Ler No c* da Cobra – Capítulo 19 Online
‘Isso é problemático…’
Ele já esperava por isso, era evidente que ela não o havia servido de maneira adequada. Pior ainda: parecia ter cometido um grave erro diante de seu mestre.
— A senhora Greta está assumindo o treinamento dela. Aos poucos, deverá melhorar…
Alois olhou fixamente a jovem que se afastava ao longe.
‘Será que ela tem mesmo idade suficiente?’
Dizia-se com frequência que as pessoas do Reino Sagrado eram menores que as do Império, mas, mesmo levando isso em conta, ela era particularmente miudinha.
É claro que a meticulosa governanta confirmaria isso também. As rugas do velho mordomo se aprofundaram. Esta era a primeira mulher que seu senhor trazia para o castelo. A única escrava do Arquiduque.
‘Ela pode ocupar, agora, a posição mais baixa deste lugar…’
Mas ninguém poderia prever o que o futuro reservava. Alois virou a cabeça, refletindo que precisava advertir a equipe, a fim de evitar incidentes imprevistos.
Os criados já haviam limpado o chão sujo e colocado pratos novos. Enquanto isso, o Arquiduque permanecia rígido em sua cadeira. Alois, nervoso, falou:
— Vossa Graça, devo preparar seus aposentos para que troque de roupa?
— Depois da refeição.
A resposta curta era típica de seu senhor, mas o conteúdo não era, e isso o surpreendeu. O Arquiduque era um homem impecavelmente limpo, quase obsessivo. Em circunstâncias normais, já teria saído furioso.
‘Será possível… ele não pretende responsabilizar a escrava?’
Se o Arquiduque saísse agora, inevitavelmente a jovem seria alvo de críticas por estragar o jantar. Claro que ele, como mordomo, cuidaria da situação, mas ela não escaparia da reprovação dos criados por tornar inútil o árduo trabalho deles. Mas por que seu mestre iria tão longe por uma escrava?
‘Estou ficando louco? Que pensamentos tão absurdos…’
Alois balançou a cabeça para suas suposições delirantes quando uma voz cortante interrompeu seus pensamentos.
— Este jantar parece completamente arruinado.
Ele voltou a prestar atenção no mesmo instante.
— Minhas desculpas, Vossa Graça.
Com a habilidade adquirida em anos de prática, Alois cuidou do jantar de seu jovem mestre. Contudo, apesar da precisão dos movimentos, sua mente era um turbilhão.
‘… Espero que nada aconteça.’
Uma sensação de inquietação o envolveu, como o pressentimento de uma grande tempestade.
Hilde, conduzida pelas criadas, caminhou por um tempo antes de entrar em um pequeno quarto. Assim que a porta se fechou e ela percebeu que finalmente estava longe do Arquiduque, a tensão abandonou seu corpo, e ela desabou no chão: as pernas já não sustentavam seu peso.
— A senhorita deveria sentar na cadeira. Levante-se.
Quando a criada à sua esquerda estendeu a mão instintivamente para puxá-la
— Ah!
Hilde gritou de dor quando seu ombro foi puxado, reabrindo a ferida mal cicatrizada. A criada recuou, surpresa.
— O que houve? — vendo o rosto pálido de Hilde, a criada à direita ajoelhou-se ao seu lado. — Você está machucada?
— Estou bem — Hilde forçou um sorriso, balançando a cabeça. — Machuquei o ombro algum tempo atrás, só me assustei quando você puxou… De verdade, estou bem.
‘Uma lesão pequena, e mesmo assim ela está suando?’
As criadas trocaram olhares, intrigadas.
— Vamos ajudá-la a se levantar. Consegue ficar de pé?
— Sim.
Apoiada pelas duas, Hilde conseguiu sentar-se em uma cadeira junto à mesa redonda e, enfim, respirou aliviada.
— Você está aqui — uma voz firme ecoou da porta. Hilde levantou os olhos e viu uma mulher de meia-idade entrando no quarto. Ela parecia familiar.
‘Eu a vi quando desci da carruagem.’
— Senhora Greta.
As criadas se curvaram em uníssono. A mulher, acostumada a tais saudações, voltou-se para Hilde.
— Sou Greta, a governanta desse Grão-Ducado. Como deve ter ouvido, Sua Graça me confiou o seu treinamento.
— Ah… olá!
Hilde tentou se levantar, mas as pernas fracas a fizeram despencar de volta várias vezes.
— Está bem, permaneça sentada. — Disse Greta, vendo sua dificuldade, ajudou-a a acomodar-se novamente. — Qual é o seu nome?
— Hi-Hilde.
— Um nome incomum no reino caído.
Hilde estremeceu com o comentário breve. Seu nome era de origem imperial, escolhido porque as gêmeas amaldiçoadas não podiam carregar o nome sagrado de Crozeta.
Greta virou-se para as criadas:
— Tragam a refeição dela.
— Sim, senhora.
As cervas logo serviram a comida sobre uma pequena mesa. Não era tão opulenta quanto os pratos vistos no salão, mas, para Hilde, parecia incrivelmente apetitosa.
Como se seu olfato perdido tivesse voltado, o aroma delicioso encheu seus pulmões. De repente, ela sentiu uma pontada de fome, e seu estômago roncou.
— Ouvi dizer que teve dificuldades para se alimentar durante a longa viagem — Greta gesticulou para que as outras saíssem e então se levantou. — Coma à vontade. Depois, ensinarei as regras de etiqueta à mesa.
Hilde, surpresa e comovida com a inesperada gentileza, inclinou a cabeça.
— Mu-muito obrigada…
‘Ela vai ensinar boas maneiras à mesa a uma escrava…’
Sozinha, Hilde piscou em perplexidade por um momento antes de chegar a uma conclusão:
‘Deve ser porque preciso servir o Mestre.’
Com esse pensamento, pegou cuidadosamente a colher. Ao encarar a comida, engoliu em seco.
— Não sei por onde começar…
Mas a dúvida não durou. Tudo era delicioso. Hilde juraria jamais ter provado um ensopado de carne tão rico, um pão branco tão macio ou maçãs tão docemente caramelizadas em mel.
Depois que ela teve tempo suficiente para comer, Greta retornou. Hilde então respondeu a algumas perguntas: onde morava no reino, o que havia feito e assim por diante. Sabendo que a governanta lhe mostrara grande gentileza, Hilde respondeu com sinceridade.
Ela explicou que fora abandonada em um orfanato logo após o nascimento, que cresceu lá e que lavava roupa e louça desde que tinha idade suficiente.
Contudo, não conseguiu mencionar a irmã gêmea. Desde sua morte, a lembrança permanecia guardada no fundo, de seu coração, preciosa demais para ser pronunciada.
— Agora entendo por que suas mãos estão tão rachadas. — Greta franziu a testa. — Vou pedir ao médico alguma pomada para suas feridas.
— N-não precisa… isso vai melhorar em alguns dias.
— Pretende servir Sua Graça com as mãos desse jeito?
— Ah…
‘Não é por mim, é pelo Mestre.’
Hilde assentiu, compreendendo.
— Você já é maior de idade?
— Sim. Completei dezoito anos recentemente.
— Isso é bom. Honestamente, você é tão pequena que pensei que tivesse uns dezessete.
Hilde concordou prontamente, pois as outras criadas pareciam pelo menos um palmo mais altas que ela. Na verdade, ela era pequena mesmo para uma crozetana, devido a uma infância de nutrição inadequada.
— Sabe que ficará no quarto ao lado dos aposentos de Sua Graça?
— Sim.
— O aposento está desocupado e precisará de um dia para ser preparado. Hoje, você ficará aqui.
— A-aqui? Este quarto é luxuoso demais!
Diante da pergunta surpresa de Hilde, a expressão severa de Greta suavizou-se ligeiramente.
— Você vai desmaiar quando vir o quarto ao adjacente. — Então voltou ao tom sério: — Encontrará Sua Graça frequentemente, tanto em serviço quanto fora dele. Esforce-se para não desagradá-lo. Você recebeu um privilégio indevido, apesar da sua condição.
De fato, era um privilégio, pensou Hilde. Apertando as mãos, respondeu:
— Sim… vou me lembrar disso.
A tensão que parecia ter dissipado rastejou de volta a partir dos seus pés. Ela se lembrou do jantar que arruinara antes: a comida derramada, o chão sujo, as roupas manchadas, a ira evidente do seu mestre… Sua voz fria, dispensando-a como inútil, ainda ecoava em seus ouvidos.
‘Se eu cometer outro erro da próxima vez…’
‘Talvez não haja outra chance.’
A lembrança daquele olhar frio, serpentino e implacável fez sua pele arrepiar.
Continua…
Tradução Elisa Erzet
Ler No c* da Cobra Yaoi Mangá Online
Sinopse:
Ele falhou em salvar Hilde 999 vezes. Isso significava que o coração de Benedict havia sido dilacerado 999 vezes. Implorando por uma última chance, ele voltou no tempo, mas perdeu todas as lembranças sobre ela — a mulher que sempre esteve gravada em cada uma de suas memórias, emoções e alma. Isto é, até que ele capturou uma escrava, uma prisioneira de um reino caído.
— Eu… eu pensei que talvez seu ferimento fosse em parte culpa minha, mestre.
A mulher era absurdamente irritantemente gentil. É por isso que o incomodava, por isso que permanecia encrustada em seus pensamentos, ela estava tão estranhamente, persistentemente cravada em sua mente.
— Existe sempre um preço para um acordo. Não é?
— Qualquer coisa. Eu farei o que você pedir…
— Isso não é muito atraente. Um escravo obedecendo ao seu mestre é um dado adquirido.
Ele queria fazer aqueles olhos cor-de-rosa chorarem até ficarem inchados. No entanto, ao mesmo tempo, queria desesperadamente abraçar e beijar a mulher.
Mesmo assim, Benedict não se lembrava. Ele não recordava do quanto a amava, o quão desesperadamente ansiava que ela vivesse.
Ela era sua linda e preciosa escrava, exercendo poder divino e curando os outros. Um dia, ele decidiu que daria tudo a ela. Foi então que o passado esquecido desabou sobre ele.