Ler No c* da Cobra – Capítulo 21 Online
Disseram que era um quarto pequeno ligado ao aposento principal, destinado à pessoa que atendia o mestre. Mas para Hilde, não parecia pequeno. No orfanato, ela dormira espremida com outras crianças em espaços muito menores que aquele. Hilde analisou o quarto peça por peça: uma cama grande o suficiente para ela se esticar, uma mesinha de cabeceira ao lado, uma cômoda para roupas, uma mesa redonda e uma cadeira.
O papel de parede estava impecável, e o chão, envernizado com algo, reluzia. Não havia uma única rachadura ou peça quebrada em nenhum lugar. O que mais encantou Hilde foi a grande janela banhada pelo sol. As cortinas cor de creme, balançando suavemente na brisa de cada lado da janela aberta, eram tão lindas que ela as fitou por um longo tempo. Então, uma onda súbita de inquietação a invadiu.
‘Será que devo me permitir aproveitar isso? Tenho permissão para ficar tão confortável?’
— Eu sou… uma escrava. —As palavras não ditas engasgaram em sua garganta, tingidas por uma súbita onda de tristeza. A ferida oculta em seu coração, nunca revelada a ninguém, veio à tona em sua solidão.
‘Foi apenas má sorte’, ela disse a si mesma.
‘Às vezes, na vida, você é arrastada pela correnteza. Felicidade e tristeza… tudo acaba eventualmente…’
Por mais que tentasse ser otimista, uma pontada de tristeza persistia.
— Me dê coragem, Sasha. — Hilde apertou o colar contra o peito e fez uma prece.
Nos dias seguintes, ela passou a aprender com Greta as regras do castelo do Arquiduque. Eram as noções básicas que todos os servos precisavam saber ao entrar.
— Acho que já te disse tudo o que é essencial.
— Vou me lembrar bem.
— Suas habilidades com o chá não são ruins, mas continue praticando.
— Sim.
Sua atitude diligente e respeitosa agradou à governanta. Para Greta, que administrava inúmeros servos, era fácil reconhecer a natureza sincera e gentil de Hilde, apesar da falta de experiência. Observando a garota absorver cada palavra, o olhar de Greta suavizou enquanto oferecia mais conselhos.
— A maioria da equipe aqui trabalha há gerações, seus pais e avós antes deles, ou vieram por meio de conexões e indicações. Então, haverá alguns que não ficarão felizes por você ser escolhida para atender Sua Graça.
Hilde concordou em silêncio. As palavras da governanta faziam sentido. Talvez fosse natural para os outros rejeitarem uma estrangeira.
— Obrigada por me avisar. Eu… vou tomar cuidado.
— Se acontecer algo que você não consiga lidar sozinha, me avise.
— Oh, não. — Hilde balançou a cabeça rapidamente. Ela não podia se impor assim. Mexendo nos próprios dedos, reunindo coragem, acrescentou: — … Vou me esforçar mais. Tentar não causar nenhuma preocupação.
O mundo tinha sido duro e cruel, mesmo com uma órfã. Portanto, para uma escrava, uma vida ainda mais cruel e brutal a aguardava. Hilde tentou fortalecer sua determinação.
— Sou grata pela forma como estão me tratando agora.
Durante toda a viagem até ali, ela havia sido dominada por um medo indefinido. A vida de uma escrava, como descrita no orfanato, não parecia nada além de miserável e amarga.
“Vocês devem se considerar sortudos por viverem neste orfanato. Lembram do que eu disse que aconteceria se fossem expulsos?”
“Teríamos que mendigar como indigentes ou virar escravos.”
“Isso mesmo! Acho que preciso contar de novo as histórias do que aconteceu com aqueles vermes, para não esquecerem.”
A diretora frequentemente contava histórias de crianças infelizes, usando como advertência para manter os órfãos na linha. Essas histórias permaneciam como memórias aterrorizantes para Hilde. Mas, apesar de seus medos, o tratamento no castelo do Arquiduque era inacreditavelmente bom.
Todos mostravam uma simpatia simples; ela recebia refeições quentes e um quarto confortável. Quase parecia que ela estava trabalhando como uma funcionária comum. Na verdade, isso às vezes a deixava inquieta.
— Mas, e se… — Hilde hesitou, e Greta acenou com a cabeça, encorajando-a a continuar. — O que acontece se o Mestre não quiser mais que eu o atenda?
‘Espero que não me expulsem ou me vendam de novo. Espero que eu possa ficar aqui e trabalhar.’ Hilde forçou as palavras, torcendo os dedos.
— Sou boa em lavar roupa. Lavo pratos sem quebrar nada. Já me disseram muitas vezes que me esforço em qualquer tarefa. Então…
— Pare. — Greta a interrompeu. — Não precisa se preocupar com coisas que ainda não aconteceram.
Vendo o rosto da governanta endurecer levemente, Hilde pensou que havia cometido um erro.
— Eu… me desculpe. Não devia ter dito nada.
A expressão de Greta suavizou um pouco, mas o tom permaneceu firme.
— Concentre-se em atender Sua Graça. Pensar em si mesma como uma escrava não vai ajudar em nada.
Apesar da frieza na voz, Hilde piscou. As palavras que acabara de ouvir soavam quase como se Greta estivesse dizendo que ela não era uma escrava.
‘Não se iluda, Hilde. Se você não aprender a lição depois de ser punida daquela maneira…’
Enquanto Hilde lutava com seus pensamentos, Greta mudou de assunto.
— A propósito, como está sua ferida?
Hilde estremeceu, assustada. Ela não tinha contado a ninguém sobre a ferida no seu ombro.
‘O Mestre disse algo? Ou talvez o senhor Moritz Lemon soubesse e contou…’
Ela havia desmaiado assim que a flecha foi retirada, então não tinha memória do que acontecera depois.
— Sua mão.
— Oh.
Hilde percebeu tardiamente que Greta se referia aos cortes e arranhões em sua mão.
— Está quase curada, graças ao remédio que a senhora enviou.
— Isso é bom.
Greta assentiu enquanto Hilde estendia a mão.
— Eu disse para trazerem remédio para você a cada três dias, então não esqueça de aplicá-lo regularmente.
— Sim, governanta. Obrigada pela preocupação.
A condição da mão estava melhorando visivelmente. Provavelmente estaria totalmente bem em alguns dias, mesmo sem o remédio. Além disso, ela havia recebido uma quantidade generosa, muito mais do que precisava para tratar apenas a mão.
‘Mas por que meu ombro não está sarando?’
Ela ouvira dizer que era especialmente bom para ferimentos com sangramento. Como havia bastante, Hilde vinha desenrolando discretamente a atadura no ombro em seu quarto e aplicando o remédio.
Mas, estranhamente, não melhorava. A profundidade do ferimento, a dor, o grau de cicatrização… tudo permanecia praticamente igual ao dia em que chegara ao castelo.
‘E se não sarar?’
Enquanto se preocupava, a voz de Greta cortou seus pensamentos.
— Então, vamos.
— Hã?
— Você precisa conhecer como é o castelo do Arquiduque.
Hilde seguiu Greta e visitou a mansão. O salão de jantar, inúmeros quartos, o salão de baile, a sala de estar, os corredores e até a biblioteca. No momento em que abriram a porta da biblioteca repleta de antiguidades, o cheiro característico de livros velhos se espalhou pelo ar.
— Sua Graça tem uma vasta coleção de livros antigos.
Hilde ficou boquiaberta com as estantes que alcançavam o teto alto, abarrotadas de livros.
— Ele tem livros não apenas publicados no Império, mas também de países vizinhos.
— Ele tem algum de Crozeta? — Hilde disse de repente, para logo em seguida corrigir. — Quero dizer… do reino caído.
— Você quer vê-los?
— Não. — Hilde abanou as mãos depressa. — Eu não sei ler.
— Mas você pode aprender algum dia.
— Hã?
— Nunca se sabe o que pode acontecer. — Greta disse essas palavras enigmáticas e abriu a porta novamente. — Acho que já vimos toda a mansão, então vamos lá para fora.
— Isso é permitido?
— É permitido caminhar pelos terrenos do castelo. Mas evite o campo de treinamento. Aquele é o espaço dos soldados.
Hilde concordou prontamente.
Era a primeira vez que saía da mansão desde que chegara, e sentiu um leve entusiasmo.
— O tempo está lindo hoje.
O céu estava azul, o sol da primavera quente e a brisa suave.
Hilde caminhava alguns passos atrás de Greta.
— O castelo do Arquiduque fica em uma propriedade vasta. Provavelmente levaria meio dia para você dar uma volta no seu ritmo.
Elas visitaram os estábulos, celeiros, armazéns, a fazenda e outras dependências.
— O próximo lugar para ver é o jardim dos fundos, mas… — Greta parou, hesitante, e então continuou: — Não espere muito do jardim. As árvores floridas estão quase todas danificadas, então não haverá flores.
— Por quê…
— Está negligenciado há muito tempo, porque não há ninguém para cuidar dele.
Hilde achou que o rosto da governanta parecia de alguma forma melancólico ao responder. Justo quando Hilde teve a ousadia de pensar em oferecer conforto, um grito desesperado ecoou.
— Me ajudem!
A cabeça de Hilde virou instantaneamente, por reflexo.
Continua…
Tradução: Elisa Erzet
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Sinopse:
Ele falhou em salvar Hilde 999 vezes. Isso significava que o coração de Benedict havia sido dilacerado 999 vezes. Implorando por uma última chance, ele voltou no tempo, mas perdeu todas as lembranças sobre ela — a mulher que sempre esteve gravada em cada uma de suas memórias, emoções e alma. Isto é, até que ele capturou uma escrava, uma prisioneira de um reino caído.
— Eu… eu pensei que talvez seu ferimento fosse em parte culpa minha, mestre.
A mulher era absurdamente irritantemente gentil. É por isso que o incomodava, por isso que permanecia encrustada em seus pensamentos, ela estava tão estranhamente, persistentemente cravada em sua mente.
— Existe sempre um preço para um acordo. Não é?
— Qualquer coisa. Eu farei o que você pedir…
— Isso não é muito atraente. Um escravo obedecendo ao seu mestre é um dado adquirido.
Ele queria fazer aqueles olhos cor-de-rosa chorarem até ficarem inchados. No entanto, ao mesmo tempo, queria desesperadamente abraçar e beijar a mulher.
Mesmo assim, Benedict não se lembrava. Ele não recordava do quanto a amava, o quão desesperadamente ansiava que ela vivesse.
Ela era sua linda e preciosa escrava, exercendo poder divino e curando os outros. Um dia, ele decidiu que daria tudo a ela. Foi então que o passado esquecido desabou sobre ele.