Ler Mind The Gap – Capítulo 06 Online

❖ Capítulo 02 – The Gap 1
Desde cedo o céu estava carregado, como se fosse chover, e quando a noite chegou, uma tempestade começou a cair, como se estivesse esperando por esse momento. Não era aquela garoa fina como névoa, mas uma chuva forte, há muito tempo não vista. Como se refletisse os acontecimentos recentes.
Alex desviou o olhar das telas do CCTV que vinha examinando o dia todo. O som da chuva batendo contra a janela era bastante intenso. Se saísse assim, mesmo com guarda-chuva, certamente chegaria em casa encharcado. Verificou as horas. Eram 19h. Já que não tinha ninguém esperando em casa, seria melhor solicitar horas extras.
Então, Alex percebeu que vinha levando sua vida como policial exatamente dessa forma nos últimos seis anos.
— Não vai?
Ouviu-se o rangido da cadeira ao lado e Matthew Wayne se sentou pesadamente, perguntando a Alex.
Alex, que olhava pela janela, virou a cabeça. Antes de desviar o olhar, viu um guarda-chuva azul passando na rua. No instante em que o viu, seu coração pesou. Lá vamos nós de novo. Já era hora de parar com isso. Escondendo esses pensamentos por trás de uma expressão vazia, Alex suspirou lentamente.
— Estou pensando.
— Seu repertório é sempre o mesmo. Depois faz hora extra e vai embora, nada muda.
Alex ignorou a provocação de Matthew com indiferença.
— É menos monótono que sua camisa xadrez.
— Já disse que não é a mesma coisa. Cada uma tem suas características.
Matthew Wayne ajustou os óculos de armação preta. O cabelo castanho, que quase cobria a armação, se desalinhou sobre ela. Alex curvou os cantos da boca vagamente. Sua sociabilidade, que começou a definhar no final do ensino médio, havia praticamente desaparecido, mas Matthew, seu colega, era a única pessoa que ele podia chamar de amigo.
Eles passaram os últimos seis anos juntos, desde os tempos de patrulheiros até entrarem juntos na Divisão de Crimes Violentos. As pessoas os chamavam de “os frustrados”.
No caso de Alex, era devido à sua personalidade tranquila, pouco propensa a promoções; no de Matthew, era pela sua aparência. Porque ele tinha exatamente a aparência de alguém inadaptado socialmente.
Embora não fosse bom ter preconceitos, falando francamente, Matthew era o próprio estereótipo do nerd. Franja que quase escondia o rosto, óculos grandes e vários tipos de compulsões provavam isso.
O outro apelido de Matthew era “o psicopata da camisa xadrez”. Literalmente, Matthew usava camisas xadrez azuis o ano todo, independentemente da estação, desde que se transferiu para a Divisão de Crimes Violentos, onde não era necessário usar farda.
Certa vez, Anna, que havia se transferido recentemente para a equipe de Crimes Violentos, vindo da Divisão de Crimes Patrimoniais, no dia em que completou um mês de trabalho, perguntou em segredo a Alex se Matthew lavava suas roupas. A inspetora Janice, que liderava toda a equipe de investigação, respondeu calmamente ao questionamento sério da novata: “Não.”
— Não comprou todas da mesma marca?
— A cor de cada uma é sutilmente diferente. Se não percebe isso, é inapto para ser detetive.
— Obrigado pelo elogio.
Continuando a conversa fiada, Alex olhou para fora de relance. O guarda-chuva azul havia desaparecido. Sinceramente, era um ato sem sentido. Há inúmeras pessoas usando guarda-chuvas azuis e ele não tinha mais motivos para usar um.
— Enfim, vá para casa hoje. Se você continuar pedindo hora extra, a inspetora vai começar com o papo do orçamento. O chefe de polícia fica inventando slogans estranhos e enchendo o saco por causa das horas extras improdutivas.
— Ainda não examinei nem metade das denúncias que chegaram.
— O plantão noturno vai fazer. Não é só você que trabalha aqui.
Alex hesitou. Lentamente, rabiscando linhas em seu bloco com a caneta, ele olhou para Matthew. Tanto faz ficar ou não, já que iria examinar o caso mesmo em casa, então era melhor ficar. Além disso, pensando no empréstimo estudantil que ainda não conseguia quitar e nas despesas de vida que devia à sua mãe, era certo ganhar qualquer dinheiro extra.
— Agradeço a preocupação, mas pode ir na frente.
— Você realmente precisa de um namorado. Se tivesse um ômega esperando em casa, já estaria fazendo as malas antes mesmo de eu falar.
Ao ouvir a palavra ômega, Alex desviou o olhar. Embora fosse uma palavra que ouvia inúmeras vezes desde que se tornou adulto, era difícil fingir calma. Em seguida, um certo rosto lhe veio à mente e Alex piscou lentamente. Sentiu um leve enjoo.
— É, realmente.
E fechou a boca. Matthew também não insistiu, pois sabia que esse assunto o incomodava.
— É só que às vezes me preocupo.
Foi só isso. Alex ergueu os olhos, encontrou o olhar de Matthew e curvou levemente os lábios em um sorriso. Afinal, Matthew era uma pessoa importante. Uma das poucas pessoas que se importavam com alguém como Alex.
— Mesmo que sorria assim, não vou cair. Eu gosto de mulheres.
— Quem disse que não? Eu também…
Ele não conseguiu dizer que gostava de ômegas. A frase ficou presa. Alex calou-se. Pensava que se tornaria mais forte quando adulto, mas, ao contrário de suas expectativas, ele nunca se tornava mais forte, sempre estava em frangalhos. A raiz disso sempre estava naquele incidente de nove anos atrás.
Depois que Nathan se transferiu, ele namorou Ian Mac por dois anos. Até Ian se tornar adulto. Foi quando Alex experimentou em carne própria que a personalidade de uma pessoa nunca pode ser definida por uma única característica. Como foi Ian quem revelou os planos de David Mac, Alex pensou inconscientemente que talvez ele estivesse do seu lado.
Mas Ian não terminou com Alex como ele pensava. O fato de ele esperar continuar namorando desde o início já era inesperado.
— De qualquer forma, o irmão não vai deixar eu terminar com o Alex assim. Também não vai apagar as fotos. Vamos só fingir por enquanto.
No começo, Alex acreditou nisso. Mas depois de seis meses, depois de um ano, Alex teve que encarar a realidade. Ian não o deixaria ir. Não sabia por que se apegava tanto a alguém que não tinha valor, mas era assim. Olhando para trás agora, Alex pensava que Ian o ressentia por nunca ter dado seu coração, mesmo mantendo-o por perto.
De qualquer forma, Alex ficou preso ao lado de Ian. Pensava que talvez fosse um consolo ter alguém assim, já que ninguém o desejava, mas no momento em que segurava a mão de Ian, tudo se tornava repulsivo.
Não conseguia ir além daquilo.
Embora não fosse intencional, isso acabou separando-os. No ano em que Ian se tornou adulto, ele quis fazer sexo, algo que Alex vinha adiando. Alex acabou vomitando na frente de Ian no dia que finalmente chegou. O ômega olhou para o alfa que sentia náuseas no momento que deveria ser doce e íntimo, com uma expressão de decepção e raiva.
— Você é realmente patético.
Essas foram as palavras de despedida de Ian.
— Alex, está bem?
Matthew acenou a mão na frente de Alex, que havia parado de falar. Alex sorriu vagamente, passou a mão na bochecha e se levantou. Já que pensamentos dispersos continuavam surgindo, parecia que não seria capaz de se concentrar no trabalho. Nesses momentos, era mais produtivo se exercitar até se cansar e dormir.
— Estou.
— Que bobagem.
— É mesmo. Vamos.
Matthew ajustou os óculos, como se gostasse daquilo. Alex riu sem graça ao ver esse hábito peculiar. A maioria das pessoas pensava que ele tinha problemas de visão, mas na verdade os óculos de Matthew não tinham grau.
Enquanto conversavam sobre o caso em que estavam trabalhando, os dois se prepararam para sair. Matthew dirigia seu próprio carro porque achava a higiene do transporte público nojenta, mas Alex andava de ônibus ou bicicleta. Embora um detetive normalmente tivesse um carro, Alex não tinha condições financeiras para isso. Em emergências, usava os veículos da polícia, mas não era frequente.
Ele não usava o metrô há muito tempo. Matthew disse que o levaria, já que estava chovendo muito, e ameaçou brincando que usaria a luz de emergência no caminho para casa, pedindo para Alex não contar à inspetora Janice.
Sempre que pegava carona com ele, Alex era responsável por escolher as músicas. Hoje não foi diferente. Seguindo a sugestão de Matthew para procurar uma música nova, Alex estava mexendo no rádio.
Assim que passaram pela cancela de saída do Departamento de Polícia e estavam prestes a virar em direção a Southwark, onde ficava a casa de Alex, ambos receberam um chamado. Droga. Matthew, com a expressão de quem tinha pisado em merda, estacionou o carro na rua. Alex também pegou o celular.
A mensagem era do detetive Hayden, o investigador sênior deles.
“Para o Royal London Hospital, agora mesmo. Apareceu uma testemunha.”
A palavra “testemunha” é um termo amplo usado em todos os casos, mas tanto Alex quanto Matthew entenderam imediatamente o que Hayden queria dizer. Ele estava dizendo que a primeira testemunha do caso “Beta Tester” havia aparecido.
Matthew soltou um breve palavrão, ligou o carro e mudou de direção. O Audi preto de Matthew, seguindo para Whitechapel, deslizou pela estrada, espirrando água da chuva.
O caso chamado de “Beta Tester” poderia, à primeira vista, soar como algo relacionado a jogos ou algo insignificante, mas na verdade era o termo usado para se referir aos assassinatos em série que recentemente haviam mergulhado os betas de Londres no terror.
O assassino deste caso era chamado de Beta Tester por duas razões.
Uma era porque ele cometia esses crimes apenas contra pessoas com a característica beta, e a outra era porque ele realizava certos experimentos nos betas. O experimento era forçar a transformação de betas em ômegas, algo antiético e bizarro.
O Beta Tester tinha alguns padrões. Primeiro, suas vítimas sempre eram estupradas. Segundo, ele mutilava severamente os corpos. Todas as mortes eram por asfixia.
Foi por essa segunda razão que a polícia enfrentou grandes dificuldades na investigação. Como ele destruía as impressões digitais, os dentes e o rosto para que não houvesse como identificar os corpos, a identificação das vítimas levava muito tempo.
O único recurso restante era o exame de DNA, mas o problema era que, para encontrar o DNA para comparação, era necessário examinar a lista de betas desaparecidos um por um, o que inevitavelmente levava mais tempo do que vasculhar um banco de dados.
O legista, através da autópsia do quinto corpo encontrado na semana anterior, confirmou que esta vítima, assim como as quatro anteriores, teve seu órgão de feromônios transformado à força.
O órgão de feromônios, localizado no órgão vomeronasal, nos betas, ao contrário dos alfas e ômegas, existe como um órgão vestigial e não funciona. No entanto, a análise mostrou que o assassino transformou esse órgão à força e, ao mesmo tempo, administrou hormônios de característica à força.
Com cinco vítimas já confirmadas, a imprensa criticava a incompetência da polícia. O principal ponto era que, desde a descoberta do primeiro corpo no início de outubro, já se passava quase um mês e não havia pistas. Os jornalistas tentavam constantemente descobrir os detalhes da investigação.
Devido a essa situação, a fúria do chefe de polícia estava nas alturas recentemente. E foi nesse contexto que surgiu a primeira “testemunha”.
O carro de Matthew, entrando em Whitechapel, passou pela entrada do hospital, onde viaturas estavam estacionadas em fila, e deslizou para o estacionamento. O estacionamento subterrâneo, com o ar úmido de fora estagnado, era abafado e cheirava a poeira mofada. Matthew fez uma expressão de que achava aquele lugar assustador, e Alex concordou silenciosamente.
— É comovente poder encontrar os envolvidos em um lugar que não é o Instituto de Ciência Forense — disse Matthew bobamente enquanto subiam para o terceiro andar indicado pelo detetive. Alex sabia que uma das razões para Matthew dizer isso era o legista, Eli. Os dois não se davam bem, e por isso brigavam com frequência. Mais precisamente, Matthew ficava irritado unilateralmente.
— É por causa do Eli?
— Nem fala nesse psicopata.
Matthew tratava Eli como se fosse um assassino em série porque ele conseguia comer tranquilamente em um local que cheirava a carne queimada. Eli, talvez gostasse dessa reação, sempre chamava Matthew quando precisava de alguém. Por causa disso, a relação dos dois era sempre motivo de diversão dentro da equipe de Crimes Violentos.
Quando a conversa fiada estava prestes a continuar, o elevador parou. Um corredor silencioso se revelou e ambos se calaram. Alex colocou a mão no bolso do casaco onde estava o bloco e deu o primeiro passo.
A testemunha estava em um quarto de hospital. Depois de mostrar suas identificações ao policial que aguardava e ouvirem que era o quarto nº 5, eles viraram a esquina e chegaram ao quarto. A presença da testemunha que finalmente apareceu era tão significativa que do lado de fora do hospital já estava barulhento com os jornalistas que começaram a se aglomerar. Quem mais sofria nesses dias eram os novatos que tinham que conter os repórteres.
O detetive Hayden estava na frente da porta fechada do quarto. O homem de quarenta e poucos anos, com cabelos começando a embranquecer, viu-os e fez um sinal com os olhos.
— E a testemunha?
— Está no quarto. A mulher ainda está inconsciente, então tomem o depoimento do homem primeiro.
Alex franziu a testa ao ouvir isso.
— São duas testemunhas?
— Algo assim.
Hayden tirou um maço de cigarros do bolso e, enquanto procurava o isqueiro, disse a eles:
— Para ser exato, o homem salvou a mulher de ser sequestrada. Houve uma luta, e o homem sofreu escoriações. É um cara de raciocínio rápido. Parece que optou por fugir sem perder tempo.
— Opa, então nenhum dos dois viu o rosto — disse Matthew, com um tom de decepção, e fez uma pergunta adicional: — E qual a relação entre as duas testemunhas?
— Bem… — Hayden deu de ombros, deu um tapinha no ombro de Alex e disse: — Agora é com vocês descobrirem. Vou lidar com os jornalistas, então tirem o máximo de informações. Dada a situação, vou solicitar uma equipe de proteção a testemunhas. Sobre a casa segura ou local de abrigo, considerem depois de tomarem o depoimento.
Alex assentiu. Não se esqueceu de verificar o básico.
— Sim, entendi. Ah, as imagens das câmeras de circuito fechado já foram obtidas?
— Estão sendo extraídas.
Parecendo estar louco para fumar, Hayden colocou um cigarro na boca imediatamente e saiu do corredor, acionando o isqueiro.
Alex assistiu Hayden desaparecer e então fez um sinal com os olhos para Matthew. Matthew segurou a maçaneta do quarto. Alex estava secretamente tenso, já que finalmente tinham uma testemunha. Era aquela sensação que vinha quando surgia uma grande pista no caso. Ele pensava que não tinha jeito para polícia ou detetive, mas seis anos haviam deixado sua marca.
A maçaneta girou silenciosamente. A pesada porta de metal foi empurrada devagar. O quarto, com uma luz branca quase purificante, apareceu, e em seguida um leve cheiro de remédios. Havia também um odor de antisséptico. Matthew, que abriu a porta, entrou primeiro e cumprimentou.
— Olá. Sou o detetive Matthew Wayne.
Alex também entrou, seguindo sua voz. Um cabelo loiro de cor particularmente vibrante chamou sua atenção primeiro. As pontas pareciam ligeiramente molhadas e coladas. O homem sentado na cadeira do quarto vestia um jaleco branco. Pelas pernas longas, dobradas formando um ângulo elegante, parecia ser alto.
O homem, que estava olhando para a mulher adormecida, virou a cabeça com a fala de Matthew. Alex parou. Olhos verdes vívidos o observaram lentamente.
Ele piscou. Como se o tempo tivesse parado, Alex fitou o rosto à sua frente atônito.
Cílios longos e curvados para cima, nariz bem definido, lábios com um formato solto e suave. As sobrancelhas, um pouco mais escuras que o cabelo loiro de boa textura, eram alinhadas e bem formadas. Não era um rosto comum. Parecia de modelo, também parecia de ator. Era um rosto tão irreal que parecia existir apenas na imaginação.
No entanto, Alex não conseguia tirar os olhos do seu rosto não porque ele era muito bonito.
— Nathan White.
Um nome claro que perfurou seus ouvidos fez Alex arregalar os olhos. Sua força abandonou a mão que segurava o bloco e a caneta. Com um som seco, a caneta caiu no chão. Como o quarto estava silencioso, o pequeno ruído ecoou alto, atraindo a atenção de todos.
Os dois olhares se voltaram para Alex simultaneamente. Ele não pôde desviar o olhar para Matthew, que o observava ao lado. Como se estivesse amarrado, Alex arregalou os olhos e fitou Nathan, sentado na cadeira, olhando para cima. Sem sequer perceber que o estava chamando, Alex disse seu nome.
— …Nathan?
Nada menos que nove anos pensando.
Depois de se formar na escola, durante a faculdade, depois de passar no concurso da polícia até hoje, ele pensava todos os dias, sem falta. Antes de dormir, enquanto comia sozinho à mesa, nos momentos em que ficava quieto, pensava. No dia em que reencontraria Nathan.
Sabia que você não sentiria minha falta, mas mesmo assim esperava te ver, nem que fosse uma vez. Queria pedir desculpas de alguma forma.
Desculpa por ter te machucado.
Se pudesse voltar àquele momento em vez de morrer, mesmo que fosse morrer, ele queria mudar a escolha que fez. Agora que era policial, vendo pessoas como David Mac que se aproveitam das fraquezas dos outros, ele pensava que não havia como lidar perfeitamente com a situação naquela época, mas ainda assim pensava inúmeras vezes que poderia ter mudado a maneira como falava com Nathan.
Se não pudesse contar a verdade, deveria ter falado com gentileza de alguma forma; se contasse a verdade, deveria ter procurado uma solução juntos.
Viveu remoendo incontáveis vezes um passado que não podia mudar. Pensava que já era hora de deixar pra lá, mas não conseguia. Porque os únicos momentos verdadeiramente brilhantes na vida de Alex foram aqueles dois anos.
Disseram que se não vir, a distância aumenta? Que é possível esquecer? Os conselhos sobre amor que ele encontrou tentando descobrir uma maneira de lidar com a dor não funcionaram. Nem Alex imaginava que poderia esquecer por tanto tempo alguém que, mesmo querendo ver, não conseguia encontrar nem um fio de cabelo.
Não é que não tenha pensado em procurá-lo escondido. No dia em que sua mãe o expulsou de casa assim que se tornou adulto, alugando um lugar para ele morar sozinho, seu coração estava tão vazio que muitas vezes procurou sem motivo os números de Tina e Jude.
Também vasculhou Facebook e Instagram, e depois que se tornou policial, pensou em procurar no sistema. Mas no final, Alex não fez nada disso. Sabendo que seria algo assustador, se repreendeu. Por ser tão egoísta.
Mas pelo menos podia imaginar, então imaginava.
No momento em que te encontrar, como você reagiria.
— O que foi? — Matthew olhou para Alex com um ar de estranheza e depois virou a cabeça para Nathan, perguntando: — Vocês se conhecem?
Com essa pergunta, seus olhares se cruzaram. O olhar de Nathan, sentado, olhando para cima, era frio. Seu rosto, sem qualquer emoção, lentamente abriu os lábios. O corpo de Alex endureceu de tensão.
Ele havia imaginado.
Se se encontrassem novamente, qual seria sua expressão, o que diria. Ele havia remoído isso por inúmeros anos.
— Não.
Mas…
— Não nos conhecemos.
Essa era uma resposta que não estava entre as milhares que Nathan havia dado em sua imaginação. Uma resposta que negava os próprios dois anos que fizeram Alex viver, sorrir e chorar.
Isso foi algo que Alex, por sua vez, não havia imaginado.
Um som como um soluço escapou. Felizmente, Alex não mostrou nenhuma outra reação. A onda só aconteceu dentro de seu peito.
— Ah, é? Alex, o que foi?
Uma mão apertou suavemente seu ombro, e Alex se recompôs. Soltando um som de “ah” distraído, ele lentamente virou a cabeça para Matthew.
Com o rosto como se estivesse dormente, incapaz de mudar de expressão, Alex respirou fundo e se abaixou. Estendeu o braço e pegou a caneta caída no chão lentamente. Olhando para o piso branco sem manchas, Alex piscou.
Está tudo bem.
Pensou assim. Recita como um feitiço as palavras que tem dito a si mesmo sem parar pelos últimos nove anos. Tudo bem. Tudo bem. Tudo bem. Depois de sussurrar três vezes rapidamente, Alex pegou a caneta e se levantou. Dois pares de olhos se voltaram para ele.
— Desculpa. Foi um engano momentâneo.
É natural que seja assim. Nathan disse que Alex era nojento. É a mais pura verdade.
Alex lembrou do momento em que Nathan empurrou sua mão e disse que ele era nojento, sempre antes de dormir. Mesmo quando não queria, isso vinha em forma de pesadelo. Seria natural que não quisesse ser reconhecido por alguém nojento.
Suprimindo a expressão, Alex ergueu lentamente o bloco. Alex, como detetive, era uma pessoa que geralmente não se deixava levar pelas emoções, mas hoje, por alguma razão, seu coração estava tão instável que fazia seu talento parecer sem graça.
— Mesmo? — Matthew olhou para os dois com desconfiança. Alex teria que contar a Matthew depois que fossem embora que eles eram colegas de escola. Não se deve deixar mentiras, por menores que sejam, se infiltrarem no processo de investigação.
Mas se Nathan não queria ser reconhecido, Alex não tinha o que fazer no momento. Alex olhou para Matthew e assentiu.
— Desculpe, Sr. White.
Mesmo com esse tratamento formal e estranho, Nathan continuava sem expressão.
— Tudo bem.
A resposta veio ainda mais seca que a expressão. Uma voz que literalmente não se importava. O tratamento formal era completamente natural. Como se realmente estivesse lidando com um estranho. Tanto que até Alex ficou confuso.
Talvez fosse apenas um homônimo. Se não fosse pelo rosto tão bonito quanto na infância, ele poderia acreditar que era outra pessoa, já que seu físico havia mudado tanto.
No entanto, Alex tinha uma memória impressionante quando se tratava de Nathan White. Ele guardava em seu coração todos os detalhes, desde o momento em que conheceu Nathan. O homem à sua frente era definitivamente Nathan.
— Eu… me chamo Alex Yeon, da equipe de investigação. Se não se importa, posso fazer algumas perguntas? Se nos disser o que lembrar, ajudará muito na investigação.
Sua voz quase falhou de tanto tremer, mas Alex se conteve apertando o bloco com força. Era patético. Ao contrário de nove anos atrás, agora ele era adulto, mas ao ver Nathan, suas emoções transbordaram sem filtro. Ele pensava que estava um pouco mais habilidoso em tudo do que no passado.
— Sim.
Nathan continuava imperturbável. Sua voz era profissional.
— Primeiro, por favor, nos diga o que lembra sobre o incidente.
— Certo.
Ainda sem mudanças. Nathan apenas começou seu depoimento com uma expressão seca.
— Sou médico aqui, fazendo o CT (Core Medical Training). Amy, que está aqui, é minha amiga e estava passando no hospital para me ver, indo embora. Ela esqueceu um dos arquivos que trouxe, então fui até os fundos do hospital para devolvê-lo. Amy tem o hábito de esquecer coisas pequenas. Foi quando encontrei a cena.
— Vocês são próximos? — perguntou Matthew, que ouvia. Em casos como este, quando há um relacionamento profundo entre as testemunhas, pode haver emoções pessoais no depoimento dependendo da situação, então Matthew sempre prestava atenção em entender o relacionamento. Alex, que estava anotando distraidamente o que Nathan dizia, ergueu a cabeça com essa pergunta.
— Sim — respondeu Nathan brevemente.
— O quanto? É uma pergunta para avaliar se há algum fator que possa influenciar a investigação, então espero que não se ofenda.
— É uma pessoa que me pediu em um encontro, mas ainda não aconteceu nada. Se é isso que quer saber.
Nathan falou o fato calmamente. Matthew, vendo seu rosto impassível, assentiu e olhou para Alex. Era um olhar para que ele continuasse.
No entanto, Alex congelou. A palavra “encontro” ficou presa em seus ouvidos. A caneta não escrevia letras claras no bloco, apenas fazia rabiscos fracos. Com o silêncio continuando, Matthew franziu a testa e perguntou novamente a Nathan:
— Como foi a situação?
— Há um estacionamento exclusivo para funcionários nos fundos do hospital. Indo além dele, há um caminho que leva às casas da Raven Row, onde há pouca circulação de pessoas. Alguém surgiu de repente. Vestia uma capa de chuva preta de trabalho, então não pude ver o rosto. Eu vi quando ele tentou imobilizar Amy por trás para fazê-la desmaiar.
Nathan estava muito calmo. Sem mostrar sinais de surpresa, respondeu detalhadamente às perguntas de Matthew.
— Lembra de alguma outra característica? Altura, alguma cicatriz notável, voz, cheiro, qualquer coisa. Mesmo que seja pequena.
— Era um pouco mais baixo que eu, mas muito robusto. Pude sentir isso durante a luta. A chuva estava forte, então não ouvi voz ou gemidos. Não tinha cicatrizes. Pela cor da pele do dorso da mão e do queixo, parecia ser branco.
— Lembra que horas eram?
— Acho que era um pouco depois das 18h.
Londres, antes do inverno, escurece rapidamente depois das 15h, então em um dia chuvoso como hoje já estaria bastante escuro. Além disso, toda Londres estava com um clima de evitar sair por causa do caso do Beta Tester, como na época do atentado de Westminster. Whitechapel, que já é uma área com muitos comentários, parecia especialmente cautelosa.
— Não pensou em pedir ajuda? Gritar, por exemplo.
— Estava chovendo muito, não havia condições para isso.
Matthew fez uma expressão cética a essa fala. Porque havia inúmeras vítimas que atravessaram o Rubicão confiando em si mesmas assim.
No entanto, a fala de Nathan tinha fundamento. Alex lembrou do garoto, desmaiado e ensanguentado no beco. Mesmo em uma situação horrível, Nathan se protegeu. A lembrança do passado que veio imediatamente à mente deixou Alex desconfortável. Lembrar da situação de pesadelo que levou Nathan àquele estado e de si mesmo parado olhando fez com que sentisse ânsia.
Alex abriu levemente a boca.
— Matthew.
— Hmm?
— Vou sair um momento. Esqueci algo.
Matthew assentiu. Ele provavelmente teria suas suspeitas, mas depois de tomar o depoimento de Nathan, perguntaria a Alex. Matthew era um bom amigo de muitas maneiras. Até bom demais.
Alex guardou lentamente o bloco dentro do casaco. Nathan olhou para Alex com um olhar de breve indiferença e depois virou o rosto, como se não estivesse nem um pouco interessado.
— Vamos continuar?
Esse olhar que se virou não mais se encontrou com o seu. Depois de gravar essa cena por alguns segundos, Alex virou o corpo lentamente, abriu a porta do quarto e saiu.
Assim que a porta se fechou, suas mãos começaram a tremer. Tentando acalmar a respiração instável, Alex entrou no banheiro. Apertando os olhos quentes, aproximou-se da pia. Abriu a torneira, ligou a água fria e olhou para seu próprio rosto refletido no espelho.
Parecia um tolo.
Uma opressão surgiu, como quando ele suspirava ao tentar verificar se seu pai, ainda desaparecido, estava vivo ou morto. Era uma dor tão grande que não seria estranho morrer sufocado. Dói como se tivesse voltado àquele dia no passado. Alex ergueu o dedo e pressionou com força perto do peito. Com a força de perfurar os ossos e a carne.
Expirando a respiração presa, ele pegou água fria com as mãos e lavou o rosto. Aos poucos, foi se acalmando.
Sussurrou repetidamente. Tudo bem. Se Nathan não queria mantê-lo como alguém que conhecia, Alex só tinha que obedecer. Dizer que não o conhecia era uma intenção clara. Embora fosse uma reação diferente do esperado, se Nathan estivesse com raiva, ele também imaginou que não se envolveria mais seguindo sua vontade, então a conclusão era semelhante.
É possível. Na verdade, era natural. Por que manter memórias, ou melhor, lembranças distorcidas, de alguém que estragou seu futuro e te machucou? Alex foi o único que se agarrou ao passado com tanta nostalgia. Ele mesmo afastou Nathan com suas próprias mãos.
Tentando acalmar a si mesmo, que reagia tolamente, enquanto mantinha as mãos na água, Matthew abriu a porta do banheiro e entrou. Ele veio com passos largos, franzindo um olho.
— Qual é o seu problema, afinal? Vocês se conhecem, não é?
Alex nem tentou negar, pois era óbvio. Ele assentiu.
— Por que só você está reagindo assim? O que aquele cara fez com você?
Não, era o contrário.
— Fomos colegas no ensino médio. Eu errei com ele naquela época.
— Mas por que ele disse que não te conhece?
— Porque errei tanto assim.
Depois de fechar a torneira, Alex se virou. Ajeitou o cabelo preto levemente molhado, jogou-o para trás e sorriu. Seus olhos penetrantes se curvaram de forma ambígua, formando um meio-termo que não era nem dócil nem ameaçador.
— Por isso que ficou tão abalado? Nunca te vi assim.
Matthew franziu a testa como se não estivesse muito convencido. Como a franja cobria toda a testa, não dava para ver bem sua expressão, mas dava para perceber que estava preocupado.
— É. Eu… errei muito.
Alex olhou para o chão por um momento, depois ergueu a cabeça e disse a Matthew:
— Não somos nada um para o outro, mas como tivemos um relacionamento, é melhor você cuidar dessa parte.
Não havia como descrever a sensação estranha de dizer que não tinha nada a ver com alguém de quem gostava e ainda gostava. O momento em que as memórias de trocar afeto com palavras de amor se transformam em vazio é realmente…
— Certo.
Matthew coçou o cabelo castanho com força. Alex sentiu um alívio ao vê-lo. Repetindo abrir e fechar as mãos pálidas, ele sorriu com esforço. Foi um sorriso um pouco mais parecido com um sorriso do que antes.
— Obrigado. Então, quando a mulher acordar, eu a entrevisto.
— Então eu levarei o homem para outro lugar. Parece que precisaremos solicitar proteção para ele também nos próximos dias, mas acho melhor não transferi-lo de local, ao contrário da mulher. Lembra? As condições do suspeito.
Matthew apontava que, devido ao método do crime, a maior condição para o suspeito era que ele precisava ser “da área médica”. Como o homem é amigo da beta que quase foi vítima e a salvou, há a possibilidade de ser excluído, mas as coisas são imprevisíveis. Ele estava dizendo que precisariam manter o homem sob vigilância até que tivessem certeza. Também era necessário protegê-lo, pois havia a possibilidade de o assassino voltar, já que foi seu primeiro fracasso.
— Mas ele tem uma aparência delicada, fui pesquisar e não é brincadeira. Aparentemente, pratica Krav Maga há mais de 10 anos. Parece mais forte que eu! É melhor tomar cuidado para não irritá-lo.
Com essa piada, Alex calou-se. Esboçou um sorriso sem graça e assentiu, dando tapinhas no ombro de Matthew. Saiu do banheiro primeiro.
Segundo Matthew, que ouviu de Nathan, a testemunha que quase foi vítima se chamava Amy Winings, tinha 27 anos depois do último aniversário, e era da mesma universidade que Nathan, embora com especialidades diferentes. A universidade era Oxford. Uma formação impressionante. E, naturalmente, ela era beta.
Como esta foi a primeira tentativa de sequestro de um beta desde o caso — pelo menos das que foram relatadas —, o Departamento de Polícia parecia esperar que este caso fosse ligado ao do Beta Tester.
Como havia muitas pessoas, Alex esperou por Amy Winings na cadeira onde Nathan estava sentado até ela acordar. Amy só foi abrir os olhos lentamente depois da meia-noite, provavelmente muito assustada. Além de ter desmaiado, não teve ferimentos ou lesões internas significativas.
Quando Amy abriu os olhos, Alex chamou a enfermeira primeiro. Para avisar Matthew também, ele saiu do quarto depois de confirmar que a enfermeira havia chegado.
Foi ao virar a esquina que Alex esbarrou em alguém. Pensando que ainda não estava com a cabeça no lugar, ele se afastou, surpreso, e ergueu a cabeça. A outra pessoa era mais alta que ele.
Ao levantar o olhar, havia verde.
Ah.
Alex congelou, parado. Nathan, de jaleco branco, o olhava com uma expressão vazia. Seus ombros, que pareciam um pouco mais estreitos que os seus, agora eram semelhantes. Talvez até mais largos. A altura também tinha uma diferença de cerca de dois dedos. O nível dos olhos era diferente. Era um sinal do tempo em que ele não havia pensado enquanto Nathan estava sentado.
Ao perceber isso, arrepios percorreram seu corpo. Uma tensão o dominou e um calafrio semelhante a um tremor percorreu seu corpo. Era estranhamente inacreditável. Nathan, mais alto que ele. Era inacreditável que para encontrar seus olhos completamente, ele precisasse apenas levantar um pouco a cabeça. Como se o tempo tivesse parado, Alex, tolamente, lembrou-se do passado.
— Vou crescer mais.
A voz calma e teimosa, enquanto erguia o braço mostrando o pulso branco que segurava o guarda-chuva, tocou seus ouvidos.
Ele realmente cresceu. Que incrível.
Quando seu coração estava prestes a se aquecer sozinho com essa coisa mágica, a voz de Nathan do “presente” chegou aos ouvidos de Alex.
— Desculpe.
Um pedido de desculpas cerimonioso, simplesmente por ter esbarrado em alguém, era extremamente seco. Tão seco que era frio. Nathan sempre falava assim com quem não era amigo.
— Ah, não.
Muito tolamente, apesar de ouvir Nathan falar com ele com toda a cortesia, Alex respondeu descontraidamente como nos velhos tempos. Naquele momento, Alex viu uma leve irritação passar pelo rosto de Nathan. Era mais desprezo do que irritação. Ao mesmo tempo, dois pensamentos vieram à mente.
Ele ainda se lembra… e… é claro que sim.
Ignorando a dor que ameaçava se espalhar, Alex rapidamente corrigiu o tom e se desculpou.
— Não foi nada. Eu não estava olhando para frente. Desculpe.
E recuou alguns passos.
— Sim.
Apenas concordando, Nathan nem deu mais um olhar para Alex e passou direto. Com um ar de desajeitado, Alex levantou a mão e tocou a própria bochecha. Naquele momento, ele não conseguia imaginar que expressão estava fazendo.
Fitando o local onde Nathan havia desaparecido, Alex finalmente se lembrou do que estava prestes a fazer. Certo. Ia avisar Matthew e o detetive Hayden. Seus passos, que estavam um pouco cambaleantes, recuperaram o equilíbrio e ele começou a andar pelo corredor.
Após o primeiro depoimento de Amy Winings, Alex passou a questão da equipe de proteção a testemunhas para Anna, que veio para o plantão. Devido à gravidade do caso, a inspetora Janice, que só ficava na mesa desde a promoção, apareceu no local no lugar do detetive Hayden. A hora já havia passado da meia-noite, mas isso não importava para eles. Todos se consolaram fracamente pelo fato de o hospital funcionar 24 horas.
Depois de solicitar à equipe de investigação noturna da sede que fizesse buscas e investigações nas proximidades do estacionamento do hospital e nos becos ao redor, Alex finalmente chegou em casa por volta das 3h da manhã. Tinha ficado acordado por quase um dia inteiro, já que estava no Departamento de Polícia desde as 8h. Não teria muito tempo para dormir.
De qualquer forma, não ia conseguir dormir.
Após o banho, Alex sentou na cama com o cabelo molhado escorrendo. Gotas de água caíam sobre a toalha pendurada em seu pescoço. A chuva, que parecia ter parado um pouco, batia forte na janela novamente. Parecia que a estação chuvosa começaria antes do inverno.
Olhando para isso, Alex de repente se lembrou de que adorava dias chuvosos. Uma lembrança que parecia tão distante e ao mesmo tempo nem tanto.
Levantou-se da cama e olhou ao redor do quarto. Como seu crédito e dinheiro não eram suficientes para alugar uma casa, ele alugou um apartamento no extremo de Peckham, em Southwark. Não era um bom lugar para se viver. Era também uma área com alta incidência de crimes.
Mesmo para a região, o aluguel ainda era um absurdo, mas era um estúdio de 20 metros quadrados com cozinha e banheiro, o que era razoável considerando Londres. Ele precisava pagar o aquecimento separadamente, então só ligava o radiador nos dias muito frios, e não havia nenhum tipo de manutenção, mas ainda assim era a casa de Alex.
No espaço retangular e austero, não havia nada além dos móveis essenciais para viver. Cama, escrivaninha, cadeira, alguns eletrodomésticos na cozinha e uma televisão.
Alex, que olhava pela sala, caminhou até a escrivaninha e abriu a gaveta. Seus olhos caíram sobre objetos antigos e desgastados do passado que ele havia escondido para não ver. Entre eles, olhando para uma pulseira de pulso surrada e sem graça, Alex de repente riu ao pensar em como era patético e miserável. Sabia que eram lixo. Coisas inúteis. Se deixadas ali, acabariam desbotando e se desfazendo.
Mesmo sabendo disso, Alex falhou em jogá-las fora hoje. Olhando para elas fixamente, lembrou do absurdo que aconteceu mais cedo. Nathan, que disse não o conhecer e depois de esbarrarem mostrou um leve desprezo, o olhava em sua lembrança. De repente, Alex percebeu uma coisa muito triste.
Mesmo naquele momento tão doloroso, ele sentia uma alegria inegável por esse reencontro.
Era justamente essa alegria que o entristecia.
Por volta das 10h, a equipe de investigação, incluindo a inspetora Janice que havia terminado de conversar com o chefe de polícia, se reuniu na sala de reuniões. Compartilharam brevemente informações sobre as testemunhas com base nos depoimentos obtidos com aqueles que não estavam no hospital. Matthew ficou encarregado de organizar os depoimentos. Quando Alex chegou ao Departamento de Polícia, soube de Matthew um outro fato sobre Nathan White.
— Na verdade, o depoimento de Nathan White continha mais informações sobre o criminoso do que o de Amy Winings. É médico mesmo, parece ser inteligente. Lembrou até dos mínimos detalhes. A própria vítima em potencial estava tão assustada que não se lembrou de muita coisa. Como ambos são betas, não havia como saber a característica do suspeito.
Era inevitável, pois as vítimas às vezes não se lembram da situação devido a mecanismos de autodefesa. A inspetora Janice, que ouvia o relatório, abriu a boca:
— Ele pode ter usado um neutralizador, então tudo bem.
O neutralizador, que quando borrifado esconde os feromônios por um tempo, é um item indispensável para criminosos. Depois de ouvir todo o briefing, a inspetora Janice tocou com o dedo as informações das duas testemunhas, posicionadas abaixo das fotos e informações das vítimas no quadro branco.
— Amy Winings é pesquisadora farmacêutica. Embora as ocupações das vítimas não se sobreponham, pode haver um ponto de conexão, então investigue isso. Concluir que é um crime de ódio contra a característica será o último recurso.
O atual prefeito de Londres era beta, e questões sobre características, juntamente com questões raciais, sempre foram um grande tópico em Londres. Se surgisse a menção de crime de ódio contra betas, e se o criminoso fosse, por acaso, ômega ou alfa e não beta, isso certamente causaria consequências políticas irreversíveis.
Parecia que os cidadãos já estavam assumindo que era um crime de ódio, devido à transformação de betas em ômegas, mas a polícia ainda não havia tomado uma posição.
Alex, que anotava o briefing em seu bloco, fixou o olhar na foto de Nathan no quadro. Mesmo sendo uma impressão em preto e branco de baixa qualidade, a foto dele olhando para frente com expressão vazia chamava a atenção. Anna, que percebeu o olhar de Alex, inclinou-se ligeiramente em sua direção e sussurrou:
— É um arraso, né? Ontem as policiais mulheres ficaram loucas por ele.
Alex desviou levemente o olhar para Anna. Anna era muito sociável, se dava bem com os novatos mais jovens e tinha uma rede de contatos ampla em outras equipes. Janice, que ouviu o sussurro, disse a Alex:
— Alex, agora vá até Nathan White. Matthew explicará. Anna, como está a transferência de Amy Winings?
O nome de Nathan ligado ao seu de repente fez Alex arregalar os olhos. Antes que pudesse dizer algo, Anna começou a dar as informações:
— Por enquanto, selecionamos uma casa segura em Slough, nos arredores. Depois que todas as informações necessárias forem obtidas, estamos discutindo se devemos transferi-la para o centro.
Enquanto Anna falava, Matthew levou Alex para fora da sala de reunião. Parecia que todos estavam mais animados com o surgimento da nova testemunha, e o lado de fora da sala de reunião estava agitado.
— O que quer dizer com isso? — Alex agarrou Matthew rapidamente e perguntou. Seu coração começou a bater rápido no momento em que ouviu o nome de Nathan. Uma emoção que não sabia se era tensão, medo ou alegria envolveu seu corpo.
— Ah, fui ver o psicopata ontem para ouvir os novos resultados da autópsia e acabei falando sobre Nathan White. Vocês se conhecem, não? O psicopata trabalhou brevemente naquele hospital e disse que o chefe do laboratório de características estima muito Nathan White. Aparentemente, normalmente só é possível participar de pesquisas depois de terminar a residência e acumular experiência, mas ele entrou porque é talentoso.
O laboratório de características certamente se referia ao instituto do Royal London Hospital, o mais prestigiado em Londres, no Reino Unido e na Europa. Na verdade, eles haviam solicitado ao laboratório a análise desse fenômeno de mutação de características, mas como todos estavam em uma conferência na Europa, só seria possível entrevistá-los na próxima semana.
Essa conferência europeia, uma espécie de reunião de pesquisa secreta, interrompe o contato com o exterior durante o período, então não havia como contatá-los a menos que fosse feita uma visita ou uma solicitação ao governo. Embora a situação fosse urgente, o chefe de polícia queria obter resultados do Instituto de Ciência Forense em primeiro lugar.
— Então vamos lá pedir conselhos. Ele mesmo concordou.
— …Ele foi completamente excluído da lista de suspeitos?
Alex acreditava que sim, mas ainda assim verificou.
— Entregou os sapatos e confirmou seu álibi: o horário do incidente e os horários das mortes das vítimas coincidiam com seu horário de trabalho no hospital. Confirmamos por câmeras e ele tinha colegas para testemunhar. Vamos consultá-lo primeiro e depois confirmar novamente quando a equipe de pesquisa voltar. Vamos, está tarde.
Antes que pudesse perguntar mais, Matthew fez um gesto e saiu da sede. Alex o seguiu relutantemente, lembrando de Nathan passando friamente por ele.
A casa de Nathan ficava em Shoreditch. Era uma área residencial luxuosa que ficava um pouco abaixo da High Street, onde novos prédios estavam surgindo. As casas eram recém-construídas ou reformadas. Matthew perdeu uns cinco minutos para estacionar perfeitamente e então desceu do carro.
— Não houve problemas? — Matthew perguntou à equipe de apoio, que estava fazendo ronda em roupas comuns.
— Não. É um bairro tranquilo.
Matthew assentiu, abriu o portão do jardim elegante com cerca de madeira branca e entrou. A casa não era grande, mas mais do que suficiente para uma pessoa. Quando Matthew tocou a campainha, de repente fez um som de surpresa.
— Droga.
— …Por quê?
Alex, que estava tão tenso que congelou, reagiu tardiamente.
— Tinha um arquivo para pegar com o psicopata, mas esqueci de passar no laboratório.
Alex olhou para a porta que ainda não havia sido aberta e rapidamente disse a Matthew:
— Eu vou lá.
— Como vou deixar meu carro com outra pessoa? — Matthew recusou, como se fosse algo inaceitável.
— Mas eu…
— Vou ali rapidinho, não tem problema. Pelo que vi, vocês não são de brigar, então segura o carro.
Naquele momento em que Matthew ia dizer que eles não eram para brigas, a porta se abriu. Os olhos de Matthew e Alex se voltaram simultaneamente para a entrada. Nathan, que abriu a porta, os observava. Talvez não estivesse trabalhando, pois Nathan vestia uma camisa branca e calça preta. Parecia cansado. Passando a mão pelo cabelo loiro, Nathan soltou a maçaneta.
— Entrem.
Com a voz profissional, Alex desviou o olhar. No entanto, apesar da tensão, seu coração começou a bater perigosamente rápido. Era o cheiro de Nathan. Não tinha mudado. Um cheiro que, embora pareça frio, quando sentido de perto, traz uma sensação calma e acolhedora.
— Vou pegar um resultado de autópsia rapidinho. Conversem com ele primeiro — Matthew empurrou Alex e se virou.
Os olhos verdes de Nathan examinaram Alex secamente.
— Sim.
E então virou as costas e entrou na casa. Alex, observando suas costas, também entrou silenciosamente, fechando a porta. Preocupado com os sapatos molhados de chuva, ele esfregou a sola no tapete da entrada e então observou o movimento de Nathan, sem fazer barulho.
Nathan, que já havia sido avisado, caminhou até a mesa de vidro na sala de estar onde estavam os papéis. Alex tentou ao máximo não encontrar seu olhar enquanto observava a casa. Era um hábito que desenvolveu depois de se tornar detetive. Os quadros caros na parede, a decoração limpa em tons de madeira, os móveis organizados refletiam a personalidade de Nathan. A casa era elegante e arrumada.
Alex sentiu os nove anos de ausência que não conseguia nem imaginar ao ver essas coisas. Era diferente do jovem Nathan com quem ele costumava entrar descontraidamente e jogar junto. Era uma pessoa de um outro mundo, em que Alex jamais entraria nem se revivesse.
Pensando assim, Alex sentiu um olhar e virou a cabeça. Seus olhos se encontraram. Nathan o observava. Sentiu como se o chão estivesse cedendo. Seu coração deu um pulo e Alex congelou. Suas mãos suaram.
— Quer um chá? — A pergunta de Nathan foi extremamente formal. Ele perguntou com uma voz seca. Alex respondeu com um atraso, com a garganta seca.
— …Sim.
— Sente-se.
Como se tivesse cumprido sua missão, Nathan se virou e foi para a cozinha. Alex, parado, observou Nathan colocar água na chaleira e pegar o chá no armário. Suas mãos, brancas ao pegar a xícara e o chá preto, eram bonitas como sempre. O único detalhe diferente era o braço esticado, pegando facilmente algo em um lugar alto sem precisar da ajuda de Alex.
Foi nesse momento que as lembranças do passado vieram à tona.
Lembrou-se da noite em que a lua estava particularmente grande, dos dias de verão em que andavam de mãos dadas, do que Nathan disse a Alex quando ele tirava a pipoca do micro-ondas.
— Vou garantir que você não possa fazer nada com essas suas mãos.
Não conseguiu se conter. Desde ontem, quando encontrou Nathan, o passado fluía constantemente em seu coração. Nathan, que tirava a pipoca e pegava o leite, que se aproximava como se fosse beijá-lo e colocava o canudo na boca, estava ali.
Ainda é tão vívido.
Para mim, tudo isso parece ontem.
Seus lábios se abriram lentamente. Um suspiro carregado de umidade escapou tristemente. Quando Nathan, após servir a água, pegou as xícaras e se virou, Alex desviou o olhar e caminhou até o sofá. Esforçando-se para não pensar em nada, ele fixou conscientemente o olhar na pilha de papéis sobre a mesa. O conteúdo não entrava.
Nathan se aproximou silenciosamente e colocou a xícara perto de onde Alex estava sentado. Pensando que deveria olhar os papéis, Alex acabou desviando o olhar para Nathan. Estendendo a mão lentamente para segurar a xícara, ele disse baixinho:
— Obrigado.
Mesmo com esse tom educado com o qual não conseguia se acostumar, Nathan apenas assentiu e foi direto ao assunto:
— Analisei os materiais que me enviaram. Como o laboratório inferiu, parece haver efeitos colaterais da transformação forçada da característica nos órgãos dos falecidos. Descobri algo que pode ser útil, mas explicarei tudo de uma vez quando o detetive Wayne voltar.
Alex tomou um gole do chá enquanto ouvia a explicação. A voz que apenas transmitia os fatos não era particularmente afiada, mas era seca o suficiente para perturbá-lo. Seu corpo, sua alma, lembravam vividamente de Nathan, mas o Nathan diante de seus olhos era como se não o conhecesse.
No entanto, ao beber o chá preto, Alex piscou.
O chá era doce. Embora não tivesse mencionado suas preferências, tinha um sabor forte como se tivesse colocado bastante açúcar. Como se tivesse colocado dois cubos de açúcar a mais do que a maioria das pessoas.
Por um momento, ele não conseguiu pensar em nada.
Apertou os dedos na xícara e tomou outro gole. Com o sabor doce se espalhando, uma suposição tola continuava surgindo. Será que Nathan ainda se lembra? Será que se lembrou de que ele gosta de doces e fez assim?
Alex, que estava esfregando a xícara ansiosamente, acabou colocando-a de volta. Seus cílios tremeram. Com olhos inquietos, ele olhou novamente para o perfil de Nathan. Nathan estava recostado no sofá, examinando os papéis.
Alex hesitou por mais alguns segundos. Juntando toda a coragem que podia naquele silêncio, ele chamou seu nome.
— Sr. Nathan.
Era uma forma estranha de tratamento. Ele deveria ter chamado pelo sobrenome, mas disse o nome. Então Nathan lentamente virou a cabeça.
— Se não se importa, quero dizer… — A frase estava uma bagunça. Com um tom hesitante, Alex sussurrou nervosamente.
Nathan olhou para ele e depois desviou o olhar para os papéis, como se o ignorasse. E então abriu a boca:
— Se está pensando em se desculpar, não precisa.
Alex calou-se. Seu corpo inteiro esfriou instantaneamente.
— Já que estamos falando assim, é melhor falarmos como estávamos.
Nathan colocou os papéis de lado e olhou para Alex novamente. Sua expressão era fria. Atingido no âmago, Alex mordeu o lábio com força. Seu coração batia rápido. Nenhuma das muitas frases que pensou ao longo de nove anos saiu de sua boca; ele simplesmente congelou.
— Vou dizer claramente. Não há necessidade de se desculpar.
Era um tom familiar, mas uma voz fria. Então se tornou uma voz estranha.
— Eu não conheço alguém como você. Nos encontramos por acaso por causa do caso.
Ele não conseguia nem pedir desculpas por ter falado assim.
— Não importa quais fossem suas circunstâncias no passado. Você decidiu me machucar. É quem você é. Suas ações te definem, e não me importo com suas intenções ocultas por trás delas. É o resultado de sua escolha.
Os olhos verdes, ligeiramente franzidos como se estivessem irritados, voltaram à impassibilidade após essas palavras. As coisas sobre David ou sobre as fotos de Nathan que Jessica Bundy mostrou aos outros foram guardadas antes mesmo de serem ditas. Embora não tivesse a intenção de falar imediatamente, se ele aceitasse as desculpas, as coisas que ele queria explicar se tornaram desnecessárias.
Seus lábios tremeram, e Alex levantou a mão. Esfregou a bochecha, baixou os olhos e disse calmamente:
— …Desculpa.
— Desculpa? — Não foi um tom de escárnio, mas uma pergunta calma. Alex respondeu baixinho:
— É. Desculpa.
— Então continue sentindo remorso. Até que queira. O fato de você se sentir mal não tem nada a ver comigo. É algo que você tem que lidar.
Durante toda a conversa, Nathan não perdeu a calma nem uma vez. A voz que explicava os fatos não se sobrepunha à de Nathan, que o encarava com raiva.
— Não tenho motivos para te perdoar ou te aceitar.
Após terminar, Nathan se levantou. Nesse momento, a campainha tocou. Alex viu Nathan, que nem sequer lhe deu um olhar, caminhar até a entrada. Lentamente, ele baixou o olhar para suas próprias mãos. Seu pulso esquerdo, onde costumava usar a pulseira, estava vazio. Tudo o que se via era uma mão branca e pálida, com cicatrizes brancas. De alguma forma, parecia solitário.
— Não houve problemas?
Matthew disse a Alex assim que saíram da casa de Nathan. O céu, onde a chuva havia parado por um momento, estava escuro mesmo passando da hora do almoço. A cada passo nas calçadas molhadas, ouvia-se um barulho de água. O vento soprava frio, penetrando no casaco. Era o típico vento de outono, que carregava uma umidade fria e tornava todos melancólicos.
— Sobre o quê?
— Você e aquele cara.
Parece que Matthew estava preocupado, já que ele se virou de forma decisiva. Alex sorriu pela primeira vez ao ouvir isso. Enquanto ria com um riso seco, Alex se lembrou de que no passado, o único motivo de seus sorrisos era Nathan. Foi triste.
— Está com culpa por ter me deixado sozinho de repente?
— Não, é que achei melhor que vocês dois tivessem tempo para conversar.
Então, do ponto de vista de Matthew, era uma espécie de consideração. Porque era melhor não haver conflito com um cidadão comum que estava envolvido na investigação.
— Entendo.
— Então, conseguiu alguma coisa?
— Não.
Alex mexeu no pulso onde costumava usar a pulseira e balançou a cabeça. Já tentou comprar um produto similar da mesma marca e usá-lo, mas só o deixou mais angustiado, então desde então seu pulso está sempre vazio. Apertando o pulso com força, Alex disse:
— Ele disse para não me desculpar.
— Cometeu um crime tão grave assim?
Alex não pôde responder a essa parte. Era algo que ele não conseguia imaginar. Afinal, apenas Nathan sabia o quanto ele gostava de Alex.
Após o término, Alex frequentemente pensava mudando de posição. Se Nathan tivesse dito aquelas palavras para ele, o quanto ele teria sofrido? Embora fosse apenas imaginação, era tão doloroso que, nos dias em que fazia essa suposição, Alex não conseguia fazer nada.
No entanto, sua reação ao aceitar o resultado era diferente. Mesmo se Nathan tivesse dito aquelas palavras para ele, Alex não teria desistido dele. Ele poderia sentir raiva de Nathan, mas não duraria muito. Pensou se teria se agarrado tolamente, mas logo concluiu que não seria capaz de fazer isso e teria apenas concordado. Porque não queria sobrecarregar Nathan.
Alex frequentemente se perguntava se isso era amor ou obsessão. Ou talvez adoração cega, ou apenas falta de amor.
Não é que ele não tenha tentado se relacionar com outras pessoas. Na faculdade, Ian o prendia à força e, depois que terminaram, ele passou cerca de dois anos sem fazer amigos, pois era difícil ter alguém por perto. Quando estava na ativa, havia um ômega que demonstrou um interesse imerecido e, depois que se tornou detetive, ele também recebeu pedidos de encontros de outras equipes com quem se relacionava. Betas também estavam incluídos.
E em todos esses momentos, Alex nunca sentiu nada por ninguém. Muitas pessoas continuaram a tratá-lo bem por bastante tempo, mesmo depois que ele recusou educadamente. Houve momentos em que ele se sentiu tão patético por ser assim, que naquela época, Alex…
Alex interrompeu a lembrança. Porque percebeu que sua vida, quando refletida, estava bastante destruída.
— É… — Pensando que se era um crime grave, então era, Alex respondeu assim. Ele não tinha o direito de distinguir a gravidade de um crime.
— Acho que você é uma boa pessoa — Matthew disse de repente.
— Não acredito que você tenha errado sem motivo.
— É estranho você, de todas as pessoas, dizer isso.
Matthew, mais do que qualquer um no departamento, apoiava a ideia da maldade humana. Embora não fosse o tipo de detetive que usava violência e coerção durante as investigações, ele tinha a tendência básica de não acreditar nas pessoas. Anna especulou que Matthew tinha um passado infeliz, mas a inspetora Janice comentou que ele era simplesmente assim.
— Vivemos em um mundo onde até criminosos são perdoados, certo? Embora o perdão não desejado pela vítima ou a imposição desse perdão sejam errados… mas será que não poderíamos mostrar um pouco de arrependimento e esforço? — Ignorando as palavras de Alex, Matthew terminou o que queria dizer.
Alex olhou para Matthew fixamente e assentiu. Nathan disse que não queria ouvir desculpas e que não tinha motivos para perdoá-lo. E disse para continuar se sentindo culpado se fosse o caso. Sinceramente, ele não fazia ideia do que fazer agora.
— Não sei o que fazer.
— Mostre que está se arrependendo.
— O que você faria?
— Eu? Eu não faria como você. Diria para odiar para sempre.
Matthew riu sem graça, como se tivesse ouvido algo engraçado, e bateu nas costas de Alex com força. As batidas meio doloridas balançaram sua visão. Olhando ao redor, eles haviam caminhado sem destino e chegado ao Old Spitalfields Market.
— Já que estamos aqui, vamos almoçar e depois voltamos.
— Vamos comprar para Anna e o detetive Hayden também?
— Não, eles devem se virar.
Recusando a sugestão friamente, Matthew levou Alex para dentro do mercado. A partir do momento em que começaram a comer um almoço tardio, seu coração ficou um pouco mais leve. Enquanto comia batatas fritas lentamente, Alex refletiu sobre a palavra de Matthew para mostrar arrependimento.
Depois daquele dia, Alex não viu Nathan por alguns dias. Agora que o tinha visto, ele não conseguia controlar a frequência com que Nathan vinha à mente, e Alex passou noites em claro. Era difícil ignorar também, já que o nome de Nathan era frequentemente mencionado na própria investigação.
Ouvir o nome de Nathan com tanta frequência o fazia querer vê-lo, mesmo não sendo o Nathan carinhoso que o fazia feliz a ponto de doer. Seria um apego às belas lembranças? Mesmo que encontrasse Nathan, a única emoção que obteria era desprezo, mas mesmo assim ele o queria ver.
Alex esperava que isso não fosse amor. Se fosse amor, parecia que estaria sendo extremamente indelicado com Nathan.
No entanto, na sexta-feira à tarde, a partir do momento em que foi ao hospital para ir ao laboratório de características, Alex se viu tenso e ao mesmo tempo ansioso. Uma expectativa clara estava escondida nisso. A expectativa de ver Nathan.
— Alex, por que está sentado aí!
Matthew gritou lá na frente. Ele mostrava abertamente repulsa ao olhar para Eli no banco do passageiro. Eli, com seu cabelo cinza-ardósia claro penteado para trás, estava bagunçando o banco do passageiro de Matthew com um sorriso no rosto. O arquivo pesado de Eli foi enfiado sobre os cigarros e papéis que Matthew guardava no porta-luvas do banco do passageiro, organizados por cor e tamanho.
— Calma, meu amor.
Um barítono agradável acalmou Matthew. Mas como se tivesse colocado um catalisador no fogo, o tom agradável excitou Matthew ainda mais.
— Louco.
Matthew, que tinha TOC, só deixava sentar ao seu lado pessoas que não sujavam o banco do passageiro, como Alex. Mas Eli era alguém que considerava provocar Matthew um hobby. Então, mesmo sabendo das tendências de Matthew, ele fazia essas coisas.
— Pessoas inteligentes sempre têm um lado louco. Como você, lindo Matthew.
Matthew arregalou os olhos e encarou Eli. A franja castanha cobria parte dos óculos, não deixando sua expressão furiosa totalmente visível, mas se Matthew fosse um alfa, feromônios agitados teriam se espalhado.
— O que está fazendo? Não vai? — Eli perguntou descaradamente.
Matthew lentamente virou a cabeça. Então, depois de ligar o som bem alto — era heavy metal que ninguém ali queria ouvir. Ele tinha esse CD só para irritar Eli — e ver o rosto de Eli empalidecer, ele finalmente partiu. Alex tapou os ouvidos silenciosamente e olhou pela janela.
Talvez por ser sexta-feira, Whitechapel estava mais animada que o normal. É uma área naturalmente movimentada, mas desde que a tentativa de sequestro da última vez saiu no noticiário, as pessoas, especialmente os betas, estavam evitando sair. Como hoje seria o dia em que sairia uma pista para reduzir o leque de suspeitos, todos no Departamento de Polícia estavam animados.
Enquanto Matthew estacionava, Alex desceu primeiro e foi a uma cafeteria perto do hospital. Enquanto comprava o café que Eli havia pedido, ele entrou, olhou o cardápio e comprou mais um além dos café com leite para Matthew e Eli. Ele mesmo não sabia qual era sua intenção.
Depois de colocar três café com leite no porta-copos, Alex entrou no hospital. Para ir ao laboratório, que ficava em um anexo, ele se dirigiu ao corredor de acesso. O ar calmo característico do hospital preenchia o corredor.
Ao entrar no anexo e subir as escadas, um jaleco branco entrou em seu campo de visão. Embora Nathan não fosse o único médico ali, Alex parou por reflexo. Pensando “não deve ser”, ele ergueu a cabeça e viu um cabelo loiro. Era realmente Nathan. Seus olhos se encontraram.
Nathan olhou para Alex sem expressão e depois se virou em direção à escada. Uma atitude pior do que a que teria com um paciente. Alex não conseguiu se mexer, paralisado. Ele apertou o porta-copos inconscientemente. Quando a alça de papel começou a cortar seus dedos, ele se recompôs e rapidamente seguiu Nathan. O som de seus passos ecoou no corredor.
— N-Nathan!
Sentindo como se seu coração fosse parar, Alex chamou por Nathan. Ele sabia. Mesmo sem ninguém dizer, ele sabia muito bem o quão patética era essa atitude. Apenas tentar se aproximar com algo assim era quase uma fraude.
Nathan parou por um momento ao ouvir seu chamado e virou a cabeça. Alex, com o rosto corado e visivelmente tenso, parou na sua frente. A altura, que exigia que ele olhasse para cima, parecia estranha hoje.
— Então, se não se importa… quer um café? É com leite.
Eu sei, é realmente patético.
Alex sussurrou para si mesmo. Ele tirou cuidadosamente um café com leite do porta-copos e o ofereceu, forçando a mão trêmula. Nathan olhou para o café com uma expressão fria e soltou uma breve resposta.
— Não bebo café.
Então se virou e continuou pelo corredor. Naturalmente, não esperou por uma resposta nem olhou para Alex.
— Desculpe.
Uma palavra dita tardiamente ecoou baixo no corredor. Alex recolheu o braço estendido sem graça. Lentamente, recolocou o café no porta-copos. Depois, com passos mais lentos do que antes, seguiu para a sala de reunião combinada.
Na enorme sala branca que os pesquisadores usavam como sala de reunião, havia um quadro com materiais afixados. Assim que Nathan entrou, Eli o cumprimentou.
— Nathan, quanto tempo.
— Sim.
Eli, que era cinco anos mais velho que Nathan, se aproximou com um sorriso e tentou colocar o braço em volta de seus ombros naturalmente, mas Nathan se esquivou naturalmente e entrou. Matthew, que observava isso, mandou um sorriso genuinamente sarcástico para Eli. Eli, como se nada o incomodasse, se aproximou de Alex.
— Vou beber bem. O que houve? Você também vai tomar café?
Alex, que não costumava beber café nem quando virava a noite, tinha comprado três, então Eli perguntou, achando estranho. Matthew olhou de relance para Alex com essa pergunta. Alex sorriu sem jeito.
— É.
Esperando que Nathan não tivesse ouvido essa conversa, Alex fechou a boca e se sentou atrás, longe do quadro da sala de reunião. Matthew veio e sentou ao seu lado.
— Então, explica, Nathan — Eli disse a Nathan, deixando de lado o sorriso.
Nathan olhou para ele sem expressão e lentamente começou a falar:
— O produto químico usado para transformar as vítimas em ômegas é chamado “Perin”. Naturalmente, não é um medicamento comercializado e apenas alguns poucos conhecem o nome oficial. É uma reprodução química do feromônio que apenas alfas dominantes podem produzir.
— Conseguimos estabilizá-lo? — Eli perguntou a Nathan, parecendo ter algum conhecimento.
— Não. Por isso há problemas. Embora esteja sendo discutido em laboratórios farmacêuticos para estudar doenças do órgão de feromônios ou efeitos colaterais relacionados à marcação, ainda há um longo caminho a percorrer.
— Isso é algo que outros médicos internistas aprendem? — Matthew perguntou enquanto ouvia.
Após um breve silêncio, Nathan balançou a cabeça.
— Geralmente, eles aprendem apenas sobre o órgão de feromônios e os feromônios, mas para saber mais é necessário se especializar em características. Além disso, cada um pesquisa uma característica diferente. Eu… — Nathan parou de falar. Matthew olhou para ele com estranheza, e Eli interveio:
— O Nathan aqui se interessa por características alfa. Na verdade, é um caso raro um médico beta se interessar por características. Betas têm dificuldade de acessar a parte sobre feromônios, não é?
— Então ele se interessa por alfas? — Matthew perguntou a Nathan com interesse.
Alex prendeu a respiração por um momento e olhou fixamente para Nathan. Uma imaginação sem sentido surgiu em sua mente. Nathan, que estava em silêncio, balançou a cabeça com uma expressão fria.
— Não. Eu odeio alfas.
Uma esperança indefinida murchou com a negação de Nathan antes mesmo de florescer.
— Não está falando de mim, por acaso? — Eli perguntou, apontando para si mesmo.
Nathan desviou silenciosamente o olhar e fitou Alex. Seus olhos verdes, que sempre lhe pareceram tão quentes, agora o encaravam friamente.
— Não sei.
A resposta era óbvia. Alex lentamente desviou o olhar.
— É inútil, Matthew. O Sr. Nathan aqui é um homem de muitos segredos — Eli zombou da tentativa de Matthew.
Matthew silenciosamente ajustou os óculos com o dedo do meio. Eli soltou uma risada de alegria. Matthew resmungou um xingamento baixinho. Embora fosse uma cena divertida, Alex não conseguiu sorrir.
— De qualquer forma, o feromônio de um alfa dominante é raro e, portanto, extremamente poderoso. Com exposição prolongada, pode até transformar um beta em ômega. Alguns dos poucos indivíduos com estigma são casos assim.
A resposta se tornou um pouco mais clara. Alex conhecia essa história. Há muito tempo, Nathan lhe contara que seu irmão se tornara ômega de repente. Se Nathan estuda características alfa, certamente é por isso. Ele quase se iludiu como um tolo.
A ilusão de que Nathan ainda poderia se importar um pouco com ele.
O sabor adocicado do chá preto que se espalhara veio à mente, e Alex fechou a boca com força. Ele pegou o café que nem estava bebendo e tomou um gole. O café com leite, nem um pouco doce, molhou sua língua de forma áspera. O sabor amargo era particularmente forte. Alex suspirou levemente e ergueu a cabeça novamente. Nathan não estava olhando para ele. Como se o encontro de olhos tivesse sido mentira.
— No entanto, quando se administra o medicamento em um curto período para mudar a característica, como neste caso, o corpo sofre um estresse extremo. Os órgãos podem necrosar e o equilíbrio hormonal pode ser perturbado. O momento em que as reações aparecem e os efeitos colaterais variam de pessoa para pessoa.
— Então, onde se obtém esse Perin?
Matthew continuou as perguntas com uma expressão desconfiada.
— Deve ser possível obtê-lo em hospitais ou laboratórios que tenham equipes de pesquisa de características. Dizem que também é comercializado no mercado negro.
O briefing continuou por um longo tempo. Alex pensou em fazer perguntas várias vezes, mas olhava para o rosto de Nathan e permanecia em silêncio. Foi a primeira vez que se sentiu tão inútil como hoje.
Eli disse que tinha mais coisas para contar e ficou. Alex e Matthew se levantaram para compartilhar as informações que acabaram de obter e procurar as rotas de distribuição do medicamento que Nathan mencionara.
Ao sair da sala de reunião, Alex passou por uma médica que entrava com o que parecia ser café. A mulher de cabelo ruivo curto se aproximou de Nathan e Eli com um sorriso e logo lhes ofereceu café. Eli recusou, mas Nathan aceitou. Alex observou a cena em silêncio e lentamente fechou a porta.
Desde o amanhecer, ele estava com muita febre. Não sabia se havia acordado com o som do trovão ou se o calor que umedecia o cobertor o havia despertado. Antes do amanhecer, Alex limpou a testa coberta de suor frio e se levantou.
Sentiu tontura. Uma sensação desagradável percorreu sua espinha e se espalhou por todo o corpo. Era uma sensação tão familiar que causava repulsa. Alex imediatamente saiu da cama e vasculhou a gaveta da escrivaninha. Com gestos apressados, abriu a gaveta com força e pegou o remédio. Girou a tampa do frasco branco e colocou um comprimido líquido na palma da mão.
A confusão de quando teve seu primeiro rut era uma lembrança distante; agora, o rut era algo natural para ele. Foi aos dezessete anos, na primeira e última vez, que enfrentou sozinho a luxúria que parecia cortar sua razão e esvaziar seu cérebro. Com medo do erro que cometeu naquele dia, Alex se preparava meticulosamente para o rut, sempre carregando vários supressores.
Dizem que se você se deitar com um ômega, o calor desagradável que persiste por todo o corpo desaparece como se fosse lavado, mas mesmo tendo essa solução fácil, Alex sempre tomava supressores.
A parte boa era que seu rut era regular e o ciclo era bastante longo. A cada três meses, aproximadamente, Alex sofria muito com o rut e não tinha escolha a não ser tirar folga. Os sintomas, que no início eram leves, tornaram-se bastante graves nos últimos anos.
Mesmo lendo que, mesmo sem ser com um ômega, fazer sexo era melhor do que não fazer, não tinha vontade de tentar. Alex não conseguia encontrar alguém de quem gostasse, e para ele, que tinha dificuldade até para dar as mãos a alguém de quem não gostava, ter um parceiro casual era quase impossível.
Devido à dependência de medicamentos por nove anos, Alex passava por seus ruts apenas com os supressores prescritos. A luxúria não satisfeita se transformava em calor que permanecia em seu corpo e frequentemente o atacava. A dor, como um forte resfriado, era causada por isso.
Limpando a testa coberta de suor frio, Alex caminhou até a cozinha perto da entrada. Encheu um copo com água da torneira e engoliu o comprimido. Em seguida, abriu a geladeira. Na pequena geladeira, quase não havia comida. Apenas água, chocolate com leite, ovos e pão de forma.
Ele não sabia quanto tempo o rut duraria se não tomasse o supressor, mas quando tomava, ficava doente por exatamente três dias. Como hoje, um dia antes do início, seu corpo ainda estava relativamente bem, então parecia melhor ir ao trabalho, falar com a inspetora Janice e depois fazer compras antes de voltar para casa.
Como não conseguia dormir, ficou deitado por duas horas e depois saiu de manhã cedo para pegar o ônibus. Na primavera ou no verão, quando o tempo está bom, ele podia andar de bicicleta, mas no outono isso era um problema. Sinceramente, o caro passe de ônibus, que custava mais de £ 100, também era um peso.
Sabia que era mesquinho, mas sua vida era sempre uma luta. Sempre faltava dinheiro e sempre havia coisas para pagar. E, ao mesmo tempo, não havia alegrias.
Um dos credores de seu pai era sua tia. A tia, dois anos mais velha que seu pai, ajudou bastante nos negócios, mas ele fugiu sem pagar o último empréstimo. Sua tia não mencionou esse fato, mas quando seu marido foi diagnosticado com câncer e se aposentou precocemente, ela entrou em contato com Alex.
Sua tia tinha uma filha da idade de Alex, e parece que o dinheiro que seu pai pegou emprestado era para a mensalidade da filha, Melda. Embora a maioria dos jovens britânicos pague sua própria mensalidade, eles são coreanos, então sua tia queria pagar a mensalidade da faculdade da filha. Sua tia disse que não queria ser um fardo e perguntou se Alex poderia quitar a dívida do pai.
Alex só pôde responder: “Vou ajudá-la”. Porque ele sabia que o dinheiro emprestado por seu pai havia sido todo gasto com ele.
Assim, as despesas do salário de Alex incluíam aluguel, transporte, sua própria mensalidade, o dinheiro que enviava mensalmente para sua mãe e também essa parcela. Embora o salário de detetive fosse suficiente para viver razoavelmente, havia uma razão para ele ainda viver assim.
— Alex, olá!
Ao entrar no Departamento de Polícia, quem ele encontrou primeiro foi Anna. Anna o cumprimentou animadamente e se aproximou.
— Olá, Anna.
— Parece que seu rut está chegando, né?
Anna, que também era alfa, percebeu seu estado imediatamente. Alex balançou o guarda-chuva para tirar a água e assentiu.
— É. O período chegou logo.
— Que saco o rut. É um saco arrumar um namorado para ficar junto nessa época, e os supressores me deixam mal. Como você aguenta só com supressores, senhor?
Anna, apenas um ano mais nova que Alex, era cheia de energia. Alex se preocupava com Anna às vezes, pensando que, uma vez que as pessoas que se tornam detetives acabam sendo consumidas pelo peso da profissão. Porque quando se perde uma certa positividade e brilho, é muito difícil recuperá-las.
— Dá para aguentar.
— Não diga isso, arrume um namorado ômega também. É muito bom. Fico triste vendo você sofrer com os efeitos colaterais dos supressores.
— Vou tentar.
Se fosse possível, já teria feito há muito tempo. Se pudesse largar essa teimosia, já estaria com alguém. Como um rato correndo em uma roda sem fim, Alex continuava andando em círculos. Ele não via uma maneira de acabar com isso. Ele também estava farto.
— Então você não vai poder participar da investigação em Redcliff esta semana, né?
— Redcliff, a máfia do Leste Europeu?
— Sim. O detetive Hayden descobriu ontem que um dos filmes ilegais produzidos lá tem um esquema parecido com o caso recente. Aparentemente ele encontrou algo sobre sequestrar pessoas comuns e filmar, mencionando transformação de características.
— Malditos.
— Pois é. Há muito lixo no mundo.
Alex assentiu sem expressão. O mais irritante é que há tantas pessoas que fazem essas coisas e não são pegas ou escapam.
A estrutura do caso mudou um pouco. Eles adicionaram a possibilidade de ser um crime organizado, ao invés de um criminoso solitário como haviam inferido. A mutilação dos corpos para dificultar a identificação, juntamente com os vestígios de estupro comuns a todas as vítimas, fortaleceram essa alegação. Como o método final de assassinato era a asfixia, surgiu a hipótese de que poderia ter sido usado como material para pornografia hardcore de pessoas com parafilias.
Além disso, se o problema era a máfia, o chefe de polícia parecia pensar que isso poderia ser melhor do que um crime de ódio de um assassino em série solitário. Londres sempre teve dores de cabeça com grupos mafiosos de vários países.
Após ter suas férias aprovadas pela inspetora Janice, Alex investigou com Matthew os locais onde o agente de transformação de características, “Perin”, era distribuído. Enquanto Matthew descobria todos os pontos de venda no mercado negro, Alex telefonava para hospitais e laboratórios. Como só em Londres havia mais de 20, ao ligar para cada um e organizar o histórico das chamadas, logo chegou a noite.
Seu corpo começava a ficar dolorido, parecia que o rut começaria à noite. Depois de tomar mais um supressor, Alex se preparou para sair. Do lado de fora, chovia como sempre. Ele olhou para a chuva caindo por um momento, distraído, e então se recompôs e saiu do Departamento de Polícia. Se não se apressasse, os supermercados fechariam.
Para também fazer pesquisas durante o período de folga forçada, ele levou sua pasta hoje. Pendurando a bolsa em um ombro, Alex fechou o zíper da jaqueta preta até o fim. Como ele veio com roupas confortáveis, ao contrário do normal, era mais fácil se movimentar. Seus tênis brancos velhos, em vez de sapatos de couro, rapidamente se encharcaram de chuva.
Ele foi ao supermercado Cooperative que ficava a uma curta caminhada do Departamento de Polícia e fez compras simples. Pegou batatas, cebola roxa, carne moída e alguns pratos congelados. Depois, sem pensar, entrou em outra seção. Pensou se deveria comprar detergente, mas decidiu que ainda não precisava.
Ao passar pela área onde os sucos ficavam à temperatura ambiente, Alex estava prestes a passar quando parou. Seu olhar lentamente se virou para o lado. Uma pequena caixa de suco de 250 ml chamou sua atenção. Era suco de lichia.
Ele é ridículo.
Alex realmente praguejou consigo mesmo. Estava tão cansado dessa teimosia que queria estrangular a si mesmo. Suspirando fundo, Alex balançou a cabeça e tentou sair dali. Mas seus passos não se moveram. Por favor. Ele fechou os olhos com força, como se implorasse.
No entanto, depois de alguns minutos, Alex ainda não conseguiu se afastar. Sua mão, que abriu e fechou, pegou o suco com força. Um pacote de seis unidades estava em suas mãos.
Com um sentimento de miséria, Alex fez as compras e foi para o ponto de ônibus para voltar para casa. Enquanto tentava colocar a sacola, que tinha ficado maior por causa do suco, na bolsa, seu telefone tocou. Franziu a testa e, segurando o guarda-chuva entre o ombro e a cabeça, pegou o celular. Era a inspetora Janice.
— Sim, inspetora.
— Alex, você pode passar no Royal London Hospital a caminho de casa? O diretor do laboratório voltou. Parece que tem mais informações. Você é o único disponível agora.
Alex olhou para o relógio. Eram 20h. Será que os médicos já estavam de saída? Ele não sabia sobre a rotina do local. Estava difícil distinguir se era medo ou expectativa de encontrar Nathan.
— Sim, entendi.
Como levaria muito tempo de ônibus, Alex decidiu pegar o metrô. Não se lembrava da última vez que o tinha usado.
A District Line, com pessoas usando roupas molhadas pela chuva, não era nem de longe agradável. Um ar úmido e abafado espalhava todos os tipos de odores.
Alex ficou na parte de trás do vagão por cerca de 20 minutos com a cabeça levemente baixada. Parecia estranho pensar que ele costumava amar esse espaço apertado e os dias de chuva. Ao mesmo tempo, era surpreendente. O fato de que a existência de uma única pessoa pode transformar a vida em inferno ou paraíso. E que ele mesmo afastou essa pessoa. Era uma escolha incompreensível até para ele.
Todos cometem erros. Ele sabe que não havia adultos para pedir conselhos, e que nessa idade qualquer um pode fazer escolhas erradas. Mas a mudança na vida causada por esse erro era pesada demais. Ele machucou a pessoa de quem mais gostava no mundo. A parte que Alex não conseguia suportar era essa. Ele não conseguia se perdoar.
Ele entrou no hospital, pelo qual já havia passado tantas vezes que estava familiarizado. Caminhou pelo corredor que levava ao anexo e subiu as escadas. Várias pessoas de jaleco branco passaram, mas ele não encontrou Nathan. Com passos mecânicos, ele parou no posto de segurança, mostrou sua identificação e seguiu para a sala do diretor do laboratório.
Chegou ao laboratório iluminado por uma luz branca intensa. Havia um espaço que parecia uma sala de pesquisa separado por paredes de vidro, mas o local onde as pessoas estavam era onde escrivaninhas e computadores estavam alinhados. Não tendo certeza se podia entrar, ele estava indeciso em frente à porta quando alguém falou com ele por trás.
— É o detetive do Departamento de Polícia?
Era uma voz suave, de alguém com experiência. Alex se virou. Um homem de meia-idade com cabelo castanho elegantemente penteado para trás o observava. As rugas nos cantos dos olhos, que se formavam com o sorriso, lhe davam uma aparência agradável. Nas palavras de Anna, era um “tio bonitão”.
— Sim.
— Bem-vindo. Sou Luther Milan, o diretor do laboratório.
O feromônio que se chocou indicava que o homem era alfa.
— Detetive Alex Yeon.
Depois de falar, Luther passou o cartão-chave na porta e entrou. Alex o seguiu.
— É uma pena que tenha coincidido com o período da conferência, tenho receio de ter causado transtornos.
— Não se preocupe. Nathan… — Alex parou de falar e rapidamente corrigiu: — O Sr. White nos ajudou muito.
Mas a rápida correção não pareceu adiantar muito.
— Oh, vocês se conhecem? — Luther perguntou com um sorriso.
— Um pouco.
Alex se contentou com isso.
— Que surpresa. Nathan não costuma ter pessoas por perto. Não sabia que ele tinha um amigo alfa como o detetive.
— Não somos amigos.
Ao dizer isso, Alex finalmente teve que admitir. Ele não era nada para Nathan agora. Nem o melhor amigo, muito menos um amante. Alex era uma má lembrança do passado de Nathan. Uma mancha suja que deveria ser apagada.
— É mesmo? Desculpe-me.
— Não, eu que peço desculpas. Se não se importa, pode me dizer por que me chamou?
— Claro. Bem, pelo visto Nathan já falou com os detetives sobre o Perin.
Dizendo isso, Luther passou rapidamente pelas escrivaninhas. Ao chegar na maior delas, ele vasculhou uma pilha de papéis e tirou um deles. Então o entregou a Alex.
— Temos conhecimento de todas as pesquisas sobre características realizadas no Reino Unido. Para que um medicamento relacionado a características seja aprovado, ele deve passar por testes aqui. No entanto, o Perin detectado neste caso é algo que nunca vimos. Isso significa que foi modificado. E pesquisas assim exigem muito dinheiro.
Alex anotou rapidamente as palavras de Luther em seu bloco. Franziu levemente a testa, fechou a boca e olhou para o que havia escrito. Se as palavras de Luther estivessem corretas, isso não era um crime que pudesse ser cometido sozinho. Se fosse um ato solitário, significava que o criminoso teria que ser muito rico.
— Obrigado.
— Espero que seja útil.
— Foi de grande ajuda.
Luther, com um sorriso nos olhos, fez um som “ah” e olhou para outro lugar.
— Nathan não está aqui agora, mas deve subir em breve. Quer encontrá-lo?
Alex balançou a cabeça. Quando estava prestes a sair, sentiu o peso da bolsa e hesitou. Luther inclinou a cabeça e olhou para Alex.
— Posso deixar algo aqui?
— Contanto que não seja uma bomba ou veneno.
Luther fez uma piada e voltou para sua mesa. Alex suspirou, passando a mão no rosto, e tirou o suco da bolsa. Tirou uma das seis unidades e colocou na mesa que Luther disse ser de Nathan.
De repente, se arrependeu. Devia ter comprado algo mais caro. Lembrando da casa de Nathan em Shoreditch, Alex tentou pegar o suco de volta.
— Acho que pode deixar.
Luther disse por trás. A mão que estava prestes a pegar o suco hesitou. Alex virou-se para Luther com um olhar surpreso.
— Ele gosta muito disso. Parece que você já sabia.
— …Sim.
A mão hesitante, após um momento de indecisão, colocou o suco na mesa. Luther sorriu como se aprovasse. Alex, ainda hesitante, agradeceu com um sorriso sem graça.
— Obrigado.
— Pode ir.
— Tenha uma boa noite.
Com essas palavras, Alex saiu dali como se estivesse fugindo. Dobrando cuidadosamente o papel que recebeu de Luther, ele saiu do laboratório e desceu as escadas. Seu coração, que batia forte, acalmou-se um pouco quando viu que não havia ninguém por perto. Ele pensou no que tinha feito. Algo sem sentido.
Mas o que ele deveria fazer?
Nathan naturalmente não aceitaria um presente caro, dada sua personalidade. Nathan nem bebeu o café que Alex ofereceu. Ele também não quer ouvir despedidas. Matthew disse para ele se esforçar ao máximo, mas Alex era cético. Ele não podia desfazer o que já havia feito.
Enquanto pensava nisso, Alex caminhou lentamente até o corredor que levava ao edifício principal. No momento em que ia atravessar a ponte com o teto de vidro arredondado.
— Alex Yeon.
Uma voz familiar o fez arregalar os olhos. Ele se virou rapidamente e Nathan estava lá. Seu cabelo loiro, que geralmente deixava a testa à mostra, estava desgrenhado hoje. O jaleco também estava aberto, como se ele tivesse vindo rápido. Seu rosto era frio. A expectativa momentânea se dissipou ao ver a expressão de Nathan. Em vez disso, a ansiedade aumentou.
Nathan raramente mostrava expressões. Estava como naquele dia em que Alex o machucou.
— O que você está fazendo?
Suas pernas longas fecharam a distância entre eles rapidamente. Em um instante, Nathan estava perto dele. Ele ergueu a mão branca, mostrando o suco de lichia que segurava.
— Você achou que eu ficaria feliz se viesse até aqui e deixasse uma coisa dessas?
Com essas palavras, Nathan abriu os dedos e deixou o suco cair no chão. O suco caiu com um som feio. O olhar de Alex o seguiu para baixo.
— Olhe para cima.
A voz fria de Nathan o fez voltar a si. Alex ergueu lentamente a cabeça e olhou para Nathan. Nos olhos verdes que encontraram os seus, havia um aborrecimento quase inflamado.
— Você ficou com uma maldita nostalgia por me ver de novo? Olhe bem, Alex Yeon.
Nathan se aproximou. Olhando para Alex, seus lábios se curvaram. Estavam tão perto que seus corpos quase se tocavam. Alex mordeu o lábio com força e franziu os olhos.
— Ainda pareço um ômega para você?
Ele não pôde dizer que não era porque Nathan parecia um ômega que ele gostava dele. Porque Alex negou suas próprias palavras com sua própria boca.
— …Não.
— Não sei qual é sua intenção, mas o melhor que você pode fazer por mim é isto.
Controlando lentamente sua raiva azul, Nathan olhou diretamente para Alex e disse:
— Não faça nada.
Cada sílaba era afiada como uma lâmina.
— Apague-me da sua vida.
Sua mão tremeu.
— Não apareça na minha frente. Esse é o seu melhor. Não apareça.
Sua voz ficou cada vez mais fria e seca, como uma máquina. Fitando aquele rosto que dizia fatos inegáveis, Alex soltou um longo suspiro fino. Apertando as mãos trêmulas, Alex falou após um breve silêncio. Com as sobrancelhas caídas, um rosto que não conseguia nem rir nem chorar, ele disse:
— Sim, entendi. Desculpa, Nathan.
— Não se desculpe. Não vale a pena.
— Assim o farei.
Quando Alex respondeu, Nathan suspirou com impaciência e recuou. Alex mordeu o lábio com força, ergueu a mão trêmula, esfregou a bochecha e, olhando para o suco, disse:
— Agora que provavelmente não virei mais ao hospital, se eu tiver que vir, mandarei o detetive Wayne.
Lentamente, ele se abaixou e pegou a caixa de suco amassada.
— Não vou aparecer na sua frente.
Nathan não respondeu, apenas olhou para Alex. Depois de olhar para o rosto branco e sem expressão, Alex ia pedir desculpas por hábito, mas lembrou que isso só irritava Nathan, então apenas se levantou. Nathan olhou para ele e depois se virou.
O jaleco branco esvoaçou e desapareceu lentamente de sua vista. Alex ficou parado, observando Nathan se afastar. Como se fosse a última vez. Depois que Nathan desapareceu, Alex saiu do corredor com passos nem rápidos nem lentos.
Segurando a caixa de suco na mão, Alex saiu do hospital. Parece que ele deixou o guarda-chuva em algum lugar, como um tolo. Provavelmente perto do laboratório, mas Alex decidiu se molhar na chuva. Se voltasse para pegar o guarda-chuva, certamente encontraria Nathan. Afinal, não seria o fim do mundo se se molhasse. Além disso, quando não estava em rut, Alex raramente ficava doente.
Enquanto a chuva fina lentamente o encharcava, Alex apenas andava olhando para frente, pensando consigo mesmo.
Está tudo bem.
Nathan deixou muito claro o que queria. Parado no ponto de ônibus, depois de ter vagado por um bom tempo, Alex olhou distraidamente para os carros na rua e para as pessoas do outro lado.
Ele ficou nove anos sem ver Nathan. Nunca mais o ver não seria nada de especial. Mesmo se continuassem a se ver, não seriam nada. Era uma relação irreparável. Alex estava se esforçando como um tolo para resolver um problema sem solução.
O ônibus chegou meia hora depois. No meio de pessoas reclamando com o motorista, Alex desceu no ponto perto de casa após mais 30 minutos. No caminho para casa, a chuva ficou mais forte, molhando dolorosamente seus cabelos. Quando abriu a porta do apartamento, estava completamente encharcado.
Gotas escorriam de sua testa e se acumulavam sobre as pálpebras. Enxugando o rosto molhado com o dorso da mão, Alex largou a bolsa. Pensou que deveria tirar a roupa e tomar banho, mas ficou encostado na entrada, olhando para suas mãos. A caixa de suco que ele segurou com força o caminho todo ainda estava lá.
Com as mãos frias, ele rasgou o canudo e o retirou da embalagem. Encaixou a ponta afiada no buraco prateado e redondo. Depois de furá-lo com um som seco, Alex levou o canudo lentamente aos lábios e chupou. O sabor doce que se espalhava em sua língua era do tipo que ele gostava, mas não o fazia se sentir bem.
Pensando bem, Alex nunca gostou do sabor forte de lichia. A razão pela qual ele bebia isso com frequência era simplesmente porque gostava de ver Nathan bebendo. O rosto de Nathan, que ficava relaxado quando bebia algo de que gostava. E depois, a mão branca que lhe oferecia, perguntando: “Quer experimentar?”
Eu gostaria que alguém me ensinasse.
Por favor, que alguém me ensinasse como te esquecer.
Ele não conseguiu terminar o suco. Alex colocou o suco que bebeu pela metade perto da entrada e entrou lentamente no banheiro. Depois de se lavar com água morna e se deitar, estava tão cansado que adormeceu sem sequer secar o cabelo.
Na manhã seguinte, Alex acordou com o rut, junto com uma gripe terrível. Não tinha remédio para gripe. Com a cabeça fervendo de febre, pensando nisso, ele puxou o cobertor até o rosto. Antes de adormecer novamente, Alex pensou que seria bom se simplesmente não acordasse.
↫─☫ Continua…
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✦ Tradução, revisão e Raws: Othello&Belladonna
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Sinopse: Obra do mesmo universo de Define Relationship
— Você disse que gostava de mim. Foi… tudo mentira?
— Como um Alpha poderia gostar de um Beta?
Entre uma mãe que o abandonou e um pai que o forçou a viver como Alpha, Alex cresceu sem nunca se apoiar em ninguém. O único que o confortava, independentemente do seu gênero secundário, era Nathan. Para proteger Nathan de um certo incidente, Alex o afasta com palavras cruéis.
Anos se passam, nove longos anos de penitência e saudade. Então, um dia, eles se reencontram na cena de um caso em que Nathan é a testemunha.
— Sr. Nathan, se não for incomodar… na verdade, se você não se importar, há algo que eu gostaria de dizer…
— Se você está pensando em se desculpar, não precisa se incomodar.
Alex fica ansioso ao redor de Nathan, desesperado para se desculpar, mas Nathan mantém tudo friamente dentro do estritamente profissional. Então, devido aos efeitos colaterais do uso prolongado de supressores, o desequilíbrio hormonal de Alex é exposto.
— Você poderia simplesmente dormir com uma Ômega. Por que está procurando outra coisa? Você gosta de Ômegas.
— É porque não estou saindo com nenhuma Ômega no momento. Acho que não consigo fazer isso com alguém que não conheço.
Alex tenta se esquivar e recusa, alegando que não quer. Nathan, que havia se afastado friamente, acaba voltando e faz uma oferta de ajuda.
— Você pode fazer sexo com alguém de quem não gosta. Não interprete demais. É só sexo.
— Você não precisa se forçar a fazer isso com alguém nojento como eu.
— Você não é nojento. Então pense direito e me responda.
Mesmo que Nathan diga que não quer se envolver, sua bondade o atravessa e Alex só quer chorar. “Será que eu… nunca serei perdoado por você? Você foi a minha única alegria neste mundo. Nathan, por favor… apenas uma vez… me ouça. Por que eu fiz o que fiz.”