Ler Mind The Gap – Capítulo 05 Online

❖ Capítulo 01 – Between You And Me
No trem de volta para Londres, Alex deixou uma mensagem para David no Facebook. O conteúdo era uma recusa clara, afirmando que encontraria Ian no sábado conforme o planejado para dizer a ele também que não daria certo.
David leu, mas não respondeu. Alex se perguntava se ele havia entendido, mas sentia um incômodo estranho no peito, o que o levava a verificar a janela de chat sempre que tinha um tempo livre. No entanto, até a chegada do sábado, David permaneceu em silêncio.
Ele começou a manter contato com Nathan com mais frequência do que antes. Às vezes Alex iniciava a conversa, outras vezes era Nathan. Originalmente, o rosto de Alex já costumava se iluminar ao trocar mensagens com Nathan, mas agora, apenas ver o nome dele o fazia sorrir. A imagem dele dizendo que o amava e o momento do beijo vinham naturalmente à mente todas as vezes.
Na verdade, Alex passou os últimos três dias relembrando os acontecimentos em Brighton. Ele não se cansava de pensar naquilo o dia inteiro; pelo contrário, a ansiedade boa só aumentava.
A figura de Nathan que ele sentira ser suspeita foi logo esquecida. Ao trocarem mensagens, Nathan respondia mais rápido do que antes, e como a frequência e o número de vezes aumentaram, Alex sentia a diferença e estava simplesmente feliz. Se ele recusasse Ian hoje e pedisse Nathan em namoro seriamente, o quanto as coisas mudariam?
— Será que vamos nos beijar de novo?
Ele corou intensamente até o pescoço apenas por pensar nisso sozinho. Com os lábios firmemente cerrados, ele desceu do ônibus.
David Mack havia deixado uma mensagem no Facebook no dia em que brigaram no vestiário. Ele reiterou a ameaça para que Alex terminasse tudo com Nathan e se confessasse adequadamente para Ian, dizendo para se encontrarem em Piccadilly Circus. David chamou aquilo unilateralmente de um encontro, mas Alex, conforme já havia enviado na mensagem, pretendia chegar, dar o fora em Ian e ir embora. Ele já havia dito a Nathan que iria à casa dele hoje.
Enquanto pensava se deveria levar flores ou algo do tipo, Alex parou o passo ao ver Ian parado ao lado da estação de metrô. Seu coração, que estava leve, tornou-se pesado em um instante. Independentemente de David tê-lo deixado furioso, Ian não havia feito nada de errado. Além disso, ele agora sabia quanta coragem era necessária para o ato de se confessar a alguém. Rejeitar uma pessoa assim era mais doloroso do que imaginava.
— Ah, olá.
Ian, que olhava para o chão, ergueu a cabeça e avistou Alex. Seu rosto pequeno e delicado sob os cabelos castanhos estava melancólico. Diante daquela expressão abatida, Alex sentiu-se culpado antecipadamente.
— Oi. Esperou muito?
— Não. Acabei de chegar também.
Após dizer isso, Ian se calou. Alex olhou ao redor e julgou que falar ali seria meio complicado. Felizmente, descendo um pouco de Piccadilly, havia um pequeno parque escondido.
— Quer caminhar?
Quando ele sugeriu com a voz rígida, Ian assentiu.
— Sim.
Os dois começaram a caminhar em silêncio. Enquanto esperavam o sinal no cruzamento, Alex sentiu os feromônios dele o tocando de forma arrepiante. Esse negócio de feromônios era mais estranho do que pensava. Antes que a mente pudesse processar algo, o corpo reagia primeiro; era como o reino do instinto, difícil de explicar. Sentindo-se desconfortável, Alex se afastou levemente. Naquele momento, Ian abriu a boca.
— Eu sei que você vai me recusar.
A voz era calma e serena. Era baixa, mas nítida. Alex olhou para o lado, sobressaltado. Ian olhou para Alex e depois virou o rosto. O sinal mudou. Ian começou a caminhar primeiro. Alex o seguiu com uma expressão atordoada.
— Mesmo assim, acho que foi melhor ter me confessado do que não ter dito nada.
Ian disse isso e baixou a cabeça. A fisionomia sombria se intensificou.
— Sinto muito.
— Não foi nada.
— Sinto muito mesmo.
No fim, terminou com essas palavras. O pedido de desculpas era inevitável. Caminhando na direção oposta às pessoas que passavam por eles, Ian continuou:
— Eu fui muito doente desde pequeno. Ficava doente com frequência até entrar no ensino fundamental. Disseram que não era uma doença grave, mas eu não tinha condições nem de sair correndo para brincar… Por isso meu irmão cuida muito de mim. Para mim, ele é um irmão muito bom.
Era a história de David Mack. Alex hesitou diante do relato inesperado.
— Pode parecer estranho para os outros, mas, por esse motivo, meu irmão tenta fazer tudo o que eu quero. Acho que foi por isso que ele agiu daquela forma com você, Alex.
Alex franziu o cenho. Ao lembrar do que David fizera com ele, a raiva realmente subia, mas ele permaneceu em silêncio pelo fato de haver uma história por trás.
— Mas…
A palavra seguinte soou sinistra.
— Mesmo que ele seja um bom irmão para mim… nem tudo o que ele faz é perdoável. Certo?
Ian parou de caminhar com um rosto ansioso. Alex conhecia aquele rosto. As pessoas sempre faziam aquela expressão antes de falar sobre uma desgraça. Sua mãe, ao comunicar a notícia do divórcio, também tinha aquele rosto. Alex abriu a boca seca e conseguiu dizer:
— O que houve, Ian?
— Ontem eu ouvi meu irmão conversando com alguém ao telefone.
Ian uniu as mãos firmemente, como se ele mesmo tivesse cometido um crime. A tristeza se espalhou pelo rosto juvenil.
— O nome do Alex apareceu algumas vezes e então… ele falou de uma pessoa chamada Nathan.
A voz de Ian começou a tremer gradualmente. Sua respiração estava desregulada, como se o choro estivesse prestes a transbordar. No momento em que ouviu o nome de Nathan, Alex ficou sem pensamentos por um instante. Um silêncio terrível pairou, como se o tempo tivesse parado. Somente alguns segundos depois Alex percebeu o barulho ao redor, que atingia seus tímpanos a ponto de doer. Ele sentiu calafrios.
— Meu irmão, às vezes, se envolve com pessoas que parecem más, e eu, hã, eu… acho que ele falou com esses amigos por telefone. Me-me desculpe. Às vezes, quando meu irmão fica com muita raiva, ele dá medo.
Ian se desculpou e acabou derramando lágrimas.
— Eu não sa-sabia que gostar do Alex resultaria nisso.
Sem conseguir sequer chorar alto, Ian limpava as bochechas. Alex sentiu piedade pelo jovem garoto à sua frente e ódio ao mesmo tempo. Mas que culpa Ian poderia ter?
A culpa, na verdade, era de Alex.
Suportando a tontura que parecia vir, Alex disse baixo:
— Ian, está tudo bem.
— Eu errei.
— Não é sua culpa. Ian, você poderia me passar o número do David?
Ele queria sair correndo e ir até Nathan agora mesmo, mas não podia deixar Ian abandonado daquele jeito. Ian engoliu o choro e assentiu. Tirando o celular com as mãos trêmulas, Ian o estendeu. Como Alex só se comunicava com David Mack pelo Facebook, ele precisava obter o número.
Alex conteve os palavrões e transferiu o número para o seu celular. Ao apertar o botão de chamada, Alex segurou o braço de Ian. Talvez por não ter controlado a força, Ian soltou um curto ganido de dor. Droga! Em meio ao sentimento de culpa que subia, Alex se desculpou rapidamente.
— Desculpe. Estou apressado… Ian, eu acho que preciso ir. Se estiver tudo bem, você poderia voltar de táxi?
— “Snif”, sim, está tudo bem.
Ian respondeu com firmeza. Voltando para a estrada onde passavam táxis, Alex estendeu a mão enquanto fazia a ligação ansiosamente. David não atendeu de primeira. Vendo a ligação cair, ele tentou novamente.
Nesse meio tempo, um táxi chegou. Alex, desta vez, ligou para Nathan. Nathan também não atendeu, como se quisesse deixá-lo completamente louco. Ele estava prestes a perder o juízo.
O pânico chegou. Alex abriu a porta e colocou Ian lá dentro. Ele não tinha tempo para dar atenção a Ian, que repetia pedidos de desculpas.
Mesmo ligando três vezes seguidas, Nathan não atendeu. Seu coração batia de forma inquieta. Ele esfregou as palmas das mãos, que começavam a suar frio, e ligou novamente para David. Simultaneamente, pensou na maneira mais rápida de chegar à casa de Nathan. Após hesitar, Alex decidiu pegar um táxi. Diferente de quando parou o táxi para Ian, desta vez o carro não veio rápido.
— Vai ficar tudo bem.
Ele teve um pensamento que não servia de consolo nenhum. Ele queria acreditar naquilo. Nunca havia sequer imaginado algo acontecendo com Nathan. Isso era um assunto entre David e Alex. Ele jamais poderia ter cogitado a hipótese de Nathan ser arrastado para o meio disso.
Enquanto pensava nisso, David atendeu a ligação pouco antes dela cair.
— O que você fez com o Nathan?
Ele aumentou o tom de voz imediatamente.
— Olá, Alex. Como vai você?
A voz que perguntava como ele estava soava despreocupada. O tom sereno do outro lado da linha o fez perder a cabeça.
— Responda.
— Que ríspido. Não vai me perguntar se estou bem?
— Eu disse para responder!
— Fale baixo, Alex. Está barulhento demais.
— Pare com as bobagens e responda o que eu perguntei.
— Eu disse para você ficar quieto.
A voz de David, que soava alegre, tornou-se gélida em um instante. Alex inspirou profundamente diante da mudança arrepiante na voz. Nesse meio tempo, o táxi parou. Alex ativou o modo mudo por um momento e informou o destino. Mesmo sendo apenas para dizer aquilo, sua voz estava embargada. Sua cabeça latejava como se tivesse levado um tapa. Era difícil controlar a fúria.
Em toda a sua vida, nunca sentira uma intenção assassina tão pura. Ele chegava a ter medo de que tamanha raiva estivesse escondida dentro de si. Se David estivesse diante dele, Alex o teria estrangulado de qualquer jeito. Sua mãe estava certa. Ele puxara ao pai. Do contrário, não conseguiria ter tais pensamentos.
— Se não falar direito, eu farei você se arrepender, custe o que custar.
— Hahaha, que ameaça assustadora. Sinto muito, mas você não terá cabeça para isso. Primeiro, deveria verificar o estado do seu amigo. Sério, Alex. Se tivesse seguido minhas ordens docilmente, nada disso teria acontecido. Quem você pensa que é para se rebelar?
Era uma lógica absurda. Alex decidiu não perder mais tempo. No momento em que ia desligar, David falou:
— Você sabia que fotos interessantes do seu amado amigo estão circulando? Parecem fotos que Jessica Bundy guardava para se divertir com os amigos, e desta vez eu também as consegui.
Assim que ele terminou de falar, o celular vibrou. Alex verificou rapidamente. Como David dissera, era uma foto. O cenário da foto parecia o crepúsculo do início da noite. Nela estava…
— Eu não sei se o inteligente Nathan White sabe que a Jessica Bundy anda mostrando isso para os amigos dela como se fosse algo para se gabar. Bem, sim. Como ele tem um visual excitante, você deve ter se enganado e pensado que ele era um ômega.
Não dava para ver bem o rosto do garoto na foto. Via-se o cabelo loiro caído sobre o rosto semicerrado na cama. O garoto, que parecia estar dormindo, estava nu. A parte inferior do corpo, que seguia abaixo da cintura fina, também estava exposta, sem nada cobrindo.
A náusea subiu. Alex tapou a boca. Parecia que sua respiração ia parar. Ele estava tão atordoado que nem conseguia pensar no que deveria fazer. Nathan? Isso era ele?
— Entre os meus amigos, sabe, há muitos que querem “dar carinho” para aquele desgraçado do Nathan. Quando mostrei isso para eles, disseram que queriam ser apresentados, então eu passei o endereço. O quão idiota é o Nathan White por ter namorado uma garota burra como a Jessica Bundy? Passando o endereço do ex-namorado sem pensar.
Para Alex, era impossível julgar. A foto não tinha boa resolução. O porte físico parecia ser mais magro que o de Nathan, mas ao mesmo tempo parecia similar.
No entanto, era semelhante o suficiente para que pessoas que não vissem Nathan com frequência acreditassem que era ele. Lágrimas se acumularam. A situação diante de seus olhos era terrível demais.
— Um deles até já foi rejeitado pelo Nathan White antes. Ele não gostou de ter sido recusado quando disse que o trataria com carinho como se fosse um ômega, então não foi perfeito?
— Eu vou denunciar à polícia.
Reprimindo a voz trêmula, Alex fechou a janela da foto.
— Então esta foto vai se espalhar para todos na escola.
Ouviu-se uma risada. Ele não ficou intimidado com a menção à polícia.
— Isso seria interessante à sua maneira. Imagina quando aparecerem garotos mostrando a foto para ele toda vez que ele passar. Se você quer ficar ao lado dele mesmo assim, vá em frente. E não é só isso? Vai aparecer até no feed do Facebook.
Era uma escuridão total. Com o rosto pálido, Alex passou a mão na testa. Quando uma situação sem solução surgiu, seu corpo não parava de tremer.
As palavras de David tinham uma influência perversa. Com uma única frase dele, Alex acabou imaginando o momento em que todos na escola vissem aquilo. Naquela imaginação de um instante, ele não conseguia sequer mensurar o quanto a vida de Nathan seria destruída. Não importa o quanto Nathan fosse forte, isso… isso ele não suportaria.
— Eu limpei as coisas para você.
“Por minha causa, vai acabar assim.”
— De qualquer forma, quando ele souber que o que aconteceu hoje foi por sua causa, ele não vai querer mais andar com você. Então, termine tudo definitivamente. Não fique nem perto dele. Me obedeça docilmente. Não há nada que você possa fazer.
— Por que… por que está fazendo isso comigo?
Com uma voz carregada de desespero, Alex perguntou sinceramente. Por que comigo? O que eu fiz de errado?
— Por que seria?
Como se sentisse pena, David soltou um suspiro.
— É porque um lixo insignificante como você, que não tem nada, não me obedeceu. Sem nem saber que eu estava tentando ajudar.
Nesse exato momento, o táxi parou. Sem sequer pensar em responder ao motorista que confirmava se o destino estava correto, Alex ouvia as palavras de David em transe.
— Conheça o seu lugar, Alex.
David cuspiu a última frase como uma sentença de morte e desligou o telefone.
Em um estado de quase semiconsciência, Alex pagou o táxi e saltou do carro. Como era muito mais rápido ele correr do que o táxi ficar ziguezagueando pelas ruelas, Alex começou a correr loucamente a partir da estação. Ele não se lembrava de ter corrido tanto na vida. Nem quando participava de partidas fora tão desesperado. Os olhares das pessoas ocasionalmente o atingiam enquanto ele corria apressado.
Alex percorreu em apenas 5 minutos uma distância que levaria 15 minutos a pé. Quando parou diante do beco que levava à casa de Nathan, o suor frio cobria todo o seu corpo. Seus vasos sanguíneos dilatados aqueciam todo o seu corpo como se fossem jorrar sangue. Parecia que seus pulmões iam explodir. Na estrada do bairro residencial que se estendia à sua frente, não se via nada. No silêncio, apenas o som do canto de um pássaro arranhava seus tímpanos de forma arrepiante.
Olhando ao redor, Alex deu um passo. O andar hesitante tornou-se apressado novamente. O número 17 estava cada vez mais perto. Conforme a casa de Nathan se aproximava, o ar lhe faltava.
No instante em que esfregou os olhos diante da ilusão de que as sombras oscilavam, ouviu passos vindos de algum lugar. Alex virou a cabeça lentamente para a direita. Alguém saiu de um beco escuro onde casas estreitas de dois andares estavam amontoadas. No momento em que os cabelos loiros foram revelados pela luz do sol, Alex abriu os lábios. Um cheiro metálico de sangue exalava fracamente.
Aquilo estava sujo nas mãos de Nathan.
Ele não conseguia chamar o nome. Alex observou o rosto de Nathan, que saíra do beco, com os olhos arregalados. No rosto branco de Nathan também havia respingos de sangue, e seu cabelo estava bagunçado e desalinhado como se tivesse sido esfregado no chão.
A camiseta e a calça jeans, sempre limpas, estavam sujas de poeira e terra. A gola da camiseta, esticada como se estivesse prestes a rasgar, deixava a clavícula à mostra. Tanto o pescoço quanto a clavícula tinham marcas. O sangue estava impregnado nas mãos e nas roupas de Nathan em tons de vermelho escuro. As manchas vermelhas, que começavam a secar, estavam ficando com cor de tijolo.
Um medo terrível o invadiu. Era impossível definir tal nível de pavor. Todo tipo de hipótese terrível turbilhonava em sua mente. Era a primeira vez que presenciava tal situação.
Alex abriu a boca para perguntar se ele estava bem, mas, por sentir que perguntar aquilo era em si um pecado, engoliu as palavras por um momento. Reprimindo a vontade de chorar, ele moveu as pernas trêmulas. Nathan estava parado, olhando para Alex. Sua expressão era a mesma de sempre. Por isso era mais assustador.
— Na-Nathan.
Ele recompôs como pôde a voz que ameaçava desmoronar miseravelmente. Não queria deixar Nathan ansioso.
— Você se ma-machucou muito?
Antes de perguntar por que ele estava ali ou o que havia acontecido, Alex estava prestes a enlouquecer de preocupação. Ele cerrou o punho com a mão trêmula. Deu mais um passo à frente. Nathan continuava a olhá-lo com um rosto sem expressão.
Atrás de Nathan, Alex avistou alguém caído no beco. Mesmo de relance, era um garoto que parecia ter um porte maior que o de Nathan. Embora estivesse escondido pela escuridão, seu estado não parecia bom. Ao mesmo tempo em que estava confuso, Alex sentiu um alívio terrível. Era melhor aquilo do que Nathan ter passado pelo pior.
No entanto, Alex logo percebeu o quão egoísta era aquele pensamento. Enquanto isso, Nathan também virou a cabeça lentamente para trás, para onde o olhar de Alex se dirigia. Após observar o oponente caído por alguns segundos, ele voltou a olhar para a frente vagarosamente. Então, abriu a boca.
— Chamei a polícia. Eles chegarão logo.
Era uma voz calma, como se nada tivesse acontecido.
— E-e a ambulância?
— Eu não me machuquei.
Nathan baixou o olhar. Vendo Nathan observar suas próprias mãos avermelhadas, Alex afundou em uma culpa profunda. Ele não estava em seu juízo perfeito desde o momento em que vira o sangue.
Mesmo Alex, que participava de jogos onde confrontos físicos eram frequentes, não se lembrava de ter visto aquele tipo de sangue. E agora, ninguém menos que Nathan passava por aquilo repentinamente. Ele não sabia como Nathan havia dominado o oponente ou o que havia acontecido, mas uma coisa era certa.
Ninguém menos que Alex havia arrastado Nathan para aquela situação.
— Eu sei que parece estranho perguntar isso agora.
Nathan, desviando o olhar de suas mãos, abriu a boca. Seus olhos verdes sob a luz do sol estavam vívidos. Era belo e, ao mesmo tempo, triste, contrastando com a situação. Ouviu-se a voz serena.
— O que era que você ia me dizer hoje?
Alex lembrou-se da noite em Brighton. A praia onde nuvens arroxeadas flutuavam e as ondas repetiam o movimento de avançar e recuar silenciosamente, e a noite em que se beijaram parados sobre o cascalho.
Nathan, dizendo que o amava, estava no centro daquela lembrança.
A imagem de si mesmo mencionando o sábado enquanto dava uma resposta idiota seguia a lembrança. O sábado com que Alex sonhara naquele dia era muito diferente do presente. Ele queria comprar flores bonitas na estação ou no mercado e entregá-las a Nathan. Queria dizer claramente que gostava dele há muito tempo. Queria dizer o quanto ele era lindo, que, não importa o que os outros dissessem, ele gostava dele sendo um beta, e que as coisas que ele fizera o deixaram feliz.
Ao final da confissão, você sorriria e me diria que sim…
Nós deveríamos ter nos tornado um casal que anda de mãos dadas e se beija como os outros.
— Ouvi coisas estranhas.
A realidade com a qual ele nunca sequer sonhara estava diante de seus olhos como uma mentira.
— Três alfas vieram. Eles disseram…
Eu queria fazer você, que é areia demais para o meu caminhão, mais feliz do que qualquer outra pessoa.
— Disseram que você pediu a eles. Que você queria encontrar um ômega, e que eu estava te incomodando. Por isso, você teria pedido para eles lidarem comigo no seu lugar.
O mundo dizia cruelmente que Alex Yeon não combinava com Nathan White.
— Eu não acredito no que os outros dizem.
Nathan se aproximou. Olhando para Nathan, que estava bem diante de seu nariz, Alex baixou os olhos. A expressão que estava desestabilizada e ansiosa como se fosse chorar desapareceu. Como se não pudesse sentir mais nada por causa da dor extrema, Alex não vacilou, diferentemente do habitual. As palavras de David passaram nitidamente por sua mente.
“Termine tudo definitivamente.”
Lembrando-se da foto terrível, das palavras de David dizendo que a mostraria para todos na escola sem hesitar e de que não havia nada que ele pudesse fazer, Alex encarou os olhos de Nathan. Com uma expressão que não chorava nem sorria, Alex observou Nathan calmamente.
— Por isso, explique você.
“Lembre-se, Alex Yeon.”
“Foi você quem o arrastou.”
— O que você pretendia dizer hoje?
“Se você não tivesse aceitado aquela condição, nada disso teria acontecido.”
A conclusão era clara. Ele não teria o que dizer mesmo se fosse chamado de perdedor. Alex era quem havia levado as coisas àquele ponto. Como David Mack dissera, se ele tivesse conhecido o seu lugar e tentado permanecer no seu time, ou melhor, se não tivesse aceitado um “bom” pedido sem nem conhecer as condições, algo assim não teria ocorrido.
Mesmo assim, como a existência de Nathan fora a melhor coisa que aconteceu na vida de Alex, o apego segurava seus calcanhares. O egoísmo levantou a cabeça, dizendo que não poderia deixá-lo ir assim.
E se ele explicasse a verdade? Nathan era racional, então não entenderia a situação dele? Ele dissera que o perdoaria mesmo que cometesse um erro, então certamente faria isso.
Mas esse desejo insignificante desapareceu sem deixar vestígios assim que o sangue nas mãos de Nathan voltou ao seu campo de visão. As manchas de sangue vermelho escuro, que não combinavam em nada com Nathan, despertaram o terror. Ele não tinha cabeça para julgamentos racionais. Naquele momento, o que ocupava a mente de Alex era apenas o fato de que ele havia machucado Nathan.
— Eu…
Ele abriu a boca. Nathan não acreditaria em qualquer mentira comum. Por isso, pelo menos hoje, ele precisava controlar sua expressão.
— O que eu pedi, está certo. Você também se lembra, não? De eu ter dito que havia um ômega com quem eu estava saindo.
Parecia que seu corpo inteiro estava paralisado.
— Eu achei que, se fosse bonito como você, não importaria se não fosse um ômega.
“Que tipo de expressão devo fazer aqui para que Nathan pare de gostar de mim?” Alex controlava a respiração sufocante sem emitir som enquanto movia os lábios. Esperando que a voz que tremia descontroladamente soasse, antes, como se fosse por causa da culpa.
— Mas não deu.
Soltando um som como uma risada seca, Alex franziu os olhos.
— Percebi que não dá se não for um ômega.
— Você disse que não era isso.
Nathan disse com a voz baixa e embargada. No entanto, ao contrário do tom que parecia superficialmente calmo, os olhos de Nathan, que eram sólidos em sua confiança, estavam sendo tingidos pela confusão. Ao ver a expressão impassível começar a se quebrar minimamente, Alex sentiu como se seu coração estivesse sendo rasgado.
— Você disse que não gostava de mim por eu parecer um ômega.
O modo de falar de Nathan era muito sereno, mas soava como se estivesse suplicando. Alex sentiu que ia desabar em choro. Engolindo algo quente que subia impetuosamente, Alex fechou a boca. Ele jamais poderia demonstrar.
— Eu pensei que fosse assim, mas me enganei.
— Você disse que me amava.
Nathan repetiu as mesmas palavras. Não parecia o Nathan. Nathan, que costumava apenas assentir silenciosamente, não importava o que fosse dito, estava falando muito hoje. Vendo os deslumbrantes olhos verdes se distorcerem, Alex esforçou-se, ao contrário, para sorrir. Para fazer Nathan perder o interesse.
— Por isso, pedi conselhos a outra pessoa.
Como sua voz tremeu, Alex interrompeu a fala brevemente.
— Eu perguntei o que deveria fazer para te recusar, e um deles…
Era mentira. Alex sequer conhecia os rostos dos três que foram atrás de Nathan.
— Parece que ele fez esse tipo de coisa. Sinto muito.
A voz que proferia o pedido de desculpas era irritantemente indiferente. Os lábios de Nathan se abriram levemente e se fecharam. Com a mão suja de sangue, Nathan agarrou o pulso de Alex. O pulso firmemente segurado doía a ponto de ser agonizante.
— Mesmo tendo dito que me amava.
Nathan perguntou aquilo mais uma vez. Seus olhos, que costumavam ser tranquilos, começaram a queimar assustadoramente com chamas azuis, diferentemente do normal. No momento em que viu aqueles olhos, Alex quis desabar. Engolindo o som da respiração que quase escapou, Alex tentou de tudo para não demonstrar nenhuma expressão.
— Aquilo…
Como se não fosse soltar Alex por nada, Nathan apertou o pulso dele. A força que apertava violentamente, como se fosse penetrar na carne, era dolorosa. Doía muito e, por isso, era triste.
— Foi tudo mentira?
O silêncio tingiu os arredores. Os olhos que queimavam de raiva encaravam Alex intensamente. Alex leu até mesmo um certo desespero além daqueles olhos. Se ele desistisse ali e contasse a verdade, Nathan acreditaria nele.
No entanto, Alex não tinha a coragem de Nathan. Mesmo que David fosse punido, ele não tinha coragem de ver Nathan ser ferido pela propagação da foto antes disso. O fato de Nathan sofrer por causa de uma escolha estúpida que ele fizera era mais assustador para Alex. Em vez de criar um pesadelo inesquecível para Nathan devido ao seu erro…
— Como um alfa poderia gostar de um beta?
Fazer Nathan odiar apenas um canalha errado… era mais fácil.
— Desculpe por ter feito você se enganar.
O som da viatura policial aproximando-se começou a ser ouvido gradualmente. Alex estremeceu levemente com o som da sirene que ecoava baixo.
Nathan permaneceu parado, encarando Alex diretamente. Como se desse uma oportunidade, como se esperasse que ele acrescentasse algo mais. Alex aguentou firmemente a confissão misturada ao choro que quase escapou de sua boca várias vezes. Sem conseguir sequer desviar o olhar.
O silêncio que pareceu uma eternidade terminou com o movimento de Nathan. Ele baixou a cabeça e encarou a faixa branca no pulso de Alex.
“Ah.” No momento em que seu coração parou, Nathan inseriu os dedos e puxou a faixa com força. O sangue manchou a faixa branca e, em seguida, ela foi removida raspando dolorosamente sua mão. Alex, que ia mover o corpo para impedi-lo, parou ao ver Nathan erguer a cabeça.
Nathan, que nunca ria alto, chorava ou se enfurecia, estava demonstrando emoções em todo o seu rosto pela primeira vez. Era uma raiva óbvia.
— Você é um hipócrita.
Ouviu-se um sussurro como se ele estivesse com os dentes cerrados. Nathan, que segurava a faixa, deixou-a cair no chão. Com olhos que ardiam de traição, Nathan levantou o pé e esmagou a faixa. Sob a ponta do tênis de lona com respingos de sangue, a faixa foi pisoteada miseravelmente. Alex esforçou-se para conter o corpo que queria avançar. Ele cerrou os dentes para segurar as lágrimas que ameaçavam transbordar. Ele queria desesperadamente se agachar como um idiota e recolher a faixa, mas conteve-se com todas as suas forças.
— Eu… você…
Nathan não terminou a frase. Como se tivesse silenciado subitamente a raiva que queimava de forma invisível, ele ficou quieto de repente.
Após tirar o pé da faixa, Nathan recuou. Aquele ímpeto afiado desmoronou o coração de Alex. Ele sentiu medo a ponto de tornar inútil sua resolução cruel. Era um resultado óbvio, mas ele não havia conseguido imaginar a reação de Nathan que acompanharia esse resultado óbvio. Diante de um pavor que não seria estranho se ele morresse naquele instante, Alex instintivamente estendeu a mão para segurar Nathan.
— Nathan, espera…!
Se Nathan passasse a odiá-lo, o fato de Nathan desaparecer de sua vida era algo absolutamente natural, mas ele não fora capaz de prever esse resultado.
— Não me toque.
A mão estendida apressadamente foi repelida por uma força bruta. Um som de atrito agudo ecoou, e a mão de Alex foi empurrada sem sequer conseguir tocar Nathan. Deixando os últimos meses em que andavam de mãos dadas alegremente soarem inúteis. A voz afiada ressoou nitidamente no ar.
— Porque é nojento.
A palavra cortante como uma lâmina dilacerou Alex. Sem sequer pensar em recolher a mão que formigava, Alex permaneceu parado, encarando Nathan.
“Nojento.”
Alex perdeu a fala diante da palavra que penetrou de forma cruelmente nítida.
Olhando para Alex com olhos gélidos, Nathan passou por ele e saiu completamente do beco. Ouviu-se o som de carros chegando e, em seguida, um burburinho.
Alex virou-se lentamente. Os policiais que desceram da viatura perguntaram algo a Nathan e passaram por Alex. Eles avistaram o garoto alto desmaiado no beco e passaram rapidamente por Alex de novo. Como se ele fosse um homem invisível. Nesse meio tempo, Nathan entrou primeiro na viatura policial.
Pessoas desceram da ambulância que viera junto e, enquanto socorriam, um dos policiais restantes aproximou-se de Alex. Ele perguntou sobre a situação, mas Alex não conseguiu responder de imediato. Isso porque as lágrimas quase saíram com atraso.
Com os olhos subitamente avermelhados, Alex abaixou o corpo. Ele apertou a faixa branca suja de terra que caíra no chão e a colocou no bolso. Ao policial que perguntou sobre a faixa, Alex disse que fora ele quem a deixara cair. Seguindo o policial que pediu para conversarem um pouco, Alex limpou o canto dos olhos com o dorso da mão.
Mesmo sabendo que era impossível, ele temia que Nathan visse aquela cena.
Desde o momento em que encarou a polícia, seu corpo inteiro tremeu. O policial, carregando o que parecia ser um papel reciclado para o relatório do incidente, perguntou a Alex sobre sua relação com Nathan e se ele testemunhara o ocorrido.
Encarando o cassetete na cintura do oficial, Alex respondeu às perguntas como pôde, com a voz que limpava os vestígios de choro. Após dizer que não presenciara a situação, veio a pergunta sobre sua relação com Nathan. No momento em que respondeu “amigo”, pareceu que o soluço que ele se esforçava para conter ia explodir. Pois agora os dois não eram mais amigos, nem nada além disso.
Questionado sobre por que estava ali, Alex hesitou por um momento. Se falasse adequadamente sobre aquela parte, teria que contar toda a verdade. No momento em que David fosse mencionado, as coisas se complicariam. Simultaneamente, era certo que, se David recebesse um contato, a foto de Nathan seria exposta. O David que ele conhecera no pouco tempo que conviveram parecia o tipo de cara capaz de fazer aquilo e muito mais.
Alex disse uma verdade ambígua. A verdade com o contexto oculto de que fora procurar Nathan e o encontrara saindo do beco.
O policial, que o observava em silêncio, perguntou mais uma vez se ele estava bem. Seu coração batia assustadoramente com o pensamento de que estava mentindo. Ele não tinha ideia de como as coisas terminariam. Embora quisesse que os outros dois que fugiram fossem pegos e que tudo fosse revelado, a foto continuava vindo à mente.
Ele respondeu a todas as perguntas formais que se seguiram. Após fornecer o número de contato, endereço e até informações dos responsáveis, Alex ouviu que, diferentemente de Nathan, ele deveria ir para casa por enquanto, em vez de ir à delegacia.
Com o coração ansioso, perguntou se Nathan estava bem, mas o policial informou apenas o básico: Nathan iria primeiro ao hospital, entraria em contato com os pais e então começariam as investigações. Além disso, não houve resposta para outras perguntas.
Alex permaneceu parado naquele local até que a polícia e a ambulância partissem totalmente. Nathan sentou-se dentro da viatura e não olhou para fora nem uma única vez.
Após observar a viatura por um longo tempo, Alex se moveu somente depois que todos os carros deixaram a cena. Os vizinhos que saíram para ver o que aconteceu também se retiraram silenciosamente. Ele sentia que os sussurros inaudíveis o criticavam.
No ônibus de volta para casa, Alex observou incessantemente a faixa de pulso suja de terra. Somente após passar um ponto de ônibus, Alex desceu. Chegou em casa, mas não conseguiu sequer pensar em trocar a roupa suada e entrou no quarto. Colocou a faixa sobre a escrivaninha. Logo ao lado do local onde enfileirara os supressores, ataduras e coisas do tipo que Nathan lhe dera.
E, ao ver aquilo, o choro explodiu.
Com os lábios firmemente cerrados, Alex ficou parado, olhando para os objetos e chorando. Os olhos verdes de Nathan, que o encaravam enquanto esmagava a faixa com o sapato, não paravam de aparecer. A voz que dizia que ele era nojento e as palavras que o chamavam de hipócrita giravam em sua cabeça.
As lágrimas caíam pesadamente, molhando suas bochechas e queixo em um instante. Esfregando os olhos avermelhados, Alex curvou o corpo. Entre os lábios entreabertos que continham o som, escapava uma respiração abafada.
A tristeza o invadiu, fazendo-o apertar e soltar a faixa repetidamente. Mesmo que tivesse sido tratado pior do que aquilo, ele não teria o que reclamar, mas o fato de Nathan ter deixado a faixa naquele estado era simplesmente triste.
De agora em diante, ele não poderia nem sequer dirigir a palavra a Nathan. Ao imaginar as inúmeras versões de Nathan que ele perderia, o arrependimento o atingiu. Ele queria correr agora mesmo e contar a verdade. Se não fizesse isso, sentia que ia morrer.
No entanto, havia a possibilidade de que David fizesse algo novamente se o visse com Nathan.
Pensou em alguém a quem pudesse pedir ajuda. Mas seu pai não o entenderia. Ele não tinha coragem de contar a Tina ou Jude. Pois, para quem quer que olhasse, fora Alex quem arrastara Nathan para aquilo. Ele tinha medo de ser criticado e ficar sozinho.
Alex chorou por um longo tempo, permanecendo ali. O choro só parou quando os cantos de seus olhos ficaram tão irritados e vermelhos que doíam. Ele não conseguia prever o amanhã. Incapaz de imaginar como seria um dia sem Nathan em sua vida, Alex caiu em um sono profundo, como se estivesse fugindo.
Foi dois dias depois que ele ouviu notícias de Nathan. Embora devesse ir ao treino por ser segunda-feira, Alex estava deitado na cama. Ver o rosto de David era um dos motivos para ele não saber o que faria. Se causasse problemas assim, além da expulsão, David poderia mexer com Nathan novamente.
Nada havia melhorado; tudo estava estagnado. Ele sentia aversão por si mesmo, por não ter nenhum poder, influência ou dinheiro. Era a primeira vez na vida que sua situação era tão miserável.
Enquanto olhava para fora deitado, o celular tocou. Alex, que estava prostrado, levantou-se relutantemente quando a vibração persistiu. Embora soubesse que era impossível, foi porque pensou que poderia ser Nathan. Ao verificar o celular, viu uma notificação de que um novo chat em grupo havia sido criado. Tina e Jude estavam lá.
— Alex, você ouviu o que aconteceu com o Nathan?
— O Nathan vai se transferir de escola…
Duas mensagens subiram consecutivamente. Alex levantou o corpo diante da palavra “transferência”.
— Transferência?
Seu coração parou.
— Sim, parece que aconteceu algo no sábado. O irmão do Nathan ligou para a gente para perguntar, você não recebeu contato? Aquele rapaz que disseram ser advogado.
— Você e o Nathan são os mais próximos. O que houve? Estou tão preocupada. O Nathan nem atende as ligações.
— Segundo o irmão dele, o Nathan não explicou direito o que houve, por isso ele ia perguntar para a gente.
Sua mente ficou em branco. Passando a mão no rosto, Alex percebeu que Nathan não contara a ninguém que ele estava envolvido. No momento em que pensou nisso, sentiu um sentimento indescritível. Parecia que a esperança subia e, simultaneamente, ele caía em um abismo.
— Não recebi contato.
Alex digitou uma frase lentamente.
— Sério? Por que será? Vamos logo ver o Nathan, Alex. O Nathan deve estar muito mal. O sonho dele era ser policial, mas parece que por causa desse incidente ele decidiu ir para a faculdade de medicina.
— Por isso eles vão se mudar para Oxford e ele vai refazer o Sixth Form na Cardiff College.
— Nós vamos lá amanhã. Alex, vamos juntos.
Ele não conseguia discernir quem dizia o quê. Ao ouvir que o desejo para o futuro dele era ser policial, Alex sentiu uma dor como se um prego tivesse sido cravado em seu peito. A culpa o invadiu. Ele não tinha noção de até que ponto havia destruído a vida de Nathan.
Ele não deveria ter sido ganancioso. Não deveria ter gostado dele só porque ele o tratava bem. Onde foi que tudo deu errado? No dia em que teve o rut na casa de Nathan? Não, ele simplesmente não deveria ter se aproximado de Nathan. Não deveria ter nem cumprimentado ou fingido conhecê-lo. Se Alex Yeon não existisse, Nathan viveria normalmente.
— Desculpem, acho que não poderei ir.
— O treino está muito corrido?
Sem saber que tipo de lixo Alex era, Jude se preocupou.
— Não.
Lembrou-se de ontem. Alex, desenhando calmamente a imagem de si mesmo proferindo palavras cruéis para Nathan, virou a cabeça lentamente para a escrivaninha. Os objetos enfileirados entraram em seu campo de visão.
Nathan só dera coisas a ele, mas Alex, em vez de retribuir, só lhe causara feridas. Uma pessoa tão terrível não deveria estar ao lado de Nathan. Embora fosse o único método que seu eu idiota conseguira bolar, no fim, achou que seria melhor assim.
Virando a cabeça novamente, Alex escreveu uma frase que encerrava definitivamente a relação entre ele e Nathan.
— Nós terminamos a amizade.
O chat parou por um momento. Alex continuou a escrever a frase seguinte com calma.
— É que eu cometi um erro grave com o Nathan.
Tina, Jude e Nathan eram todos boas pessoas. O único erro ali era Alex. Ele se intrometera em um grupo ao qual não deveria pertencer e se enganara achando que era um lugar onde poderia estar.
— O que aconteceu com o Nathan é por minha causa. Fui eu. Sinto muito.
— O que você quer dizer com isso?
— Eu fiz uma escolha errada e o Nathan acabou envolvido.
Após dizer aquilo, Alex despediu-se.
— Sinto muito. Fiquem bem.
Então, ele saiu do chat. Tanto Tina quanto Jude eram amigos de Nathan desde o início. Como Alex fizera algo errado com Nathan, que era amigo dos dois, ele não tinha o direito de continuar sendo amigo deles. Ignorando o celular que tocava, Alex levantou-se. Com movimentos mecânicos, tomou banho, trocou de roupa e saiu de casa.
Assim que chegou ao campo de treinamento, Alex caminhou direto para o gramado. Entre as pessoas que já haviam começado o treino, viu o rosto de David Mack. Ao vê-lo treinando com um rosto como se nada tivesse acontecido, a raiva subiu.
Ignorando o técnico que tentava dar uma bronca por ele ter aparecido tarde, dirigiu-se a David Mack. Ao ver Alex aparecer, ele abriu um sorriso largo.
— Você veio?
Até o cumprimento era descarado. Sem dar atenção ao técnico que gritava, Alex agarrou o braço dele. Talvez por causa do ímpeto de que o arrastaria mesmo que tivesse que derrubá-lo no chão, David seguiu Alex docilmente. Assim que entraram no prédio, Alex empurrou David com toda a sua força. Ele, que foi empurrado fortemente contra a parede, levantou-se cambaleando.
— Apague a foto.
— O cumprimento é agressivo logo cedo.
— Eu terminei tudo como você disse, então apague a foto.
Ele o segurou pelo colarinho. No entanto, David manteve o rosto sorridente.
— Não posso fazer isso acreditando apenas na sua palavra. Vou observar e, quando tiver certeza, eu apago.
— Quem mais tem a foto?
— Pergunte à Jessica Bundy. Mas eles nem vão fingir que ouvem o que alguém como você diz.
Alex desferiu um soco na parede, logo ao lado do rosto de David, que dizia palavras descaradas. Ele bufava, reprimindo o desejo de esmagar aquela cara.
— Sabe, eu sou uma pessoa que cumpre promessas, diferente de você.
Retirando o pulso com força, David o empurrou. Alex cambaleou por um momento, mas não recuou e o encarou fixamente.
— Namore o Ian docilmente até ele se cansar, e quando ele quiser te descartar, eu apago. O que a Jessica Bundy e os outros têm também. Não tenha ideias tolas. Diferente da polícia, que só pode fazer algo se houver uma denúncia, eu tenho vários tipos de amigos.
Diante da figura de David tagarelando em tom de consolo, algo finalmente explodiu dentro dele. O punho saiu antes que pudesse ser contido. O soco desferido com ferocidade atingiu a face de David. A sensação da carne sendo esmagada e do osso zigomático duro sobre o dorso da mão foi arrepiante. Era a primeira vez na vida que batia em alguém.
No momento em que a briga ia começar, o técnico, que viera logo atrás, correu até eles gritando. As pessoas afastaram Alex, que tentava atacar David novamente. David limpou o sangue do nariz com a mão e sorriu para ele.
— Você acha que as merdas que você faz são realmente para o bem do seu irmão?
Lutando para se soltar, Alex gritou para David.
— Mas é claro que sim.
— Não, não são. Você só quer brincar comigo. Escreve o que eu digo, eu não vou deixar barato!
— Mas Alex, o que você poderia fazer?
David aproximou-se de Alex, que estava com os dois braços segurados, e disse enquanto pressionava o peito dele com o indicador:
— Você não tem dinheiro nem poder.
David, que zombou intensamente, passou direto por Alex. Ele dizia bobagens aos colegas que perguntavam se ele estava bem, exibindo aquele seu sorriso polido habitual. Foi ridículo vê-lo saindo enquanto dizia habilmente que parecia ter havido um mal-entendido.
Alex repetiu uma risada baixa como um louco, então afastou com força os dois que o seguravam e ficou de pé firmemente. O técnico, com o rosto vermelho de raiva, o observava.
— O que você tem na cabeça, Alex Yeon! Depois de faltar aos treinos a semana toda, você chega e causa problemas? Você quer ou não quer jogar futebol?
Alex ficou parado, encarando o rosto do técnico. Embora fosse alguém que ele um dia quisera agradar, agora estava farto. Daquele lugar, daquela situação, daquelas pessoas que perseguiam apenas o que viam à frente, sem ninguém ao seu lado.
— Não quero.
A imagem de si mesmo sacrificando Nathan por causa do futebol, que ele nem sequer queria tanto assim, também era deplorável. Não havia mais motivo para jogar futebol. Alex não era descarado o suficiente para obter os benefícios que lhe eram dados depois de ter feito algo assim. Ele sabia que não era uma escolha sábia.
Mas e daí?
Eu já estraguei tudo mesmo.
— Eu vou sair.
O técnico franziu os olhos e o encarou. Sem esperar pela resposta, Alex virou-se e atravessou o corredor do prédio.
Deixando para trás o clube para o qual nunca mais voltaria, Alex retornou para casa. Ele esperou pelo anoitecer, preparado para levar uma surra severa de seu pai.
Mesmo à meia-noite, seu pai não apareceu. Não era raro ele não vir para casa, mas era a primeira vez que demorava tanto. Alex esperou pelo pai até o amanhecer e acabou dormindo no sofá.
No entanto, o pai não voltou no dia seguinte. Nem no outro dia, nem após o sol nascer e o dia mudar novamente…
E, antes do início do novo semestre em setembro, Alex finalmente percebeu que seu pai também o havia abandonado. As £300 que chegaram de seu pai, que não atendia o telefone há tempos, e uma única mensagem de desculpas diziam tudo.
O escritório do pai, que ele visitou tardiamente, estava fechado. Ao ver a palavra “Fechado” escrita, Alex perguntou às pessoas que ocupavam o mesmo prédio desde quando estava assim. Eles responderam que estava naquele estado há meses e, mesmo sem ele perguntar mais, contaram os boatos que ouviram. Parecia que, como não havia sinais de recuperação, ele passara o prédio e as máquinas por um preço baixo. Disseram também que ele tinha muitas dívidas.
Dois dias depois, pessoas que diziam ser bancários visitaram a casa. Uma mulher vestindo terno perguntou a Alex onde estavam seus pais.
Alex não conseguiu responder de imediato. Somente muito tempo depois, ele hesitou e forneceu o número de sua mãe. Ao passar o número da mãe para adultos estranhos, ele pensou se ela já não teria mudado de número. Sentia-se como se estivesse sozinho diante de uma onda gigante.
Os acontecimentos que ocorreram após esse dia foram todos nebulosos. Ele não sabia se era porque não suportaria se guardasse todas as coisas dolorosas, ou se era porque o tempo passava devagar demais. Apenas muitas coisas mudaram de uma vez.
A casa antiga onde Alex morava passou a ser propriedade de outra pessoa, e ele foi forçado a viver com sua mãe. Ele tornou-se um intruso na casa onde estavam o marido e o novo filho dela. O ar desconfortável que o cercava dizia tudo.
Sua mãe não sorria para ele. Ela deixou claro, desde o primeiro dia, que queria que ele saísse de casa assim que se tornasse adulto. Ironicamente, Alex pensava que queria ver o pai que o abandonara toda vez que aquilo acontecia. Afinal, seu pai fora o único que tentara mantê-lo ao seu lado.
O primeiro dia do último ano letivo foi barulhento desde a manhã. Os boatos se espalharam rápido, e na sala de Alex ouvia-se conversas sobre Nathan estar se transferindo.
Toda vez que ouvia o nome de Nathan, Alex prendia a respiração e fixava o olhar na escrivaninha. Alex, que há apenas um mês sabia das coisas de Nathan mais rápido do que qualquer um, agora recebia as notícias através da boca dos outros.
Corriam boatos de que fora legítima defesa excessiva, de que um garoto uma cabeça maior que Nathan tivera os dentes quebrados e recebera um atestado de 6 semanas de tratamento. Além disso, quando surgiu a conversa de que seu irmão advogado resolvera tudo sem problemas, chegaram a dizer que tinham inveja da sorte dele.
Diante daquelas palavras, Alex virou a cabeça e encarou o garoto que dissera ter inveja. Sentindo os feromônios que oscilavam ferozmente, o garoto, que era um ômega, desviou o olhar assustado e calou-se. Logo em seguida, ouviu-os sussurrando sobre Alex. Era sobre o fato de ele ter largado o futebol. Parecia que o boato já havia se espalhado.
Nathan apareceu na escola após o término do horário de almoço. Ouviu-se um burburinho e o corredor ficou barulhento. Talvez tivesse vindo para encontrar o professor e pegar suas coisas no armário, pois Nathan deixou a escola em menos de 30 minutos.
No momento em que o nome de Nathan foi ouvido no corredor, Alex virou a cabeça sem perceber. Ele viu Nathan caminhando além da porta dos fundos.
No entanto, Nathan não olhou para o lado onde Alex estava.
Foi o mesmo enquanto Nathan descia as escadas, atravessava o pátio com Tina e Jude e se despedia no portão da escola. Não eram as costas retas e organizadas que costumavam se virar para confortá-lo com doçura, mas sim costas resolutas que nem sequer cogitavam olhar para trás, para alguém chamado Alex Yeon.
Aquela foi a última imagem que Alex teve de Nathan.
Mesmo com o passar do tempo com a embalagem dos remédios que recebeu de Nathan amarelando, com os dois anos passados como um espantalho ao lado de Ian para apagar a foto, com a foto finalmente devolvida e apagada, e com a faixa que ele usava todos os dias sem falta laceando tanto que não podia mais ser usada Alex não pôde ver Nathan.
↫─☫ Continua…
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✦ Tradução, revisão e Raws: Othello&Belladonna
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Sinopse: Obra do mesmo universo de Define Relationship
— Você disse que gostava de mim. Foi… tudo mentira?
— Como um Alpha poderia gostar de um Beta?
Entre uma mãe que o abandonou e um pai que o forçou a viver como Alpha, Alex cresceu sem nunca se apoiar em ninguém. O único que o confortava, independentemente do seu gênero secundário, era Nathan. Para proteger Nathan de um certo incidente, Alex o afasta com palavras cruéis.
Anos se passam, nove longos anos de penitência e saudade. Então, um dia, eles se reencontram na cena de um caso em que Nathan é a testemunha.
— Sr. Nathan, se não for incomodar… na verdade, se você não se importar, há algo que eu gostaria de dizer…
— Se você está pensando em se desculpar, não precisa se incomodar.
Alex fica ansioso ao redor de Nathan, desesperado para se desculpar, mas Nathan mantém tudo friamente dentro do estritamente profissional. Então, devido aos efeitos colaterais do uso prolongado de supressores, o desequilíbrio hormonal de Alex é exposto.
— Você poderia simplesmente dormir com uma Ômega. Por que está procurando outra coisa? Você gosta de Ômegas.
— É porque não estou saindo com nenhuma Ômega no momento. Acho que não consigo fazer isso com alguém que não conheço.
Alex tenta se esquivar e recusa, alegando que não quer. Nathan, que havia se afastado friamente, acaba voltando e faz uma oferta de ajuda.
— Você pode fazer sexo com alguém de quem não gosta. Não interprete demais. É só sexo.
— Você não precisa se forçar a fazer isso com alguém nojento como eu.
— Você não é nojento. Então pense direito e me responda.
Mesmo que Nathan diga que não quer se envolver, sua bondade o atravessa e Alex só quer chorar. “Será que eu… nunca serei perdoado por você? Você foi a minha única alegria neste mundo. Nathan, por favor… apenas uma vez… me ouça. Por que eu fiz o que fiz.”