Ler Lamba-me se puder – Capítulo 43 Online

Modo Claro

***

‘O que foi aquilo mais cedo?’

Koy estava deitado encolhido em sua estreita cama, mergulhado em pensamentos. Antes, ele tinha atribuído aquele vai e vem de sentimentos à puberdade, mas agora que estava em casa, com a mente mais clara, tudo parecia estranho.

‘Se fosse mesmo puberdade, não era pra isso acontecer o tempo todo?’

Koy entrou num dilema sério. Ele já tinha aprendido na escola sobre as variações emocionais típicas da adolescência, e até havia sentido algo parecido na idade certa. Mas como o ambiente ao seu redor nunca permitiu que ele se expressasse, acabou engolindo tudo e as coisas simplesmente passaram. Era possível que agora aquilo estivesse vindo à tona… mas, se fosse isso mesmo, ainda restava uma dúvida.

‘Por que isso só acontece quando estou com o Ash?’

Por mais que pensasse, ele não conseguia encontrar uma resposta. Além disso, os sentimentos na puberdade costumam variar entre raiva, alegria e outros extremos. Mas o que ele sentia era só uma coisa: alegria, e só quando estava com Ashley.

‘É estranho. Por que eu estou assim?’

Koy se virou na cama com uma expressão séria. Até agora, só de lembrar de Ashley, conseguia sentir as orelhas se mexendo involuntariamente. Ele mesmo percebeu e rapidamente as segurou com as mãos.

‘É esse o problema. Isso aqui.’

Ele sabia que Ashley às vezes olhava fixamente para suas orelhas e sempre que isso acontecia, era porque elas estavam se mexendo – e quando Koy percebia, já era tarde demais: Ashley já estava sorrindo.

‘Pelo menos o Ash não tira sarro de mim por causa disso.’

Mas mesmo assim, o rosto de Koy esquentou, e ele apertou as duas orelhas com mais força.

‘Mas ainda é vergonhoso.’

Depois de ter falado tanto para Ashley o quanto gostava dele, agora ele se sentia envergonhado assim. Não era só o fato de suas orelhas se mexerem que o deixava assim, era devido ao medo de Ashley descobrir que elas reagiam tão intensamente a ele.

‘Por que isso agora?’

Ele mesmo achava estranho, mas não conseguia encontrar um motivo. Já tinha ouvido falar de adolescentes que descarregam seus sentimentos no período da puberdade em cima dos pais ou brigam com a família. Mas aquilo que ele sentia… não se encaixava em nada disso.

‘Será que é porque somos amigos?’

Koy ficou pensativo, ainda segurando as orelhas.

‘Será que estar com amigos sempre deixa as pessoas assim, felizes e animadas? Pensando bem, o Ash sempre sorri quando está com o pessoal do time de hóquei.’

‘Ah, claro. É isso. Nós somos amigos, por isso é natural.’

Mas mal havia chegado a essa conclusão, outra pergunta veio à tona:

‘Mas… amigos também ficam com o coração acelerado assim?’

Koy começou a vasculhar a memória, tentando lembrar se já tinha visto Ashley ou os outros agirem de forma envergonhada ou ficarem com as bochechas vermelhas entre eles. Mas… não vinha nada à cabeça.

‘Será que só eu sou assim?’

E a dúvida voltou ao ponto de partida.

‘Por que isso? Qual é o problema? Por que meu coração dispara desse jeito quando estou com o Ash?’

Desde que ficou mais próximo de Ashley, Koy ficava cada vez mais agitado só de olhar para ele. Era tão óbvio que até Ashley tinha rido algumas vezes, perguntando se ele gostava tanto assim dele. Mesmo que suas orelhas não estivessem se mexendo naquele momento, dava para perceber. Koy deixava sua felicidade transparecer com o corpo todo.

E todas as vezes, ele respondia sem hesitar:

— Gosto, sim.

Não havia nada para esconder, também não sentia vergonha. Sempre dizia com firmeza que gostava do Ashley. Mas por que agora, só de lembrar dessa frase, seu coração parecia prestes a explodir e a respiração ficava pesada?

Se Ashley perguntasse agora de novo, se ele ainda gostava dele… Koy achava que não conseguiria responder como antes. . Só de imaginar, seu peito já acelerava e seu corpo todo formigava.

— Aaah!

Ele soltou um grito abafado, enfiando a cabeça nos braços e se encolhendo o máximo que podia. E nesse instante, o rosto de Ashley surgiu claro e vívido em sua mente.

⟨Koy. Eu gosto de você.⟩

—Ahhh.

O rosto de Koy esquentou de repente, e a pele começou a formigar. Na memória, ele já tinha voltado para aquela cena de antes.

Na copa, os dois estavam frente a frente. Os olhos límpidos e azuis-acinzentados estavam fixos nele, Koy segurava a respiração, esperando o que ele diria. Ashley acariciou sua bochecha com ternura e, com um sorriso suave, sussurrou:

“Namora comigo?”

—Ele nunca disse isso!

Koy gritou e bateu com força na cama. Ao mesmo tempo, o barulho alto da estrutura barata de metal debaixo do colchão o fez parar às pressas. Ele esfregou freneticamente o local onde tinha batido.

‘Isso é estranho,  muito estranho.’

Mesmo sendo a primeira vez que tinha um amigo, ele conseguia perceber. Era um sentimento estranho demais. Será que era normal ter esse tipo de sentimento entre amigos? E ainda por cima esse “namora comigo”, que história era essa? Isso é algo que se diz só para alguém que vai ser sua namorada.

— Nós dois somos homens.

Koy disse em voz alta. O coração, que estava disparado, começou a desacelerar pouco a pouco. O som da própria voz o trouxe de volta à realidade. ‘É, e além disso…’ Ele murmurou baixinho:

— O Ash gosta de outra pessoa.

Relaxando os ombros, ele deitou a cabeça no colchão. A agitação no peito desapareceu sem deixar rastro, e seu humor foi parar no chão. Koy continuou pensando.

‘Depois que ele se declarar, provavelmente não vai ter mais tempo pra mim.’

Pensar nisso o fez se sentir muito sozinho. De repente, veio à mente a imagem de Ashley junto com Ariel.

‘Naquela hora, por que será que eu saí correndo daquele jeito?’

Mesmo tendo voltado ao ponto de partida, seu coração parecia ainda mais pesado. Virando-se para o outro lado, Koy mergulhou de novo em seus pensamentos. Sozinho, ele ia da alegria à tristeza, passando por todas as emoções possíveis, mas nenhuma resposta veio. A única coisa que ele sabia com certeza era: O motivo de se sentir assim era Ashley.

Se esse sentimento não era algo que se sentia entre amigos… então o que era?

Ele não fazia ideia do que se passava em seu próprio coração. Mas também não tinha com quem conversar sobre isso. Afinal, Ashley era seu primeiro e único amigo. Não dava para se abrir justamente com ele.

‘E se ele achar  isso nojento e passar a me odiar?’

Se esses sentimentos não fossem normais, Ashley poderia desprezá-lo. Koy não suportaria ser rejeitado por ele. ‘Não, isso não pode acontecer.’ Mas para evitar isso, precisava primeiro entender o que estava sentindo.

E para alguém como Koy – sem outros amigos e sem adultos por perto em quem pudesse confiar – havia um sistema muito útil nesses momentos. Ele se sentou de repente e pegou o celular.

No site que os alunos usavam principalmente para fazer trabalhos, havia de tudo: perguntas esperando respostas, desabafos, problemas de relacionamento, pais se divorciando… um monte de dilemas diversos. E naquele momento, era exatamente o tipo de lugar que Koy precisava.

Assim que entrou no site, ele ficou um tempo parado, pensando no que escrever antes de postar a pergunta.

[Olá. Eu sou Konnor Niles, estudo na Buffalo High School…]

Koy escreveu, mas logo se deu conta da burrice que estava fazendo, arregalou os olhos e apagou tudo depressa, em pânico.

‘Que loucura é essa? Porque não colocar logo um cartaz no pátio da escola dizendo: “Oi, eu sou o Konnor Niles, e meu coração dispara toda vez que vejo o Ashley Miller!”’

‘Ainda bem que eu sou pobre.’

Koy passou a mão no peito, que ainda pulsava acelerado. Se tivesse dinheiro, talvez tivesse mesmo feito uma loucura dessas. Pela primeira vez, ele se sentiu grato por ser um pobretão.

— Ufa…

Inspirando fundo, começou a escrever novamente com todo o cuidado. E, por algum motivo, aquilo parecia muito mais difícil do que qualquer redação ou tarefa escolar que já tivesse feito. Era só uma postagem num fórum, mas ainda assim parecia quase impossível.

Koy reescreveu inúmeras vezes. Leu em voz alta, apagou, corrigiu e reescreveu mais algumas palavras e só depois de muitos ajustes, finalmente conseguiu finalizar o texto.

[Sou um estudante do ensino médio. Recentemente, fiz amizade com um garoto que é realmente incrível. Ele é sempre gentil e me trata muito bem. Além disso, é o capitão do time de hóquei no gelo e é incrivelmente bonito. É o mais popular da escola, mas nunca age como se fosse melhor que os outros. Também é muito inteligente; faz aulas em nível AP em todas as matérias e tirou a pontuação máxima no vestibular.

Eu realmente gosto muito dele. Mas ultimamente, toda vez que olho para ele, meu coração começa a bater forte e meu rosto fica quente. Não acho que seja só por causa da puberdade… então por que estou me sentindo assim? É possível reagir assim só por causa de um amigo? Essa é a primeira vez que faço amizade com alguém assim, então eu não sei muito bem como lidar com isso. Alguém poderia me ajudar?]

— Vamos tirar a parte do “capitão do time de hóquei no gelo”.

Koy leu o texto em voz alta e estava prestes a corrigir quando tocou na tela.

[Postado]

— O quê…? O quê?! — Ele arregalou os olhos, completamente surpreso. — Ah, não!

Assim que percebeu o que havia feito, deixou escapar um grito abafado.

— E-eu quis dizer… editar! Não, apagar! Apagar!

Desesperado, Koy olhou em volta procurando o botão. Clicou rápido em “excluir” e digitou a senha…

[Senha incorreta]

— Q-quê? Como assim?

Em pânico, ele tentou de novo, dessa vez com mais calma, alternando entre números e letras. Seus dedos tremiam, e a respiração ficou ofegante.

[Senha incorreta]

— Aaaah!

No fim, levou as mãos à cabeça e soltou um grito.

‘O que eu faço, o que eu faço?!’

Quase chorando, ele continuou tentando todas as senhas que vinham à mente, enquanto o número de visualizações subia sem parar.

 

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Continua…

 

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Em breve será disponibilizado uma sinopse!
Nome alternativo: Kiss Me If You Can

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