu, estalando a língua.
— Quanto você bebeu? Seu bobinho!
Won gemeu novamente, forçando-se a dar uma explicação.
— Apenas… algumas coisas aconteceram. Estou bem.
Ele claramente não estava bem, e sua voz foi sumindo em vergonha enquanto Ivana observava a camisa social e a calça com que ele havia desmaiado. Ele podia sentir cada ruga da roupa contra sua pele excessivamente sensível.
— Bem, descanse hoje. Vou trazer um chá para você — disse Ivana ao sair — Bebendo até passar mal e pra quê? Tsc.
A voz dela se perdeu enquanto descia as escadas. Logo ela voltou com uma caneca de chá com mel, mas Won já tinha voltado a dormir.
Um estrondo alto acordou Won de sobressalto. Ele franziu a testa, ainda atordoado de sono, mas outro baque violento e os gritos da Sra. Ivana o fizeram pular da cama — para seu arrependimento imediato. Tudo girava. Ele conteve um palavrão ao bater a cabeça no chão. O barulho horrível ainda vinha do café, então ele se forçou a levantar e correu para fora do quarto.
Descendo os degraus de dois em dois, Won irrompeu no café.
— Sra. Ivana! A senhora está—
Ele congelou, completamente despreparado para a cena diante de si.
Era um caos absoluto.
Todo o café estava destruído. Cadeiras sem pernas balançavam inutilmente no chão, mesas estavam partidas ao meio e viradas, cacos de xícaras e pratos cobriam o piso, e os clientes estavam o mais longe possível, com expressões apavoradas.
Os homens no centro da destruição se viraram para olhar Won, e foi então que ele percebeu que Ivana estava tentando impedir fisicamente os brutamontes.
— Sra. Ivana! — gritou Won, puxando-a cuidadosamente, mas com rapidez, e colocando-a em segurança atrás dele.
Então, encarando diretamente os homens, ele gritou:
— Ei! Que diabos vocês acham que estão fazendo!?
Os homens trocaram olhares entre si.
— Você é aquele advogado — comentou um deles.
Won se enrijeceu, mas teve que saltar para tentar agarrar Ivana.
— Brutos miseráveis e idiotas! Deixem a gente em paz! Tirem as mãos dele! —
gritou Ivana quando o homem mais próximo ergueu o punho para silenciá-la.
Won puxou Ivana para longe e cravou o pé no estômago do homem.
— Parem! Animais nojentos! Eu já disse, parem com isso! — Ivana continuava a gritar.
Foi então que Won notou Nikolai estirado no chão. Ele analisou o ambiente. Havia cinco capangas destruindo o café. Todos os clientes estavam aterrorizados demais para intervir. Dois dos homens estavam vindo em sua direção enquanto os outros continuavam a destruir tudo o que viam.
A mente de Won fervilhava. Os homens estavam quase em cima dele, e ele não tinha aliados. Ele fez a única coisa que podia.
— Venham, seus covardes de merda.
Seu punho acertou um maxilar, conectou com costelas, esmagou uma órbita ocular. Os homens caíram quase sem um gemido, cuspindo dentes de lábios partidos. Won passou por cima deles, indo em direção aos outros, quando uma mão agarrou seu ombro. Quase sem interromper o movimento, ele se virou e fez o homem cambalear de volta para o chão.
De repente, Ivana gritou:
— Não! Você não pode!
Um dos homens segurava um bule de chá, prestes a arremessá-lo. O maxilar de Won se contraiu, e ele avançou, braços estendidos para tentar salvá-lo, mas outro capanga o derrubou e então já era tarde demais.
Com um estrondo agudo, o bule se estilhaçou em mil pedaços.
Por um momento, tudo o que Won conseguiu ver foi o rosto de Ivana, pálido como um fantasma e cheio de desespero.
Mas logo os brutamontes de antes se levantaram e começaram a cercá-lo novamente. Won rangeu os dentes e deixou os punhos falarem por ele.
✦ ✦ ✦
Os malfeitores haviam acabado de partir. Não era comum Won sair em perseguição a criminosos em fuga, desferindo socos e chutes sempre que conseguia; mas, por eles, ele abriu uma exceção. Chegou a correr cem metros atrás do carro em fuga, mas desistiu quando o veículo acelerou, colocando as mãos nos joelhos, respirando com dificuldade, os olhos fixos no carro até ele desaparecer na distância.
Ele voltou cambaleando para o café. Observar a destruição no silêncio que se seguiu tornou a experiência ainda mais sombria do que já estava. Não havia restado nada.
Ivana estava curvada, mãos enrugadas segurando um pedaço do bule de chá despedaçado. Won sabia que fora um presente de casamento de seu marido. Era uma das poucas coisas que ela ainda tinha dele após sua morte.
Sempre tão autocontrolada desde que a conhecera, Ivana parecia incrivelmente pequena e quebrada, curvada sobre si mesma, cercada por destroços. Lágrimas silenciosas escorriam por suas bochechas, manchando mãos trêmulas.
Os olhos de Won se voltaram para Nikolai, com sua esposa chorando enquanto se agarrava a ele, e algo dentro dele se quebrou.
Pegando um casaco, Won saiu do café com passos decididos. Havia apenas um lugar para onde queria ir, pois só conhecia uma pessoa capaz de ter feito aquilo. E aquilo era algo que ele jamais perdoaria.
Para muitos russos, uma bebida era tida como sagrada acima de todas as outras: o chá. Com séculos de tradição e muitos consumindo várias xícaras por dia, alguns o consideravam a bebida nacional. Caesar provavelmente era um deles.
O aroma intenso de uma boa xícara pairava no ar do seu escritório. Ele considerava o chá da manhã uma parte integral da sua rotina diária, e a qualidade da bebida geralmente determinava seu humor para o resto do dia. Tirando o paletó do terno, revelou um colete perfeitamente passado e entregou o casaco a Urikh.
Urikh observou Caesar enquanto ele se sentava, pegava sua xícara e sentia o aroma.
— E como está hoje, Czar? — perguntou Urikh com cautela.
Após um momento, Caesar deu um gole e permitiu que o sabor se espalhasse pela boca antes de engolir. A leve tensão ao redor dos olhos desapareceu – e essa era toda a resposta que Urikh precisava, mas Caesar ainda assim fez um comentário simples:
— Ludmila nunca decepciona.
“Exceto que ela é péssima em todo o resto,” pensou Urikh com sarcasmo. A mulher esquecia constantemente de passar recados importantes, qualquer coisa que escrevia ou digitava vinha cheia de erros, e fazê-la organizar a agenda de Caesar era como arrancar dentes. Mas havia uma coisa que ela sabia fazer: preparar o chá exatamente como Caesar gostava e por isso, ela continuava ali.
Urikh até admirava isso, de certo modo. Ela era uma péssima secretária, mas suas habilidades com o chá garantiam manhãs pacíficas para todos no escritório.
Ainda assim, o humor do Czar parecia especialmente bom naquele dia. Provavelmente por causa do balé, suspeitou Urikh. Achou que aquele fosse um bom momento para perguntar sobre o advogado e se preparou para isso.
Mal sabia ele que estava prestes a descobrir – gostasse ou não.
O som da porta se abrindo atraiu os olhares de Urikh e Caesar. Era Ludmila. Urikh ficou imediatamente alerta. Apesar de sua habitual inépcia, nem mesmo Ludmila ousaria entrar no escritório do Czar sem ser chamada.
Algo havia acontecido – e a palidez esverdeada de seu rosto confirmava isso.
— T-t-tem alguém aqui—
A pobre mulher estava obviamente à beira das lágrimas e tomada pelo medo. Uma figura alta apareceu atrás dela, e Urikh percebeu que o homem – o advogado – pressionava algo contra suas costas.
— Ei! O que—
Urikh queria perguntar ao advogado o que diabos ele achava que estava fazendo, mas Won se afastou de Ludmila antes que ele pudesse terminar, revelando que sua “arma” era uma grande caneta-tinteiro.
A constatação de que ela não estava sendo ameaçada com uma arma de fogo só fez com que Ludmila ficasse ainda mais angustiada. Pálida e trêmula, olhou para Caesar, com medo de ser punida por permitir que alguém a intimidasse com uma simples caneta.
— Peço desculpas pela entrada dramática, — disse Won, inclinando a cabeça.
Ludmila ficou ainda mais aflita, mas Won apenas encarou Caesar por baixo das sobrancelhas.
— Mas eu precisava vê-lo.
Urikh tentou intervir, mas Caesar começou a falar antes que ele pudesse.
— E por que seria isso, tão cedo pela manhã? — perguntou, com a voz sempre despreocupada.
Won se endireitou.
— Temos algo a discutir, — disse em tom seco.
— Quem é esse fi-— começou Urikh, mas Caesar o cortou novamente.
— Chá para nosso convidado, Ludmila.
Caesar lançou um olhar de soslaio para Urikh. Estava claro que ele também estava dispensado, junto com Ludmila.
Urikh hesitou por um momento, mas não podia fingir que não tinha entendido. Colocando um braço sobre os ombros de Ludmila, conduziu-a para fora da sala.
A porta se fechou com um clique, deixando Caesar e Won a sós.
Caesar permaneceu em sua cadeira, elegante em sua camisa abotoada e colete. Apontou para um sofá confortável ao lado. Won ficou parado por um momento, depois cedeu em silêncio e se sentou.
Logo depois, Ludmila voltou com o chá, visivelmente mais calma. Won tentou sorrir, sentindo-se culpado, mas os olhos inchados e avermelhados de Ludmila mal se voltaram para ele antes que ela saísse apressada.
— Começar o dia com uma xícara de chá é um dos prazeres simples da vida, — comentou Caesar, erguendo a xícara e tomando um gole, uma expressão satisfeita no rosto.
Ele olhou para Won como se esperasse que o advogado também bebesse, mas Won apenas o encarou impassível. A única emoção que transparecia era o ódio ardente em seus olhos.
Algo estava errado, e Caesar percebeu. Primeiro, Won invadira seu escritório após enganar uma secretária indefesa; e agora, olhando mais de perto, parecia completamente desleixado. Os ternos de Won nunca foram caros, mas ele sempre estivera bem arrumado. Agora, sua camisa e calça estavam amassadas e manchadas; claramente pegara um casaco que não era dele e nem se dera ao trabalho de abotoá-lo, tampouco usava uma ushanka para proteger a cabeça do frio; e seus cabelos estavam espetados em ângulos caóticos na parte de trás. Era como se tivesse saído correndo da cama direto para o escritório de Caesar, sem nem se olhar no espelho. (Ushanka = Gorro com orelha para inverno russo)
O nível de desordem fez Caesar se perguntar se houvera algum tipo de desastre natural e ele não soubera. Estudou Won mais de perto. Um grande hematoma se formava de um lado do rosto bonito do advogado e havia sangue salpicado em seus nós dos dedos. A descoberta causou rugas leves na testa de Caesar. “Será que o advogado havia se envolvido em uma briga de rua?” E isso menos de vinte e quatro horas depois de terem se visto pela última vez.
Caesar afastou seu olhar, voltando casualmente ao tópico inicial.
— Não é particularmente caro, mas esse chá é divino quando bem-preparado. Ludmila acerta em cheio nunca conheci outra pessoa que pudesse dizer o mesmo. — Ele sorriu.
— É sua única habilidade, francamente; mas tolero sua atrapalhação por causa do chá. Incrível como um único talento pode redimir uma pessoa.
Won olhou para Caesar, perturbado demais para fazer qualquer outra coisa. O homem arruinara várias vidas em apenas algumas horas, e ainda assim queria ficar tagarelando sobre chá, agindo como se nada tivesse acontecido. “Como alguém pode ser tão cruel?” pensou Won com desprezo.
“Mas, pensando bem,” concluiu amargamente, “isso provavelmente faz parte da descrição de trabalho de um chefe da máfia.”
Caesar continuava falando, mas Won já não o ouvia mais.
— Não estou aqui para conversar sobre chá — interveio com frieza.
Caesar o encarou sobre a borda da xícara. O advogado não parava de lançar olhares furiosos desde que entrara. Caesar deu mais um gole demorado e então pousou a xícara.
— Isso é tão importante que você não pode nem dedicar tempo ao chá? — lançou um olhar intencional para a mão de Won, ainda fixada na xícara intocada.
Won devolveu o olhar com obstinação.
— Muito bem. O que é? — cedeu Caesar, com um leve desdém na voz.
Won começou a morder o lábio, ciente de que Caesar estava julgando sua aparência desleixada. Caiu-lhe a ficha de que estava sentado diante de um homem que poderia cometer um assassinato a sangue frio e, logo depois, voltar para tomar chá em seu terno impecável, tudo com a mesma serenidade assustadora.
Won largou o lábio antes que o machucasse ainda mais e se preparou.
— Eu já sabia até onde você iria para manter seu precioso conselheiro sob controle, — começou com frieza.
— Mas trazer violência contra inocentes, destruir toda a vida e sustento de uma mulher idosa, é algo que não posso tolerar.
Os olhos de Won brilharam de ódio.
— Nós vamos enfrentá-lo até o fim. E vamos vencer. Isso não acabou.
Caesar piscou, perplexo.
— Violência? — perguntou após um tempo.
Won ergueu o queixo e zombou.
— Você não engana ninguém.
Caesar franziu o cenho, completamente confuso. Nada do que Won dissera ou fizera fazia sentido.
— Você está se referindo a um sonho que teve? — arriscou Caesar, o tom calmo em contraste gritante com a hostilidade de Won.
— Como é? — Won se enrijeceu, então arregalou os olhos com incredulidade indignada.
— Presumi que tenha tido um sonho realista demais, e por isso entrou aqui gritando incoerências. Preciso admitir: nunca presenciei algo assim, — disse Caesar despreocupadamente.
— Você realmente me abriu os olhos sobre os mundos diferentes em que vivemos. É fascinante o que um profissional jurídico respeitado como você considera digno de seu tempo.
Caesar estreitou os olhos e disse com indiferença carregada:
— A não ser… que isso tudo seja uma jogada desesperada porque você acha que não pode vencer.
Won soltou um grito de protesto, caindo completamente na manipulação de Caesar.
Antes mesmo de perceber, pegou a xícara e atirou o conteúdo contra o diabo à sua frente. Tudo o que conseguia pensar era o quanto o odiava, odiava o deboche escondido em cada olhar, cada palavra. Queria ver as gotas escorrerem pelo rosto imperturbável de Caesar, deixar manchas em sua fachada impecável.
Até que Caesar se levantou.
Então Won voltou a si.
Mas era tarde demais.
Como uma espécie doentia de déjà vu, ele assistiu em câmera lenta enquanto Caesar desviava do chá, o mesmo sentimento de pavor o preenchendo como da primeira vez que se encontraram. Exceto que, dessa vez, Caesar agarrou o antebraço de Won e o torceu para trás, empurrando-o de bruços no sofá.
Arfando de dor, Won recuou quando sentiu Caesar se inclinar sobre ele, a mão livre apoiada nas costas do sofá, o peso do outro pressionando-o ainda mais fundo nas almofadas.
— Alguém tem um temperamento ruim — Caesar falou com desdém lá de cima.
Won se debatia e chutava, tentando se libertar.
— Sai de cima de mim, caralho! Filho da puta, covarde de merda!
Caesar estalou a língua.
— Linguagem tão imunda. Vou ter que punir quem te ensinou isso.
— Por que eu não estou surpreso? Sua vida inteira é só violência e chantagem! Ver Won lutando tão bravamente debaixo dele fez Caesar sorrir.
— Você realmente acabou de sair da cama.
Won congelou.
A mão apoiada no sofá deslizou até a parte de trás da cabeça de Won, gentilmente afastando os fios rebeldes do cabelo para o lugar.
— Ainda está usando o terno de ontem. Posso sentir o cheiro do álcool nele.
— E o que diabos isso importa?! — Won voltou a se debater, protestando com veemência, mas Caesar continuou falando como se não ouvisse nada.
— O cheiro de uma pessoa é mais forte logo depois que ela acorda.
Caesar se inclinou, pressionando o nariz nos cabelos de Won enquanto sussurrava:
— Agora eu conheço o seu cheiro.
Caesar respirou fundo, demorando-se, como se quisesse saborear aquele momento.
Won ficou tenso com a primeira inalada, emudecendo. No silêncio do escritório, o único som era a respiração constante de Caesar. Para dentro e para fora. Não havia nada que distraísse da sensação do corpo de Caesar sobre o dele. Ele ainda estava de casaco, mas podia sentir distintamente cada parte de Caesar pressionando-o.
Com ele inclinado para frente, Won podia sentir Caesar ainda com o rosto próximo á seu pescoço, até que foi surpreendido por uma mordida em sua orelha, deixando escapar um gemido mudo.
Uma mão deslizou pelas costas de Won, empurrando o tecido do casaco que os separava. Caesar moveu os quadris para frente, e Won poderia muito bem estar nu, de tanto que as calças abafavam pouco a sensação. Não havia como confundir o que estava pressionando insistentemente contra seu traseiro.
Caesar se mexeu, envolvendo novamente o topo da orelha de Won com a boca. Seus lábios roçaram a pele de Won quando sussurrou:
— Abra as pernas.
Won observou de canto de olho enquanto o olhar de Caesar escurecia, uma intensidade perigosa aflorando logo abaixo da superfície. Uma besta mais bela que qualquer anjo o tinha em suas garras, e ele sentia seu toque em cada osso, cada célula, enquanto os dentes da criatura roçavam sua carne. O corpo acima dele o queimava com seu calor, e ele sentia o membro rígido pulsar com desejo contra si.
Ele estava num precipício, e sabia o que viria em seguida, o que Caesar planejava fazer com ele. Lentamente, virou a cabeça, tentando encontrar o olhar de Caesar.
Olhos prateados o encaravam diretamente.
Tanto decepção quanto satisfação passaram pelo rosto de Caesar quando seus olhares se encontraram. Não havia um traço de medo no olhar de Won. Em vez disso, ele estava furioso, as sobrancelhas elegantes franzidas em desdém.
— Isso te excita? Empurrar as pessoas, fazer o que quiser com elas? — Ele zombou com seu nojo evidente.
Não teve nenhum efeito sobre a luxúria predatória que tingia os olhos de Caesar enquanto ele o encarava. Quando falou, sua voz era baixa e perigosa.
— Pobre advogadinho. Você teve uma manhã difícil.
Sua mão deslizou pela cintura de Won.
— Mas você é bonito demais para estragar.
Won bufou alto.
— Então você só fode qualquer um que te chame atenção? Deve ser conveniente não deixar que eles te digam não.
Impassível, Caesar levantou o queixo de Won com um dedo longo e passou o polegar pelo lábio inferior dele.
— Coberto de sangue, você seria deslumbrante.
O polegar parou sobre um dos pontos em que Won havia mordido até ferir, aplicando uma leve pressão na carne machucada até começar a ficar mais vermelha. Focado no sangue que surgia, o olhar de Caesar escureceu, um gemido depravado escapando de sua garganta. Ele pareceu se aproximar ainda mais; Won podia sentir sua respiração fria sobre a mancha vermelha que se espalhava pelo lábio.
— Imagine como você seria deslumbrante coberto com meu esperma.
— É melhor você imaginar o próprio funeral, então.
Ao invés de provocar seu captor, a resposta de Won arrancou apenas uma risada. Então, de repente, o peso sobre o corpo de Won se dissipou e seu braço foi solto. Ele se afastou antes mesmo de perceber, os olhos atentos fixos em Caesar mesmo enquanto recuava.
Mas era como se os últimos minutos jamais tivessem acontecido, a fachada serena de Caesar retornava como um estalo. Ele pegou o humidor sobre a mesa e retirou um charuto.
— Vamos voltar ao assunto. Aconteceu algo no café? — perguntou friamente enquanto cortava e acendia o charuto.
Won fervia de ressentimento e agitação enquanto o encarava.
— Você saberia melhor do que eu.
— Eu saberia? E por quê?
O olhar se transformou em uma carranca temível.
— Por que não saberia? Você está protegendo Zhda… nov… — Ele parou, um calafrio gelado de dúvida descendo pela espinha. “E se não fosse ele?”
— É por isso que seu rosto está todo machucado?
A boca de Won se fechou imediatamente. O hematoma era de quando bateu a cabeça no chão ao tentar sair da cama, não de uma briga. Era um segredo que levaria para o túmulo.
— Está dizendo que não foi você? — Won contornou.
Percebendo imediatamente a evasiva, o olhar de Caesar se aguçou.
— Não sei. Foi? — Ele se recostou na cadeira. — Eu esperaria que a pessoa que invade meu escritório quando bem entende só interromperia minha manhã se tivesse provas irrefutáveis para suas acusações.
O pânico começou a crescer no peito de Won, e ele tentou se acalmar.
Não havia razão para vacilar. Não agora. Mas aquela pontada incômoda de dúvida só aumentava.
— Só me diga, — ele disse rapidamente, querendo acabar logo com aquilo. — Foi você ou não?
Uma longa pluma de fumaça jorrou da boca de César; Won franziu o nariz ante o cheiro fedorento que se espalhava.
— E se eu disser que sim? O que faria, então?
— Processaria você.
— Sua prova?
Won enrijeceu.
— Você deveria saber melhor do que eu que fazer acusações sem causa provável é considerado difamação. Um pouco difícil condenar alguém com base apenas nos seus sentimentos. Então vamos lá. Quero todas as suas evidências de que fui eu quem solicitou o que quer que tenha ocorrido, e seu relato dos fatos.
De alguma forma, a situação havia se virado contra ele, e Won ficou desnorteado.
Ver o advogado se contorcer trouxe um sorriso aos lábios de Caesar.
— Tsk, tsk, advogadinho. Uma alegação tão fraca jamais se sustentaria em tribunal.
Caesar estava certo e Won não podia negar. Um erro tão amador era um golpe esmagador em seu orgulho. Ele, de todas as pessoas, deveria saber melhor, mas havia deixado suas emoções nublarem seu julgamento.
Respirou fundo e aceitou a derrota.
— Peço desculpas pela intromissão.
Fez uma reverência, parecendo muito mais consigo mesmo.
— Me certificarei de estar devidamente preparado na próxima visita – Sua voz estava desprovida de emoção. Jogando um adeus superficial, ele se preparou para sair.
— Advogadinho.
Os passos de Won hesitaram, rezando para que Caesar não falasse sobre o que ele achava que viria. Virou-se. Caesar estava encostado na mesa.
— Quando alguém vier atrás de você, hematomas e lábios rachados serão o menor dos seus problemas. Perder uma orelha ou uma córnea será apenas o começo. As vezes você pode morrer por isso.
A voz de Caesar mantinha aquela serenidade inalterada, alheia às insinuações de assassinato em seu ‘conselho’, alheia a tudo. E Won refletiu que, num certo sentido, era verdade – aquilo realmente nada lhe dizia respeito. César jamais conheceria a condição de vítima. Será que existiria, em algum lugar, alguém capaz de dominá-lo?
— Imagino que prefira abrir as pernas do que viver aleijado. Mas é sua escolha. — Ótimo, — Won retrucou, perguntando á Caesar — Então escolha: frente a frente com um leão faminto ou amarrado e enterrado vivo?
Caesar o encarou, então de repente começou a rir.
— Que intrigante. Não é uma escolha da qual se pode voltar atrás.
— Me avise quando decidir. Te direi minha resposta então, — disse ele friamente a
Caesar e se virou para sair de vez.
Só voltou a olhar quando teve de fechar a porta. Do outro lado, Caesar continuava a observá-lo, apoiado na secretária. Os seus olhos cruzaram-se uma última vez — e então, com um gesto teatral, Caesar ergueu a mão num adeus deliberadamente carinhoso, escarninho até ao fim, até que o clique da porta o apagou da vista de Won.
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Caesar, chamou Urikh.
— Você está ferido? Aconteceu alguma coisa? Por que aquele advogado desgraçado continua… —
— Urikh. —
Urikh congelou. Tinha voltado correndo assim que soube que o advogado havia partido, meio desesperado com a possibilidade de o Caesar ter se machucado em sua ausência.
— Quero que você siga Zhdanov. Descubra o que ele está tramando — ordenou Caesar calmamente.
— Conselheiro Zhdanov? — A pergunta de Urikh ficou sem resposta enquanto Caesar tragava seu charuto.
“Ele pede minha ajuda e depois me apunhala pelas costas.”
Através das serpentinas ondulantes de fumaça, um par de olhos cinzentos espectrais se estreitou com um brilho sinistro.
Continua…
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✦ Tradução, revisão e Raws: Belladonna
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Sinopse:
O advogado de direitos civis Lee Won atua na Rússia, defendendo clientes de baixa renda que não teriam acesso a um jurista. Um dia, ele visita o vereador Zhdanov para interceder por seu cliente Nikolai. Won desconhece que o político tem ligações com a máfia russa — até se deparar com César durante a reunião. E aquele homem de olhos prateados e cinzentos… era o mesmo com quem Won quase colidira na rua dias antes! Algo fora do comum está prestes a acontecer quando ele conhece César Aleksandrovich Sergeyev, o homem que em breve liderará um dos grupos mafiosos mais temidos do país.