Ler Passion – Novel – Capítulo 05 Online
Parecia que levaria cerca de uma hora para sair do porto e chegar à ilha.
Como era uma ilha remota, ele pensou que deveria ser intocada e desabitada, já que havia apenas um escritório filial por lá. Mas ela era surpreendentemente grande, então ele teve que pegar um ônibus a partir do píer da ilha e seguir por um longo caminho ao longo da praia.
O sol havia acabado de se pôr, então a floresta na ilha parecia ainda mais escura e estranhamente densa.
— Se aparecessem animais selvagens ou cobras venenosas por aqui, não seria nada estranho.
Jeong Taeui sussurrou, e seu tio assentiu calmamente.
— Tem muitas cobras venenosas, então à noite você deve olhar bem onde pisa. Mas não tem nada com que se preocupar. Não existe nenhum tipo tão tóxico que mate alguém na hora, então se você conseguir dar os primeiros socorros a tempo, não vai morrer.
Jeong Taeui olhou para ele sem saber o que dizer. Changin o tranquilizou novamente, dizendo para não se preocupar.
Parece que ele realmente veio para o lugar errado. Mesmo que seja só meio ano, ainda é tempo suficiente para alguém morrer injustamente. De qualquer forma, ele vai esperar até o próximo fim de semana, ir para a Ilha de Hong Kong e fugir. Mas Changin imediatamente o repreendeu.
— Ah, é verdade. Em pouco mais de um mês, ninguém poderá sair. O treinamento conjunto com a filial europeia começará em 15 dias. Em até 15 dias. Antes disso, é um período de treinamento especial, então sair está proibido. E durante o período de treinamento geral, também será proibido sair, então… Um mês vai passar rápido. Tomara que você se adapte a tempo nesse período.
Antes mesmo de se perguntar o quanto aquele tio conseguia ler seus pensamentos, mesmo que só por um instante, ele realmente teve vontade de estrangular aquele homem.
Jeong Taeui encarou o pescoço do tio com um certo arrependimento. De repente, sentiu um olhar sobre si, então olhou para o retrovisor e trocou olhares com o motorista. O motorista estreitou os olhos para ele, parecia apenas um sorriso passageiro.
Era o mesmo homem que o buscou no aeroporto. Será que ele dirigiu do aeroporto até o píer, depois pilotou o barco calmamente até essa ilha…? Jeong Taeui apostava que não o viu naquele barco…
Essa pessoa também tinha um cheiro parecido. O cheiro de um soldado. Ele havia repetido várias vezes que eles não eram soldados, mas ainda carregava o aroma característico de alguém que viveu uma vida cheia de dificuldades. Talvez, quando chegasse naquela ilha, todos ali exalassem o mesmo cheiro de pecado.
Enquanto pensava nisso, Jeong Taeui suspirou e virou o rosto para frente novamente. A vontade de estrangular o tio também havia desaparecido.
— Me trazer bem na época do treinamento conjunto com aquela filial europeia azarada e sanguinária… No fim das contas, você me odeia mesmo.
— De jeito nenhum — respondeu o tio, rindo.
Jeong Taeui o encarou com desconfiança, sem muita convicção.
Jeong Taeui logo se acostumou com esse tipo de treinamento geral. Nos últimos anos, ele lutou diariamente para treinar daquela forma. Até quatro meses atrás, ainda era um oficial militar. Fico pensando como será o treinamento aqui.
Não importa o quanto você esteja cansado — contanto que não morra, logo se acostuma. Cada experiência exige um tempo de adaptação, e então você se habitua à nova dor, de novo e de novo… Até que, em algum momento, o pior verme se contorce, você não consegue mais controlar a raiva e ela explode. A partir daí, o problema passa a ser uma escolha pessoal.
De repente, Jeong Taeui ficou irritado e coçou a cabeça.
Até hoje, ele nunca se arrependeu de nada do que fez. Não importa o que seja, ele grava no coração que não deve fazer nada do que possa se arrepender depois.
Por isso, ele não se arrepende de ter espancado aquele colega azarado do exército até deixá-lo à beira da morte. Antes disso acontecer, ele aguentou pacientemente por cinco anos e meio. Então, para ele, isso foi o suficiente. Na verdade, aquilo também foi o resultado de várias situações complicadas. Mesmo tendo pensado que ser dispensado do exército jogaria sua vida num buraco sem fim, de qualquer forma, ele não se arrepende de ter deixado o exército.
No entanto, ao lembrar daquela época e do que sentia naquele momento, ele ainda não conseguia evitar o enjoo no estômago.
Aquele cara era alguém que nunca tinha ficado atrás de ninguém, mas quando viu que você o estava superando, a expressão que fez foi horrível. E foi por isso que os dois acabaram deitados lado a lado no hospital militar, pouco antes da desmobilização. Além desse motivo, a orientação sexual de Jeong Taeui também serviu como justificativa perfeita.
Tsk, tsk. Jeong Taeui se espreguiçou desconfortavelmente dentro do carro. Passou o dia inteiro preso em um avião, depois em um carro, e até mesmo em um navio — do céu à terra firme, e então flutuando novamente no mar. Seu corpo estava exausto. Não importa onde se treine, é preciso alongar um pouco antes para aquecer o corpo.
O carro em que estavam de repente parou.
Sob o céu escuro, já com o sol se pondo, e cercado por uma floresta densa, Jeong Taeui não sabia se já tinha estado em uma floresta tão fechada assim.
— Chegamos — disse o motorista ao sair do carro.
O tio falou algo rápido, e Jeong Taeui logo abriu a porta. Assim que colocou os pés fora do carro, viu um prédio à sua frente.
— Phew, se você está se sentindo tão cansado assim, deve ser porque está velho mesmo. É, já passei dos 40, então não dá para dizer que sou jovem.
O tio resmungou para si mesmo atrás de Jeong Taeui. Ele olhou atentamente para o prédio à frente e perguntou:
— Tio.
— Hã?
— Filial da Ásia… é só isso?
— Sim, um prédio só. Parece meio simples, né?
— E aquelas construções espaçosas no folheto, então?
— Ah, aquilo é a sede na América. As instalações da nossa filial da Ásia são as menos modernas, mas ao mesmo tempo o melhor lugar para treinamento de força. Ainda não te contei isso?
— Nem um pouco… seu mentiroso.
— Ninguém liga pra esse folheto, de qualquer forma.
Ele sorriu e disse: — as pessoas se registram para entrar nas filiais pelo nome, não pelo folheto, só você que foi arrastado para cá sem escolha.
Mas o prédio à sua frente não era diferente de uma escola simples de um andar no interior, toda deteriorada, prestes a ser demolida e reconstruída. Em toda parte havia rachaduras, tinta descascada e ferrugem.
Não importava como olhasse, aquilo parecia um prédio caindo aos pedaços, prestes a desabar ou uma agência estatal abandonada há décadas.
Espera aí… Se esse fosse o prédio…
— Quantas pessoas tem aqui…?
— Um Diretor, dois vice-diretores, seis instrutores, noventa e seis membros, cinco da equipe de logística. Um total de cento e dez pessoas.
Ele foi contando nos dedos enquanto falava.
— Não é?
— Como é que 110 pessoas conseguem se apertar num lugar como esse?
— Entra. Até num carro compacto cabe um monte de gente.
— Não, mas… e a área de treinamento? E o lugar pra comer e dormir…?
Jeong Taeui apontou para o prédio com uma expressão confusa, mas o motorista já havia passado pelas bagagens do tio e entrado no prédio à sua frente. As dobradiças enferrujadas rangiam de um jeito assustador quando a porta se abriu. Não que fosse aparecer um fantasma de repente, despertado por aquele som…
Ao ver a expressão de Jeong Taeui, ele logo sorriu e disse, com seriedade:
— É no subsolo. São sete andares subterrâneos no total. Tem cerca de 2.000 pyeong* (6.611 metros quadrados), então cem pessoas não é problema, mesmo que não pareça tão grande assim.
Jeong Taeui voltou a encará-lo com uma expressão confusa. Dois mil pyeong* e sete andares subterrâneos pareciam grandes demais para apenas cem pessoas morarem, mas…
— Em uma ilha pequena, como é possível construir um subsolo com sete andares e mais de 2.000 metros quadrados…?
— Foi exatamente por isso que escolhemos esta ilha. Acha mesmo que a gente simplesmente apontou pra qualquer ilha na Ásia e decidiu montar uma filial lá?
O tio falou com um tom satisfeito.
Jeong Taeui olhou desconfiado para as costas do tio por um momento, depois se aproximou da porta aberta, colocou a mochila no ombro e o seguiu.
Os passos do tio foram diminuindo aos poucos, como se esperasse que ele o alcançasse. De repente, ele se virou e deu um tapinha na cabeça de Taeui. Jeong Taeui deu um passo para trás e o encarou, confuso.
— Não morra.
— …Sim?
— Este não é um lugar onde a lei de fora tem vez para interferir. É um lugar onde os fracos não podem reclamar, mesmo se forem vítimas de injustiça. E, em alguns casos, mesmo que algumas pessoas morram, a situação interna logo se acalma sem problemas.
Changin parou por um momento. Jeong Taeui olhou para o tio em silêncio. Depois, riu sem nenhuma força.
— Tio, por que você é tão cruel… Você devia ter falado isso antes. Se eu fosse jogado de repente na toca do tigre, o que eu faria?
— Mesmo que eu tivesse falado antes, o resultado seria o mesmo.
Ele também riu. Jeong Taeui suspirou e deu de ombros.
— Resumindo, vou ter que confiar no meu instinto, como você disse, para tentar sobreviver, né? Mas… se lembrar de alguma coisa, vem me ajudar a recolher os corpos e juntar os ossos.
— Haha, bom, mesmo assim, aqui não é totalmente selvagem.
— Então a gente precisa tomar cuidado ou não?
— Não importa onde você esteja, melhor prevenir do que remediar.
Ele sorriu e começou a caminhar. Desta vez, não parou nem se virou para assistir Jeong Taeui se dirigir ao prédio. Jeong Taeui balançou a cabeça. Nessas horas, ele sentia inveja do irmão, que não tinha tanta sorte quanto ele.
Embora tudo ficasse no subsolo, escritório, sala de reuniões, auditório, laboratório, sala de descanso e refeitório, ele não tinha a intenção de levá-lo para dentro do prédio, apenas para uma porta velha no fim de um corredor de madeira abandonado.
No entanto, enquanto os dois caminhavam, um jovem saiu da porta bem ao lado de Jeong Taeui. O tio parou imediatamente.
— Tou!
O jovem saiu pela porta aberta e andou devagar. Assim que viu o tio, virou-se imediatamente.
— Oficial.
Ao avistar o tio, ajeitou a postura e fez uma leve reverência.
— Está ocupado?
— Não, só estava saindo para fumar.
Jeong Taeui assentiu, talvez entendendo a diferença entre o exército e aquele lugar. Ele suspirou enquanto o mundo do inglês se abria diante de seus olhos, aquela era a língua comum usada na filial. Mesmo falando fluentemente, ele realmente não queria usá-la. Então, o dedo indicador do tio apontou subitamente para ele.
— Vamos levar esse garoto para um pequeno tour. Leve-o para o quarto que o Kiyomi usava e me ajude a apresentá-lo aos membros de baixo.
— Ah, sim.
O jovem coçou a orelha, parecendo um pouco incomodado, mas não demais, e apenas assentiu.
Depois de dizer isso, ele não olhou para Jeong Taeui, apenas acenou levemente com a mão, abriu aquela porta velha e entrou. Só restaram no corredor o jovem e Jeong Taeui.
O jovem olhou Jeong Taeui da cabeça aos pés e então voltou para a porta por onde acabara de sair. Seus dedos se curvaram em um sinal. Jeong Taeui também o observou dos pés à cabeça e o seguiu. O jovem sorriu imediatamente.
A porta de madeira pela qual ele saiu era um elevador. Parecia igual a um velho elevador de uma escola abandonada prestes a desabar. Mas quando viu a porta abrir e fechar suavemente, sem fazer barulho, Jeong Taeui sentiu uma surpresa diferente. Ao entrar, percebeu que as funções do elevador não tinham do que reclamar.
— Será que eles investiram todo o orçamento nisso só para parecer o mais antigo possível…
Olhando para dentro, Jeong Taeui murmurou para si mesmo e então encarou o jovem que o observava atentamente.
Ele parecia chinês, mas, pelo tom de pele claro e o porte pequeno, não parecia ser um han* puro — parecia ter sangue de alguma minoria étnica daquela região.
O jovem olhou para Jeong Taeui com olhos curiosos e bateu o dedo indicador algumas vezes no próprio peito.
— Tou. Tou Jing.
— … Jeong Taeui. Pode me chamar de Taeui também.
— Taeil*… tudo bem.
A pronúncia estava um pouco errada, mas Jeong Taeui decidiu ficar em silêncio, achando que seria inútil corrigir.
— Você veio transferido de outra filial? Ou é novato?
— Sou um novo membro. Mas parece que transferências entre filiais são normais por aqui.
— Não é comum, mas também não é tão raro assim. Os novatos são enviados por ordem de cima. O que você está fazendo aqui? Não veio de alguma empresa ou algo assim?
— Estou desempregado.
Jeong Taeui respondeu sério, mas o jovem chamado Tou caiu na risada, como se tivesse achado que era só uma piada.
— Bom, pelo menos não é da filial europeia. Mas tá ótimo assim mesmo. Bem-vindo.
Tou estendeu a mão, e Jeong Taeui apertou-a suavemente.
— Parece que a relação com a filial europeia não é das melhores…
Ele tinha ouvido isso do tio, mas parecia que a relação entre as duas filiais era ainda pior do que imaginava. Provavelmente era tão ruim quanto, ou até pior, do que a relação entre seu antigo pelotão e o pelotão daquele colega desgraçado chamado Kim, quando ainda estava no exército.
— Bem ruim, né? — suspirou Tou. — Você vai entender logo no início do mês que vem. Quer dizer, a partir do mês que vem teremos o treinamento conjunto com a filial europeia, então aqueles bastardos vão vir pra cá. Vou te dizer uma coisa: se tiver um cara particularmente insuportável, pode enterrar um ou dois deles em segredo. Todos os times da nossa filial vão cooperar.
Isso nem parecia uma piada. Para ser honesto, parecia que a relação entre as filiais era ainda pior do que a do seu pelotão com o de Kim Jeong Pil.
— Valeu pelo aviso.
— Que isso. A gente tem que se ajudar.
Tou sorriu animado e saiu do elevador assim que ele parou. Jeong Taeui o seguiu logo em seguida.
*Notas:
▪︎Pyeong — Pyeong é uma unidade de medida de área coreana. 1 pyeong equivale a aproximadamente 3,3 m². No capítulo, 2.000 pyeong correspondem a cerca de 6.611 m².
▪︎Han — Han é o maior grupo étnico da China, representando a maioria da população. Quando se diz que alguém “não é um han puro”, refere-se a traços ou origem de alguma minoria étnica chinesa.
▪︎Pronúncia de Taeui — O nome Taeui (태의) se pronuncia “Tae-uí”. O final “ui” tem som parecido com “oui” (sim, em francês). Às vezes, é confundido com “Taeil” (pronunciado “Tae-i”).
* Traduzido por Mandy Fujoshi. Até o próximo capítulo! *
Ler Passion – Novel Yaoi Mangá Online
Jeong Taeui, cujo irmão mais velho é o gênio Jeong Jaeui, é um ex-soldado que se considera uma pessoa comum. Atendendo à recomendação de seu tio, Jeong Chang-in, Jeong Taeui decidiu trabalhar por seis meses na Organização das Nações Unidas para o Desenvolvimento de Recursos Humanos (UNHRDO). Mas, ao se envolver com um homem maluco de mãos bonitas, Ilay Riegrow, ele nem imaginava que sua vida começaria a desandar em uma direção totalmente inesperada.
Nome alternativo: Passion - Novel