Ler Roses And Champagne (Novel) – Capítulo 03 Online

Capítulo 3
Won desceu para o café mais cedo do que de costume na manhã seguinte. Tinha conseguido encaixar algumas horas de sono ao amanhecer, depois de passar a noite preparando tudo para o caso de Nikolai.
— Você acordou cedo — observou a senhora Ivana enquanto colocava pão e chá para o café da manhã.
Won assentiu com a cabeça.
— Há algumas coisas que preciso resolver, e estarei ocupado com o caso do
senhor Kuznetsov esta tarde.
— Coisas? Ah… coisas. — Ivana lançou-lhe um olhar sugestivo e compreensivo.
Won inclinou levemente a cabeça em sinal de reconhecimento. Não havia motivo para disfarces. Ivana sabia por que ele tinha vindo até a Rússia.
— Finalmente encontrei alguém de quem minha mãe costumava alugar quarto. Vou
conferir o endereço.
Ivana voltou sua atenção ao pão.
— Espero que você encontre alguma coisa desta vez.
Won deu um sorriso irônico.
— Eu também espero.
Os dois comeram em silêncio, e Won ficou imerso em seus próprios pensamentos. Já haviam se passados mais de trinta anos. Won sabia, com realismo, que aquilo provavelmente seria mais um beco sem saída. A única coisa que tinha à disposição era um primeiro nome compartilhado por milhares de pessoas. As chances eram mínimas. E, ainda assim, Won parecia incapaz de desistir da ideia de que talvez, só talvez, um milagre pudesse acontecer.
“Se eu criar expectativas agora, só vou acabar decepcionado.” Então concentrou toda a sua atenção em mastigar cuidadosamente o pão simples.
✦ ✦ ✦
O gabinete do vereador ficava em um prédio novíssimo, em uma área nobre da cidade. O nome do distrito por si só já passava uma impressão de poder — o nome do vereador, ainda mais. Encontrar alguém na Rússia que não tivesse ouvido falar dele seria uma tarefa digna de Sísifo. Zhdanov exercia uma influência imensa — financeira, política e tudo o que houvesse entre essas duas coisas.
Mas ele não seria nada sem o homem que o ajudou a chegar ao topo.
— Então, — começou o vereador animadamente, — houve algum progresso? De acordo com Urikh, tudo está indo conforme o planejado.
A tentativa de despreocupação por parte de Zhdanov apenas tornava suas intenções ainda mais evidentes.
Em vez de responder, Caesar manteve o charuto entre os lábios e puxou uma tragada profunda. A luz difusa da manhã invadia pelas janelas reluzentes do escritório, projetando longas sombras sobre seus sapatos oxford impecavelmente lustrados e sob medida.
Caesar já estava sentado no escritório há vinte minutos e ainda não tinha pronunciado uma única palavra. Nem mesmo pretendia comparecer àquela reunião, mas Zhdanov havia insistido, e Caesar queria deixar bem claro o seu desagrado por ter sido convocado sem um bom motivo.
Zhdanov passou toda a hora que levou para o charuto de Caesar queimar em tentativas desesperadas de puxar conversa.
— Devo muito ao Sasha, — tentou, em certo momento. — Arrisco dizer que fomos essenciais para o sucesso um do outro.
A referência descarada ao pai de Caesar não passou despercebida, mas ele não viu motivo para reconhecer um comentário tão irrelevante.
Zhdanov estava ficando cada vez mais frenético a cada minuto, mas não tinha uma forma fácil de resolver a situação. Caesar não era alguém que se podia comprar ou ameaçar — toda a Rússia sabia que cruzar seu caminho significava que seu cadáver seria encontrado dentro de uma hora. Zhdanov teria que agir com delicadeza e se curvar aos caprichos de Caesar se quisesse ter alguma chance de conseguir o que queria.
— Tenho certeza de que Sasha concordaria que sou um homem de palavra. Estou confiante de que essa transação vai valer o esforço, então eu apreciaria sua ajuda.
Mas nem mesmo um pedido tão direto teve efeito sobre Caesar, que continuou tão silencioso quanto antes.
Tomado pela apreensão, Zhdanov finalmente falou abertamente:
— Vamos lá, Czar… você não pode me ignorar para sempre. Preciso de uma
resposta e não quero perder mais tempo sentado aqui.
A explosão de Zhdanov apenas levou Caesar a levar o charuto de volta à boca e soltar uma longa corrente de fumaça. A maneira ameaçadora como ela cortou o ar fez um arrepio percorrer a espinha de Zhdanov. Quando a fumaça se dissipou, Caesar finalmente voltou seu olhar para ele, sua expressão tão dura e impenetrável quanto sempre.
— Sou um homem ocupado, vereador Zhdanov… e, ainda assim, parece que me chamou aqui apenas para assistir a um chilique.
— Como é que é? — A pura arrogância com que Caesar lhe dirigira a palavra quase fez Zhdanov perder o controle, mas Caesar continuou falando antes que o vereador pudesse iniciar sua resposta exaltada.
— Se esse trabalho era algo que você não conseguia lidar, não devia ter aceitado. Não estaria pedindo favores se acreditasse no contrário. Estou certo?
— S-sim, mas… — Zhdanov pareceu hesitar antes de acrescentar:
— Peço desculpas. Deixei minhas inseguranças falarem mais alto. Houve um
desenvolvimento que complicou as coisas, mas sei que você não teria dificuldade em resolver o problema.
— Ah. O advogado. — Caesar levou o charuto de volta à boca com indiferença.
✦ ✦ ✦
O elevador soou um ding para anunciar sua chegada. Won levantou os olhos quando as portas se abriram, revelando um interior surpreendentemente limpo e extremamente espaçoso. Tanto o prédio novo quanto o elevador de última geração estavam a anos-luz de distância do lar decadente que ele dividia com a Sra. Ivana.
Segurando um envelope pardo lacrado, Won entrou e apertou o botão do seu destino, estudando seu reflexo na frieza estéril das paredes metálicas enquanto o elevador subia. Tanto seu terno quanto seu cabelo estavam impecáveis. Tinham que estar, para algo como aquilo – e em dobro, quando se tratava de alguém tão influente na cidade.
Won passara dias revisando aquele caso com Nikolai. A maioria das conversas se resumia a Nikolai repetindo que sua obra de vida, sua fábrica, estava sendo tomada, mas os documentos que alegavam posse eram falsificações grosseiras. Um caso aberto e encerrado, se é que existia um.
Mas, claro, nada era tão simples assim. Alguém poderoso devia estar mexendo os pauzinhos para que algo tão gritante quanto contratos mal falsificados funcionasse. Alguém com influência suficiente para fazer todos fecharem os olhos diante de seus crimes.
Entra em cena: Georg Zhdanov – ex-agente da KGB e atual vereador da cidade. Com seus recursos ilimitados e vasta rede de conexões, a corrupção do Vereador Zhdanov corria solta. Não havia dúvida de que ele poderia se safar com contratos fajutos – quem iria impedi-lo? Won não tinha expectativa nenhuma de ganhar o caso, mas a pura injustiça da situação o motivava ao menos a ajudar Nikolai a lutar.
O som suave do elevador tocou mais uma vez, e as portas se abriram. A mesma opulência estéril saudou Won quando ele entrou no corredor, e ele nem se incomodou em esconder o desgosto pela ostentação do ambiente de trabalho de Zhdanov. Era provável que o homem tivesse acumulado toda aquela riqueza por meio de corrupção.
Notando sua aproximação, a secretária do vereador se levantou para recebê-lo.
— Boa tarde, senhor. O senhor tem horário marcado?
— Não, mas estou aqui para ver o Vereador Zhdanov. Tenho alguns assuntos a tratar com ele. Pessoalmente.
O som de uma batida à porta chamou a atenção de Zhdanov. Sua secretária se inclinou, parecendo desconfortável.
— Sinto muito, senhor, mas há alguém aqui para vê-lo.
— Para me ver?
A secretária ficou ainda mais nervosa.
— E-eu, bem—
Uma voz confiante e clara surgiu por trás da secretária.
— Peço desculpas, Vereador. Estava sob a impressão de que qualquer residente da cidade tem o direito de se comunicar com seu representante eleito. — Um homem passou pela secretária e entrou pela porta. — Certamente o senhor não dispensaria um de seus eleitores?
Uma expressão azeda passou pelo rosto de Zhdanov antes que ele conseguisse controlá-la de volta à neutralidade.
Won deu ao homem seu sorriso mais encantador.
— Desculpe por invadir assim, mas eu simplesmente precisava garantir que o senhor recebesse isto o quanto antes… Ah.
Sua ousadia vacilou. Havia outra pessoa na sala – um homem, recostado em um divã, banhado por um halo de luz do entardecer, os cabelos loiros cintilando como prata sob o brilho.
O homem estava com uma perna cruzada sobre a outra, um charuto grosso entre os lábios. E estava olhando diretamente para Won.
Íris cinzentas, meio escondidas por um olhar estreito e penetrante – mas Won o reconheceu imediatamente. Talvez não soubesse o nome do homem, mas ninguém esqueceria alguém tão marcante. A sensação de estar encurralado por um lobo espreitando na taiga siberiana era a mesma de seu primeiro encontro acidental. A onda de apreensão inquietante inundando seus sentidos também era idêntica.
Segundos se passaram em um silêncio sufocante. Won finalmente quebrou o impasse.
— Vejo que cheguei em um momento ruim. Vou apenas lhe entregar isto e já estarei de saída.
Sua voz grave e melodiosa soava firme e forte enquanto rompia o silêncio opressivo. Ele também fingiu indiferença aos olhos lupinos fixos nele e até se endireitou um pouco mais ao se aproximar da mesa de Zhdanov, um sorriso radiante no rosto.
— Se me permite, Vereador, — disse Won, brandindo o envelope pardo. — Como não obtive resposta ao entrar em contato com seu escritório, tomei a liberdade de iniciar os procedimentos judiciais por conta própria. Isto — ele retirou um formulário do envelope e o colocou diante de Zhdanov — é a intimação oficial. E isto — outro formulário — é a ordem de cessar e desistir.
Won tinha certeza de que Zhdanov estava usando toda sua força de vontade para manter a expressão neutra – mas o olhar assassino o denunciava. E, em vez de se intimidar, Won se sentiu encorajado com a facilidade com que o vereador se desestabilizava, e sorriu abertamente, esperando realmente se enfiar sob a pele do desgraçado.
Zhdanov, por sua vez, percebia que estava sendo provocado, e sua mandíbula se movia enquanto a raiva crescia.
— Você acha que pode brincar com os grandões, advogadinho?
A tentativa óbvia de intimidação apenas fez o sorriso de Won se tornar ainda mais radiante.
— Ora, ora… alguém tão importante quanto o senhor, Sr. Zhdanov, certamente está mais bem informado sobre o caso do que um reles advogado como eu. Isso só significa que não teremos que perder tempo resolvendo essa confusão, não é mesmo?
Uma veia saltou na testa de Zhdanov, e Won se parabenizou mentalmente por um trabalho bem-feito. “Provavelmente deveria checar a pressão dele.” Embora ele não se importasse particularmente se Zhdanov tivesse um derrame por hipertensão; só seria um incômodo ter que esperar isso ser resolvido.
Sentindo-se confiante de que sua mensagem havia sido passada, Won decidiu que era hora de sair. Mas mal virou a cabeça e foi imediatamente detido pela visão de longas pernas cruzadas com indolência aristocrática, fumaça de charuto e o olhar prateado e penetrante de Caesar.
Won havia colocado toda sua atenção em provocar Zhdanov, então não notara o modo como o olhar predatório o acompanhara desde o momento em que entrara.
Porém, agora, Won não tinha mais desculpas para ignorar o misterioso convidado do vereador, e o homem o observava com uma intensidade abrasadora. Não havia como fingir que Won não quase esbarrara nele no meio da rua ou esperar que um sorriso envergonhado fosse suficiente. Os olhos do homem já haviam se estreitado, indicando que ele sabia que Won o reconhecera.
Won supôs que poderia simplesmente ir embora – realmente, nada o impedia. Mas o pensamento mal lhe passou pela mente antes que ele se lançasse em uma apresentação completa, com direito a cartão de visitas puxado do bolso do paletó.
— Acho que ainda não fomos apresentados. Sou Won. Lee Won. Imagino que o senhor já tenha deduzido minha profissão. — Estendendo o cartão, Won acrescentou com um sorriso: — Prazer em conhecê-lo.
Ele decidiu seguir pelo caminho seguro e não reconhecer o encontro anterior. Eles haviam interagido, no máximo, por sessenta segundos, então não podia ter certeza se o outro homem sequer se lembrava dele – tampouco se importava. O que importava, porém, era descobrir a identidade de alguém que podia simplesmente se sentar no escritório do vereador Zhdanov, sem sequer se mover quando Won entrou sem avisar, e então observá-lo como um falcão.
A única suposição que Won podia fazer era que aquele homem era um dos mafiosos por trás da ascensão de Zhdanov ao poder, e ele não tinha dúvidas de que estava certo. Dinheiro e poder sem laços com a máfia não existiam na Rússia. A única dúvida agora era de qual organização criminosa o homem fazia parte e qual era o seu papel.
E assim, Won permaneceu exatamente onde estava, deixando claro que não sairia até também receber uma apresentação.
— Caesar, — disse o homem simplesmente, ao entregar seu cartão de visita.
Um nome interessante. Won estudou o cartão, se perguntando se Caesar não seria originalmente de outro país, mas, ao levantar os olhos novamente, descartou a ideia na hora. O homem era, sem sombra de dúvida, russo. Ele esperou que Caesar dissesse mais alguma coisa, mas aparentemente, isso era tudo que Caesar pretendia lhe dizer. O charuto já estava de volta aos lábios, e seus olhos impiedosos ainda estavam cravados em Won através dos fios de fumaça.
Won decidiu sair com elegância em vez de se ofender. Inclinando a cabeça para Caesar e Zhdanov, saiu do escritório do vereador. A porta se fechou com um clique, e Zhdanov e Caesar ficaram sozinhos novamente.
O silêncio durou exatos dois segundos antes de Zhdanov arremessar o envelope pardo do outro lado da sala, praguejando contra Won e sua audácia absurda. Então se virou para Caesar.
— Viu?! É com isso que estamos lidando! Acha que eu queria ter que pedir sua ajuda?! Está me ouvindo ao menos? Merda, Caesar! Se você não fizer alguma coisa, aquele merdinha vai arruinar tudo!
O nome verdadeiro de Caesar escapou dos lábios de Zhdanov antes que ele pudesse se controlar. Por sorte, Caesar não pareceu ter notado o deslize. Ele raramente prestava atenção em qualquer coisa que saía da boca de Zhdanov – se é que prestava alguma. Tinha coisas melhores a fazer.
Zhdanov pigarreou e tentou de novo.
— Olha, Czar. Claramente, esse cara vai ser um problema. Devíamos lidar com ele agora, antes que as coisas saiam do controle.
Mas nem mesmo um tom calmo e sincero provocou reação em Caesar. Ele permaneceu em silêncio até dar a última tragada em seu charuto, os olhos nunca se afastando da porta por onde Won desaparecera. Um sussurro distraído escapou de seus lábios com a última baforada de fumaça.
— Vamos ver.
Won deixou o escritório e seguiu direto para o banheiro no fim do corredor. Era extravagante e novinho em folha, como o resto do prédio, mas Won não se importou. Arregaçou as mangas e lavou o rosto com água fria até sentir que era ele mesmo de novo. Ao se encarar no espelho, percebeu um brilho maníaco nos olhos que normalmente não era tão evidente.
Soltou um longo suspiro pela boca e estalou o pescoço. Quando esticou a mão para pegar uma toalha de papel, congelou. Sua pele estava coberta de arrepios.
Foi então que ele finalmente reconheceu que Caesar o assustava.
Os arrepios voltaram com força enquanto a realização se cravava em sua consciência. Algo nas interações entre eles deixava Won sem chão. E ele não sabia explicar o motivo.
Esticou a mão de uma vez para pegar a toalha e secou rapidamente o rosto. Quando olhou novamente para o espelho, notou como estava pálido. Uma ruga de preocupação surgiu em sua testa.
“Isso não é bom.”
Continua…
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✦ Tradução, revisão e Raws: Belladonna
Ler Roses And Champagne (Novel) Yaoi Mangá Online
Sinopse:
O advogado de direitos civis Lee Won atua na Rússia, defendendo clientes de baixa renda que não teriam acesso a um jurista. Um dia, ele visita o vereador Zhdanov para interceder por seu cliente Nikolai. Won desconhece que o político tem ligações com a máfia russa — até se deparar com César durante a reunião. E aquele homem de olhos prateados e cinzentos… era o mesmo com quem Won quase colidira na rua dias antes! Algo fora do comum está prestes a acontecer quando ele conhece César Aleksandrovich Sergeyev, o homem que em breve liderará um dos grupos mafiosos mais temidos do país.